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Movimento Negro Política

Pré-Candidatura do Movimento Negro e Periférico é confirmada em SP

 

Por Douglas Belchior

Fotos Thiago Fernandes

 

O Movimento Negro Uneafro Brasil, com apoio de diversos grupos e coletivos periféricos, definiu nesta última terça feira, dia 4 de fevereiro, sua a pré candidatura coletiva para disputa de uma vaga na Câmara de Vereadores. A iniciativa é composta por Elaine Mineiro, Debora Dias e Júlio César.

O encontro fechado, que reuniu cerca de 50 lideranças de coletivos e movimentos de várias regiões de SP, reafirmou o compromisso de defesa, como em outras campanhas, de um projeto político do povo negro para São Paulo.

 

CANDIDATURA DO MOVIMENTO NEGRO E PERIFERIAS.

O movimento tem apresentado candidaturas nas últimas 3 eleições, sempre com caráter essencialmente coletivas e enraizadas nos guetos, do seio dos movimentos de luta negra e periférica. E isso não mudou. Desta vez, com estética renovada em formato coletivo, reuniram 3 lideranças de base, formadas no cotidiano das lutas, com trajetórias, história e serviços prestados. Não são um ajuntamento de pessoas bonitinhas que resolveram, do nada, fazer política. Tampouco são pessoas negras tiradas de uma cartola mágica para cumprir tabela ou prestar submisso serviços à branquitude, sejam de esquerda ou direita. São quadros que se dedicarão à luta contra o racismo e ao fortalecimento do movimento negro. A candidatura deve acontecer pelo Partido Socialismo e Liberdade.

Ainda há alguma chance de esta chapa receber uma ou duas outras representações de movimentos com os quais o grupo está dialogando, mas desde já, o bloco está na rua.

 

 

 

EIXOS DA POLÍTICA

Educação, serviços de assistência social, políticas de cultura nas periferias, saúde, segurança pública municipal e genocídio, direitos de crianças e adolescentes, defesa das religiões de matriz africana, mulheres negras e direitos Lgbtqi+ são alguns dos eixos de atuação desta pré candidatura e futuro mandato.

 

AGENDA:

No próximo dia 3 de Março será realizada a segunda reunião ampliada de organização, fechada para convidados.

 

No dia 21 de Março, sábado a noite (Dia Internacional contra a Discriminação Racial), será promovido o lançamento oficial da pré candidatura que vai ajudar a construir uma #SãoPauloSemRacismo!

 

 

NOSSAS CANDIDATAS:

 

Elaine Mineiro é mãe, tem 35 anos, é geógrafa, arte educadora e articuladora cultural. É coordenadora de núcleo de base da Uneafro Brasil no Jd. Pantanal, bairro de São Miguel Paulista. Atua na Comunidade do Jongo dos Guaianás e no grupo Samba das Pretas, na Cidade Tiradentes, na região leste de SP, onde vive.

 

Debora Dias tem 22 anos e foi aluna de cursinhos da UNEafro. Hoje é estudante de Ciências Socias na Universidade Federal de São Paulo e Coordenadora geral do núcleo de base Ilda Martins de Souza e Angela Davis, na Fazenda da Juta, Na ZL. Trabalha como Orientadora Sócioeducativa em um serviço de fortalecimento de vinculo CCA também na Fazenda da Juta, é artísta e produtora da Coletiva Emana, que promove arte e formação feminista interseccional em Sapopemba, bairro onde mora.

 

Júlio Cesar de Andrade, 33 anos, é morador de Guaianases, zona leste de SP. É Assistente Social, pós graduado em direitos da criança e adolescente e Mestre em Serviço Social. Colaborou com a fundação e articulação de núcleos de base da Uneafro entre 2009 e 2012. Foi Conselheiro Tutelar na região do Lajeado de 2011 a 2016. Atuou como educador social em serviços de acolhimento e abordagem de rua e atualmente coordena um serviço de convivência e fortalecimento da criança e Adolescente. É profissional e reconhecido ativista do Serviço Social e Babalorixá da casa Ile Aye Dun.

 

Todas e todos que quiserem apoiar essa importante iniciativa, pode fazer seu cadastro AQUI

 

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Genocídio Negro Política

Movimento Negro vai a Brasília contra “pacote moro” e decretos sobre armas

Mergulhado no maior escândalo do governo até agora, para os movimentos negros Moro não tem condição moral de propor projeto algum à sociedade brasileira.

 

Por Douglas Belchior

 

Depois das conversas divulgadas pelo jornal The Intercept, é impossível não enxergar Sergio Moro como uma das cabeças da organização criminosa que retirou Lula da disputa presidencial, garantiu a vitória de Bolsonaro e, com isso, sua posição de como Ministro da Justiça. Tudo orquestrado para que pudesse colocar em prática um projeto de poder entreguista, de destruição do estado de direito, antipobres e racista. O pacote “anticrime” e os decretos sobre armas são parte do propósito de impor por um lado a miséria social e por outro, um forte controle repressivo sobre os corpos de sempre.

Por isso esta semana, nos dias 11 e 12 de junho, cerca de 50 entidades e organizações do movimento negro de todo país, incluindo a Uneafro Brasil, vão compor uma comitiva que vai até o Congresso Nacional pressionar parlamentares à barrar as propostas contidas no pacote Moro, bem como buscar sensibilizá-los para a rejeição dos decretos de flexibilização de posse e porte de armas. Não há dúvidas de que tais medias aprofundam a situação de violência e homicídios contra população negra.

Além do diálogo com parlamentares e partidos que se colocam críticos às políticas de segurança pública adotadas e propostas por este governo, as lideranças negras buscarão interlocução também com parlamentares do chamado centrão e até aliados ao governo, tais como as  deputadas Joyce Hasselmann, Aguinaldo Ribeiro e Margarete Coelho, respectivamente líder do governo, líder da maioria e coordenadora do Grupo de Trabalho sobre o Pacote Moro, na Câmara Federal. No Senado, participaremos da audiência pública na comissão de direitos humanos do Senado e de uma conversa com o presidente Davi Alcolumbre. Nos dois dias, em cada uma das casas, estão previstos atos de repúdio às propostas de Sergio Moro. As visitas à Câmara e Senado coincidem também com a sessões da CCJ (Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania) analisarão os decretos que flexibilizam a posse, o porte e a comercialização de armas.

As propostas de Moro legalizam uma licença para que as polícias possam prender mais e matar mais. Estas alterações nas leis de segurança pública, somadas aos decretos que facilitam posse e porte de armas para civis estimulam o clima de ódio e violência na sociedade. Negros e negras são o principal alvo. Polícia mais violenta, superencarceramento e distribuição de armas não resolveram o problema da segurança pública em nenhum lugar do mundo.  Quer melhorar a segurança pública? Invista em educação, cultura, oportunidades de trabalho e renda. O remédio para a violência é a justiça social. É isso que defendemos. Estaremos em Brasília para defender a vida.

Em março desse ano, estivemos com o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia com a mesma pauta de reivindicações e, em maio, fomos à Jamaica para a audiência oficial da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos, para formalizar a denúncia de violação de direitos humanos do pacote anticrime protocolada no órgão internacional.

A ação do movimento negro em Brasília estará respaldada por mais um importante estudo que reafirma o incontestável genocídio que  sofremos. Dados recentemente revelados pelo Atlas da Violência 2019 demostra que os negros permanencem como as principais vítimas da violência. Em 2017, 75,5% das vítimas de homicídios foram negras. A taxa de homicídios por 100 negros foi de 43,1, enquanto que a taxa de não negros foi de 16,0. Entre 2007 e 2017, a taxa de homicídios de mulheres não negras teve crescimento de 1,6% e a taxa de homicídios de mulheres negras cresceu 29,9%.

 

Organizações do movimento negro que estarão presentes:

  1. Angaju – Afro Gabinete de Articulação Institucional e Jurídica
  2. Agentes de Pastoral Negros do Brasil – APNs
  3. Alma Preta
  4. Associação de amigos e familiares de presos/as – Amparar
  5. Centro de Estudo e Defesa do Negro do Pará – CEDENPA
  6. Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades – CEERT
  7. CLB – Coletivo Luiza Bairros
  8. Coletivo de Juventude Negra Cara Preta
  9. Coletivo Negro Afromack
  10. Coletivo Sapato Preto Lésbicas Amazonidas
  11. Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas – Conaq
  12. Criola
  13. Educafro Brasil
  14. Evangélicos Pelo Estado de Direito
  15. Frente de Mulheres Negras do DF e Entorno.
  16. Frente Favela Brasil
  17. Frente Nacional Makota Valdina
  18. Gabinete Assessoria Jurídica Organizações Populares- Gajop
  19. Geledés – Instituto da Mulher Negra
  20. Iniciativa Negra por Uma Nova Política Sobre Drogas
  21. Instituto de Desenvolvimento de Ações Sociais – IDEAS
  22. Instituto Marielle Franco
  23. Instituto Negra do Ceará – Inegra
  24. Irohin – Centro de Documentação, Comunicação e Memória Afro-brasileira
  25. Liga das Mulheres do Funk
  26. Mães da Bahia
  27. Mahin Organização de Mulheres Negras
  28. Mandata Quilombo da Deputada Estadual Erica Malunguinho – SP
  29. Marcha das Mulheres Negras de SP
  30. MNU – Movimento Negro Unificado
  31. Movimento de Mães do Sócio Educativo
  32. Movimento Nacional de Pescadoras e Pescadores
  33. Mulheres Negras do DF
  34. Nova Frente Negra Brasileira
  35. Núcleo de Consciência Negra da USP
  36. Okan Dimó – Coletivo de Matriz Africana
  37. Pretas em Movimento
  38. Programa Direito e Relações Raciais – PDRR-UFBA
  39. Protagonismo Negro da UFSM
  40. PVNC – Movimento Pré-Vestibular para Negros e Carentes
  41. Rede Afirmação
  42. Rede de Mulheres Negras PE
  43. Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio
  44. Rede Fulanas NAB
  45. Renafro
  46. Uneafro Brasil
  47. Unegro

 

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Genocídio Negro Política

Entre Luther King e Marielle: As vidas que a violência interdita, mas não vence

Por Renata Souza e Ronilso Pacheco

A memória de Luther King é sobretudo perturbadora para os racistas estadunidenses. Por lá, a ala branca e conservadora da igreja evangélica, insiste em relativizar King. Seja pela tentativa de “domesticar” a sua imagem, para torná-la palatável para os white brothers and sisters, afastando-o o máximo possível da imagem do “violento” Malcom X, seja pelo completo silêncio, diminuindo sua importância histórica global. Mas pelo menos uma vez por ano, precisam conviver com a sua força, sua presença e o legado de sua profecia — que segue gritante, reproduzida em outras vozes e outros corpos.

No esforço de tornar a imagem de King palatável para seus membros brancos,  a igreja evangélica conservadora, base eleitoral do Partido Republicano, tenta esconder o Luther King que criticou o militarismo, denunciou com veemência o papel dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã em um discurso histórico realizado na Riverside Babptist Church em Nova Iorque em 67, e fez duras críticas ao capitalismo que se materializava em exploração e mais geração de pobreza para uma maioria esmagadora da população, e não apenas a comunidade negra. King diz, inclusive, de como ele deixou de ser “popular” na aristocracia do poder, inclusive para a imprensa dos EUA, quando “quebrou o próprio silêncio”. Quando ele passou a denunciar o apego do stablishment ao militarismo, à guerra e a íntima relação entre armas e capitalismo, o prestigiado King deixou de ser alguém que incomodava “apenas” a segregação.

Chame como preferir, chame de democracia ou chame de socialismo democrático, mas deve haver uma melhor distribuição da riqueza neste país dentre todos os filhos de Deus. 

Martin Luther King

Entre o King de “I Have dream”, em 63, e o King da Campanha pelas Pessoas Pobres em 68, há o assassinato de Malcom X em 65 e o início da Guerra do Vietnã. Há um Luther King amadurecido pela perseverança da segregação, da sede insaciável da supremacia branca pelo poder e a manutenção de privilégios, e há um King convicto de que a igreja branca e conservadora nos Estados Unidos não se arrependeriam tão cedo nem do seu pecado do racismo, nem da sua convicção de que a comunidade negra inspira perturbação e pobreza.

Martin Luther King é assassinado em meio à sua articulação para realizar uma nova e maior marcha até Washington para pressionar o Congresso para a criação e aprovação de uma “Declaração de Direitos Econômicos” para os americanos pobres. Uma elite branca e aristocrata, insatisfeita com a ousadia do pastor preto que expunha ao mundo o racismo e a segregação racial dos Estados Unidos, considerou a gota d’água este mesmo pastor querer tocar e ameaçar os privilégios da distribuição de renda, da riqueza, dos acessos a bens e serviços que uma classe média branca se considerava herdeira única e legítima.

No Brasil a tentativa de desmoralização e deslegitimação do povo preto e pobre sempre foi uma estratégia da elite econômica e política. Os nossos heróis de ontem como Dandara, Zumbi, João Cândido e da nossa gigante de hoje e sempre, Marielle Franco, são colocados em segundo plano ou criminalizados. Se os pretos se revoltam, pagam com a vida, são retirados dos livros e das memórias, quando não são transformados em vilões. Por isso, a nossa ação enquanto negros defensores dos direitos humanos é de reconexão com a ancestralidade, com os nossos mais velhos e mais velhas, iluminando vidas de luta e de reexistência. Contaremos a história que a história não conta, como diz o samba da Mangueira deste ano. Sim, a história Das Marias, Marielles e dos Malês.

Não por acaso, é nesse processo de invisibilização dos pretos, que a igreja evangélica brasileira também se distancia e esquece da história de Luther King — talvez o evangélico mais conhecido do planeta — e o seu legado. Porém sua memória continua, ano a ano, sendo celebrada entre ativistas, militantes e homens e mulheres sensíveis com as pautas referentes ao direito à vida. A igreja brasileira não deveria se calar sobre a memória de King. É inclusive um equívoco que poderia ser revertido, se a maioria esmagadora da igreja brasileira não ignorasse a memória e o legado profético de Marielle Franco.

“Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?” 

Marielle Franco

É possível, muito possível na verdade, que Marielle Franco consiga percorrer um caminho semelhante. Não dá para imaginar se ela terá, daqui a cinquenta anos, para a comunidade negra no Brasil a força que Martin Luther King tem para a comunidade negra nos Estados Unidos. Mas nenhuma outra figura, mulher, negra, de favela, erguida da luta e da solidariedade, parece ter chegado tão perto de conseguir isto.

E evidentemente se aproximar do prestígio e da repercussão de Luther King no seu país natal e no mundo não é critério ou régua de importância da força que Marielle possui. Na verdade, é um dos únicos meios comparativos de dimensionar o que ela, que definitivamente virou semente, se tornou. Entre King e Marielle, está uma incrível e semelhante capacidade de inspirar para o futuro, em especial uma juventude negra, pobre, da favela e da periferia. Talvez, o maior medo que Marielle pudesse causar aos podres poderes, era justamente a capacidade que esta mulher tinha e tem, porque Marielle é presente, com sua força indomável e generosidade encantadora, para inspirar pessoas, inflá-las de esperança. O cálculo era de que “seria mais seguro” interditá-la agora, antes que sua força indomável se tornasse incontrolável. Mas todos nós descobrimos que esta força já era rebelde, indomesticável, gigante. E Marielle, assim como King, ressuscitou.

 

 

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Política

“Todas as chances de sobrevivência em Minas estão em risco”, diz deputada Andreia Jesus

Por Marina Souza

Três anos depois do ocorrido em Mariana, a cidade mineira de Brumadinho entrou para a história do país quando foi atingida por 12 milhões metros cúbicos de lama, uma intoxicação no Rio Paraopeba e centenas de mortes e desaparecimentos. Mais uma vez, a vida e a biodiversidade brasileiras foram colocadas abaixo do lucro e poder de alguns. Para muitos, o rompimento da barragem, que era de responsabilidade administrativa da Vale, precisa ser de fato encarado como um crime ambiental, consideraqndo que os riscos já apresentados anteriormente foram negligenciados pela empresa. A deputada estadual Andreia de Jesus (PSOL), foi entrevistada pelo Blog Negro Belchior e apresentou seu posicionamento em relação ao ocorrido.

Blog Negro Belchior: Como você enxerga a responsabilidade da Vale no ocorrido em Brumadinho?

Andreia de Jesus: O papel na reincidência de crimes das mineradoras de Minas Gerais é de responsabilidade objetiva. O governo mineiro é refém desse modelo econômico que coloca as mineradoras acima do Estado, dando à elas não só no direito de explorar a riqueza mineral, mas também o de controlar esse território, a vida e as culturas, fica tudo na mão das empresas. A Vale é totalmente responsável pelos danos em Brumadinho, deixou os seus trabalhadores serem assassinados, já tinha consciência de que isso poderia acontecer. Seu papel agora é de fazer reparações, precaver que isso aconteça em outros lugares e mudar esse modelo de extração que tem feito.

BNB: O que achou da posição tomada pelo governador Romeu Zema (NOVO)? 

AJ: A posição de Zema não é tão diferente em relação a de outros governos de Minas Gerais, que costumam ser reféns da logica de que o estado não sobrevive sem mineração, seguindo um caminho de defender o capital, o lucro e a falta sensibilidade são bem parecidos. Esse crime foi praticado três anos depois do rompimento da barragem da Samarco, algo já era previsto. Foi o maior acidente de trabalho na história da humanidade, matou centenas de trabalhadores, mas mineradora preocupa-se apenas com quando poderá voltar a assumir trabalhos. Boa parte dos parlamentares financiaram a Vale, isso é grave.

Reprodução

BNB: Como os mineiros têm sobrevivido após Mariana e, agora, Brumadinho?

AJ: Todas as chances de sobrevivência aqui em Minas estão em risco. Inclusive, com esse novo rompimento corremos risco de ficar sem água. Como a gente se coloca agora sem prever alternativas de sobrevivência?

BNB: Como você interpreta o impacto dos danos causados nessas cidades?

AJ: Tem pessoas da justiça ambiental que mostram os danos irreversíveis causados por esse crime. Eles interferem diretamente na vidas das pessoas das cidades próximas a Mariana e Brumadinho, seja direta ou indiretamente.

BNB: O que está achando dos métodos adotados de indenização?

AJ: Tem duas questões muito importantes a serem debatidas. A primeira é a reparação de danos aos trabalhadores, que com a Reforma Trabalhista, será paginada como valor do salário. As famílias dos trabalhadores que foram soterrados pela lama receberão valores de indenização diferentes, isso é muito grave. A vida das pessoas estão sendo calculadas por salários precários. A segunda coisa é o direito dos trabalhadores de sacar o FGTS.

Além disso, os trabalhadores que não morreram têm o direito de estabilidade no emprego, podem se recuperar em 4 meses com o trabalho garantido.

BNB: E qual é a responsabilidade e o papel do governo federal nisso tudo?

AJ: O governo federal e o estado de Minas Gerais, que está atualmente refém de empresas internacionais que colocam a soberania nacional em risco, deveria fazer uma intervenção séria sobre esse tipo de exploração econômica em que dezenas de cidades podem desaparecer embaixo da lama. As empresas de mineração estão sem controle. Elas só retiram riquezas do nosso país que vão pra fora alimentar empresas internacionais, um capital fictício que não sabemos pra onde vai, todo o prejuízo tem ficado no Brasil.

É papel do governo federal fiscalizar todo o licenciamento ambiental. É de competência da União legislar para que os estados repliquem de acordo com a necessidade e demanda locais. As entidades e instituições ligadas ao Estado precisam retirar da Vale o papel de mediar o conflito diretamente.

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Política

Valores viris na política: esboço crítico sobre relações raciais e gênero masculino

Por Henrique Restier

“Eu sou o maior inimigo do impossível” (Bluesman) Baco Exu do Blues

João Cândido “O Almirante Negro” (1880–1969)

Os homens e as masculinidades têm sido um campo de estudos com um crescimento e interesse vertiginosos nos últimos anos. Os homens se tornaram seres “generificados” e, portanto, sujeitos de diferentes análises, vindas dos mais diversos movimentos sociais e arcabouços teóricos. Quanto aos temas, a antropóloga e feminista negra colombiana, Mara Viveiros Vigoya (2018, p. 67) nos traz um quadro bastante interessante. Em sua pesquisa, a autora aponta sete eixos principais, são eles: identidades masculinas (30%), masculinidades e violências (18%), problemas, dilemas e tensões em torno da saúde dos homens (16%), afetos, sexualidades e reflexões epistemológicas, ambos com 14%, representações e produções culturais das masculinidades (6%) e, por último, espaços de homossociabilidade masculina (2%). O perfil de gênero dos pesquisadores é bastante equitativo, homens e mulheres correspondem respectivamente a 41% e 40%. Ademais, o Brasil aparece em primeiro lugar em volume de produção de conhecimento sobre homens e masculinidades na América Latina, seguido por México, Colômbia, Chile e Argentina.

Recentemente, saíram alguns textos no espaço público debatendo masculinidade e política, referindo-se mais precisamente ao avanço de chefes de Estado em diversas nações (inclusive a nossa), tidos como truculentos, autoritários, com um forte discurso bélico e “anti-minorias”. À grosso modo, os argumentos centrais da maioria desses textos exploram a relação entre essa aparente “masculinidade tóxica” (tanto dos políticos como do eleitorado), sua legitimidade e ascensão no cenário político, tendo prováveis desdobramentos nocivos ao conjunto da sociedade.

Olhando para esses cenários podemos perceber que as reflexões sobre homens e masculinidades podem ser uma “entrada” desafiadora e produtiva para a análise política. Assim, minha intenção nesse texto é trazer algumas considerações introdutórias sobre as possíveis associações entre relações raciais, gênero masculino, virilidade e política.

Virilidade e Branquitude

O advento dos estudos da branquitude, que pode ser definida como um lugar de vantagem estrutural, um ponto de vista e “um conjunto de práticas culturais, que geralmente não são marcadas nem denominadas” (FRANKENBERG, 2004, p. 81), tem contribuído muito para o campo das relações raciais, possibilitando que negros e brancos, principalmente os últimos, sejam lançados para dentro das interações sociais como indivíduos e grupos “racializados”. Em outras palavras, que as pessoas consideradas socialmente brancas, sejam uma variável de análise relevante para os trabalhos e investigações sobre relações étnico-raciais. Essa perspectiva atravessada por outros marcadores sociais potencializa a compreensão sobre o racismo e outros fenômenos sociais.

Simultaneamente, temos a construção das masculinidades, pois não basta a base biológica para que um homem seja considerado “realmente um homem”, a princípio ele o é potencialmente. É necessário todo um processo de socialização e aprendizagem, onde valores, normas e sistemas de representação são acionados para que nos tornemos “efetivamente homens”.

Um dos elementos fundamentais que fazem parte dessa construção é a virilidade, que remete aos órgãos sexuais masculinos, à atividade, e a penetração. Mas não só isso, a virilidade abrange códigos e fundamentos ideológicos de virtude oriundos da antiguidade clássica greco-romana “… o termo latino vir estabelecerá por longo tempo em inúmeras línguas ocidentais, virilita, “virilidade”, virility: princípios de comportamentos e de ações designando, no Ocidente, as qualidades do homem concluído, dito outramente, o mais perfeito do masculino” (VIGARELLO, 2013, p. 11). Esses princípios podem ser: a coragem, equilíbrio, lealdade, responsabilidade, vigor, controle (sobre si e o outro), espírito de competição, dominância, força, etc. Ademais, é preciso salientar que “… violência e virilidade não são sinônimas: é possível ser violento sem ser viril, e vice-versa” (FARGE, 2013, p. 511)

Tanto a masculinidade quanto a virilidade se entrelaçam e se alteram no tempo e no espaço, com certas particularidades para homens negros e brancos. Isso sem me estender na questão de que tanto a masculinidade quanto a virilidade podem ser construídas em corpos femininos, existindo, portanto, “mulheres viris”, contanto que cumpram determinados códigos masculinos, assim como os homens têm de fazer.

Em todo caso, a política se configura como um palco privilegiado para exibir a imagem e conduta viris, principalmente para os homens brancos provenientes das classes médias e abastadas, que são em sua maioria aqueles que disputam as eleições e são eleitos. Assim, como Mara Vigoya (2018, p.144) entendo que a branquitude e a masculinidade seriam “fontes de legitimidade política e popularidade”.

O político viril

Há séculos o espaço da política tem sido exercido por uma “elite masculina”. Nos berços civilizatórios do Ocidente, Grécia e Roma, a política era basicamente uma atividade de poucos homens privilegiados, o que continua sendo. No Brasil de 2018, a recente eleição trouxe à tona um perfil de homem público que encontra seu capital político na “exaltação da virilidade”, tanto em seu sentido moral, quanto físico. Houve um aumento substancial nessa eleição de homens ligados as áreas de segurança, justiça e empresarial, como policiais, militares, juízes e homens de negócios. Isso sinaliza, dentre outras coisas, que o Brasil deseja que o lema positivista, “Ordem e Progresso”, em sua bandeira, seja colocado em prática. Se realmente será esse o tipo de homem público que trará um “Brasil Varonil”, e se isso, de fato, será bom para o país, é outra discussão.

Congresso brasileiro

Em nosso imaginário, de ranço colonial e escravocrata, tal missão caberia ao homem branco, é verdade que se Joaquim Barbosa tivesse concretizado sua candidatura poderíamos ver in loco, como essa disputa se daria. De todo modo, esse papel coube à Jair Messias Bolsonaro, o “Messias viril”. O presidente eleito em 2018 soube manusear com maestria toda uma gramática da virilidade na disputa presidencial, se colocando como aquele que salvará a pátria dos perigos que a assombram, que, em seus termos, seriam: o comunismo, a ideologia de gênero, a violência e a corrupção, sobretudo aquela praticada pelo Estado. E aciona para isso, seus supostos atributos morais: o caráter e patriotismo viris, a defesa da família, a reverência à Deus e a rigidez no combate ao crime.

Além disso, seu passado nas forças armadas, no contexto atual de altíssimos índices de violência, virou um ativo político. Em certos momentos históricos críticos, essa imagem de um homem íntegro, dotado de virtudes militares e religiosas tende a trazer uma sensação de segurança e esperança para a população. O arquétipo viril do combatente em defesa da pátria se projetou na figura de Bolsonaro.

O homem negro e o poder político

Não são todos os homens que dispõem dos mesmos poderes e privilégios, há uma hierarquia interna ao grupo masculino. O colonialismo e a escravidão negra são momentos e processos cruciais para entendermos a lógica que atravessa as relações entre homens negros e brancos na política. A pergunta é: como os homens negros adentram a política eleitoral? Usualmente subordinados e indicados pelos homens brancos, seja de partidos de esquerda ou direita. Infelizmente ainda não há partidos criados e dirigidos por mulheres e homens negros, existem algumas iniciativas nesse sentido e torço para que deem certo. De qualquer maneira, o exercício da virilidade na política implica no poder de mando e na autoridade, algo que historicamente têm estado nas mãos dos homens brancos, e em menor grau, e mais recentemente, na de mulheres brancas, demonstrando a proeminência do vetor racial sobre o de gênero na política brasileira.

Um problema a ser enfrentado por nós é que os estereótipos racistas enquadram o homem negro como um degenerado, então, suas qualidades viris são sistematicamente desqualificadas. Sua força é associada à brutalidade, sua coragem à barbárie, sua sexualidade com devassidão. Ou seja, uma virilidade selvagem e brutal. Em uma palavra: hipervirilizados. Por outro lado, esses mesmos estereótipos nos associam à indivíduos, apáticos, inofensivos e servis, remetendo as famosas figuras dos pais joãos e negros da casa. Isto é: desvirilizados. Ou somos vistos como brutamontes descontrolados, ou serviçais obedientes. Como ser eleito nesses termos? O enfrentamento a esse tipo de estigma racista é primordial para nosso sucesso político.

Alberto Guerreiro Ramos, Abdias do Nascimento e João Conceição na década de 50

Isso não quer dizer que não tenhamos ao longo de nossa história, políticos negros, Nilo Peçanha e Monteiro Lopes, (1909–1910) Abdias do Nascimento (1983–1987/1997–1999), Guerreiro Ramos (1963–1964), Carlos Alberto Caó de Oliveira (1982–1986/1987–1990) são alguns desses grandes nomes. Contudo, habitualmente o espaço de atuação dos homens negros é na micropolítica do cotidiano. Quilombos, revoltas, rebeliões, movimentos sociais e organizações populares no Brasil tem o “DNA do homem negro”. Essa constatação não dispensa a importância de termos no Brasil do século XXI homens negros em cargos políticos de destaque, comprometidos com as reivindicações da população negra.

O que quero apontar é que muitas vezes a “criminalização da virilidade”, no debate de gênero é simplista, e não se sustenta, pois, valores viris são milenares, perpassam todas as sociedades humanas, com nomes e significados plurais podendo ser usados para diferentes propósitos, inclusive para a luta anti-racista. O Brasil está repleto de homens negros viris que emprestaram essa virilidade para essa luta, na política ou não. Zumbi com sua força guerreira, Luiz Gama e sua energia intelectual, Abdias do Nascimento e sua eloquência vigorosa, a inteligência destemida de Guerreiro Ramos, a ginga valente de Madame Satã, Lima Barreto com sua escrita ácida e corajosa, a liderança militar de João Cândido e por aí vai. Homens pretos gerando outros homens pretos. Somos tantos…

“Viva Zapata! Viva Sandino! Viva Zumbi! Antônio Conselheiro! Todos os Panteras Negras, Lampião, sua imagem e semelhança. Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia”. Monólogo ao pé do ouvido. Nação Zumbi

Referências Bibliográficas

FARGE, Arlette. Virilidades populares. In: Georges Vigarello (ed.) História da Virilidade 1: A invenção da virilidade Da Antiguidade às Luzes. pp. 495- 523, 2013.

FRANKENBERG, Ruth. A miragem de uma branquidade não marcada. In: VRON WARE (org.). Branquidade: identidade branca e multiculturalismo. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

VIGARELLO, Georges. Introdução A virilidade, da Antiguidade à Modernidade. In: Georges Vigarello (ed.) História da Virilidade 1: A invenção da virilidade Da Antiguidade às Luzes. pp.11–70, 2013.

VIGOYA, Mara Viveros. As cores da masculinidade: Experiências interseccionais e práticas de poder na Nossa América. Rio de Janeiro, Papéis Selvagens, 2018.

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Política

“Lula livre” vira tema em Dia Internacional dos Direitos Humanos

Foto: Monica Araujo – Defend Democracy in Brazil – NY

Por Marina Souza

O último dia 10 de dezembro foi marcado por eventos ao redor do mundo celebrando os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Palestras, rodas de conversa, protestos e passeatas preencheram diversos lugares, promovendo a reflexão sobre a importância e os mecanismos de funcionamento prático dos direitos estabelecidos entre os Estados-membros da ONU três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Acompanhados da grave crise da Democracia representativa no Brasil, muitos episódios políticos estão sendo marcados historicamente e analisados por diversas pessoas e instituições. A prisão do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, ocorrida no dia 07 de abril em Curitiba, foi um dos temas repercutidos anteontem durante as reflexões sobre os Direitos Humanos.

Lula foi condenado a 12 anos e 1 mês de prisão, sob a acusação de lavagem de dinheiro e corrupção passiva, no âmbito da Operação Lava Jato. Após o golpe sofrido pela ex-presidenta Dilma Rousseff e a crescente perseguição política ao Partido dos Trabalhadores, diversas pessoas e movimentos sociais – ligados ou não ao PT – têm se posicionado contrários aos métodos de investigação e punição utilizados na situação. Em meio a controvérsias jurídicas e divergências opinativas, o maior líder popular da história do Brasil, que ficou em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto até o início de setembro, foi preso sem trânsito em julgado, sob um pretexto nebuloso demais para ser aceito por todos. O movimento/comitê “Lula Livre” foi criado em 2018 durante o processo penal, com a intenção de lutar a favor da soltura do presidente e contra a atual judicialização da política brasileira.

Lula poucas horas antes de ser preso | Foto: Ricardo Stuckert

Vários grupos estão se organizando para reconhecer e denunciar o ataque à Democracia, que é cada vez mais evidente dentro e fora do Brasil. Na última segunda-feira, o Comitê Defend Democracy in Brazil organizou um evento em Nova York, no People’s Forum de Manhattan, para celebrar o 70º aniversário da Declaração, discutindo o funcionamento dessa prerrogativa e instituindo o Dia do Lula Livre. Os convidados a palestrar sobre o tema foram Maria Luisa Mendonça, membra da Rede Social de Direitos Humanos, Douglas Belchior, da UNEAFRO Brasil, e Gammy Alvarez, do Partido pelo Socialismo e Liberação de Nova York.

A platéia foi composta principalmente por ativistas dos EUA, do Haiti e de Honduras. Vídeos, fotos e performance foram alguns dos recursos usados no evento. Ao lado da Frente Brasil Popular, a organização reuniu mais de 80 movimentos sociais brasileiros para realizar a Ação Internacional Lula Livre.

Natália de Campos, atriz, produtora artística e ativista, mora em Nova York há 20 anos e é uma das coordenadoras do evento realizado pelo Comitê. Segundo ela, é muito importante levar essas narrativas à mídia internacional para não somente denunciá-las, como também conscientizar as pessoas nativas sobre a forte interferência de seus países nos interesses econômicos e recursos brasileiros. Por isso, acredita que a ideia geral da ação seja proporcionar mais aliados e informação ao público estrangeiro.

Foto: Monica Araujo – Defend Democracy in Brazil – NY

“É um atentado aos Direitos Humanos. Ele foi perseguido de uma maneira implacável, sem justificativa legal e com acusações supérfluas. Também foi privado de direitos que outros presidiários possuem, como o de dar entrevista. Estão tentando silenciar a voz dele, Lula representa muito para o povo brasileiro, foi por isso que tentaram tirá-lo da corrida política.”, diz ela

A coordenadora conta que muitas das notícias que percorrem as ruas dos Estados Unidos são compradas por agências e já chegam filtradas de alguma forma. E que embora exista grande parcela da população local consumindo fake news, há também muito apoio ao ex-presidente pelos sindicatos, que reconhecem o quão importante ele foi para mudar os direitos trabalhistas nacionais.

Ela afirma ainda que assim como o Brasil, os EUA são um país muito grande e diverso, com variedade de opiniões. Agora, com o novo governo brasileiro, de Jair Bolsonaro (PSL) e seu gabinete, há maior preocupação com questões universais publicadas na mídia. A Amazônia, os Direitos Humanos e a criminalização dos movimentos sociais são, segundo Campos, as notícias brasileiras atuais que mais chamam a atenção dos estadunidenses.

O Comitê foi formado no início de 2016 por pessoas de diversas profissões, que estavam preocupadas com o curso do sistema democrático da República e desde então, muitas outras entraram e saíram. “Somos articulados com vários grupos ativistas da rede FIBRA (Frente Internacional contra o Golpe no Brasil), sindicatos e acadêmicos.”, revela.

Durante a execução do evento os palestrantes enunciaram trechos da Declaração que estão relacionados ao caso de Lula, como Liberdade de Expressão e Julgamento Justo e Imparcial. Os participantes do movimento aguardam o julgamento da ONU, mas duvidam das possibilidades do resultado ter efeitos legais, pois consideram que o poder Judiciário no Brasil está parcial há muito tempo, com objetivos e agendas políticas em conluio com os Executivo e Legislativo.

Com muitos estudiosos, sindicalistas e ativistas estadunidenses o Comitê também participou, em 01 de dezembro, da criação da Rede Nacional para a Democracia no Brasil (RNDB), escrevendo uma carta no mesmo dia do evento para repudiar o assassinato de dois militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), ocorrido na Paraíba no último dia 8.

Nos dias 10 e 12 de dezembro, a Fundação Perseu Abramo, o Comitê Internacional Lula e as Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores (PT) sediam em São Paulo a Conferência Internacional em defesa da Democracia, que trará representantes de organizações de esquerda e partidos políticos da Espanha, Uruguai, Portugal e membros do Parlamento Europeu. O intuito é discutir e desenvolver a luta pela democracia e a resistência aos atuais momentos políticos do país.

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Cultura Direitos Humanos Política

Resistir e esperançar: diálogos sobre democracia em tempos de crise

Por Marina Souza

Esta semana o Brasil está sendo marcado por importantes datas de reverberação histórica, como o  70º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, celebrado no último dia 10, e os 50 anos posteriores à promulgação do Ato Institucional nº5. Por isso, considerando as datas emblemáticas e o atual contexto político, a CESE – Coordenadoria Ecumênica de Serviço e a Universidade Federal da Bahia, com apoio da ABONG – Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais, realizam a Mesa de Diálogo “Resistir e Esperançar: Diálogos sobre democracia em tempos de crise”, às 17h na próxima quinta-feira (13), na Reitoria da Universidade Federal da Bahia.

Sônia Mota, diretora executiva da CESE, conta que a ideia inicial do evento era a promoção de métodos de resistência e reflexão. Ao usar a expressão  “esperançar” de Paulo Freire o grupo se referiu ao sentimento de esperança presente naqueles que atuam nas mais variadas lutas.

Sônia Mota, atual diretora executiva da CESE, é teóloga e atua nos movimentos sociais desde 2000 | Foto: Divulgação CESE

Comporão a mesa de diálogo: João Pedro Stédile (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra); Lusmarina Garcia (teóloga e ativista dos direitos humanos); Marizelha Lopes (Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais) e Rosane Borges (jornalista e escritora). O objetivo é que as/os palestrantes reflitam em cima destes pontos:

Ativismo – movimentos sociais: diante deste processo de crescente criminalização e medidas de exceção, sob ameaça de “acabar com o ativismo” e de considerar como terrorismo as justas manifestações e ações dos movimentos sociais, como se pode buscar forças e inspiração para resistir e avançar?

Liberdade de expressão e produção do conhecimento: discutir como resistir a este ataque à liberdade de pensamento e também de produção do conhecimento e saberes; superar as ameaças do pensamento único, refletir sobre a autonomia de cátedra em todos os âmbitos, o diversionismo enganoso da ‘pós-verdade’, questionar o revisionismo histórico e a importância da memória.

Avanço do fundamentalismo religioso e influência da religião nas eleições – movimento ecumênico: com o uso e a manipulação da fé como um valor político  transformado em voto, tem-se visto o crescente  uso da religião e sua comunicação por meios eletrônicos, como plataforma eleitoral  de candidatos/as nas eleições. Sem desmerecer o valor e a importância das religiões na sociedade brasileira, como enfrentar a onda religiosa conservadora que ameaça a liberdade do Estado Laico? Quais as inspirações que podem vir do movimento ecumênico comprometido com a defesa de direitos?

A CESE é uma organização ecumênica que atua na defesa de diversas causas há 45 anos e foi a primeira no Brasil a publicar uma cartilha de Direitos Humanos. Relembrar o que esse documento e o AI-5 representaram para a sociedade brasileira é, segundo Mota, importante dentro do atual cenário político, no qual o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), possui um discurso favorável a retirada de direitos e a criminalização dos movimentos sociais.

Presidiário segura a cartilha de Direitos Humanos produzida pela CESE, na Casa de Detenção do Carandiru

“Um dos motivos de estarmos nesses momentos de análise da conjuntura é reafirmar a unidade. Agora mais do que nunca temos que fortalecer a luta dos movimentos sociais e pensar coletivamente em como enfrentar esses problemas.”, disse a palestrante Marizelha Lopes.

 

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Política racismo

Sobre o conceito de “Consciência Negra”. Leia e saia da ignorância!

 

Por Douglas Belchior, da Uneafro Brasil

 

Steve Biko, ativista negro sul-africano antiapartheid,  foi assassinado aos 30 anos de idade, em setembro de 1977, pelas forças da repressão do estado racista deste país. Fundou, em 1968, a Organização dos Estudantes Sul-africanos (Saso, na sigla em inglês), e propagou pelo mundo o slogan “black is beautiful” (o negro é lindo). Biko forjou o conceito de Consciência Negra a partir da ideia de que era preciso que a população negra libertasse sua consciência e encontrasse sua própria identidade. 

Consciência Negra seria, em essência, a percepção por parte da pessoa negra, de sua necessidade em reunir forças junto aos seus irmãos em torno da causa de sua atuação – a negritude de sua pele – e de agir como um grupo, a fim de se libertarem das correntes da servidão. A aspiração de negras e negros conscientes de sua própria história seria a própria revolução, pois “não podemos ter consciência do que somos e ao mesmo tempo permanecermos em cativeiro”. Negras e negros, uma vez conscientes, não se submetem a ser meros apêndices da sociedade branca racista. São aquelas e aqueles que, juntos, dirigem suas próprias vidas e conseguem seguir com a “cabeça erguida em desafio”.

Em tempos de obscurantismo em que a produção de conhecimento pouco tem valor e em que o revisionismo histórico míope e irresponsável ganha status de política de estado, é fundamental resgatar os acúmulos da luta revolucionária do povo negro, como resposta à insensatez e à barbárie.

À você, branco ou negro, que tende a responder com as frases prontas do tipo: “Consciência Branca” ou “Somos todos Humanos”, conheça o conceito de Consciência Negra, e saia da ignorância!

Abaixo, o célebre texto de Stive Biko, escrito em Dezembro de 1971.

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A definição da Consciência Negra

Em nosso manifesto político definimos os negros como aqueles que, por lei ou tradição, são discriminados política, econômica e socialmente como um grupo na sociedade sul-africana e que se identificam como uma unidade na luta pela realização de suas aspirações. Tal definição manifesta para nós alguns pontos:

1- Ser negro não é uma questão de pigmentação, mas o reflexo de uma atitude mental;
2- Pela mera descrição de si mesmo como negro, já se começa a trilhar o caminho rumo à emancipação, já se esta comprometido com a luta contra todas as forças que procuram usar a negritude como um rótulo que determina subserviência.

A partir dessas observações, portanto, vemos que a expressão negro não é necessariamente abrangente, ou seja, o fato de sermos todos não brancos não significa necessariamente que todos somos negros. Existem pessoas não brancas e continuarão a existir ainda por muito tempo. Se alguém aspira ser branco, mas sua pigmentação o impede, então esse alguém é um não branco. Qualquer pessoa que chame um homem branco de “Baas” (“Senhor”, na língua africâner. Tratamento que os brancos exigem dos negros. N.T.), qualquer um que sirva na força policial ou nas Forças de Segurança é, ipso facto, um não branco. Os negros – os negros verdadeiros – são os que conseguem manter a cabeça erguida em desafio, em vez de entregar voluntariamente sua alma ao branco.

Assim, numa breve definição, a Consciência Negra é, em essência, a percepção pelo homem negro da necessidade de juntar forças com seus irmãos em torno da causa de sua atuação – a negritude de sua pele – e de agir como um grupo, a fim de se libertarem das correntes que os prendem em uma servidão perpétua. Procura provar que é mentira considerar o negro uma aberração do “normal”, que é ser branco. É a manifestação de uma nova percepção de que, ao procurar fugir de si mesmos e imitar o branco, os negros estão insultando a inteligência de quem os criou negros. Portanto, a Consciência Negra toma conhecimento de que o plano de Deus deliberadamente criou o negro, negro. Procura infundir na comunidade negra um novo orgulho de si mesma, de seus esforços, seus sistemas de valores, sua cultura, religião e maneira de ver a vida.

A inter-relação entre a consciência do ser e o programa de emancipação é de importância primordial. Os negros não mais procuram reformar o sistema, porque isso implica aceitar os pontos principais sobre os quais o sistema foi construído. Os negros se acham mobilizados para transformar o sistema inteiro e fazer dele o que quiserem. Um empreendimento dessa importância só pode ser realizado numa atmosfera em que as pessoas estejam convencidas da verdade inerente à sua condição. Portanto, a libertação tem importância básica no conceito de Consciência Negra, pois não podemos ter consciência do que somos e ao mesmo tempo permanecermos em cativeiro. Queremos atingir o ser almejado, um ser livre.

O movimento em direção à Consciência Negra é um fenômeno que vem se manifestando em todo o chamado Terceiro Mundo. Não há dúvidas de que a discriminação contra o negro em todo o planeta tem origem na atitude de exploração, por parte do homem branco. Através da História, a colonização de países brancos pelos brancos resultou, na pior das hipóteses, numa simples fusão cultural ou geográfica, ou, na melhor, no abastardamento da linguagem. É verdade que a história das nações mais fracas é moldada pelas nações maiores, mas em nenhum lugar do mundo atual vemos brancos explorando brancos numa escala ainda que remotamente semelhante ao que ocorre na África do Sul. Por isso somos forçados a concluir que a exploração dos negros não é uma coincidência. Foi um plano deliberado que culminou no fato de até mesmo os chamados países independentes negros não terem atingido uma independência real.

Com esse contexto em mente, temos de acreditar então que essa é uma questão de possuir ou não possuir, em que os brancos foram deliberadamente determinados como os que possuem, e os negros os que não possuem. Entre os brancos na África do Sul, por exemplo, não existe nenhum trabalhador no sentido clássico, pois até mesmo o trabalhador branco mais oprimido tem muito a perder se o sistema for mudado. No trabalho, várias leis o protegem de uma competição por parte da maioria. Ele tem o direito de voto e o utiliza para eleger o governo nacionalista, uma vez que os considera os únicos que, por meio das leis de reserva de empregos, se esforçam em cuidar de seus interesses contra uma competição por parte dos “nativos”.

Devemos então aceitar que uma análise de nossa situação em termos da cor das pessoas desde logo leva em conta o determinante único da ação política – isto é, a cor – ao mesmo tempo que descreve, com justiça, os negros como os únicos trabalhadores reais na África do Sul. Essa análise elimina de imediato todas as sugestões de que algum dia pode haver um relacionamento efetivo entre os verdadeiros trabalhadores, ou seja, os negros, e os trabalhadores brancos privilegiados, já que mostramos que estes últimos são os maiores sustentáculos do sistema. Na verdade o governo permitiu que se desenvolvesse entre os brancos uma atitude anti-negro tão perigosa que ser negro é considerado quase um pecado, e por isso os brancos pobres – que economicamente são os que estão mais próximos dos negros – assumiram uma postura extremamente reacionária em relação a eles, demonstrando a distância existente entre os dois grupos. Assim, o sentimento antinegro mais forte se encontra entre os brancos muito pobres, a quem a teoria de classes convoca para se unirem aos negros na luta pela emancipação. É esse tipo de lógica tortuosa que a abordagem da Consciência Negra procura erradicar.

Para a abordagem da Consciência Negra, reconhecemos a existência de uma força principal na África do Sul. Trata-se do racismo branco. Essa é a única força contra a qual todos nós temos de lutar. Ela opera com uma abrangência enervante, manifestando-se tanto na ofensiva quanto em nossa defesa. Até hoje seu maior aliado vem sendo nossa recusa em nos reunirmos em grupo, como negros, pois nos disseram que essa atitude é racista. Desse modo, enquanto nos perdemos cada vez mais num mundo incolor, com uma amorfa humanidade comum, os brancos encontram prazer e segurança em fortalecer o racismo branco e explorar ainda mais a mente e o corpo da massa de negros que não suspeitam de nada. Os seus agentes se encontram sempre entre nós, dizendo que é imoral nos fecharmos num casulo, que a resposta para nosso problema é o diálogo e que a existência do racismo branco em alguns setores é uma infelicidade, mas precisamos compreender que as coisas estão mudando. Na realidade esses são os piores racistas, porque se recusam a admitir nossa capacidade de saber o que queremos. Suas intenções são óbvias: desejam fazer o papel do barômetro pelo qual o resto da sociedade branca pode medir os sentimentos do mundo negro. Esse é o aspecto que nos faz acreditar na abrangência do poder branco, porque ele não só nos provoca, como também controla nossa resposta a essa provocação. Devemos prestar muita atenção neste ponto, pois muitas vezes passa despercebido para os que acreditam na existência de uns poucos brancos bons. Certamente há uns poucos brancos bons, do mesmo modo que há uns poucos negros maus.

Mas o que nos interessa no momento são atitudes grupais e a política grupal. A exceção não faz com que a regra seja mentirosa – apenas a confirma.

Portanto, a análise global, baseada na teoria hegeliana do materialismo dialético, é a seguinte: uma vez que a tese é um racismo branco, só pode haver uma antítese válida, isto é, uma sólida unidade negra para contrabalançar a situação. Se a África do Sul deve se tornar um país em que brancos e negros vivam juntos em harmonia, sem medo da exploração por parte de um desses grupos, esse equilíbrio só acontecerá quando os dois opositores conseguirem interagir e produzir uma síntese viável de idéias e um modus vivendi. Nunca podemos empreender nenhuma luta sem oferecer uma contrapartida forte às raças brancas que permeiam nossa sociedade de modo tão efetivo.

Precisamos eliminar de imediato a ideia de que a Consciência Negra é apenas uma metodologia ou um meio para se conseguir um fim. O que a consciência Negra procura fazer é produzir, como resultado final do processo, pessoas negras de verdade que não se considerem meros apêndices da sociedade branca. Essa verdade não pode ser revogada. Não precisamos pedir desculpas por isso, porque é verdade que os sistemas brancos vêm produzindo em todo mundo grande número de indivíduos sem consciência de que também são gente. Nossa fidelidade aos valores que estabelecemos para nós mesmo também não pode ser revogada, pois sempre será mentira aceitar que os valores brancos são necessariamente os melhores. Chegar a uma síntese só é possível com a participação na política de poder. Num dado momento, alguém terá que aceitar a verdade, e aqui acreditamos que nós é que temos a verdade.

No caso de os negros adotarem a Consciência Negra, o assunto que preocupa principalmente os iniciados é o futuro da África do Sul. O que faremos quando atingirmos nossa consciência? Será que nos propomos a chutar os brancos para fora do país? Eu pessoalmente acredito que deveríamos procurar as respostas a essas perguntas no Manifesto Político da SASO e em nossa análise da situação da África do Sul. Já definimos o que para nós significa uma integração real, e a própria existência de tal definição é um exemplo de nosso ponto de vista. De qualquer modo, nos preocupamos mais com o que acontece agora que com o que acontecerá no futuro. O futuro sempre será resultado dos acontecimentos presentes.

Não se pode subestimar a importância da solidariedade dos negros com relação aos vários segmentos da comunidade negra. No passado houve muitas insinuações de que uma unidade entre negros não era viável porque eles se desprezam um ao outro. Os mestiços desprezam os africanos porque, pela proximidade com esses últimos, podem perder a oportunidade de serem assimilados pelo mundo branco. Os africanos desprezam os mestiços e os indianos por várias razões. Os indianos não só desprezam os africanos mas, em muitos caso, também os exploram em situações de trabalho e de comércio. Todos esses estereótipos provocam uma enorme desconfiança entre os grupos negros.

O que se deve ter sempre em mente é que:

1. Somos todos oprimidos pelo mesmo sistema;
2. Ser oprimidos em graus diferentes faz parte de um propósito deliberado para nos dividir não apenas socialmente, mas também com relação às nossas aspirações;
3. Pelo motivo citado acima, é preciso que haja uma desconfiança em relação aos planos do inimigo e, se estamos igualmente comprometidos com o problema da emancipação, faz parte de nossa obrigação chamar a atenção dos negros para esse propósito deliberado;
4. Devemos continuar com nosso programa, chamando para ele somente as pessoas comprometidas e não as que se preocupam apenas em garantir uma distribuição equitativa dos grupos em nossas fileiras. Esse é um jogo comum entre os liberais. O único critério que deve governar toda nossa ação é o compromisso.

Outras preocupações da Consciência Negra dizem respeito às falsas imagens que temos de nós quanto aos aspectos culturais, educacionais, religiosos e econômicos. Não devemos subestimar essa questão. Sempre existe uma interação entre a história de um povo, ou seja, seu passado, e a fé em si mesmo e a esperança em seu futuro. Temos consciência do terrível papel desempenhado por nossa educação e nossa religião, que criaram entre nós uma falsa compreensão de nós mesmos. Por isso precisamos desenvolver esquemas não apenas para corrigir essa falha, como também para sermos nossas próprias autoridades, em vez de esperar que os outros nos interpretem. Os brancos só podem nos enxergar a partir de fora e, por isso, nunca conseguirão extrair e analisar o etos da comunidade negra. Assim, e para resumir, peço a esta assembléia que procure o Manifesto Político da SASO, que apresenta os pontos principais da Consciência Negra. Quero enfatizar novamente que temos de saber com muita nitidez o que queremos dizer com certas expressões e qual o nosso entendimento quando falamos de Consciência Negra.

 

“A Definição da Consciência Negra”, escrito por Bantu Steve Biko, em dezembro de 1971.

Resgate do Núcleo de Estudantes Negras “Ubuntu” / Universidade do Estado da Bahia – UNEB

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Política racismo

XV MARCHA DA CONSCIÊNCIA NEGRA TE CONVIDA A SER RESISTÊNCIA

Por Marina Souza

A 15º edição da Marcha da Consciência Negra ocorrerá na próxima terça-feira (20), em São Paulo, com a intenção de relembrar a importância e relevância de datas e lutas diárias contra o racismo. Apresentações musicais, dançarinos, performers, entre outros grupos estarão presentes ajudando a fortalecer o sentimento da resistência preta brasileira.

“É o primeiro ato voltado a causa racial após o resultado das eleições e é importante que tenha muita gente para marcar posição. Se por um lado há o governo de Bolsonaro, por outro há uma grande organização negra consciente de que o racismo existe e precisa ser combatido”, diz Beatriz Lourenço, militante da UNEAFRO.

Para a bióloga Maria Menezes, militante do Núcleo de Consciência Negra na USP, “o encarceramento em massa, genocídio da juventude negra, desemprego e aumento da mortalidade infantil são preocupações fundamentais do movimento negro brasileiro”.

Veja a seguir a descrição da página do evento:

XV MARCHA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Dia 20/11, concentração às 13h, no Vão Livre do MASP.

Negros e Negras resistem e marcham por direitos, pela democracia e contra o fascismo.
MARCHAM pelo Poder para o Povo Preto
MARCHAM pela Liberdade de expressão e a Liberdade Religiosa
MARCHAM por Marielle, Anderson, Moa do Catende e Charlione Lessa
MARCHAM por Marcelo Dias, por cada jovem negro morto pelo genocídio e por cada Mulher Negra morta pelo feminicídio
MARCHAM contra a Homofobia, contra todas as formas de Violência, contra a Intolerância ,o Descaso e a Xenofobia
NEGROS e NEGRAS MARCHAM pelo direito a viver uma vida digna, sermos livres e respeitados na nossa Diversidade,
Pluralidade.

#RACISMONÃO
#20NOV
#VidasNegrasImportam
#DiadeResistencia

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Política

Incansável batalha pela democracia: como resistimos até aqui

Por Lais Rocio, de Vitória/ES

Desde o início desse período eleitoral até hoje, muita gente lutou sem parar contra o avanço do ódio e fascismo espalhado por Jair Bolsonaro. Retratamos tudo isso pelos dias de resistência da atriz e escritora Elisa Lucinda; do rapper Gog e da militante Mônica Francisco, ex-assessora de Marielle Franco e eleita deputada estadual pelo Rio de Janeiro.

A batalha é diária, incansável e inteiramente dedicada a combater a violência com afeto, a intolerância com diálogo. Assim foi e têm sido a rotina de defensores da democracia de distintos setores da sociedade durante este período de eleições. Pessoas do meio político e cultural que vêm dedicando sua vida diária a uma mesma tarefa: impedir o avanço das ideias e práticas violentas do candidato à presidência pelo PSL e seus apoiadores, que exaltam a tortura, a ditadura, diversos tipos de preconceitos e violações de direitos humanos.

“Me transformei em uma ‘vira-voto’ incansável. Em tudo que escrevo e faço, me dedico a essa eleição. É um momento de total dedicação dos democratas”, conta a atriz, cantora, poeta e diretora Elisa Lucinda. Ela ecoou sua expressão política de várias formas durante essas eleições, nas ruas e nas redes sociais. Participou de atos públicos e manifestos de artistas, escreveu assiduamente sobre o tema em sua coluna no Jornal do Brasil, e até mesmo levantou esse debate ao redor do país nos espetáculos de seu monólogo “Parem de falar mal da rotina”.

O objetivo pontual e urgente tem sido a virada dos votos a favor da vitória de Fernando Haddad (PT) à presidência da república, que deu um tímido sinal de esperança nas pesquisas eleitorais divulgadas pelo Data Folha na quinta-feira, 25, indicando 56% do candidato do PSL e 44% para seu adversário. A diferença entre os dois teve queda de seis pontos, a rejeição ao militar subiu, e ao petista reduziu. Ainda que o cenário continue favorável e quase certo para a vitória de Bolsonaro, e com ela as crescentes ameaças de deterioração da democracia e das conquistas por igualdade, os diversos representantes dessa luta pela virada persistem acreditando e não declaram uma batalha perdida, mesmo dois dias antes do segundo turno.

Para eles, a conscientização de eleitores representa muito mais que uma disputa presidencial. O que está em jogo são os direitos e conquistas de todos, inclusive as vidas de milhares de brasileiros, especialmente mulheres, negrxs, indígenas e lgbt’s constantemente ameaçados pelas falas do ex-deputado. O que motivou pelo menos 50 ataques de seus eleitores, tal como foi a morte do mestre capoeirista Môa do Katendê, movida pelo fato dele ter declarado seu voto em Fernando Haddad. E como diz o rapper Gog, que ocupa o cenário de luta política e social há mais de 30 anos, é “a eleição das nossas vidas”.

“Não é uma eleição normal,
é de autorização da violência apontada pelo candidato
que é um fascista declarado”, pontua Elisa Lucinda.

Para além disso, esse trabalho cotidiano que fazem pelo combate aos preconceitos não é de hoje. É histórico e contínuo em suas vidas: “Isso não é nada que nós já não passamos historicamente. Para nós, povo preto e favelado, sempre vivemos dramas na nossa existência”, revela Mônica Francisco.

Com a experiência de 30 anos de militância, Mônica representa uma importante barreira contra o avanço do conservadorismo nessas eleições: a resistência histórica das mulheres negras de periferia, que tiveram mais visibilidade especialmente após o assassinato de Marielle Franco. Tendo feito parte do gabinete da vereadora, a futura deputada defende e propõe não só a representatividade preta, mas também políticas públicas de valorização das lutas históricas da negritude, que se tornam ainda mais desafiadoras nesse momento: “A presença de figuras como Jair Bolsonaro é também uma resposta social. É resultado de uma parcela da população que não esconde mais o seu racismo”, reconhece.

Dedicando boa parte de sua rotina à conscientização de eleitores para a virada dos votos, o rapper Gog também resgata a transformação social que sempre fez em três décadas de carreira artística, desde suas lutas ativistas nos anos 90. Assim, sendo um dos maiores representantes do movimento hip hop nacional, durante essas eleições ele ergueu uma luta de continuidade e coerência com a revolução que esse gênero sempre causou nas periferias, nas comunidades negras e também nos centros urbanos:

“A maioria das pessoas do hip hop trabalha para a democracia, mesmo magoado com o PT. É porque a gente acredita que a liberdade de expressão conquistada na redemocratização e que o hip hop conquistou com o trabalho não combina com Bolsonaro”, declara em uma live em sua página no Facebook.

Diante do momento que ameaça valores essenciais à democracia como o diálogo plural, o respeito mútuo e a livre troca de ideias, eles resistem de forma didática e ágil. Como antídoto para o fascismo, apostam em sensibilizar pessoas, aproximar histórias e gerar reflexão.

“É educativo e pedagógico, nada melhor que exemplos muito simples. Por que só tem negros e negras nas prisões, por que só pessoas pretas são revistadas? Assim mostramos que coisas corriqueiras do cotidiano são resultados do racismo. Não adianta fazer discursos que não alcançam exemplos”, conta Mônica, que também combate os preconceitos nas igrejas evangélicas, como pastora.

É em meio às atividades banais do cotidiano que Elisa Lucinda também se posiciona, provocando simples questionamentos que desconstroem o ódio do antipetismo. Angustiada e preocupada com amigos, artistas, pessoas negras e mulheres defendendo um político que ameaça suas próprias vidas, ela puxa o assunto a todo momento com todos que convive. Inclusive com garçons, vendedores, taxistas, que ela enxerga muitas vezes sendo obrigados por seus patrões a votarem contra Haddad.

Em uma conversa com o segurança de um banco, que é negro e declarou seu voto em Bolsonaro, Elisa o questionou com respeito: “Ué, mas você vai votar contra nós mesmos? Ele diz que seus filhos não casariam com negros porque foram bem educados. Eu sou uma mulher preta de respeito. O povo preto já está morrendo, tenho medo de assassinarem o meu filho negro, minha cumadre lésbica”. No fim, ele repensou seu voto com um: “é mesmo, não tinha pensado nisso”. Expressando seu posicionamento com afeto e informação, Elisa acredita na virada por ter despertado diálogos como esse, que já levaram muitos de seus conhecidos a mudarem de posicionamento.

“Minha resistência é pela palavra,
o meu ‘vira-voto’ é por reflexão”,
reconhece a poeta.

A palavra também é ferramenta de luta de Gog, que vem há meses reafirmando constantemente a denúncia da “guetofobia” expressada pelo militar do PSL em suas propostas e ideias. Pela quais o candidato já julgou lutas da comunidade negra, feminista e lgbt como “coitadismo”, as ações do MST como “terroristas”, e disse graves discriminações e ameaças contra quilombolas e indígenas.

Gog participa de atos públicos, apresentações e debates educativos, explicando os riscos dessa condutas fascistas e violentas. Assim, ele também vivenciou o processo eleitoral passando horas em vídeos ao vivo no Facebook. Ali, se colocava disposto a ler as crescentes opiniões bolsonaristas ou neutras, e as respondia respeitosamente com explicações didáticas sobre o momento. Sua luta se dedica especialmente a conscientizar e negritude das favelas: “A periferia não pode ser contra a periferia. Os periféricos não podem ser contra as lutas negras. Não podemos ser a favor de mais cadeias, quando a maioria dos encarcerados são do nosso povo”, disse ele, em entrevista ao Jornal Empoderado, durante um o Ato Lula Livre no Capão Redondo, em São Paulo.

 

Tudo isso ficou ainda mais expressivo em seu novo videoclipe, “O rap rompe a rima”, com a participação dos rappers Cristiane Sobral, Dree-K, Rebeca Realleza e Henrique QI. Na música, os artistas afrontam as declarações machistas, racistas, homofóbicas e pró-tortura de Bolsonaro. Assim, o rapper reflete a urgência de se posicionar na linha de frente dessa resistência, espalhando ideias de conscientização e respeito com a mesma rapidez que os discursos de ódio têm sido disseminados. E como mostra Elisa Lucinda, tudo isso é parte fundamental da arte: “Não faz sentido ser artista sem espairecer o nosso tempo. A gente traduz a realidade, as contradições dela e as nossas potências dentro dela. O espetáculo é o meu comício.”