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Césare Battisti e o Juiz na Bruzundanga Revisitada

Por Espaço Cultural Mané Garrincha

Até que nos prove o contrário, a cidade de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, continua sob jurisdição brasileira. Mas não parece ser este o entender do senhor juiz Odilon de Oliveira, da 3.ª Vara Federal de Campo Grande, ao proferir a prisão preventiva do ex-ativista italiano, e hoje escritor literário, Césare Battisti, no último dia 4 do mês corrente. Para coroar o show de sapiências e confirmar que essa é mesmo a terra dos bruzundangas de que nos advertira Lima Barreto, o doutor Odilon convocou uma coletiva de imprensa para (pasmem!) anunciar que aquele era seu último dia de desembargador e que no ano seguinte seria candidato ao pleito eleitoral.
Segundo o mesmo juiz, Battisti fora preso por questão de segurança nacional (sic) e possível fuga do país, ainda que o acusado já esteja vivendo no Brasil há onze anos sem nenhuma atitude que desabone sua conduta, sendo resguardado pela lei que lhe confere status de imigrante permanente concedido pelo decreto presidencial de Lula da Silva em 2010 e ratificado pelo STF em 2011.
Integrante do PAC (Proletários Armados pelo Comunismo), organização revolucionária clandestina nos anos setenta, Battisti foi julgado à revelia em seu país após delação premiada de um traidor e sentenciado a duas prisões perpétuas por supostos quatro homicídios. Desses, (pasmem novamente) dois ocorridos no mesmo dia e instantes, porém, em cidades separadas por mais de 200 km de distâncias uma da outra.
Seu país de origem é um país controverso. Livrou-se de Benito Mussolini no pós-guerra e abraçou a democracia, porém, encastelou toda uma gama de fascistas em suas repartições públicas. A máfia, que bem sabe da importância de um Estado deste tipo para negócios ilícitos bem sucedidos também foi buscar seu quinhão, ou alguém acha que Berlusconi caiu de páraquedas na chefia daquele Estado? Pois bem, foi esse tipo de Estado que Césare Battisti combateu de armas nas mãos.
Derrotado militarmente, fugiu para não ser assassinado por seus inimigos. Vindo parar em terras brasileiras, sua vida continua ameaçada. Portanto exigimos:
1) Que o status de imigrante permanente conferido a Césare Battisti pelo Estado brasileiro não seja mera retórica, mas força de lei; 2) Que a Itália pare de tratar o Brasil como fosse uma criança envelhecida que não sabe o que faz e passe a respeitar a nossa soberania nacional; 3) Que Michel Temer não suje suas mãos de sangue ao entregar Césare Battisti à justiça italiana; 4) Que a mesma exigência feita a Michel Temer seja estendida ao ministro Luiz Fux do STF, responsável pelo desfecho jurídico da situação de Césare Battisti no Brasil;
É o que tínhamos por dizer para o momento.

 

PETIÇÃO CONTRA A EXTRADIÇÃO DE CESARE BATTISTI

 

Queridos amigos:

Numerosas organizações, sindicatos, movimentos sociais, partidos, entidades culturais, e pessoas de todos os setores e atividades, estamos pedindo assinaturas em favor do direito de Cesare Battisti de conservar sua condição de residente permanente no Brasil.

Ao mesmo tempo, em nossa petição exigimos o fim da interminável perseguição contra ele,movida por interesses políticos, por ódio ideológico e cultural, por sentimento de vingança, e, sobretudo, pelo interesse tortuoso de ambos os governos, o italiano e o brasileiro, de distrair a atenção de seus povos fazendo um circo romano.

Há seis anos e meio que Battisti vive em liberdade no Brasil, escrevendo livros que são publicados em diversos países, e cuidando de sua família e de sua vida social. Ele tem um filho brasileiro de quatro anos que é dependente econômica e afetivamente dele.

Apesar da extrema perseguição por parte das elites, de duas graves tentativas de sequestros apoiadas por grupos ligados à polícia, o MP, e, agora, ao governo, Battisti manteve sempre a serenidade, a dignidade e a observância da lei Brasileira.

Pedimos a todos os amigos que cliquem este link, assinem e façam conhecer a seus amigos e contatos.

 

www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR102530

 


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Colabore com as mulheres empreendedoras da Uneafro-Brasil

 

                  

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Além de se vestir com as imagens e cores de nossa resistência, você estará contribuindo para manter financeiramente um movimento de luta, autônomo e independente!

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Protestos

Em pleno carnaval, Garis paralisam Rio de Janeiro

De Douglas Belchior

Haiti? África do Sul? Não. É Rio de Janeiro.

É um Bloco de Carnaval? É gol do Flamengo? Não. É uma manifestação dos trabalhadores Garis, na principal avenida do Rio de Janeiro, em pleno sábado de Carnaval. E prometem mais para este domingo e nos dias a seguir.

A manifestação dos garis no Rio de Janeiro me fez lembrar a agonia que senti durante os protestos de Junho de 2013 e mesmo as que se seguiram e as que estão se dando ainda hoje… digo, o perfil do povo que a compõe.

O dia que a favela descer, que a periferia ocupar, que a negrada enraivecer… quero ver quem vai segurar!

Todo apoio aos Garis do Rio de Janeiro!

 

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De EBC, Agencia Brasil e Nova Democracia

 

Na tarde deste sábado (25/02) cerca de três mil garis fizeram uma passeata da Central do Brasil à prefeitura do Rio de Janeiro.

O movimento exige melhores salários e condições de trabalho para garis e agentes de preparo de alimentos, além do triênio ao qual a categoria tem direito e 100% dos domingos e feriados.

“Recebemos um copo de leite e um pão dormido de manhã para trabalhar o dia inteiro, correndo atrás do caminhão. Não nos pagam adicional por feriados e fins de semana. E as condições de trabalho são as piores possíveis”, disse um dos manifestantes.

 

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Para variar, violência policial contra manifestação

 

A passeata foi interrompida pela Tropa de Choque da Política Militar na avenida Presidente Vargas, a pouco metros da sede da prefeitura. Os policiais usaram bombas de gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes.

Além de exigir melhores condições de trabalho por parte da prefeitura, o movimento ainda exige autonomia em relação ao Sindicato, que não reconhece a paralisação.

Um dos organizadores do protesto, Bruno Lima, que é gari, disse que a categoria está há três anos insatisfeita com as condições de trabalho e avalia que o carnaval é o momento ideal para mostrar a importância da categoria para a cidade. ” A gente não aguenta mais. São salários muito baixos, de cerca de R$ 900, o tíquete está defasado e as condições do trabalho são péssimas. Falta funcionário, a Comlurb virou cabideiro politico e, quem trabalha de forma operacional, não tem valor”, disse.

O movimento prometeu dar seguimento ao movimento neste domingo (2) de carnaval. 

Segundo informou à Agência Brasil Fábio Araújo Coutinho, gari da Comlurb há 16 anos, o Sindicato de Empregados de Empresas de Asseio e Conservação do Município do Rio de Janeiro havia convocado a greve e à meia-noite da última sexta-feira (28) enviou notificação à companhia, cancelando a paralisação. Fábio disse que o movimento foi criado entre os próprios garis e não tem uma liderança.

Os integrantes do grupo preferem não citar nomes, “para não serem perseguidos pela empresa”, relatou. Acrescentou que neste domingo muitos funcionários estão sofrendo intimidação e assédio moral por parte de seus gerentes, para continuarem trabalhando.

Os garis da Comlurb reivindicam aumento do piso salarial, hoje de R$ 803, para R$ 1,2 mil. De acordo com Fábio Coutinho, a prefeitura ofereceu piso de R$ 877. A categoria pleiteia ainda aumento do tíquete-refeição de R$ 12 para R$ 20 por dia, a volta do pagamento do triênio e do quinquênio, “que nos foram tirados”, além do pagamento de horas extras pelos domingos e feriados trabalhados. A Comlurb, disse Fábio, não paga horas extras pelo trabalho nesses dias e oferece apenas um tíquete de R$ 12. “Os funcionários são tratados quase como escravos e fazem os serviços sem segurança nenhuma”, acrescentou.

A Comlurb não soube explicar até o momento a razão da grande quantidade  de lixo  acumulada na cidade, até esta hora, em especial nos Arcos da Lapa e ruas situadas no entorno. A  empresa esclareceu, por meio de sua assessoria de imprensa, que como os foliões permanecem nas ruas à noite, após a passagens dos blocos, a limpeza só pode ser feita com as vias inteiramente livres, para permitir os serviços do caminhão varredeira e do lava-jato. A companhia está apurando se o excesso de detritos está relacionado com a manifestação do grupo de garis, “sem representatividade junto à categoria”, segundo o sindicato.

 

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Protestos

Stuart Hall, os black bloc’s e a criminalização dos movimentos sociais

De Douglas Belchior

 

Mãos que acendem o rojão;

Mãos que empunham as armas que obrigam a autodefesa dos que acendem rojões;

Mãos dos que dão a ordem aos soldados que reprimem com armas manifestantes que por sua vez, acuados, se auto-defendem;

Mãos que assinam decretos que aumentam o peso da exploração do povo;

E “mãos que se rendem, por outras que tudo levam…”

E a polícia e a imprensa sangrenta procuram as mãos assassinas… Mas que mãos são assassinas?

Em meio ao debate sobre a trágica morte do trabalhador cinegrafista da Rede Bandeirantes Santiago Ilídio Andrade, atingido por um rojão durante um dos protestos contra o aumento das passagens no Rio de Janeiro, meu companheiro de luta antirracista Deivison Nkosi, professor universitário e militante do grupo Kilombagem, aprofunda a reflexão através de um interessante paralelo com o pensamento do intelectual jamaicano Stuart Hall, morto também essa semana.

Vale a pena ler!

 

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Foto Página dos Black Block 

 

Por Deivison NkosiGrupo KILOMBAGEM

Neste dia 10 de fevereiro, morreram dois homens que ficarão para a história.

A primeira morte, ocorrida em Londres, Stuart Hall, um intelectual jamaicano que vivia na Inglaterra e principal nome dos estudos pós-coloniais, nos deixa uma robusta produção teórica que ainda não foi suficientemente dimensionada. Seu vasto campo de estudos, trás como elemento importante, a desconstrução da racialização e dos estigmas (presentes e atuantes) provocados pela colonização. Toda morte é uma perda, mas esta, ganha notoriedade por ser de um intelectual (diaspórico) que em vida, provocou-nos a pensar o mundo, para além do que nossa visão turva estava disposta. Uma morte que anuncia o fim do ciclo de vida de um ser humano, que deixou suas contribuições para além de seus limites biológicos. Hall “after life”  ainda será foco de muitas reflexões.

A segunda morte, e não menos importante (aliás, dessa se falará muito mais pelos próximos tempos) é do trabalhador-  também negro –   cinegrafista da Rede Bandeirantes Santiago Ilídio Andrade, de 49 anos, morto em serviço após ser alvo acidental de algum tipo de explosivo durante os protestos contra o aumento de passagem no Rio de Janeiro. Uma tragédia sem precedentes que certamente será utilizada contra os movimentos sociais brasileiros.

Uma tragédia para amigos e famílias do cinegrafista; uma tragédia para a categoria de jornalistas, mas, sobretudo, para o conjunto dos movimentos sociais, que a muito vem denunciando as desigualdades do nosso país. A tragédia é sem precedentes, não porque nunca houve acidentes a repórteres durante as manifestações – aliás, se a Associação dos Profissionais do Repórteres Fotográficos – AFORC fizer uma retrospectiva em seus documentos, encontrará uma grande lista de reportes agredidos e gravemente feridos neste tipo de evento pelas força da ordem. A tragédia é sem precedentes, porque ao que afirmam empolgadas as controversas investigações (com advogado de miliciano defendendo “black bocker” e vinculando indiretamente o nome de políticos que ameaçam a atual hegemonia política-eleitoral no RJ), o “artefato” causador da morte saiu das mãos de um manifestante.Bingo!!!!

“Era a brecha que o sistema queria”, avisa os carniceiros “que chegou o grande dia”

O que assusta, nesta paráfrase dos Racionais MCs, além da tristeza e pesar pela morte de  um ser humano no exercício da sua função, é ver confirmado na Televisão (Tiravisão, como classifica o meu tio evangélico) um aspecto medonho da teoria de Stuart Hall:

O significado não é um reflexo transparente do mundo da linguagem, mas surge das diferenças entre os termos e as categorias, os sistemas de referência, que classificam o mundo e fazem com que ele seja apropriado desta forma pelo pensamento social e o senso comum. (Hall, 2009:177)

A trágica morte do Santiago não terá o mesmo significado que a morte de outros trabalhadores de sua cor (neste país que mata negro por ser negro): Não porque sua profissão seja melhor do que a profissão dos trabalhadores (a maioria negros) mortos nas obra da Copa ou do PAC, não porque esse confronto (que ele cobria e registrava) seja diferente dos outros em que repórteres também  foram agredidos e até mutilados no exercício da função (me refiro ao repórter que perdeu o olho em Junho de 2013 após ter sido atingido por uma bala de borracha disparada pelos aparatos de repressão estatal).  O significado desta morte, está justamente na – ha muito tempo esperada – chance de colocar a tragédia na conta dos movimentos sociais.

É aqui que o pensador jamaicano (que infelizmente também morreu hoje) entra novamente para nos ajudar: a racialização, para ele (inspirado em sua leitura de Frantz Fanon), não é só o preconceito ao negro, mas é o ato de depositar no Outro (esse outro pode ser o gay, o negro, a mulher, os árabes, os movimentos sociais) as agressividades libidinais que são nossas (da sociedade como um todo).

Dizer que foi o Black Bloc que assassinou o jornalista, é ignorar que essa tática (eles não são um grupo, mas uma tática de autodefesa) só é útil diante da violenta, exagerada e desmedida REPRESSÃO POLICIAL. É ignorar que em geral, a violência em manifestações é sempre deflagrada pela repressão que elas encontram, e não aleatoriamente, como insistem em rotular os grandes veículos de comunicação; é  maquiar os dados de forma que  o problema passe a ser quem luta, e não o aumento da passagem, a mobilidade urbana e as desigualdades sociais.

O problema, que não é só dos cariocas, é que a significação (o significado) da morte do jornalista está em disputa, e a criminalização destes movimentos não será isolada, mas repercutirá em todo o contexto da luta de classes no Brasil (é amigo, ela existe, é só assistir o Jornal Hoje, que vc verá na nota de repudio da AFORC lida pela repórter global, com uma raiva que faz a higienista repórter do SBT Cheirazade parecer pacifista):

“Nós, jornalistas de imagem, exigimos que as autoridades de segurança do estado do Rio de Janeiro instaurem imediatamente uma investigação criminal para apurar quem defende, financia e presta assessoria jurídica a este grupo de criminosos, hoje assassinos, intitulados black blocs, que agridem e matam jornalista e praticam uma série de atos de vandalismos contra o patrimônio público e privado”, 

As Notas emitidas pelos órgãos de representação dos jornalistas não falam da violência policial, não dizem por que havia manifestação, mas incita o ódio institucional aos militantes… não se enganem! O apelo não é apenas contra o black bloc!

Ou o conjunto dos movimentos sociais se posiciona (aqui eu prefiro o Gramsci ao já saudoso Stuart Hall) nesse “jogo de significados”, politizando este debate em outros termos, ou assistiremos, de camarote no sofá das 8hs, a criminalização absoluta a qualquer tipo de movimento social que entrar em confronto com as forças de repressão do Estado… É sabido que os grandes meios de comunicação estão a serviço de um projeto de sociedade que garanta, mesmo sob nossos corpos, a plena circulação de mercadorias para acumulação de capitais.

Há um silencio desta grande mídia com a violência implícita às péssimas condições de vida; na imbecilização de seus suaves venenos midiáticos; no assassinato sistemático de jovens negros pelas periferias do Brasil. Mas ao mesmo tempo, evidente o seu apoio à aprovação das chamadas leis antiterrorismo em seu foco de institucionalização do terror contra quem ousar desafiar os grandes interesses em nome da vida (como é o caso de moradores desabrigados pelos governos locais, a mando da especulação imobiliária ligada à Copa do Mundo).

Se ficar provado que o dito “artefato” foi mesmo deflagrado por um manifestante, resta aos movimentos envolvidos fazer uma autocrítica e discutir criticamente os limites e possibilidades desta e de outras táticas de resistência ou enfrentamento. Pois de fato, qualquer passo em falso, será sempre usado contra os mais fracos. Mas é preciso não perder de vista que na imensa maioria das vezes (como no caso da manifestação em questão), quem inicia o confronto violento são as forças de repressão do Estado, buscando dispersar os manifestantes a bombas e cacetadas.

Choremos essa trágica morte, pois uma vida se perdeu… E uma vida interrompida é sempre o sinônimo de uma tragédia incalculável no seio da família e amigos que ficam… choremos por essa tragédia, mas não subestimemos a violência que esta se advogando contra quem, a partir de hoje ousar enfrentar estes “podres poderes”.

A Direita (bingo, ela também existe!!!) não se importa com mais um (negro) trabalhador morto em serviço- não esqueçamos que ele não usava os equipamentos de seguranças recomendados para esse tipo de ação, como capacete – mas explorará a dor dessa perda e  a indignação destes profissionais para legitimar seus próprios projetos espúrios.

 

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Protestos racismo

Nabil Sayhoun, representante dos Shoppings do país, sugere que jovens façam rolezinhos no Sambódromo.

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Ele também reafirma que a presença dos jovens negros, pobres e funkeiros é “muito perigosa” e que “as lojas podem ser saqueadas”.

 

Por Douglas Belchior

 

“Esse movimento tem que ser respeitado, mas tem que ser respeitado num local específico (…) Shopping Center não é lugar para essas pessoas”

“Imagine que tem em São Paulo o Sambódromo que é utilizado no Carnaval (…) um grande empreendimento feito com o dinheiro da população que fica aí fechado o ano inteiro, então a gente é a favor dessa juventude que tem que ter seu espaço, mas venhamos e convenhamos, Shopping Center não é lugar (…)”

“Você não consegue controlar (os jovens do rolezinho). Você não sabe se vai ter droga lá dentro. Você não sabe de pessoas mal intencionadas (…) É muito perigoso e se a gente não fizer absolutamente nada e permitir a entrada dessa garotada (…) as lojas podem ser saqueadas.”

 

Essas foram as palavras proferidas em tom ameno e dócil pelo Sr. Nabil Sayhoun, presidente da Associação Brasileira de Lojistas de Shopping no programa da jornalista Rita Lisauskas para o Portal Terra, do qual participei na última sexta feira.

ASSISTA AQUI O DEBATE COM NABIL SAYHOUN

 

O debate sobre rolezinhos dos jovens funkeiros, sobretudo a partir da concessão de liminares judiciais que garantem aos Shoppings o direito de discriminar e impedir a entrada de determinado grupo social, racial e cultural, tomou uma proporção inimaginável mas provocou também uma reação à altura da gravidade dos acontecimentos.

Os Shoppings estão certos? Apenas buscam proteger seu patrimônio? É correto cercear o direito de circulação ou selecionar, a partir de critérios “subjetivos”, a permissão de entrada de uns em detrimento de outros? E a Justiça acerta quando legisla e referenda a prática explícita de discriminação? É racismo?

Em São Paulo, a partir da iniciativa da Uneafro-Brasil e do Círculo Palmarino, mais de 100 organizações da sociedade civil formularam o “Manifesto de apoio à juventude negra, pobre e das periferias da cidade de São Paulo, pelo direito à circulação e a expressão de sua arte e cultura”.

Além do manifesto, promovemos no sábado 18/01 “Rolé contra o racismo” no elitizado Shopping JK Iguatemi. Ao perceber a aproximação da multidão de cerca de 400 pessoas, os seguranças baixaram as portas do Shopping que não voltou funcionar. Em seguida registramos um Boletim de Ocorrência no 96 DP pelo crime de discriminação racial e constrangimento ilegal.

O medo das elites racistas brasileiras

 

A Ministra da Igualdade Racial do Governo Federal, Luiza Bairros, disse que o “medo dos rolezinhos é reação dos brancos”. E concordo com ela.

Há 3 anos, escrevemos eu e Jaime Amparo Alves, doutor em Antropologia Social pela Universidade do Texas e Professor da Universidad Icesi, da Colômbia, um ensaio chamado “Desconstruir o racismo e forjar a utopia revolucionária negra”, onde registramos reflexões, hipóteses e principalmente perguntas a cerca das relações raciais no Brasil. Algumas delas ganham ainda mais sentido com o debate sobre o rolezinho:

“(…) a população negra continua sendo uma dor de cabeça para as elites do país, afinal, o que fazer com essa massa de gente feia, pobre e perversa que enche as favelas, polui a paisagem urbana e coloca em risco nossa segurança e nosso patrimônio? Como resolver o ‘problema’ cultural, religioso, econômico e político, representado pela presença negra no país que se quer “civilizado” e moderno?”

O grande amigo e companheiro Milton Barbosa, militante histórico e fundador do Movimento Negro Unificado em 1978, sempre lembra que o medo das elites brasileiras se acentuou a partir da revolução do Haiti, que durou 12 anos a partir de 1791, quando pela única vez na história, negros em luta tomaram o poder das elites brancas racistas pela força: “As elites brancas se arrepiavam só de pensar na hipótese de ver repetido no Brasil o que houve no Haiti…”

Para garantir que o Haiti não se repetisse no Brasil, o Estado brasileiro, instrumento das elites racistas e de seu capital privado consolidou, a partir de seus valores civilizatórios, o controle ideológico da cultura, da educação, dos meios de comunicação e da organização social do trabalho. E com isso, o controle sobre a vida e a morte dos negros brasileiros, tal qual vemos ainda hoje.

Como anestesia, a maior de todas as criações da intelectualidade brasileira: A ideia de democracia racial, por mim interpretada assim a partir das doces palavras de Sayhoun: “Não queremos conflito. Nós os respeitamos. Até gostamos de vocês! Mas vocês ficam lá, com seu samba, com seu rap, com seu funk, longe de nós, nas favelas ou no sambódromo. Deixe-nos aqui, com nosso privilégio natural, em nossos palácios de tranquilidade. Quando precisarmos, chamamos vocês para limpar!”

É Dr. Sayhoun… mas vosmicê não se lembrou da poesia de Caetano e Gil… o Haiti é aqui!

 

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Protestos

O espancamento do Coronel Rossi foi uma mentira, diz Black Bloc

Por Douglas Belchior

Confesso que a imagem da surra levada pelo Coronel da PM não me comoveu. Estou habituado a ver o contrário. Não senti pena e não achei um absurdo, afinal, a violência não é patrimônio da polícia ou do estado. Embora saiba que é preciso escolher entre vingança e justiça – e sou pela justiça, por um instante me senti vingado.

Há debates em curso sobre a “novidade” Black Bloc: Qual a validade da tática dos blocs? Até que ponto pode trazer resultados efetivos? O quanto pode servir de justificativa para o endurecimento da política de repressão contra os movimentos sociais e a população em geral? Mas, por que não considerar ou não respeitar outras formas de combate, para além do que é permitido? Eleições, manifestações, greves, passeatas, reuniões, audiências públicas, conferências e conselhos têm garantido pouca ou nenhuma conquista à juventude, às mulheres, aos negros, quilombolas, indígenas, à classe trabalhadora como um todo.

E tiramos os olhos do verdadeiro inimigo.

O texto abaixo foi publicado na página dos Black Bloc SP, ao que parece, por um dos próprios.

Vale a pena ler para nos ajudar a pensar.

 

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“O espancamento do Coronel Rossi foi uma mentira, peço humildemente pra que vocês leiam uma teoria, que de mentira não tem nada!

Primeiramente queria deixar claro que, Black Bloc, não é uma Quadrilha, não é um Bando e nem um Grupo. Black Bloc é uma tática de ação direta, usada em manifestações, e provém dos Anarquistas. Portanto, aquele que quiser se vestir de preto, cobrir o seu rosto e seguir a ideologia nas manifestações, é livre para isso, diferente do que a mídia e a polícia vem falando todas as semanas, batendo na mesma tecla, querendo achar algum líder, falando que são um grupo de vândalos ou até já vi comentários que aqueles que se vestem de preto são do PT. E vale lembrar que seus atos nas manifestações não é apenas ter como alvo os símbolos do capitalismo (Bancos, Burguer King e etc…), mas eles também se fazem presente na linha de frente das passeatas, para fazer uma barreira entre a população e a Tropa de Choque, e também poderem resgatar, ajudar, aqueles feridos, que passam mal ou o que puderem fazer ( No caso você nunca irá ver essa segunda parte sendo mostrada na televisão).

Black Bloc, existe no mundo inteiro, já esteve e se faz presente em todas as grandes manifestações pelo mundo. Eles são a grande ameaça dos símbolos de Opressão pelo mundo, como a Polícia e os Políticos. Mas aonde eu quero mesmo chegar é na Manipulação que o povo brasileiro vem sofrendo.

Vendo que as pessoas que aderem a tática Black Bloc vem crescendo cada vez mais pelo País, e também ganhando apoio por exemplo, dos Professores em greve do RJ, ou dos ativistas em proteção dos animais como no Instituto Royal, o Sistema vem ficando fudido, e os políticos, polícia, estão desesperados procurando algum jeito de manipular a sociedade, e faze-los ter uma visão que o Black Bloc é algo como o PCC, para depois prende-los, extermina-los , matar se for preciso, e o povo aplaudir de pé.

Primeiro a mídia começou a incriminar todas aquelas pessoas nos protestos em que usavam máscaras, pois bem, atingiram grande parte da população!

A televisão vem mostrando para todo o povo brasileiro, apenas vidros quebrados, fogo, carros da globo virados, para tentar acabar de qualquer jeito com o Black Bloc. Vendo que não deu certo, começaram a tentar da forma mais apelativa possível, e não estou falando dos P2 ( Policiais infiltrados em protestos, para promover quebra-quebra, tumulto e confrontos, para que a polícia venha pra cima de manifestantes pacíficos, e saia como a Polícia que apenas conteve manifestantes exaltados). E sim, do Coronel Rossi! Muitas pessoas vão me perguntar: ‘Aquele que apanhou de 10 caras? O que você está falando? Está louco? Isso não faz sentido!’

Pois bem, a polícia tem ido pra cima de manifestantes sem motivo algum nos protestos, e quem está lá sabe disso, e o Black Bloc após esses acontecimentos, tem confrontado a Tropa de Choque e Polícia de frente, não tem abaixado a cabeça, e mesmo assim, não vemos 1 vez na televisão as inúmeras imagens que correm na internet de manifestantes feridos, imprensa sendo agredida, fotógrafos que ficaram cegos, e etc…

Já que nada dessas sujeiras tem dado certo, o que eles bolaram? Vamos colocar um policial apanhando de 10 Black Blocs, divulgar isso para o Brasil todo, e assim mudaremos a imagem deles da água pro vinho!

Pois bem, esse plano sujo da PM = Pau Mandado + Políticos, começou essa semana com a divulgação da notícia em que o Diretor do DEIC, diz para a imprensa que os Black Blocs são uma Organização Criminosa ( Batendo na mesma tecla mais uma vez, mesmo sabendo que não existem líderes ou um grupo).

E na manifestação de ontem pela tarifa livre em SP, aconteceu o teatro que eles tanto ensaiaram! Coronel Rossi que aparece em uma imagem na internet no mesmo protesto, agindo com truculência pra cima de manifestantes, aparece no meio de vários atuantes da tática Black Bloc ao lado de um P2 e ainda li informações de que ele queria apenas negociar com os mesmos. Cá entre nós, até uma criança de 8 anos saberia que um PM aparecendo sozinho no meio de Black Blocs e com um P2 que estava sem farda e ninguém o reconheceria como PM, não ia sair coisa boa! Ainda mais com os nervos a flor da pele, não só dos Black Bloc, mas também dos manifestantes, de terem que levar tanta bomba de gás, spray de pimenta, apanhar e verem presos arbitrariamente nas manifestações.

E outra, ele foi negociar o quê? Vocês acreditam mesmo que ele foi ali para negociar algo? Sendo que já havia agido com violência pra cima de outros no mesmo protesto e sabendo o risco que corria de ir sozinho?

Pois bem, aconteceu o que ele queria, vários o cercaram, e o Coronel apanhou feio, mas muito feio! Tenho 2 perguntas para vocês.

1- A imprensa divulgou que a arma .40 do Coronel foi roubada, em nenhum momento do vídeo, você vê alguém tirando a arma do Coronel da cintura, e se ele tivesse ido mesmo com a intenção de negociar, não iria ir com um pé atrás? Mas nem levou a sua arma! Até porque, se tivesse com ela, pelo menos a sacaria, e iria disparar tiros para o alto ( algo que não é nenhuma novidade em protestos), mas não o fez, preferiu apanhar, e muita gente ainda acha que ele deixou de atirar porque foi um herói, ou elogiam esse fato, puro teatro, ou você acha que alguém ia ser espancado por inúmeras pessoas e não fazer nada tendo um revólver?

2- Porque o Coronel foi com um P2 ao seu lado, que é seu motorista e PM, que viu o coronel ser espancado por quase 1 minuto, e esperou alguns flash e gravações de vídeo para interferir, sacar uma arma, e depois tirá-lo do meio?

Pois é! O teatro foi feito, o coronel apanhou, o P2 esperou apanhar, fazerem filmagens, e depois o tirou de dentro da roda com uma arma na mão!

E pra finalizar com chave de ouro, quando estava saindo rumo ao hospital, com a imprensa na sua frente, disse para os outros policiais não saírem atirando nos manifestantes e não perderem a cabeça depois do ocorrido! Meio irônico ouvir isso de um Coronel, e de uma polícia que tem agido com extrema violência a professores no RJ, manifestantes no Brasil, as mídias independentes, uma polícia que fez prisões arbitrárias no Ocupa Câmara no RJ tanto na noite de ontem em SP, mesmo não tendo espancado algum coronel.

Aí você vai me perguntar: ‘Mas se o que eles queriam mesmo era um policial espancado pelos Black Blocs, e filmagens, porque não colocaram um soldadinho qualquer?’

Tudo isso que aconteceu, tem envolvimento político, e é favorável ao sistema, qualquer soldadinho, não iria ter envolvimento com isso, mas um CORONEL, sim! E ai pra finalizar a mentira e manipular ainda mais pessoas, nossa “grande” presidenta Dilma Rousseff postou no twitter o apelo pelas melhoras do Coronel Rossi, e repudiando, incriminando totalmente os Black Blocs. Sim! A nossa presidenta, que nunca abrira a boca pra prestar solidariedade nem para nossa ativista do Greenpeace Ana Paula, que já está presa fazem semanas na Rússia!

Parabéns ao Coronel, que com certeza garantiu sua aposentadoria e um $$ por fora bem gordinho, para a Televisão, que inclusive o Jornal Nacional foi o primeiro a mostrar! E para a presidenta Dilma Rouseff, que ficou fora do twitter por muito tempo, e resolveu voltar por uma coincidência em época de eleição!Querem manipular você, querem transformar o Black Bloc em uma Organização Criminosa, em uma Quadrilha! Não se deixe levar!”

Publicação by Black Bloc SP.