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Se Crispim fosse branco, a situação seria diferente

Por Marina Souza

“Perseguição se esquece? Tanta agressão enlouquece”, o verso de Boa Esperança, letra composta pelo cantor Emicida, faz referência às contantes violências sofridas pelos povos negros ao longo dos séculos e à mescla de sentimentos ruins que invadem esses corpos. O trecho parece descrever uma série de casos que têm viralizado nas redes sociais nas últimas semanas, o mais recentes é o do empresário Crispim Terral, vítima de um abuso policial ocorrido na última segunda-feira (25), em Salvador.

Terral, de 34 anos, estava em uma agência bancária da Caixa Econômica Federal e ao reclamar da demora, de quase cinco horas, do atendimento foi surpreendido com agressões físicas que poderiam ter o matado. Assim que ouviu a reclamação, um dos gerentes acionou a Polícia Militar, que deu um “mata-leão” no empresário.

https://www.youtube.com/watch?v=mSEVL0-wO8I

O vídeo repercutiu nas redes sociais e rapidamente diversas pessoas se posicionaram contra o episódio que, segundo a vítima, foi motivado por racismo. Na tarde de ontem (26), cerca de 100 pessoas se reuniram ao local do crime e protestaram em defesa de Crispim.

Em entrevista ao jornal G1, ele disse “eu não desejo isso a ninguém. Nem ao meu pior inimigo, que eu não tenho. É muito triste, é muito doloroso. Eu agradeço todas as mensagens de apoio. Estamos juntos. E vamos dizer não, mais uma vez, ao racismo.”.

O Ministério Público do Estado da Bahia disse que analisará a denúncia. Já a CAIXA afastou o gerente e informou, por meio de uma nota, que “está apurando e tomará todas as providências cabíveis […] e ressalta que repudia atitudes de discriminação cometidas contra qualquer pessoa”.

Ativistas realizam protesto no local do crime (Foto: Betto Jr./CORREIO)

Para Renata Lira, advogada penal e integrante do Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate à Tortura do Rio de Janeiro, o banco precisa tomar uma atitude séria em relação ao ocorrido. E afirmou ainda que se a reclamação ao gerente partisse de um homem branco, ele dificilmente teria sido submetido à este tipo de violência e humilhação. “Os homens negros têm uma chance muito maior de serem presos, constantemente são reconhecidos como culpados por crimes que nem estavam presentes no local”, relembrou ela.

 

 

 

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“Escravizar, nem de brincadeira”, diz Elza Soares sobre diretora da Vogue

Por Marina Souza

Uma nova polêmica tomou o espaço da internet nesse fim de semana: a festa de aniversário da diretora de estilo da Vogue, Donata Meirelles com fotos mostrando uma decoração racista vitalizaram nas redes sociais e despertaram a revolta de diversas pessoas, sobretudo artistas, ativistas e estudiosos acadêmicos. A cantora Elza Soares, que é bisneta de escrava e neta de escrava forra, publicou ontem (10) duas fotos em seu perfil no instagram protestando pelo ocorrido e dizendo:

“Hoje li sobre mais uma ‘cutucada’ na ferida aberta do Brasil Colônia. Não faço juízo de valor sobre quem errou ou se teve intenção de errar. Faço um alerta! Quer ser elegante? Pense no quanto pode machucar o próximo, sua memória, os flagelos do seu povo, ao escolher um tema para “enfeitar” um momento feliz da vida. Felicidade às custas do constrangimento do próximo, seja ele de qual raça for, não é felicidade, é dor. O limite é tênue. Elegância é ponderar, por mais inocente que sua ação pareça. […] Escravizar, nem de brincadeira.”

Meirelles, por sua vez, já havia se pronunciado no sábado (09) alegando que fez referências ao candomblé e pediu desculpas pelo mal entendido: “mas, como dizia Juscelino, com erro não há compromisso e, como diz o samba, perdão foi feito para pedir”. Contudo, o que ela chama de “erro” também pode ser considerado crime pela lei 7.716/1989.

Suponho que uma diretora da maior revista de moda do país deva ter, no mínimo, cuidados com a estética visual de uma festa que organiza. Nada é por acaso ou coincidência. Para Renato Noguera, filósofo e professor, a ideia de escravidão moderna existe através de um mercado que sustenta o racismo e práticas coloniais com novas faces camufladas por um discurso de liberdade.

Mas não precisa ser especialista em conflitos raciais para compreender que vestir mulheres negras de mucamas e usar um traje elegante dentro de um palácio faz parte de alguma temática. Muitas pessoas associaram a decoração do evento ao Brasil escravocrata, época que durou 388 anos, o país foi inclusive o último entre os ocidentais a ser abolicionista.

Donatta Meirelles cercada por mucamas no aniversário
Pedido de desculpas no Instagram

A tal liberdade de escolha na decoração também pode ser explicada pela naturalização estruturalmente enraizada. Em um país marcado por um racismo velado, que é escondido e destilado em altas proporções simultâneas, atitudes como estas, nas quais racistas são instantaneamente defendidos por grande parte da população, são comuns.

Segundo o Atlas de Violência 2018, a taxa de homicídios de negros é mais que o dobro da de brancos e cresceu 23,1% no período de 2006 a 2016. Apesar disso, muitos negligenciam e desacreditam da gravidade do racismo brasileiro.

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Vítimas do racismo, negros relembram momentos marcantes em suas vidas

Por Marina Souza

Todo 20 de novembro é a mesma coisa: “somos todos humanos”, gritam eles. Inspiro. Expiro. Mas a compreensão é ainda difícil. Do mesmo lado destes há também aqueles que reproduzem discursos com palavras de ordem mascarados de apoio, mas recheados de demagogia. De repente o Brasil não é um país racista. Por isso, a pergunta lhe faço: se não você, quem?

Quem nos humilhou na infância? Quem apontou o dedo do julgamento? Quem nos nega oportunidades? Quem nos menospreza diariamente? Quem reclama da vaga reservada pra cotista? Quem coloca um sorriso no rosto para me dizer que eu sou uma “negra linda”? Quem compartilha os memes do “negão do whatsapp”? Quem dá risada do Danilo Gentili? Quem gosta de nos hipersexualizar? Quem coloca a mão no nosso cabelo sem o menor consentimento? Quem pergunta se usamos shampoo? Quem considera “mimimi”? Quem desvia de nós nas ruas? Quem diz ter vários amigos negros para se justificar? Quem é negligente com o nosso sangue escorrendo no asfalto?

Caro leitor branco, sinto muito em lhe dizer que você não é tão exclusivo quanto gostaria de ser, acredite, você não é exceção. Isentar-se desta culpa nada mais é do que uma maneira de usufruir de privilégios que lhe são concedidos constantemente na sociedade estruturalmente racista em que vivemos.

O último país do mundo ocidental a abolir a escravidão ainda carrega graves cicatrizes e consequências deste período. Analisando alguns dados estatísticos é possível compreender melhor a dimensão do problema. O  Atlas da Violência 2018, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, mostra que em 2016 a taxa de homicídios de negros no Brasil foi 2,5 vezes maior do que a de não negros. É possível também dizer que um jovem negro tem 2,71 mais chances de ser assassinado do que um branco.

Durante o período de 2006 a 2016 o país teve uma queda de 8% no número de homicídios de mulheres brancas, enquanto o das negras aumentou em 15,4%. Apesar de sermos 54% da população brasileira, a última pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, realizada em 2015, mostra que apenas 30% das pessoas com nível superior completo são pretas ou pardas, número que apesar de baixo, apresentou melhoras devido as políticas afirmativas de cotas raciais.

Confira abaixo alguns relatos sobre o racismo sofrido pelo povo preto brasileiro

Vinicius Lourenço, 25 anos, músico:

Lembro de quando tinha 13 anos e estava na escola, voltando do recreio, quando vi várias folhas com uma foto minha. Estavam coladas pelos corredores das salas com a legenda “chuta que é macumba.”

F. M., 19 anos, estudante de Rádio, Tv e Internet:

Eu era muito amiga dessa menina, ela é da minha faculdade, saíamos sempre. Tínhamos dado um “rolê” e depois fui dormir na casa dela. Quando acordei no outro dia ouvi ela conversando com a namorada sobre um dinheiro que havia sumido. Ela achava que eu havia roubado.

Genival Souza, 54 anos, professor universitário:

Teve uma vez que eu estava vestido todo de preto, saí da faculdade e entrei no estacionamento. Assim que eu cheguei perto do meu carro um outro professor me olhou e disse que eu havia demorado muito e ele estava me esperando para manobrar seu carro. Olhei para ele e disse que eu também dava aula ali.

Outra história parecida foi a vez em que eu fui fazer uma palestra e ao chegar no estacionamento do local o guarda disse que a entrada para o público era do outro lado. Eu disse que era palestrante, mas ele ficou duvidando e dizendo “você é mesmo palestrante?”

Flávia Campos, 18 anos, estudante de Relações Públicas:

Aos 6 ou 7 anos eu tinha algumas amigas que me diminuíam muito, elas falavam que eu era feia e meu cabelo era esquisito, por sorte tinham outras crianças negras para brincar comigo. Teve uma vez que eu estava com elas num parquinho e quando fomos brincar de Rebeldes uma delas me disse “você não pode participar porque é preta.” Cheguei em casa e chorei, isso me marcou muito.

Com uns 13 anos também rolou algo marcante. Teve um boato na minha escola de que um menino tinha ficado com uma garota negra e ficavam zoando ele por isso. Uma vez eu estava no shopping e mandaram uma foto minha para ele, dizendo “olha aqui mais uma negra pra você pegar.” Eu me senti muito mal, pensei que deveria ser um lixo para ninguém querer ficar comigo.

Artur Santos, 21 anos, estudante de Rádio, Tv e Internet:

Quando eu era criança e meus tios e primos iam comigo a alguma piscina ou rio eles ficavam falando molha o cabelo, Artur! Parece que nem entra água nele de tão ruim.” E assim, eu fui crescendo sofrendo isso dentro da família. Por conta deles, eu sempre evito ir até a cidade da minha avó.

Teve também uma vez que eu estava num shopping com meus pais voltando do cursinho. Entramos numa loja e eu fui ver algumas coisas, me distanciei deles alguns metros e foi aí que percebi que estava sendo seguido pelo segurança da loja. Eu fiquei andando por uns 5 minutos e durante todo esse tempo ele me seguiu pelos corredores. Fiquei muito puto com isso porque percebi que ele só tava me seguindo pelo fato de eu ser um preto que estava mal vestido” pra um shopping, com uma blusa de moletom cinza, calça jeans e minha bolsa cheia de material do cursinho. Reencontrei meus pais e adivinha quem saiu da minha sombra? O segurança. Coincidência, não?!

Ah, outro momento marcante foi quando jogava bola com um amigo no condomínio em que moramos e um cara de fora gritou “levanta, macaco imundo!”

A. M., 37 anos, pedagoga: 

Pode parecer impressão, mas o que percebo é que para os pais [dos alunos] eu tenho que me impor desde o início, mostrar serviço o mais rápido possível e provar minha competência. Coisas que minhas colegas brancas não precisam. Sou negra, 1,72 de altura, cabelo black, tenho um jeito bem sério – ou como dizem de uma negra metida” -, hoje tenho um cargo no Estado e estou entrando na Prefeitura de São Paulo. Como auxiliar de creche acredito que passei pelo mais claro e também o mais velado dos preconceitos. Logo quando entrei havia uma mãe, loirinha de olhos verdes, que nunca entregava o filho para mim.  Pensei inicialmente que era por eu ser nova no local, mas um mês se passou e nada, ás vezes ela ficava sentada durante 30 minutos esperando a outra auxiliar chegar. Comecei a cativar a criança na sala, brincava com ela, fazia questão de alimentar e me dediquei bastante. Um dia ela pediu meu colo na entrada,  mas a mãe não deixou e disse ao filho tem certeza que você quer ir com esta negra?
Aí eu entendi tudo.

C. G., 39 anos, designer gráfico:

Fui selecionado para uma entrevista de emprego, cheguei adiantado ao local e entreguei meu currículo para a recepção. Apareceu uma senhora toda “chique”, cumprimentou a gente, falou com a recepcionista e voltou para a sua sala. Depois de algum tempo fui chamado para entrar ali e, quando entrei, vi que a mulher  segurava meu currículo nas mãos e não acreditava que eu era o entrevistado. Ela ficava olhando para mim e perguntando se eu realmente era aquela pessoa.

Laís Ramires, 21 anos, estudante de Relações Públicas:

Eu ainda tinha a idealização de que as pessoas dali [universidade] fossem mais conscientes sobre diversas questões envolvendo identidade. A minha professora de Comunicação e Expressão falou na frente da sala inteira, durante o primeiro dia de aula do terceiro semestre, que quando as pessoas me olhavam tinham uma impressão negativa.

Eliane Helfstein, 37 anos, assistente administrativa:

Isso foi mais ou menos aos 13 anos de idade, eu havia juntado dinheiro trabalhando e fui até uma loja de roupa com uma das minhas quatro irmãs para comprar um cardigã. A vendedora, que se reportava somente à minha irmã, que tem pele clara, perguntou o que ela desejava, então eu disse que era eu quem queria comprar a blusa da vitrine. Foi aí que a moça falou que eu não gostaria dessa roupa porque era muito cara e que havia outra na promoção.

Outro episódio que me marcou foi no final do meu curso. A coordenadora da instituição me indicou a uma vaga em uma clínica de uma amiga dela, dando a contratação como certa, uma vez que ela indicou isso seria o diferencial. Entusiasmada com a primeira oportunidade na área que tinha escolhido para seguir carreira, fui levar o currículo na clínica, que ficava em uma região nobre de São Paulo. Ao chegar na recepção todos me olhavam como um ser de outro mundo, me reportei à recepcionista dizendo que havia sido indicada e estava lá para entregar meu currículo. Após anunciada esperei por volta de 30 minutos até que a responsável viesse até mim, então, após me olhar dos pés a cabeça, quase que com desprezo, ela disse Ah, Eliane é você…” Pegou meu currículo, não me dirigiu mais nenhuma palavra e virou as costas, sem nenhum retorno. Foi a pior sensação que tive na minha vida, cheguei em casa e contei às lágrimas a situação ao meu marido.

Dayana Natale, 19 anos, estudante de Jornalismo:

Eu era bem pequena, devia ter uns 7 anos e estudava num colégio particular em que a maioria dos alunos eram brancos. Algumas meninas faziam muito bullying comigo, me chamavam de velha preta da macumba” e falavam que meu cabelo era ruim. Eu tinha um black e me zoavam muito, diziam que ele parecia um microfone e não molhava 

A. M., 35 anos, auxiliar administrativa:

Minha irmã é negra e tem 43 anos. Uma vez ela foi passear com seu filho, Théo, de 2 anos, que pediu para ir ao banheiro no decorrer do passeio. Ela o levou para lá e uma mulher perguntou o porquê dela não usar uniforme. Minha irmã, sem entender nada, pediu uma explicação. Então a mulher falou você é a babá dessa criança e não usa uniforme.” Uma observação importante a ser feita é que o Théo é branco. Minha irmã falou que ele era seu filho e a moça ainda perguntou se era adotado.

Sophia de Mattos, 22 anos, estudante de Jornalismo:

Eu nunca conheci uma pessoa preta que não tenha passado por racismo, é sempre uma luta constante. Quando eu estava na 1ªsérie só havia eu e mais um garoto de negros na sala. No carnaval, a minha mãe comprou uma fantasia de fada para eu usar na comemoração que a escola faria. Todos assistimos à aula fantasiados e no intervalo um grupo de meninas brancas me rodeou perguntando o porquê eu estava vestida de fada já que não existem fadas negras. Elas falaram que fadas não tinham meu tipo de cabelo, nem usavam tênis.

Teve também uma vez em que eu estava comendo, sujei a minha blusa de macarrão e uma menina falou que não havia problema porque minha pele já era suja.

Barbara Martins, 21 anos, estudante de Direito: 

Nesse ano alguns meninos da minha sala fizeram uma aposta para ver qual menina iria desistir primeiro do curso. Três nomes da minha sala foram citados, um deles era o meu. Sabemos que a aposta foi misógina, mas no meu caso também houve racismo, porque as minhas notas são altas e a frequência é boa, não tinha nada que indicasse que eu desistiria do curso em algum momento.

Mateus Ribeiro, 18 anos, estudante de Cinema:

Quando eu era menor estudava numa escola particular com poucos alunos negros e tinha uma realidade muito diferente da dos meus colegas que ganhavam mesada e presente toda semana. Ficavam me zoando muito, não me deixavam jogar ping pong, falavam que o meu cabelo era “bombril”, zoavam meu pai por não ter um carrão e diziam que ele havia cagado na mão e passado em mim quando nasci.

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Sobre o conceito de “Consciência Negra”. Leia e saia da ignorância!

 

Por Douglas Belchior, da Uneafro Brasil

 

Steve Biko, ativista negro sul-africano antiapartheid,  foi assassinado aos 30 anos de idade, em setembro de 1977, pelas forças da repressão do estado racista deste país. Fundou, em 1968, a Organização dos Estudantes Sul-africanos (Saso, na sigla em inglês), e propagou pelo mundo o slogan “black is beautiful” (o negro é lindo). Biko forjou o conceito de Consciência Negra a partir da ideia de que era preciso que a população negra libertasse sua consciência e encontrasse sua própria identidade. 

Consciência Negra seria, em essência, a percepção por parte da pessoa negra, de sua necessidade em reunir forças junto aos seus irmãos em torno da causa de sua atuação – a negritude de sua pele – e de agir como um grupo, a fim de se libertarem das correntes da servidão. A aspiração de negras e negros conscientes de sua própria história seria a própria revolução, pois “não podemos ter consciência do que somos e ao mesmo tempo permanecermos em cativeiro”. Negras e negros, uma vez conscientes, não se submetem a ser meros apêndices da sociedade branca racista. São aquelas e aqueles que, juntos, dirigem suas próprias vidas e conseguem seguir com a “cabeça erguida em desafio”.

Em tempos de obscurantismo em que a produção de conhecimento pouco tem valor e em que o revisionismo histórico míope e irresponsável ganha status de política de estado, é fundamental resgatar os acúmulos da luta revolucionária do povo negro, como resposta à insensatez e à barbárie.

À você, branco ou negro, que tende a responder com as frases prontas do tipo: “Consciência Branca” ou “Somos todos Humanos”, conheça o conceito de Consciência Negra, e saia da ignorância!

Abaixo, o célebre texto de Stive Biko, escrito em Dezembro de 1971.

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A definição da Consciência Negra

Em nosso manifesto político definimos os negros como aqueles que, por lei ou tradição, são discriminados política, econômica e socialmente como um grupo na sociedade sul-africana e que se identificam como uma unidade na luta pela realização de suas aspirações. Tal definição manifesta para nós alguns pontos:

1- Ser negro não é uma questão de pigmentação, mas o reflexo de uma atitude mental;
2- Pela mera descrição de si mesmo como negro, já se começa a trilhar o caminho rumo à emancipação, já se esta comprometido com a luta contra todas as forças que procuram usar a negritude como um rótulo que determina subserviência.

A partir dessas observações, portanto, vemos que a expressão negro não é necessariamente abrangente, ou seja, o fato de sermos todos não brancos não significa necessariamente que todos somos negros. Existem pessoas não brancas e continuarão a existir ainda por muito tempo. Se alguém aspira ser branco, mas sua pigmentação o impede, então esse alguém é um não branco. Qualquer pessoa que chame um homem branco de “Baas” (“Senhor”, na língua africâner. Tratamento que os brancos exigem dos negros. N.T.), qualquer um que sirva na força policial ou nas Forças de Segurança é, ipso facto, um não branco. Os negros – os negros verdadeiros – são os que conseguem manter a cabeça erguida em desafio, em vez de entregar voluntariamente sua alma ao branco.

Assim, numa breve definição, a Consciência Negra é, em essência, a percepção pelo homem negro da necessidade de juntar forças com seus irmãos em torno da causa de sua atuação – a negritude de sua pele – e de agir como um grupo, a fim de se libertarem das correntes que os prendem em uma servidão perpétua. Procura provar que é mentira considerar o negro uma aberração do “normal”, que é ser branco. É a manifestação de uma nova percepção de que, ao procurar fugir de si mesmos e imitar o branco, os negros estão insultando a inteligência de quem os criou negros. Portanto, a Consciência Negra toma conhecimento de que o plano de Deus deliberadamente criou o negro, negro. Procura infundir na comunidade negra um novo orgulho de si mesma, de seus esforços, seus sistemas de valores, sua cultura, religião e maneira de ver a vida.

A inter-relação entre a consciência do ser e o programa de emancipação é de importância primordial. Os negros não mais procuram reformar o sistema, porque isso implica aceitar os pontos principais sobre os quais o sistema foi construído. Os negros se acham mobilizados para transformar o sistema inteiro e fazer dele o que quiserem. Um empreendimento dessa importância só pode ser realizado numa atmosfera em que as pessoas estejam convencidas da verdade inerente à sua condição. Portanto, a libertação tem importância básica no conceito de Consciência Negra, pois não podemos ter consciência do que somos e ao mesmo tempo permanecermos em cativeiro. Queremos atingir o ser almejado, um ser livre.

O movimento em direção à Consciência Negra é um fenômeno que vem se manifestando em todo o chamado Terceiro Mundo. Não há dúvidas de que a discriminação contra o negro em todo o planeta tem origem na atitude de exploração, por parte do homem branco. Através da História, a colonização de países brancos pelos brancos resultou, na pior das hipóteses, numa simples fusão cultural ou geográfica, ou, na melhor, no abastardamento da linguagem. É verdade que a história das nações mais fracas é moldada pelas nações maiores, mas em nenhum lugar do mundo atual vemos brancos explorando brancos numa escala ainda que remotamente semelhante ao que ocorre na África do Sul. Por isso somos forçados a concluir que a exploração dos negros não é uma coincidência. Foi um plano deliberado que culminou no fato de até mesmo os chamados países independentes negros não terem atingido uma independência real.

Com esse contexto em mente, temos de acreditar então que essa é uma questão de possuir ou não possuir, em que os brancos foram deliberadamente determinados como os que possuem, e os negros os que não possuem. Entre os brancos na África do Sul, por exemplo, não existe nenhum trabalhador no sentido clássico, pois até mesmo o trabalhador branco mais oprimido tem muito a perder se o sistema for mudado. No trabalho, várias leis o protegem de uma competição por parte da maioria. Ele tem o direito de voto e o utiliza para eleger o governo nacionalista, uma vez que os considera os únicos que, por meio das leis de reserva de empregos, se esforçam em cuidar de seus interesses contra uma competição por parte dos “nativos”.

Devemos então aceitar que uma análise de nossa situação em termos da cor das pessoas desde logo leva em conta o determinante único da ação política – isto é, a cor – ao mesmo tempo que descreve, com justiça, os negros como os únicos trabalhadores reais na África do Sul. Essa análise elimina de imediato todas as sugestões de que algum dia pode haver um relacionamento efetivo entre os verdadeiros trabalhadores, ou seja, os negros, e os trabalhadores brancos privilegiados, já que mostramos que estes últimos são os maiores sustentáculos do sistema. Na verdade o governo permitiu que se desenvolvesse entre os brancos uma atitude anti-negro tão perigosa que ser negro é considerado quase um pecado, e por isso os brancos pobres – que economicamente são os que estão mais próximos dos negros – assumiram uma postura extremamente reacionária em relação a eles, demonstrando a distância existente entre os dois grupos. Assim, o sentimento antinegro mais forte se encontra entre os brancos muito pobres, a quem a teoria de classes convoca para se unirem aos negros na luta pela emancipação. É esse tipo de lógica tortuosa que a abordagem da Consciência Negra procura erradicar.

Para a abordagem da Consciência Negra, reconhecemos a existência de uma força principal na África do Sul. Trata-se do racismo branco. Essa é a única força contra a qual todos nós temos de lutar. Ela opera com uma abrangência enervante, manifestando-se tanto na ofensiva quanto em nossa defesa. Até hoje seu maior aliado vem sendo nossa recusa em nos reunirmos em grupo, como negros, pois nos disseram que essa atitude é racista. Desse modo, enquanto nos perdemos cada vez mais num mundo incolor, com uma amorfa humanidade comum, os brancos encontram prazer e segurança em fortalecer o racismo branco e explorar ainda mais a mente e o corpo da massa de negros que não suspeitam de nada. Os seus agentes se encontram sempre entre nós, dizendo que é imoral nos fecharmos num casulo, que a resposta para nosso problema é o diálogo e que a existência do racismo branco em alguns setores é uma infelicidade, mas precisamos compreender que as coisas estão mudando. Na realidade esses são os piores racistas, porque se recusam a admitir nossa capacidade de saber o que queremos. Suas intenções são óbvias: desejam fazer o papel do barômetro pelo qual o resto da sociedade branca pode medir os sentimentos do mundo negro. Esse é o aspecto que nos faz acreditar na abrangência do poder branco, porque ele não só nos provoca, como também controla nossa resposta a essa provocação. Devemos prestar muita atenção neste ponto, pois muitas vezes passa despercebido para os que acreditam na existência de uns poucos brancos bons. Certamente há uns poucos brancos bons, do mesmo modo que há uns poucos negros maus.

Mas o que nos interessa no momento são atitudes grupais e a política grupal. A exceção não faz com que a regra seja mentirosa – apenas a confirma.

Portanto, a análise global, baseada na teoria hegeliana do materialismo dialético, é a seguinte: uma vez que a tese é um racismo branco, só pode haver uma antítese válida, isto é, uma sólida unidade negra para contrabalançar a situação. Se a África do Sul deve se tornar um país em que brancos e negros vivam juntos em harmonia, sem medo da exploração por parte de um desses grupos, esse equilíbrio só acontecerá quando os dois opositores conseguirem interagir e produzir uma síntese viável de idéias e um modus vivendi. Nunca podemos empreender nenhuma luta sem oferecer uma contrapartida forte às raças brancas que permeiam nossa sociedade de modo tão efetivo.

Precisamos eliminar de imediato a ideia de que a Consciência Negra é apenas uma metodologia ou um meio para se conseguir um fim. O que a consciência Negra procura fazer é produzir, como resultado final do processo, pessoas negras de verdade que não se considerem meros apêndices da sociedade branca. Essa verdade não pode ser revogada. Não precisamos pedir desculpas por isso, porque é verdade que os sistemas brancos vêm produzindo em todo mundo grande número de indivíduos sem consciência de que também são gente. Nossa fidelidade aos valores que estabelecemos para nós mesmo também não pode ser revogada, pois sempre será mentira aceitar que os valores brancos são necessariamente os melhores. Chegar a uma síntese só é possível com a participação na política de poder. Num dado momento, alguém terá que aceitar a verdade, e aqui acreditamos que nós é que temos a verdade.

No caso de os negros adotarem a Consciência Negra, o assunto que preocupa principalmente os iniciados é o futuro da África do Sul. O que faremos quando atingirmos nossa consciência? Será que nos propomos a chutar os brancos para fora do país? Eu pessoalmente acredito que deveríamos procurar as respostas a essas perguntas no Manifesto Político da SASO e em nossa análise da situação da África do Sul. Já definimos o que para nós significa uma integração real, e a própria existência de tal definição é um exemplo de nosso ponto de vista. De qualquer modo, nos preocupamos mais com o que acontece agora que com o que acontecerá no futuro. O futuro sempre será resultado dos acontecimentos presentes.

Não se pode subestimar a importância da solidariedade dos negros com relação aos vários segmentos da comunidade negra. No passado houve muitas insinuações de que uma unidade entre negros não era viável porque eles se desprezam um ao outro. Os mestiços desprezam os africanos porque, pela proximidade com esses últimos, podem perder a oportunidade de serem assimilados pelo mundo branco. Os africanos desprezam os mestiços e os indianos por várias razões. Os indianos não só desprezam os africanos mas, em muitos caso, também os exploram em situações de trabalho e de comércio. Todos esses estereótipos provocam uma enorme desconfiança entre os grupos negros.

O que se deve ter sempre em mente é que:

1. Somos todos oprimidos pelo mesmo sistema;
2. Ser oprimidos em graus diferentes faz parte de um propósito deliberado para nos dividir não apenas socialmente, mas também com relação às nossas aspirações;
3. Pelo motivo citado acima, é preciso que haja uma desconfiança em relação aos planos do inimigo e, se estamos igualmente comprometidos com o problema da emancipação, faz parte de nossa obrigação chamar a atenção dos negros para esse propósito deliberado;
4. Devemos continuar com nosso programa, chamando para ele somente as pessoas comprometidas e não as que se preocupam apenas em garantir uma distribuição equitativa dos grupos em nossas fileiras. Esse é um jogo comum entre os liberais. O único critério que deve governar toda nossa ação é o compromisso.

Outras preocupações da Consciência Negra dizem respeito às falsas imagens que temos de nós quanto aos aspectos culturais, educacionais, religiosos e econômicos. Não devemos subestimar essa questão. Sempre existe uma interação entre a história de um povo, ou seja, seu passado, e a fé em si mesmo e a esperança em seu futuro. Temos consciência do terrível papel desempenhado por nossa educação e nossa religião, que criaram entre nós uma falsa compreensão de nós mesmos. Por isso precisamos desenvolver esquemas não apenas para corrigir essa falha, como também para sermos nossas próprias autoridades, em vez de esperar que os outros nos interpretem. Os brancos só podem nos enxergar a partir de fora e, por isso, nunca conseguirão extrair e analisar o etos da comunidade negra. Assim, e para resumir, peço a esta assembléia que procure o Manifesto Político da SASO, que apresenta os pontos principais da Consciência Negra. Quero enfatizar novamente que temos de saber com muita nitidez o que queremos dizer com certas expressões e qual o nosso entendimento quando falamos de Consciência Negra.

 

“A Definição da Consciência Negra”, escrito por Bantu Steve Biko, em dezembro de 1971.

Resgate do Núcleo de Estudantes Negras “Ubuntu” / Universidade do Estado da Bahia – UNEB

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Mulheres Negras racismo

Você não é racista? Então pratique seu antirracismo!

“Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista.”

Angela Davis

 

Por Douglas Belchior

 

A afirmação  da filósofa socialista e militante do Partido dos Pantegras Negras, Angela Davis, sintetiza a necessidade de ação por parte de todas e todos aquelas e aqueles que desejam uma sociedade justa e livre da principal marca característica do Brasil: o racismo.

Viveremos um governo de extrema direita que promete retirar direitos sociais, aumentar repressão e violência do estado, perseguir movimentos sociais, lideranças políticas, mulheres, gays e negras e negros. Mas, mais que temer ou lamentar o que está por vir , é necessário agir! Mais que palavras e desabafos em redes sociais, são necessárias práticas que alimentem a reação dos de baixo contra a opressão.

O fascismo que brota nas esquinas e transborda nas urnas é velho conhecido do povo negro e periférico. Em tempos de derrotas eleitorais, muito se diz: “Precisamos voltar às bases!”. Mas, será que esta é a melhor forma de atuar? Não seria mais eficaz e honesto criar condições para que deste lugar que chamam “base”, se organize a resistência, com autonomia e liberdade?

A Uneafro Brasil é um movimento de educação popular, comunitária e antirracista que há 10 anos se organiza a partir das periferias de São Paulo e outros 5 estados, atuando na luta por educação e pelo direito à vida.

Este trabalho precisa de reforço, apoio e solidariedade prática. Neste exato momento, mulheres negras da Uneafro transformam choro em sorriso, a dor em força, a fraqueza em fé e os sonhos em realidade! Através do projeto Circuladô de Oyá, uma rede de fortalecimento de mulheres negras, busca-se condições para manter o grupo em atividade, dando continuidade aos estudos, se auto- protegendo, se acolhendo e se formando para uma atuação política e social em suas próprias comunidades. Assista o vídeo.

 

 

Cada um de nós pode colaborar financeiramente através da plataforma neste link abaixo. Cada um de nós pode também se somar ao movimento de educação popular organizado pela Uneafro nas periferias de SP e do Brasil para desempenhar diversos papeis.

Conheça a proposta e junte-se a nós. A luta prática é o melhor remédio para a doença do fascismo!

ACESSE AQUI e colabore com o projeto Mulheres Negras Uneafro.

Conheça a Uneafro e fortaleça nossa luta! ACESSE AQUI.

 

Uma questão de humanidade. Ou você não é?

A casa, o bairro onde mora.

A escola boa de ensino fundamental ou médio ou a Universidade onde seu filho estuda. Ou onde você estudou.

Sua empresa, seu departamento, a academia que frequenta, o bom restaurante em que leva a família, a balada que frequenta com seus amigos.

Faça o teste do pescoço, proposto pela amiga Luh Souza, e perceba:

Se não há negros usufruindo dos serviços e dos prazeres, se eles estão apenas servindo, trabalhando ou pior, se sequer estão, qual a sua reação? Qual o seu sentimento? Qual seu questionamento? Indignar-se é pouco. O que faz para mudar essa realidade, objetivamente?

Já se foi o tempo da percepção.

Vivemos hoje o tempo das ações.

Ou age para mudanças ou não será apenas beneficiário indireto e cúmplice, mas promotor co-responsável pelos resultados das desigualdades e das violências geradas pelo racismo.

Violências e desigualdades que batem à sua porta.

 

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XV MARCHA DA CONSCIÊNCIA NEGRA TE CONVIDA A SER RESISTÊNCIA

Por Marina Souza

A 15º edição da Marcha da Consciência Negra ocorrerá na próxima terça-feira (20), em São Paulo, com a intenção de relembrar a importância e relevância de datas e lutas diárias contra o racismo. Apresentações musicais, dançarinos, performers, entre outros grupos estarão presentes ajudando a fortalecer o sentimento da resistência preta brasileira.

“É o primeiro ato voltado a causa racial após o resultado das eleições e é importante que tenha muita gente para marcar posição. Se por um lado há o governo de Bolsonaro, por outro há uma grande organização negra consciente de que o racismo existe e precisa ser combatido”, diz Beatriz Lourenço, militante da UNEAFRO.

Para a bióloga Maria Menezes, militante do Núcleo de Consciência Negra na USP, “o encarceramento em massa, genocídio da juventude negra, desemprego e aumento da mortalidade infantil são preocupações fundamentais do movimento negro brasileiro”.

Veja a seguir a descrição da página do evento:

XV MARCHA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Dia 20/11, concentração às 13h, no Vão Livre do MASP.

Negros e Negras resistem e marcham por direitos, pela democracia e contra o fascismo.
MARCHAM pelo Poder para o Povo Preto
MARCHAM pela Liberdade de expressão e a Liberdade Religiosa
MARCHAM por Marielle, Anderson, Moa do Catende e Charlione Lessa
MARCHAM por Marcelo Dias, por cada jovem negro morto pelo genocídio e por cada Mulher Negra morta pelo feminicídio
MARCHAM contra a Homofobia, contra todas as formas de Violência, contra a Intolerância ,o Descaso e a Xenofobia
NEGROS e NEGRAS MARCHAM pelo direito a viver uma vida digna, sermos livres e respeitados na nossa Diversidade,
Pluralidade.

#RACISMONÃO
#20NOV
#VidasNegrasImportam
#DiadeResistencia

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O QUE AS URNAS REVELAM SOBRE O RACISMO NOSSO DE CADA DIA

 

Por *Jorge Américo e **Douglas Belchior

 

No Brasil todo mundo já namorou uma negra. Chamou um negro de genro. Adora ouvir as histórias do porteiro (que é negro). Considera a diarista (também negra) uma pessoa da família. Se emociona quando vê aquele gari (negro) que gosta de sambar, ser aplaudido pelos gringos. Tamanha harmonia é a consumação plena da principal regra da nossa democracia racial. Ou seja, a população negra sempre será tratada bem, desde que saiba qual é o seu lugar e dele não queira sair. Curioso como o gari continua sendo gari mesmo depois de tantos anos aparecendo na televisão.

Se não falha a memória, o ex-jogador de futebol Pelé foi o primeiro ministro de Estado negro do período chamado de redemocratização do Brasil. Sua nomeação para a pasta de Esportes se deu no ano de 1993, no governo FHC. Caso a preguiça desse uma trégua, seria muito proveitoso investigar se ele não terá sido o primeiro da história republicana. Dez anos mais adiante outro negro de renomada trajetória, Gilberto Gil, assumiria o ministério da Cultura, no primeiro mandato de Lula.

Quem aceita ser representado politicamente por uma negra ou um negro? Quem é capaz de reconhecer que não é racista na vida cotidiana, mas o é na hora de votar?

Pelé e Gil são dois ícones da cultura nacional. Chegaram ao topo dos únicos lugares onde negras e negros podem chegar ao topo. Um fez carreira no futebol, outro na música. Pela experiência e capacidade intelectual, tinham credencial para serem ministros da Saúde e Educação, respectivamente – podendo comandar dois dos orçamentos mais gordos da União. Afinal, a prática esportiva (aliada a uma alimentação adequada) é o que existe de mais avançado em saúde preventiva. E a capacidade criativa e postura crítica diante dos dilemas da humanidade são o melhor que um sistema educacional público e de qualidade poderia oferecer aos nossos jovens.

 

Mesmo no período de maior expansão das políticas de ações afirmativas, poucas alterações ocorreram nas estruturas de poder. Com rara exceção, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) – criada por Lula e extinta por Michel Temer – se tornou o ministério exclusivo das negras e negros, o único lugar onde puderam exercer cargos de primeiro a décimo escalão. Era praticamente o quartinho da empregada do Palácio do Planalto. Ao mesmo tempo, muita gente incompetente (e pouco comprometida com os brasileiros que vivem com as menores rendas) esteve à frente dos ministérios da Fazenda, Planejamento e direção do Banco Central. Como diz a brilhante Rosane Borges, “em um período de avanços sociais a população negra foi beneficiária, mas nem sequer foi cogitada para ser gestora de políticas públicas”.

Vez ou outra algum dirigente de alta patente se colocou a favor da reserva de vagas para negros nas universidades e concursos públicos, mas ninguém praticou a pedagogia do bom exemplo. Nem as sucessivas chefias da Presidência da República nem dos governos estaduais e municipais se preocuparam em ter sua cota ministerial ou de secretariado formada por negras e negros. A universidade e as mobilizações populares produziram mão-de-obra negra qualificadíssima no último período. Isso significa que o corpo técnico e político das instituições públicas só não abrigaram negras e negros por opção de quem estava na Direção.

Esse esvaziamento e falta de diversidade étnico-racial também é comum nos cargos eletivos, responsabilidade do povo brasileiro em geral, este sob radical influência do meio ambiente racista a que somos expostos desde que nascemos. Existem perguntas que não são feitas por questão de decoro, mas que estão colocadas e devem ser enfrentadas com sinceridade. Principalmente num momento – eleitoral – como este, em que tanta gente coloca seus dons, talentos e boas intenções a serviço da população. Afinal, quem aceita ser representado politicamente por uma negra ou um negro? Quem é capaz de reconhecer que não é racista na vida cotidiana, mas o é na hora de votar? As urnas revelarão este segredo que cada um esconde no coração.

Estamos aqui para dizer que não será por falta de opção que você não enegrecerá seu voto este ano.

 

 

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Defensoria Pública de São Paulo emite nota em apoio à advogada Valéria Santos

Na última segunda-feira, 10, a advogada Valéria Santos foi algemada e retirada à força de uma audiência em que defendia sua cliente por policiais. A ordem veio da da juíza que estava encabeçando a discussão. Segundo a Ordem dos Advogados do Rio de Janeiro (OAB-RJ), a situação lamentável não chegou a acontecer nem na época da ditadura. Nesta sexta-feira, 14, a Ouvidoria Geral e o Núcleo Especializado de Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial da Defensoria Pública do Estado de São Paulo se pronunciou por meio da seguinte nota:

 

Nota oficial

A Ouvidoria Geral e o Núcleo Especializado de Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial da Defensoria Pública do Estado de São Paulo vêm a público manifestar veemente repúdio ao tratamento ilegal, arbitrário e desumano deferido à advogada Dra. Valéria Santos por ordem da juíza atuante perante o 3º Juizado Especial Cível de Duque de Caixias, no último dia 10/09. A ordem se deu como represália à firme atitude da advogada na defesa dos direitos de sua cliente e das prerrogativas inerentes ao exercício da sua profissão. Consta que a juíza determinou que a advogada deixasse a sala de audiências, impedindo-a de exercer a defesa de sua cliente da maneira que julgava adequada. Com a recusa da advogada, que demandou a presença de representante da OAB no local com vistas ao equacionamento do impasse, a juíza que presidia a audiência, de modo totalmente desproporcional, convocou a presença policial a fim de tirar à força a advogada do recinto. Os policiais mantiveram-na algemada no chão enquanto ela clamava pacificamente pelo seu direito ao trabalho.

Este lamentável episódio atenta não apenas contra as prerrogativas da advogada, estabelecidas pela Lei 8.906/94, como envolve violação ao teor da Súmula vinculante 11 do Supremo Tribunal Federal, que limita o uso de algemas a situações excepcionalíssimas. No entendimento pacificado por aquela Corte, o emprego de algemas submete a pessoa acorrentada a situação degradante, estigmatizante e de submissão ímpar. Dessa forma, o uso absolutamente injustificado das algemas contra a advogada, quando do exercício regular da profissão, significa grave violação à dignidade da pessoa humana. Por todo o exposto, o tratamento a ela concedido também caracteriza a prática de racismo institucional, demonstrando que os agentes dos sistema de justiça são informados por estereótipos desumanizantes a respeito de homens e mulheres negras, os quais viabilizam a ocorrência de violações físicas e simbólicas contra os seus corpos, assim e como a sua banalização.

Diante disso, manifestamos nossa solidariedade a Dra. Valéria Santos e esperamos que os órgãos competentes apurem os fatos e promovam a devida responsabilização dos agentes de Estado envolvidos, no que estarão contribuindo para resguardar os princípios democráticos e para o combate à discriminação de gênero e racial.

São Paulo, 14 de setembro de 2018

Núcleo Especializado de Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial da Defensoria Pública do Estado de São Paulo
Ouvidoria-Geral da Defensoria Pública do Estado de São Paulo

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A branquitude não tem limites, inclusive no campo das esquerdas

 

 

Por Douglas Belchior, do Post.

 

A teoria antirracista, em geral, tem se dedicado a pesquisar e elaborar sobre o seguimento oprimido, negras e negros, e pouco sobre o grupo opressor, brancas e brancos. Isso reforça a ideia de que a opressão é um problema só do oprimido, o que, sabemos, não é verdade. Mas há elaborações teóricas, estudos e pesquisas poderosas que se dedicam a estudar e compreender o opressor, não os indivíduos especificamente, mas o sistema que naturaliza o privilégio branco, que chamamos branquitude. Sugiro aqui este texto bem inicial de Hernani Francisco da Silva, publicado pelo Geledes, e este PodCast com o professor Marcio André de Oliveira, Doutor em Ciências Políticas e professor da UNILAB. O naturalizado privilégio branco, assim como o privilégio do gênero masculino, deveria ser tema de estudo obrigatório desde o ensino fundamental. Taí uma boa proposta para levar ao parlamento: branquitude e masculinidades como temas multidisciplinares no currículo obrigatório, desde o ensino fundamental.

 

Como funciona a cabeça das pessoas brancas? Em especial daquelas de famílias abastadas, classe média perfil puc-usp-zona oeste paulistana? Por que, por mais progressista, gente boa e bem intencionado que sejam, cometem atrocidades? Precisamos falar sobre isso.

 

Tenho amigos queridos neste seguimento. E escrevo aqui, fraternalmente, mas com seriedade.

 

Reafirmo aqui: A branquitude não tem limites. E me refiro agora a uma situação emblemática e especifica: o conflito que a candidatura parlamentar federal que represento tem tido com o Psol de SP, sobretudo desde a publicação de uma entrevista em que aponto contradições e o racismo institucional no partido.

 

Em recente entrevista ao site ImprenÇa, candidato a vice governador de SP pelo Psol, Maurício Costa de Carvalho, foi questionado em relação ao referido tema. Ele teve a chance de propor um diálogo honesto sobre o assunto, mas preferiu reafirmar a lógica da desqualificação. Sem nenhuma sensibilidade e disposição à autocritica, defendeu o indefensável e deixou transbordar o racismo imperceptível para olhares pouco treinados. Insiste na tese de que nossa ação se pautou pelo interesse individual, e quando faz isso, ignora a legitimidade e a construção de candidaturas que nas últimas duas eleições alcançaram, sem nenhum apoio do partido, duas suplências e um número de votos muito próximo das candidaturas eleitas, abonadas pela máquina partidária. Ignoram a representação legítima e historicamente construída de um seguimento do movimento negro de São Paulo e com repercussão no país e fora dele. Sim, um segmento, afinal, o movimento negro é diverso e não há pessoa ou grupo que possa sintetizá-lo. Mas ainda assim, um segmento respeitável e legítimo. Desconsideram-se as amplas manifestações de apoio de organizações e personalidades históricas do movimento. Não, Sr. Maurício, nossos apontamentos não são de caráter individual, em que pese o fato de o individual e o privado serem também políticos. Sugiro o ótimo artigo do professor da FGV, Thiago Amparo sobre esse papo de “individual versus coletivo” no que diz respeito ao racismo. Mauricio foi desrespeitoso e desonesto. Deixo abaixo, para que não tenha trabalho, alguns links de documentos públicos que reafirmam nossa caracterização enquanto representação legítima e coletiva.

 

Respeito é o mínimo que se espera de uma pessoa que visa ser vice-governador do estado com o maior número de negros, do país mais negro do mundo fora da África. Curioso é que as manifestações das lideranças brancas do Psol sobre esse assunto, nos servem para reafirmar cada um dos apontamentos e críticas que fizemos. Mauricio é apenas mais um. Em entrevista ao Nexo, o deputado Ivan Valente, questionado sobre o tema, disse que “preferia não opinar sobre a absurda acusação de que a legenda seja racista, já que o presidente do partido é negro”. Em entrevista ao 247, o presidente nacional do partido, Juliano Medeiros, disse que o presidente do partido em SP, que é negro, “recebeu bem menos e não tá reclamando”. Deixo a critério dos leitores a interpretação destas palavras. Fato é que a “neguinha atrevida” continua levando a culpa, bem como escreveu nossa pensadora Lélia Gonzales, que lembrei num artigo publicado dia desses. Leia, Mauricio. Fará bem.

 

Omitir os absurdos aos quais temos sido submetidos seria irresponsável e incoerente de nossa parte. Nossa campanha não é contra o Psol, pelo contrário. Ajuda o Psol a ser melhor, mais acolhedor com a elaboração do movimento social negro, mesmo sabendo que esta melhora não virá a partir do tratamento que dão à nossa candidatura. Mas no futuro será diferente. E teremos feito nossa parte. Seguimos construindo nossa campanha. Contra a vontade de muitos, lutaremos para eleger um mandato do movimento negro para o Congresso Nacional. Uma campanha linda, representativa e propositiva por um partido que reivindico, ajudei a construir e que nasceu para ser melhor do que é.

 

Como fui citado na referida entrevista, me vejo no direito de me posicionar aqui.

 

Em quatro longas respostas, o candidato a vice fez menção ao mérito da questão uma única vez, quando diz que: “Existe uma política afirmativa de novas lideranças, de novas referências políticas (…) Agora, se isso significa que o problema tá resolvido, não, não está.” Ou seja, no que mais importa, concordamos. Não está resolvido. E pelo jeito, não se resolverá tão cedo. E o racismo institucional continuará operando, como bem fica explícito em todo o resto de suas declarações, que comento abaixo.

 

O referido defendeu os critérios utilizados pelo partido para a distribuição dos recursos do fundo partidário para as candidaturas. O que significa dizer: critérios para escolher quais candidaturas terão chances de serem eleitas. Mas é preciso lembrar, em pleno 2018, a um líder de um partido de esquerda, que se enuncia “precursor de um novo ciclo”, que critérios, por mais públicos que sejam, mas que geram resultados de manutenção do privilégio branco, são critérios racistas. A pergunta que se deve fazer é: que resultados esses critérios têm gerado? Vamos olhar para eles e tomar uma iniciativa política objetiva e eficaz no sentido de reverter o resultado racializado/racista? Seria lindo um debate público sobre esse tema, não acham? Eles não tem essa coragem. Ah, e não é verdade que os critérios foram públicos, tanto que pedimos informações com base no regimento interno do partido, que nunca foram respondidas – o que caberia inclusive cobrança judicial, mas fiquem tranquilos, não faremos.

 

Mauricio se exibe ao dizer que o partido cumpre a reserva de 30% dos recursos do fundo partidário para candidaturas de mulheres, em função da lei. Pergunto: quem aqui acredita que dariam essa importância para a pauta, não fosse a lei obrigar?

 

Ele alega que minha postura incomodou grande parte da militância do partido, o que não é verdade, convenhamos. No geral, os “linha de direção” se submeteram a defender a nobre instituição partidária. A base, em grande parte, concorda com as críticas. A maioria não é linha de direção, e sim base. Inclusive muitos questionamentos internos às correntes foram feitas por militantes. Houve até militantes que se desligaram de suas correntes ou manifestaram suas inquietações também. Seguimos com o apoio de valorosos companheiros e companheiras de diversos grupos do partido.

 

Há, aqui, uma divergência fundamental em relação à concepção partidária. Os grupos internos que detém o comando, o poder, os cargos, os mandatos e as chaves dos cofres do partido entendem que construir o partido é estar alinhado a algumas destas forças internas. Ou isso ou nada. Se você não se submete a elas, se não for tapete dos interesses dos mandatários do partido, você não tem voz, não tem importância e pouco importa o trabalho que constrói fora dos muros do partido. Todos os que já vivenciaram ambientes de construção partidária, sindical e de movimentos mais tradicionais sabem do que estou falando. Sejamos justos, não se trata de exclusividade do Psol. Os partidos são propriedades quase privadas destes grupos. Por mais que se dilacerem internamente, há um acordo tácito entre eles, de se manterem cada qual com suas garrafas, disputando a máquina partidária, a grana e o poder. Nunca me submeti a isso. A tensão, exposta publicamente na matéria que dá origem a essa polemica, existe há muito tempo. Muitos sabem e acompanham esse desgaste há anos. Maurício sabe, mas evidentemente não pode admitir. E nisso repete a prática dos políticos caricatos que tanto criticamos.

 

Acredito no partido movimento, no partido sentimento, aquele com o qual as pessoas se identificam, independentemente de serem filiadas ou não, se vão à reunião ou não, se são membros de “correntes” ou não. Até porque, investimento de tempo e energia física, psicológica e financeira para a dinâmica interna, quase sempre antropofágica dos partidos, é também privilégios de uns poucos.

A armadilha, a enganação promovida por todos os partidos em relação à pauta da “representatividade negra” é assumida pelo Maurício, que o faz sem nenhum constrangimento. Ele diz que a proporção de candidaturas de negras e negros, “se não se engana”, é maior que a proporção de negros no estado de São Paulo. Acho que ele se engana, mas a questão não é esta. Assim como nos partidos de direita, candidaturas negras são fundamentais, pois trazem votos necessários para que se atinja o número total de votos necessário para a eleição dos mais bem votados do partido. No entanto, contam-se nos dedos as candidaturas negras que são alvo da priorização e investimento do partido para que estejam entre os mais votadas e, logo, sejam eleitas. Daí que o entrevistado não percebe (quero acreditar) a gravidade da afirmação. Quanto mais negros candidatos sem estrutura e sem recursos, maior o uso do trabalho, do sacrifício físico, mental e financeiro, de negras e negros, para a eleição dos escolhidos pelo partido. E o mantra se repete: bons para votar e juntar votos, mas não para ser votados e eleitos. A nós, cabe o ilustre papel de cabos eleitorais ou, no máximo, “cargos de confiança”. Resultado: elegem-se os brancos, com o apoio fundamental do voto dos negros. Gente, por favor, saiamos da conjectura, do subjetivo e vamos ao concreto: o nome disso é racismo.

Autocritica é instrumento fundamental para a construção do novo ciclo que tanto se enuncia. Autocrítica não apenas discursiva, mas com ações práticas. Só assim teremos uma esquerda ligada à classe trabalhadora, majoritariamente negra que é. Quando for mais barro e menos zona oeste, mais preta e menos colonial, mais rua e menos gabinete e mandato. Na real, deviam ter vergonha!

 

Matéria da Revista Fórum, sobre qual seria o papel da esquerda em relação ao debate racial nessas eleições

Não Maurício, nossa candidatura e nossas reivindicações não são individuais. Respeite!

Reivindicação individual? Você leu esse manifesto?

Saiba de onde vem nossa candidatura. Por que rejeitam? O que temem?

Entrevista com declarações do Ivan

Entrevista com declarações do presidente nacional, Juliano Medeiros

 

 

 

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Briga na festa progressista: A culpa é da neguinha atrevida?

Por Douglas Belchior

“Cumé que a gente fica?”

 

“Foi então que uns brancos muito legais convidaram a gente pra uma festa deles, dizendo que era pra gente também. Negócio de livro sobre a gente. A gente foi muito bem recebido e tratado com toda consideração. Chamaram até pra sentar na mesa onde eles estavam sentados, fazendo discurso bonito, dizendo que a gente era oprimido, discriminado, explorado.

Eram todos gente fina, educada, viajada por esse mundo de Deus. Sabiam das coisas. E a gente foi se sentar lá na mesa. Só que tava cheia de gente que não deu pra gente sentar junto com eles. Mas a gente se arrumou muito bem, procurando umas cadeiras e sentando bem atrás deles.

Eles tavam tão ocupados, ensinando um monte de coisa pro crioléu da plateia, que nem repararam que se apertasse um pouco até que dava pra abrir um espaçozinho e todo mundo sentar junto na mesa. Mas a festa foi eles que fizeram, e a gente não podia bagunçar com essa de chega pra cá, chega pra lá. A gente tinha que ser educado. E era discurso e mais discurso, tudo com muito aplauso.

Foi aí que a neguinha que tava sentada com a gente, deu uma de atrevida. Tinham chamado ela pra responder uma pergunta. Ela se levantou, foi lá na mesa pra falar no microfone e começou a reclamar por causa de certas coisas que tavam acontecendo na festa. Tava armada a quizumba.

A negrada parecia que tava esperando por isso pra bagunçar tudo. E era um tal de falar alto, gritar, vaiar, que nem dava mais pra ouvir discurso nenhum. Tá na cara que os brancos ficaram brancos de raiva e com razão. Tinham chamado a gente pra festa de um livro que falava da gente, e a gente se comportava daquele jeito, catimbando a discurseira deles.

Onde já se viu? Se eles sabiam da gente mais do que a gente mesmo? Teve uma hora que não deu pra aguentar aquela zoada toda da negrada ignorante e mal-educada. Era demais. Foi aí que um branco enfezado partiu pra cima de um crioulo que tinha pegado no microfone pra falar contra os brancos. E a festa acabou em briga…

Agora, aqui pra nós, quem teve a culpa? Aquela neguinha atrevida, ora. Se não tivesse dado com a língua nos dentes… Agora tá queimada entre os brancos. Malham ela até hoje. Também quem mandou não saber se comportar? Não é à toa que eles vivem dizendo que ‘preto quando não caga na entrada caga na saída…”

(Lelia Gonzales)

 

A cultura colonial, escravocrata e cristã que inunda o imaginário e, de alguma maneira, nos educa a todas e todos no Brasil, cumpre fundamental papel na maneira como nos organizamos ou não, em todas as dimensões da vida. Inclusive no que diz respeito a política.

Sou candidato a deputado federal nestas eleições de 2018. A opção que fiz pela militância política no movimento negro e, fundamentalmente, por ser um homem negro e da classe trabalhadora, sempre impôs drásticos limites para minha atuação. A maneira como pessoas de origem como a minha são tratados quando se atrevem a enfrentar o status quo de herança colonial provoca reações sinceras: “Preto vagabundo!”. Esse é o termo que sintetiza o que muitos pensam e poucos tem coragem de dizer publicamente. Afinal, Política não é lugar de pessoas como você!

No último período resolvi tornar pública divergências e contradições internas de meu partido, o Psol de SP, no que diz respeito ao racismo institucional que reproduz. As respostas não podiam ser diferentes: Ataques covardes, calúnias, desqualificação, isolamento e nenhuma capacidade de diálogo e autocritica, em que pese a legitimidade de nossa candidatura e as centenas de manifestações de apoio à denúncia e crítica ao partido. O texto de Lélia Gonzales descrito acima, à mim apresentado pela amiga querida Luh Souza e pelo amigo Francisco Antero, autores de “Teste do Pescoço”, é mais que pedagógico no sentido de ilustrar a situação corriqueira a que militantes negras e negros são colocados nos ambientes da luta política, independentes do lugar ideológico. Nada de novo. Apenas a repetição da lógica colonial, praticada por quem diz negá-la. E pior, com o aval, o endosso de membros de nossa comunidade.

Os desafios para a construção de uma movimentação política que contagie e de fato represente o povo brasileiro passa pelo protagonismo deste povo. E o povo brasileiro é negro. Não por acaso é, o racismo, pano de fundo e fundamental elemento mediador das relações, das desigualdades e dos conflitos sociais brasileiros. Quando este povo enuncia politicamente sobre suas mazelas e propostas de solução, não fala para o povo ou sobre o povo ou mesmo junto com o povo. Está falando de si. Esta é a questão. É certo que a direção, a condução do chamado campo popular, seja do lado das forças hegemônicas dos últimos 40 anos, seja do chamado novo ciclo da esquerda brasileira, continua a ser objeto de desejo dos descendentes de colonizadores que não se constrangem em se colocar como representação e voz dos desgraçados. Pois sou grato à Oxalá por viver o tempo histórico desta transição. Se não esta manhã, amanhã à noite. Já não precisamos nem toleramos intermediários. Antes da próxima colheita, falaremos em nosso nome, por nosso povo.

Fica a pergunta de Lelia: a culpa é mesmo da neguinha atrevida?

 

 

Texto da imortal Lélia Gonzalez (1935–1994), intelectual, professora, antropóloga e militante brasileira. Publicado como epígrafe de “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, este texto dela foi apresentado pela primeira vez na Reunião do Grupo de Trabalho “Temas e Problemas da População Negra no Brasil”, durante o IV Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, realizado no Rio de Janeiro, entre os dias 29 a 31 de outubro de 1980.
Publicado aqui.