Categorias
Violência Racista

Luta por reparação move III Encontro Internacional de mães de vítimas da violência do Estado

Por Redação

A busca pela reparação por conta da perda violenta de um filho é o fio condutor do III Encontro Internacional de Mães Vítimas da Violência do Estado: Por Justiça, Reparações e Revolução. O encontro – que acontece entre os dias 16 e 21/5, na Universidade Federal da Bahia, em Salvador –, reunirá mulheres e familiares que exigem justiça em casos de filhos mortos pelas polícias.

Os temas de discussão do encontro são amplos. Entre os planos de produção em conjunto estão: criação do Fundo de Reparação Econômica, Psíquica e Social aos Familiares por parte do Estado; aprovação de projeto de lei que visa à criação da Semana Estadual de Luta das Mães e Familiares Vítimas da Violência do Estado no mês de maio; aprovação de projeto de lei que dispõe sobre o funcionamento das perícias criminalísticas e médico-legal, visando mais autonomia para as mesmas; e o fortalecimento da Comissão da Verdade e da Democracia.

O mês de maio – além do Dia das Mães – é simbólico para a luta dessas mulheres devido ao episódio conhecido como Crimes de Maio, quando mais de 500 pessoas foram assassinadas no Estado de São Paulo por homens encapuzados após as mortes de policiais provocadas pelo PCC. Depois dessas mortes, outras diversas chacinas semelhantes ocorreram em todo o país.

Em novembro de 2014, por exemplo, onze pessoas foram assassinadas em cinco bairros de Belém (PA), após a morte de um policial militar. Em Manaus (AM), 37 pessoas foram executadas em julho de 2015 depois que um sargento foi morto ao reagir a um assalto. Osasco e Barueri, na Grande São Paulo, foram cenários de uma série de ataques, com as mortes de 23 pessoas, em agosto de 2015. Estudiosos apontam que as frequentes chacinas em várias regiões do país seriam uma consequência do que aconteceu há 12 anos em São Paulo.

O Fundo Brasil de Direitos Humanos apoia o encontro por meio do financiamento das viagens de cinco organizações que farão parte do debate. São elas: Grupo de Mulheres e Familiares de Adolescentes em Cumprimento de Medida Socioeducativa, do Ceará; Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, do Rio de Janeiro; Amparar – Associação de Amigos/as e familiares de presos/as, de São Paulo; Criola, do Rio de Janeiro; e Mães do Curió, do Ceará, apoiadas por meio do Cedeca.

Categorias
Violência Policial Violência Racista

Finados: Podia ser minha mãe, que loucura!

2014-681816710-2014012131812-jpg_20140121

2 de Novembro era Finados | Eu parei em frente ao São Luiz do outro lado | E durante uma meia hora olhei um por um | E o que todas as Senhoras tinham em comum | A roupa humilde, a pele escura | O rosto abatido pela vida dura | Colocando flores sobre a sepultura | Podia ser a minha mãe, que loucura”

Racionais MC’s

Por Douglas Belchior

Pobreza e religião caminham juntas desde sempre, ao menos para os fiéis, para os povos que compõem as igrejas. E a vida, e a morte, e a vida após a morte, encontram novos significados, quase sempre em busca do conforto diante da vida real. Poucos poetas retrataram tão bem a dura realidade das periferias brasileiras, como fizeram Racionais Mc’s. Entre a denúncia da realidade e a valorização da identidade negra e periférica, a busca incessante pela “fórmula mágica da paz”. E, em muitos versos, a pintura do quadro da dor e do sofrimento daquelas que ficam e que choram nos velórios diante do desespero da perda, quase sempre famílias negras, quase sempre mães pretas, pobres, mães de maio, de ontem e de hoje.

A morte é, como sabemos, a grande certeza da vida. E poderia sim, ser vista, entendida e significada de uma forma diferente como a temos. Uma morte decorrente de uma vida bem vivida, de uma vida de prazeres, de uma vida repleta de direitos e humanidade que chegasse ao seu fim como uma passagem natural, como o fim de um ciclo, com a menor dor possível, com dignidade e cuidados.

A morte poderia ser, em regra, uma experiência que deixasse na consciência dos que ficam, o acalanto do “Viveu uma vida plena e foi feliz” ou do “fiz tudo que podia ter feito”. O dia de Finados poderia ser momento de saudades apenas. Dia de uma tristeza dorida, mas suave, branda… Mas não! Não é essa a relação que temos com a morte. A vida real do povo mais pobre, da população que ocupa as periferias e do povo negro jamais ofereceu condições para a oferta das chamadas mortes naturais, da “morte morrida”.

A escravidão, as ditaduras e as falsas experiências de democracia, nos deixou marcas profundas em que a morte sempre esteve relacionada ao castigo, à dor, ao sofrimento, à tortura, à chacina e muitas vezes, a morte sem corpo, sem velório e sem o direito sagrado da despedida. Para os pobres e principalmente para a população negra, a dor é propositada, prevista. E a condição é precarizada, injusta. E a vida interrompida, encurtada. E a morte prematura, premeditada, naturalizada.

 

100_7344-1024x768

Segundo o mapa da violência 2016, o Brasil segue batendo recordes nos números de homicídios. Já são em média 57 mil assassinatos ao ano. A realidade da violência racial se perpetua. viagras naturales para hombres O número de pessoas negras mortas por arma de fogo são 2,6 vezes maior que a de não negros. A taxa de homicídios de negros aumentou 9,9% entre 2003 e 2014, passando de 24,9% para 27,4%. Pela pesquisa, a vitimização negra do país, que em 2003 era de 71,7%, mais que duplicou: em 2014 alcançou 158,9%. Mulheres negras também são alvo prioritário da violência e da morte. Os índices de assassinatos aumentaram 54% em dez anos no Brasil, passando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. No mesmo período, o número de homicídios de mulheres brancas caiu 9,8%.

Sim, a violência em nosso país é generalizada. Há muita violência civil. Mas é preciso destacar o papel do Estado e de suas polícias que, ao contrário de proteger a vida, promovem a morte. Sob comando de governos do PSDB, a polícia de São Paulo matou mais de 11 mil pessoas nos últimos 20 anos. Com Geraldo Alckmin no comando, a cada ano a PM mata mais.

Em meio ao aumento da violência e dos assassinatos cometidos por policiais, o governo Alckmin passou a omitir e maquiar informações. Apesar disso, de acordo com dados da SSP, o Estado registrou 532 mortes por intervenção de PMs em serviço entre janeiro e novembro de 2015. O número é superior às 495 mortes de 2006, ano marcado por confrontos entre a polícia e o PCC. Em todo o ano de 2015, a polícia matou 412 pessoas só na capital do Estado.

PM SUSPEITA PELO DESAPARECIMENTO DE 5 JOVENS NA ZONA LESTE DE SP

O escândalo do momento é o desaparecimento de 5 jovens na Zona Leste de São Paulo. Desde a sexta-feira, 21 de Outubro, familiares de quatro rapazes, entre 16 e 19 anos, e de um motorista, contratado por eles, vivem a aflição de não terem notícia alguma sobre o grupo. Os amigos Jonathan, Caíque, César e Robson, todos da zona leste de São Paulo, estavam a caminho de uma chácara, onde marcaram de se encontrar com algumas jovens que conheceram pelas redes sociais. Para levá-los até lá, haviam contratado um colega conhecido como “Síndico”.

A última informação que as famílias dizem ter a respeito do desaparecimento é um áudio que Jonathan mandou para uma amiga dizendo que havia sido parado pela polícia naquele dia: “Ei, tio. Acabo de tomar um enquadro ali. Os polícia tá me esculachando”. O carro dos jovens foi localizado, alguns dias depois, abandonado e vazio.

Como pode cinco pessoas sumirem e ninguém ver nada? A Polícia de SP teria produzido “5 novos Amarildos”?

Neste 2 de novembro, feriado de finados, respeitemos a dor de todas as cores, mas lembremos que há, neste grande cemitério chamado Brasil, a permanência da desigualdade também na distribuição das covas ou, nas palavras de João Cabral de Melo Neto, da cova medida, a parte que nos cabe nesse latifúndio. E nossa angústia cantada…

 

 

 

Categorias
Violência Policial Violência Racista

PM é suspeita de desaparecer com 5 jovens na Zona Leste de SP

cade-os-jovens

 

Campanha de movimentos populares, via Mães de maio

 

Desde a última sexta-feira (21), familiares de quatro rapazes, entre 16 e 19 anos, e de um motorista, contratado por eles, vivem a aflição de não terem notícia alguma sobre o grupo. Os amigos Jonathan, Caíque, César e Robson, todos da zona leste de São Paulo, estavam a caminho de uma chácara, onde marcaram de se encontrar com algumas jovens que conheceram pelas redes sociais. Para levá-los até lá, haviam contratado um colega conhecido como “Síndico”.

A última informação que as famílias dizem ter a respeito do desaparecimento é um áudio que Jonathan mandou para uma amiga dizendo que havia sido parado pela polícia naquele dia: “Ei, tio. Acabo de tomar um enquadro ali. Os polícia tá me esculachando”. O carro dos jovens foi localizado, alguns dias depois, abandonado e vazio.

Como pode cinco pessoas sumirem e ninguém ver nada?!

A Polícia de SP acaba de produzir “5 novos Amarildos”?

A história foi revelada em primeira-mão pelo site Ponte Jornalismo. Na manhã desta sexta-feira (28/10) as mães, familiares e amigos dos jovens, já sem grandes esperanças de encontrá-los vivos, fizeram uma manifestação pela Verdade e Justiça em relação ao caso, trancando as vias do Rodoanel no local em que o carro com os jovens foi localizado.

Nós estamos reforçando a denúncia das mães e familiares através da campanha:

#OndeEstãoOs5JovensDaZonaLeste ?!

Se você também se indigna com mais este absurdo, favor compartilhar e somar nesta Luta Contra o Genocídio de nosso Povo Preto, Pobre e Periférico: por http://www.cialisgeneriquefr24.com/prix-du-cialis-5mg-en-pharmacie/ Verdade, Justiça e Paz!

Confira um pouco mais da repercussão deste caso na imprensa:

Desaparecimento de Jovens

Familiares cobram investigação

Familiares perdem esperanças

Policia apura desaparecimento

Maes de jovens desaparecidos se manifestam

 

FORTALEÇA ESTA CAMPANHA POR JUSTIÇA E PAZ!

#NósPorNós

Categorias
Violência Policial Violência Racista

Bala de borracha da PM cega criança de 12 anos durante repressão ao baile de Favela da Marcone

Está na boca de quem cola no fluxo da perifa ou em festa de boy: a Marcone é baile de favela. E é mesmo. Na Favela do Marcone, no lado norte de São Paulo, acontece todo fim de semana um fluxo de funk que fecha as ruas da quebrada. A música é alta, a batida é forte e a festa vai até o amanhecer.

por Por Flávia Prado e Thaís Nunes no Vice

Mas se o hit “Baile de Favela” é democrático, o fluxo em si, não é. Quem curte a festa é a molecada pobre que mora ali por perto. Uma turma cheia de vontade de viver e sem qualquer outra opção de rolê. No sábado, dia 23 de abril, fazia calor em São Paulo. Impossível de ficar em casa. O baile estava abarrotado e a PM não demorou a chegar.

Douglas Santana tem 12 anos. Ainda é muito moleque pra colar no baile. Mas não pra observar quem chega. Era isso que ele fazia umas onze horas da noite sentado na cadeira de uma lanchonete. Acontecia por lá um aniversário onde estavam o irmão mais velho do menino, de 15 anos, outras crianças, mulheres grávidas e famílias inteiras. Uma festa comum, apesar do local ser bem em frente à rua que dá acesso ao funk da Marcone.

Quando a PM chegou o papo foi esse: ninguém ali queria confusão. Mas não teve muita conversa. As bombas pegaram todos de surpresa. Teve correria. Douglas ficou pra trás. “Na hora que eu já estava saindo, ele jogou a bomba. Eu corri. A bomba veio assim, parou na minha frente e estourou”, lembra o garoto.

Os estilhaços machucaram o braço de Douglas. Em seguida, veio a bala de borracha. “Eu senti quente, quente, assim ó”, explica o menino apontando para o olho esquerdo.

A partir daí, as lembranças ficaram confusas. Sangue, muito sangue. Um dos adolescentes que estava na festa viu tudo e voltou pra ajudar Douglas. Implorou para que os PMs o socorresse. Mas como resposta, ouviu um “sai de perto para não sujar a viatura”.

As bombas não paravam. Um motorista que passava pelo local viu Douglas muito ferido e aceitou levá-lo para o hospital.

Quando a mãe do menino, a dona de casa Vanessa Santana, soube do que estava acontecendo, já era madrugada. O filho era atendido no pronto socorro. Ela recebeu a notícia de que Douglas estava hospitalizado por causa de uma bomba e nem se desesperou, já que gás de pimenta em dia de baile de funk na periferia é procedimento padrão da PMSP.

Mas no hospital, a cena foi outra. “Era um cadáver. Um cadáver esperando pra ir pra maca do necrotério”, lembra, emocionada. Aquilo foi tão chocante que a mãe decidiu fotografar o estado do filho, pensando que ninguém acreditaria caso ela só contasse.

fluxo-marcone-baile-de-favela-douglas-santana-policia-militar-cega-crianca

Douglas Santana no hospital. Crédito: arquivo pessoal.

Douglas teve de ser transferido porque aquele pronto-socorro não tinha como atendê-lo. O caso era grave. No segundo hospital, ele continuava sangrando. E em meio ao desespero da família, a primeira abordagem da PM. Uma policial feminina ameaçou Vanessa, dizendo que ela seria responsabilizada pelo filho estar na rua à noite. Depois, o tenente Alisson Guimarães Pereira de Souza fez com que ela assinasse, sem ler, um ofício da PM.

fluxo-marcone-baile-de-favela-douglas-santana-policia-militar-cega-crianca2

Douglas Santana no hospital. Crédito: arquivo pessoal.

O documento pedia um exame de lesão corporal. Vanessa conta que os PMs queriam tirar Douglas do hospital para realizar uma perícia. Ela não deixou. “Lembrei do caso Amarildo. Por muito menos, ele sumiu e nunca mais voltou.”

Foram cinco horas de uma cirurgia delicada até que a notícia veio. Douglas sofreu uma lesão irreversível no olho esquerdo. Estava cego. Para sempre.

“Eu perdi a visão, né?”, disse Douglas, chorando muito, ao pai, o encarregado de lhe dar a triste notícia. “Eles tiraram a minha visão…e machucaram o meu braço. Ele quase tirou a minha vida, isso é uma coisa que dói muito”.

fluxo-marcone-baile-de-favela-douglas-santana-policia-militar-cega-crianca3

Douglas Santana na Ocupação Douglas Rodrigues, na Favela da Marcone. Foto por Flávia Prado.

DOUGLAS NÃO É O ÚNICO 

Há mais vítimas das balas de borracha da Polícia Militar paulista. Em fevereiro de 2012, um menino de 15 anos perdeu a visão do olho direito durante uma blitz na Zona Leste.

Em 2013, Daiane de Oliveira, à época com 17 anos, também perdeu um olho numa abordagem da PM em Paraisópolis, favela da Zona Sul.

Em outubro de 2015, outro adolescente de 15 anos ficou cego após ser atingido por policiais que tentavam dispersar um baile funk na Brasilândia, Zona Norte.

O Estado que cega não age só na periferia. O fotógrafo Sérgio Silva perdeu a visão no centro da cidade, enquanto cobria as manifestações de junho de 2013 .

AÇÃO PEDE FIM DAS BALAS DE BORRACHA 

No dia 12 de abril, o Tribunal de Justiça de São Paulo discutiu se é legítimo o uso de balas de borracha para conter e dispersar manifestações – o que inclui bailes funk.

O relator do caso pediu mais tempo para analisar a ação abaixo:

fluxo-marcone-baile-de-favela-douglas-santana-policia-militar-cega-crianca4

Para ler o documento clique aqui.

A decisão deve acontecer até o fim de maio.

A doutora em Ciências Sociais e professora da Universidade Federal de São Paulo, Esther Solano, explica que a questão dos bailes funk passa longe da atuação policial. “O problema mais uma vez é enfrentar os desafios sociais com polícia quando deveriam ser questões de políticas públicas. A polícia não é o ator que deveria lidar com estas situações. Fluxo não é questão de segurança pública e sim de políticas de juventude.”

Além disso, a violência da PM gera efeitos irreversíveis na comunidade. “A sociedade defende uma ação repressiva e dura da polícia, mas não nos Jardins, claro, e sim nas periferias que são invisíveis e que não tem voz política. A farda acaba sendo o único rosto do Estado para esses grupos sociais mais vulneráveis”, afirma a pesquisadora.

IRONIA

Há um ano, a família de Douglas Santana fugia da violência de Heliópolis, a maior favela de São Paulo, para uma ocupação do outro lado da cidade. Na Zona Norte, o único local que os acolheu foi a Ocupação Douglas Rodrigues, uma parte ainda irregular da Favela do Marcone.

fluxo-marcone-baile-de-favela-douglas-santana-policia-militar-cega-crianca5

Ocupação Douglas Rodrigues, na Favela da Marcone. Foto por Flávia Prado.

O nome escolhido para batizar a ocupação, por uma triste coincidência, é uma homenagem a outro Douglas, assassinado pela Polícia Militar em 2013. Ele levou um tiro no coração e, antes de morrer, questionou ao PM: “por quê o senhor atirou em mim?”.

SONHO DE SER PM ACABOU 

Ele amava, conversava, sabe? O policial falava: quer colocar meu boné? E colocava o boné na cabeça dele. Toda vez que passava viatura, ele parava na esquina e ia puxar conversa. Eu briguei com ele várias vezes. Douglas, o que é isso? Você mora em comunidade e vai ficar conversando com policial. Tá louco?”, lembra Vanessa, com uma revolta feroz.

O sonho de Douglas Santana, por incrível que pareça, era ser policial militar. Naquele sábado, a mãe acredita que ele tenha demorado para correr porque queria observar o trabalho da PM.

Era uma admiração imensa. No barraco onde a família mora, fotografias de Douglas fardado. “Tudo o que tinha PM ele queria estar junto”, lembra a mãe. Até o Proerd, curso que a Polícia Militar dá em escolas públicas paulistas, o menino fez.

Os mesmos homens que Douglas tanto admirava tornaram-se seus algozes. Agora, Vanessa aceita tudo do filho. Menos que ele se torne policial. “Desculpa falar, mas se ele quiser, vai pra fora de casa.”

Mesmo que queira, Douglas está cego. “Ser policial, ajudar as pessoas. Agora não dá mais”, chora o menino, com uma dor que vem da alma.

SECRETARIA DA SEGURANÇA DIZ QUE PM TEVE QUE AGIR 

Abaixo, na íntegra, a nota da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo:

A PM informa que recebeu, no último dia 23, diversas chamadas de perturbação de sossego na região. A viatura que atendeu a ocorrência chamou reforço por causa da grande aglomeração de pessoas. No local, os policiais foram recebidos a pedradas e, por isso, foi necessária a intervenção da PM. Foi instaurado um inquérito policial militar para apurar o caso. A vítima e sua mãe já foram ouvidas.

São Paulo, 1 de maio de 2016.

Douglas e Vanessa negam que tenham sido ouvidos pela Polícia Militar. O caso foi denunciado pela reportagem à Ouvidoria da Polícia de São Paulo, que cobrou investigação rigorosa da Corregedoria da PM e Ministério Público.

Categorias
Violência Racista

Finados: podia ser a minha mãe, que loucura!

100_7344

Por Douglas Bechior

 

Há uma morte branca que tem como causa as doenças, as quais, embora de diferentes tipos, não são mais que doenças, essas coisas que se opõem à saúde até um dia sobrepujá-la num fim inexorável: a morte que encerra a vida. A morte branca é uma “morte morrida”. Há uma morte negra que não tem causa em doenças; decorre de infortúnio. É uma morte insensata, que bule com as coisas da vida, como a gravidez e o parto. É uma morte insana, que aliena a existência em transtornos mentais. É uma morte de vítima, em agressões de doenças infecciosas ou de violência de causas externas. É uma morte que não é morte, é mal definida. A morte negra não é um fim de vida, é uma vida desfeita, é uma Átropos ensandecida que corta o fio da vida sem que Cloto o teça ou que Láquesis o meça. A morte negra é uma morte desgraçada. (BATISTA; ESCUDER; PEREIRA, 2004, p.635)

 

Pobreza e religião caminham juntas desde sempre, ao menos para os fiéis, para os povos que compõem as igrejas. E a vida, e a morte, e a vida após a morte, encontram novos significados, quase sempre em busca do conforto diante da vida real.

Poucos poetas retrataram tão bem a dura realidade das periferias brasileiras, como fizeram Racionais Mc’s. Entre a denúncia da realidade e a valorização da identidade negra e periférica, a busca incessante pela “fórmula mágica da paz”. E em muitos versos, a pintura do quadro da dor e do sofrimento daquelas que ficam e que choram nos velórios diante do desespero da perda, quase sempre famílias negras, quase sempre mães pretas.

A morte é, como sabemos, a grande certeza da vida. E poderia sim, ser vista, entendida e significada de uma forma diferente como a temos. Uma morte decorrente de uma vida bem vivida, de uma vida de prazeres, de uma vida repleta de direitos e humanidade que chegasse ao seu fim como uma passagem natural, como o fim de um ciclo, com a menor dor possível, com dignidade e cuidados. A morte poderia ser, em regra, uma experiência que deixasse na consciência dos que ficam, o acalanto do “fiz tudo que podia ter feito”.

Mas não.

Não é essa a relação que temos com a morte. A vida real do povo mais pobre, da população que ocupa as periferias e do povo negro jamais ofereceu condições para a oferta das chamadas mortes naturais, da “morte morrida”. A escravidão e a democracia para poucos, nos deixou marcas profundas em que a morte sempre esteve relacionada ao castigo, à dor, ao sofrimento, à tortura, à chacina e muitas vezes, à morte sem corpo, sem velório e sem o direito sagrado da despedida.

Para os pobres e principalmente para a população negra, a dor é propositada, prevista. E a condição é precarizada, injusta. E a vida interrompida, encurtada. E a morte prematura, premeditada, naturalizada.

No Brasil, segundo o mapa da violência 2014, a taxa de homicídios é a maior desde 1980. São números de 50 a 100 vezes maiores que a de países como o Japão. Em média, 100 em cada 100 mil jovens entre 19 e 26 anos morrem violentamente a cada ano.

A vitimização dos negros é bem maior que a de brancos. Morreram proporcionalmente 146,5% mais negros do que brancos no Brasil, em 2012. Considerando a década entre 2002 e 2012, a vitimização negra, isso é, a comparação da taxa de morte desse segmento com a da população branca quase triplicou.

Os brancos têm morrido menos. Os negros, mais. Entre 2002 e 2012, por exemplo, o número de homicídios de jovens brancos caiu 32,3% e o dos jovens negros aumentou 32,4%.

Os homicídios são uma das principais causas de tantas mortes. E nessa categoria, destaca-se o papel do Estado e de suas polícias que, ao contrário de proteger a vida, promovem a morte. Em São Paulo, a polícia militar de Geraldo Alckmin matou de julho à setembro de 2014, 150% a mais que no mesmo período do ano passado.

Neste 2 de novembro, finados, respeitemos a dor de todas as cores, mas lembremos que há, neste grande cemitério chamado Brasil, a permanência da desigualdade também na distribuição das covas ou, nas palavras de João Cabral de Melo Neto, da cova medida, a parte que nos cabe nesse latifúndio.

E nossa angustia cantada…

“2 de Novembro era finados. Eu parei em frente ao São Luis do outro lado, e durante uma meia hora olhei um por um e o que todas as Senhoras tinham em comum: a roupa humilde, a pele escura, o rosto abatido pela vida dura… Colocando flores sobre a sepultura… podia ser a minha mãe, que loucura…”

 

 

Categorias
Violência Racista

Nota pública da Campanha Reaja ou Será Morta Reaja ou Será Morto sobre a greve da Polícia Militar do Estado da Bahia

10153630_485468934886951_5377861473361464303_n

Visite as Galerias VÍDEOS | FOTOS | AGENDA | BLOG

 

De Campanha Reaja ou será morta. Reaja ou será morto – Bahia

 

A greve da Policia Militar do Estado da Bahia, deflagrada no último dia 15 de abril, merece o nosso repúdio por toda sua lógica de terror, medo e morte que já se espalha por nossas comunidades em todo território baiano e o nosso repúdio a toda lógica de segurança pública do governo da Bahia que em oito anos de administração deixou engordar o monstro do extermínio, da brutalidade policial, das execuções sumárias e extrajudiciais. Ainda que tivessem a oportunidade de nos ouvir em diversas ocasiões sobre propostas concretas dos caminhos possíveis para um outro modelo de segurança, o governo optou pela militarização do espaço negro com suas bases de segurança (UPPs) ocupando e controlando comunidades inteiras, todas comunidades negras que só receberam fuzis, algemas e viaturas como instrumentos da política de segurança pública do governo. Como prometido, nenhum outro serviço alcançou nossos locais de moradia. As bases comunitárias são campos de concentração de pessoas negras da Bahia e, ainda assim, eles falam de um mito de promoção da igualdade, em que autoridades e ativistas negros se calam diante de nossa desgraça frente a segurança pública, mas surfam nas redes sociais felizes com seus editais que não mudam em nada a estrutura.
A greve da polícia revela a responsabilidade do poder judiciário e do ministério público, encurvados diante ao executivo, tímidos e calados diante destas atrocidades como a elevada taxa de homicídios praticados pela policia baiana com o apelido de autos de resistência, resistência seguida de morte. Esses órgãos são cúmplices da tortura e dos maus tratos que assolam as cadeias baianas, as carceragens superlotadas das delegacias de policia. Mas são os reis das condenações aquecendo o empreendimento industrial carcerário, aumentando os lucros das “hospedarias punitivas”, fazendo vistas grossas às revistas vexatórias e a criminalização de mulheres, mães e familiares de presos e presas da Bahia, de um modo geral.
A greve é sim politico-eleitoreira e coloca luz sobre um truculento líder de policiais que em 2012, de forma inescrupulosa, acendeu o pavio do terror na Bahia , levando os vândalos da policia militar a matar, sequestrar, mutilar, agredir e roubar sob a luz do dia e agora volta colocando a mesma lógica , chorando aos pés de seu dono, o neto de ACM, a maior promessa de fascismo da politica baiana e de um Capitão, Deputado Tadeu, com seu script de retrocesso político querendo faturar com mortes e saques que já se espalham pela Bahia.
É um equivoco a leitura política que fala em direito a greve de trabalhadores. A polícia militar é moralmente inconstitucional, é uma consequência nefasta da ditadura militar, seu resquício. A policia militar espalha o medo, mata, tortura e prende mais que a ditadura, não merece greve, deve ser extinta conforme recomendação da ONU, clamor e bandeira histórica dos movimentos sociais, qualquer posição diferente é oportunismo de quem não quer definir um lado, de quem tem entre seus quadros essa turma de fardados.
A greve da Policia Militar do Estado da Bahia já deu seu recado a população, o exercito e a guarda nacional em nosso Estado não trouxe qualquer sensação de segurança , essas forças militares vieram proteger os shoppings e os moradores de comunidades, como Alfaville, Corredor da Vitória e Caminho das Arvores areás nobres da cidade do Salvador.
21 mortes em 24 horas em Feira de Santana quando a média é uma morte por dia. Do total, sete são “suspeitos” da morte de um policial militar. Aumento das mortes em Salvador e Região, um carro preto seguindo pela orla matando gente. Na Suburbana mais de 13 mortes em uma noite e a policia ameaçando quem quer se se posicione contra sua barbárie.
Agora vamos contar os mortos de um jogo político que não levou em conta a vida das pessoas?

Vamos ouvir o que dos candidatos nas eleições que se aproximam?

Exigimos apuração de todas as mortes.

Exigimos que todos os candidatos se posicionem quanto ao seu projeto de segurança pública para o Estado.
Exigimos o fim das ocupações militares nas comunidades negras.
Exigimos o fim do Baralho do crime, Tatuagem do Crime e Almanaque do Crime, expedientes de comunicação da Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia que auxiliou em muitas das mortes que ocorreram durante a greve.
Conclamamos aos movimentos sociais e as comunidades que construam a II Marcha Contra o Genocídio do Povo Negro, para que em momentos como esses nossas posições sejam livres de um comando branco em nossas organizações.

 

Categorias
Violência Racista

“A Paixão de Cláudia” propõe homenagem póstuma à mulher negra assassinada pela PM do Rio de Janeiro

1888490_10152290120259043_3405152991133265361_n

Visite as Galerias VÍDEOS | FOTOS | AGENDA | BLOG

 

“Vista preto ou branco e leve sua rosa vermelha” é o pedido feito pelos organizadores do ato que ocorrerá dia 18 de abril com concentração em frente à Igreja da Nossa Senhora da Consolação, às 15h

 

O ato público e cultural “A Paixão de Cláudia” , articulado pela empresa Cubo Preto Ensino de Arte e Cultura Ltda., juntamente com ONGs, Associações, Empresas, Órgãos da Imprensa Formal e Informal e por profissionais de várias áreas das artes e interessados na vida em sociedade de modo geral, constitui-se como uma homenagem à mulher negra, trabalhadora e mãe brasileira, Cláudia da Silva Ferreira, de 38 anos, que no dia 16 de março de 2014, foi atingida por uma bala perdida dispara por agentes da Polícia Militar do Rio de Janeiro, socorrida pela mesma ainda em vida e arrastada por cerca de 350 metros, chegando ao hospital morta e com partes de seu corpo em carne viva.
O ato consiste em ações e manifestações, performances e apresentações realizadas nas mais diversas linguagens das artes. “Nos reuniremos para celebrar a mãe preta do Brasil, as famílias negras, as famílias coloridas, o direito à vida, ao respeito ao cidadão, à cidadã, aos acessos básicos ao direito de ir e vir, à saúde, à educação, à moradia, ao fim dessa condição de cidadania de segunda classe a qual está relegada parte expressiva da população brasileira”, afirma Renata Felinto organizadora do evento.

A concentração será na Igreja Nossa Senhora da Consolação, dia 18 de abril, às 14 horas. A organização do evento pede aos participantes que se vistam de branco ou de preto e que tragam rosas vermelhas, “uma beleza que a própria natureza armou com espinhos para se proteger de seus opressores”, explica o texto do convite para o ato.

Da Igreja da Nossa Senhora da Consolação, às 15h, ao som de atabaques que invocam ancestrais africanos que com seus braços, pernas, sangue e suor, erigiram o Brasil, o cortejo segue até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, localizada no Largo do Paissandu, onde encontra-se a estátua da Mãe Preta, feita pelo artista Júlio Guerra representando todas as mães pretas que foram e são base desse Brasil.

No Largo do Paissandu será armado um palco no qual, das 16h às 20h, ocorrerão apresentações de música, dança, artes cênicas, literatura e artes visuais.

Para saber a programação completa acesse: Fan Page “A paixão de Cláudia”.

https://www.facebook.com/PaixaodeClaudia

Categorias
Violência Racista

Família denuncia PM por agredir menina negra de 15 anos

De Douglas Belchior

 

No último sábado, 12, cerca de 20 ativistas ligados à Uneafro e a família da menina negra agredida por um PM em uma escola pública da zona leste de São Paulo, realizaram um protesto durante o Congresso de Segurança Pública, promovido pela OAB no Teatro Gazeta, na Av. Paulista.

O Cel. PM Benedito Roberto Meira, Comandante Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo, o Delegado Geral da Polícia Civil do Estado de São Paulo, Luiz Maurício Souza Blazeck e o ex-presidente da OAB SP, Luiz Flávio Borges D’Urso, negaram o direito ao uso da palavra aos manifestantes e à mãe da menina agredida. Os seguranças expulsaram os ativistas.

Continuaremos a ação no sentido de dar visibilidade ao caso e levar adiante a denúncia.

Leia o detalhado relato da mãe e da menina agredida, registrada pelo site Info Diretas.

IMG_659322

 

Visite as Galerias VÍDEOS | FOTOS | AGENDA | BLOG

“Macaca Favelada”, um soco na boca, 2 dentes quebrados e outros dois dentes moles, escoriações no corpo e muita revolta. Mãe diz que Escola foi conivente com ação da PM.

 

De Info Diretas

Fotos de Info Diretas e Davi de Freitas

 

Familiares de uma adolescente acusam um policial militar de ter desferido um soco na boca e posterior uso de cassetete e força excessiva, além de racismo, dentro do uma unidade estudantil na região do Itaim Paulista, no extremo Leste da capital. A garota teve dois dentes quebrados, dois estão moles e ferimentos visíveis na boca. A agressão por parte do PM teria ocorrido na tarde da última terça-feira, dia 8.

Segundo a vítima, L. M. C. S., de 15 anos, no domingo, 6, meninas teriam ido até a casa da família e contado que outras garotas “queriam pegar sua irmã”. Por conta do medo, a irmã mais nova da jovem, R. M. C. S., de 13 anos, não teria ido à escola na segunda-feira, 7. L., que não estuda na mesma instituição, teria acompanhado a irmã na terça-feira, até a entrada da Escola Estadual Wilson Roberto Simonini, na Vila Curuçá, para “apenas conversar com as meninas e apaziguar a situação”. Mas o que teria ocorrido foi uma série de agressões e acusações de omissão.

A adolescente conta que, ao chegar à porta da escola, por volta das 13h30, três primas e duas tias da menina que havia feito a ameaça estavam no local. A briga teria acontecido por conta de “risadas” no páteo da escola. Com a situação, a diretora teria chamado à PM, que enviou uma viatura com dois PMs homens. Dentro da escola, uma das tias da menina de 14 anos, teria dito a frase: “se encostar na minha sobrinha, vou te matar. Não é uma ameaça é uma promessa”. Segundo a vítima, o PM interveio, dizendo que a mulher, supostamente maior de idade, poderia agredir a garota, pois ele “passaria um pano”. A vítima alega que, neste momento, teria se virado para ver o PM, quando recebeu um soco que acertou a boca. Sangrando, ela teria se levantado e virado de costas, recebendo um golpe com uma pedaço de madeira na nuca. A paulada teria sido desferida pela tia, enquanto o PM, teria dado um golpe com o cassetete em sua perna.

 

IMG_20140412_160709

 

Ainda dentro da escola, a menina teria sido socorrida por algumas garotas que a viram sangrando. A irmã, que já estava dentro unidade, foi impedida de socorrê-la. Nesta hora, a menina teria sido ofendida pelo mesmo PM. “Meu chinelo acabou ficando lá, quando voltei para pegar, o PM disse, vai embora neguinha favelada, macaca”.

A adolescente L. M. C. S, não teria recebido apoio da direção da escola e nem mesmo da PM, indo para casa sangrando e a pé. Os PMs, junto as supostas agressoras teriam ido até o 67° DP (Jardim Robru), e elaborado um boletim de ocorrência, de agressão e desacato, mas, contra a vítima, deixando a família da menina indignada. De acordo com o Boletim de Ocorrência número 929/2014, a menina teria agredido os policiais militares, sendo um com ferimentos no rosto, e desacato à autoridade. “Minha filha apanhou da PM, ninguém fez nada, e ainda passa como culpada, estou indignada”, diz a professora Luciana Brason, de 39 anos, mãe da menina.

A mãe da adolescente também se diz chateada com a direção da escola. “Na escola todos me conhecem, assim como minhas filhas. Deu tempo de chamar à família da menina, à PM, mas não me chamaram. Minha filha apanhou e fui a última a ser informada. O caso está sendo apurado por advogados ligados à Uneafro.

Um ato de repúdio foi realizado na tarde do último sábado, 12, na Avenida Paulista. Cerca de 20 pessoas carregando faixas e bandeiras contra a PM e pela desmilitarização da polícia interromperam aos gritos de “fora PM” e “PM racista” um encontro organizado pela OAB, que contou com a presença do comando da Polícia Militar, no auditório da TV Gazeta. Seguranças do evento retiraram os manifestantes.

 

UNEAFRO (1) IMG_20140412_170820 IMG_20140412_170749 IMG_20140412_153858

Categorias
Violência Racista

PM chama de “macaca favelada” e quebra 2 dentes de menina negra de 15 anos em SP

10151283_981221635237032_4894475548609691774_n

 

Por Douglas Belchior

 

MOVIMENTO NEGRO CONVOCA ATO PARA DENUNCIAR VIOLÊNCIA DA PM CONTRA MENINA NEGRA DE 15 ANOS

 

Esta semana uma adolescente negra de 15 anos foi gravemente agredida por um policial militar dentro de uma escola pública na zona leste de SP e com a cumplicidade da direção da escola.

Depois de ser chamada de “macaca favelada”, a adolescente levou um soco na boca e teve 2 dentes quebrados e escoriações no corpo. Em sua reação, acabou por arranhar o rosto do policial, que registrou Boletim de Ocorrência por agressão e desacato da parte da menina.

Tanto a delegacia onde o policial forjou o B.O. quando a Delegacia Especializada em Crimes Raciais se recusaram a alterar o conteúdo do documento e sequer ouviram a menina agredida.

O caso revoltou familiares e amigos que procuram o movimento negro em busca de apoio. Desde então a Uneafro-Brasil, através de seu coletivo de advogados militantes, tem dado apoio. Já ouve um primeiro contato com a Defensoria Pública do Estado e outras providências serão tomadas na próxima semana.

 

Movimento convoca Ato para às 15h deste sábado (12)
Neste sábado (12/04) haverá um Congresso de sobre segurança pública com a presença do secretário de Segurança Pública de SP, Fernando Grella. O evento será realizado no Teatro Gazeta, no prédio da emissora na Av. paulista.

O movimento está convocando ativistas e solidários para um ato simbólico de protesto e denúncia às 15h em frente o local do Congresso.

Durante o Evento, o grupo pretende fazer uso da palavra, apresentar a denúncia e cobrar providências por parte do Secretário.

 

COMVOCAÇÃO:

ATO CONTRA VIOLÊNCIA RACISTA E MACHISTA DA PM

Nesse sábado | 12/04 | 15h

Em frente o Prédio da TV Gazeta na Av. PAULISTA

 

 

Veja abaixo o relato da Mãe na adolescente agredida, publicada em seu Facebook.

 

TORTURA E RACISMO dentro de escola pública, por parentes de alunos e
pasme: pela POLÍCIA!!
“Tenho duas filhas adolescentes, uma delas é Raíssa, de 13 anos, que estuda na escola estadual Wilson Roberto Simonini, na Zona Leste de São Paulo. Ela comentou com a irmã de 15 anos, Larissa, que uma amiga dela tinha dito que umas meninas estavam a procura dela para bater nela. Isso foi na sexta feira. Na segunda, dia 07 de abril, a minha filha de 13 anos não foi à escola com medo, e eu não sabia de nada, na terça sairam as duas rumo a escola alegando que elas iriam conversar com a menina para saber o porque ela queria bater em Raíssa.

 

Após 40 minutos que minhas filhas saíram para ir à escola, na terça feira, ambas retornaram para casa. A mais velha toda machucada, sem dente, dizendo que tinha ido na escola, estava no portão conversando com as amigas da menina que supostamente queria bater em Raíssa, enquanto a menina do lado de dentro, também com medo de apanhar, ligou para a tia e uma prima maior de idade, que chegou na porta da escola com um pedaço de pau.

 

A diretora pediu para que todos entrassem para conversar e resolver a questão, porém uma vez dentro da escola, todas entraram em discussão. A policia foi chamada. A tia da suposta agressora da minha filha, falou em frente aos policiais que se Larissa (a minha filha mais velha que tentava defender a irmã mais nova) batesse na sobrinha dela, iria mata – la, que era uma ameaça séria. Nisso, um dos policiais disse: “Mata mesmo, eu passo uns panos quentes em cima!” Como a dizer que nada aconteceria a ela. O policial, sempre agressivo, ainda disse à minha filha: “Você acha que está na favela, sua macaca?” E desferiu em Larissa um soco na boca. Minha filha, com medo, correu, mas a mulher bateu nela com o pau, e ai minha filha foi torturada dentro da escola, tanto pela mulher quanto pelos policiais. Os funcionários, diretora da escola e professores nada fizeram, ficaram todos assistindo. Nem mesmo me ligaram ou fizeram nada para parar com a agressão, que ficou largada lá no chão, sozinha.

 

Sempre vejo acontecer com os filhos dos outros, mas jamais pensei que pudesse acontecer com as minhas filhas. Foi uma fofoca de adolescentes; a mesma que disse à Raissa que a outra queria bater nela, também disse a outra menina que minha filha queria bater nela. Ambas com medo, uma chamou a tia e a minha filha chamou a irmã mais velha… E tanto a direção, quanto os policiais, todos adultos, não souberam mediar um conflito tão idiota como este, promovido por praticamente crianças.
Um vídeo me chegou às mãos. Não sei quem filmou, mas dá pra entender a dimensão da tortura que minha menina sofreu dentro da dependência escolar. Após espancarem minha filha, todos foram para a delegacia, nem mesmo socorreram a minha filha, que foi trazida até em casa por outros adolescentes. Tentei ligar pra escola e ninguém de lá quis me atender. Fui até a delegacia, e encontrei todos lá. Os policiais socorreram a tia da menina que estava com dor no braço de tanto bater em minha filha, mas deixaram a menina lá pra morrer sozinha.

 

Falei ao policial que as agressões haviam sido filmada. Disse a ele que por mais que minha filha estivesse errada, sei que ela é ‘respondona e bocuda’, mas ele não tinha o direito de bater na minha filha porque ele era funcionário do estado. Ao saber que eu tinha a filmagem, até a tia da menina falou que pagaria pelo conserto do dente quebrado. Sim, porque além de hematomas no corpo todo, ela teve um dente quebrado, a boca muito machucada porque usa aparelho ortodôntico. Me pediram desculpas, eu crio minhas filhas sozinhas e sei dos meus direitos. Além de ser agredida fisicamente, também foi injuriada racialmente. Sei que só me pediram desculpas após saberem que tenho documentado a agressão.
Agora não sei o que fazer, porque quero justiça por isso. Tanto pela responsabilidade da escola, quanto dos policiais, quanto de uma adulta. Preciso de ajuda profissional, pois não sei para onde ir, já que tentei registrar B.O e claro, não me deram a atenção na delegacia. Eu fiquei com minha filha sentada no chão, toda machucada, sem saber o que fazer. “

Categorias
Violência Racista

Jovem negro é espancado e morto por populares no Espírito Santo

1_babarie2-1341040

Fotos: A Gazeta (ES)

Visite as Galerias VÍDEOS | FOTOS | AGENDA | BLOG

 

Por Douglas Belchior

Fonte: 1, 2, 3 e fotos de reprodução – facebook

 

O corpo negro ensanguentado e o olhar assustado que você vê na foto de  é do menino Alailton Ferreira, de 17 anos, cercado por um grupo armado com pedras, barras de ferro e pedaços de madeira. Momentos depois, ele seria alvo de um espancamento coletivo. Desacordado, foi levado ao hospital, mas não resistiu e morreu na noite de terça-feira (8).

Aos gritos de “mata logo” e de vários xingamentos, o espancamento aconteceu às margens da BR 101, na tarde do último domingo (6), no bairro de Vista da Serra II, cidade de Serra, há cerca de 30km da capital Vitória, no Espírito Santo. Só depois de duas horas de muita violência, a Polícia Militar chegou ao local, colocou o jovem na viatura e o levou até a Unidade de Pronto Atendimento. “Os policiais militares descreveram no boletim de ocorrência que foi necessário utilizar spray de pimenta para conter os populares” disse o delegado-chefe do DPJ, Ludogério Ralff.

 

Acusação de Estupro

O motivo do linchamento foi causado por acusações controversas. Alguns disseram que o jovem teria tentado estuprar uma mulher. Outros que ele seria suspeito de tentar roubar uma moto e abusar de uma criança de 10 anos. Tudo ocorreu no domingo (6), mas até esta quarta-feira, dia em que Alailton foi enterrado, não havia qualquer denúncia ou relato de testemunhas, segundo a Polícia Civil.

O irmão contesta as acusações e diz que o adolescente sofria de problemas mentais: “Ele chamou a menina, ela se assustou e correu para chamar a família. Os familiares e vizinhos correram atrás dele. Por isso as pessoas falaram que ele era estuprador. Se ele quisesse roubar uma moto, teria feito no próprio bairro, mas ele nem sabe pilotar”. Segundo o tio do jovem, foi um ato de covardia. “Ele estava com uns problemas de saúde e ficava assustado com frequência”.

O morador Uelder Santos, 29, em entrevista para ao jornal A Gazeta (que é também o autor das fotos que ilustram este artigo) também colocou as acusações sob suspeita: “Ninguém viu esse tal estupro ou mesmo noticias da suposta vítima”.

“Peçam perdão a Deus pelo que fizeram”, diz a Mãe

wnkeg555ldjdd0bnmwl5aazu1506902

Foto: A GAzeta(ES)

Em entrevista à Gazeta (ES), a mãe de Alailton,  a doméstica Diva Suterio Ferreira, 46, disse que  o filho teria sido vítima de uma injustiça: “Ele já foi preso por furto, usava droga, mas não estuprou ninguém, jamais faria isso”. Cristã, disse que se apega a Deus para socorrê-la nesse momento difícil:     Meu filho era amado, sonhava em me dar uma casa. Dizia que queria um quarto para ele, um para mim e um para irmã.    Minha filha, de 11 anos, só chora, tem medo de sair à rua depois do que aconteceu.     Acredito na justiça divina. Peço que essas pessoas peçam perdão a Deus pelo que fizeram ao meu filho”.

Violência endêmica e elemento racial (nada) subjetivo

O escritório das Nações Unidas apresentou nesta quinta-feira (10) um levantamento sobre as taxas de homicídio em que conclui que as Américas são as regiões mais violentas do planeta. O Brasil está entre países mais violentos. Das 30 cidades mais violentas do planeta, 11 são brasileiras. Segundo a publicação, Maceió é a quinta cidade do mundo com mais homicídios por cada 100 mil habitantes. A cidade de Vitória do Espírito Santo, vizinha ao local onde Alailton foi assassinado por populares, é a 14ª da lista mundial.

Não gosto de suposições, por isso fico nas perguntas: qual seria o resultado de uma amostragem com o recorte racial das vítimas desses homicídios em toda América? Teríamos uma proporção parecida com a média brasileira, que aponta 70% de vítimas negras?

Não sei se Alailton estuprou alguém. Era mulher feita ou uma criança de 10 anos? Ambos os crimes são gravíssimos. Mesmo que tenha sido uma “apenas” uma tentativa ou ainda que o jovem tivesse problemas mentais, sem dúvida caberia alguma punição. E a Lei prevê. Mas jamais um linchamento. Jamais!

E pior: nada leva a crer que houve de fato o crime. Aliás, ao que parece (não sou investigador, nem gostaria), ele teria sim sido “vítima de uma injustiça”, como disse a mãe doméstica.

O fato de ser um menino negro teria sido um elemento potencializador do ódio coletivo e da precipitação de um julgamento instantâneo – acusação, julgamento, condenação e execução: Foi ele! Pega ele! Só pode ter sido ele!?

E se fosse um menino branco, a história teria tais requintes de crueldade e terminaria no cemitério?

A bala não é de festim, aqui não tem dublê!

 

O assassinato covarde do menino negro Alailton Ferreira me fez lembrar dois filmes norte-americanos muito famosos. O primeiro é o clássico “O sol é para todos”, de 1962, que conta a história de Tom Robinson (Brock Peters), um jovem negro que fora acusado de estuprar Mayella Violet Ewell (Collin Wilcox Paxton), uma jovem branca. Atticus Finch, um advogado extremamente íntegro, interpretado por Gregory Peck – que viria ganhar o Oscar de melhor ator com esse trabalho, concordou em defendê-lo e, apesar de boa parte da cidade ser contra sua posição, ele decidiu ir adiante e fazer de tudo para absolver o réu. Nos Estados Unidos como aqui, sempre fora comum acusações de estupros e outros crimes recaírem sobre negros, sem que haja grandes contestações.

O outro filme, esse mais recente (1996), faz ainda mais sentido com o momento que vivemos, inclusive no nome: “Tempo de Matar”, que se passa em Canton no Mississipi, onde Carl Lee (Samuel L. Jackson), um negro que, ao matar dois brancos que espancaram e estupraram sua filha de 10 anos é preso, e um advogado branco Jake Brigance (Matthew McConaughey ) e Ellen (Sandra Bullock) uma obstinada estudante de Direito, ambos se voltam contra o preconceito e o racismo existente na comunidade daquela cidade para defender o acusado.

Já no fim da trama, quando tudo parecia perdido, afinal a cidade queria a condenação do acusado, no Tribunal Jake solicita a todos os presentes que fechem os olhos e ouçam a ele e a si mesmos, então ele começa a contar a história de uma garotinha que volta do armazém, e de repente surge uma “pick-up” de onde saltam dois homens e a agarram, eles a arrastam para uma clareira e, depois de amarrá-la, arrancam-lhe as roupas do corpo e montam nela, primeiro um, depois o outro, eles a estupram tirando toda a sua inocência com brutais arremetidas. Depois de acabarem, e de ter matado qualquer chance daquele pequeno útero ter filhos, os dois rapazes começaram então a usar a garotinha como alvo, acertando-a com latas cheias de cerveja, cortando sua carne até o osso. Não satisfeitos, eles ainda urinaram sobre ela, e com uma corda fazem um laço e a enrolamo no seu pescoço e num puxão repentino a suspende no ar, esperneando e sem encontrar o chão até o galho quebrar e, milagrosamente cair no chão. Nesse momento, eles a colocaram na “pick-up” e, ao chegar em uma ponte, jogam-na de cima da mureta, de onde ela cai de uma altura de 10 metros até o fundo de um córrego. Jake então para a história e pergunta aos presentes se conseguem vê-la, se conseguem imaginar o corpo daquela garotinha estuprado, espancado, massacrado, molhado da urina, do sêmen deles e do próprio sangue, e depois abandonado para morrer…

E novamente repete para que todos façam uma imagem dessa garotinha, aguarda um instante e pergunta: “Agora imaginem que essa garotinha é branca”!

Carl Lee é inocentado pelo júri.

Ora, “impoluto escrevente”, me perguntaria um dos meus algozes sempre presentes nos comentários deste Blog: “Mas não está a criticar a ideia da justiça pelas próprias mãos? Contraditório o exemplo deste filme, não?”.

E eu responderia:

Sim e não.

Sim. E essa é a parte que não gosto no filme. Ele justifica a ideia de que, em alguns casos, pode-se aceitar a justiça feita pelas próprias mãos. E não podemos tolerá-la em hipótese alguma. Menos ainda quando o pressuposto é inexistente – como parece ser neste caso do Espírito Santo.

E não.

Não por que faz todo o sentido imaginar que, diante da violência sistemática, continuada e explícita contra a população negra, não seria absurdo imaginar que em algum momento pode haver reações, bastando para isso que aflore a percepção – por parte da população negra, de que vivemos sim um estado de desigualdades e de violência racial.

Mas se dirá: Loucura! Radicalismo deste blogueiro afro-lunático racialista! E diante da fúria democrata-gilberto-freyreana presente inclusive na parte bolchevique do mapa, diria por fim:

Sempre caberá o terrível e necessário pedido de reflexão feito pelo advogado branco, Jake Brigance (Matthew McConaughey ), em Tempo de Matar:

“Agora imaginem que essa garotinha é branca”!

Imagine que Alailton é branco!

Imagine que Cláudia é branca!

Imagine que Amarildo é branco!

Imagine que Douglas é branco!

Imagine que José Carlos, é branco.

Imagine que o menino torturado e amarrado nú em um poste na zona sul do Rio de Jaineiro é branco.

Imagine que, quem a polícia mata 3 vezes mais que negros, são os brancos.

Imagine um mundo onde as pessoas pudessem viver em paz.

Consegue?

imagemespancamento

Foto: A Gazeta (ES)