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Espetáculo mostra narrativas das presidiárias brasileiras

Foto: Thiago Sabino

Por Marina Souza

De acordo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias sobre Mulheres, o Infopen Mulheres, divulgado em maio pelo Ministério da Justiça, o Brasil é o quarto país do mundo com maior número de mulheres presidiárias. As eficácias, consequências e os funcionamentos do atual sistema prisional brasileiro estão diretamente atrelados à questão de classe, de gênero e ao racismo estrutural. Foi tomando como base este universo doloroso e negligenciado, que Edson Beserra dirigiu o espetáculo “Liberdade Assistida“, que entra em cartaz nos próximos dias 14, 15 e 16 de dezembro, no Teatro de Contêiner Mungunzá, em São Paulo.

Com o processo produtivo de estudar livros, poesias, pesquisas acadêmicas, textos, depoimentos, cartas e entrevistas de detentas e ex-detentas, de diferentes lugares do país, a peça tem como intenção retratar a dura realidade dos presídios femininos e a vulnerabilidade da periferia do país.

A atriz e produtora cultural Marta Carvalho, de 47 anos, nos contou que há 10 anos começou a pesquisar sobre o assunto através de um trabalho de formação nas Casas Abrigos do Distrito Federal. Em 2017 ela interessou-se pelas inscrições no Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro Brasileiras, convidou a professora, doutora em História, Ana Flávia Magalhães para escrever a dramaturgia e o dançarino Edson Beserra para dirigir, pela primeira vez na carreira, um espetáculo teatral. Após ser premiado, o grupo estreou o espetáculo pelo Brasil.

Marta intercala expressões verbais e corporais em um monólogo. Ela ressalta que “estar sozinha é também não estar”, lembrando das importantes presenças que há por trás dos palcos.

Foto: Roberth Michael

“A arte tem que se portar como um transformador social. Esse espetáculo vem falar das histórias dessas mulheres que estão dentro da gente. A mulher preta vive um cárcere social. É sobre nossos corpos contando como as nossas irmãs vivem em situação de cárcere constantemente.”, revela a atriz.

Serviço:

  • Espetáculo “Liberdade Assistida” em São Paulo
  • Dias 14, 15 e 16/12
  • Sexta e sábado às 20h | Domingo às 19h
  • Teatro de Contêiner Mungunzá (Rua dos Gusmões 43 | Santa Ifigénia – Centro)
  • Entrada: R$ 20 (inteira)  e R$ 10 (meia)
  • Classificação Indicativa: 16 anos
  • Duração: 55 minutos
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Periferia

Salve, Nilza!

Por Gaby Conde

Nilza é moradora da comunidade X, tem três filhos e, como mais de 30 milhões das famílias brasileiras, os cria sozinha, sem a participação do pai das crianças.

Negra, tem 42 anos, trabalha como estoquista numa loja no centro da cidade. Recebe por 8h de jornada (às vezes, 9h, 10h, dependendo da época do ano), um salário mínimo e meio mais o vale transporte para ir e vir ao trabalho. Diz que as coisas pioraram muito depois da reforma trabalhista. “Todo mundo trabalha mais, fazendo coisas de outra função e, se reclamar, escuta logo que se não quiser ficar, tem um monte de desempregado querendo a vaga”. E ela sabe que tem.

O ponto onde pega o ônibus lotado que a leva ao serviço fica longe de sua casa o que faz com que ela tenha de sair mais cedo, quase escuro, para ir para a parada. Ela tem medo. É esquisito e perigoso. “Pra mulher, então”!

Policiamento na sua comunidade só para invadir casas de gente simples e honesta e matar jovens negros que os policiais consideram suspeitos. Para garantir segurança e proteção aos moradores, nunca!

Também é meio distante de onde desce do ônibus até a loja. Bom seria se pudesse pegar duas conduções para ir e duas para voltar. Mas, o patrão não paga os dois “trechos”. Segue andando mesmo…

Nilza tem “o antigo segundo grau” e não teve oportunidade de estudar mais. Para seus filhos, enfrenta as filas quilométricas, pela madrugada, no fim/começo do ano para assegurar as vagas deles em escolas públicas “boas”. O filho mais velho, de 17 anos, chegou, em 2014, a viajar para o exterior através de um programa educacional do governo federal anterior. Os outros não poderão fazê-lo, pois não há mais financiamento para o tal programa. Nilza sabe, inclusive, que, por mais vinte anos, não se investirá em educação e saúde. Se preocupa com seu presente e com o futuro dos seus filhos.

Na vizinhança, é daquelas que briga pedindo melhores condições e que reza para seus filhos voltarem vivos e inteiros para casa todos os dias. As estatísticas justificam tanto medo: no Brasil, um jovem negro tem 2,5% a mais de chance de ser assassinado que um jovem branco. Em Pernambuco, seu estado, essa estatística sobe para 11,5%. Melhor que Nilza reze mesmo, afinal seus filhos são negros.

Ela e suas vizinhas não conhecem Angela Davis. Nunca leram Chimamanda ou Djamila. Não sabem que existe um monte de termos em inglês para conceituar violências cotidianas que sofrem de homens, sejam seus companheiros, patrões, colegas de trabalho. Não discutem sororidade ou rede de apoio. Não caminham muito nas teorias.

Uma fica com as crianças das outras sempre que necessário. Dividem o alimento quando é preciso. Uma abriga a outra quando a situação é grave.

Mês passado mesmo, Nilza acolheu a comadre da rua de cima que, mais uma vez, havia sido espancada pelo parceiro. Dessa vez, com o apoio, incentivo e companhia da Nilza, ela conseguiu ir à delegacia denunciá-lo. Tem uma medida protetiva para mantê-lo afastado.

Nilza, que já separou brigas, que se coloca no meio, que é dessas que mete a colher, torce para que funcione e que sua amiga não se torne uma das doze mulheres que morrem, por dia, no Brasil vítimas do feminicídio.

Nos fins de semana, Nilza e outras mães conseguiram, com “quem manda na comunidade”, autorização para que seus filhos usem o campo para jogarem futebol, vôlei, dançarem hip hop.

Nilza diz odiar política. O que ela não sabe é que ela mesma é política. Da melhor qualidade! Na verdade, o que ela odeia é o fazer político que está posto.

Ela é política como tantas, muitas e outras mulheres desse país afora que, com seu agir diário transformam vidas em suas comunidades, e que, um dia, vão mudar esse país!!

 

Gaby Conde é militante e ativista na luta antirracista e em defesa dos Direitos Humanos há mais de duas décadas. Mulher negra, nordestina, periférica, feminista, mãe autônoma, arteeducadora, educadora popular e capoeirista. Está candidata a deputada federal pelo PSOL/PE traçando, pela primeira vez, o caminho da política institucional.

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Periferia Política

Periferia, a dama mais cortejada da cidade

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Por Jorge Américo e Douglas Belchior

 

As eleições municipais estão aí e se apresentam como uma oportunidade de aprendizado interdisciplinar. Em nenhum outro momento da vida nacional vemos tanta gente falar sobre o que não conhece. Os linguistas e semióticos precisariam de ajuda dos matemáticos para contar quantas vezes a palavra “periferia” aparece na boca dos políticos.

Depois de quatro anos seguidos de apedrejamentos e “rebosteios”, a periferia deixa de ser a Geni da canção do Chico para ser a dama mais cortejada da cidade. Não há quem não a ame. Não há quem não queira tomar o café da Dona Maria num copo de requeijão, tirar uma selfie com o Seu Zé ou comer uma asinha de frango na laje com a rapaziada ao som do Exaltasamba. Militares, empresários, delegados, médicos, apresentadores de televisão, socialites, enfim, todo mundo quer estar nos braços da periferia.

Na maioria dos discursos eleitoreiros, a periferia é romantizada. É uma terra de bárbaros de bom coração que precisa ser colonizada e domesticada por alguém que conheceu as coisas boas da vida. A periferia precisa de alguém que leve o progresso, o conhecimento, a recreação, o desporto, a água tratada, a segurança, o pediatra, o xarope, o sinal de Wifi. Os marqueteiros usam técnicas hollywoodianas para tentar convencer os eleitores de que quatro anos são suficientes para sanar todas as sequelas geradas pelos 388 anos de escravidão e outros 128 de exclusão, opressão e violência de toda espécie.

 

Na maioria dos discursos eleitoreiros, a periferia é romantizada. É uma terra de bárbaros de bom coração que precisa ser colonizada e domesticada por alguém que conheceu as coisas boas da vida

 

Por outro lado, a cidade dos ricos nunca aparece nas campanhas eleitorais, embora seja e continuará sendo alvo das principais intervenções urbanísticas – independentemente de quem vencer as eleições. As vias alargadas, iluminadas e arborizadas continuarão a proporcionar mobilidade, segurança e ar fresco. Os parques públicos, teatros e museus oferecerão boas opções de recreação. E se alguém tomar um tombo e ralar o joelho nas ciclovias, uma rede formada pelos melhores hospitais do país estará pronta para prestar o melhor atendimento.

O que mais angustia é o desrespeito com as pessoas mais simples que abrem as portas com simpatia para quem quer que seja. Bem treinados, os caçadores de voto deixam sua zona de conforto e se exibem com desenvoltura diante das câmeras. Comem pastel na feira, fazem caras e bocas quando ouvem histórias tristes, choram e até abraçam os moradores da periferia. Seria hilário imaginarmos o contrário. Que rico abriria a porta de sua mansão nos jardins ou em sua cobertura em Higienópolis, para um candidato negro nascido e criado na periferia que quisesse apresentar seus projetos para uma cidade mais justa e democrática? Que rico serviria um drinque para este candidato na beira da piscina, mostraria a cama onde dorme, a mesa onde come, revelaria toda a sua intimidade?

 

Que rico abriria a porta de sua mansão nos jardins ou em sua cobertura em Higienópolis, para um candidato negro nascido e criado na periferia que quisesse apresentar seus projetos para uma cidade mais justa e democrática?

 

Isso não acontece nos bairros nobres porque somente a cidade dos pobres está em disputa e precisa ser salva. No fundo, tamanha vontade de salvar a periferia esconde um desejo secreto de ser salvo por ela. Ora, ninguém se elege sem os votos da periferia,

que é maioria sem ser. Este é, portanto, o momento de a periferia ser defendida como nunca por todas as vozes que sempre declararam seu amor a ela, seja rimando, seja recitando, interpretando ou organizando luta política na própria periferia.

A desavergonhada baixaria da política torna legítima a posição de quem se cala para não dar ibope aos partidos políticos pelos quais não simpatiza. Mas, por outro lado, é legítimo também afirmar que a omissão, em tempos de golpe, é um voto de confiança na gravata que sempre oprimiu e na farda que sempre matou.

Não. Não é tempo de omissões.

 

*Jorge Américo é jornalista, poeta e educador popular.
*Douglas Belchior é professor de história e editor deste Blog.

 

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