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Marcha a Favor da Liberdade Religiosa e Contra o Re494601 será nesta quarta (8) na Avenida Paulista

 

Os manifestantes foram convidados a comparecerem ao ato utilizando roupas brancas.

Na próxima quarta-feira, 8/8, às 18h, acontecerá a Marcha a favor da liberdade religiosa e contra o Re494601 no Vão Livre do MASP, em São Paulo. O ato reunirá manifestante que buscam a anulação do recurso extraordinário, de número 494601, que tenta criminalizar as práticas litúrgicas de alimentação, nas religiões de afro-brasileira.

Segundo os organizadores, o RE494601 infringi o direito de Liberdade ao Culto garantido na Constituição de 1988. Com isso, os praticantes reivindicam pela oportunidade de exercer suas religiões, costumes e tradições.

Julgamento do STF 

O julgamento do próximo dia 9 de agosto, no Supremo Tribunal Federal – STF, sobre abate religioso de animais, nasceu de uma vitória das religiões afro-brasileiras obtida em 2004 no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul.

Inconformado com esta vitória, o Ministério Público gaúcho ingressou com recurso no STF, que será julgado no próximo mês. Juntamente com as Casas Tombadas da Bahia, CEN-Coletivo de Entidades Negras, CENARAB e lideranças religiosas de SP, RJ e RS, os advogados promoveram diversas audiências com ministros do STF, inclusive com a Presidente Ministra Cármen Lúcia.

Desde 2004 o Dr. Hédio Silva Jr. vem atuando neste processo e, mais recentemente, também passaram atuar os advogados Dr. Antônio Basílio Filho e Dr. Jáder Freire de Macedo Júnior.

Nas audiências no STF foram apresentados os argumentos jurídicos que embasaram as vitórias das religiões afro-brasileiras no Tribunal gaúcho e também no Judiciário paulista, que recentemente julgou inconstitucional uma lei do município de Cotia que punia o abate religioso de animais.

Também foi um apresentado um parecer jurídico subscrito pelos advogados, contendo legislação brasileira, legislação europeia, jurisprudência da Suprema Corte norte-americana e de tribunais europeus, todos sobre abate religioso de animais. Este parecer está sendo atualizado pelos advogados e será enviado para todos os ministros do STF, após o que será amplamente divulgado nas redes sociais, juntamente com um vídeo explicativo gravado pelos advogados.

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Tráfico, igrejas evangélicas e intolerância religiosa

 

Por Lucas Obalera de Deus* e Ronilso Pacheco**

 

A aparição dos chamados “traficantes evangélicos” no contexto das favelas cariocas não é nova. Desde pelo menos 2007, ou seja, há pelo menos 10 anos, temos notícias de terreiros ameaçados e invadidos pelo tráfico. Já em 2008, a antropóloga Christina Vital pesquisava sobre o aparecimento dos “traficantes evangélicos” nas favelas cariocas. Vital, pioneira neste assunto, é autora do livro Oração de Traficante, que é resultado de sua pesquisa. E há ao menos mais dois interessantes livros, ambos frutos de pesquisas sobre a relação entre evangélicos do campo (neo)pentecostal e traficantes ou pertencentes a facções criminosas: Fé e Crime, de Vagner Marques, e Cristianismo e criminalidade, de Lucas Medrado. Em setembro de 2013, o Jornal Extra publicava uma reportagem intitulada “Crime e preconceito: mães e filhos de santo são expulsos de favelas por traficantes evangélicos”. A própria criação da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) no Rio de Janeiro tem relação direta com casos de agressão sofridas por afro-religiosos no Morro do Dendê. O que estamos vivendo hoje, portanto, já é uma tragédia anunciada há muito tempo.

 

A omissão e o silêncio de muitas igrejas e líderes evangélicos, pentecostais ou não, está no fato de muitos acharem que o traficante age da maneira errada, embora possa estar “fazendo o certo”

 

Então não há com o que se surpreender. O ambiente de formação colonial-escravocrata/racista da história do Brasil e, nela, o ambiente de instauração e formação das igrejas católicas e protestantes que aqui já chegaram impregnadas pela demonização e inferiorização do povo negro trazido de África, bem como de sua cultura e cosmogonia, permitiu a consolidação da mentalidade que associa a religiosidade de origem africana à feitiçaria diabólica, ao atraso e ao primitivismo. Portanto, a hostilidade sempre teve o seu lugar na sociedade brasileira, em qualquer classe e território. As igrejas pentecostais, que surgem classes abastadas mas e se espalham pelas camadas mais pobres da sociedade e, consequentemente, nas periferias que vão se formando nos centros urbanos, radicalizam esta hostilidade ao atribuírem o mal da vida do indivíduo às ações que são estabelecidas no plano espiritual, onde o diabo age, e o diabo neste caso quase sempre age por intermédio de “entidades” diversas da religiosidade de matriz africana que acompanha, por tradição, legado, herança direta ou indireta, grande parte da população preta e também pobre que divide com os evangélicos pentecostais as favelas, os morros e as periferias das cidades.

 

“essa luta é renhida e, embora não andemos atrás dos demônios, eles andam a nossa procura para nos afastar de Deus. São inimigos d’Ele e do ser humano; daí a necessidade da luta. Essa luta com satanás é necessária para podermos dar o devido valor à salvação eterna, pois não há vitória sem luta”.

Bispo Edir Macedo, em 1997

 

Mas é com as igrejas neopentecostais que o princípio da “batalha espiritual” empurra para o campo do fundamentalismo extremo e da perseguição deliberada as religiões de matriz africana. Há um processo pedagógico de reeducação (e não de alienação) no qual seus fiéis passam a organizar a si e suas relações com o mundo. Em outras palavras, são reeducados, por meio de diversos ritos, palestras, gincanas e etc, para uma visão de mundo no qual o demônio, materializado nas religiões de matrizes africanas, deve ser combatido. Agora o demônio é, de fato e declaradamente, os povos de terreiro.

 

Bispo Edir Macedo, em 1997, já anunciava em seu livro: “essa luta é renhida e, embora não andemos atrás dos demônios, eles andam a nossa procura para nos afastar de Deus. São inimigos d’Ele e do ser humano; daí a necessidade da luta. Essa luta com satanás é necessária para podermos dar o devido valor à salvação eterna, pois não há vitória sem luta”. A figura dos traficantes evangélicos apresentam outros desafios na construção de estratégias de combate ao racismo cultural religioso/intolerância religiosa, uma vez que este “novo” agressor está fora da institucionalidade convencional. Se por um lado, muitas igrejas não tem coragem de fazerem o que o traficante que ordena a destruição do terreiro faz, é comum do universo evangélico orações para que terreiros fechem, para que terreiros sejam substituídos por igrejas.

 

Até quando vamos permitir que determinados espaços religiosos evangélicos continuem se valendo da dita “vontade de Deus” para pregações que inspiram a perseguição, e quiçá a eliminação, de pessoas e culturas, ou legitimar tais violências com o silêncio?

 

A omissão e o silêncio de muitas igrejas e líderes evangélicos, pentecostais ou não, está no fato de muitos acharem que o traficante age da maneira errada, embora possa estar “fazendo o certo”, que é “expulsando o mal” da comunidade. Por fim, há sim uma relação entre a ação de capelania-evangelização pentecostal-neopentecostal nos presídios com a mensagem ou a “ordem” que chega na ponta, nas comunidades, e isso deve ser investigado. E mais do que isso, as investigações devem chegar às lideranças que devem ser responsabilizadas pelos argumentos que sustentam “biblicamente”, encorajando (quando não incitando deliberadamente) as agressões atuais.

 

Por fim, não temos ideia que caminhos percorrer, no entanto, acreditamos que não podemos cair na lógica de guerra como mecanismo para resolver esta problemática. Isto é, enquanto comunidades-terreiro não podemos alimentar as políticas de violência direcionada às favelas, pois, são políticas que seguem a mesma lógica que incita a perseguição às nossas tradições. E enquanto evangélicos, não podemos continuar sustentando a aberração da perseguição e da violência em nome de um suposto estabelecimento do “Reino de Deus” ou de demarcar o território como um espaços em que “quem manda é Jesus”. Porque no fim, são os mesmos corpos pretos e pobres, morrendo nos mesmos lugares, de diversas formas, seja de que fé for. São políticas racistas e genocidas que visam somente liquidar corpos pretos e pobres.  Diante disto, estamos trazendo a seguinte questão: até quando vamos permitir que determinados espaços religiosos evangélicos continuem se valendo da dita “vontade de Deus” para pregações que inspiram a perseguição, e quiçá a eliminação, de pessoas e culturas, ou legitimar tais violências com o silêncio?

 

* Lucas Obalera de Deus é candomblecista e Cientista Social pela PUC-Rio
** Ronilso Pacheco é teólogo, integrante do Coletivo Nuvem Negra e autor do livro “Ocupar, resistir, subverter: Igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”

 

 


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Filosofia Intolerância Religião

Não fale em nome de Deus

Por Douglas Rodrigues Barros **

Semana passada circulou em vários grupos de Whatsapp um texto supostamente escrito por um deputado que tem em seu currículo não apenas a liderança religiosa, como também, a acusação de abuso contra uma mulher e a contratação de cinco pastores que não cumpriram as funções determinadas pelo cargo: o famoso empregado fantasma. Haja vista, contudo, que tais textos não são criteriosos e dificilmente se comprovaria a autenticidade da autoria, o seu conteúdo, não obstante, é no mínimo estarrecedor e antirrepublicano no sentido mais baixo do termo. O pequeno artigo em questão buscava justificar o voto do deputado contra a investigação sobre Michel Temer, baseando-se numa suposta ordem divina ipso facto.

É mais que evidente que, nos últimos anos, a influência de algumas igrejas evangélicas na política se tornou assombrosa. O famoso parlamentar Eduardo Cunha, por exemplo, que faz parte da Assembleia de Deus – ministério Madureira – foi acusado pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot de utilizar essa igreja para receber 5 milhões em propina[1]. Além disso, os casos de corrupção, abuso de poder e desrespeito as diferenças cometidos por parlamentares ligados ao neopentecostalismo são muitos e bem conhecidos.

Não se pode tomar, porém, a parte pelo todo. Sabe-se do trabalho efetivo que muitas igrejas evangélicas fazem nas periferias e, mais importante que isso, do sentimento sincero de muitos dos adeptos dessas igrejas que majoritariamente são mulheres e homens pobres. De fato, a religião continua sendo o coração de um mundo sem coração (Marx). E qualquer apreciação supostamente ateia-iluminista soaria estéril frente a falta de expectativas reais de melhoria social ou de locais de recreação, entretenimento e aprendizado que, na sua total ausência, transfere para as igrejas evangélicas o tributo da socialização.

Eu poderia ainda tecer críticas utilizando-me do materialismo vulgar ou do ateísmo religioso que no fundo reafirmam a fé em uma ciência que fora igualmente mistificada pela sociabilidade mercadológica. Sabemos, contudo, que o ateísmo voltairiano é conquista de poucos rincões “iluminados” e endinheirados. Contra todos os prognósticos políticos e filosóficos, a religião continua sendo elemento social cuja importância, não poucas vezes, fora subestimada. Ela “a despeito dos seus múltiplos significados se manteve, mesmo que a fé saia de um deus todo-poderoso e passe para as últimas pesquisas da nanotecnologia”[2], o véu de maia permanece intacto. Tal verdade deveria ser matéria de discussão, mas pouco ou nada se fala a respeito, mesmo sabendo que o legado cristão é precioso demais para ser deixado aos fanáticos fundamentalistas, assistimos boquiabertos a nova espiritualidade proclamar seus ritos e morais em tempo real na televisão.

Do Oriente ao Ocidente, do Oiapoque ao Chui, a crença continua produzindo a sombra de um sentido para milhares de almas que enxergam, na atual sociabilidade capitalista, a podridão e a falta de razões para a existência. E isso desde a fé de Nova Era – espiritismo, budismo, umbandismo classe-média, esoterismo –, passando pelo neopentecostalismo, até a desvirtuação do Islã. A religião permanece, portanto, como fonte de respostas aos anseios da alma que esvaziada pelo consumo, se volta para a felicidade eterna por meio de um mundo extra-humano.

O problema, entretanto, surge quando, num processo regressivo, a “religião” – utilizo as aspas para indicar que estamos falando de algo específico – se utiliza da fé e em nome de Deus passa a fazer política. Os exemplos dessa maldição são muitos: desde os massacres envolvendo protestantes e católicos até a justificação na perseguição de etnias e grupos de outras crenças.

Ora, o que fundamentou os direitos universais do homem foi a conquista da liberdade religiosa. Conquista que só pôde ser efetivada a partir do momento em que a Religião deixou de estar atrelada ao Estado. Como consequência é possível compreender que uma das conquistas mais profundas da Revolução Francesa fora a separação entre o Estado e a Igreja. Essa conquista torna-se assim um bastião inabalável da própria liberalidade democrática fazendo com que sua defesa seja intransigente e independente do posicionamento no espectro político. O Estado é laico, e sua laicidade é o pressuposto da própria liberdade religiosa.

Assistimos hoje impassíveis,  cada vez mais o perigo do crescimento de líderes religiosos vinculados à política partidária. Tais lideres justificam seu conservadorismo e no nome de Deus cospem preconceito e ódio insuflando a crença em um inimigo imaginário para se elevar politicamente. Ora, qualquer consciência minimante informada sabe como esse obscurantismo é catastrófico para a vida social numa simples pesquisa na internet se chega à conclusão de como os desastres da aproximação Estado/Religião influíram em massacres, censuras de pesquisas, destruição de livros, etc. O sonho por um Estado religioso, portanto, sempre esteve permeado pela negação radical – ou seja, pelo massacre – daqueles que não creem no mesmo. E o ódio pelas diferenças, propugnados por esses mesmos líderes, deveria ser nosso sinal de alerta.

 

** Acabou de publicar o romance Cartas Estudantis, é doutorando em filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo.

[1] http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/janot-acusa-cunha-de-usar-assembleia-de-deus-para-receber-propina/

[2] https://lavrapalavra.com/2017/03/17/deus-no-diva-reflexoes-sobre-a-monstruosidade-de-cristo/

Imagem de Cleiton Custódio Ferreira

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Cultura Religião

Negritude e religião é tema de debate na Zona Leste de SP

Encontro trará investigação sobre racismo religioso e o papel da comunidade negra no catolicismo, protestantismo e nas religiões de matriz africana. Acontece neste sábado, 28/01, às 14h00 no CEU Lajeado – Guaianases

Por Aloysio Letra

 

Janeiro é mês de negritude e religião. Em Janeiro de 1835 os malês (muçulmanos) organizaram a “Revolta dos malês” na Bahia, uma mobilização de escravizados negros de origem islâmica contra os senhores BRANCOS. Em São Paulo este mês marca a fundação da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, organização negra da Igreja católica, ou ao menos uma organização utilizada para se ter negros convertidos a essa religião. Também neste mês, dia 21 de Janeiro comemora-se o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, que foi oficializada em 2007 para rememorar o dia do falecimento da Iyalorixá Mãe Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum (BA), vítima de intolerância por ser praticante de religião de matriz africana.

O NEGRUME convida todxs para a roda “Negritude e religião”. Discussão importante, já que porque pessoas ignoram a violência que os povos de Axé sofrem, não sabem que o cristianismo tem ligações profundas com a África, ou mesmo sabem que Jesus Cristo foi um homem NEGRO.

O racismo contra pessoas negras toma as mais variadas formas em nossa sociedade e é preciso discutir sobre racismo religioso e EXPROPRIAÇÃO cultural na religião.

As exposições e provocações iniciais ao debate ficarão por conta dos seguintes convidados:

JÔ FREITAS, atriz e poetiza. Idealizadora do Sarau Pretas Peri e poeta residente do Sarau das Pretas;

ARIELE CAMPOS, advogada, membra do Fórum de Religiões de Matriz Africana Zona Sul e Kizomba Nacional articulação pela vida das juventudes de terreiro e matriz africana;

ANDRÉ DIAS, do templo Espírita de umbanda tia Benedita da Bahia e Ogum sete ondas.

ALOYSIO LETRA, artista e militante negro membro da Igreja Batista da Liberdade.

Sábado, 28/01, às 14h00 no CEU Lajeado – Guaianases

Como chegar: Descer na estação Guaianases da CPTM e pegar a lotação Jd. Fanganiello.

APOIO CULTURAL: Programa Agente Comunitário de Cultura / Secretaria Municipal de Cultura / CEU Lajeado

 

Fotos - Roger Cipó
Fotos – Roger Cipó

 

Negrume, cultura e consciência negra

Na luta negra por liberdade e afirmação da cultura e resistências negras, historicamente negros da diáspora e negros da África caminham, marcham ou cortejam as ruas e seus ancestrais. Hoje, após a globalização do racismo contra pessoas negras, se faz necessário manter essa tradição de ocupar as ruas em prol da consciência negra.

No Brasil os afoxés na Bahia e Pernambuco, os maracatus em Alagoas, Ceará e Pernambuco e as congadas no Sudeste do país, cortejam as ruas saudando seus orixás e os reinados negros do Congo.

O projeto NEGRUME surgiu em Novembro de 2014 no bairro de Guaianases como um cortejo que homenageia as caminhadas e marchas da comunidade negra.

Negrume é uma mescla das tradições negras populares com a luta dos movimentos sociais negros. Firmamos batuques para a afirmação cultural e política da resistência negra contra o genocídio da população negra, contra o racismo estrutural, contra o mito da democracia racial e contra todas as mazelas originadas no preconceito de cor.

Em 2016 o projeto se estabelece também como um blog periférico e articula em Guaianases, periferia da zona leste, rodas de conversa sobre temas da cultura e consciência negra.
Nosso estandarte contra o racismo: Negrume!

NEGRUME promoverá periodicamente bate-papo com especialistas, militantes negrxs e artistas, sempre com participação atuante da nossa comunidade.

Acessem nosso blog:

https://negrume.wordpress.com/

Email: [email protected]

WhatsApp: (11) 9-9826-0365

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Política Religião

Enfrentar o fundamentalismo e aprender com os Evangélicos

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Por Douglas Belchior

A vitória do Bisco da Igreja Universal do Reino de Deus, Marcelo Crivella (PRB), na disputa para a prefeitura do Rio de Janeiro desencadeou uma porção de declarações e pseudo-análises nas redes sociais, eivadas de preconceito e ofensas à comunidade evangélica. Eu não sou evangélico e tenho todas as críticas à maneira como lideranças religiosas fazem uso político da fé das pessoas e professam o ódio em nome de Deus, aliás, como bem fazem outras muitas religiões. Mas não podemos deixar esse momento de tristeza e derrota momentânea nos cegar e repetir o erro e a conduta que tanto criticamos em nossos adversários.

Figuras abomináveis como Crivella, Pastor Everaldo, Malafaias, Valdomiros ou Macedos não representam o todo da comunidade evangélica. Tampouco a representação do que eu prefiro chamar de ‘fundamentalistas religiosos’ – e não evangélicos de maneira genérica, se limita a esses nomes mais conhecidos. Há anos vemos crescer, eleição após eleição, esta representação parlamentar nas câmaras municipais e estaduais em todo país, a ponto de termos uma bancada fundamentalista poderosíssima no Congresso Nacional. Mas não apenas: Cadeiras em conselhos de diretos, conselhos tutelares e espaços sindicais tem sido sistematicamente ocupados por este seguimento. Ainda assim, reafirmo: não representam o todo.

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Pastor Ariovaldo Ramos, em Ato de Evangélicos pela Democracia

 

Embora minoritários, há grupos progressistas importantes que se organizam no seio da comunidade evangélica e que, inclusive, estiveram junto com Freixo (Psol) nestas eleições. Ganha força entre os evangélicos, a Teologia da Missão Integral, algo bem parecido com a Teologia da Libertação, uma vertente teológica evangélica desenvolvida na América Latina e que defende que a dignidade humana, o cuidado com o meio ambiente e a luta contra toda a forma de opressão e injustiça são aspectos indissociáveis da mensagem do Evangelho. No Brasil, essa teologia inspira articulações tais como o MEP- Movimento Evangélico Progressista, que encampa pautas próprias do campo da esquerda já há muitos anos. Há ainda uma iniciativa que ganhou notoriedade a se colocar contrária ao Golpe de Estado sofrido pela presidenta Dilma, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, que sob a liderança do pastor Ariovaldo Ramos, ao lado dos Batistas Marco Davi e Luiz de Jesus, da jornalista Nilza Valéria e do teólogo Ronilson Pacheco, promovem um trabalho politicamente comprometido com as causas populares, com os direitos humanos e com a diversidade religiosa, além de defender o estado laico.

Sim, é preciso enfrentar o fundamentalismo religioso, conservador, neoliberal, preconceituoso e perverso que floresce e não é de hoje. Sempre bom lembrar que, lamentavelmente, este seguimento fora também alimentado e fortalecido pelo pragmatismo petista desde o primeiro mandato de Lula na Presidência da República. Fundamentalismo religioso é uma coisa. Comunidade evangélica é outra. É nossa tarefa separar o joio do trigo, dar voz e fortalecer politicamente os evangélicos coerentes, compreender a importância e a força da comunidade evangélica, trocar ideias e vivências, construir em conjunto e até aprender com ela, bem como nos provoca refletir o polêmico texto abaixo, publicado pelo @senshosp em 2013. Afinal, a esquerda brasileira tem algo a aprender com os evangélicos?

Vale a pena ler.

 

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O QUE A ESQUERDA TEM A APRENDER COM OS EVANGÉLICOS

“As massas de homens que nunca são abandonadas pelos sentimentos religiosos 
então nada mais vêem senão o desvio das crenças estabelecidas. 
O instinto de outra vida as conduz sem dificuldades 
ao pé dos altares e entrega seus corações aos preceitos 
e às consolações da fé.”
Alexis de Tocqueville, “A Democracia na América” (1830), p. 220. 

No Brasil, um novo confronto, na forma como dado e cada vez mais evidente e violento, será o mais inútil de todos: o do esclarecimento político contra o obscurantismo religioso, principalmente o evangélico, pentecostal ou, mais precisamente, o neopentecostal. Lamento informar, mas na briga entre os dois barbudos – Marx e Cristo – fatalmente perderemos: o Nazareno triunfa. Por uma razão muito simples, as igrejas são o maior e mais eficiente espaço brasileiro de socialização e de simulação democrática. Nenhum partido político, nenhum governo, nenhum sindicato, nenhuma ONG e nenhuma associação de classe ou defesa das minorias tem competência e habilidade para reproduzir o modelo vitorioso de participação popular que se instalou em cada uma das dezenas de milhares de pequenas igrejas evangélicas, pentencostais e neopentecostais no Brasil. Eles ganharão qualquer disputa: são competentes, diferentemente de nós.

Muitos se assustam com o poder que os evangélicos alcançaram: a posse do senador Marcello Crivela, também bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, no Ministério da Pesca e a autoridade da chamada “bancada evangélica” no Câmara dos Deputados são dois dos mais recentes exemplos. Quem se impressiona não reconhece o que isso representa para um a cada cinco brasileiros, o número dos que professam a fé evangélica ou pentecostal no Brasil. Segundo a análise feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a partir dos microdados da Pesquisa de Orçamento Familiar 2009 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a soma de evangélicos pentecostais e outras denominações evangélicas alcança 20,23% da população brasileira. Outros indicadores sustentam que em 1890 eles representavam 1% da população nacional; em 1960, 4,02%.

O crescimento dos evangélicos não é um milagre, é resultado de um trabalho incansável de aproximação do povo que tem sido negligenciado por décadas pelas classes mais progressistas brasileiras. Enquanto a esquerda, ainda na oposição política, entre a abertura democrática pós-ditadura e a vitória do primeiro governo popular no Brasil, apenas esbravejava, pastores e missionários evangélicos percorreram cada canto do país, instalaram-se nas regiões periféricas dos grandes centros urbanos, abriram suas portas para os rejeitados e ofereceram, em muitos momentos, não apenas o conforto espiritual, mas soluções materiais para as agruras do presente, por meio de uma rede comunitária de colaboração e apoio. O que teve fome e dificuldade, o desempregado, o doente, o sem-teto: todos eles, de alguma forma, encontraram conforto e solução por meio dos irmãos na fé. Enquanto isso, a esquerda tinha uma linda (e legítima) obsessão: “Fora ALCA!”.

O crescimento dos evangélicos não é um milagre, é resultado de um trabalho incansável de aproximação com o povo

 

Desde Lutero, a fé como um ato de resistência (Life of Martin Luther and and the Heros of Reformation, litografia, 1874)

 

O mapa da religiosidade no Brasil revela nossa incompetência social: os evangélicos e pentecostais são mais numerosos entre mulheres (22,11% delas; homens, 18,25%), pretos, pardos e indígenas (24,86%, 20,85% e 23,84%, respectivamente), entre os menos instruídos (sem instrução ou até três anos de escolaridade: 19,80%; entre quatro e sete anos de instrução: 20,89% e de oito a onze anos: 21,71%) e na região norte do país, onde 26,13% da população declara-se evangélica ou pentecostal. O Acre, esse Estado que muitos acham que não existe, blague infantilmente repetida até mesmo por esclarecidos militantes de esquerda, tem 36,64% de evangélicos e pentecostais. É o Estado mais evangélico do país. Simples: a igreja falou aos corações e mentes daqueles com os quais a esquerda nunca verdadeiramente se importou, a não ser em suas dialéticas discussões revolucionárias de gabinete, universidade e assembleia.

O projeto de poder evangélico não é fortuito. Ele não nasceu com o governo Dilma Rousseff. Ele não é resultado de um afrouxamento ideológico do PT e nem significa, supõe-se, adesão religiosa dos quadros partidários. Ele é fruto de uma condição evangélica do país e de uma sistemática ação pela conquista do poder por vias democráticas, capitalizada por uma rede de colaboração financeira de ofertas e dízimos. Só não parece legítimo a quem está do lado de fora da igreja, porque, para cada um dos evangélicos e pentecostais, estar no poder é um direito. Eles não chegaram ao Congresso Nacional e, mais recentemente, ao Poder Executivo nacional por meio de um golpe. Se, por um lado, é lamentável que o uso da máquina governamental pode produzir intolerância e mistificação, por outro, acostumemo-nos, a presença deles ali faz parte da democracia. As mesmas regras políticas que permitiram um operário, retirante nordestino e sindicalista chegar ao poder são as que garantem nas vitória e posse de figuras conhecidas das igrejas evangélicas a câmaras de vereadores, prefeituras, governos de Estado, assembleias legislativas e Congresso Nacional. O lema “un homme, une voix” (“um homem, uma voz”) do revolucionário socialista L.A. Blanqui (1805-1881), “O Encarcerado”, tem disso.

Afora a legitimidade política – o método democrático e a representação popular não nos deixam mentir – a esquerda não conhece os evangélicos. A esquerda não frequentou as igrejas, a não ser nos indefectíveis cultos preparados como palanques para nossos candidatos demonstrarem respeito e apreço pelas denominações evangélicas em época de campanha, em troca de apoio dos crentes e de algumas imagens para a TV. A esquerda nunca dialogou com os evangélicos, nunca lhes apresentou seus planos, nunca lhes explicou sequer o valor que o Estado Laico tem, inclusive como garantia que poderão continuar assim, evangélicos ou como queiram, até o fim dos tempos. E agora muitos militantes, indignados com a presença deles no poder, os rechaçam com violência, como se isso resolvesse o problema fundamental que representam.

A esquerda nunca dialogou com os evangélicos,
nunca lhes apresentou seus planos,
nunca lhes explicou sequer o valor do Estado Laico
(George Whitefield (1714-1770) pregando nas colônias britânicas)
Apenas quem foi evangélico sabe que a experiência da igreja não é puramente espiritual. E é nesse ponto que erramos como esquerda. A experiência da igreja envolve uma dimensão de resistência que é, de alguma forma, também política. O “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito” (Paulo para os Romanos, capítulo 12, versículo 2) é uma palavra de ordem poderosa e, por que não, revolucionária, ainda que utilizada a partir de um ponto de vista conservador.Em nenhuma organização política o homem comum terá protagonismo tão rápido quanto em uma igreja evangélica. O poder que se manifesta pela fé, a partir da suposta salvação da alma com o ato simples de “aceitar Jesus no coração como senhor e salvador”, segundo a expressão amplamente utilizada nos apelos de conversão, transforma o homem comum, que duas horas antes entrou pela porta da igreja imundo, em um irmão na fé, semelhante a todos os outros da congregação. Instantaneamente ele está apto a falar: dá-se o testemunho, relata-se a alegria e a emoção do resgate pago por Jesus na cruz. Entre os que estão sob Cristo, e são batizados por imersão, e recebem o ensino da palavra, e congregam da fé, não há diferenciação. Basta um pouco de tempo, ele pode se candidatar a obreiro. Com um pouco mais, torna-se elegível a presbítero, a diácono, a liderança do grupo de jovens ou de mulheres, a professor da escola dominical. Que outra organização social brasileira tem a flexibilidade de aceitação do outro e a capacidade de empoderamento tal qual se vêem nas pequenas e médias igrejas brasileiras, de Rio Branco, das cidades-satélite de Brasília, do Pará, de Salvador, de Carapicuíba, em São Paulo, ou Santa Cruz, no Rio de Janeiro? Nenhuma.

 

Se esqueçam dos megacultos paulistanos televisionados a partir da Av. João Dias, na Universal, ou da São João, do missionário R.R. Soares. Aquilo é Broadway. Estamos falando destas e outras denominações espalhadas em todo o território nacional, pequenas igrejas improvisadas em antigos comércios – as portas de enrolar revelam a velha vocação de uma loja, um supermercado, uma farmácia – reuniões de gente pobre com sua melhor roupa, pastores disponíveis ao diálogo, festas de aniversário e celebrações onde cada um leva seu prato para dividir com os irmãos. A menina que tem talento para ensinar, ensina. O irmão que tem uma van, presta serviços para o grupo (e recebe por isso). A mulher que trabalha como faxineira durante a semana é a diva gospel no culto de domingo à noite: canta e leva seus iguais ao júbilo espiritual com os hinos. A bíblia, palavra de ninguém menos que Deus, é lida, discutida, debatida. Milhares e milhares de evangélicos em todo o país foram alfabetizados nos programas de Educação de Jovens e Adultos (EJAs) para simplesmente “ler a palavra”, como dizem. Raríssimo o analfabeto que tenha sido fisgado pela vontade ler “O Capital”, infelizmente. As esquerdas menosprezaram a experiência gregária das igrejas e permaneceram, nos últimos 30 anos, encasteladas em seus debates áridos sobre uma revolução teórica que nunca alcançou o coração do homem comum. Os pastores grassaram.

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Religião

Ensaio “aFÉto” revela amor do povo de santo às Divindades Africanas

O quão bem faz um abraço de quem se Ama? E se o mundo abraçasse, com respeito, a pluralidade de expressões afetivas construídas a partir de diferentes experiências? O ensaio “aFÉto” é mais um lindo trabalho de Roger, em

Olhar de um Cipó

 

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Por Roger Cipó

 

A série fotográfica aFÉto é um registro das emoções do povo de santo e sua relação de amor com as Divindades Ancestrais Africanas, que por intermédio de seus descendentes, assumem a condição física (em transe), para dançar, encontrar e cuidar dos filhos e as filhas de Orixás, durante as cerimônias e cotidiano dos terreiros.

 

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Mais que retratar abraços entre divindades e fiéis, aFÉto propõe um diálogo de sensibilização para a urgência de se respeitar a integridade da religiosidade negra, seus elementos e presença social, apresentando imagens reais do amor ancestral, chamadas pelo fotógrafo Roger Cipó de “a verdadeira imagem da fé do candomblé”.

 

“Porque quando me perguntam o que Orixá faz, eu respondo: ‘Ama.Orixá Ama!”

 

A intolerância e racismo religioso, males que geram violência que através da agressão de famílias, queima de terreiros, apedrejamento de crianças, criaram também, no imaginário da sociedade, imagens demonizadas e demonizadoras da relação de fé e dignidade do culto aos Orixás, inferiorizando e invisibilizando as expressões de vida existentes nesses espaços de fortalecimento identitário, resistência, auto-amor e cuidado coletivo, que resignificam os sentidos de família, a partir da cosmovisão dos terreiros de se relacionar com o mundo por meio dos orixás, ancestrais divinizados na natureza.

 

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A série fotográfica aFÉto evidencia que o Candomblé, ao contrário do que afirma o fundamentalismo, é espaço que possibilita a reconstrução de relações sociais e afetivas de grupos socialmente violentados pela normatividade excludente de uma sociedade pouco sensível à diversidade humana. “Porque quando me perguntam o que Orixá faz, eu respondo: ‘Ama.Orixá Ama!” (Roger Cipó).

 

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Religião

Oyun Mimo, a gravidez sagrada nas matrizes africanas

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Por Roger Cipó

 

Oyun Mimo – Gravidez Sagrada é um projeto fotográfico da Olhar de um Cipó em homenagem à Ancestralidade Feminina Africana, que permite gestação cuidadosa e envolve as grávidas em uma potente força, conectando-as às Iyabas (Orixás Mulheres) que consagram a possibilidade e certeza de novas vidas e renovação do Axé.

 

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Inspirado nas influências da divindade “dona do Ori” (Orixá) da gestante fotografada, o projeto evidencia a presença sagrada na gravidez – sagrada por excelência – dialogando com o ambiente do terreiro, elementos de fé, cores e tons que transformam a imagem em instrumento sensibilizador sobre a esperança que a nova vida vem renovar.

 

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As gestantes convidadas para esse projeto são membros iniciadas do Egbé Iya Gunté, Terreiro de Candomblé Ketu onde o fotógrafo Roger Cipó tem desenvolvido a pesquisa Olhar de um Cipó de registro e difusão da imagem da fé negra, como ferramenta de desconstrução de pensamentos a cerca da religiosidade de matriz africana.

 

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Matriz Africana Religião

Orixás do Candomblé: Retratos da força ancestral da fé negra

Por Douglas Belchior, do Blog Olhar de um Cipó

Com imensa satisfação, registro neste blog o trabalho de Roger Cipó, um jovem fotógrafo-pesquisador de 24 anos, educador social, candomblecista e militante contra os crimes de intolerância religiosa e do racismo. Suas produções e pesquisas fotográficas focadas em terreiros de candomblé, tem como objetivo estudar as diversas estruturas que baseiam as sociedades afro religiosas de São Paulo. Além de divulgar as belezas e riquezas existentes no cotidiano social, cultural e ritualístico das comunidades, ele usa a fotografia como ferramenta de promoção e luta contra os crimes de intolerância e racismo.

Oyá
Oyá

Por Roger Cipó

Sobre os Orixás, para além de todas as definições teóricas e técnicas de grandes pesquisadores, vou me ater a uma das definições mais sinceras e lindas que encontrei, nas palavras de Janaína Teodoro: “Orixá não é espirito daqueles que vem de fora e toma o corpo. Não somos ‘espíritas’ – não haveria problemas se fossemos. Orixá é a força que vem de dentro. Nosso corpo é o templo do sagrado!”

Orixá, ou Nkise, ou Vodun, é força mais pura que cada um trás em seu ser. É o pouco de África ancestral que renasce em quem se conecta. É a nossa capacidade de se perceber parte importante do mundo. É a folha em nós, é a água, o vento, o fogo, a poeira, o ar que dá vida, a placenta, o coração que pulsa, a vontade de vencer na vida, a certeza de que a morte é o lugar de vida também.
Assim, compartilho uma parte da série “Orixás do Candomblé – Retratos da Força Ancestral da Fé Negra”, imagens que me foram permitidas ao longo da pesquisa “Olhar de um Cipó”, numa tentativa de registrar a presença das forças de Orixá, Nkises e Voduns, quando convidados pelos toque dos atabaques e dos cantos sagrados, alinhados à fé de seus filhos e filhas que se manifestam e revivem suas histórias, lutas e relações de amor com seus descendentes.
Oxum
Oxum

 

Yewa
Yewa

 

Nanã
Nanã

 

Ogum
Ogum

 

Oxóssi
Oxóssi

 

Omolu
Omolu

 

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Religião

Matrizes Africana e Indígena contradizem o Espírito do Capital

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Do Portal da Juventude

Ivan da Silva Poli é autor de um Mestrado sobre “A importância do estudo das mitologias e gêneros literários da oralidade africana e afro-brasileira no contexto educacional brasileiro: a relevância da Lei 10639/03″.

Seu ponto de vista é polêmico: coloca as tradições africanas e indígenas como frontalmente antípodas ao espírito do Capital. E aqui estamos invocando o “espírito” de Max Weber, um mestre da sociologia moderna, ocidental.

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Por Ivan da Silva Poli

Uma das principais motivações que me levaram a escrever a obra “Antropologia dos Orixás” foi justamente o fato de a maior parte das obras sobre os mitos africanos tratá-los somente no aspecto religioso, sendo que segundo o mitólogo Joseph Campbell o mito tem mais três funções além da mística (religiosa) que são a cosmológica (explica uma ordem universal), a sociológica (cria corpos sociais ) e a pedagógica (cria arquétipos que imitamos e legitima comportamentos).

Atualmente as tradições de matriz africana sofrem ataques e agressões em vários níveis e a principal razão disso não se enquadra exatamente em razões religiosas em si mas sim em conflitos de valores civilizatórios entre a cultura do capital ocidental e as culturas tradicionais tanto de matriz africana quanto indígena.

Segundo Max Weber o Espírito do Capital ( que muito a grosso modo é a disposição de acumular capital como uma finalidade em si mesma ) vem da ética das primeiras seitas protestantes assim como o conceito de vocação profissional  dentre outras coisas do conceito de Vocação de Lutero, e este comportamento dentro do Espírito do Capital interessam sobremaneira aos detentores dos meios de produção, razão pela qual muitos deles financiam ( inclusive do capital estrangeiro ) a evangelização de comunidades tradicionais.

Segundo o Antropólogo Georges Balandier em seus estudos sobre as comunidades tradicionais na África Subsaariana , estas em geral tem a tendência de condenar a morte social aqueles que acumulam capital ou riquezas de forma a ameaçar a sustentabilidade de suas sociedades e no caso de nossas sociedades tradicionais tanto de matriz africana quanto indígena esta influência está presente o que  contrasta com o que Weber define como o Espírito do Capital.

Outro valor civilizatório das tradições de matriz africana  que vai contra o Espírito do Capital em si é o conceito de ancestralidade e senioridade, pois ancestralidade é memória e memória é resistência e este valor da ancestralidade vai contra a cultura de consumo.

Da mesma forma as comunidades tradicionais de matriz africana baseadas na ancestralidade e senioridade  incitam a adoção das dinâmicas sociais africanas tradicionais que só aceitam o novo se ele for ressignificado a partir do tradicional e dificilmente aceita o novo pelo novo , o que se converte também em um valor civilizatório que contrasta com a cultura de consumo e o Espírito do Capital.

Neste sentido o próprio Max Weber afirmava que a o Espírito do Capital prevaleceria na América Latina quando esta fosse predominantemente Protestante ( e em conseqüência   menos católica e exterminasse as religiões tradicionais de Matriz Africana e Indígena ).

Para entendermos melhor o que isso significa basta que nos atentemos ao que representaram os quilombos no período colonial no que se refere a resistência ao Capitalismo Mercantilista, e ainda hoje estas comunidades quilombolas e indígenas  que mantém suas tradições representam a este atual Espírito do Capital , motivo pelo qual  se faz grande prioridade evangelizá-las.

Desta forma fica bem claro que mais do que valores de dogmas ou religiosos o que faz com que as tradições de matriz africana sofram agressões é o conflito de valores civilizatórios e como única saída para que possam sobreviver a esta onda conservadora de agressões que passam é que nossas casas de Matriz Africana se tornem pontos de Cultura e propagadoras destes valores civilizatórios patrimônio Cultural de Todos Brasileiros e que assim possam gozar da proteção do Estado ( pois o Estado não pode defender valores religiosos ou dogmas , contudo tem o dever de defender valores civilizatórios que são nosso Patrimônio Cultural.

Neste sentido desenvolvi os livros Antropologia dos Orixás e Pedagogia dos Orixás , para defender estes valores civilizatórios tanto no meio acadêmico quanto para que sirvam de material de formação sobre estes valores civilizatórios em ambientes educacionais e comunidades tradicionais , para servir assim em sua defesa institucional.

O pai (muitas vezes protestante e negro) que não se importa que seu filho veja como herói os mitos nórdicos de suas comunidades tradicionais no passado como Thor (que na Escandinávia nenhum pai protestante contesta que seja um mito que traz importantes valores civilizatórios a suas identidades nacionais), tem que reconhecer nos mitos africanos como Ogum , Oxóssi , Yansã , Oxum e todos Orixás estes valores civilizatórios fundadores de nossa nação.

É necessário que independentemente das religiões se admita que o Reino do Ketu tem muito mais a ver com nosso processo civilizatório brasileiro que o Reino de Odin ou mesmo o Olimpo Grego em muitos aspectos.

Este processo descolonizador é um dos principais objetivos de minha obra como um todo e nestes  específicos em relação aos valores civilizatórios que herdamos de nossos ancestrais africanos que muitas vezes são invisíveis em nossa educação mesmo em universidades de referência de nosso país assim como em nossa mídia hegemônica.

 

 

 

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Religião

Candomblé é tradição, ancestralidade e resistência

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Por Janaína Grasso

 

Para começar, não há nada de descolado em ser de religião de matriz africana. Não é ‘alternativo’, nem ‘religião da moda’. O que me espanta é ver como a mídia ainda se sustenta na superficialidade e continua representando aspectos da cultura negra de maneira esvaziada, estereotipada, deturpada. Essas religiões têm tradição, fundamentos e regras na sua existência.

Quando você recebe um convite para ser entrevistada numa revista, não há garantias de como o conteúdo vai ser veiculado. Mas, associar a sua entrevista à uma reportagem que traz o Candomblé e a Umbanda como religiões da moda, e como se isso fizesse de você “alternativo”, é lastimável.

Precisamos nos retratar de outra forma, com criticidade e mais respeito. Querem falar sobre os jovens no Candomblé e da Umbanda? Identifique que essas são religiões de matriz africana, elas têm origem, elas têm tradição, memória, história, estrutura. Resistem de geração em geração. São heranças culturais.

Difundir informações esvaziadas e estereotipadas é um desserviço. Que nível de instrução e informação querem propagar, e para quem? Essa é uma representação que não aceitaremos mais calados. Chega!

 

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No teatro querem trazer blackface; na televisão, personagem ‘Africano’ e na revista, fazer das nossas religiões um espaço para ‘descolados’.

As menções às religiões de matriz africana devem ser feitas com seriedade e respeito, independente das motivações de cada um. Penso também que adentrar numa vida de religião de matriz africana, conhecer toda a riqueza e complexidade que existem nelas implica em assumir uma conduta a favor do direito a equidade, já que essas religiões tem como eixo fundamental a coletividade e pluralidade.

As religiões de matriz africana, o candomblé e a umbanda, se mantêm vivas graças a muita resistência. Elas enfrentam um racismo e discriminação secular. Quantas casas de candomblé são destruídas pela intolerância religiosa e a violência? Quanto racismo se enfrenta dia a dia por fazer parte de uma religião de matriz africana, uma matriz acolhe seus adeptos sem distinção de raça, orientação sexual, classe social ou qualquer outro critério de exclusão.

Estar numa religião de matriz africana significa estar junto às causas e lutas que assumimos, por um compromisso histórico.

 

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Fazer parte de uma cultura que é historicamente violentada implica em ter criticidade e refletir sobre como é a nossa participação nela. Fazer parte é caminhar junto com processos de equidade, também. É graças às ações afirmativas por exemplo, que cada vez mais negros têm acesso à universidade. É também nesse espaço que acontece a nossa produção intelectual e ativa sobre a representação e protagonismo das nossas próprias histórias.

Ancestralidade é outro ponto fundamental que não pode ser negligenciado. Nas religiões de culto aos orixás, os mais velhos têm função fundamental na vida da casa. É com os mais velhos que se aprende a respeitar hierarquia numa casa de candomblé, que se aprende a ter paciência e o aprendizado vem com o tempo.

Sou nativa da Ilha de Itaparica, na Bahia. Um dos lugares onde tradicionalmente acontecem os cultos à ancestralidade e Egungun no Brasil. Minha família, especialmente meu bisavô Cassimiro, se dedicou ao culto de Egungun e ancestralidade até a morte. Ele era sacerdote no culto a Egungun. O meu avô foi Ogan durante muitos anos.

O candomblé faz parte da minha história desde criança. Eu sou filha de orixá, essa religião me fez nascer para minha espiritualidade. Nos inúmeros rituais do candomblé há preceitos, obrigações, hora pra iniciar os rituais, rezas, banhos, saudações. Os preceitos especialmente não são fáceis pra quem é jovem. Não foi pra mim. Eu, por exemplo, tive minha iniciação como filha de orixá aos 18 anos. Durante um ano, tive que viver em resguardo (momento dedicado para que os orixás exerçam proteção e influência direta sobre o iniciado).

 

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Nesse resguardo tive que, durante 6 meses, me privar do sexo, do álcool, de alguns alimentos específicos, oferendar meu orixá toda segunda-feira, não pude frequentar festas, baladas, não podia ficar na rua depois da meia noite etc. São inúmeras regras fundamentais, referente a um exemplo dos tantos rituais existentes no Candomblé. Poderia citar vários aqui. Não é brincadeira ser filho de Orixá.

Não vejo como posso ser ‘descolada’ por ter a minha fé, por ter uma religião familiar, passada de geração pra geração, como herança. Graças aos orixás, conheci um mundo novo.

Respeitem nossas histórias!