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Contra política de Bolsonaro, Coalizão Negra do Brasil vai aos EUA denunciar violações de direito

Texto: Lucas Veloso do Alma Preta

Entre os dias 11 e 13 de setembro, a Coalizão Negra por Direitos participou do Congresso Black Caucus, em Washington DC. O encontro reuniu congressistas afroamericanos, políticos e lideranças negras de todo os EUA.

A Coalizão foi representada por Sara Branco, advogada do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades, Douglas Belchior, da Uneafro Brasil, e Juliana Góes, ativista de Direitos Humanos.

Segundo a organização, o intuito da comitiva brasileira foi buscar apoio contra as violações de direitos humanos praticadas com as pessoas negras.

Para Sara, o principal apoio que o grupo recebeu foi do deputado Henry Hank Jonhson Jr. “O democrata está preocupado com a defesa dos direitos humanos da população negra, não só a norte-americana, mas também a população afro-latina”, pontuou.

O parlamentar chegou a gravar um vídeo onde manifesta apoio à população quilombola de Alcântara, no Maranhão. Ele defendeu que a Constituição Federal brasileira deve ser respeitada. “Esse tipo de apoio, em um momento crítico como o que estamos vivendo, é de extrema importância”, define Sara.

A advogada reforça que a situação das pessoas negras no Brasil não foi um debate neste congresso, mas que o assunto deveria ser discutida pelos afroamericanos. Neste sentido, ela entende que a Coalizão Negra tem o papel de provocar a reflexão e denunciar internacionalmente as violações de direitos humanos que a população negra enfrenta no Brasil.

“Infelizmente a discussão sobre os negros brasileiros ainda não aconteceu, mas de modo geral, existe uma preocupação e uma atenção para o que está acontecendo no país, principalmente agora, sob a administração de Jair Bolsonaro”, define. “A realidade vivida pela população negra brasileira ainda está muito invisibilizada no debate e isso diz muito sobre a desigualdade”, crítica Sara.

Assista ao vídeo do encontro aqui:

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Yannick Hara lança single questionando a lógica do consumo

O rapper e performer Yannick Hara acaba de divulgar a inédita música “Caótico/Distópico”.  A faixa integra uma série de lançamentos que antecedem o próximo disco do rapper. Intitulado  “O Caçador de Androides”, o álbum tem lançamento agendado para novembro. 

Nessa track, movimentada pelo caos rumo à distopia que é o cotidiano atual, Hara reflete sobre a vida dos personagens Deckard (Blade Runner-1982) e K. (Blade Runner-2049). Na primeira parte, “Caótico” é, então, o desejo de anarquizar, sair da lógica de trabalho e consumo. Já na segunda, Distópico atinge o limiar da existência. 

Yannick Hara já lançou o EP “Também Conhecido Como Afro Samurai”, baseado em um mangá e anime para ocupar seu lugar de fala dentro da música. Agora, em 2019, se inspira na obra do escritor Philip K. Dick, “Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?”, que originou a franquia Blade Runner, para protestar contra a alta tecnologia e baixa qualidade de vida que assola a humanidade em direção ao futuro distópico.

Produzido por Blakbone nos estúdios da Live Station, o single inspira-se nos anos 80, carregando um visual gótico e pós-punk. Do começo ao fim, projeto tem tom provocativo, intenso e perturbador.

Ouça:

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Cultura preta: quais são as novidades do segundo semestre de 2019?

O segundo semestre de 2019 chegou e com ele uma série de lançamentos e estreias na música, teatro, literatura e cinema. Aqui reunimos as mais recentes novidades da cultura preta e periférica de São Paulo, confira a agenda e mais informações sobre cada evento.

Peça “Terror e Miséria no 3º Milênio – Improvisando Utopias”
Quando? Em cartaz de 28 de junho a 28 de julho
Onde? Sesc Bom Retiro – Alameda Nothmann, 185, Campos Elíseos, São Paulo
Saiba mais: http://bit.ly/terror3milenio

Inspirada no clássico de Bertolt Brecht, a peça se une a cultura Hip Hop para apresentar um panorama sobre a violência. É uma visão que coloca, em mundos paralelos, os dias de hoje e os anos que antecederam a explosão do nazi-fascismo, na época da Segunda Guerra Mundial. O elenco formado por 11 atores MCs discute também os privilégios e opressões vindas do racismo, do preconceito de classe e gênero. O espetáculo é montado pelo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, com a direção de Claudia Schapira.

Lançamento do livro “Pensando como um negro: ensaio de hermenêutica jurídica”
Quando? Dia 02 de julho, das 19 às 22 horas
Onde? Livraria Tapera Taperá – Loja 29, 2º andar – Avenida São Luís, 187, São Paulo
Saiba mais: http://bit.ly/pensandocomonegro

Adilson José Moreira, professor, advogado, Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Federal de Minas Gerais e Doutor em Ciências Jurídicas pela Universidade de Harvard, lança dia 2 de julho, em São Paulo, o livro “Pensando como um negro: ensaio de hermenêutica jurídica”. Por meio de um estudo integrado entre narrativas pessoais e análises teóricas, o livro discute as consequências entre o formalismo jurídico e a neutralidade racial na interpretação da igualdade.  A publicação apresentada pela editora Contra Corrente vai abrir um debate no dia do seu lançamento com a professora Gislene Aparecida Santos, da Faculdade de Direito da USP, e o professor Dimitri Dimolis, da Escola de Direito da FGV, na livraria Tapera Taperá.

Mostra de Cinemas Africanos
Quando? De 10 a 17 de julho
Onde? Cine Sesc –  R. Augusta, 2075, Cerqueira César, São Paulo
Saiba mais: http://bit.ly/mostracinesafricanos

Serão 24 filmes de 14 países do continente africano na exibição da Mostra de Cinemas Africanos.  Essa é a 4ª edição do evento que traz, em 1 semana, uma seleção de produções reconhecidas em grandes festivais de cinema e aclamados pelo público e também pela crítica. Grande parte dos filmes nunca foi exibida no Brasil e eles serão o centro de debates que o evento trará, com especialistas em cinema, sobre cada narrativa. 

Lançamento de”O.M.M.M.”, novo disco de MAX B.O

O rapper Max B.O completa 20 anos de carreira e comemora com o lançamento de seu novo álbum. Fazendo ode à camaradagem, ele reúne uma série de participações especiais, beatmakers e músicos. Curumin, Rael e Lucio Maia são alguns dos nomes envolvidos. Esse é o primeiro trabalho de inéditas do artista, que apresentou por 6 anos o programa “Manos e Minas”, da TV Cultura. Depois de inúmeras parcerias e das mixtapes “FumaSom Vol. 1” (2013), “Antes que o Mundo se Acabe “ (2012) e o álbum “Ensaio, O Disco” (2010), é hora de “O.M.M.M.”

Ouça aqui:

509-E anuncia retorno aos palcos

Após 16 anos de pausa, o grupo lendário de rap nacional 509-E anunciou, em entrevista para o jornal Brasil de Fato, que vai voltar aos palcos em 2019. Dexter e Afro-X, farão uma série de shows para celebrar os 20 anos de parceria entre a dupla. A primeira apresentação está marcada para o dia 24 de agosto, em São Paulo, e promete trazer clássicos como Saudades Mil, Mile Dias, Castelo de Ladrão e Oitavo Anjo. No entanto, os rappers já adiantam que esse  é um momento de celebração e não é um retorno oficial do grupo, os artistas ainda continuam suas carreiras solo.

Confira a matéria completa: http://bit.ly/Retorno509E_BF

 

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Natália Neris lança livro e relembra a participação popular dos negros na Constituição Federal

Por Marina Souza

A pesquisadora Natália Neris estará presente hoje (29) às 20 horas no Aparelha Luzia para o lançamento de seu novo livro: A voz e a palavra do Movimento Negro na Constituinte de 1988. A obra é lançada em um ano que marca os 30 anos da promulgação da Constituição Federal, 40 anos da formação do Movimento Negro Unificado e 130 da abolição da escravidão no Brasil. 

“O livro é resultado de um trabalho que desenvolvi entre 2013 e 2014 na minha dissertação de mestrado. A gente sabe que o processo constituinte foi um momento inédito de interlocução da sociedade civil com o Estado, vários grupos se mobilizaram para participar desse momento. A minha hipótese era de que com certeza o Movimento Negro também estava engajado nesse processo, meu impulso foi entender como. A luta negra sempre esteve muito presente em momentos importantes dos processos políticos brasileiros”

Com prefácio de Benedita da Silva, parlamentar à época e integrante de subcomissão que tratou das questões raciais, a obra inicialmente trata dos momentos finais da ditadura militar iniciada em 1964 e das disputas em torno da configuração e dinâmica de funcionamento da Assembleia Nacional Constituinte (ANC). 

Na sequência, a pesquisadora remonta a mobilização antirracista no período e insere o leitor nos bastidores da ANC, em meio ao trabalho executado dentro da comissão e subcomissão responsáveis pelo tratamento da temática racial naquele momento. Por meio de análise documental, é possível conhecer militantes, parlamentares e demandas, bem como os argumentos e resistências à inserção no texto da Constituição.

Por fim, a autora detalha as transformações ocorridas no texto da sua fase inicial à final do processo nos artigos que se referem à temática racial.

Outra motivação para escrever foi a curiosidade. Na constituição há a criminalização do racismo, mas eu me questionava se era somente essa a demanda. Será que o Movimento Negro estava revindicando apenas direito penal? Eu quis entender quais eram as outras demandas durante esse momento histórico.”

Natália Neris é coordenadora da área Desigualdades e Identidades do InternetLab – Pesquisa em Direito e Tecnologia, colaboradora da página Preta e Acadêmica e co-autora dos livros “O Corpo é o Código: estratégias jurídicas de enfrentamento ao revenge porn no Brasil” (InternetLab, 2016) e “Coleção Samba em primeira pessoa’’ (Pólen, 2018). | Foto: Arquivo Pessoal

A perda de especificidade/foco na população negra é evidente, porém são inegáveis os avanços inscritos, por exemplo, nos artigos 3º (que prevê que um dos objetivos fundamentais da República é promover o bem de todos, sem discriminação), 5º (imprescritibilidade e inafiançabilidade do crime de racismo), 7º (sobre trabalho e proibição de diferenças salariais com base na raça), 68º do ato das disposições transitórias (que trata do reconhecimento e titulação de terras de remanescentes de quilombos), entre outros.

A luta por direitos não se encerra na sua inscrição no ordenamento jurídico e os dois últimos anos da história brasileira tornam tal afirmativa muito evidente. O livro é, portanto, a narrativa das estratégias de luta da geração de ativistas negros das décadas de 1970/80, responsável pela institucionalização da temática racial.

Para os tempos atuais, tal história ganha nova importância e se coloca como ferramenta para se repensar estratégias, uma vez que o contexto de não reconhecimento das desigualdades estruturais entre negros e brancos parece retornar ao discurso estatal.

Esse ano a constituição está fazendo 30 anos e estamos vivendo um momento político que aponta para retrocessos, uma tentativa do não cumprimento de alguns direitos sociais, principalmente os trabalhistas, que foram inscritos num processo muito intenso da participação popular civil. Eu acredito que escrevê -lo [livro] agora é um modo de visibilizar as lutas que aconteceram há 30 anos e de lembrar a cada um de nós, inclusive a mim mesma, que sempre vivi num contexto democrático, de que a luta por direitos não se encerra.”

 

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Circulando de Oyá: o projeto que fortalece as estudantes negras do Brasil

Por Marina Souza

O movimento da UNEAFRO, que possui 24 núcleos, é responsável por articular as causas estudantis, populares e raciais entre si, exemplo disto é a sua forte luta pela implementação de políticas afirmativas nos espaços universitários. Atualmente o grupo está organizando um projeto que visa capacitar e empoderar as estudantes negras da entidade. Permanência estudantil, materiais qualificados e auxílio de profissionais para discentes negras são os grandes objetivos  almejados nesta iniciativa.

O grupo Pretas-UNEAFRO é formado somente por mulheres pretas e promove diversas ações educacionais defensoras dos Direitos Humanos. Foi através dele que surgiu o chamado Circuladô de Oyá, isto é, um projeto que busca a criação de uma rede de fortalecimento das mulheres negras estudantes da UNEAFRO para a atuação política e social.

Você pode colaborar com a iniciativa participando do financiamento coletivo online, criado com intenção de arrecadar R$ 44.870,00 para transformar as vidas de 690 estudantes e 24 núcleos de Educação Popular da UNEAFRO Brasil. A ação ficará disponível somente até quinta-feira (29), por isso pesquise, apoie e divulgue.

“As mulheres negras costumam ser as primeiras a desistirem dos estudos, isso acontece por diversas razões. E foi pensando nessa problemática que criamos o projeto, visando o fortalecimento de uma rede de proteção que dê condições para essas meninas permanecerem nos cursinhos pré-vestibulares.

Junto com alunas e coordenadoras, a partir da realidade de cada quebrada, a gente vai construir essa rede e fazer todas atingirem o objetivo: entrar na universidade.”, diz Vanessa Nascimento, 36 anos, coordenadora de projetos e integrante do Conselho Geral da UNEAFRO Brasil.

 

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Vítimas do racismo, negros relembram momentos marcantes em suas vidas

Por Marina Souza

Todo 20 de novembro é a mesma coisa: “somos todos humanos”, gritam eles. Inspiro. Expiro. Mas a compreensão é ainda difícil. Do mesmo lado destes há também aqueles que reproduzem discursos com palavras de ordem mascarados de apoio, mas recheados de demagogia. De repente o Brasil não é um país racista. Por isso, a pergunta lhe faço: se não você, quem?

Quem nos humilhou na infância? Quem apontou o dedo do julgamento? Quem nos nega oportunidades? Quem nos menospreza diariamente? Quem reclama da vaga reservada pra cotista? Quem coloca um sorriso no rosto para me dizer que eu sou uma “negra linda”? Quem compartilha os memes do “negão do whatsapp”? Quem dá risada do Danilo Gentili? Quem gosta de nos hipersexualizar? Quem coloca a mão no nosso cabelo sem o menor consentimento? Quem pergunta se usamos shampoo? Quem considera “mimimi”? Quem desvia de nós nas ruas? Quem diz ter vários amigos negros para se justificar? Quem é negligente com o nosso sangue escorrendo no asfalto?

Caro leitor branco, sinto muito em lhe dizer que você não é tão exclusivo quanto gostaria de ser, acredite, você não é exceção. Isentar-se desta culpa nada mais é do que uma maneira de usufruir de privilégios que lhe são concedidos constantemente na sociedade estruturalmente racista em que vivemos.

O último país do mundo ocidental a abolir a escravidão ainda carrega graves cicatrizes e consequências deste período. Analisando alguns dados estatísticos é possível compreender melhor a dimensão do problema. O  Atlas da Violência 2018, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, mostra que em 2016 a taxa de homicídios de negros no Brasil foi 2,5 vezes maior do que a de não negros. É possível também dizer que um jovem negro tem 2,71 mais chances de ser assassinado do que um branco.

Durante o período de 2006 a 2016 o país teve uma queda de 8% no número de homicídios de mulheres brancas, enquanto o das negras aumentou em 15,4%. Apesar de sermos 54% da população brasileira, a última pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, realizada em 2015, mostra que apenas 30% das pessoas com nível superior completo são pretas ou pardas, número que apesar de baixo, apresentou melhoras devido as políticas afirmativas de cotas raciais.

Confira abaixo alguns relatos sobre o racismo sofrido pelo povo preto brasileiro

Vinicius Lourenço, 25 anos, músico:

Lembro de quando tinha 13 anos e estava na escola, voltando do recreio, quando vi várias folhas com uma foto minha. Estavam coladas pelos corredores das salas com a legenda “chuta que é macumba.”

F. M., 19 anos, estudante de Rádio, Tv e Internet:

Eu era muito amiga dessa menina, ela é da minha faculdade, saíamos sempre. Tínhamos dado um “rolê” e depois fui dormir na casa dela. Quando acordei no outro dia ouvi ela conversando com a namorada sobre um dinheiro que havia sumido. Ela achava que eu havia roubado.

Genival Souza, 54 anos, professor universitário:

Teve uma vez que eu estava vestido todo de preto, saí da faculdade e entrei no estacionamento. Assim que eu cheguei perto do meu carro um outro professor me olhou e disse que eu havia demorado muito e ele estava me esperando para manobrar seu carro. Olhei para ele e disse que eu também dava aula ali.

Outra história parecida foi a vez em que eu fui fazer uma palestra e ao chegar no estacionamento do local o guarda disse que a entrada para o público era do outro lado. Eu disse que era palestrante, mas ele ficou duvidando e dizendo “você é mesmo palestrante?”

Flávia Campos, 18 anos, estudante de Relações Públicas:

Aos 6 ou 7 anos eu tinha algumas amigas que me diminuíam muito, elas falavam que eu era feia e meu cabelo era esquisito, por sorte tinham outras crianças negras para brincar comigo. Teve uma vez que eu estava com elas num parquinho e quando fomos brincar de Rebeldes uma delas me disse “você não pode participar porque é preta.” Cheguei em casa e chorei, isso me marcou muito.

Com uns 13 anos também rolou algo marcante. Teve um boato na minha escola de que um menino tinha ficado com uma garota negra e ficavam zoando ele por isso. Uma vez eu estava no shopping e mandaram uma foto minha para ele, dizendo “olha aqui mais uma negra pra você pegar.” Eu me senti muito mal, pensei que deveria ser um lixo para ninguém querer ficar comigo.

Artur Santos, 21 anos, estudante de Rádio, Tv e Internet:

Quando eu era criança e meus tios e primos iam comigo a alguma piscina ou rio eles ficavam falando molha o cabelo, Artur! Parece que nem entra água nele de tão ruim.” E assim, eu fui crescendo sofrendo isso dentro da família. Por conta deles, eu sempre evito ir até a cidade da minha avó.

Teve também uma vez que eu estava num shopping com meus pais voltando do cursinho. Entramos numa loja e eu fui ver algumas coisas, me distanciei deles alguns metros e foi aí que percebi que estava sendo seguido pelo segurança da loja. Eu fiquei andando por uns 5 minutos e durante todo esse tempo ele me seguiu pelos corredores. Fiquei muito puto com isso porque percebi que ele só tava me seguindo pelo fato de eu ser um preto que estava mal vestido” pra um shopping, com uma blusa de moletom cinza, calça jeans e minha bolsa cheia de material do cursinho. Reencontrei meus pais e adivinha quem saiu da minha sombra? O segurança. Coincidência, não?!

Ah, outro momento marcante foi quando jogava bola com um amigo no condomínio em que moramos e um cara de fora gritou “levanta, macaco imundo!”

A. M., 37 anos, pedagoga: 

Pode parecer impressão, mas o que percebo é que para os pais [dos alunos] eu tenho que me impor desde o início, mostrar serviço o mais rápido possível e provar minha competência. Coisas que minhas colegas brancas não precisam. Sou negra, 1,72 de altura, cabelo black, tenho um jeito bem sério – ou como dizem de uma negra metida” -, hoje tenho um cargo no Estado e estou entrando na Prefeitura de São Paulo. Como auxiliar de creche acredito que passei pelo mais claro e também o mais velado dos preconceitos. Logo quando entrei havia uma mãe, loirinha de olhos verdes, que nunca entregava o filho para mim.  Pensei inicialmente que era por eu ser nova no local, mas um mês se passou e nada, ás vezes ela ficava sentada durante 30 minutos esperando a outra auxiliar chegar. Comecei a cativar a criança na sala, brincava com ela, fazia questão de alimentar e me dediquei bastante. Um dia ela pediu meu colo na entrada,  mas a mãe não deixou e disse ao filho tem certeza que você quer ir com esta negra?
Aí eu entendi tudo.

C. G., 39 anos, designer gráfico:

Fui selecionado para uma entrevista de emprego, cheguei adiantado ao local e entreguei meu currículo para a recepção. Apareceu uma senhora toda “chique”, cumprimentou a gente, falou com a recepcionista e voltou para a sua sala. Depois de algum tempo fui chamado para entrar ali e, quando entrei, vi que a mulher  segurava meu currículo nas mãos e não acreditava que eu era o entrevistado. Ela ficava olhando para mim e perguntando se eu realmente era aquela pessoa.

Laís Ramires, 21 anos, estudante de Relações Públicas:

Eu ainda tinha a idealização de que as pessoas dali [universidade] fossem mais conscientes sobre diversas questões envolvendo identidade. A minha professora de Comunicação e Expressão falou na frente da sala inteira, durante o primeiro dia de aula do terceiro semestre, que quando as pessoas me olhavam tinham uma impressão negativa.

Eliane Helfstein, 37 anos, assistente administrativa:

Isso foi mais ou menos aos 13 anos de idade, eu havia juntado dinheiro trabalhando e fui até uma loja de roupa com uma das minhas quatro irmãs para comprar um cardigã. A vendedora, que se reportava somente à minha irmã, que tem pele clara, perguntou o que ela desejava, então eu disse que era eu quem queria comprar a blusa da vitrine. Foi aí que a moça falou que eu não gostaria dessa roupa porque era muito cara e que havia outra na promoção.

Outro episódio que me marcou foi no final do meu curso. A coordenadora da instituição me indicou a uma vaga em uma clínica de uma amiga dela, dando a contratação como certa, uma vez que ela indicou isso seria o diferencial. Entusiasmada com a primeira oportunidade na área que tinha escolhido para seguir carreira, fui levar o currículo na clínica, que ficava em uma região nobre de São Paulo. Ao chegar na recepção todos me olhavam como um ser de outro mundo, me reportei à recepcionista dizendo que havia sido indicada e estava lá para entregar meu currículo. Após anunciada esperei por volta de 30 minutos até que a responsável viesse até mim, então, após me olhar dos pés a cabeça, quase que com desprezo, ela disse Ah, Eliane é você…” Pegou meu currículo, não me dirigiu mais nenhuma palavra e virou as costas, sem nenhum retorno. Foi a pior sensação que tive na minha vida, cheguei em casa e contei às lágrimas a situação ao meu marido.

Dayana Natale, 19 anos, estudante de Jornalismo:

Eu era bem pequena, devia ter uns 7 anos e estudava num colégio particular em que a maioria dos alunos eram brancos. Algumas meninas faziam muito bullying comigo, me chamavam de velha preta da macumba” e falavam que meu cabelo era ruim. Eu tinha um black e me zoavam muito, diziam que ele parecia um microfone e não molhava 

A. M., 35 anos, auxiliar administrativa:

Minha irmã é negra e tem 43 anos. Uma vez ela foi passear com seu filho, Théo, de 2 anos, que pediu para ir ao banheiro no decorrer do passeio. Ela o levou para lá e uma mulher perguntou o porquê dela não usar uniforme. Minha irmã, sem entender nada, pediu uma explicação. Então a mulher falou você é a babá dessa criança e não usa uniforme.” Uma observação importante a ser feita é que o Théo é branco. Minha irmã falou que ele era seu filho e a moça ainda perguntou se era adotado.

Sophia de Mattos, 22 anos, estudante de Jornalismo:

Eu nunca conheci uma pessoa preta que não tenha passado por racismo, é sempre uma luta constante. Quando eu estava na 1ªsérie só havia eu e mais um garoto de negros na sala. No carnaval, a minha mãe comprou uma fantasia de fada para eu usar na comemoração que a escola faria. Todos assistimos à aula fantasiados e no intervalo um grupo de meninas brancas me rodeou perguntando o porquê eu estava vestida de fada já que não existem fadas negras. Elas falaram que fadas não tinham meu tipo de cabelo, nem usavam tênis.

Teve também uma vez em que eu estava comendo, sujei a minha blusa de macarrão e uma menina falou que não havia problema porque minha pele já era suja.

Barbara Martins, 21 anos, estudante de Direito: 

Nesse ano alguns meninos da minha sala fizeram uma aposta para ver qual menina iria desistir primeiro do curso. Três nomes da minha sala foram citados, um deles era o meu. Sabemos que a aposta foi misógina, mas no meu caso também houve racismo, porque as minhas notas são altas e a frequência é boa, não tinha nada que indicasse que eu desistiria do curso em algum momento.

Mateus Ribeiro, 18 anos, estudante de Cinema:

Quando eu era menor estudava numa escola particular com poucos alunos negros e tinha uma realidade muito diferente da dos meus colegas que ganhavam mesada e presente toda semana. Ficavam me zoando muito, não me deixavam jogar ping pong, falavam que o meu cabelo era “bombril”, zoavam meu pai por não ter um carrão e diziam que ele havia cagado na mão e passado em mim quando nasci.

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Elisa Lucinda fala em aula pública sobre a participação social da mulher negra

Na véspera do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha e Dia de Tereza de Benguela, o auditório do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) foi palco para a aula especial do Curso Jovens Promotores de Direito Antidiscriminatório com a atriz, jornalista e poetisa Elisa Lucinda. Com mais de 300 pessoas na plateia, o evento, realizado pela Uneafro Brasil, em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT-SP) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), levou para o público a temática: “Palavra é poder”, abordando questões sobre a mulher negra, além de ação e participação social.

Leia também: Porque este blogueiro,  Douglas Belchior, homem preto, professor e ativista do movimento negro é candidato a deputado federal

A negação da palavra foi um dos principais direitos retirados historicamente da população negra. Com isso, a base da formação cultural, intelectual, do desenvolvimento e da cidadania desse grupo foi extremamente prejudicado durante a escravidão e seus desdobramentos são vistos até hoje. Por isso, a aula pública buscou mais um espaço de transformação social por meio de narrativas negras femininas.

“A mulher negra sempre foi silenciada e fadada à solidão em razão de toda estrutura do racismo que persiste na sociedade. Precisamos cada vez mais falar mais sobre isso. Nesta terça, a Uneafro, em parceria com o MPT e OIT, promoveu mais um momento de reflexão com alunos dos cursinhos e convidados. Elisa Lucinda nos fez refletir sobre o lugar de fala da mulher negra e o poder que a palavra tem. Foi memorável”, comenta Vanessa Nascimento, membro do Conselho Geral da Uneafro.

O encerramento ficou por conta do grupo Samba das Pretas

De uma maneira leve e com relatos de sua trajetória pessoal e profissional, Elisa comentou com o público sobre a formação que recebeu em casa, justificando a confiança com que enfrenta a estrutura silenciadora da sociedade racista. ” Se tem palavras que cortam, ferem e matam, tem palavras também que beijam e que nos reconstroem”, disse a atriz.

“A ação foi de fundamental importância para a sociedade. Do ponto de vista de trabalho, as mulheres formam a categoria em condição de trabalho mais precário, com menor rendimento, já que recebem aproximadamente 60% do salário dos homens brancos. Elas ainda estão nas maiores taxas de subemprego e desemprego. Com isso, todas essas questões podem ser discutidas e debatidas quando temos um espaço como esse para diálogo na sociedade”. Elisiane dos Santos, Procuradora do Trabalho e Vice Coordenadora da Coordenadoria de Combate à Discriminação no MPT-SP.

Promover reconhecimento de direitos e divulgar informações para defende-los foram os principais objetivos desse módulo do curso. Segundo Elisiane, o público pôde sair da iniciativa com um sentimento de valorização da cultura étnica e racial das origens africanas, além do fortalecimento na construção da identidade.

 

 

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Com produção dos estudantes secundaristas de 2015, a peça “Quando Quebra Queima” estará em cartaz no Teatro Oficina neste fim de semana

“Quando Quebra Queima” é um produto da forte interação e troca de experiência que os alunos do movimento secundarista passaram em 2015 e 2016. As ocupações nas escolas, que tinham o intuito de cobrar por condições melhores do ensino público, reuniram diversos estudantes. A partir desse coletivo, 14 integrantes resolveram levar a vivência para os palcos, criando uma narrativa conjunta e comum por meio da perspectiva de quem viveu o dia a dia dentro do movimento.

A peça é uma “dança-luta” coletiva construída a partir das experiências recentes de cada performer: textos, músicas, coreografias e fotos feitas pelos próprios secundaristas compõem as cenas das peças; gritos de luta são cantados; ações e movimentos de rua são evocados no corpo de todos que participam. Ocupando o tempo presente, a ColetivA Ocupação provoca de maneira pulsante o universo que compõe esse movimento que transformou o corpo e vida de todos que participaram.

Se você quer conferir a produção, garanta seu ingresso antecipado neste site. Os moradores do bairro do Bixiga pagam R$ 10. Já os secundaristas de escola pública e aprendiz da Fábrica de Cultura têm entrada gratuita. A peça fica em cartaz no Teatro Oficina durante este fim de semana, com sessão às 19h.

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Sérgio Vaz, o Poeta da Periferia, lança clipe “Novos Dias”

sergio_vaz

 

Por Douglas Belchior

 

O Poeta da periferia, fundador da Cooperifa e agitador cultural Sérgio Vaz lançou, poucos dias antes do Natal, um novo clipe com uma de suas mais famosas poesias, “Novos Dias”.

Com direção do cineasta João Wainer e arte de Rita Wainer, o clipe traz uma bonita montagem com trechos da poesia recitado por diversas personalidades da cena periférica, artística e política do país.

A campanha de captação das imagens foi promovida pelo próprio poeta Sérgio Vaz, que entre outros, convidou Emicida, MV Bill, Sueli Carneiro, Roberta Estrela Dalva e muitas outras figuras importantes da resistência periférica brasileira. Com muita honra, também participo do clipe.

Assista e inspire-se para 2017, afinal, bem como diz o poema, “O Ano Novo tem cara de gente boa, mas não acredite nele. Acredite em você. Feliz todo dia!”

 

Novos Dias

Sergio Vaz
Este ano vai ser pior…
Pior para quem estiver no nosso caminho.
Então que venham os dias.
Um sorriso no rosto e os punhos cerrados que a luta não para.
Um brilho nos olhos que é para rastrear os inimigos (mesmo com medo, enfrente-os!).
É necessário o coração em chamas para manter os sonhos aquecidos.
Acenda fogueiras.
Não aceite nada de graça, nada.
Até o beijo só é bom quando conquistado.
Escreva poemas, mas se te insultarem, recite palavrões.
Cuidado, o acaso é traiçoeiro e o tempo é cruel, tome as rédeas do teu próprio destino.
Outra coisa, pior que a arrogância é a falsa humildade.
As pessoas boazinhas também são perigosas, sugam energia e não dão nada em troca.
Fique esperto, amar o próximo não é abandonar a si mesmo.
Para alcançar utopias é preciso enfrentar a realidade.
Quer saber quem são os outros? Pergunte quem é você.
Se não ama a tua causa, não alimente o ódio.
Por favor, gentileza gera gentileza. Obrigado!
Os Erros são teus, assuma-os.
Os acertos também são teus, divida-os.
Ser forte não é apanhar todo dia, nem bater de vez em quando, é perdoar e pedir perdão, sempre.
Tenho más notícias: quando o bicho pegar, você vai estar sozinho. Não cultive multidões.
Qual a tua verdade ? Qual a tua mentira?
Teu travesseiro vai te dizer. Prepare-se!
Se quiser realmente saber se está bonito ou bonita, pergunte aos teus inimigos, nesta hora eles serão honestos.
Quando estiver fazendo planos, não esqueça de avisar aos teus pés, são eles que caminham.
Se vai pular sete ondinhas, recomendo que mergulhe de cabeça.
Muito amor, mas raiva é fundamental.
Quando não tiver palavras belas, improvise. Diga a verdade.
As Manhãs de sol são lindas, mas é preciso trabalhar também nos dias de chuva.
Abra os braços. Segure na mão de quem está na frente e puxe a mão de quem estiver atrás.
Não confunda briga com luta. Briga tem hora para acabar, a luta é para uma vida inteira.
O Ano novo tem cara de gente boa, mas não acredite nele. Acredite em você.
Feliz todo dia!
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Após pressão, Ministério dos Transportes retira propaganda racista

Por Douglas Belchior

 

O Ministério dos Transportes vai retirar a polêmica propaganda sobre segurança no trânsito “Gente boa também mata”.

O Ministro Maurício Quintella afirmou que os cartazes mais polêmicos deverão ser retirados, sem no entanto, dizer quais seriam. Na próxima semana novas peças devem ser veiculadas na TV, com a promessa de que terá um conteúdo diferente do atual.

A notícia foi confirmada através do Twitter da Secretária de Promoção da Igualdade Racial, comandada pela desembargadora aposentada Luislinda Valois (PSDB-BA).

2017-01-05_21-14-05

 

 

A grande e negativa repercussão nas redes sociais levou o governo a recuar.

Este Blog publicou uma rápida análise de uma das peças da campanha, onde um jovem negro é exposto ao lado da frase em letras garrafais “O melhor aluno da sala pode matar”.

De fato, segundo a maioria das análises de especialistas e manifestações nas redes sociais, a campanha foi infeliz e equivocada. Ela desvaloriza ações nobres de solidariedade e as relaciona a irresponsabilidade e homicídios. Sobretudo seu resultado parece representar objetivamente o que a parcela mais conservadora da sociedade, muito bem representada por este governo, pensa sobre a comunidade negra e sobre as condutas proativas, comunitárias e solidárias das pessoas.

Seguiremos acompanhando.