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Arte

King Kong: o outro rei na Broadway

Por Por Edson Cadette / Blog Lado B NY

O reino animal definitivamente tomou conta dos palcos da Broadway. O primeiro exemplo deste reinado fica por conta do musical O Rei Leão, que estreou no teatro há mais de vinte anos e continua atraindo milhões de novaiorquinos e turistas.

King Kong, baseado no famoso filme de 1933, fez sua estréia no final de 2018 no coração do mundo teatral de Nova York: a Broadway. O musical chegou marcando presença e, certamente, está querendo destronar o rei da selva. Duas outras versões foram feitas por Hollywood, uma de 1976. estrelando Jessica Lange, e a outra de 2005 com Naomi Watts.

A história é bastante conhecida: um ambicioso aventureiro – e talvez lunático – diretor de cinema convence a sua tripulação, uma jovem e desempregada atriz e o capitão de uma pequena embarcação à participarem das aventuras das selvas da ilha de Skull Island. A intenção dele é encontrar algo tão grandioso e magnífico que possa transformar o mundo dos espetáculos do chamado “mundo civilizado”. King Kong torna-se então a resposta para incerta aventura.

Ao entramos no belíssimo teatro Broadway, a primeira imagem que notamos é o de duas silhuetas. Uma de um enorme gorila e a outra de uma diminuta mulher.

Christiani Pattis (Ann Darrow) e Eric Williams Morris (Carl Denham) | Foto: Reprodução

A direção do musical fica por conta de Drew McOnie, a trilha sonora por Marius de Vrie e a música por Eddie Perfect. O elenco é protagonizado por Christiani Pitts, Eric Williams Morris e Lori Lotchtefeld, que representam, sem dúvida alguma, algo raro dentro nos palcos da Broadway: diversidade.

King Kong é uma marionete com mais de 6 metros de altura que pesa mais de 2 toneladas. O enorme gorila é manipulado por 14 profissionais de primeiro gabarito, que são ajudados por 16 microprocessadores espalhados por todo o corpo do boneco. A maneira como é manipulado de um lado para o outro é um trabalho feito meticulosamente e que não altera os movimentos do gorila. Ficamos tão envolvidos e conectados com a história e a relação entre a bela e a fera que nem percebemos que ele é uma enorme marionete.

King Kong e Ann Darrow | Foto: Reprodução

“Ele é um personagem com um carácter expressivo e com um grande alcance de emoções, tive que realmente melhorar bastante minha representação para poder competir”, disse a atriz Chrstiani Pattis, cuja relação com o enorme gorila é o foco central da história. “Quando trocamos olhares pela primeira vez, ele dá um enorme rugido e eu começo a soluçar. Não parece que ele pertence a este espaço”, completa ela.

Com uma produção que ultrapassou a casa dos US$35 milhões e que durante mais de uma década passou por diferentes roteiros, músicas e equipe de criação, King Kong chegou na Broadway com todos os atributos para tornar-se, junto a Rei Leão, um dos grandes musicais da casa.

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Arte Cultura Matriz Africana

Rodar a vida é uma escola: Melvin Santhana conta sobre a carreira e trajetória de vida

Foto: Vinicius Souza

Por Marina Souza

Cantor, compositor, multi-instrumentalista, ator e produtor musical. A arte dentro da alma ou vice-versa. Melvin Santhana tem 35 anos e nasceu em Guarulhos rodeado por uma família que desde cedo o influenciou musicalmente por meio do trabalho do pai com discos, da MPB, das cantigas de Umbanda e Candomblé, festas familiares e muitas outras experiências. Com cerca de 20 anos de carreira, ele vem conquistando diferentes espaços, atualmente integra a banda de apoio do show Boogie Naipe, do rapper Mano Brown, e no ano passado lançou seu primeiro disco solo: o Abre Alas.

Com apenas oito anos de idade o artista aprendeu a tocar cavaquinho, aos doze entrou num conservatório para estudar violão erudito e durante a adolescência matriculou-se em instituições e cursos de Música. Stevie Wonder, Michael Jackson, Nina Simone, Milton Nascimento, Almige Neto, Lauryn Hill e outros emblemáticos da música negra serviram de inspiração para o desejo de Melvin em trabalhar na área.

Os Originais do Samba foi a primeira banda em que fez parte, foi quando começou a aprimorar seus talentos de cantar, dançar e compor. Aos poucos, foi participando de outros projetos de intuito e mecanismo diversos no cenário artístico. Carregando os significados, as consequências e circunstâncias de ser negro no Brasil, ele diz que resistiu (e ainda resiste) todos os dias de sua vida, independentemente da profissão que está exercendo.

Foi com sua personalidade corajosa e persistente que Melvin conseguiu entrar para o Boogie Naipe. Ele conta rindo que convidou a si próprio quando seu primo, que é amigo da assessora dos Racionas MC’s, lhe falou que a Eliane Dias estava querendo formar um grupo para um novo projeto musical. Coincidentemente, Santhana estava trabalhando no espetáculo “Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens”, que retrata o legado deixado pelos Racionais, e em uma das apresentações conversou com a filha de Mano Brown, que estava na platéia. Através dela, marcou uma reunião com Eliane, que o propôs uma audição com outros músicos indicados por ele próprio. Eles fizeram, passaram e hoje compõem a banda.

Talvez só precise de um incentivo, um espaço para mostrar esse trabalho, uma comunidade que abrace isso e entender que é capaz de produzir.”, diz ele.

Foto: Noelia Najera

Para Santhana é essencial que o povo negro brasileiro faça uma reflexão sobre suas maneiras de consumo, produção e correlação entre si, pois isso interfere diretamente nas perspectivas culturais, históricas e políticas dos cidadãos. A visão eurocêntrica, segundo o músico, ainda é uma das principais responsáveis pelo racismo no país. É por esta razão, que ele sempre optou pluralizar os gêneros musicais usados nas suas obras e afirma: “a diversidade é minha matriz e é onde faço acontecer”.

Quando questionei sobre as dificuldades de ser um artista negro o cantor enfatizou que no Brasil, infelizmente, o mercado da área musical ainda está o pouco aberto para a cultura negra. Ele justifica falando que, apesar da Iza, Gloria Groove, Linn da Quebrada e outras/os artistas negras/os que têm ganhado destaque ultimamente, há falta de uma estrutura e um circuito cultural que fomentem isso.

Recentemente, lançou a música “VIVA!” e diz que em 2019 pretende trabalhar com novos singles, além de videoclipes e – talvez – um EP. Melvin também está atuando como ator tanto em Tetaro, quanto em Cinema, e revela que está inserido no projeto “Sem Asas”, de Renata Martins.

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educação

Projeto “Jovens Promotores de Direito Antidiscriminatório” terá aula inaugural gratuita neste sábado

A Uneafro Brasil, União de Núcleos de Educação Popular para negras e negros, e a Classe Trabalhadora, movimento social que organiza cursinhos comunitários e populares, em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT-SP) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), irão promover uma aula inaugural do projeto “Jovens Promotores de Direito Antidiscriminatório” gratuita neste sábado, 28/4, das 9h às 13h, no Auditório da Casa Metropolitana do Direito – FMU, em São Paulo.

A aula inaugural será aberta ao público em geral, principalmente para os estudantes de cursinhos populares, de escolas públicas, ativistas e universitários interessados na temática. O número de vagas é limitado por conta do espaço do auditório. Para garantir sua inscrição, basta preencher este formulário.

O evento contará com uma aula de Antonio Carlos de Mello Rosa, que atua com o Sistema das Nações Unidas e da Organização Internacional do Trabalho nas temáticas de trabalho infantil e trabalho escravo, sendo atualmente coordenador da unidade de Combate ao Trabalho Forçado. Além disso, Antonio Carlos falará sobre Direitos Humanos e o enfrentamento ao trabalho escravo, tráfico de pessoas, escravidão contemporânea, migrações, territórios e populações vulneráveis.

Para falar sobre trabalho escravo urbano e temas ligados a gênero, racismo, trabalho escravo e ações preventivas, a aula também contará com a presença de Christiane Vieira Nogueira, procuradora do trabalho, mestra em Direito Constitucional pela Universidade Federal do Ceará e integrante da coordenação nacional para erradicação do trabalho escravo.

Conheça o projeto
O curso visa fortalecer o protagonismo juvenil, a conscientização para a questão étnico-racial, de gênero, diversidade, combate ao trabalho infantil e denúncia de discriminação e assédio no trabalho. O projeto conta com professores do campo jurídico e de movimentos sociais. Segundo Elisiane Santos, Procuradora do Trabalho e Vice Coordenadora de Combate à Discriminação no Ministério Público do Trabalho em São Paulo, a parceria desses movimentos é uma importante ferramenta para romper as barreiras do mercado de trabalho e do espaço acadêmico. “Embora tenhamos avanços com a implementação das cotas raciais nas universidades, ainda há muito a ser trilhado”, explica.

Para o coordenador e professor voluntário da Uneafro, Cleyton Borges, o projeto busca radicalizar a formação política dos participantes por meio de uma perspectiva crítica e engajada. “Para nós que atuamos nos cursinhos populares, a educação e o estudo sempre estão ligados a uma luta concreta e também à necessidade de nos mobilizarmos enquanto movimento social. Por isso, o novo curso terá conteúdos teóricos e práticos ligados ao enfretamento das discriminações”.

A procuradora do Trabalho Valdirene Silva de Assis entende que o projeto não beneficia apenas o aluno: “O investimento na capacitação de jovens promotores é uma medida muito importante, pois esses estudantes serão multiplicadores de conhecimento. E isso se reverte em proveito deles e de toda coletividade na qual eles estão inseridos”, comenta. Jessica Vianna, aluna do projeto, explica a contribuição que a inciativa dará para a sua formação pessoal e profissional: “Acredito que este projeto contribua de forma a me fortalecer, sobretudo, em um lugar que ainda invisibiliza e silencia vozes de mulheres negras e periféricas, como eu”.

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Arte Cultura

Exposição sobre populações negras da Amazônia chega à Caixa Cultural SP

Madona negra

A exposição (Re)Conhecendo a Amazônia Negra, da fotógrafa Marcela Bonfim, chega à Caixa Cultural SP em 7 de outubro (sábado) e vai até 17 de dezembro. São 55 fotos de diversas populações negras: quilombolas, afro-indígenas, barbadianos e haitianos, que também fizeram parte do processo da própria fotógrafa em se reconhecer como mulher negra.

 

Por Jéssica Moreira

A CAIXA Cultural São Paulo apresenta, de 7 de outubro a 17 de dezembro, a exposição (Re)Conhecendo a Amazônia Negra, da fotógrafa Marcela Bonfim. A mostra traz obras que ilustram as mais diversas identidades e culturas presentes entre os povos negros do local e a importância social das religiões de matriz africana na construção do Brasil. No dia 11 de novembro, haverá o lançamento do catálogo e um bate-papo com a fotógrafa.  O patrocínio do evento é da Caixa Econômica Federal, com visitação gratuita e classificação livre.

Ao todo, são 55 obras que trazem de maneira sensível e original as mais diversas expressões dos grupos que residem na região norte do país, dentre eles remanescentes quilombolas, afro-indígenas, barbadianos e também haitianos. Todos carregam em seus traços as heranças socioculturais de uma parcela importante da população brasileira que ainda não é reconhecida historicamente.

As fotos foram produzidas a partir de 2013, durante as visitas de Marcela a comunidades quilombolas, tradicionais, indígenas e urbanas, além de terreiros e festejos religiosos na região do Vale do Guaporé (RO), em um processo que coincidiu com o próprio reconhecimento da fotógrafa enquanto mulher negra. Nesta edição, a exposição traz também imagens do Mato Grosso (MT), Maranhão (MA) e Pará (PA).

Segundo Marcela, a proposta é utilizar a fotografia como instrumento de resgate da memória dessas populações e mostrar sua importância e legado para a construção da sociedade brasileira.

“Mais que fotografia, o aspecto fundamental da proposta é a crítica ao percurso da história oficial sobre a negritude brasileira. Apesar do importante papel que os negros desempenharam e ainda desempenham para o desenvolvimento econômico, cultural e social do país, há mais de 500 anos, ainda padecem com as ambiguidades e injustiças causadas inicialmente pela seletividade das informações contidas nos livros de história e demais registros de memória, o que é um projeto de degradação e inferiorização destas populações, dos seus costumes e cultura”, aponta.

Chico Rameiro

Expressões de fé

Organizada em dois núcleos, a instalação prevê um verdadeiro mergulho na cultura e subjetividade dos povos negros da Amazônia, trazendo histórias de vida e também de expressões religiosas de matriz africana.

Logo na entrada, o visitante irá encontrar um altar trazendo alguns dos objetos de variadas religiões, encaminhando-o à primeira parte da mostra, com 35 retratos distribuídos ao longo da galeria e também em uma grande estrutura de madeira no hall principal.

O corredor de fotos levará até a Sala dos Ritos e Cultos Religiosos, com 20 imagens das mais variadas expressões de fé impressas nos detalhes de mãos, pés e semblantes de um povo que mantém fortemente suas tradições e festas religiosas. Elementos como espadas-de-são-jorge e sal grosso também irão compor a expografia, no intuito de apresentar ao público um pouco dos costumes presentes no cotidiano dos povos fotografados.

Sobre os povos negros na Amazônia

A população negra amazônica foi constituída a partir de 1750 com o povoamento do Vale do Guaporé – que fica entre a Floresta Amazônica e Pantanal – por negros escravizados vindos de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT), em decorrência do ouro e da construção do aparato colonial de defesa militar “Forte Príncipe da Beira”. A partir de 1870, outras migrações negras, principalmente do Pará e do Maranhão, chegaram à região para a extração da borracha e de minérios e metais preciosos nos períodos conhecidos como “Ciclo do Ouro” e “Ciclo da Borracha”.

Entre 1873 e 1912, trabalhadores barbadianos contribuíram com mão de obra qualificada para a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Esse foi considerado o primeiro fluxo migratório livre negro no Brasil e foi um elemento importante, principalmente, nas áreas da saúde, da educação e da religiosidade. E, a partir de 2011, imigrantes negros haitianos passaram a habitar a região norte e se espalhar pelo Brasil após fluxo migratório que ocorreu por conta dos desastres e demais dificuldades que enfrentavam em seu país naquele momento.

Sobre a fotógrafa Marcela Bonfim

Fotógrafa, Marcela Bonfim, 34, é formada em Ciências Econômicas (2008) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e é especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública (2011) pela Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR). A fotografia entrou em sua vida no processo de resgate de sua identidade enquanto mulher negra, quando foi morar em Rondônia e entrou em contato com diferentes culturas, principalmente a dos barbadianos. Foi por meio das lentes que ela se aproximou das religiões de matriz africana e também de populações em situação de vulnerabilidade, fazendo de seu trabalho um espelho para si mesma.

Serviço

Exposição (Re)Conhecendo a Amazônia Negra – Marcela Bonfim

Local: CAIXA Cultural São Paulo –  Praça da Sé, 111 – Centro – São Paulo – SP – próxima à estação Sé do Metrô)

Abertura: 7 de outubro, sábado, às 11h.

Visitação: de 7 de outubro a 17 de dezembro (terça-feira a domingo)

Horário: 9h às 19h

Classificação indicativa: livre para todos os públicos

Entrada franca

Acesso para pessoas com deficiência

Site da Exposição: https://www.marcelabonfim.com/

Facebook: https://www.facebook.com/AmazoniaNegra/    

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educação Lei 10639

UFABC aprova disciplinas de “Afro-Matemática” em seu currículo de licenciatura

Tabuleiro de Awale, jogo matemático africano, da família do Mancala

Coletivo Negro Vozes e professores sensíveis ao tema propõem e UFABC cria duas novas disciplinas no curso de licenciatura em matemática: Estudos Étnico-Raciais e Afro-Matemática como Transformadora Social, esta última formalizada com o nome de Seminários em Modalidades Diversas em Matemática.

 

Por Douglas Belchior

 

O que você sabe sobre a contribuição de negras e negros nas áreas de matemática, física ou química? Essa pergunta acompanha os afro-brasileiros nos espaços acadêmicos, sobretudo aqueles que se dedicam ao campo das ciências exatas. E quase não temos respostas.

Justamente por conta desse vazio de explicações, da sub-representação de negras/os, tanto entre estudantes quanto entre professores e da ausência de referências africanas e afrodescendentes nos cursos relacionados e, mais especificamente, na licenciatura em matemática, o Coletivo Negro Vozes, da Universidade Federal do ABC, decidiu se dedicar a projetos de pesquisa com estas preocupações, dando origem assim ao projeto MatemÁfrica. A plataforma é um espaço de publicação de projetos e pesquisas sobre as possibilidades e desafios que envolvem o ensino e aprendizagem da Afro-Matemática apoiados por processos colaborativos de autoria digital, tomando como referência as orientações e perspectivas da lei 10.639/03 e 11.645/08.

 

Quando a lei afirma que a prática  deve ser adota em TODO o currículo, isso inclui as disciplinas de ciências exatas e biológicas e não somente as humanidades. Também nesse campo é necessário descolonizar o ensino e os referenciais teóricos na formação de professores

Jorge Costa, criador da plataforma MatemÁfrica

 

Jorge Costa, formado em Ciências e Tecnologia, prestes a se formar em Engenharia de Materiais com licenciatura em Matemática, coordenador do Cursinho Popular Carolina de Jesus, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, é um dos criadores da iniciativa e diz que o projeto “é uma resposta que nós trouxemos, primeiro para nós mesmos, depois para a coletividade, sobre a importância de promover o ensino de matemática partindo de outros referenciais.”

As provocações do Coletivo Negro Vozes ganharam corpo. Na medida em que formulavam cobranças junto aos professores e coordenação do curso, sobretudo sobre a aplicação das leis 10.639/03 e 11/645/08, que legislam sobre obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena em todo o curriculum escolar, as pesquisas ganharam consistência e se tornaram propostas concretas de mudança no currículo do curso de licenciatura em matemática.

 

Referências como o filme ‘Estrela Além do Tempo’, demonstram o quanto negras e negros são produtoras de conhecimento científico e que devem ser introduzidos em nossas escolas, com a finalidade de se quebrar estereótipos e demonstrar o talento e a genialidade de nosso povo também nas áreas consideradas ciências duras como matemática, física e química

Jorge Costa, criador da plataforma MatemÁfrica

 

“Quando a lei afirma que a prática  deve ser adota em TODO o currículo, isso inclui as disciplinas de ciências exatas e biológicas e não somente as humanidades. Também nesse campo é necessário descolonizar o ensino e os referenciais teóricos na formação de professores, para que estes não reproduzam o racismo dentro da sala de aula e consigam, no processo de ensino e aprendizagem, demostrar o quanto negras e negros sempre foram produtoras de conhecimento científico em toda a história da humanidade”, afirma Jorge Costa.

Jorge continua: “Exemplos como o dos Fractais Africanos, Sona, Mancala, jogos e técnicas de lógica, raciocínio e equações geométricas e matemáticas de origem africana, devem ser utilizados dentro da sala de aula para desenvolver o raciocínio lógico e, principalmente aos estudantes que possuem dificuldades em progressão aritmética (PA), progressão geométrica(PG) e geometria de modo geral”.

 

Desenhos Cokwe – Plataforma MatemÁfrica

 

O resultado das provocações e da atuação politica dos estudantes e de professores sensíveis ao tema, foi a criação de duas novas disciplinas no Curso de Licenciatura em Matemática na UFABC, sendo elas: Estudos Étnicos-raciais e Afro-matemática como Transformadora Social, esta última formalizada com outro nome, conforme processo relatado abaixo.

A proposta defendida pelo Coletivo Negro Vozes se deu num momento propício, uma vez que o curso teria que passar por mudanças, que por orientação de resolução do MEC, aumentaria a carga horária. Contudo, o núcleo responsável pela reestruturação e desenvolvimento do projeto pedagógico da licenciatura em matemática não havia, até então, percebido a importância de acrescentar ao currículo o debate racial através de disciplinas de aprofundamento das questões, nem tampouco a percepção sobre a importância de metodologias voltadas para o aprendizado de jovens negros e negras.

“A disciplina de matemática é uma das responsáveis pela exclusão de negros e negras das escolas, e consequentemente dos cursos superiores nas áreas tecnológicas. Referências como o filme ‘Estrela Além do Tempo’, demonstram o quanto negras e negros são produtoras de conhecimento científico e que devem ser introduzidos em nossas escolas, com a finalidade de se quebrar estereótipos e demonstrar o talento e a genialidade de nosso povo também nas áreas consideradas ciências duras como matemática, física e química”, explica Jorge.

O debate interno

Depois de formalizada a proposta de inserção de novas disciplinas no currículo do curso de matemática e de prévia análise, representantes do Núcleo Estruturante da Licenciatura em Matemática afirmaram não ser possível a inclusão das ementas, pois não haviam professores aptos a trabalhar as referidas temáticas. A contratação de novos professores também foi descartada.

A contra proposta apresentada foi resgatar disciplinas já existentes na UFABC e após alguns debates entre coordenação e o coletivo de estudantes, chegou-se ao consenso de se implementar a disciplina de Estudos Étnico-raciais e da criação de uma outra disciplina.

A proposta defendida pelos estudantes para esta segunda disciplina foi a de “Afro-matemática como transformadora social”. Mas a elaboração conceitual não agradou os responsáveis pela reforma, que a reapresentaram na forma de disciplina de seminários com o nome de “Seminários em Modalidades Diversas em Matemática”. A ementa e a bibliografia proposta pelos estudantes foi mantida, o que significou uma grande vitória.

Após debates sobre forma e conteúdo nas diversas esferas de deliberação da Universidade, no Conselho de Centro – CMCC (Centro de Matemática, Computação e Cognição) e, por fim, após análise do CONSEPE, último órgão deliberativo para projetos pedagógicos, as alterações foram aprovadas por unanimidade em 26 de setembro de 2017, dia histórico para o movimento negro auto organizado na UFABC para todas e todos que professam e defendem uma educação descolonizada.

“Este talvez seja o primeiro ou um dos primeiros cursos de licenciatura em matemática que se propõe a discutir o racismo de modo estruturante como uma obrigatoriedade da instituição. Trazer esse debate no campo das ciências exatas, principalmente nos cursos de licenciaturas que trabalham com a “formação” de novos professores e professoras é necessário e urgente. Conseguimos um passo importante, mas é somente o começo. Temos muito a caminhar”, finaliza Jorge.

 

 


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Arte Cultura

Cineasta Afro-Italiano Fred Kuwornu participa de debate em SP

Exibição e debate do longa metragem ‘Blaxploitalian’, refletirá sobre a presença negra no cinema italiano, nesta quinta (14), às 20h, no Quilombo Urbano Aparelha Luzia.

 

Por  Sidney Santiago

 

O selo ‘Homens de Cor’ e o Quilombo Urbano Aparelha Luzia, promovem nesta quinta-feira (14), a exibição do longa metragem ‘Blaxploitalian’, seguido de um debate com o seu diretor, ativista e roteirista afro-italiano Fred Kuwornu.

A mediação do debate será feita pelo ator Sidney Santiago Kuanza e a artista plástica Erica Malunguinho e contará também com as presenças de Viviane Pistache e Lucélia Sérgio. O encontro tem início às 20h.

Fred Kuwornu está no Brasil a convite do diretor Joel Zito Araújo, com quem participou do Festival de Cinema Negro Zózimo BulBul, edição 2017, que aconteceu na última semana na Cidade do Rio de Janeiro.

O documentário conta a presença de atores afrodescendentes no cinema italiano desde o cinema mudo até os dias atuais. Um trabalho híbrido, crítico, cosmopolita, investigando a presença negra em filmes italianos e a relação com os estereótipos raciais. O documentário é usado como uma plataforma para promover um diálogo crítico e reflexivo sobre representação negra em uma esfera internacional. O documentário premiado foi selecionado para o Festival de Cinema de Roma de 2016, Pan Festival de Cinema Africano, San Francisco Black Film Festival, Novas Vozes em preto Cinema Brooklyn e Zanzibar International Film Festival.

 

É curioso que começei a perceber que já temos quase um novo gênero cinematografico, os filmes críticos de releitura da imagem do negro no cinema e TV (como o meu A Negação do Brasil que inspirou este sobre o cinema italiano), ou sobre o latino em Hollywood como “The Bronze Screen” dirigido e produzido por 3 latinos: Nancy de los Santos, Susan Racho e Alberto Dominguez, e até um sobre o “Olhar estrangeiro” de Lucia Murat, questionando o olhar dos filmes de Hollywood e estrangeiros sobre o Brasil. Para aqueles interessados neste novo gênero documental, Blaxpoitalian é imperdível”

Joel Zito Araújo, cineasta.

Sobre Kuwornu

Fred Kuwornu é afro-italiano, diretor, roteirista, ativista e professor, nascido e criado na Itália, reside em Brooklyn, Nova York, onde fundou a companhia produções Do The Right Films Entertainment com o qual ele produziu documentários sobre questões da Diáspora Africana. De mãe judaica italiana e pai ganês, Fred Kuwornu se formou em Ciências Políticas em Bolonha e começou sua carreira como apresentador num canal televisivo. Em 2008 ele trabalhou como assistente do diretor americano Spike Lee no filme “Miracle at Sant ‘Anna”, sobre a história de soldados afro-americanos que lutaram na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Decidiu em 2010 dirigir e produzir o documentário premiado “Inside Buffalo” (Melhor Documentário no Black Festival Internacional de Cinema de Berlim). Nos Estados Unidos, Fred Kuwornu também ensina o tema “Documentário para a Mudança Social” e realiza conferências em universidades americanas sobre temas afro-europeus e afro-italianos.

Sobre os mediadores

Sidney Santiago Kuanza é ator, produtor e ativista da causa negra nas artes. Cô-fundador da ‘Cia Os Crespos’ de Teatro e Intervenção e Diretor artístico do Coletivo Selo Homens de Cor.

Erica Malunguinho é mestre em comunicações e artes do corpo pela PUC-SP São Paulo, militante, gestora e curadora do Quilombo Urbano Aparelha Luzia.

O Aparelha Luzia fica na rua Apa, 78, Santa Cecília, próximo à estação Marechal Deodoro, da linha vermelha, do Metrô. A entrada é gratuita.

 

 


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Formação de produtores culturais negros na Zona Leste de SP

 

Formação para gestão de projetos culturais é parte de uma parceria entre o projeto Podepá e a Okupação Coragem. O workshop acontece sábado, 19/08, das 9h às 17h00, na Praça Mãe Menininha do Gantois (Jd.Bonifácio)

 

Por Negrume

A presença negra é grande nas artes brasileiras. Esta afirmação é até correta, mas conta apenas parte da história.

Nos últimos anos muitos questionamentos estão vindo à tona nas redes sociais chegando até algumas mídias brasileiras. A população negra vem denunciando o racismo nas artes, inclusive já existe uma plataforma para essas denúncias, a página #ContraORacismoNasArtes .

Nos grandes festivais, seminários e encontros da classe artística, sobretudo em pautas estruturais como economia da cultura e outros eventos que contem com a presença de “grandes”diretores, gestores e produtores culturais, a presença negra é tipicamente minoritária.

Estes não são fatos novos, mas vem sendo cada vez mais discutidos no interior da comunidade negra. O teatro, de 3 anos pra cá foi diversas vezes denunciado. A Flip 2016 foi muito questionada por invisibilizar escritores e escritoras negras. O cinema brasileiro foi denunciado por ter menos de 2% de lideranças de profissionais negros e, em diversos outros nichos culturais, dos institutos pesquisadores das culturas tradicionais até chegar às linguagens artísticas da indústria cultural, o cenário não é diferente: monopólio e pouca abertura de oportunidades reais e efetivas.

A verdade é que há muitxs negros e negras, mas geralmente não estão em situação de poder, ou seja, há poucas casos em que negrxs são gestores, curadores, pareceristas, idealizadores. Lamentavelmente até mesmo em linguagens que originam-se de suas matrizes culturais. Reflexos de um país racista e excludente que precisa aprender muito para ser levado a sério como uma democracia madura.

Pensando em medidas para mudar este cenário dois negros das artes se uniram: Aloysio Letra, do Negrume e o gestor cultural Renato Adriano Rosa, da Podepá – Gestão e Produção Cultural. Juntos eles idealizaram uma parceria para viabilizar um curso gratuito de Produção e Gestão Cultural, o “Laboratório de Ideias”, um workshop que é oferecido gratuitamente a negras e negros. O workshop tem 8h de duração com a proposta de capacitar produtores periféricos com as técnicas de estruturação de projetos culturais, a partir do planejamento e de dicas importantes para organização das ideias no papel. Para ir muito além de fomentos e editais culturais.

O workshop será promovido pelo NEGRUME em 19/08, das 9h às 17h, na Okupação C.O.R.A.G.E.M , espaço autônomo de cultura que fica na Praça Mãe Menininha de Gantois, Cohab 2, ao lado da estação Jd. Bonifácio, na zona leste de São Paulo.

INSCRIÇÕES abertas até dia 5/8 no link: https://goo.gl/forms/jo0X61KxktLcAirl2


Organização: Negrume e Podepá – Gestão e Produção Cultural

Local: Okupação Cultural C.O.R.A.G.E.M.

Rua Vicente Avelar, nº53 – Cohab José Bonifácio – Itaquera (próximo à Estação José Bonifácio da CPTM).

 

Negrume, cultura e consciência negra

Na luta negra por liberdade e afirmação da cultura e resistências negras, historicamente negros da diáspora e negros da África caminham, marcham ou cortejam as ruas e seus ancestrais. Hoje, após a globalização do racismo contra pessoas negras, se faz necessário manter essa tradição de ocupar as ruas em prol da consciência negra.

No Brasil os afoxés na Bahia e Pernambuco, os maracatus em Alagoas, Ceará e Pernambuco e as congadas no Sudeste do país, cortejam as ruas saudando seus orixás e os reinados negros do Congo.

O projeto NEGRUME surgiu em Novembro de 2014 no bairro de Guaianases como um cortejo que homenageia as caminhadas e marchas da comunidade negra. É uma mescla das tradições negras populares com a luta dos movimentos sociais negros. Firmamos batuques para a afirmação cultural e política da resistência negra contra o genocídio da população negra, contra o racismo estrutural, contra o mito da democracia racial e contra todas as mazelas originadas no preconceito de cor.

Em 2016 o projeto se estabelece também como um blog periférico e articula em Guaianases, periferia da zona leste, rodas de conversa sobre temas da cultura e consciência negra.NEGRUME promoverá periodicamente bate-papo com especialistas, militantes negrxs e artistas, sempre com participação atuante da nossa comunidade.

Nosso estandarte contra o racismo: Negrume!

Acessem nosso blog: https://negrume.wordpress.com/

 

 

 


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13 de maio, uma mentira cívica

 

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Foto: Afroguerrilha

 

Por Douglas Belchior

Em tempos de golpe de estado, de retirada generalizada de direitos sociais, quando velhos homens ricos e brancos assaltam o poder central sem nenhum constrangimento, nada mais atual que explorar os sentidos da maior de todas as permanências da história do Brasil: a característica escravocrata da sociedade, das relações sociais e das formas em que o poder se estabelece.

Não seria absurdo dizer que, se comparada à realidade da época, Temer, seus ministros e as forças políticas que representam, se assemelham profundamente à elite agrária resistente aos ideias liberais dos abolicionistas.

129 anos depois, a luta por liberdade continua a fazer muito sentido, bem como nos mostra o registro histórico de Abdias do Nascimento, referência da luta negra no Brasil, em seu discurso no Senado Federal. E mais abaixo, a lembrança mágica de um encontro com o mestre Abujamra e o menino prodígio Gustavo Santos, no inesquecível Provocações, da TV Cultura. O Programa foi ao ar em 13 de Maio de 2015, pouco antes da morte do apresentador. Uma honra.

 

Abdias do Nascimento

 

Discurso proferido pelo Senador Abdias Nascimento por ocasião dos 110 anos da Abolição no Senado Federal.

 

O SR. ABDIAS NASCIMENTO (Bloco/PDT-RJ. Pronuncia o seguinte discurso.) – Sr. Presidente, Srªs. e Srs. Senadores, sob a proteção de Olorum, inicio este meu pronunciamento.

Na data de hoje, 110 anos passados, a sociedade brasileira livrava-se de um problema que se tornava mais agudo com a proximidade do século XX, ao mesmo tempo em que criava condições para o estabelecimento das maiores questões com que continuamos a nos defrontar às vésperas do Terceiro Milênio. Assim, a 13 de Maio de 1888, a Princesa Isabel, então regente do trono em função do afastamento de seu pai, D. Pedro II, assinava a lei que extinguia a escravidão no Brasil, pondo fim a quatro séculos de exploração oficial da mão-de-obra de africanos e afro-descendentes nesta Nação, mais que qualquer outra, por eles construída.

Durante muito tempo, a propaganda oficial fez desse evento histórico um de seus maiores argumentos em defesa da suposta tolerância dos portugueses e dos brasileiros brancos em relação aos negros, apresentando a Abolição da Escravatura como fruto da bondade e do humanitarismo de uma princesa. Como se a história se fizesse por desígnios individuais, e não pelas ambições coletivas dos detentores do poder ou pela força inexorável das necessidades e aspirações de um povo.

A tentativa de vender a abolição como produto da benevolência de uma princesa branca é parte de um quadro maior, que inclui outras fantasias, como a “colonização doce” – suave apelido do massacre perpetrado pelos portugueses na África e nas Américas – e o “lusotropicalismo”, expressão que encerra a contribuição lusitana à construção de uma “civilização” tropical supostamente aberta e tolerante. Talvez do tipo daquela por eles edificada em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, quando a humilhação e a tortura foram amplamente usadas como formas de manter a dominação física e psicológica de europeus sobre africano.

Na verdade, o processo que resultou na abolição da escravatura pouco tem a ver com as razões humanitárias – embora essas, é claro, também se fizessem presentes. O que de fato empurrou a Coroa imperial a libertar os escravos foram, em primeiro lugar, as forças econômicas subjacentes à Revolução Industrial, capitaneadas por uma Inglaterra ávida de mercados para os seus produtos manufaturados. Explicam-se desse modo as pressões exercidas pela Grã-Bretanha sobre o Governo brasileiro, especialmente no que tange à proibição do tráfico, que acabaria minando os próprios alicerces da instituição escravista. Outro fator fundamental foi o recrudescimento da resistência negra, traduzido no pipocar de revoltas sangrentas, com a queima de engenhos e a destruição de fazendas, que se multiplicaram nas últimas décadas do século XIX, aumentando o custo e impossibilitando a manutenção do sistema.

Foi assim que chegamos ao 13 de maio de 1888, quando negros de todo o País – pelo menos nas regiões atingidas pelo telégrafo – puderam comemorar com euforia a liberdade recém-adquirida, apenas para acordar no dia 14 com a enorme ressaca produzida por uma dúvida atroz: o que fazer com esse tipo de liberdade? Para muitos, a resposta seria permanecer nas mesmas fazendas, realizando o mesmo trabalho, agora sob piores condições: não sendo mais um investimento, e sem qualquer proteção na esfera das leis, o negro agora era livre para escolher a ponte sob a qual preferia morrer. Sem terras para cultivar e enfrentando no mercado de trabalho a competição dos imigrantes europeus, em geral subsidiados por seus países de origem e incentivados pelo Governo brasileiro, preocupado em branquear física e culturalmente a nossa população, os brasileiros descendentes de africanos entraram numa nova etapa de sua via crucis. De escravos passaram a favelados, meninos de rua, vítimas preferenciais da violência policial, discriminados nas esferas da justiça e do mercado de trabalho, invisibilizados nos meios de comunicação, negados nos seus valores, na sua religião e na sua cultura. Cidadãos de uma curiosa “democracia racial” em que ocupam, predominantemente, lugar de destaque em todas as estatísticas que mapeiam a miséria e a destituição.

O mito da “democracia racial”, que teve em Gilberto Freyre seu formulador mais sofisticado, constitui, com efeito, o principal sustentáculo teórico da supremacia eurocêntrica neste País. Interpretando fatos históricos de maneira conveniente aos seus propósitos, deturpando aqui, inventando acolá, sofismando sempre, os apóstolos da “democracia racial” conseguiram construir um sólido e atraente edifício ideológico que até hoje engana não somente parte dos dominados, mas também os dominadores. Estes, sob o martelar do slogan, por vezes acreditaram sinceramente na inexistência de racismo no Brasil. Podiam, assim, oprimir sem remorso ou sentimento de culpa. Esse mesmo mito, com denominações variadas, como “raza cósmica” ou “café con leche”, também contamina as relações de raça na maioria do países da chamada América Latina, resultando, invariavelmente, na hegemonia dos brancos – ou daqueles que assim se consideram e são considerados – sobre os negros e os índios. É assim no México, na Colômbia, na Venezuela, no Equador, no Peru e nos países da América Central e do Caribe. Disso não escapa sequer a Cuba socialista, que pude visitar mais uma vez poucas semanas atrás e onde, a despeito do grande esforço de nivelamento social realizado pela Revolução, hábitos, costumes e linguagem continuam impregnados do perverso eurocentrismo ibérico.

Um dos efeitos mais cruéis desse tipo de ideologia é confundir e atomizar o grupo oprimido, impedindo-o de se organizar para defender seus interesses. Assim, por exemplo, se denuncia a discriminação racial de que é vítima, o negro se vê enquadrado nas categorias de “complexado”, “ressentido” ou mesmo de “perturbado mental”. Algum tempo atrás, poderíamos acrescentar as de “subversivo” ou “agente do comunismo internacional”, estigmas que as instituições repressoras de nosso País tentaram imprimir em minha própria pele e que me obrigaram a viver no exterior por mais de uma década.

Terríveis na sua capacidade de ocultar o óbvio ostensivo, todos esses instrumentos de coerção e imobilização não foram suficientes para impedir que parcelas da população afro-brasileira se tenham organizado, nesses 110 anos desde a abolição, a fim de lutar, por todos os meios possíveis, pela justiça e pela igualdade neste País edificado por seus antepassados. Já tive ocasião de celebrar, aqui mesmo nesta Casa, o aniversário de fundação da maior dentre todas as organizações afro-brasileiras deste século, a Frente Negra Brasileira, que assinalou, ainda na década de trinta, a existência de um pensamento e de uma ação: negros comprometidos em derrubar as barreiras construídas com base na origem africana. Transformada em partido político e fechada com o golpe do Estado Novo, a Frente Negra, em seus acertos e equívocos, balizou o caminho a ser percorrido pelas futuras organizações afro-brasileiras.

Em meados da década dos quarenta, criei no Rio de Janeiro, com ajuda de outros militantes, o Teatro Experimental do Negro, organização que fundia arte, cultura e política na conscientização dos afro-brasileiros, e dos brasileiros em geral, para as questões do racismo e da discriminação, assim como para a valorização da cultura de origem africana. Apesar dos obstáculos que lhe foram interpostos, incluindo a clássica acusação de “racismo às avessas”, o Teatro Experimental do Negro marcou sua trajetória, pelo volume e qualidade de sua atuação, no meio artístico e cultural daquela década e do decênio seguinte, como também no cenário político, sendo diretamente responsável pela primeira proposta de legislação antidiscriminatória no Brasil, mais tarde neutralizada pela malfadada Lei Afonso Arinos.

Minha militância acabaria me rendendo um exílio, do final dos anos sessenta ao início da década de oitenta. Pude então travar contato em primeira mão com toda uma liderança negra, na África, nos Estados Unidos e na Europa, em luta contra o imperialismo, o colonialismo e o racismo. As idéias e ações dessa liderança, que incluía Amílcar Cabral, Samora Machel, Agostinho Neto, Julius Nyerere, Jomo Kenyatta, Léopold Senghor, Wole Soyinka e Sam Nujomo, na África; Malcolm X, Martin Luther King, Amiri Baraka, Stokeley Carmichael e os Black Panthers, na América do Norte – para citar apenas alguns de seus mais destacados expoentes -, encontraram eco no Brasil, estimulando a antiga luta afro-brasileira, agora sob o rótulo de “Movimento Negro”.

Recuperando a tradição das antigas organizações, a exemplo da República dos Palmares, da Frente Negra e do Teatro Experimental do Negro, o Movimento Negro logo se espalhou pelo País, catalisando o idealismo de uma generosa juventude afro-descendente, com grande incidência dos escassos universitários que enfrentavam, na busca de se inserirem no mercado de trabalho, as cruéis contradições de nossa “democracia racial”.

O Sr. Ney Suassuna (PMDB-PB) – V. Exª me permite um aparte?

O SR. ABDIAS NASCIMENTO (Bloco/PDT-RJ) – Ouço V. Exª com muito prazer.

O Sr. Ney Suassuna (PMDB-PB) – Senador Abdias Nascimento, no dia 13 de maio gostaria de me solidarizar com V. Exª e com toda a raça da qual V. Exª faz parte, dizendo que a esta raça nós, brasileiros, devemos muito. Todos nós devemos estar conscientes de que deve haver cada vez mais igualdade e mais espaço para ela. Juntos haveremos de construir essa raça brasileira, que é a miscegenação de todas elas. Muito obrigado.

O SR. ABDIAS NASCIMENTO (Bloco/PDT-RJ) – Muito obrigado a V. Exª.

Continuo, Sr. Presidente:

Apesar de todas as dificuldades e resistências, o Movimento encontrava também o apoio de alguns políticos importantes. Dentre eles se destaca Leonel Brizola, responsável, como Governador do Rio de Janeiro, pela mais séria e ousada experiência de enfrentamento do racismo até hoje empreendida no plano do Estado: a criação da Secretaria Extraordinária de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras, da qual tive a honra de ser o primeiro titular.

Uma das reivindicações do Movimento Negro no plano das políticas públicas tem sido a adoção da chamada “ação afirmativa” – que eu prefiro designar como “ação compensatória” -, objeto, nos últimos tempos, de algumas propostas no âmbito do Legislativo, incluindo o Projeto de Lei do Senado nº 75, de 1997, de minha autoria, atualmente tramitando nesta Casa. Trata-se este, na verdade, de um assunto sobre o qual muito se fala – quase sempre contra – mas do qual, geralmente, pouco se conhece.

“Ação afirmativa” ou “ação compensatória”, é, pois, um instrumento, ou conjunto de instrumentos, utilizado para promover a igualdade de oportunidades no emprego, na educação, no acesso à moradia e no mundo dos negócios. Por meio deles, o Estado, a universidade e as empresas podem não apenas remediar a discriminação passada e presente, mas também prevenir a discriminação futura, num esforço para se chegar a uma sociedade inclusiva, aberta à participação igualitária de todos os cidadãos. Ao contrário do que costumavam afirmar seus adversários, a ação compensatória recompensa o mérito e garante que todos sejam incluídos e considerados com justiça ao se candidatarem a empregos, matrículas ou contratos, independentemente de raça ou de gênero. São seus propósitos específicos: 1) aumentar a participação de pessoas qualificadas, pertencentes a segmentos historicamente discriminados, em todos os níveis e áreas do mercado de trabalho, reforçando suas oportunidades de serem contratadas e promovidas; 2) ampliar as oportunidades educacionais dessas pessoas, particularmente no que se refere à educação superior, expandir seus horizontes e envolvê-las em áreas nas quais tradicionalmente não têm sido representadas; 3) garantir a empresas de propriedade de pessoas desses grupos oportunidades de estabelecer contratos com o governo, em âmbito federal, estadual ou municipal, dos quais de outro modo estariam excluídas.

A ação compensatória na área do emprego implica o recrutamento ativo de mulheres e membros de grupos historicamente discriminados, buscando-se candidatos além das redes convencionais de relacionamento, tradicionalmente dominadas por homens brancos. Ela estimula, por exemplo, o uso de anúncios públicos de emprego para identificar candidatos em lugares em que os empregadores geralmente não iriam procurá-los.

Na área educacional, as medidas de ação compensatória adotadas em outros países, e que se pretende sejam adotadas aqui, são muitas vezes acusadas de constituírem preferências por alunos não-qualificados. Na verdade, porém, também nessa área o objetivo é recompensar o mérito. Recentes estudos de escores obtidos em testes e de notas tiradas no curso secundário – os padrões tradicionais e presumivelmente “objetivos” para mensurar as qualificações de estudantes – têm posto em questão a precisão desses instrumentos em predizer o desempenho futuro de todos os alunos, particularmente de mulheres e de membros de grupos discriminados. Poucos especialistas sustentariam racionalmente que, por si sós, esses escores e médias sejam capazes de medir objetivamente a capacidade e o potencial de um indivíduo. Qual a experiência de vida do candidato? Que obstáculos ele teve de superar? Quais são suas ambições e esperanças? Menos tangíveis do que números, esses padrões são mais precisos em prever o futuro desempenho educacional do que a origem familiar, herança ou outros atributos do privilégio.

Além do falido argumento meritocrático, também se costuma brandir contra a ação compensatória – como aconteceu nesta própria Casa – a tese da inconstitucionalidade. Seria inconstitucional estabelecer qualquer espécie de “discriminação positiva” – outro sinônimo de ação afirmativa – porque isso feriria o princípio da igualdade de todos perante a lei. A primeira resposta a esse argumento vai contra o seu caráter eminentemente conservador. Como se não tivéssemos a possibilidade, o direito, o dever, eu diria, de lutar por mudanças nos dispositivos constitucionais que não nos interessam. Ou como se a igualdade fosse apenas um princípio abstrato, e não algo a ser implementado por meio de medidas concretas. A verdade, porém, é que existem diversos precedentes jurídicos que abrem as portas à implantação da ação compensatória em favor dos afro-descendentes no Brasil. A igualdade de homens e mulheres perante a lei não impede, por exemplo, que estas tenham direito de se aposentar com menor tempo de serviço, nem que disponham de uma reserva de vagas nas listas de candidatura dos partidos. Há também a proteção especial aos portadores de deficiência, a famosa Lei dos Dois Terços – que estipulava uma preferência para trabalhadores brasileiros no quadro funcional das empresas -, sem falar no imposto de renda progressivo e na inversão do ônus da prova nas ações movidas por empregados contra empregadores. Todos casos em que a igualdade formal dá lugar à promoção da igualdade.

Vale ressaltar, neste ponto, que pelo menos três convenções internacionais de que o Brasil é signatário – e que portanto têm força de lei – contemplam a adoção de medidas compensatórias. Uma delas é a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, da Organização das Nações Unidas, cujo art. 1º, item 4, diz o seguinte: “Não serão consideradas discriminação racial as medidas especiais tomadas com o único objetivo de assegurar o progresso adequado de certos grupos raciais ou étnicos (…) que necessitem da proteção que possa ser necessária para proporcionar(…) igual gozo ou exercício de direitos humanos e liberdades fundamentais (…).”

Teor semelhante tem o art. 2º da Convenção 111 da OIT – Organização Internacional do Trabalho, concernente à discriminação em matéria de emprego e profissão, pelo qual cada signatário “compromete-se a formular e aplicar uma política nacional que tenha por fim promover (…) a igualdade de oportunidades e de tratamento em matéria de emprego e profissão, com o objetivo de eliminar toda discriminação nessa matéria”. E também o art. IV da Convenção Relativa à Luta Contra a Discriminação no Campo do Ensino, da UNESCO: “Os Estados Partes (…) comprometem-se (…) a formular, desenvolver e aplicar uma política nacional que vise a promover (…) a igualdade de oportunidade e tratamento me matéria de ensino.”

Outra postura contrária vem dos que, dando como exemplo a experiência de países socialistas, à ação compensatória costumam contrapor as políticas públicas de combate à pobreza e aos problemas a ela associados – as chamadas políticas redistributivas. Esse argumento, em geral oriundo da Esquerda, é duplamente falacioso. Primeiro porque ninguém, em sã consciência, poderia vislumbrar no horizonte próximo uma revolução socialista no Brasil – condição indispensável à adoção de reformas radicais como aquelas que possibilitaram a alguns daqueles países não acabar com o racismo, mas reduzir a um nível mínimo as desigualdades raciais (o que é diferente) nas áreas do trabalho, da educação, da saúde e da moradia. A outra falácia desse argumento é deixar implícito que se trata de opções mutuamente excludentes – ou ação compensatória, ou políticas redistributivas, quando, de fato, necessita-se de ambas. Com certeza, os afro-brasileiros seriam, por sua inserção social, os grandes beneficiários de quaisquer ações governamentais voltadas à melhoria das condições de vida das grandes massas destituídas. E continuariam precisando de proteção contra a discriminação, bem como de mecanismos capazes de lhes assegurar a igualdade de oportunidades.

Em entrevista publicada semana passada pela revista Veja, em que se discute a situação dos negros neste País, o Presidente Fernando Henrique Cardoso disse não ser contrário ao sistema de quotas, forma mais incisiva de ação compensatória, que constitui a essência do meu projeto de lei. O Presidente foi além dessa declaração e afirmou literalmente: “Havendo duas pessoas em condições iguais para nomear para determinado cargo, sendo uma negra, eu nomearia a negra”. Como é curioso, para dizer o mínimo, observar correligionários do Presidente aqui no Senado manifestando idéias e atitudes absolutamente contrárias às de seu suposto líder e utilizando, para isso, todo um arsenal de argumentos ou intempestivos, ou equivocados, ou desinformados – pois não quero acreditar que sejam maliciosos.

Ao mesmo tempo, pesquisa realizada pelo prestigioso instituto de pesquisa Datafolha, e publicada à página 46 do livro Racismo Cordial, revela não apenas que praticamente metade dos brasileiros de todas as origens étnicas aprova a ação compensatória, mas que essa aprovação chega a 52% entre aqueles que admitiram ter preconceito em relação aos negros. Muito significativo em função da cortina de desconhecimento que cerca o tema, esse resultado indica que o País está mudando, e mais rapidamente do que se quer admitir. E esta Casa, cujos membros têm o dever de acompanhar e até mesmo antecipar as mudanças que o País quer e necessita, não pode ficar se ancorando em velhos chavões para manter um estado de coisas que a maioria da sociedade quer ver superado. Sabemos, eu e meus companheiros de luta, que é árdua a batalha que temos pela frente, no confronto com o reacionarismo, a ignorância e o atraso. Mas estamos dispostos a levar nossa luta a todos os foros, nacionais e internacionais, e a conduzi-la, como alguém já disse, “por todos os meios necessários”.

Assim, neste 13 de Maio, fazemo-nos presentes nesta tribuna, não para comemorar, mas para denunciar uma vez mais a mentira cívica que essa data representa, parte central de uma estratégia mais ampla, elaborada com a finalidade de manter os negros no lugar que eles dizem ser o nosso. A comunidade afro-brasileira, porém, já mostrou claramente que não mais aceita a condição que nos querem impingir. Mais uma prova disso foi dada na madrugada de hoje, quando o Instituto do Negro Padre Batista, juntamente com dezenas de outras organizações, realizou em São Paulo a segunda Marcha pela Democracia Racial, desfraldando a bandeira da igualdade de oportunidades para os afro-descendentes. Assim, ao mesmo tempo em que denuncia as injustiças de que é vítima, nossa comunidade apresenta reivindicações consistentes e viáveis para a solução dos seculares problemas que enfrenta. Reivindicações, como a ação compensatória, capazes de contribuir para que venhamos a concretizar, com o apoio de nossos aliados sinceros, a segunda e verdadeira abolição.

Sr. Presidente, pulei vários trechos para abreviar meu pronunciamento, solicito que a publicação seja feita na íntegra.

Muito obrigado, Sr. Presidente.

Axé!

Fonte: Senado | Secretaria-Geral da Mesa – Secretaria de Taquigrafia e Secretaria de Ata | Secretaria de Informação e Documentação – Subsecretaria de Informações


 


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O dia seguinte ao fim da escravidão

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Por Douglas Belchior

 

Imagine um amigo seu ou um parente que fosse tratado como um animal. Imagine as pessoas que você ama vivendo sem ter nenhum direito, podendo ser vendidos, trocados, castigados, mutilados ou mesmo mortos sem que ninguém ou nenhuma instituição pudesse intervir em seu favor. Imagine você, seu pai, sua mãe ou seu filho sendo tratados como coisa qualquer, como um porco, um cavalo, ou um cachorro. Imagine sua filha sendo levada ou mesmo ao seu lado, estuprada, todos os dias e depois, grávida à serventia do negócio de seu dono.

Clóvis Moura (Moura, 1989, p.15-16), faz o relato sem personagens. Eu os incluí para pedir que imagine.

Você que já chorou diante das cenas que remetem o sofrimento de Jesus Cristo, na sexta feira da paixão; Você que fechou os olhos frente às fortes imagens de Django Livre; Você que se emocionou com 12 anos de escravidão, imagine.

Imagine – e saiba – que teu país e as riquezas que o conformam existem em função de quatro séculos de escravidão. E de tudo que deste período e deste sistema decorreu a partir de então.

Mas enfim, a escravidão acabou: 13 de maio, princesa Isabel e muita festa! Festa e promessa de abonança!

E no dia seguinte, tudo seria diferente.

Desde que acompanho o movimento negro, aprendi que dia 14 de maio, o dia seguinte ao fim da escravidão, foi o dia mais longo da história. Aliás, dizem outros, é o dia que não terminou.

Depois de séculos de sequestros, escravidão e assassinatos, o que se viu nos anos pós-abolição foi a formação e o desenvolvimento de um país que negou e ainda nega à população negra condições mínimas de integração e participação na riqueza.

Sem terra, sem empregos, sem educação, sem saúde, sem teto, sem representação. Sequer a mais liberal das reformas, a agrária, fora possível no país das capitanias hereditárias. Vamos olhar para o campo e observar as fileiras ou os acampamentos de Sem Terra, maioria negras e negros. Vamos buscar na memória os rostos de quem conforma o pelotão que estremece as metrópoles na justa luta por moradia capitaneada pelos movimentos de Sem-Teto nos dias de hoje: negras e negros! Bora olhar para as filas dos hospitais, para os que esperam exames e tratamentos, para os analfabetos ou para as crianças em idade escolar que estão fora da escola. Vamos olhar para a população carcerária e suas condições de existência. Vamos olhar para as vítimas de violência policial, para os números de desaparecimentos e homicídios. Vamos olhar para os dependentes do bolsa-família ou da previdência social. Vamos olhar para a pobreza. De fato, ela atinge a todos. Mas a presença de negras e negros nas condições narradas aqui, tem sido desproporcional e pouco se alterou desde 1888.

O dia seguinte, a década seguinte, os 129 anos seguintes ao fim da escravidão não foram suficientes para nos livrar de uma herança racista, reafirmada cotidianamente pelos descendentes dos colonizadores que sempre dominaram o Brasil. Estes mantém a posse do latifúndio, hoje rebatizado agronegócio. Mantém o domínio dos grandes meios de comunicação, são donos das grandes empresas, bancos, conglomerados educacionais-empresariais, além de dirigir politicamente as maiores Igrejas. São os mesmos que, através de um golpe parlamentar-jurídico-midiático, instalaram um governo ilegitimo dirigido por Temer e uma maioria de parlamentares brancos e corruptos, que mais uma vez assaltam os direitos duramente conquistados pelo povo negro brasileiro. Com isso garantem o poderio econômico a supremacia política e a representação eleitoral de maneira a manter intocáveis seus interesses.

Nada diferente do que tem sido os últimos 129 anos. Ou os últimos 517…

E nesse dia seguinte ao 13 de maio, neste dia depois do “fim da escravidão”, resistimos! E em saraus, cursinhos comunitários, coletivos negros, nas rodas de samba e candomblé, nos bondes funkeiros, no hip-hop, na poesia, na literatura, nas artes, na internet, no movimento negro, e aos pouquinhos, nas universidades, existimos.

E sendo assim, dotados de tamanha resiliência, imaginem a revolta!

Deixo abaixo, a lembrança mágica de um encontro com o mestre Abujamra e o menino prodígio Gustavo Santos, no inesquecível Provocações, da TV Cultura. O Programa foi ao ar em 13 de Maio de 2015, pouco antes da morte do apresentador. Uma honra.

 

 

 

 


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Arte Cultura

Em cartaz: ‘Cartas à Madame Satã’ reflete afetividade de negros e negras

Foto: Roniel Felipe

Peça ‘Cartas à Madame Satã, ou Me Desespero Sem Notícias Suas’, estará em cartaz no Sesc Belenzinho, Zona Leste de SP, dias 2, 3 e 4 de Março, às 21h30

 

Com Cia. Os Crespos

Em seu quarto, um homem negro se corresponde com a figura mítica de Madame Satã. Fragmentos de histórias revelam, através das cartas, trajetórias e casos de amor numa cidade-país carregada de doenças, que mantém sob cárcere privado um jovem apaixonado. A personagem, em tom confessional, mescla a força do gesto com a delicadeza no discurso, buscando a cumplicidade do espectador para tornar público uma afetividade cercada de tabus.

Trata-se do terceiro espetáculo de uma trilogia da Cia. Os Crespos, ‘Cartas à Madame Satã, ou Me Desespero Sem Notícias Suas’. A montagem do texto contou com a colaboração de diversas pessoas que enviaram cartas ao grupo contando sobre suas experiências de vida. Na peça, o ator Sidney Santiago Kuanza utiliza dessas cartas para se comunicar com Madame Satã, transformista emblemático do início do século XX.

Com direção de Lucelia Sergio, direção musical e operação de Dani Nega e colaboração dos atores Luis Navarro e Vitor Bassi, as apresentações estão confirmadas para essa próxima quinta, sexta e sábado, 02, 03 e 04/03, às 21h30,  na Sala de Espetáculos I do Sesc Belenzinho. O vídeo abaixo deixa uma pitada do espetáculo.

Imperdível!

+ Os Crespos

Os Crespos é um coletivo teatral de pesquisa cênica e audiovisual, debates e intervenções públicas, composto por atores negros. O embrião da companhia foi um grupo de estudos formado em 2005 na Escola de Arte Dramática da USP, influenciado pela trajetória do Teatro Experimental do Negro (TEN) de Abdias do Nascimento. Era integrado por Sidney Santiago, Lucélia Sérgio, Mawusi Tulani e Joyce Barbosa, e dedicado à pesquisa sobre a presença negra no teatro. Em 2006 o núcleo tornou-se o grupo teatral Filhos de Olorum. No ano seguinte, adotou o nome Os Crespos e montou seu primeiro espetáculo, Ensaio sobre Carolina.

A estreia em 2007, com direção de José Fernando de Azevedo, primeiro professor negro da EAD-USP, era uma releitura do texto de Quarto de Despejo, de Carolina de Jesus. Depois de um ensaio aberto em Berlim, Ensaio sobre Carolina ficou em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro até 2010. Com um projeto sobre essa peça, Lucelia Sergio da Conceição, membro do grupo, foi uma das 86 agraciadas do edital “prêmio Myriam Muniz”, da Funarte, em 2009.

Em 2014, o grupo lançou a revista Legítima Defesa, reunindo entrevistas, artigos e dramaturgia. No mesmo ano a companhia estreou o espetáculo ‘Cartas a Madame Satã ou me Desespero sem Notícias Suas’ que contou com a colaboração de diversas pessoas que enviaram cartas ao grupo contando sobre suas experiências de vida. Na peça o ator Sidney Santiago Kuanza utiliza dessas cartas para se comunicar com Madame Satã, transformista emblemático do início do século XX.

Serviço

Peça: Cartas à Madame Satã, ou Me Desespero Sem Notícias Suas
Datas: 02,03 e 04 de Março de 2017
Local: Sala de Espetáculos I – Sesc Belenzinho – Rua Padre Adelino, 1000, próximo Metrô Belém
Ingressos: Inteira R$ 20,00 – Meia: R$ 10,00
Limite de 4 ingressos por pessoa
Não recomendado para menores de 16 anos