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Projeto “Jovens Promotores de Direito Antidiscriminatório” terá aula inaugural gratuita neste sábado

A Uneafro Brasil, União de Núcleos de Educação Popular para negras e negros, e a Classe Trabalhadora, movimento social que organiza cursinhos comunitários e populares, em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT-SP) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), irão promover uma aula inaugural do projeto “Jovens Promotores de Direito Antidiscriminatório” gratuita neste sábado, 28/4, das 9h às 13h, no Auditório da Casa Metropolitana do Direito – FMU, em São Paulo.

A aula inaugural será aberta ao público em geral, principalmente para os estudantes de cursinhos populares, de escolas públicas, ativistas e universitários interessados na temática. O número de vagas é limitado por conta do espaço do auditório. Para garantir sua inscrição, basta preencher este formulário.

O evento contará com uma aula de Antonio Carlos de Mello Rosa, que atua com o Sistema das Nações Unidas e da Organização Internacional do Trabalho nas temáticas de trabalho infantil e trabalho escravo, sendo atualmente coordenador da unidade de Combate ao Trabalho Forçado. Além disso, Antonio Carlos falará sobre Direitos Humanos e o enfrentamento ao trabalho escravo, tráfico de pessoas, escravidão contemporânea, migrações, territórios e populações vulneráveis.

Para falar sobre trabalho escravo urbano e temas ligados a gênero, racismo, trabalho escravo e ações preventivas, a aula também contará com a presença de Christiane Vieira Nogueira, procuradora do trabalho, mestra em Direito Constitucional pela Universidade Federal do Ceará e integrante da coordenação nacional para erradicação do trabalho escravo.

Conheça o projeto
O curso visa fortalecer o protagonismo juvenil, a conscientização para a questão étnico-racial, de gênero, diversidade, combate ao trabalho infantil e denúncia de discriminação e assédio no trabalho. O projeto conta com professores do campo jurídico e de movimentos sociais. Segundo Elisiane Santos, Procuradora do Trabalho e Vice Coordenadora de Combate à Discriminação no Ministério Público do Trabalho em São Paulo, a parceria desses movimentos é uma importante ferramenta para romper as barreiras do mercado de trabalho e do espaço acadêmico. “Embora tenhamos avanços com a implementação das cotas raciais nas universidades, ainda há muito a ser trilhado”, explica.

Para o coordenador e professor voluntário da Uneafro, Cleyton Borges, o projeto busca radicalizar a formação política dos participantes por meio de uma perspectiva crítica e engajada. “Para nós que atuamos nos cursinhos populares, a educação e o estudo sempre estão ligados a uma luta concreta e também à necessidade de nos mobilizarmos enquanto movimento social. Por isso, o novo curso terá conteúdos teóricos e práticos ligados ao enfretamento das discriminações”.

A procuradora do Trabalho Valdirene Silva de Assis entende que o projeto não beneficia apenas o aluno: “O investimento na capacitação de jovens promotores é uma medida muito importante, pois esses estudantes serão multiplicadores de conhecimento. E isso se reverte em proveito deles e de toda coletividade na qual eles estão inseridos”, comenta. Jessica Vianna, aluna do projeto, explica a contribuição que a inciativa dará para a sua formação pessoal e profissional: “Acredito que este projeto contribua de forma a me fortalecer, sobretudo, em um lugar que ainda invisibiliza e silencia vozes de mulheres negras e periféricas, como eu”.

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UFABC aprova disciplinas de “Afro-Matemática” em seu currículo de licenciatura

Tabuleiro de Awale, jogo matemático africano, da família do Mancala

Coletivo Negro Vozes e professores sensíveis ao tema propõem e UFABC cria duas novas disciplinas no curso de licenciatura em matemática: Estudos Étnico-Raciais e Afro-Matemática como Transformadora Social, esta última formalizada com o nome de Seminários em Modalidades Diversas em Matemática.

 

Por Douglas Belchior

 

O que você sabe sobre a contribuição de negras e negros nas áreas de matemática, física ou química? Essa pergunta acompanha os afro-brasileiros nos espaços acadêmicos, sobretudo aqueles que se dedicam ao campo das ciências exatas. E quase não temos respostas.

Justamente por conta desse vazio de explicações, da sub-representação de negras/os, tanto entre estudantes quanto entre professores e da ausência de referências africanas e afrodescendentes nos cursos relacionados e, mais especificamente, na licenciatura em matemática, o Coletivo Negro Vozes, da Universidade Federal do ABC, decidiu se dedicar a projetos de pesquisa com estas preocupações, dando origem assim ao projeto MatemÁfrica. A plataforma é um espaço de publicação de projetos e pesquisas sobre as possibilidades e desafios que envolvem o ensino e aprendizagem da Afro-Matemática apoiados por processos colaborativos de autoria digital, tomando como referência as orientações e perspectivas da lei 10.639/03 e 11.645/08.

 

Quando a lei afirma que a prática  deve ser adota em TODO o currículo, isso inclui as disciplinas de ciências exatas e biológicas e não somente as humanidades. Também nesse campo é necessário descolonizar o ensino e os referenciais teóricos na formação de professores

Jorge Costa, criador da plataforma MatemÁfrica

 

Jorge Costa, formado em Ciências e Tecnologia, prestes a se formar em Engenharia de Materiais com licenciatura em Matemática, coordenador do Cursinho Popular Carolina de Jesus, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, é um dos criadores da iniciativa e diz que o projeto “é uma resposta que nós trouxemos, primeiro para nós mesmos, depois para a coletividade, sobre a importância de promover o ensino de matemática partindo de outros referenciais.”

As provocações do Coletivo Negro Vozes ganharam corpo. Na medida em que formulavam cobranças junto aos professores e coordenação do curso, sobretudo sobre a aplicação das leis 10.639/03 e 11/645/08, que legislam sobre obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena em todo o curriculum escolar, as pesquisas ganharam consistência e se tornaram propostas concretas de mudança no currículo do curso de licenciatura em matemática.

 

Referências como o filme ‘Estrela Além do Tempo’, demonstram o quanto negras e negros são produtoras de conhecimento científico e que devem ser introduzidos em nossas escolas, com a finalidade de se quebrar estereótipos e demonstrar o talento e a genialidade de nosso povo também nas áreas consideradas ciências duras como matemática, física e química

Jorge Costa, criador da plataforma MatemÁfrica

 

“Quando a lei afirma que a prática  deve ser adota em TODO o currículo, isso inclui as disciplinas de ciências exatas e biológicas e não somente as humanidades. Também nesse campo é necessário descolonizar o ensino e os referenciais teóricos na formação de professores, para que estes não reproduzam o racismo dentro da sala de aula e consigam, no processo de ensino e aprendizagem, demostrar o quanto negras e negros sempre foram produtoras de conhecimento científico em toda a história da humanidade”, afirma Jorge Costa.

Jorge continua: “Exemplos como o dos Fractais Africanos, Sona, Mancala, jogos e técnicas de lógica, raciocínio e equações geométricas e matemáticas de origem africana, devem ser utilizados dentro da sala de aula para desenvolver o raciocínio lógico e, principalmente aos estudantes que possuem dificuldades em progressão aritmética (PA), progressão geométrica(PG) e geometria de modo geral”.

 

Desenhos Cokwe – Plataforma MatemÁfrica

 

O resultado das provocações e da atuação politica dos estudantes e de professores sensíveis ao tema, foi a criação de duas novas disciplinas no Curso de Licenciatura em Matemática na UFABC, sendo elas: Estudos Étnicos-raciais e Afro-matemática como Transformadora Social, esta última formalizada com outro nome, conforme processo relatado abaixo.

A proposta defendida pelo Coletivo Negro Vozes se deu num momento propício, uma vez que o curso teria que passar por mudanças, que por orientação de resolução do MEC, aumentaria a carga horária. Contudo, o núcleo responsável pela reestruturação e desenvolvimento do projeto pedagógico da licenciatura em matemática não havia, até então, percebido a importância de acrescentar ao currículo o debate racial através de disciplinas de aprofundamento das questões, nem tampouco a percepção sobre a importância de metodologias voltadas para o aprendizado de jovens negros e negras.

“A disciplina de matemática é uma das responsáveis pela exclusão de negros e negras das escolas, e consequentemente dos cursos superiores nas áreas tecnológicas. Referências como o filme ‘Estrela Além do Tempo’, demonstram o quanto negras e negros são produtoras de conhecimento científico e que devem ser introduzidos em nossas escolas, com a finalidade de se quebrar estereótipos e demonstrar o talento e a genialidade de nosso povo também nas áreas consideradas ciências duras como matemática, física e química”, explica Jorge.

O debate interno

Depois de formalizada a proposta de inserção de novas disciplinas no currículo do curso de matemática e de prévia análise, representantes do Núcleo Estruturante da Licenciatura em Matemática afirmaram não ser possível a inclusão das ementas, pois não haviam professores aptos a trabalhar as referidas temáticas. A contratação de novos professores também foi descartada.

A contra proposta apresentada foi resgatar disciplinas já existentes na UFABC e após alguns debates entre coordenação e o coletivo de estudantes, chegou-se ao consenso de se implementar a disciplina de Estudos Étnico-raciais e da criação de uma outra disciplina.

A proposta defendida pelos estudantes para esta segunda disciplina foi a de “Afro-matemática como transformadora social”. Mas a elaboração conceitual não agradou os responsáveis pela reforma, que a reapresentaram na forma de disciplina de seminários com o nome de “Seminários em Modalidades Diversas em Matemática”. A ementa e a bibliografia proposta pelos estudantes foi mantida, o que significou uma grande vitória.

Após debates sobre forma e conteúdo nas diversas esferas de deliberação da Universidade, no Conselho de Centro – CMCC (Centro de Matemática, Computação e Cognição) e, por fim, após análise do CONSEPE, último órgão deliberativo para projetos pedagógicos, as alterações foram aprovadas por unanimidade em 26 de setembro de 2017, dia histórico para o movimento negro auto organizado na UFABC para todas e todos que professam e defendem uma educação descolonizada.

“Este talvez seja o primeiro ou um dos primeiros cursos de licenciatura em matemática que se propõe a discutir o racismo de modo estruturante como uma obrigatoriedade da instituição. Trazer esse debate no campo das ciências exatas, principalmente nos cursos de licenciaturas que trabalham com a “formação” de novos professores e professoras é necessário e urgente. Conseguimos um passo importante, mas é somente o começo. Temos muito a caminhar”, finaliza Jorge.

 

 


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educação Mobilização

Escola sem partido. Parlamento sem moral. Governo sem vergonha.

lousa

 

Por Douglas Belchior

 

Escola Sem Igrejas, bíblia ou crucifixo na parede;

Escola Sem hino nacional às quartas-feiras;

Escola Sem festa junina com música country americana;

Escola Sem cartilha “pedagógica” do governo;

Escola Sem exaltação à meritocracia;

Escola Sem miséria, com direito à merenda e papel higiênico no banheiro dos estudantes;

Escola Sem ‘Festa das Nações’ com desfiles das crianças vestidas de colônia Italiana, portuguesa, espanhola, holandesa e até alemã… E só!!!! \o/;

Escola Sem excursão para o programa do Luciano Huck;

Escola Sem PM ou GCM tomando cafezinho na cozinha da merenda bem na hora do intervalo;

Escola Sem indicação política para os cargos de direção, vice e coordenação pedagógica;

Escola Sem “livro negro”;

Escola Sem grades e cadeados;

Escola Sem vidros quebrados, lousa aos pedaços, goteira na sala e uma boa e silenciosa descarga nas privadas;

Escola Sem Projeto Político Pedagógico racista, machista e homofóbico, que ignora

relações raciais, gênero, diversidade e história da África e dos povos originários;

Escola Sem servidores desesperados com as contas do fim de mês, em pleno ano olímpico;

Escolas Sem ausência de plano de carreira, formação continuada e reconhecimento profissional;

Escola Sem professores tristes, desestimulados e humilhados pelos governos;

E se for assim, o “partido” não fará

falta.

 

 

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MEC, Conib e Revista Veja querem ‘Universidade Sem Partido’ e atacam edital da UFABC

escola-sem-partido

 

Por Douglas Belchior

O fascismo do governo Temer, a mídia golpista e setores conservadores da sociedade, para além dos retrocessos nos direitos sociais, prometem ataques permanentes à democracia nos espaços educacionais. A absurda proposta da Escola Sem Partido tem como alvo não apenas as escolas públicas de nível fundamental e médio, mas também as universidades públicas.

A prova real temos agora, com a intervenção autoritária, desrespeitosa quanto à sua própria autonomia e a serviço do governo golpista, caracterizada pela postura da Reitoria da UFABC, que pressionada pelo ministro da Educação do atual governo ilegítimo, pela Confederação Israelita do Brasil (Conib) e pela revista Veja, modificou os termos do edital de um concurso para a área de relação raciais, eliminando a menção ao sionismo, que foi interpretada e denunciada pelo Conib como “edital antissemita”.

Destilando ódio em um texto mal escrito, o blogueiro da Revista Veja Reinaldo Azevedo, amplificou o argumento defendido pelo Conib – e que foi objeto de reunião entre os Israelitas e o Ministro da Educação, que resultou na alteração do edital. O desprezível Azevedo chega escrever que “Dá para fazer picadinho de cada item” do edital, chama de “delinqüência intelectual” o ítem que trata das óbvias “Conexões da branquidade e dos regimes racistas: apartheid, nazismo, sionismo” e, entre outros absurdos, chama de detestável “Os Condenados da Terra”, de Frantz Fanon.

O edital 145/2016 de 21 de Junho, tem como objetivo selecionar a partir de concurso público, professores para as áreas e sub-áreas de relações raciais, desigualdades de raça, gênero e renda, diáspora negra, direitos humanos e racismo. São 4 vagas, com reserva (cota) de uma vaga para negra/o. Como sabemos, a universidade brasileira tem caminhado a passos lentos no sentido de promover conteúdos relativos às questões raciais e de gênero, bem como a uma maior participação de professores negros em seus quadros decentes. Sem dúvida que o ataque a esse edital, que traz uma elaboração de conteúdo profundamente avançado do ponto de vista da diversidade e relações raciais, está relacionada ao momento de ataques que vivemos em todas as esferas.

Sobre a acusação feita pelo Conib, de que o edital seria antissemita, em Carta Aberta à Comunidade, que segue abaixo em sua íntegra, os professores Muryatan Santana Barbosa e Paris Yeros registram que

 

O ponto do edital referente ao estudo comparativo de regimes racistas (4.3.1.4), incluindo apartheid, nazismo e sionismo, se refere a um corpo de pesquisa já estabelecido e a um dos assuntos que mais preocupou a Assembleia Geral da ONU, resultando na Resolução No. 3379/1975 que tipificou a opressão do povo palestino como racismo. A resolução foi anulada em 1991, porém o assunto continua a polarizar, como o fez na III Conferência sobre o Racismo, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, realizada na cidade de Durban em 2001.

 

Registro aqui total solidariedade aos professores Muryatan Santana Barbosa e Paris Yeros, bem como ao professores que compõem a Associação dos Docentes da UFABC, que se dedicam diuturnamente a fazer da UFABC uma universidade plural e democrática.

Abaixo segue manifestações de professores da UFABC:

 

Carta aberta à Comunidade Acadêmica

Carta aberta à Comunidade Acadêmica em relação ao Edital 145/2016 (“4×4”)

Como membros do GT do CECS para o concurso sobre Relações Étnico-Raciais (Edital 145/2016, www.ufabc.edu.br/index.php…) vemos, por meio desta, esclarecer alguns pontos fundamentais a respeito.

  1. O estudo das relações étnico-raciais é um campo estabelecido mundialmente, constituído por uma ampla agenda de pesquisa e diversidade de abordagens.
  2. O estudo das relações étnico-raciais no Brasil se desenvolveu insatisfatoriamente na academia, como resultado do tipo de racismo vivido no país, que se negou a reconhecer sua própria existência como fator estruturante da sociedade brasileira. Este fato foi reforçado ao longo do tempo pela ausência quase total de pesquisadores(as) negros(as) nas universidades brasileiras.
  3. A importância do estudo e do ensino das relações étnico-raciais no sistema de educação brasileiro foi tardiamente reconhecida pelo Governo Federal na década passada, começando pela Lei 10.639/2003 sobre o ensino da História e da Cultura Afro-brasileira e Africana e pela Resolução No. 1 do Conselho Nacional de Educação, que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais. Juntamente com leis posteriores, especialmente a Lei 10.645/2008, o processo de reconhecimento tomou corpo no Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-raciais, que inter alia exigiu da educação superior um esforço sistemático para contribuir à formação de jovens pesquisadores(as), professores(as) e cidadãos(ãs) conscientes das realidades brasileiras.
  4. A exclusão de negros(as) foi também reconhecida, resultando, em primeiro lugar, na adoção de cotas raciais em universidades federais, prioritariamente em nível de graduação. Atualmente, cotas raciais são exigidas em cursos de pós-graduação. Adicionalmente, a Lei 12.990/2014 reservou aos(as) negros(as) 20% das vagas em concursos públicos, o que no caso do ensino superior se traduz na reserva de uma vaga em cada três, em editais com três ou mais vagas.
  5. O concurso em questão é uma das primeiras iniciativas de viabilizar tanto a Lei 12.990, como fazer avançar no Plano Nacional de Implementação, por articular quatro bacharelados das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (Ciências Econômicas, Políticas Públicas, Planejamento Territorial, e Relações Internacionais) na alocação de uma vaga por curso a um esforço coletivo. O processo amadureceu ao longo de mais de um ano, passando pelas quatro plenárias, as quais também definiram os pontos da subárea que lhes cabia separadamente. As plenárias e seus colegiados são, portanto, responsáveis pela autoria dos pontos.
  6. O ponto do edital referente ao estudo comparativo de regimes racistas (4.3.1.4), incluindo apartheid, nazismo e sionismo, se refere a um corpo de pesquisa já estabelecido e a um dos assuntos que mais preocupou a Assembleia Geral da ONU, resultando na Resolução No. 3379/1975 que tipificou a opressão do povo palestino como racismo. A resolução foi anulada em 1991, porém o assunto continua a polarizar, como o fez na III Conferência sobre o Racismo, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, realizada na cidade de Durban em 2001.
  7. O ponto do edital não pressupõe que formas de governo e ideologias são iguais em suas características, dinâmicas e consequências. Ele exige que candidatos tenham domínio sobre esses estudos comparativos.
  8. É possível e necessário debater livremente sobre o assunto e a forma como ele foi colocado no edital, porém não cabe a uma Reitoria decretar o que é ou não é apropriado no estudo das relações étnico-raciais. Tal intervenção fere gravemente a liberdade acadêmica e cria um precedente perigoso.
  9. Quaisquer que sejam as divergências sobre o referido ponto do edital, vale lembrar que é apenas um dos quarenta pontos ali existentes, que versam, em sua grande maioria, sobre à questão étnico-racial da população negra no Brasil.

O concurso em questão é resultado de reivindicações históricas do povo negro brasileiro por reconhecimento e inclusão efetiva na sociedade brasileira. Como tal, deve ser defendido por todos(as) aqueles(as) interessados(as) na formação de um país mais justo e democrático. O mínimo que se espera, feita a retificação do referido ponto, é que se respeite a integridade e a legalidade do concurso.

Saudações acadêmicas,

Muryatan Santana Barbosa (BCH/BRI/CECS)
Paris Yeros (BCH/BCE/CECS)

 

Nota da ADUFABC sobre a retificação do edital 145/2016: a universidade não existe sem autonomia

No último dia 13 de julho, a UFABC publicou no Diário Oficial da União o edital n°160/2016 que, como afirma nota divulgada pela reitoria no mesmo dia, “corrige uma parte do Edital 145/2016 que, de forma inapropriada, tratou no mesmo contexto regimes políticos e acontecimentos históricos muito diferentes entre si”.

Como todos acompanhamos, a decisão da reitoria de retificar o edital tinha o objetivo de encerrar uma forte polêmica envolvendo um dos pontos do referido concurso que mencionava o debate sobre “Conexões da branquidade e dos regimes racistas: apartheid, nazismo, sionismo”. A reação ao ponto envolveu, além de manifestações de parte da imprensa e da comunidade judaica, uma demanda direta do próprio ministro interino da educação.

A universidade, como qualquer outra instituição social, não existe fora da sociedade. Portanto, é perfeitamente compreensível – e até mesmo desejável – que seja objeto de questionamentos de forças sociais diversas, de natureza política, econômica, cultural ou religiosa, sobretudo considerando-se a legitimidade e a eficácia do conhecimento produzido no seu interior.

Mas se é esperado da sociedade que questione a universidade, é igualmente esperado que esta responda respeitando o princípio da autonomia.

A universidade constituiu-se historicamente como instituição lutando contra o poder político e religioso da Igreja, ainda na Idade Média. Da mesma forma, a emergência da ciência moderna no século XVII é impensável sem a afirmação do ideal da autonomia, materializado no expediente da “revisão por pares”, que reconheceu como princípio basilar da moderna produção de conhecimento, a ideia de que só pode julgar a validade de um saber aqueles que sejam capazes, por longo processo de formação, de compreendê-lo e avaliá-lo.

Foi reafirmando esses princípios fundamentais, e em resposta aos traumas e retrocessos causados pelas constantes intervenções da ditadura militar no interior da universidade, que a Constituição Federal de 1988 estabeleceu, no seu artigo 207, o princípio da autonomia universitária, com destaque para a autonomia didático-científica.

Reconhecer a autonomia da universidade não significa isentá-la de controle e responsabilidade social, mas significa afirmar que estes se exercerão segundo determinadas regras, inspiradas nesse princípio constitucional.

É partindo desta reflexão que a diretoria da Associação dos Docentes da UFABC vem por meio desta nota externar a sua profunda preocupação com a forma como o edital 145/2016 foi retificado pela reitoria da UFABC no último dia 13. Se havia uma demanda externa, mesmo que de origem pouco qualificada como foi o caso, para que o edital 145 fosse retificado, isso deveria ter sido feito à luz do princípio da autonomia e respeitando-se as instâncias universitárias, o que, em nossa opinião, exigia que o mesmo fosse reencaminhado de modo oficial para o colegiado responsável pela sua formulação, com uma solicitação de avaliação do questionamento apresentado e de eventuais esclarecimentos e, se este julgasse necessário, de reelaboração do referido ponto do edital.

Como se sabe, a discussão sobre racismo, sobretudo nos seus pontos de intersecção com a política e a religião, é assunto que mobiliza paixões e gera enormes polêmicas. No entanto, é função da universidade formar profissionais capazes de dominar criticamente os debates científicos e acadêmicos que alimentam e analisam tais polêmicas. Aliás, é isso que diz o edital de condições gerais de concurso da UFABC (n° 96/2013), no seu item 11.3:

“A Prova Escrita tem como objetivo avaliar a competência do candidato na utilização de conceitos, técnicas e suas inter-relações, de acordo com a área/subárea de conhecimento em exame, bem como avaliar sua capacidade de argumentação e crítica, domínio conceitual e vocabulário da área/subárea”.

A ideia de estabelecer no edital do concurso pontos ao invés de perguntas fechadas pressupõe a capacidade do candidato de argumentar livremente, inclusive de forma crítica. Assim, qualquer um que conhecesse o edital de condições gerais de concurso da UFABC, saberia que, ao contrário do que foi dito, não se esperava um candidato que equiparasse nazismo, sionismo e apartheid, nem que afirmasse o caráter racista do sionismo. Parece-nos evidente que o edital esperava, na verdade, um candidato que dominasse criticamente o debate por ele evocado.

Vale notar que a associação entre sionismo e ideologia da branquidade, portanto racismo no sentido sociológico do termo, é objeto de um amplo e conceituado debate no campo das ciências sociais, com desdobramentos muito particulares na área acadêmica e profissional das relações internacionais. Prova disso são os constantes debates e embates travados no âmbito da Organização das Nações Unidas para a definição ou não do sionismo como forma de racismo.

Que a Universidade Federal do ABC forme profissionais que lidem com esse debate de forma dogmática é inaceitável. Assim como é inaceitável que esse debate seja interditado a ponto de não poder ser citado em um edital de concurso, como se ele não fosse objeto de análise crítica e objetiva das ciências sociais.

As ciências sociais, de todas as áreas da ciência moderna, são as que mais dificuldades encontram para afirmar a sua autonomia e isso é patente nos constantes debates que se travam no espaço público da UFABC. Em um momento em que assistimos a uma escalada de radicalização política e religiosa no mundo todo, a universidade deve lutar para permanecer como espaço livre, crítico e objetivo de pesquisa e discussão. E isso não pode ser feito sem a preservação do princípio fundamental e constitucional da autonomia universitária. O precedente aberto pela revisão do Edital 145/2016 é, a nosso ver, perigosíssimo. Editais podem, sim, ser revistos, mas segundo critérios muito bem estabelecidos de respeito à autonomia universitária e às especialidades das diferentes áreas. Qualquer procedimento que escape a isso, flerta perigosamente com posições anticientíficas, anti-intelectuais e anti-modernas.

Diante do exposto, a ADUFABC solicita publicamente à Reitoria os seguintes esclarecimentos: 1) Como chegou à Reitoria a demanda de alterações no edital em questão? 2) Quais razões levaram a Reitoria a ignorar as instâncias devidas, notadamente o colegiado de curso que aprovou e referido edital? 3) Qual resposta a Reitoria pretende dar ao veículo de imprensa que, de forma agressiva e leviana, denegriu a imagem da UFABC e de seu corpo docente?

Por fim, a ADUFABC é solidária à Carta Aberta dos professores Muryatan Barbosa e Paris Yeros, membros do GT responsável pelo referido concurso, e reafirma a importância do edital 145/2016, cujo objetivo central é contratar professores que tenham pleno domínio do debate acadêmico-científico sobre a questão étnico-racial em suas diferentes dimensões, mas sobretudo no que concerne ao estudo e à pesquisa do povo negro brasileiro.

São Bernardo do Campo
18 de julho de 2016
ADUFABC
Gestão Democracia, Diversidade e Direitos (2016-2018)

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A desorganização da educação em São Paulo

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Por Vanessa Gravino

Nos últimos dias fervilharam informações, reportagens, questionamentos e manifestações sobre a proposta de “reorganização das escolas” realizada pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEE-SP).

Segundo os representantes do governo tucano a ideia é que cada escola estadual concentre apenas um “ciclo” do processo educacional: Ensino Fundamental I (1º ao 5º ano), (ou) Ensino Fundamental II (6º ao 9º ano) ou Ensino Médio (1º ao 3º ano).

Esta medida, que parece positiva ao primeiro olhar, carrega muitos problemas. De cara, a ação movimentará cerca de 1 milhão de crianças e jovens que deverão pedir sua “transferência forçada” para uma nova unidade escolar, muitas vezes longe de casa.

Além de retirar essas crianças e jovens de sua comunidade, a ação do PSDB não considera o fato de que milhares de crianças se locomovem sozinhas para as escolas, já que a maioria dos pais, trabalhadores assalariados, trabalham o dia todo. Transferir as crianças para longe de suas casas é um completo desrespeito às condições já precárias de vida da maior parte da população de São Paulo.

O governo Alckmin/PSDB, que nesses mais de 20 anos de poder já deu mostras de sua intenção em sucatear cada vez mais a educação pública do Estado, também fechará escolas e removerá milhares de professoras e professores.

Profissionais da educação, comunidades escolares e professores, desvalorizados e descredibilizados, sequer foram ouvidos em relação às mudanças educacionais propostas. Este formato impositivo, que ignora a realidade e a situação de vulnerabilidade da maioria das comunidades escolares do Estado demonstra o quão descompromissado é este governo com a qualidade da Educação Pública.

O principal motivo dessa iniciativa por parte do governo Alckmin é o ajuste fiscal, que assim como no âmbito federal, diminuiu recursos para áreas fundamentais, inclusive para a Educação. O orçamento 2015 destinou 13, 89% do total para a pasta da educação, contra 14,29% em 2014.

 

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A possibilidade de municipalização do Ensino Fundamental, o fechamento de escolas, a “demissão” de muitas professoras e professores, a superlotação das salas de aula e, mais uma vez, o acirramento do sucateamento da escola pública, vêm mascarados em mais uma política criminosa do governo do PSDB.

Muitas movimentações de resistência de comunidades escolares que se colocam contra o fechamento das escolas, contra as mudanças apresentadas pela SEE, ocorreram nos últimos dias por todo estado.

A APEOESP, sindicato de professoras e professores do estado de SP, está se mobilizando junto dessas comunidades para barrar as ações apresentadas pelo governo. Dia 20 de outubro, 15h, haverá um grande ato na Praça da República, no centro. É muito importante a participação de todas e todos para o combate a desorganização educacional apresentada pelo governo do PSDB em São Paulo.

* Vanessa Gravino é professora da rede estadual e ligada à Apeoesp de Cotia

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Quanto mais reprimir, mais a PM validará a obra de Foucault e o trabalho da Escola Aggêo

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Quanto mais a PM reprimir e intimidar a Escola Aggêo, mais ela validará a teoria Foucaultiana e, obviamente, validará também o trabalho que o professor desenvolveu com seus alunos a partir dela.”

Professor Marcos Martins, Coordenador do Mestrado em Educação da UFSCar campus Sorocaba

Por Douglas Belchior

Professores, estudantes e a direção da E.E. Aggêo Pereira do Amaral, da cidade de Sorocaba-SP, continuam sendo ameaçados pela Polícia Militar por conta de um trabalho desenvolvido junto aos alunos, sobre o tema da violência policial a partir da obra de Foucult.

O Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba se uniu à Apeoesp e à OAB local no apoio e solidariedade à comunidade escolar e produziu um vídeo com depoimentos do Professor Marcos Martins, Coordenador do Mestrado em Educação da UFSCar campus Sorocaba, e do estudante da Escola Aggêo, Pedro Bueno.

O estudante Pedrinho, como é conhecido, afirmou que a campanha contra a Escola tem caráter de censura: “Foi um trabalho realizado com vários temas e não apenas sobre violência policial, mas fizeram um recorte de um cartaz e deturparam toda história.”

Já o professor da UFSCar, Marcos Martins destacou os aspectos constitucional, didático-pedagógico e teórico sobre os acontecimentos em Sorocaba:

“Sobre o aspecto constitucional, o Artigo 206, inciso 2º da constituição federal estabelece a liberdade do ensino. A PM não está respeitando, ela que deveria zelar pelo bom cumprimento da constituição; Sob o ponto de vista didático pedagógico, ver um professor trabalhando com um clássico contemporâneo (Foucault), é motivo de elogio e não de intimidação, sobretudo numa rede estadual de péssima qualidade como a do Estado de São Paulo; Do ponto de vista teórico, é de Foucault a tese de que na contemporaneidade, se construíram instituições cuja a marca característica é a repressão. Portanto, quanto mais a PM reprimir e intimidar a Escola Aggêo, mais ela validará a teoria Foucaultiana e, obviamente, validará também o trabalho que o professor desenvolveu com seus alunos a partir dela”.

Assista AQUI íntegra do Vídeo.

 

AggeoCARTAZ
Cartaz escrito pelo cartunista Latuff

 

Quando o ódio prevalece, surge a repressão

Por Smetal

O pensador Michel Foucault não podia ser mais atual. As leituras dos seus livros remetem à reflexão sobre diversos temas como instituições disciplinares, controle social, poder, resistência e linguagem.

Um dos seus livros mais estudados é o “Vigiar e Punir” (1975) que traz uma grande análise sobre as formas de punição, do poder do Estado sobre seus cidadãos e da estratégia da classe dominante de impor a ideologia da submissão.

Essa obra completa 40 anos em 2015 e um professor de filosofia do ensino médio da escola estadual Professor Aggêo Pereira do Amaral, que fica no bairro Árvore Grande, em Sorocaba, resolveu trabalhar o assunto com os alunos.

Um dos trabalhos escolares foi um cartaz com os temas estudados e um desenho de uma caveira vestida com o uniforme da polícia militar.

Uma das provas de que o tema é pertinente é o fato de a Anistia Internacional e a Organização das Nações Unidas (ONU) denunciarem práticas desumanas do sistema policial e penal no Brasil.

Neste final de semana, dia 19, aconteceu a 15ª chacina do Estado de São Paulo do ano. Foi em Carapicuíba, região da Grande São Paulo, em frente a uma pizzaria, onde quatro jovens, sendo três menores de idade, foram executados pela polícia. Nenhum deles tinha passagem criminal.

A maior das chacinas do estado em 2015, por enquanto, aconteceu em agosto nos municípios de Osasco e Barueri, onde em menos de duas horas 19 pessoas foram assassinadas. Até agora um soldado está preso e 18 outros policiais são investigados. Osasco e Barueri são vizinhos de Carapicuíba.

No caso do trabalho escolar em Sorocaba, a PM não gostou do cartaz e fez um comunicado contra o professor e contra a escola, responsabilizando-os por discriminação.
Os alunos se manifestaram na quinta-feira, dia 17, com faixas em frente à escola ressaltando que liberdade de expressão não é destilar ódio.

A OAB e a Apeoesp lançaram uma campanha “Somos todos Aggêo” em defesa dos alunos, da escola e do professor.
O ódio é diferente, é um sentimento que está sendo muito disseminado nas ruas e nas redes sociais, sem qualquer embasamento, sem qualquer reflexão.

Algumas pessoas vão às ruas protestar, como aconteceu no último feriado de 7 de setembro, e carregam cartazes pedindo absurdos antidemocráticos e contra os direitos civis, como “SOS – Interveção Militar Já”.

Nesses protestos sem pauta ou objetivos claros, ofensas e simulações de enforcamentos e outras formas violência são fartamente difundidos.

Em São Paulo, virou rotina motoristas insultarem ciclistas porque estariam atrapalhando o trânsito. Sabe-se lá porque, os ciclistas são chamados de comunistas e mandados “ir pedalar em Cuba”.

O resultado de tamanha irresponsabilidade e desrespeito, da falta de consciência coletiva e de humanismo; e do excesso de individualismo, não poderia ser outro: violência e desagregação social.

Para o SMetal, que é solidário à luta pela liberdade de expressão no Aggêo, os crescentes casos de autoritarismo e violência têm raízes nas manifestações de intolerância e militarismo, nas ruas e nas redes sociais, incentivadas pela direita e por uma parte da mídia, que é golpista.

 

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PM ameça professores e estudantes de escola pública em SP

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Por Douglas Belchior

Professores, estudantes e a direção da E.E. Aggêo Pereira do Amaral, que fica na cidade de Sorocaba, interior de São Paulo, estão sendo ameaçados pela Polícia Militar por conta de um trabalho desenvolvido junto aos alunos, sobre o tema da violência policial.

A absurda postura da PM em incidir no trabalho pedagógico de uma Escola Pública e intimidar profissionais de Educação, por entenderem que o conteúdo trabalhado está “longe de ser uma metodologia aceitável”, demonstra o quanto vivemos em uma falsa democracia. Há algum tempo publiquei aqui um texto sobre a expansão dos colégios militares por todo o país. Há uma militarização que ultrapassa a cotidiana postura violenta e letal das polícias. Há também uma crescente militarização das ideias, dos valores, da educação e da política.

A Comissão de Direitos Humanos da OAB de Sorocaba está acompanhando e mobilizando atores sociais em defesa da escola, professores e estudantes, da liberdade de cátedra, da liberdade de expressão e para enfrentamento a mais essa demonstração de autoritarismo da polícia e do governo do Estado de São Paulo, conforme relata o advogado Hugo Batalha, no texto abaixo.

 

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Por Hugo Batalha

Em Sorocaba a Comissão de Direitos Humanos da OAB juntamente com outras entidades está enfrentando uma situação típica de um regime ditatorial. Na Escola Estadual Aggeo a PM está intimidando a comunidade escolar numa tentativa de censurar os trabalhos escolares baseados na obra “Vigiar e Punir” de Michel Foucault, material que integra o currículo escolar do ensino médio e constitui leitura obrigatória para estudo da filosofia.

Ao tomar conhecimento dos trabalhos, uma tenente e dois cabos foram até a escola para intimidar o corpo docente, entretanto, diante da firmeza da direção e dos professores, várias viaturas da ROTA passaram a rondar a escola com objetivo de amedrontar e ameaçar a comunidade escolar. Sim, a ROTA, que é considerada o grupo de elite da corporação, passou a fazer patrulha escolar.

Não satisfeita, a PM divulgou uma nota oficial em sua página, expondo o nome de um dos professores da escola,e exigiu que a Diretoria de Ensino tome providências para censurar e repreender o professor e os alunos. Isso mesmo: a PM está tentando interferir no conteúdo do currículo escolar. Tudo por conta de um trabalho sobre obra “Vigiar e punir” de Michel Foucault.

 

Não queremos acreditar que, em pleno século XXI, profissionais da área de ensino posicionem-se de maneira discriminatória, propagando e incutindo o discurso de ódio em desfavor de profissionais da segurança, estimulando seus alunos a agirem sem embasamento e direcionando-os de acordo com ideologias anacrônicas, que em nada contribuem para a melhoria da sociedade. 

A PM sempre foi e será grande defensora dos direitos humanos e dos deveres morais, éticos e legais da sociedade

No trabalho foi usada uma charge do cartunista Latuff que retrata a face da polícia militar (Rota) com o rosto de uma caveira, a mesma caveira que a própria polícia adota como símbolo e se orgulha de reafirmar sempre. Toda a comunidade escolar está sendo duramente atacada. A nota da PM provocou uma reação descontrolada. Professores, direção e alunos estão sendo alvo de ataques, ameaças e ofensas.

A Comissão de Direitos da OAB Sorocaba está articulando uma rede de apoio para defender a liberdade dos estudantes, a liberdade de cátedra, a integridade da comunidade escolar e repudiar a ação ilegal da PM que ultrapassa em muito a esfera de suas atribuições e constitui crime de abuso de autoridade, constrangimento ilegal e censura, que é inadmissível num estado democrático de direito.

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A polícia ou qualquer outra instituição não pode interferir no currículo e no conteúdo pedagógico de uma escola. Essa discussão cabe exclusivamente aos órgãos de educação. Não é atribuição da polícia realizar monitoramento e patrulhamento de conteúdo acadêmico! Essa situação é a prova mais concreta de que a PM precisa se adequar ao modelo constitucional inaugurado em 1988.

A estrutura a polícia militar, que oprime o próprio policial que é destituído de todos seus direitos, aprofunda um processo de criminalização secundária e seletividade penal orientada por critérios de vulnerabilidade social e econômica. A ousadia da PM de acreditar que tem legitimidade para censurar um professor e seus alunos remonta os tempos do regime militar! Pedimos o apoio de organizações sociais com notas públicas repudiando a ação da PM e defendendo a liberdade da comunidade escolar. Lançamos também a campanha #somostodosaggeo.

 

 

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Ser mãe negra e jovem no Brasil

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Como ensinar a sua filha a ter orgulho da própria cor no país da falsa Abolição

 

por Michelli Cristini para os #JornalistasLivres

 

Ontem, dia da Abolição, deveria ser feriado Nacional. Deveria ser um dia de comemoração, um dia para ser lembrado. Mas acho que sei porquê o dia 13 de maio não está em vermelho no calendário: por mais que a escravidão tenha sido oficialmente abolida do nosso país, ela continua dentro das pessoas.

Sou negra, nunca fui obrigada a trabalhar em troca de comida ou moradia, mas sei o que é entrar em um algum lugar e ser olhada como diferente, sei o que é ouvir piadinhas (todas sem graça nenhuma) pelo fato de sua pele ser de uma pigmentação mais escura, ter apelidos por causa da minha etnia, perguntarem por que não faço uma progressiva.

A escravidão acabou oficialmente, mas o racismo não. O que me deixa extremamente abalada é ver que para muitas pessoas isso é normal. Vemos na televisão e nos cinemas que as empregadas domésticas são negras, que os bandidos são negros, que a maioria dos mortos são negros. E me pergunto: quando isso irá mudar? Quando isso deixará de fazer parte da cultura brasileira?

Frases como: “Tinha que ser preto!”, “Viu aquele neguinho?”, “Cuidado, é preto e corinthiano!”, são ditas com a maior naturalidade, sem constrangimentos. Aceita-se esse tipo de abordagem. Não apanhamos mais de senhores feudais, não temos mais navios negreiros. O que temos é a NEGAÇÃO da nossa cor no dia a dia.

Ao olhar na periferia, vemos que ali estão os pretos e pardos. Numa construção, os serventes e pedreiros são negros, assim como as faxineiras. Claro que o Brasil evoluiu um pouco, já temos muitos negros na universidade, muitas cotas oferecidas (por mais que a USP se negue a participar), temos o PROUNI, o FIES, mas também temos o Senado querendo aprovar a PEC 171 para reduzir a maioridade penal. Quem perde com a diminuição da idade penal são os “neguinhos da quebrada”. Nossos presídios estão lotados de negros.

Lembro de quando estava na 5ª série (atualmente, 6º ano) e meu apelido era “Poodle”, pois meu cabelo não era do padrão de beleza estabelecido. Recordo-me que todos os empregos que minha mãe obteve foram como empregada doméstica. E foi assim, com o suor e a batalha, limpando tantos banheiros, que ela criou meu irmão e eu.

Quanta vezes presenciei amigos serem abordados dentro de bares, padarias ou até mesmo na rua, simplesmente por serem negros e nossos amigos brancos, nunca. A desculpa era de que estavam em “atitude suspeita”. Mas estávamos juntos fazendo as mesmas coisas.

Ao olhar para minha sala de aula na faculdade vejo que sou uma das poucas negras (na verdade, minha sala, que tem 50 alunos, tem apenas dois negros) e sou a única negra bolsista. Isso não é novidade dentro de uma universidade reconhecida como a minha.

Hoje estou com 26 anos, sou casada e tenho uma linda filha, a Isabella, que mesmo com 5 anos sabe bem o que é ser uma menina negra. Sempre ouço (até de nossos próprios parentes): “Nossa, criança, que cabelo é esse?”, ou “Quando ela crescer pode fazer uma [escova] progressiva!”, ou, ainda, “Tinha que puxar justo o seu cabelo e o seu nariz?”. Sim, nosso nariz batatinha também sofre na nossa sociedade preconceituosa. Mas me enche de orgulho de ouvir ela sempre dizer:

“Amo meus cachos, são iguais aos da minha mãe!”

Claro que isso não é nada perto de tantos negros que já foram presos, espancados, mortos. Meu relato não chega perto de tantas mães que viram seus filhos saírem de casa sem nunca mais voltar. Ou daqueles que percebem as pessoas que atravessam a rua com medo, puxando suas bolsas, porque um negro está ali. E te olham com nojo.

Certa vez ouvi que o dia 20 de Novembro não era uma data que deveria ser comemorada, afinal todos nós temos Consciência Negra. Me indignei com isso, pois se TODOS NÓS realmente tivéssemos essa consciência, esse meu texto não precisaria ser escrito, não haveria tantos jovens negros assassinados.

No dia 13 de Maio de 1888 a lei Áurea foi assinada. Mas a verdadeira Abolição ainda não aconteceu. Gostaria muito de dizer que a escravidão se foi há 127 anos, mas apenas posso dizer que ela continua de uma forma mais camuflada — e igualmente cruel.

 

 

Michelli Cristini C M de Oliveira, 26 anos — é estudante de Letras na Universidade PresbiterianaMackenzie, casada com William Freitas de Oliveira e mãe de Isabella Cardoso de Oliveira. 
Faz parte da rede Jornalistas Livres.
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Solidariedade e Educação: Seja um professor voluntário na Uneafro-Brasil

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Por Douglas Belchior

 

Sim, nós acreditamos na Educação Popular!

Imagine um Cursinho Preparatório para vestibulares, Enem e concursos, GRATUITO.

Imagine um Cursinho que só funciona em locais cedidos, sem custo e onde todos os professores são voluntários.

Imagine que, como resultado desse esforço, muitos estudantes de baixa renda, filhos de trabalhadores e em sua maioria negras e negros, são provocadas a superar os injusto sistema dos vestibulares e chegar às universidades públicas ou mesmo privadas com bolsas de estudo.

Assista os vídeos abaixo e se encante!

 

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São os Cursinhos Comunitários da Uneafro-Brasil.  Nesse momento, precisamos da ajuda de professores voluntários para continuar esse bonito trabalho. Se você pensa em doar um pouco do seu tempo e conhecimento para um projeto coletivo e solidário, esta é a oportunidade!

Os Cursinhos funcionam quase sempre aos sábados e eventualmente em dias de semana. Eles estão localizados em diversas regiões de São Paulo: Zonas Leste, Oeste, Norte, Sul e Centro da Capital; ABC: São Bernardo, Rio Grande da Serra e Ribeirão Pires; Região do Alto Tietê: Poá, Itaquá, Mogi das Cruzes e Região Bragantina: Bragança, Atibaia, Piracaia, Itatiba, sempre em bairros periféricos.

Você identifica a região e apresenta sua disponibilidade de tempo e horário.

FAÇA CONTATO, descreva sua intenção, independente de sua área de atuação.

Quem pode ajudar?

Você, profissional formado em qualquer licenciatura, ou ainda bacharel, profissional liberal, jornalistas, engenheiros, administradores, contabilistas, químicos, advogados, estudantes universitários e afins.

Quero ajudar mas não sou professor, posso?

Claro que sim! Mesmo que você não tenha uma formação acadêmica ou aptidão à sala de aula, você pode nos ajudar na organização dos trabalhos, na mobilização da comunidade, na administração do cursinho, na relação com os estudantes, na busca de apoio e sustentação do projeto enfim, se for pra ajudar, sempre tem lugar pra mais um!

Certificação pela UNESP

Universitários que precisam cumprir horas de trabalhos e atividades extra-curriculares ou estágios podem fazê-los em nossos cursinhos.

Todos os colaboradores recebem, ao final de cada semestre, uma certificação proporcional à quantidade de horas-aula ou horas-colaboração, emitida pelo Laboratório de Estudos em Políticas Públicas da UNESP, em parceria com a Associação Franciscana de Defesa de Direitos e Formação Popular, ambas parceiras do trabalho educacional da Uneafro-Brasil.

Assista o documentário sobre o trabalho da Uneafro-Brasil

 

 

Conheça a história de Cinthia, jovem negra moradora do Capão Redondo que está se formando em Medicina.

 

 

 

 

 

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Afrobetizar a educação no Brasil

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Por Vanessa Cancian, do Namu.

 

No morro do Cantagalo, no Rio de Janeiro, a psicóloga Vanessa Andrade ouvia com frequência: “Ai tia que cabelo feio” ou então “tia bruxa”. Essa era a reação dos pequenos quando ela passava pelas ruas com seu cabelo afro. Segundo Andrade, isso ocorria porque essas crianças estavam desacostumadas a enxergar a beleza presente no jeito negro de ser. “Isso me doía muito, mas ao mesmo tempo me convocava para uma missão maior de tentar mudar o pensamento dessas crianças”, conta a psicóloga e coordenadora do projeto Afrobetizar.

Quando se trata de identidade, as escolas brasileiras são monocromáticas nos livros e nas histórias. Nossa educação não possibilita que alunos negros encontrem seu caminho e conheçam o lado verdadeiro da vida e da cultura africana presente de forma intensa no Brasil. Com a finalidade de mostrar que outra pedagogia é possível, Andrade iniciou um trabalho intenso de transformação social no Cantagalo.

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“O Afrobetizar surgiu da necessidade de trabalhar uma pedagogia diferente, que fizesse com que as crianças descobrissem o próprio corpo através de reconhecer a beleza de ser negro”, diz a psicóloga. Segundo ela, a ideia que coloca professores negros que cursaram ou estão na universidade, realizando projetos de sucesso na vida, tem como intuito trabalhar o protagonismo negro e inverter o processo histórico que sempre colocou o negro como ser inferior em relação ao branco.

Nosso corpo é nosso território

“Com o tempo tivemos a ideia de fazer ações contínuas com as crianças da comunidade”, conta Andrade, a qual ao lado de Gessica Justino e Aruanã Garcia, forma a equipe de professores que organizam oficinas semanais com as crianças em busca de descontruir preconceitos e fortalecer os saberes que não chegam aos pequenos por meio da escola convencional.

 

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“Eu sempre acreditei que não adianta ficar no blábláblá, é preciso provocar a criança com as sensações e com corpo”, diz a psicóloga. Vanessa Andrade pontua que esse é um projeto que trabalha com corporeidade, mas não aquela que se esgota no movimento de dança ou de capoeira e sim a capacidade de ter consciência e acesso às possibilidades corporais. Isso ajuda essas crianças a assumir espaços nos quais tradicionalmente não estão inseridas.

Ensinar além dos livros

A Lei nº 10.639 de 2003 estabeleceu que a história e cultura afro-brasileira e indígena fossem inseridas na educação do país. Ainda assim, os livros que carregam a informação sobre outros personagens fundamentais para a história e a formação da identidade brasileira chegam a passos lentos nas escolas do Brasil. Para Andrade, existe um esforço para que essa lei seja respeitada, mas falta potencializar a descoberta de metodologias para aplicá-la.

 

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“Não basta dizer para as crianças que é lindo ser negro. Contar quem foi Zumbi e Maria Carolina de Jesus. Essas crianças precisam viver uma experimentação positiva para que elas interiorizem esse sentimento de valorizar a própria cultura”, relata.  A psicóloga reconhece a importância de transformação presente na lei, porém, vê também a necessidade de trabalhos que afetem de verdade as crianças e jovens.

“A sensação que eu tenho com relação a essa lei é que há uma corrida para que ela seja aplicada através de livros, mas se não tiver um trabalho além do papel, não adianta”, diz Andrade. Para ela o “letramento corporal” que contemple o campo sensorial e entre no mundo de cada criança é fundamental.

Projeto no Museu de Favela

O projeto é realizado na sede administrativa do Museu de Favela – MUF. O local foi criado por moradores do Cantagalo e conta a história da origem da favela através de grafites nas paredes das casas das pessoas que vivem ali. No espaço cedido para o Afrobetizar, há cerca de 30 crianças que participam com frequência das atividades.

“O MUF é o primeiro museu a céu aberto criado em uma favela”, conta Andrade. Segundo ela, as pinturas foram feitas para proteger os moradores desse lugar que sofriam com a ameaça de serem retirados de suas casas. Localizado na zona sul do Rio de Janeiro, a ameaça da especulação imobiliária fez com que a população se unisse e utilizasse o museu estratégia  como estratégia de sobrevivência nessa região.

Com o passar do tempo, o MUF tornou-se uma referência em grafite e passou a integrar um dos pontos turísticos da cidade maravilhosa. A iniciativa popular é reconhecida como o primeiro museu territorial e vivo sobre memórias e patrimônio cultural de uma favela no mundo.

As fotos da reportagem foram feiras pela equipe do Coletivo Baobá, projeto de comunicação que também trabalha em parceria com o Afrobetizar.