Categorias
Cotas Raciais

Filosofia da Unicamp nega cotas raciais

08240177390a07a2a6d7f23ee0be21ca

Por Douglas Belchior

 

Há dois meses este Blog publicou uma entrevista concedida pelo professor Renato Noguera, filósofo e professor da UFRRJ, a Tomaz Amorim, em que trata do surgimento de uma tendência na filosofia brasileira chamada Afroperspectividade. Há, segundo Renato, um pensamento negro e crítico ganhando espaço nas universidades brasileiras.

Como era de se esperar, há  também uma reação branco-conservadora que tenta limitar o desenvolvimento desse tipo de pesquisa, bem como impedir ou dificultar a presença de pesquisadoras/es negras e negros no espaço super-elitizado que são os departamentos de pós graduação, mestrado e doutorado das universidades públicas.

O Departamento de Filosofia da Unicamp, infelizmente, aparece na vanguarda do atraso racista, ao se negar cumprir a resolução do IFCH – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais e Humanas, que orienta a adoção de cotas étnico-raciais em seu processo seletivo para a pós-graduação.

Mais: ainda perseguiu e impediu a presença do estudante doutorando e ativista negro Teófilo Reis no seu quadro de pesquisadores, tal qual registra a Nota de Repúdio do NCN-Núcleo de Consciência Negra e a Carta Aberta escrita por Teófilo, ambas publicadas abaixo.

É necessário e urgente a descolonização do pensamento, da filosofia, da ciência, da cultura, e para isso, urgente também a descolonização das universidades brasileiras, a começar pela Unicamp.

 

 

554452_3079022139968_1396222726_32151187_405996370_n

Nota de repúdio ao Departamento de Filosofia da UNICAMP

O NCN – Núcleo de Consciência Negra da UNICAMP manifesta publicamente seu repúdio à atitude do Departamento de Filosofia da UNICAMP de desrespeitar resolução da Congregação do IFCH – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e se negar a adotar cotas étnico-raciais em seu processo seletivo para a pós-graduação. Em 11 de março de 2015 a Congregação do IFCH aprovou a adoção de cotas em todos os programas de pós-graduação do Instituto. A partir de tal aprovação cada um dos programas deveria se organizar para adotar cotas nos editais de mestrado e doutorado que selecionariam alunos para ingresso em 2016. Contrariando o que fora estabelecido, o Departamento de Filosofia decidiu não adotar cotas. Como se o fato em si já não fosse suficientemente descabido, a justificativa apresentada apenas demonstrou o entendimento superficial e distorcido que o Departamento tem acerca da questão racial no Brasil. Ao argumentar que pouco mais de 25% do corpo discente da pós-graduação em Filosofia é composta por pessoas negras ou indígenas e que portanto as cotas são desnecessárias, o Departamento de Filosofia dá uma aula de como conduzir um questão séria de forma medíocre. No Estado de São Paulo, 35% da população se declara negra. Em nível nacional, o percentual ultrapassa 52%. Mesmo diante de tais informações básicas, o Departamento se vê no direito de nivelar por baixo a participação de negras e negros na pós-graduação em Filosofia. A mensagem que o Departamento efetivamente transmite é a seguinte: 25% do espaço para negras e negros já está bom demais! Ora, isso é completamente inaceitável, ainda mais em se tratando de uma Universidade pública, sustentada pelos impostos que, devido ao caráter regressivo de nosso sistema tributário, atingem principalmente a população mais pobre – em sua maioria, negras e negros.

O Departamento perdeu uma chance de demonstrar com medidas práticas seu interesse em promover justiça social. Em vez de ter a chance de se tornar um modelo para outros programas de pós-graduação, o Departamento optou por se juntar ao que há de mais conservador e atrasado na sociedade. Nós, do NCN, lamentamos profundamente a decisão do Departamento, e expressamos nosso repúdio à decisão deste grupo de estudiosos e estudiosas que, do alto de seu conhecimento, parece não ser capaz de enxergar a realidade brasileira, e toma medidas que nada mais fazem senão contribuir para a perpetuação do racismo. Exigimos a imediata revogação do edital de seleção publicado há duas semanas, e a publicação de um novo edital contemplando as cotas. Esperamos que o Departamento de Filosofia entenda que há apenas duas possibilidades: ou a Universidade assume verdadeiramente seu caráter público ou ela seguirá sendo um espaço racista e opressor que não dialoga com a sociedade.

Carta aberta ao Departamento de Filosofia da UNICAMP

Campinas, 21 de setembro de 2015

Caras Professoras, Caros Professores,

Como doutorando em Filosofia na UNICAMP prestes a ser desligado do curso, apresento esta carta aberta na tentativa de chamar o Departamento para um diálogo entre pesquisadores, de igual para igual, dado nosso interesse comum em produzir Filosofia.

Ingressei no doutorado em 2011, na linha de pesquisa de Lógica, e tranquei o curso em 2013, por perceber que meu interesse acadêmico havia mudado para a linha de Pensamento Ético-Político. Desde que retornei à atividade no doutorado, em 2014, tento conciliar meus interesses acadêmicos com as pesquisas em curso no Departamento. Infelizmente percebi que as pesquisas não contemplavam o único requisito básico que eu, enquanto filósofo negro, propunha para meu trabalho: pesquisar um tema que contribuísse para a luta anti-racista. Em meados do segundo semestre de 2014, ao mesmo tempo em que buscava uma proposta de trabalho conciliatória, me pus a pesquisar autonomamente sobre éticas e identidades, tendo como referência principal um filósofo africano, o ganês Kwame Appiah, atualmente professor de Filosofia na prestigiada New York University.

Além de estudante, sou também funcionário da UNICAMP, e faço parte da direção do Sindicato dos Trabalhadores da UNICAMP. Denunciei um caso de conflito trabalhista com características de assédio moral que me atinge há mais de um ano, e que lamentavelmente conta com participação ativa de pelo menos três docentes do Departamento de Filosofia. Tal conflito foi denunciado ao Ministério Público do Trabalho e está sendo judicializado na Justiça do Trabalho. Dois docentes do Departamento de Filosofia envolvidos no conflito supramencionado participaram de uma tentativa de me expulsar do doutorado no início de 2015, tentativa esta que só foi interrompida após ser retirada da pauta da Congregação por unanimidade, tendo ficado explícito seu aspecto não acadêmico. Foi devido a esta retirada de pauta que o Departamento tomou a iniciativa de me propor a apresentação de um texto que seria avaliado e a partir do qual se definiria se algum docente do Departamento iria atuar na orientação de meu trabalho. Entreguei o texto no prazo, e o parecer aprovado pelo Departamento diz que o tema que eu abordo é um relevante problema de ética aplicada. O parecer afirma ainda que apresento resultados novos, com densidade filosófica. E após apontar alguns pontos que devem ser aprofundados no trabalho, o parecer menciona que meu trabalho não tem a maturidade que se deveria esperar de um trabalho de quatro anos, que o Departamento não possui em seu quadro docente pessoas adequadamente especializadas para orientar meu trabalho e consequentemente devo ser expulso do doutorado.
Das três críticas apresentadas, entendo que apenas a primeira, referente à necessidade de explorar melhor alguns pontos, está bem fundamentada. Certamente aceito esta crítica, que será útil na continuidade do trabalho. As duas outras críticas são graves equívocos, como exponho a seguir.

O primeiro equívoco é óbvio, e trata-se de esperar que um trabalho que efetivamente tinha cerca de um ano (pois foi iniciado no segundo semestre de 2014) a maturidade de um trabalho de quatro anos (ou seja, uma tese de doutorado já pronta para ser defendida). Sabemos que um trabalho acadêmico não nasce pronto: este precisa ser construído, e o tempo é elemento fundamental. Muitos trabalhos de doutorado com um ano, ou seja, na mesma fase em que se encontra a minha pesquisa, sequer apresentam uma problemática bem definida. O meu trabalho, como reconhecido pelo Departamento, não só apresenta temática relevante como já traz também resultados com densidade filosófica. A argumentação do Departamento desconsidera, ainda, que o tempo que tenho para poder finalizar o doutorado é suficiente para concluir o trabalho de forma satisfatória.

O segundo equívoco está presente na alegação de falta de corpo docente qualificado. É lamentável que o Departamento não tenha atentado que tal justificativa apenas o desabona: uma Universidade, ao se deparar com um campo de conhecimento reconhecidamente relevante, tem o dever de promover as condições necessárias para fomentar a pesquisa, e não simplesmente utilizar de sua inaptidão para se manter no desconhecimento. O estudo do tema e do autor que proponho cresce em várias partes do mundo, e infelizmente o mesmo não se pode dizer da UNICAMP. Minha pesquisa representa uma oportunidade para que nossa Universidade se insira em uma temática de pesquisa que se faz presente em grandes universidades. O argumento da falta de qualificação apenas seria digno de consideração se fosse usado no sentido de possibilitar um alargamento dos horizontes do Departamento. Além disto, a postura adotada gera um círculo vicioso (ausência de qualificação impede o estudo, que por sua vez impede a qualificação de novos quadros), que não é compatível com a postura de um dos melhores departamentos de Filosofia do Brasil.

O próprio Departamento atesta que eu, sozinho, pesquisando de maneira independente, fui capaz de produzir resultados relevantes em área na qual o Departamento é deficiente. Assim, convido os docentes a uma revisão conjunta de atitude, e a dar um passo na direção da efetiva construção do conhecimento: eu, enquanto pesquisador, tenho contato com docentes de outras universidades do Brasil que trabalham com filosofia africana, e que podem contribuir com minha pesquisa, e estão dispostos a atuar como co-orientadores. Estou certo de que podemos construir uma cooperação exitosa, e ficarei extremamente satisfeito em poder fazer a ponte entre os dois grupos. Para isto, preciso que o Departamento reveja sua decisão, e que me permita continuar estudando. Afinal, é apenas isto o que venho requerendo há algum tempo: o simples direito de continuar estudando na universidade pública onde fiz graduação, mestrado e na qual fui selecionado para o programa de doutorado.

É oportuno lembrar que o Departamento não tem a prerrogativa de ignorar a legislação brasileira. Neste sentido, é inconcebível que a Lei 10.639/2003 continue a ser desrespeitada, o que torna meu desligamento do doutorado ainda mais grave: a tentativa de retirar o Departamento de uma situação conflituosa perante a lei resultou não em cooperação, mas em expulsão. Tal medida em uma sociedade marcada pelo racismo, tanto pessoal quanto institucional, se torna ainda mais preocupante.

Por fim, ressalto que estamos em um momento em que a academia brasileira se preocupa em aumentar o contato entre áreas e instituições, como testemunham o incentivo da CAPES à articulação entre programas de pós-graduação e a estratégia 14.10 do Plano Nacional de Educação. Deste modo, penso que minha continuidade no doutorado trará vários benefícios para o Departamento, uma vez que aumentará sua visibilidade e fará crescer os contatos acadêmicos com outros programas de pós-graduação do país e até mesmo do exterior. Convido, então, o Departamento de Filosofia a dar um passo em direção ao alargamento de seu horizonte de pesquisas. Solicito que sejam tomadas as providências burocráticas necessárias para garantir que poderei continuar fazendo minha pesquisa. Estou certo de que todos teremos ganhos com tal atitude: eu, por continuar pesquisando; o Departamento, pelos motivos arrolados acima; e a Filosofia, que é o fator que nos une e que deve ser o objeto central de nossas preocupações e decisões.

Saudações filosóficas,

Teófilo Reis

 

 

10 respostas em “Filosofia da Unicamp nega cotas raciais”

Sou a favor das cotas em universidades, de modo geral. Sou a favor da luta pela diminuição da desigualdade social e sou contra a dominação social por parte de grupos específicos de cidadãos.
Acredito na problemática levantada e na importância de a discutirmos, apresentar o tema em uma mídia como a Carta Capital é um passo importante na difusão de pensamentos sobre um tema tão importante: negros na universidade.

No entanto, aos meus olhos, o texto peca ao abordar o assunto de maneira maniqueísta: “UNICAMP racista”. Tal declaração desconsidera inúmeros esforços já realizados e por realizar pela comunidade acadêmica, o que é, de certa maneira, injusto.

Devemos entender também que o assunto provavelmente não se trata apenas – exclusivamente – de uma reação racista por parte de agentes em específico: acredito que, provavelmente, existem aí componentes associadas ao papel sindicalista desempenhado pelo discente, por exemplo.
Ao elaborar uma reportagem com declarações como esta, de grande magnitude, devemos ao menos tratar o assunto com o devido merecimento: entendendo sua complexidade e particularidades.

Sou professor universitário e membro de 3 programas de Pós-Graduação e, baseado nos fatos levantados pelo discente e por não ouvir o outro lado da história, me aventuro a fazer uma análise do caso: 1) Apesar de ser uma boa oportunidade de haver uma nova linha de pesquisa (afroperspectiva) dentro do programa, essa demanda tem de ser amadurecida e levada ao Colegiado do curso para que seja incluída nas linhas de pesquisa, e não simplesmente o aluno ficar 2 anos trabalhando numa linha, abandona o curso e volta querendo fazer o que quer (não estou entrando no mérito da linha de pesquisa, que particularmente acho uma ótima ideia, mas na arrogância de achar que um programa de Pós-Graduação é obrigado de uma hora para outra abraçar a qualquer ideia de qualquer discente ou docente, por melhor que seja). Vale lembrar que um Programa de Pós-Graduação nasce com uma formatação fixa, um regimento que deve seguir e que só pode ser mudado a partir de uma nova reestruturação que precisa ser aprovada em instâncias superiores e não ao bel-prazer de discentes ou docentes de uma hora para outra; 2) Um programa de Pós-Graduação é formado por professores voluntários, ou seja, ninguém ganha adicional no salário para estar ali. Por tanto, normalmente, os docentes trabalham nas linhas de pesquisa que se sentem confortáveis devido à sua formação e que se adeque a formatação do Programa. Ninguém é obrigado a trabalhar nas linhas que os alunos ditam, por mais instigantes, atuais e desafiadores que sejam (apesar de que eu pessoalmente toparia o desafio). Se no programa não tinha o que você quer, por quer não se escreve noutro programa de outra instituição que tenha o que você quer? Por mais louvável que seja a demanda pela linha de pesquisa, e a endosso, querer constranger a um programa a nível nacional para força-los a aceitar a sua prorrogação, quando vê-se claramente que você extrapolou o prazo regimental e não quer desenvolver trabalho dentro do escopo do programa, com ilações acerca de racismo para despistar as suas demais falhas como discente de Pós-Graduação me parece má fé e “forçação de barra”.

Parabéns a Unicamp pela coragem de enfrentar essa medida demagoga e contraproducente, que desde implementada não só não melhorou nossa educação como demonizou a meritocracia no ensino.

O Brasil está na contramão de países que fizeram uma revolução pela educação, como é o caso da Coreia do Sul, que gasta 5% do PIB, menos que o Brasil, e fazendo o uso de muuuita meritocracia e nenhum tipo de cota está conseguindo se por na vanguarda.

Já o Brasil prefere políticas racistóides e racialistas, que já deveriam ter sido abandonadas uma vez que somos todos da raça humana. Porém, promover tais medidas, além de dar voto ainda concede a alguns a oportunidade de caluniarem seus opositores como racistas.

Concordo com o comentário acima. Generalizar a questão não ajuda em nada, só a aumentar o preconceito de ambos os lados. Há claramente esforços da universidade no sentido da discussão sobre o preconceito racial no Brasil. Além do fato de que quem frequenta a UNICAMP, principalmente o instituto em questão, percebe que a presença de negros e negras é maior que em outros lugares similares. Sobre o caso do aluno em questão, acho que é preciso averiguar o outro lado da história, pois nem tudo o que está escrito é verdadeiro. Essa é a interpretação dele dos fatos. Mas a versão que corre na UNICAMP desse caso é outra.

Ah se algum pós-graduando apresentasse uma linha de pesquisa fundamentada em pensadores liberais ou conservadores escassamente divulgados no Brasil. Como esses militantes reagiriam?

Acredito que a cor não é o que determina a capacidade intelectual de cada um. Históricamente, no Brasil, de fato os brancos eram os mais privilegiados, e os negros escravos. Fruto disso, hoje a maioria da população brasileira, como descrito acima, se consideram negras ou pardas. Assim, uma grande dificuldade passou a ser enfrentada ao longo de todos os anos. A grande lacuna que separa desde os tempos os níveis de educação nesse país. Educar uma população demanda tempo e esforço, principalmente do governo levando em conta o grau de desenvolvimento do país. A questão é que a cota racial em nada ajuda uma vez que negros não são os únicos privados de boa educação simplesmente por serem maioria. Digo ainda, que o que torna uma pessoa capaz é uma boa escola o que infelizmente é mais do que raro no Brasil. Concluo dizendo que não há como cobrir uma injustiça com outra levando em conta quantidades de males feitos. O que estão dizendo é simplesmente: de que vale um branco desprivilegiado contra 10 negros? Cotas são necessárias no que tange a qualidade de ensino oferecida ao aluno na sua vida escolar. Uma vez superada, a longo prazo, essa falha, cotas já não se farão necessárias. FALTA INVESTIMENTO, até mesmo em ensinos superiores …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

code