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Crônicas Mexistas

Eu queria beber com Simone de Beauvoir

Por Douglas Rodrigues Barros

 

Também o céu às vezes é tomado de assalto. É bom lembrar para não desanimar. A frieza das pessoas nas ruas sujas e o calor fumegante das calçadas geralmente nos faz esquecer a vergonha de se tiranizar… e tiranizar. Todo mundo é gentil e educado até pegar o metrô das dezoito horas na Sé.

Antes disso, porém, estava numa biblioteca famosa longe de casa. Com direito a cafezinhos e ar condicionado, com gente educada até as tampas, terminava a leitura de A cerimônia do Adeus. Com desajeito saiu para fumar observando no visor do celular o horário de pico se aproximando como barco a vapor.

Sob o impacto da leitura refletia que por detrás de uma suposta moralidade à esquerda há sempre um sentimento católico recalcado principalmente no Brasil. Suspirou com o primeiro trago a sarça ardente das fumaças próximas ao Anhangabaú. Olhou para as novas meninas que passavam com cabelos esvoaçantes e lembrou-se de Beauvoir.

Que diria Beauvoir de sua acusação de binarismo? Que diria de suas leitoras tropicais? Ela que agora era acusada de rica e de não entender nada sobre as mulheres pretas e periféricas.

Justo ela que lutou na resistência contra os nazifascistas e escondeu revolucionários no seu sótão. Justo ela que não titubeou no enfrentamento contra De Gaulle e exortou Sartre a se posicionar radicalmente. Justo ele que apoiou a luta de independência dos Argelinos, viajou para conhecer a Revolução Cubana, escreveu sobre a Revolução Chinesa e tomou a benção da mãe de Santo com Jorge Amado na deliciosa Bahia. Justo ela que a despeito de todas essas coisas ainda encontrou tempo para escrever O segundo sexo. Justo ela…

Deu um segundo trago e pensou: traça-se à vida hoje limites muito estreitos ao se exigir que dela só se possa obter o trivial. Simone pensou muito além do trivial e muito além de supostas características herdadas por um modo de sociabilidade que inferioriza grupos para manter a ordem social. Sua leveza e “leviandade” imaginativa foram necessárias para mitigar sua índole desmesuradamente apaixonada pelo Outro. O Outro negativo que me forma e me traduz a impossibilidade de saber quem sou, porque nunca sou, estou sempre sendo.

Nessa conclusão tudo entregou ao assombro. Riu consigo mesmo, desejou beber com Simone de Beauvoir e repetiu: ainda não se nasce mulher, torna-se… ainda o ser humano é ser social. Ainda bem!

*Imagem: Óleo em tela de Cleiton Custódio Ferreira (Mexista)

 


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