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FIM: O Festival de Cinema Feminista Urgente e Necessário

Por Viviane A. Pistache

De antemão é precisar dizer que este texto se propõe a duas tarefas: Um olhar geral sobre o FIM e análise de alguns filmes exibidos no festival. Na semana de 04 a 11 de julho aconteceu em São Paulo a primeira edição do FIM (Festival Internacional de Mulheres no Cinema).

O festival nasceu com uma missão fundamental: exigir o fim da abissal desigualdade de gênero e raça no corpo de realizadores do audiovisual no Brasil. Esta edição homenageou a atriz Zezé Motta cuja carreira no cinema é emblemática para se pensar o modo como tem sido a construção de personagens negras no cinema e seu impacto na sedimentação de imaginários sobre ser mulher negra neste país. Mas para superar velhos e novos estereótipos e para que novas narrativas possam ser construídas, um conjunto de desigualdades devem ser escancarados. A Agência Nacional de Cinema, ANCINE, em seus 16 anos de existência tem se deparado com a necessidade cada vez mais premente de enfrentar o debate sobre diversidade na produção do audiovisual brasileiro.

O primeiro debate sobre a questão aconteceu a partir da Lei 12.485 de 2011 foi a respeito da diversidade regional tendo em vista o caráter continental do país. A partir da lei está prevista a destinação de 40% dos recursos do Fundo Setorial do Audiovisual para a realização de produções fora do eixo Rio-São Paulo. Em 2015 a agência começa a pensar a gritante disparidade de gênero no setor e somente em 2017 entra em pauta as desigualdades raciais, com a criação da Comissão de Gênero, Raça e Diversidade da ANCINE. Apesar destas iniciativas fundamentais, é desolador o cenário da realização no audiovisual brasileiro quando se considera as categorias de gênero e raça: Em 2017 apenas 21% dos filmes produzidos nacionalmente foram realizados por mulheres; mas o número de mulheres negras ainda não chega a 1%. Como diz a pesquisadora e curadora Janaína de Oliveira, nós mulheres negras continuamos reféns do 0% que nos invisibiliza e nos silencia.

Para sairmos das trincheiras e irmos para a linha de frente, foi realizado dentro do FIM o 2º Seminário Internacional Mulheres no Audiovisual. Foi um dia inteiro de debates com a presença de mulheres que conquistaram posições estratégicas, a exemplo de Debora Ivanov (Diretora da Ancine), Mariana Ribas (Secretária Executiva do MinC), Carolina Costa (Presidente da Comissão de Gênero, Raça e Diversidade da Ancine), Marina Pompeu (Analista de Projetos e Conteúdo do Canal Brasil), Daniela Mignani (Diretora GNT, Viva e Mais Globosat), Nadine Gasner (Representante da ONU Mulheres do Brasil). No conjunto de representantes brasileiras a única negra foi Maria Ângela de Jesus que é diretora de conteúdo original internacional da Netflix. O que certamente nos deixou esperançosas. Dentre as convidadas internacionais duas outras importantes mulheres negras: Fanshen Cox DiGiovanni, que é atriz, dramaturga e produtora norteamericana, membra do Conselho da Anneberg Inclusion Initiative e Mercedes Cooper, ninguém menos que a diretora de marketing da Array, empresa fundada pela cineasta Ava DuVernay para a distribuição e divulgação de filmes produzidos por mulheres e pessoas negras.

Mas ainda somos poucas nos espaços de decisão. O seminário que trouxe iniciativas para a superação do hiato de gênero e raça a partir de alianças entre poder público, empresas e sociedade civil, firmou também o importante Pacto Pelo Fim do Assédio no Audiovisual, debate urgente tendo em vista o quão violentadas as mulheres têm sido historicamente neste mundo marcadamente masculino que é o audiovisual. O Festival foi fruto das parcerias e compromissos firmados entre Casa Redonda, Associação Cultural Kinoforum, Sesc São Paulo, Mulheres do Audiovisual Brasil (um exército de mais 18 mil guerreiras) e Avon, que patrocinou o evento por meio do FAMA – Fundo Avon de Mulheres no Audiovisual, iniciativa para igualdade de gênero no setor audiovisual brasileiro.

Esta semana de festival foi de pura potência, palcos de microfones e escutas abertas, de trocas, de formação. Foi um rico espaço de aprendizado nos espaços onde muitas profissionais compartilharam suas trajetórias em algumas áreas de atuação, a exemplo da produção executiva, distribuição, direção, intervenção da mulher no documentário, a diversidade de olhares na crítica, cinema negro, história e protagonismo de mulheres negras, bem como uma verdadeira clínica sobre o funcionamento das vísceras burocráticas da Ancine. Um momento de caloroso afeto e fortalecimento foi a edição especial do Cine da Vela, que contou com Adélia Sampaio, que inaugurou a presença da mulher negra na direção de longa-metragem de ficção em 1984. Adélia, uma belorizontina filha de empregada doméstica, que chegou a ser vítima de sequestro e trabalho escravo na infância, conheceu todos os meandros da realização até fazer uma aposta de alto risco, ao dirigir um filme que pôs em tela um tema até hoje apedrejado, como se verá melhor a seguir. A mesa contou ainda com a atriz, rapper, slammer, cineasta e apresentadora Roberta Estrela D’Alva que compartilhou os desafios vividos ao longo de sua carreira. Juliana Vicente, diretora e fundadora da produtora Preta Portê também compartilhou os desafios vividos nos contextos de criação e realização cinematográfica.

Os 28 filmes exibidos, de 29 diretoras foram agrupados em 4 mostras dentro do festival: Lute como uma Mulher, O Fogo que não de Acaba, Competitivas Nacional e Internacional e Homenagem. O filme brasileiro que venceu a competitiva nacional foi o “Slam: Voz de Levante”, de Tatiana Lohmann e Roberta Estrela D’Alva, dando visibilidade à luta de duas diretoras negras.

Na competitiva internacional venceu o longa mexicano “Tesoros”, de María Novaro. O coletivo Elvira de crítica de cinema sob o viés feminista premiou filme “Lampião da Esquina”, de Lívia Perez, que integrou a mostra “Lute Como uma Mulher”. O FIM também semeou esperanças ao anunciar cinco projetos contemplados na 1ª edição do FAMA – Fundo Avon de Mulheres no Audiovisual, tornando realidade obras de duas diretoras brancas: Cristiane Oliveira (A primeira Morte de Joana), Larissa Ribeiro Bezerra (Daqui de Dentro); e três diretoras negras: Sabrina Fidalgo (Cidade do Funk), Safira Moreira dos Santos (Cais) e Tatiana Lohman (Minha Fortaleza, os filhos de fulano) e co-diretora do vencedor “Slam: Voz de Levante”.

O FIM foi uma intensa semana que envolveu seminários, masterclasses, cursos, paralelas, quatro mostras, uma necessária homenagem a Zéze Motta, além da exibição de 28 filmes com debates pós-sessão com diretoras, equipe e elenco. Acompanhando essa maratona, pude a exibição de quase metade dos filmes. Aproveitando o ensejo, gostaria de esboçar pequenas notas sobre alguns deles: Amor Maldito: Filme da pioneira Adélia Sampaio lançado em 1984, traz o olhar de uma mulher negra sobre um tema pouco abordado no cinema: relações afetivas e sexuais entre duas mulheres. Num Brasil acostumado às pornochanchadas, Adélia desafiou pontos de vistas machistas, que fetichizam o corpo feminino, implodindo a costumeira prática de objetificação destes corpos.

Adélia revelou-se uma exímia conhecedora de importantes movimentos do cinema nacional, a exemplo do Cinema Novo, Cinema Marginal, Chanchadas e Porno-chanchadas. Assumiu com segurança o leme de uma trama, ao colocar em tela as hipocrisias religiosas e da justiça na leitura e julgamento das relações lésbicas. O destino trágico de uma das personagens é uma denúncia das múltiplas mortes e silenciamentos a que estão submetidas historicamente as mulheres lésbicas e bissexuais. Vale lembrar que a temática é ainda muito rara no cinema e envolve polêmicas e controvérsias, a exemplo do conhecido Azul é a Cor Mais Quente, lançado em 2013 pelo diretor Abdellatif Kechiche, homem negro de ascendência franco-tunisina. Apesar de ter agradado a crítica quando dirigiu o doloroso Vênus Negra em 2010, o diretor colecionou acusações de abusos e outras polêmicas ao adaptar para o cinema o romance A Vida de Adele, no filme que também lhe rendeu consagração em Cannes. Apesar dos 29 anos que separam as duas obras e das fulcrais diferenças dos olhares femininos e masculinos, Adélia Sampaio e Abdellatif Kechiche compartilham a ousadia de abordar relações afetivo-sexuais entre duas mulheres brancas a partir de pontos de vista negros.

Slam: Voz de Levante. Conforme dito anteriormente, o filme vencedor do FIM é uma obra dirigida por duas mulheres negras. O filme traça a história do Slam no Brasil a partir do envolvimento da protagonista Roberta Estrela D’Alva com o movimento poetry slam em suas articulações diaspóricas. Roberta apresenta a cena slammer em Nova York, Chicago, Paris, Rio de Janeiro e São Paulo como potente Ágora de liberdade de pensamento e expressão. Slam revela a importância da ocupação do espaço político para a escuta de vozes em distintos idiomas que exigem equidade de gênero, raça e orientação sexual, bem como a reversão da onda mundial de retrocessos e perda de direitos. O documentário destaca também a trajetória de Dona Mauri, mulher negra que se revela poeta aos 65 anos, após anos de militância, sendo figura central do Coletivo Frente 3 de Fevereiro. O longa traz ainda a esperança e luta de Luz Ribeiro, poetisa negra que venceu o campeonato nacional e representou o Brasil em Paris na Copa do Mundo de Poetry Slam, tarefa que também coube à Roberta em copas anteriores.

Praça Paris: Premiado no Festival do Rio de 2017 nas categorias de direção para Lúcia Murat e atriz coadjuvante para Grace Passô, é certamente um dos filmes mais instigantes do último ano. A trama é bem representativa dos desafios das relações raciais no país, colocando dedos nas feridas, expondo cicatrizes históricas. A história se passa em torno da relação entre Glória, mulher negra e moradora de favela e (magistralmente vivida por Grace Passô) e Camila (Joana Verona) sua terapeuta, pesquisadora acadêmica e portuguesa. Apesar de compartilharem a confidencialidade que emerge numa relação terapêutica entre ambas há infinitos abismos. Já na cena de abertura o filme faz uso da paisagem como metáfora para privilégios. Camila tem todo azul do mar e horizontes para si. No entanto, sua alma entorpecida e atormentada se joga num racismo suicida.

Para Grace está reservada a claustrofobia do sobe e desce no elevador, da revista vexatória, do barraco humilde e asseado. A Cidade Maravilhosa é apresentada em seus desencantos, sem chance para cartões postais. Neste sentido, o filme é uma crítica peça anti-publicidade: um samba pálido é engolido pelas britadeiras de uma cidade sempre em reforma, num eterno devir, pelos helicópteros que farejam em ronda, pelo esculacho das UPPs, pelos tiros de bala, por um funk que embala a vida marginal. O som ao redor figura como imprescindível para entender a atmosfera do terror que é a alma do filme. É uma bela ilustração da chamada “Onda Negra, Medo Branco”1. Assim, o filme traz imagens especulares da Grace: diante de sua terapeuta Camila, escancara a face dos privilégios da branquitude. Diante de seu irmão e seu pai, as violências de gênero. Sua personagem é também refém da esterelidade ou violência das instituições: a polícia que mata, a UERJ, que apesar de pioneira nas cotas, não garante acesso para maior parte da juventude negra e carioca; além da Febem e do sistema prisional que deforma em massa masculinidades negras. Se Glória é ou assume ares de psicopata num roteiro ambíguo, é também dissimulada e esperta o suficiente para subverter o texto e não cristalizar estereótipos. E as modulações de temperatura da atuação de Grace Passô garantem que o filme seja dela, passando rasteira nas intenções primeiras da narrativa. Assim Glória é uma sobrevivente, ainda que tenha que matar, ou garantir que a classe média branca tenha pesadelos. E a branquitude se denuncia com sua empatia míope, a fragilidade de suas boas intenções, seu utilitarismo acadêmico e seus vícios colonizatórios (não por acaso Camila é portuguesa). Nisto reside à desesperança do filme: um Rio de Janeiro sitiado; onde a população negra não tem vez e a branquitude é tão simpática quanto o beijo de Judas e tão omissa quanto Poncio Pilatos.

Mataram nossos Filhos: Filme de Susanna Lira lançado em 2016 traz um retrato muito tocante sobre as Mães de Maio, mulheres vítimas do genocídio da juventude negra perpetrado pelo Estado brasileiro. É certamente admirável a sensibilidade do olhar da diretora no sentido de politizar a maternidade e a dor destas mulheres que transformam luto em luta, exigindo do Estado e da sociedade que a morte de seus filhos tenha justiça e que a desmilitarização da Polícia seja a via do fim do massacre que ceifa milhares de vidas negras todos os anos. O filme é potente para mostrar como a tragédia mobiliza a consciência política e torna essas mulheres lideranças e ativistas o documentário mostra como ativistas do quilate de Débora Silva e Vera Lúcia Gonzaga dos Santos (valoroza guerreira que sucumbiu ao insuportável da dor em maio de 2018, na ocasião da falsa abolição e dos dias das mães) ambas das Mães de Maio e Ana Paula de Manguinhos Estas e tantas outras mulheres e homens se agigantam diante do poder público no entendimento do que é injustiça e o eco de suas vozes se faz ouvir internacionalmente. Esses são certamente méritos da obra, que no entanto peca pela ausência do debate da articulação da luta destas Mães com entidades do movimento negro nacional ou eixo Rio-São Paulo, priorizado no documentário. Vale lembrar que o movimento negro em suas múltiplas entidades e orientações pelo país afora, tem sido a mais importante voz de denúncia do genocídio do povo preto, em íntima articulação com a luta das Mães que perderam seus filhos. Mas esta relação vital não está colocada na obra de Susanna Lira, apesar da movimentação em torno dos quarentas anos de refundação e luta do Movimento Negro Unificado.

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