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Jornal O GLOBO ataca sindicalismo brasileiro, que precisa se reinventar

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Por Douglas Belchior

 

Em tempos de acirramento e disputas político-ideológicas como há muito não se via, os grandes meios de comunicação buscam, como é de praxe, construir narrativas no sentido de cada vez mais deslegitimar e desqualificar os instrumentos de luta da classe trabalhadora brasileira.

O Jornal O GLOBO, do Rio de Janeiro, emplacou na última semana uma série de matérias em que aborda a realidade dos sindicatos no país e explicita problemas de representatividade, corrupção e prática de direções sindicais que se eternizam no poder. Evidente que, sob encomenda, tal produção serve de munição para os ataques da direita histórica, bem como já o fez Rodrigo Constantino em sua coluna na Veja.

 

Vila Euclides
Helicóptero da PM sobrevoando Assembleia do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, no estadio de Vila Euclides.

É verdade que há problemas. E sérios. A proliferação de sindicatos e centrais ao bel prazer dos interesses de grupos políticos oportunistas fez da prática sindical balcão de negócios. No entanto, não podemos permitir que práticas equivocadas de setores do sindicalismo sejam apontadas como regra e que generalizações desconstruam ainda mais no imaginário coletivo o papel fundamental dos sindicatos na luta do povo trabalhador. Os sindicatos são importantes e necessários. E precisam ser fortalecidos.

Lembro aqui a concepção sindical de Gramsci, onde se defende que os sindicatos devem atuar como educadores coletivos da classe para sua emancipação e para a disputa da hegemonia na luta contra o capital e suas ideologias. Para que isso aconteça, obviamente é necessário que as direções sindicais se renovem, se atualizem e estejam antenadas com as lutas e os problemas que afetam toda a sociedade e não apenas o microcosmo de sua categoria profissional.

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Histórico jornal anarco-sindical, de 1922

As lutas por salário e emprego são fundamentais, mas a ação sindical precisa se ampliar, afinal, reduzir seu papel a reivindicações corporativas acaba por limitar a ação apenas ao enfrentamento dos efeitos e não das causas da exploração.

Para isso o investimento em formação é fundamental, pois aí está o potencial de alimentar a ação política dos dirigentes, militantes e trabalhadores sindicalizados.

Um bom exemplo é a experiência do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região (SMetal), filiado à CUT, que tem apostado em renovação, formação e fortalecimento de sua representatividade, através dos Comitês Sindicais de Empresa (CSE).

Segundo Editorial do Jornal Smetal, a atual gestão renovou em mais de 60% a composição de sua direção executiva e a direção geral se ampliou 115 para 136 dirigentes, sendo que destes, quase 30% são de jovens, maioria em primeiro mandato.

 

Juventude SMetal
Encontro de formação e debate da Juventude Metalúrgica do SMetal – Sorocaba e região

 

O rejuvenescimento da categoria metalúrgica na região promoveu reflexos imediatos na configuração da direção sindical, que por sua vez se permitiu renovar. Ainda é cedo para avaliar os resultados dessa experiência, mas o fato é que as iniciativas promovidas por esse grupo tem atraído setores até então distantes do sindicato, ou seja, na prática é o sindicato investindo no diálogo e na construção política junto à nova configuração da categoria, hoje muito mais antenada com questões gerais, para além da política, também sociais e culturais.

Outro exemplo de ação sindical a partir da concepção de luta geral e de seu papel educador e mobilizador dos trabalhadores é a iniciativa conjunta do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e do Sindicato dos Bancários de São Paulo, que juntos mantém a Rede TVT – TV dos Trabalhadores e a Rede Brasil Atual.

 

Sanches

A Rede TVT, a única emissora de televisão brasileira sob coordenação dos trabalhadores, ampliou seu alcance a partir do lançamento da TVT Digital. Antes restrito a 400 mil pessoas, ela já pode ser vista por 20 milhões de habitantes em toda grande São Paulo.

Já a Rede Brasil Atual reúne jornal impresso, revista semanal e Rádio, tanto na Web quanto nos 98.9 FM. Ambas iniciativas decorrem da ideia de que é preciso atuar na sociedade e dialogar não apenas com sua categoria, mas com todos os demais trabalhadores, famílias, donas de casa, desempregados, juventude, negros, mulheres, LGBT’s, sempre com o intuito de fomentar valores democráticos e de defender direitos sociais, políticos e humanos.

O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC também dá um exemplo importante ao apoiar iniciativas culturais periféricas, através do Sarau Engrenagem Poética. Nesse espaço, trabalhadores da categoria se misturam aos artistas periféricos e tem contato com a arte engajada e comprometida com transformações reais na sociedade.

 

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Arte periférica, emoção e formação política no Sarau ‘Engranagem Poética’, promovida pelo Sindicato dos Metalúrgicos, com a colaboração de diversos coletivos culturais

O sindicalismo brasileiro enfrenta problemas e dificuldades, tal como enfrentam todas as demais instituições representativas como partidos, igrejas e organizações políticas diversas. O momento exige atenção em relação à orientação político-ideológica, organização e formas de intervenção. Isso tudo ao mesmo tempo em que é necessário enfrentar o avanço conservador que busca desregulamentar, enfraquecer e até eliminar direitos históricos dos trabalhadores. Será preciso, como dizem, “trocar o pneu com o carro em movimento”. Ao que se percebe, ao menos por parte do sindicalismo sério e conseqüente, o desafio está aceito.

E que fique registrado ao jornal O Globo e correlatas: jogar no lixo a história do sindicalismo brasileiro ou desqualificá-lo com generalizações baratas, jamais!

 

 

 

 

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Jornal do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba, anos 90
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Assembleia das Trabalhadoras do Setor de Vestuário, região de Sorocaba – 2015
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Jornal do Sindicato dos Jornalistas do Paraná
SindSaNTOANDRE
Metalúrgicos de Santo André

10 respostas em “Jornal O GLOBO ataca sindicalismo brasileiro, que precisa se reinventar”

Excelente matéria, magnificamente ilustrada, em que Belchior contrapõe à narrativa regressista hipócrita as verdadeiras questões ligadas ao movimento sindical, sem passar por cima por mazelas históricas que as centrais democráticas e sindicatos mais representativos não deixam de enfrentar.

Acredito sim que os sindicatos tem uma importância importante para os trabalhadores . Mas tem algumas coisas que tem de mudar . Ex:
Proliferação de sindicatos por interesses politicos .
Perpetuação de diretorias . Deveria ter somente uma releição .
Transparência nas contas do sindicato . Balanços , pois o $ é do trabalhador e ele tem o direito saber como é usado . Fim desconto de um dia de todo trabalhador .

Depois que o ex-presidente Lula sacramentou o famigerado Imposto Sindical cuja excrescência é descontar um dia de trabalho de cada trabalhador, os sindicatos se locupletaram dessa benesse, se acomodaram e não incomodam mais os detentores do capital, pois se preocupam apenas em manter seus postos e privilégios se aquartelando no poder, pois inúmeros dirigentes sindicais são hoje ocupantes de cargos de alto escalão no desgoverno do PT e o trabalhador que se ferre.

Esse cara deve ser complexado. Tudo pra ele resume-se a um complô da direita elitista-branca contra o trabalhador-pobre-negro.
Analise o mérito da reportagem que citou, e verá que suas “ilustrações” não fazem o menor sentido.
Jornalista complexado é pior que mal-intencionado

O “imposto sindical” e a unicidade sindical, ambos previstos na Constituição, são dois dos maiores males que afligem o Brasil há décadas.

Cabe ressaltar que o “imposto sindical” e a unicidade sindical, provenientes da organização sindical definida no Estado Novo de Vargas (uma ditadura, por sinal), foram inspirados na “Carta del Lavoro” de Mussolini.
(fonte: https://it.wikipedia.org/wiki/Sindacalismo_fascista)

Sempre trabalhei como empregado assalariado em empresas e sempre falo que os sindicatos me atrapalham muito mais do que me ajudam. Com poucas excessoes o sistema que existe hoje nao é em nada eficaz

Não podemos nos manter no seculo passado e viver de lendas, é preciso que os movimentos sindicais sejam dos trabalhadores para os trabalhadores. A mordaça colocada nos sindicatos por alguns cargos no governo é o enfraquecimento não só de uma categoria mas de todos os trabalhadores.

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