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“Lula livre” vira tema em Dia Internacional dos Direitos Humanos

Foto: Monica Araujo – Defend Democracy in Brazil – NY

Por Marina Souza

O último dia 10 de dezembro foi marcado por eventos ao redor do mundo celebrando os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Palestras, rodas de conversa, protestos e passeatas preencheram diversos lugares, promovendo a reflexão sobre a importância e os mecanismos de funcionamento prático dos direitos estabelecidos entre os Estados-membros da ONU três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Acompanhados da grave crise da Democracia representativa no Brasil, muitos episódios políticos estão sendo marcados historicamente e analisados por diversas pessoas e instituições. A prisão do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, ocorrida no dia 07 de abril em Curitiba, foi um dos temas repercutidos anteontem durante as reflexões sobre os Direitos Humanos.

Lula foi condenado a 12 anos e 1 mês de prisão, sob a acusação de lavagem de dinheiro e corrupção passiva, no âmbito da Operação Lava Jato. Após o golpe sofrido pela ex-presidenta Dilma Rousseff e a crescente perseguição política ao Partido dos Trabalhadores, diversas pessoas e movimentos sociais – ligados ou não ao PT – têm se posicionado contrários aos métodos de investigação e punição utilizados na situação. Em meio a controvérsias jurídicas e divergências opinativas, o maior líder popular da história do Brasil, que ficou em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto até o início de setembro, foi preso sem trânsito em julgado, sob um pretexto nebuloso demais para ser aceito por todos. O movimento/comitê “Lula Livre” foi criado em 2018 durante o processo penal, com a intenção de lutar a favor da soltura do presidente e contra a atual judicialização da política brasileira.

Lula poucas horas antes de ser preso | Foto: Ricardo Stuckert

Vários grupos estão se organizando para reconhecer e denunciar o ataque à Democracia, que é cada vez mais evidente dentro e fora do Brasil. Na última segunda-feira, o Comitê Defend Democracy in Brazil organizou um evento em Nova York, no People’s Forum de Manhattan, para celebrar o 70º aniversário da Declaração, discutindo o funcionamento dessa prerrogativa e instituindo o Dia do Lula Livre. Os convidados a palestrar sobre o tema foram Maria Luisa Mendonça, membra da Rede Social de Direitos Humanos, Douglas Belchior, da UNEAFRO Brasil, e Gammy Alvarez, do Partido pelo Socialismo e Liberação de Nova York.

A platéia foi composta principalmente por ativistas dos EUA, do Haiti e de Honduras. Vídeos, fotos e performance foram alguns dos recursos usados no evento. Ao lado da Frente Brasil Popular, a organização reuniu mais de 80 movimentos sociais brasileiros para realizar a Ação Internacional Lula Livre.

Natália de Campos, atriz, produtora artística e ativista, mora em Nova York há 20 anos e é uma das coordenadoras do evento realizado pelo Comitê. Segundo ela, é muito importante levar essas narrativas à mídia internacional para não somente denunciá-las, como também conscientizar as pessoas nativas sobre a forte interferência de seus países nos interesses econômicos e recursos brasileiros. Por isso, acredita que a ideia geral da ação seja proporcionar mais aliados e informação ao público estrangeiro.

Foto: Monica Araujo – Defend Democracy in Brazil – NY

“É um atentado aos Direitos Humanos. Ele foi perseguido de uma maneira implacável, sem justificativa legal e com acusações supérfluas. Também foi privado de direitos que outros presidiários possuem, como o de dar entrevista. Estão tentando silenciar a voz dele, Lula representa muito para o povo brasileiro, foi por isso que tentaram tirá-lo da corrida política.”, diz ela

A coordenadora conta que muitas das notícias que percorrem as ruas dos Estados Unidos são compradas por agências e já chegam filtradas de alguma forma. E que embora exista grande parcela da população local consumindo fake news, há também muito apoio ao ex-presidente pelos sindicatos, que reconhecem o quão importante ele foi para mudar os direitos trabalhistas nacionais.

Ela afirma ainda que assim como o Brasil, os EUA são um país muito grande e diverso, com variedade de opiniões. Agora, com o novo governo brasileiro, de Jair Bolsonaro (PSL) e seu gabinete, há maior preocupação com questões universais publicadas na mídia. A Amazônia, os Direitos Humanos e a criminalização dos movimentos sociais são, segundo Campos, as notícias brasileiras atuais que mais chamam a atenção dos estadunidenses.

O Comitê foi formado no início de 2016 por pessoas de diversas profissões, que estavam preocupadas com o curso do sistema democrático da República e desde então, muitas outras entraram e saíram. “Somos articulados com vários grupos ativistas da rede FIBRA (Frente Internacional contra o Golpe no Brasil), sindicatos e acadêmicos.”, revela.

Durante a execução do evento os palestrantes enunciaram trechos da Declaração que estão relacionados ao caso de Lula, como Liberdade de Expressão e Julgamento Justo e Imparcial. Os participantes do movimento aguardam o julgamento da ONU, mas duvidam das possibilidades do resultado ter efeitos legais, pois consideram que o poder Judiciário no Brasil está parcial há muito tempo, com objetivos e agendas políticas em conluio com os Executivo e Legislativo.

Com muitos estudiosos, sindicalistas e ativistas estadunidenses o Comitê também participou, em 01 de dezembro, da criação da Rede Nacional para a Democracia no Brasil (RNDB), escrevendo uma carta no mesmo dia do evento para repudiar o assassinato de dois militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), ocorrido na Paraíba no último dia 8.

Nos dias 10 e 12 de dezembro, a Fundação Perseu Abramo, o Comitê Internacional Lula e as Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores (PT) sediam em São Paulo a Conferência Internacional em defesa da Democracia, que trará representantes de organizações de esquerda e partidos políticos da Espanha, Uruguai, Portugal e membros do Parlamento Europeu. O intuito é discutir e desenvolver a luta pela democracia e a resistência aos atuais momentos políticos do país.

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