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Música rap – Estante literária

Por Edson Cadette, do Blog Lado B NY

Quando o grupo de música rap A Tribe Called Quest lançou seu quarto álbum chamado Beats, Rhymes and Life, em 1996, o então adolescente Hanif Abdurraquib ficou tão viciado que no seu Walkman não havia espaço para qualquer outro grupo musical.

Os CDs já tinham substituído as famosas fitas cassetes há anos. Entretanto, para o adolescente, nada ilustrava melhor o contacto com a eclética música rap do grupo do que apertar os botões do seu Walkman para avançar, pausar e rebobinar.

No pequeno volume Go Ahead In The Rain o agora crítico cultural e poeta Hanif presta uma bela homenagem a um dos grupos mais influentes da música rap dos anos 1990. O livro traça a carreira do grupo nos últimos 30 anos mostrando as mudanças culturais e de gosto nos Estados Unidos. Entretanto, Go Ahead In The Rain é uma história bastante pessoal.

O livro começa ligando a música rap com os cantos dos escravos dentro dos tumbeiros nas travessias através do oceano Atlântico até o Novo Mundo. Hanif liga ainda a percussão dos negros, banida pelos “códigos negros” do século XVIII, à música Jazz, nascida da opressão sofrida pelos escravos e libertos dos EUA.

Isto tudo para nos levar a sua adolescência e sua vontade de conectar-se melhor com o pai através da música. Para isto, ele começou até mesmo a tocar o trompete. Na casa onde a música rap não era bem-vinda, o som do grupo com suas letras mais refinadas e uma crítica mais social ligada a batida copiada da música Cool Jazz, A Tribe Called Quest acabou furando a resistência do patriarca da família.

Para os mais aficionados do grupo há bastante informações com muitas interpretações do autor aos mais variados fatos ligados ao grupo. A Tribe Called Quest nasceu em 1985 em St. Albans, um bairro de classe média e negro no bairro do Queens, em Nova York. As músicas do grupo tinham uma forte influência do conceito “Afrocentric Rap Collective Native Tongues”, uma espécie de ideologia onde o objetivo era promover uma cultura positiva ligada a África.

A Tribe Called Quest

Segundo o livro, várias forças culminaram com a separação do grupo em 1998. A primeira e com certeza a mais forte teve um caráter impessoal, mais a ver com o caminho no qual a música rap estava seguindo no final da década, onde o dinheiro e fama tinham uma atração forte. Isto acabou causando um racha entre o rap mais comercial e rap considerado mais autêntico com uma consciência critica social.

Isso acabou trazendo para muitos artistas a seguinte questão: seja real e fique fora do radar comercial ou torne-se mais popular com milhões de dólares no bolso e no banco. Hanif coloca A Tribe Called Quest no centro desta intensa disputa. O resultado foi um enorme estresse entre seus integrantes.

O que realmente interessa ao crítico musical é a intensa e complicada amizade entre os dois principais atristas do grupo: Q-Tip e Phife Dawg. Enquanto o primeiro é elogiado pelo seu perfeccionismo, o segundo por sua maneira cáustica e sua arte irônica com o microfone é mais identificado com o autor.

Go Ahead In The Rain acaba sendo uma carta apaixonada de um fã. Poderíamos até dizer que o livro é uma sorumbática homenagem ao seu artista favorito no grupo.

Último albúm do grupo A Tribe Called Quest (2016)

Phife Dawg faleceu em 2016 logo após o reencontro do grupo na gravação do álbum We Got It From Here… Thanks You 4 Your Service. O primeiro álbum em 18 anos. Detalhe: ele foi lançado dois dias depois da conturbada eleição do presidente Donald Trump nos EUA.

O livro está recheado de informações importantes. Entre elas estão os nomes de influentes personagens da cultura afro-americana e norte-americana, como a escritora Toni Morrison e o cantor Otis Redding.  Num outro importante capítulo lemos sobre os assassinatos de Philando Castile e Alton Sterling, o primeiro em Minnesota e o segundo em Louisiana, ambos numa disputa com a polícia local.

O pequeno e altamente gratificante livro é uma maneira de Hanif Abdurraqib mostrar toda sua gratitude ao grupo de rap que mais influenciou seu crescimento intelectual e seu senso crítico musical.

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