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Crônicas Mexistas

O valor democrático da morte

Por Douglas Rodrigues Barros

Sentado frente ao mar, abandono-me a reflexões que o ócio permite. Quantas mulheres de biquíni carregando suas filhas pela mão passaram antes nessa orla? Quantos vieram antes de mim e se sentaram, tal como estou, admirando as espumas provocadas pela onda? Todos passaram, também vou passar. O navio da humanidade tem, ao que se julga, um silêncio sempre vivo. Talvez, quem nos desvendasse a essência da vida nos entregaria a mais desagradável desilusão. Não é a vida como algo que nos é palpável que é bela, mas a vida como uma noção errônea que é sempre tão rica de sentido, tão profunda, tão maravilhosa e… tão rápida.

Numa sociedade que se move com a imposição do gozo, dificilmente a reflexão sobre a morte terá lugar. Numa sociabilidade na qual as lágrimas são sinônimo de fracassos, dificilmente a reflexão sobre as dores da alma, aquilo que nos distingue dos animais, terá lugar. E mesmo assim, quem dentre nós não perdeu algum ente querido? E quem dentre nós não vai morrer em breve? O escritor Camus denunciou-nos o sentimento do absurdo, aquele instante em que, ao perder o chão, observamos que nada tem sentido. Acrescentaria que, de fato, a perda do sentido é o fundamento de uma transformação do próprio eu. Sabemos, sempre é perigoso acreditar demais.

Entre as várias coisas que podem levar uma pessoa ao desespero figura o reconhecimento de que a morte é fim óbvio para todos. A superação disso, no entanto, está em reconhecer que a despeito de tudo o que importa é o caminho, nunca a chegada… o desencanto é primeiro sinal de maturidade. Porém, numa sociedade em que se valoriza a imaturidade pregada como zona de consumo, dificilmente esse olhar elevado poderá ser alcançado. Desencantar-se é necessário, isto não significa evadir-se, ser nostálgico ou melancólico. Por isso, gosto de Walter Benjamin, porque entendeu que a única forma de ultrapassar o estado de coisas do mundo mercadológico é compreendendo o vazio de seus limites. O vazio que o constitui ao nos constituir.

O valor democrático da morte coloca-nos a todos como um rebanho, indiferente e a despeito de critérios, cedo ou tarde, chegará nossa vez. O valor democrático de se ter isso em vista é a possibilidade de subverter nosso destino na busca de realização daquilo que realmente nos importa e naquilo que compreendemos ser digno de nós. Reconhecer os limites de nossa vida, de nossa carcaça que cedo ou tarde ficará exposta a terra ou ao fogo, é um passo imprescindível na superação daquilo que somos e dos limites a nós impostos. Refletir sobre a morte é perigoso porque além de demonstrar a falta de sentido da vida, demonstra também que podemos construir um outro sentido para essa mesma vida.

Desencantar-se ao refletir sobre a morte é reconhecer, por fim, que fora desse sentido que criamos o resto é silêncio…
E isso… é muito subversivo, é explosivo…

 

Imagem: Óleo sobre tela do Mexista João Pedro Dias

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