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Cultura

Sesc Copacabana recebe a primeira cia negra de dança no país

Embalados aos sons das músicas de Naná Vasconcelos, a primeira companhia de dança negra contemporânea do Brasil, a Cia Rubens Barbot, reestreia “Dança Naná”, uma releitura do primeiro sucesso internacional da companhia, que teve sua primeira apresentação em 1993. Com 25 anos de história, trazendo os gestos movimentos e imagens que surgem dos corpos nas danças tradicionais brasileiras e traduzidas nos corpos negros, o espetáculo vai estar em cartaz no Sesc Copacabana de quinta(16) a domingo (19), às 20h.

Fotos: Wilton Montenegro

A Companhia Rubens Barbot é a primeira Cia negra de dança contemporânea do Brasil, surgiu há 29 anos, já fez turnê por diversos países e continua resistindo mesmo diante do triste cenário que se encontra a arte no Brasil. O Rubens Barbot, fundador da companhia e do Terreiro Contemporâneo, espaço cultural que se tornou uma base da arte negra no Rio, tem uma personalidade respeitada no meio artístico negro e um forte legado internacional como bailarino.

“Dança Naná” traz um espetáculo dançante, alegre, bem-humorado e contagiante, contando com direção Gatto Larsen, no elenco: Ana Paula Dias, Carlos Maia,  Carlos Mutalla, Eder Souza Martins, Wilson Assis e produção Beth Lopes. A Coreografia é de Luiz Monteiro, que na primeira apresentação há 25 anos era bailarino, hoje assina a releitura da coreografia original de Rubens Barbot.

Um estudo específico sobre a danças populares pertencentes à cultura brasileira gerou esta obra que teve a moldura musical de Naná Vasconcelos, a coreografia tem 35 minutos e outras duas, também ícones dentro da história da companhia compõem o programa sendo na primeira parte: “A Nega”(1991) solo com Wilson Assis e “Nem Todos Somos Patinhos Feios” (2012) coreografia de Luiz Monteiro sobre um tema lançado por Elvio Assunção.

Rubens Barbot – radicado no Rio de Janeiro desde 1989, criou a Cia Rubens Barbot em 1990, e transformado no ícone da dança negra contemporânea desde então. Também diretor do Terreiro Contemporâneo, espaço que é uma das bases da arte negra carioca.

Serviço

Classificação: Livre

Quando: 16, 17, 18 e 19 de maio | 20h |

Onde: Sesc Copacabana – R. Domingos Ferreira, 160 – Copacabana, Rio de Janeiro – RJ

Tarifas: R$30,00 (inteira), R$15,00 (meia entrada), R$7,50 (associados do Sesc), gratuito (estudantes de Artes Cênicas com documentação válida).

Contato: (21) 2548-1088

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Escrita da história Movimento Negro

13 de maio, mentira cívica e cinismo escravocrata

 

Por Douglas Belchior

 

Há alguns anos, sempre em 13 de maio, atualizo esta introdução à lembrança do discurso de Abdias do Nascimento, importante líder da luta negra brasileira, quando Senador da República, no aniversário de 110 anos da abolição da escravidão.

Em tempos de governos fascistas e ofensiva do pensamento colonial não só no Brasil, mas em diversos países do mundo, quando temos ataques à direitos historicamente conquistados e homens brancos ricos assaltam o poder nenhum constrangimento, nada mais atual que explorar os sentidos da maior de todas as permanências da história do Brasil: a característica escravocrata da sociedade, das relações sociais e das formas em que o poder se estabelece.

O Brasil do século XXI nunca esteve tão perto do Brasil de 1888. Enumerar os horrores do agora, deixaria este texto cansativo e desanimador, o contrário do que desejo. Mas, por responsabilidade, talvez possa apontar uma situação que, do ponto de vista simbólico, pode ser visto como síntese deste momento histórico: Uma sessão solene no Congresso Nacional, em homenagem aos 131 anos da assinatura da Lei Áurea.

Esta atividade, convocada por Luiz Philippe de Orléans e Bragança, Trineto da Princesa Isabel, tetraneto de D. Pedro II e pentaneto de D. Pedro I e Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Bolsonaro, ambos eleitos deputados federais pelo Estado de São Paulo, é sem dúvida um marco na tentativa de reconstrução histórica de narrativas e compreensões sobre o que é de fato este país. Uma aliança exótica própria do ornitorrinco Brasil, que flerta com pós-modernidade econômica, conservadorismo de valores, propensão militar-autoritária e desejo de retorno ao um passado monárquico ou, na palavra ideal, escravocrata.

A lógica escravagista que moldou a sociedade pós abolição e manteve descendentes de pessoas escravizadas na base da piramide social, com os piores trabalhos, na informalidade, com menores salários, parcos direitos e alvo da violência do estado, das policias e dos civis, não admite ser maquiada por termos politicamente corretos. É hora do acerto de contas, dizem eles. É preciso chamar as coisas pelo nome! É preciso expor o que somos na realidade. E somos uma colônia, somos uma sociedade de brancos nobres, machos, héteros, ricos e orgulhosos de nossos feitos. E devemos comemorá-los, pesam eles. Dia 13 de maio é dia de festa!

Isso é o que dizem eles. É o que pensam eles. Que se fodam!

 

 

Sabe esse lugar que você ocupa? O lugar de proprietário, de chefe, de bonito, de competente, de doutor, de escolhido, de aprovado, de eleito, este seu lugar de privilégio disfarçado de mérito e esforço honesto, tem cheiro de sangue, tem carma de muito sofrimento e mortes. Vc devia ter vergonha! Não foi com teus bisavós, nem com teus avós e pais. Talvez não seja com você. Mas com teus filhos e netos, amanhã ou depois, pode ter certeza. Temos contas à acertar.
Porque hoje é 13 de Maio, e eu preciso te lembrar isso.

 

Resistir e reinventar a vida é marca fundamental da existência do povo negro brasileiro. Colonizadores brancos europeus forjaram um país com base num genocídio atemporal, permanente, continuado, mas sobrevivemos! Desejaram um país de brancos, mas empretecemos o Brasil! Na primeira oportunidade que nossas lutam proporcionaram, ocupamos universidades e espaços públicos, formulamos nossas teses, desafiamos o poder com nossa presença, nossa voz, nossa religiosidade, nossos costumes, nossos cheiros, nossos sorrisos. Em momentos de forte crise e conflitos, é preciso considerar que, a violência com que nos atacam é proporcional ao medo que sentem de nós.

Movimentos negros e parlamentares de oposição farão lembrar, no protesto convocado acima, a única prova real e concreta que, se refletida sob a lógica deles, seria também a grande tese sobre meritocracia no Brasil: Existimos, e este país existe graças ao esforço, à superação e ao merecimento do povo negro e do povo quase negro de tão pobre. A despeito da preguiça, da malandragem, da desonestidade e da canalhice daqueles que usurparam as riquezas a partir do trabalho alheio. Esta desonestidade e malandragem dos brancos racistas que mantém o poder econômico e político é facilmente percebida quando, ao invés de aceitarem um diálogo sobre a necessidade da reparação histórica ou do “reconhecimento de que os três séculos de uma escravidão que absorveu o maior quantitativo de africanos escravizados nas Américas produziram uma sociedade que, de tão racializada e racista, naturalizou o costume de violentar“, como reflete a historiadora Ana Flávia Magalhães, preferem reafirmar a casa grande e o poder militar imperial.

A luta por liberdade é contínua, bem como nos mostra o registro histórico de Abdias do Nascimento, que deixo abaixo também para animar e inspirar lutadoras e lutadores que ocupam o Congresso Nacional como um afronte à provocação de milicos, monarquistas, latifundiários e milicianos. A disputa de sempre.

E mais abaixo, a lembrança mágica de um encontro com o mestre Abujamra e o menino prodígio Gustavo Santos, no inesquecível Provocações, da TV Cultura. Tive a honra de participar. O Programa foi ao ar em 13 de Maio de 2015, pouco antes da morte do apresentador.

 

Abdias do Nascimento

 

Discurso proferido pelo Senador Abdias Nascimento por ocasião dos 110 anos da Abolição no Senado Federal.

 

O SR. ABDIAS NASCIMENTO (Bloco/PDT-RJ. Pronuncia o seguinte discurso.) – Sr. Presidente, Srªs. e Srs. Senadores, sob a proteção de Olorum, inicio este meu pronunciamento.

Na data de hoje, 110 anos passados, a sociedade brasileira livrava-se de um problema que se tornava mais agudo com a proximidade do século XX, ao mesmo tempo em que criava condições para o estabelecimento das maiores questões com que continuamos a nos defrontar às vésperas do Terceiro Milênio. Assim, a 13 de Maio de 1888, a Princesa Isabel, então regente do trono em função do afastamento de seu pai, D. Pedro II, assinava a lei que extinguia a escravidão no Brasil, pondo fim a quatro séculos de exploração oficial da mão-de-obra de africanos e afro-descendentes nesta Nação, mais que qualquer outra, por eles construída.

Durante muito tempo, a propaganda oficial fez desse evento histórico um de seus maiores argumentos em defesa da suposta tolerância dos portugueses e dos brasileiros brancos em relação aos negros, apresentando a Abolição da Escravatura como fruto da bondade e do humanitarismo de uma princesa. Como se a história se fizesse por desígnios individuais, e não pelas ambições coletivas dos detentores do poder ou pela força inexorável das necessidades e aspirações de um povo.

A tentativa de vender a abolição como produto da benevolência de uma princesa branca é parte de um quadro maior, que inclui outras fantasias, como a “colonização doce” – suave apelido do massacre perpetrado pelos portugueses na África e nas Américas – e o “lusotropicalismo”, expressão que encerra a contribuição lusitana à construção de uma “civilização” tropical supostamente aberta e tolerante. Talvez do tipo daquela por eles edificada em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, quando a humilhação e a tortura foram amplamente usadas como formas de manter a dominação física e psicológica de europeus sobre africano.

Na verdade, o processo que resultou na abolição da escravatura pouco tem a ver com as razões humanitárias – embora essas, é claro, também se fizessem presentes. O que de fato empurrou a Coroa imperial a libertar os escravos foram, em primeiro lugar, as forças econômicas subjacentes à Revolução Industrial, capitaneadas por uma Inglaterra ávida de mercados para os seus produtos manufaturados. Explicam-se desse modo as pressões exercidas pela Grã-Bretanha sobre o Governo brasileiro, especialmente no que tange à proibição do tráfico, que acabaria minando os próprios alicerces da instituição escravista. Outro fator fundamental foi o recrudescimento da resistência negra, traduzido no pipocar de revoltas sangrentas, com a queima de engenhos e a destruição de fazendas, que se multiplicaram nas últimas décadas do século XIX, aumentando o custo e impossibilitando a manutenção do sistema.

Foi assim que chegamos ao 13 de maio de 1888, quando negros de todo o País – pelo menos nas regiões atingidas pelo telégrafo – puderam comemorar com euforia a liberdade recém-adquirida, apenas para acordar no dia 14 com a enorme ressaca produzida por uma dúvida atroz: o que fazer com esse tipo de liberdade? Para muitos, a resposta seria permanecer nas mesmas fazendas, realizando o mesmo trabalho, agora sob piores condições: não sendo mais um investimento, e sem qualquer proteção na esfera das leis, o negro agora era livre para escolher a ponte sob a qual preferia morrer. Sem terras para cultivar e enfrentando no mercado de trabalho a competição dos imigrantes europeus, em geral subsidiados por seus países de origem e incentivados pelo Governo brasileiro, preocupado em branquear física e culturalmente a nossa população, os brasileiros descendentes de africanos entraram numa nova etapa de sua via crucis. De escravos passaram a favelados, meninos de rua, vítimas preferenciais da violência policial, discriminados nas esferas da justiça e do mercado de trabalho, invisibilizados nos meios de comunicação, negados nos seus valores, na sua religião e na sua cultura. Cidadãos de uma curiosa “democracia racial” em que ocupam, predominantemente, lugar de destaque em todas as estatísticas que mapeiam a miséria e a destituição.

O mito da “democracia racial”, que teve em Gilberto Freyre seu formulador mais sofisticado, constitui, com efeito, o principal sustentáculo teórico da supremacia eurocêntrica neste País. Interpretando fatos históricos de maneira conveniente aos seus propósitos, deturpando aqui, inventando acolá, sofismando sempre, os apóstolos da “democracia racial” conseguiram construir um sólido e atraente edifício ideológico que até hoje engana não somente parte dos dominados, mas também os dominadores. Estes, sob o martelar do slogan, por vezes acreditaram sinceramente na inexistência de racismo no Brasil. Podiam, assim, oprimir sem remorso ou sentimento de culpa. Esse mesmo mito, com denominações variadas, como “raza cósmica” ou “café con leche”, também contamina as relações de raça na maioria do países da chamada América Latina, resultando, invariavelmente, na hegemonia dos brancos – ou daqueles que assim se consideram e são considerados – sobre os negros e os índios. É assim no México, na Colômbia, na Venezuela, no Equador, no Peru e nos países da América Central e do Caribe. Disso não escapa sequer a Cuba socialista, que pude visitar mais uma vez poucas semanas atrás e onde, a despeito do grande esforço de nivelamento social realizado pela Revolução, hábitos, costumes e linguagem continuam impregnados do perverso eurocentrismo ibérico.

Um dos efeitos mais cruéis desse tipo de ideologia é confundir e atomizar o grupo oprimido, impedindo-o de se organizar para defender seus interesses. Assim, por exemplo, se denuncia a discriminação racial de que é vítima, o negro se vê enquadrado nas categorias de “complexado”, “ressentido” ou mesmo de “perturbado mental”. Algum tempo atrás, poderíamos acrescentar as de “subversivo” ou “agente do comunismo internacional”, estigmas que as instituições repressoras de nosso País tentaram imprimir em minha própria pele e que me obrigaram a viver no exterior por mais de uma década.

Terríveis na sua capacidade de ocultar o óbvio ostensivo, todos esses instrumentos de coerção e imobilização não foram suficientes para impedir que parcelas da população afro-brasileira se tenham organizado, nesses 110 anos desde a abolição, a fim de lutar, por todos os meios possíveis, pela justiça e pela igualdade neste País edificado por seus antepassados. Já tive ocasião de celebrar, aqui mesmo nesta Casa, o aniversário de fundação da maior dentre todas as organizações afro-brasileiras deste século, a Frente Negra Brasileira, que assinalou, ainda na década de trinta, a existência de um pensamento e de uma ação: negros comprometidos em derrubar as barreiras construídas com base na origem africana. Transformada em partido político e fechada com o golpe do Estado Novo, a Frente Negra, em seus acertos e equívocos, balizou o caminho a ser percorrido pelas futuras organizações afro-brasileiras.

Em meados da década dos quarenta, criei no Rio de Janeiro, com ajuda de outros militantes, o Teatro Experimental do Negro, organização que fundia arte, cultura e política na conscientização dos afro-brasileiros, e dos brasileiros em geral, para as questões do racismo e da discriminação, assim como para a valorização da cultura de origem africana. Apesar dos obstáculos que lhe foram interpostos, incluindo a clássica acusação de “racismo às avessas”, o Teatro Experimental do Negro marcou sua trajetória, pelo volume e qualidade de sua atuação, no meio artístico e cultural daquela década e do decênio seguinte, como também no cenário político, sendo diretamente responsável pela primeira proposta de legislação antidiscriminatória no Brasil, mais tarde neutralizada pela malfadada Lei Afonso Arinos.

Minha militância acabaria me rendendo um exílio, do final dos anos sessenta ao início da década de oitenta. Pude então travar contato em primeira mão com toda uma liderança negra, na África, nos Estados Unidos e na Europa, em luta contra o imperialismo, o colonialismo e o racismo. As idéias e ações dessa liderança, que incluía Amílcar Cabral, Samora Machel, Agostinho Neto, Julius Nyerere, Jomo Kenyatta, Léopold Senghor, Wole Soyinka e Sam Nujomo, na África; Malcolm X, Martin Luther King, Amiri Baraka, Stokeley Carmichael e os Black Panthers, na América do Norte – para citar apenas alguns de seus mais destacados expoentes -, encontraram eco no Brasil, estimulando a antiga luta afro-brasileira, agora sob o rótulo de “Movimento Negro”.

Recuperando a tradição das antigas organizações, a exemplo da República dos Palmares, da Frente Negra e do Teatro Experimental do Negro, o Movimento Negro logo se espalhou pelo País, catalisando o idealismo de uma generosa juventude afro-descendente, com grande incidência dos escassos universitários que enfrentavam, na busca de se inserirem no mercado de trabalho, as cruéis contradições de nossa “democracia racial”.

O Sr. Ney Suassuna (PMDB-PB) – V. Exª me permite um aparte?

O SR. ABDIAS NASCIMENTO (Bloco/PDT-RJ) – Ouço V. Exª com muito prazer.

O Sr. Ney Suassuna (PMDB-PB) – Senador Abdias Nascimento, no dia 13 de maio gostaria de me solidarizar com V. Exª e com toda a raça da qual V. Exª faz parte, dizendo que a esta raça nós, brasileiros, devemos muito. Todos nós devemos estar conscientes de que deve haver cada vez mais igualdade e mais espaço para ela. Juntos haveremos de construir essa raça brasileira, que é a miscegenação de todas elas. Muito obrigado.

O SR. ABDIAS NASCIMENTO (Bloco/PDT-RJ) – Muito obrigado a V. Exª.

Continuo, Sr. Presidente:

Apesar de todas as dificuldades e resistências, o Movimento encontrava também o apoio de alguns políticos importantes. Dentre eles se destaca Leonel Brizola, responsável, como Governador do Rio de Janeiro, pela mais séria e ousada experiência de enfrentamento do racismo até hoje empreendida no plano do Estado: a criação da Secretaria Extraordinária de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras, da qual tive a honra de ser o primeiro titular.

Uma das reivindicações do Movimento Negro no plano das políticas públicas tem sido a adoção da chamada “ação afirmativa” – que eu prefiro designar como “ação compensatória” -, objeto, nos últimos tempos, de algumas propostas no âmbito do Legislativo, incluindo o Projeto de Lei do Senado nº 75, de 1997, de minha autoria, atualmente tramitando nesta Casa. Trata-se este, na verdade, de um assunto sobre o qual muito se fala – quase sempre contra – mas do qual, geralmente, pouco se conhece.

“Ação afirmativa” ou “ação compensatória”, é, pois, um instrumento, ou conjunto de instrumentos, utilizado para promover a igualdade de oportunidades no emprego, na educação, no acesso à moradia e no mundo dos negócios. Por meio deles, o Estado, a universidade e as empresas podem não apenas remediar a discriminação passada e presente, mas também prevenir a discriminação futura, num esforço para se chegar a uma sociedade inclusiva, aberta à participação igualitária de todos os cidadãos. Ao contrário do que costumavam afirmar seus adversários, a ação compensatória recompensa o mérito e garante que todos sejam incluídos e considerados com justiça ao se candidatarem a empregos, matrículas ou contratos, independentemente de raça ou de gênero. São seus propósitos específicos: 1) aumentar a participação de pessoas qualificadas, pertencentes a segmentos historicamente discriminados, em todos os níveis e áreas do mercado de trabalho, reforçando suas oportunidades de serem contratadas e promovidas; 2) ampliar as oportunidades educacionais dessas pessoas, particularmente no que se refere à educação superior, expandir seus horizontes e envolvê-las em áreas nas quais tradicionalmente não têm sido representadas; 3) garantir a empresas de propriedade de pessoas desses grupos oportunidades de estabelecer contratos com o governo, em âmbito federal, estadual ou municipal, dos quais de outro modo estariam excluídas.

A ação compensatória na área do emprego implica o recrutamento ativo de mulheres e membros de grupos historicamente discriminados, buscando-se candidatos além das redes convencionais de relacionamento, tradicionalmente dominadas por homens brancos. Ela estimula, por exemplo, o uso de anúncios públicos de emprego para identificar candidatos em lugares em que os empregadores geralmente não iriam procurá-los.

Na área educacional, as medidas de ação compensatória adotadas em outros países, e que se pretende sejam adotadas aqui, são muitas vezes acusadas de constituírem preferências por alunos não-qualificados. Na verdade, porém, também nessa área o objetivo é recompensar o mérito. Recentes estudos de escores obtidos em testes e de notas tiradas no curso secundário – os padrões tradicionais e presumivelmente “objetivos” para mensurar as qualificações de estudantes – têm posto em questão a precisão desses instrumentos em predizer o desempenho futuro de todos os alunos, particularmente de mulheres e de membros de grupos discriminados. Poucos especialistas sustentariam racionalmente que, por si sós, esses escores e médias sejam capazes de medir objetivamente a capacidade e o potencial de um indivíduo. Qual a experiência de vida do candidato? Que obstáculos ele teve de superar? Quais são suas ambições e esperanças? Menos tangíveis do que números, esses padrões são mais precisos em prever o futuro desempenho educacional do que a origem familiar, herança ou outros atributos do privilégio.

Além do falido argumento meritocrático, também se costuma brandir contra a ação compensatória – como aconteceu nesta própria Casa – a tese da inconstitucionalidade. Seria inconstitucional estabelecer qualquer espécie de “discriminação positiva” – outro sinônimo de ação afirmativa – porque isso feriria o princípio da igualdade de todos perante a lei. A primeira resposta a esse argumento vai contra o seu caráter eminentemente conservador. Como se não tivéssemos a possibilidade, o direito, o dever, eu diria, de lutar por mudanças nos dispositivos constitucionais que não nos interessam. Ou como se a igualdade fosse apenas um princípio abstrato, e não algo a ser implementado por meio de medidas concretas. A verdade, porém, é que existem diversos precedentes jurídicos que abrem as portas à implantação da ação compensatória em favor dos afro-descendentes no Brasil. A igualdade de homens e mulheres perante a lei não impede, por exemplo, que estas tenham direito de se aposentar com menor tempo de serviço, nem que disponham de uma reserva de vagas nas listas de candidatura dos partidos. Há também a proteção especial aos portadores de deficiência, a famosa Lei dos Dois Terços – que estipulava uma preferência para trabalhadores brasileiros no quadro funcional das empresas -, sem falar no imposto de renda progressivo e na inversão do ônus da prova nas ações movidas por empregados contra empregadores. Todos casos em que a igualdade formal dá lugar à promoção da igualdade.

Vale ressaltar, neste ponto, que pelo menos três convenções internacionais de que o Brasil é signatário – e que portanto têm força de lei – contemplam a adoção de medidas compensatórias. Uma delas é a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, da Organização das Nações Unidas, cujo art. 1º, item 4, diz o seguinte: “Não serão consideradas discriminação racial as medidas especiais tomadas com o único objetivo de assegurar o progresso adequado de certos grupos raciais ou étnicos (…) que necessitem da proteção que possa ser necessária para proporcionar(…) igual gozo ou exercício de direitos humanos e liberdades fundamentais (…).”

Teor semelhante tem o art. 2º da Convenção 111 da OIT – Organização Internacional do Trabalho, concernente à discriminação em matéria de emprego e profissão, pelo qual cada signatário “compromete-se a formular e aplicar uma política nacional que tenha por fim promover (…) a igualdade de oportunidades e de tratamento em matéria de emprego e profissão, com o objetivo de eliminar toda discriminação nessa matéria”. E também o art. IV da Convenção Relativa à Luta Contra a Discriminação no Campo do Ensino, da UNESCO: “Os Estados Partes (…) comprometem-se (…) a formular, desenvolver e aplicar uma política nacional que vise a promover (…) a igualdade de oportunidade e tratamento me matéria de ensino.”

Outra postura contrária vem dos que, dando como exemplo a experiência de países socialistas, à ação compensatória costumam contrapor as políticas públicas de combate à pobreza e aos problemas a ela associados – as chamadas políticas redistributivas. Esse argumento, em geral oriundo da Esquerda, é duplamente falacioso. Primeiro porque ninguém, em sã consciência, poderia vislumbrar no horizonte próximo uma revolução socialista no Brasil – condição indispensável à adoção de reformas radicais como aquelas que possibilitaram a alguns daqueles países não acabar com o racismo, mas reduzir a um nível mínimo as desigualdades raciais (o que é diferente) nas áreas do trabalho, da educação, da saúde e da moradia. A outra falácia desse argumento é deixar implícito que se trata de opções mutuamente excludentes – ou ação compensatória, ou políticas redistributivas, quando, de fato, necessita-se de ambas. Com certeza, os afro-brasileiros seriam, por sua inserção social, os grandes beneficiários de quaisquer ações governamentais voltadas à melhoria das condições de vida das grandes massas destituídas. E continuariam precisando de proteção contra a discriminação, bem como de mecanismos capazes de lhes assegurar a igualdade de oportunidades.

Em entrevista publicada semana passada pela revista Veja, em que se discute a situação dos negros neste País, o Presidente Fernando Henrique Cardoso disse não ser contrário ao sistema de quotas, forma mais incisiva de ação compensatória, que constitui a essência do meu projeto de lei. O Presidente foi além dessa declaração e afirmou literalmente: “Havendo duas pessoas em condições iguais para nomear para determinado cargo, sendo uma negra, eu nomearia a negra”. Como é curioso, para dizer o mínimo, observar correligionários do Presidente aqui no Senado manifestando idéias e atitudes absolutamente contrárias às de seu suposto líder e utilizando, para isso, todo um arsenal de argumentos ou intempestivos, ou equivocados, ou desinformados – pois não quero acreditar que sejam maliciosos.

Ao mesmo tempo, pesquisa realizada pelo prestigioso instituto de pesquisa Datafolha, e publicada à página 46 do livro Racismo Cordial, revela não apenas que praticamente metade dos brasileiros de todas as origens étnicas aprova a ação compensatória, mas que essa aprovação chega a 52% entre aqueles que admitiram ter preconceito em relação aos negros. Muito significativo em função da cortina de desconhecimento que cerca o tema, esse resultado indica que o País está mudando, e mais rapidamente do que se quer admitir. E esta Casa, cujos membros têm o dever de acompanhar e até mesmo antecipar as mudanças que o País quer e necessita, não pode ficar se ancorando em velhos chavões para manter um estado de coisas que a maioria da sociedade quer ver superado. Sabemos, eu e meus companheiros de luta, que é árdua a batalha que temos pela frente, no confronto com o reacionarismo, a ignorância e o atraso. Mas estamos dispostos a levar nossa luta a todos os foros, nacionais e internacionais, e a conduzi-la, como alguém já disse, “por todos os meios necessários”.

Assim, neste 13 de Maio, fazemo-nos presentes nesta tribuna, não para comemorar, mas para denunciar uma vez mais a mentira cívica que essa data representa, parte central de uma estratégia mais ampla, elaborada com a finalidade de manter os negros no lugar que eles dizem ser o nosso. A comunidade afro-brasileira, porém, já mostrou claramente que não mais aceita a condição que nos querem impingir. Mais uma prova disso foi dada na madrugada de hoje, quando o Instituto do Negro Padre Batista, juntamente com dezenas de outras organizações, realizou em São Paulo a segunda Marcha pela Democracia Racial, desfraldando a bandeira da igualdade de oportunidades para os afro-descendentes. Assim, ao mesmo tempo em que denuncia as injustiças de que é vítima, nossa comunidade apresenta reivindicações consistentes e viáveis para a solução dos seculares problemas que enfrenta. Reivindicações, como a ação compensatória, capazes de contribuir para que venhamos a concretizar, com o apoio de nossos aliados sinceros, a segunda e verdadeira abolição.

Sr. Presidente, pulei vários trechos para abreviar meu pronunciamento, solicito que a publicação seja feita na íntegra.

Muito obrigado, Sr. Presidente.

Axé!

Fonte: Senado | Secretaria-Geral da Mesa – Secretaria de Taquigrafia e Secretaria de Ata | Secretaria de Informação e Documentação – Subsecretaria de Informações.

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Movimento Negro

Seminário reúne juristas para debater violência de Estado em SP

A Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio encabeça neste sábado, 11, o seminário ‘O Direito no Enfrentamento à Violência de Estado – Construindo Redes de Proteção e Resistência nos Territórios’, evento que aglutina dezenas de profissionais do direito para interlocução e troca de estratégias jurídicas diante das práticas de assassínio cometidas pelo Estado brasileiro contra as populações negras e pobres das periferias.

O seminário conta com um painel de abertura e 3 mesas de debate, com os temas: as violências do Estado; os agentes do Estado no enfrentamento da violência institucional; os movimentos sociais e as ONGs no enfrentamento da violência do Estado; as interfaces do enredamento do Estado e sociedade civil.

Durante o painel, entra em palestra o reconhecimento público ao movimento Mães de Maio e os 13 anos dos crimes de maio de 2016, em que cerca de 550 pessoas foram assassinadas em pouco mais de um mês, vítimas de ações de extermínio deliberada praticada pelas forças policiais do Estado de São Paulo.

Divulgação

A primeira mesa traz a experiência e vivência de agentes públicos no enfrentamento destas problemáticas, a importância dessa atuação e estratégias traçadas para denunciá-las e combatê-las, nas mais diversas áreas, do executivo ao ministério público e delegacias.

O debate seguinte coloca em pauta o papel das ONGs e movimentos sociais, e como advogados podem trabalhar nesse cenário, em uma ampla gama de pessoas, como mães vítimas da violência de Estado, mulheres, crianças e adolescentes, LGBTs, moradia, direitos humanos, justiça criminal e movimento negro.

A última atividade do dia fala sobre as relações entre Estado e sociedade civil na perspectiva de funcionários públicos, ativistas, juristas, advogados e sindicalistas, a fim de desenhar um panorama de fórmulas e vivências. Durante o encerramento, ainda haverá a entrega de certificado para os participantes.

A Rede de Proteção ao Genocídio

Mentora deste seminário, a experiência em rede da organização é destaque e referência no enfrentamento à violência sistemática do Estado que os dados e as vivências nas periferias apontam. O número assustador de 80 mil homicídios por ano, com forte crescimento da letalidade policial e vítima principal jovens negros de origem periférica, é resultado de uma estrutura que só pode ser revertida a partir dos novos meios de conexão, descentralizado e em rede.

Neste sentido, este encontro é um catalisador, pois conecta e insere uma série de profissionais de diversos campos do conhecimento e setores da sociedade, a fim de tornar-se mais eficiente e ágil na defesa e garantia de direitos das populações em vulnerabilidade social, decorrente da atuação ou omissão do poder público em seus territórios.

Serviço

Local: Salão Nobre da Faculdade de Direito da USP, Largo São Francisco n. 95
São Paulo-SP
Data: 11/05/208
Horário: 8h30 – 18h
Inscrição: Gratuita pelo link 

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Cultura

Maciel Salú faz show de estreia do novo disco

Ao apresentar “Liberdade”, seu mais recente disco, mestre rabequeiro faz um mergulho profundo na cultura popular, sem deixar de lado uma musicalidade cada vez mais comtemporânea

Pernambucano Maciel Salú faz, pela primeira vez em São Paulo, show baseado em seu mais recente disco, Liberdade, no Sesc 24 de Maio. A apresentação marcada para sexta-feira, dia 03/05, acontecerá no Teatro da unidade, às 21h. Siba participa do espetáculo.

Composto por 10 músicas autorais, repertório destaca-se por “Maracatu Sem Lei”, com influências do rock ‘n roll, “Jurema”, em reverência a entidade indígena que impulsiona uma das maiores tradições religiosas do nordeste, e Liberdade”, faixa que dá título ao disco e segue por um caminho mais pop. Nas letras, um evidente discurso político e social reflete temas como preconceito, racismo, religiosidade, democracia e violência. Tudo isso é acompanhado pela rabeca do artista que traz uma sonoridade única ao ser experimentada com cordas e pedais de guitarra.

Fotos: Alcione Ferreira

Herdeiro direto da família Salustiano, com passagem pelas bandas Orquestra Santa Massa, Chão & Chinelo e Orquestra Contemporânea de Olinda, Maciel Salú cresceu em meio a maracatus rurais, cavalos marinhos, cocos e cirandas. É mestre e brincante de diversos folguedos.

Ao longo dos seus 20 anos de carreira, lançou A Pisada é Assim (2003), Na Luz do Carbureto (2007), Mundo (2010) e Baile de Rabeca (2016).

Serviço:

Maciel Salú estreia LIBERDADE no SESC 24 de Maio

| Participação especial de SIBA |

Data: 03 de maio, sexta-feira, às 21h, no Teatro da Unidade

Ingressos: R$9 (credencial plena/trabalhador no comércio e serviços matriculado no Sesc e dependentes), R$15 (pessoas com +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e R$30 (inteira)

SESC 24 de Maio: Rua 24 de Maio, 109 – República

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Cultura

Companhia de Teatro Heliópolis traz peça sobre a justiça brasileira

A Companhia de Teatro Heliópolis apresenta a montagem (IN)JUSTIÇA até o dia 19 de maio, na Casa de Teatro Maria José de Carvalho (sede do grupo), no bairro Ipiranga. A encenação é dirigida por Miguel Rocha, fundador e diretor do grupo; e Evill Rebouças assina o texto que foi criado em processo colaborativo com a Companhia.

(IN)JUSTIÇA é um ensaio cênico, guiado pela indagação ‘o que os veredictos não revelam?’, que reflete sobre aspectos do sistema jurídico brasileiro. Para tanto, conta a história do jovem Cerol que, involuntariamente, pratica um crime. A partir daí, surgem diversas concepções sobre o que é justiça, seja a praticada pelo judiciário ou aquela sentenciada pela sociedade.

Permeado por imagens-sínteses (característica da Companhia de Teatro Heliópolis) e explorando a performance corporal, o espetáculo coloca em cena a complexidade da justiça no país, deixando a plateia na posição de júri em um tribunal. O embate entre os dois lados da justiça – da vítima e do criminoso – se estabelece em um jogo contundente que expõe com originalidade a crua realidade dos jovens pobres e negros. A música ao vivo confere ainda mais densidade poética ao ‘relato’, que foge de qualquer abordagem clichê.

Fotos: Caroline Ferreira

A história de Cerol é contada de forma não linear. Exímio empinador de pipas, ele vive com sua avó, pois a mãe morreu no parto e o pai, assassinado. Depois de uma briga por conta do alto volume da música na vizinhança, Cerol foge e acaba disparando involuntariamente um tiro em uma mulher, que morre em seguida. Ele acaba preso e é submetido ao julgamento da lei e da sociedade.

Com base nesse argumento, a Companhia de Teatro Heliópolis discute direitos humanos à luz da Constituição Nacional. A encenação recupera também a ancestralidade brasileira em passagens ritualísticas. “Queremos pensar o homem negro e a justiça, desde a nossa origem até os dias de hoje”, afirma o diretor Miguel Rocha.

Cenas impactantes e desconcertantes surpreendem todo o tempo. A encenação de Miguel Rocha, alinhavada pela dramaturgia de Evill Rebouças, mostra como a democracia pode ser manipulada. O crime versus a vítima ou o criminoso versus a justiça aparecem de forma não superficial nem previsível. A abordagem de (IN)JUSTIÇA parte do ponto de vista mais íntimo para aquele mais coletivo: da comunidade para a sociedade, da moral pessoal às convenções sociais. Isso permite, igualmente, as leituras de um mesmo caso jurídico, como no julgamento – defesa e promotoria -, onde ambos os discursos são tão contundentes quanto convincentes. “Para falar de justiça, temos que falar das relações humanas contraditórias, pois a justiça se apresenta pelas contradições”, reflete o diretor.

Permeado por emoções e sensações que fogem da obviedade, o espetáculo tem quadros coreografados que trazem o respiro necessário à dinâmica da encenação: cidadãos urbanos, policiais, advogados com suas togas desfilam pela área cênica e hipnotizam o espectador. Os depoimentos inseridos nas cenas humanizam e tornam crível a proposta da montagem, sejam eles densos, desconcertantes, ou mesmo lúdicos. Segundo o diretor, os três pontos de vista sobre justiça – “o pessoal, o divina e o do homem” – são considerados na concepção de (IN)JUSTIÇA, bem como a máxima que diz “só quem passou por uma injustiça sabe o que é justiça”.

O cenário (Marcelo Denny) situa a força da ancestralidade, presente na terra e no terreiro, na força fria do zinco, na estética religiosa que foge dos estereótipos. Traz também o símbolo da lentidão da justiça com toda sua burocracia em pilhas e pilhas de papéis e processos. Elementos como areia, terra, projéteis de bala e pipas compõem a área de encenação, onde predomina a cor cinza. A trilha (de Meno Del Picchia) e os efeitos sonoros são executados em sincronismo com as cenas. Os atores interpretam cantos de tradição que reforçam a busca pela humanização e pela ancestralidade propostas pelo espetáculo.

(IN)JUSTIÇA nasceu de um longo processo criativo, iniciado em fevereiro de 2018, disparado por encontros dos integrantes da Companhia de Teatro Heliópolis com pensadores ativistas que falaram sobre os vários aspectos da Justiça. Os convidados foram Viviane Mosé (filósofa), Gustavo Roberto Costa (promotor de justiça), Ana Lúcia Pastore (antropóloga) e Cristiano Burlan (cineasta), tendo Maria Fernanda Vomero (provocadora cênica, jornalista e pesquisadora teatral) como mediadora.

O espetáculo integra o projeto Justiça – O que os Vereditos Não Revelam, contemplado pela 31ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.

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Cultura

Ladeira das Crianças: a peça sobre periferia, funk e infância

Por Marina Souza

“As pessoas precisam começar a cruzar a ponte pra cá”, exclama Michele Araújo, produtora e atriz do espetáculo Ladeira das Crianças – Teatro Funk, do Grupo Rosas Periféricas, que fica em cartaz até 18 de maio na Casa de Cultura Municipal São Rafael. Inspirada nos livros “O Pote Mágico” e “Amanhecer Esmeralda”, do consagrado Ferréz, a peça retrata o cotidiano de crianças periféricas e traz elementos do funk como a dança, mais especificamente o passinho, a música, o ritmo e as rimas para compor o enredo.

Fotos: Daniela Cordeiro

Araújo conta que o primeiro contato com estes livros foi há muitos anos em um sarau. Após a leitura, percebeu que assim como ela, os amigos que também leram a obra, sentiam a crescente necessidade de fazer alguma peça baseada nas histórias. No livro “Amanhecer Esmeralda”, Manhã é uma criança negra e moradora de uma comunidade pobre, cujo cotidiano vai sendo modificado por gestos de amor que melhoram a autoestima, empoderando não somente a menina, como também sua família. Já em “O Pote Mágico”, um menino na periferia imagina poder encontrar um pote mágico, como acontece também na peça com o garoto negro Rogério MC (Rogério Nascimento), que ganha dinheiro lavando carros para ir ao baile funk, e sonha com um pote mágico que mudaria sua vida.

A produtora explica ainda que durante o processo de montagem da peça o grupo de atores entrevistou crianças de bairros periféricos paulistanos. Assim, foi possível mesclar as próprias memórias da infância com a realidade atual desta faixa etária. “Fomos improvisando a partir de nossas memórias, entrevistas e os livros”, fala.

O Grupo Rosas Periféricas comemora 10 anos de atividades em maio. O coletivo já fez várias peças com elementos musicais, como rap e samba, em destaque, e o grande gênero da vez é o funk. Para os atores, ressignificar a linguagem e, sobretudo, a imagem que o funk possui atualmente é uma missão importante, pois ele faz com que a periferia sinta-se representada de alguma maneira, a própria Araújo diz que “a linguagem só é marginalizada porque vem das bordas da cidade”.

A dramaturgia é assinada por Marcelo Romagnoli, a partir da adaptação dos dois livros acima citados. O Pote Mágico e Amanhecer Esmeralda. Encenada ao ar livre, a peça reflete sobre a identidade das crianças da periferia e sobre os bens culturais do território, acessados na fase infantojuvenil. Todas as sessões são grátis e acontecem no período de 20 de abril e 18 de maio, com sessões na Praça Osvaldo Luiz da Silveira (Parque São Rafael), na Casa de Cultura Municipal São Rafael e no bairro Capão Redondo.

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Cultura

Amor preto e representatividade marcam obras de Caio Nunez

Com produção de Pedro Guinu e composição do próprio artista, “Lovesong” une elementos do hip hop, jazz e neo-soul, revelando um pouco do próximo álbum do cantor, previsto para o segundo semestre do ano.

Para o filme do projeto, gravado no Rio de Janeiro, o diretor João Pessanha roteirizou o dia a dia de um casal, interpretado por Caio e Jeniffer Dias. É ela a estrela que na novela ‘Malhação’ faz Dandara, homônima à guerreira dos Palmares. “Para mim, uma das maiores virtudes da concepção desse clipe foi contar com uma equipe inteira de profissionais negros. Diante da realidade do mercado audiovisual, considero esse um passo importante”.

Sobre Caio Nunez 

Dono de uma voz doce, levemente rouca e cheia de verdade nas suas emoções, Caio Nunez surge como um dos cantores e compositores mais criativos de sua geração. Misturando MPB, R&B e elementos urbanos, o artista prepara para 2019 seu segundo álbum de estúdio.

Nascido e criado em Irajá, no subúrbio carioca, e influenciado pelo pai músico, Caio lança seu primeiro disco “Akinauê” em 2015. Com seu single “Turquesa” alcança a marca de 250 mil views, além de matérias em diversos veículos pelo Brasil, Portugal, Moçambique e Angola. Foi considerado pelo portal “Armazém de Cultura” um dos melhores discos do ano, ao lado de nomes como Lenine, Elza Soares e Maria Gadú.

O álbum também gerou uma turnê com mais de 50 shows realizados.

No início de 2018, divulgou o clipe ‘Madureira à Bagdá”, distríbuido pela plataforma VEVO e transmitido em canais de TV como MTV, Multishow e BIS.

Foto: Vitor Hugo Silvano

O conteúdo audiovisual, gravado na favela do Pereirão, no Rio de Janeiro, teve como cenário o projeto social ‘Morrinho’. A música entrou em mais de 350 playlists no Spotify .

No mesmo ano, Caio apresentou, em parceria com o  projeto Sofar Sounds, a inédita “Valongo”. Fechando esse ciclo, ‘Afropunk’ chegou com um lyric video inspirado na estética afrofuturista. A track será trilha sonora do  longa “Labirinto”, previsto para 2019.

Atualmente, cantor dedica-se ao lançamento de “Lovesong”, esquentando os próximos passos da carreira.

 
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Cultura

Homenagem a Biu Roque reúne artistas e promete espetáculo emocionante

Nos próximos dias 20 e 21 de abril, o SESC Vila Mariana apresenta espetáculo que celebra a vida e memória do mestre Biu Roque. Falecido em abril de 2010, aos 76 anos, o cantor e percussionista foi um dos músicos mais admirados na Zona da Mata Norte de Pernambuco, notável pelo domínio sobre gêneros tradicionais da região: cavalo marinho, ciranda, coco de roda e maracatu de baque solto.

O show marca, ainda, a estreia de “A Noite Hoje é a Maior”, primeiro álbum solo do artista. Embora o material tenha sido lançado somente em 2018, pela Garganta Records, as gravações aconteceram em 2009 e Biu teve tempo de ouvir e aprovar o resultado final. Canções como “Pé de Lírio”, “Maria Pequena” e “Ô Rio, Cadê Riacho?” integram o projeto.

Biu Roque/Reprodução

Durante as execuções ao vivo, banda base será formada por Fuloresta (sopros/percussão), Caçapa (viola/ guitarra/ direção artística e musical) e Juliano Holanda (guitarra), com participação de Luiz Paixão (rabeca) e Hélder Vasconcelos (fole de 8 baixos). É ele quem também atuará como dançarino. Revezando os vocais, Alessandra Leão (co-direção artística), Siba, Renata Rosa, Mestre Anderson Miguel e dois filhos de Biu Roque: Mané Roque e Maíca Soares.

Serviço

Dias 20 e 21 de abril, no Teatro da Unidade

Sábado às 21h | Domingo às 18h

Ingressos: R$9 (credencial plena/trabalhador no comércio e serviços matriculado no Sesc e dependentes), R$15 (pessoas com +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e R$30 (inteira)

Sesc Vila Mariana – Rua Pelotas, 141

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Mobilização

Rede contra genocídio em São Paulo enfrenta violência do Estado

Por Marina Souza

O que gerou interesse em Fernando Ferreira, estudante de Pedagogia, a ingressar na Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio foi a “proposta de criar formas de enfrentamento nos territórios onde familiares e amigos sentem na pele o resultado da atual política de segurança”. Após pouco mais de um ano da decisão, ele comparece às reuniões e constrói vínculos com as diferentes frentes envolvidas no grupo, que tem como missão analisar em São Paulo casos de injustiças cometidos por agentes do Estado, sobretudo contra pessoas periféricas e/ou pretas.

Prisões de inocentes, torturas e assassinatos cometidos por policiais viram alvo de discussões e – principalmente – investigações na Rede. Marisa Feffermann, pesquisadora sobre juvenicídio na América Latina, explica que os integrantes do movimento se dividem em diferentes grupos de articulação, alguns lidam com o Ministério Público, outros com a Polícia, Defensoria Pública, militantes políticos ou os familiares das vítimas. Participando de Fóruns em São Paulo, Osasco e ABC Paulista eles realizam cursos, com três meses de duração, em regiões periféricas para mostrar um mapeamento coletivo a respeito das principais zonas de violência.

“É como se a gente fosse uma escuta das quebradas para o poder público”, defende Feffermann.

Fotos: Divulgação

Os quatro jovens presos injustamente no final do ano passado após serem acusados de roubar um carro foram soltos meses após um insistente pressionamento público organizado pela Rede, que conseguiu reunir provas e inocentar os garotos. Atualmente a organização também mobiliza atos de protesto contra casos de racismo como o que aconteceu com Vitor Vinicius, jovem negro de 20 anos que foi agredido e humilhado na estação de metrô Tucuruvi, no início deste mês.

O diretor executivo do IREC – Instituto Resgata Cidadão, Maurício Monteiro, de 49 anos, é ex-detento e confessa que mesmo não devendo mais nada a Justiça e tendo curso superior, sente que sofre com preconceito. Atualmente ele faz parte da equipe da Rede porque acredita que “quanto maior uma rede, maior seu alcance e maior a pesca”.

A organização da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio foi resultado do I Seminário Internacional Juventudes e Vulnerabilidades: Homicídios, Encarceramento e Preconceitos, ocorrido em 2017 na Faculdade de Direito da USP e na escola de samba Combinados de Sapopemba. O próximo evento deste estilo acontecerá em 11 de maio, o Seminário: O Direito no Enfrentamento à Violência De Estado discutirá estratégias jurídicas de instituições e pessoas diante das práticas violentas do Estado.

Apoio vs. oportunismo

Na madrugada em que Marielle Franco foi assassinada no Rio de Janeiro, dois adolescentes, de 13 e 17 anos, tinham sido mortos em Osasco, conta Marisa Feffermann.”Um dos integrantes da Rede ligou pra gente e disse que tinha acabado de acontecer uma chacina. Chegamos lá e não tinha ninguém do Conselho Tutelar ou Serviço Social. Nós chamamos várias pessoas para ir ajudar, mas tava todo mundo no ato da Marielle. Isso é muito simbólico.”, relembra e critica a enorme repercussão da frase “ninguém solta a mão de ninguém”, que surgiu nas redes sociais após a vitória do então candidato á presidência Jair Bolsonaro (PSL). Segundo a pesquisadora, a grande maioria que reproduz esse discurso é apenas da boca para fora

A pesquisadora confessa que ao ir nas “quebradas” percebe que a palavra “medo” é constantemente mencionada pela população local. E por isso, sente que é necessário informar sobre a Rede, ressaltando que há, de fato, articulações de resistência nas quais depositar confiança e apoio.

Assim como ela, Fernando Ferreira pensa que grupos como a Rede são cada vez mais fundamentais, devido a existência daquilo que chama de “política da morte”. Para ele, enfrentar as injustiças através de estratégias coletivas, organizadas e com pouca exposição das vítimas é essencial para defender tais causas. “A rede está se fazendo. Só o dia a dia nos trará essa resposta, mas posso afirmar de maneira muito tranquila que temos muito a contribuir nessa discussão em qualquer lugar do país”, defende na esperança de que mais pessoas apoiem o movimento.

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Genocídio Negro

Vidas negras em tardes de domingo

Luciana Nogueira, esposa do músico Evaldo dos Santos Rosa, morto no domingo, 7 de abril, durante uma ação do Exército na região da Vila Militar, na zona norte do Rio de Janeiro, em desespero diante do corpo do marido e do carro cravejado com 80 tiros

 

Eu me lembro com saudade
O tempo que passou
O tempo passa tão depressa
Mas em mim deixou
Jovens tardes de domingo
Tantas alegrias
Velhos tempos
Belos dias

– Roberto Carlos

 

Tô cansado dessa porra
de toda essa bobagem
Alcolismo,vingança treta malandragem
Mãe angustiada filho problemático
Famílias destruídas
fins de semana trágicos

– Racionais Mc’s

 

Por Douglas Belchior

Fotos: Rosa Caldeira; Jorge Ferreira; Mídia Ninja; Alma Preta; Ponte Jornalismo; Bianca Santana

 

Quando criança ouvi muito Roberto Carlos. Meus pais gostavam. Memórias de criança que, vez ou outra, voltam. Depois cresci, estudei. Percebi e entendi por que as tardes de domingo felizes das canções da jovem guarda, as tardes em que “Canções usavam formas simples / Pra falar de amor / Carrões e gente numa festa / De sorriso e cor…” não eram em nada parecidas com as tardes de domingo lá de perto de casa, na zona leste de SP. Racionais MC’s, melhor que ninguém, nos explicou como funciona o nosso fim de semana: “Olha só aquele clube que da hora / Olha o pretinho vendo tudo do lado de fora…”

Tenho 40 anos e desde os 17 participo de protestos contra a violência da polícia e pelo fim do assassinato sistemático de pessoas negras no Brasil. As vezes me pego pensando quanto tempo da vida dediquei à isso, ocupando ruas não só em dias de protestos, mas no dia a dia em salas de aula no trabalho em escolas públicas ou nos finais de semana em cursinhos populares. Vejo os militantes mais velhos que teimam em continuar a luta. Eles já fazem isso há 30, 40, 50 anos, ocupando suas horas de descanso entre um dia e outro de trabalho ou em feriados ou em finais de semana, sábados e tardes de domingo. Que destino é esse que não nos permite apenas viver nossas vidas, desfrutar de domingos com a família, com namoro, com amigos ou simplesmente tomar uma cerveja diante da TV em dia de final de um campeonato de futebol. Que triste necessidade esta, ter que dividir um tempo tão raro que poderia ser de felicidade e gozo, com a melancolia e a tristeza de velórios, ajuda humanitária e protestos. E pior, agradecer por estar vivo e se cuidar para não ser o próximo alvo de uns 80 tiros em alguma estrada qualquer.

Mas qual seria a opção a isso? Viver como se não soubéssemos? Olhar para os incontáveis corpos e não reparar a semelhança? Salvar a “própria pele” e ignorar o cheiro forte de carne queimada que invade nossas narinas todos os dias?

Não é possível!

Neste dia 14 de abril de 2019, mais de mil pessoas dedicaram sua tarde de domingo à memória de Evaldo, homem negro fuzilado em praça pública com 80 tiros, pelo exército brasileiro. Mais um dia dedicado a denunciar ao mundo os governantes genocidas que lideram nosso país. Um país que vive em guerra.

Obviamente, uma situação em que o exército fuzila com 80 tiros, um carro com uma família dentro, em plena via pública numa tarde de domingo, só não chama a tenção e não provoca revolta em pessoas com algum tipo perverso de psicopatia. Mas é preciso dizer que situações absurdas acontecem com mais frequência que se imagina. Como não lembrar dos 111 tiros da Policia Militar em um carro com 5 garotos negros, no Rio de janeiro, em 2015; Ou da chacina da Cabula, também em 2015, em Salvador na Bahia, quando a polícia enfileirou 12 jovens em um campo de futebol para o fuzilamento; Ou Amarildo, preso torturado e morto pela PM do Rio em 2013; Ou de Cláudia Silva Ferreira, mulher negra, baleada pela PM e depois arrastada por mais de 250 metros, em via pública, por uma viatura policial; E as diversas crianças mortas nas ações das polícias no Rio e em outros estados; E Marielle Franco, assassinada por ex-policiais milicianos. Isso para citar só alguns.

Para além de casos que ganham repercussão nos meios de comunicação, é necessário dizer que assassinatos de pessoas negras em si são absolutamente corriqueiras neste país.

No último período, a polícia brasileira matou em 5 anos mais do que todas as polícias norte americanas em 30 anos de trabalho. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil.  O Estado brasileiro, direta ou indiretamente, promove o genocídio da população negra. Estudos diversos, como por exemplo, a do Atlas da Violência, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), relatam que em 2016, o Brasil alcançou a marca histórica de 62.517 homicídios. Isso equivale a uma taxa de 30,3 mortes para cada 100 mil habitantes, que corresponde a 30 vezes a taxa da Europa. Quando recortados por raça/cor comprova-se o genocídio: 71,5% das pessoas que são assassinadas a cada ano no país são pretas ou pardas.

No texto, números são apenas números. Conviver com isso, diariamente, é outra coisa.

Por isso sou profundamente grato pela companhia de militantes, homens e mulheres que nos momentos mais difíceis, pegam uns nas mãos dos outros para lembrar e reafirmar nossa missão e de que não estamos sozinhos nela. Obrigada.

Barrar o genocídio negro é tarefa histórica no Brasil e no mundo. Nossa geração fará sua parte!

Justiça à Evaldo Rosa e à todas e todos os assassinatos de pessoas negras, desde o primeiro navio repleto de escravizados até o carro e o corpo cravejados por 80 tiros!

Sobre o protesto

Grupos ligados a movimentos negros se encontraram neste domingo (14) na Avenida Paulista, para celebrar a memória no 7 dia da morte do músico Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos, no último domingo (7) no Rio de Janeiro. Rosa foi morto quando o carro que dirigia foi alvo de pelo menos 80 tiros de fuzil disparados por soldados do Exército.

Com o nome “80 tiros em uma família negra, 80 tiros em nós!”, o ato se reuniu em frente ao Museu de Arte Assis Chateaubriand (Masp).

Uma imensa faixa com a frase “Parem de atirar em nós” marcou o protesto. Manifestantes se alternaram no microfone para falar sobre a perseguição de negros na periferia.

 

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#EvaldoVive

#ContraOGenicidiodoPovoNegroBrasileiro

#UneafroResiste

#BlackLivesMatter

#VidasNegrasImportam

#ParemDeNosMatar

#ParemDeAtirarEmNós