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Filosofia Formação

Por que a verdade é monstruosa?

Por Douglas Rodrigues Barros[1]

 

Nos idos de 2010, quando o senhor ex-presidente Lula dizia a plenos pulmões que enquanto nos países centrais a crise econômica do subprime tinha sido um tsunami, no Brasil tinha sido apenas uma marolinha. Estava eu nas fileiras de um debate com a presença de um grego que acompanhava as fortes revoltas em Atenas. Naquela época escutei da boca dele algo que tomei como premonitório e que se revelaria previdente mais tarde: “O Brasil não passa por nenhuma crise”, dizia, “E já é essa barbárie… imagina quando a crise chegar por aqui!”.

Como sabemos, a crise chegou e trouxe à luz o que só se sentia no inconsciente coletivo da chamada esquerda. Toda podridão reacionária subiu dos bueiros e ratos de todo tamanho ocultados pelas valas perderam o medo e saíram das sombras. Como num relógio com ponteiros atrasados, experimentamos só muito depois – em descompasso com o mundo desenvolvido – o fracasso da experiência trabalhista. A degeneração imposta pela legalidade e rotinização da pauta dos trabalhadores, o fracasso modernista, a noção de progresso teleológico rumo ao futuro desenvolvimentista encontraram limites incontornáveis. Atingíamos o fim do ciclo de uma experiência que se iniciou com a Carta de 1988 e, com ele, todos os restos podres da velha oligarquia que tinha sido ocultado pelo pacto de paz social vieram à luz.

Os sonhos de aplicar um modelo mais humanista ao capital com um governo capaz de levar as pautas sociais adiante por uma via parlamentar e democrática, verteu-se em pesadelo. Ainda que promovamos imensos debates com os pensadores da moda do Facebook. Ainda que suprimamos e abafemos qualquer voz crítica e destoante do reformismo-conservador e dos bons modos democraticistas no balcão de negócios chamado Estado. Ainda que queiramos convencer a imensa maioria que a política se faz desse modo. A verdade de uma democracia representativa feita para evitar uma democracia efetiva revela sua face mais cruel, qual seja: o assassinato diário de jovens pobres e negros promovido pelo Estado. Como diz o panfleto anarquista: “até no seu silêncio, a população parece infinitamente mais adulta do que todos os fantoches que se atropelam para a governar”.

O atual modelo de gestão da barbárie parece ter se esgotado e nada há no horizonte que aponte algo propositivo, pegos de calça curtas, enquanto a ingenuidade clama por uma suposta unidade da esquerda conquistada pela submissão de toda divergência a pauta governista e eleitoreira, a direita avança disputando o imaginário daqueles que ela explora. A barbárie do governismo de esquerda que era inconsciente, isto é, se aplicava só nas periferias pelo extermínio da juventude pela polícia, nas áreas rurais tomadas pelo agronegócio, pelo roubo das terras indígenas, se tornou doravante consciente e já em Copacabana é possível ver tanques de guerra desfilando. Temer é sua mais concreta verdade.

Do lirismo democrático-representativo e bem-comportado a população, entretanto, parece estar farta! Mas, o grosso da esquerda – em sentido literal – espera calmamente a eleição de 2018 para emplacar sua reconquista da desgraça. Enquanto a palavra revolta sumiu do dicionário da esquerda, a palavra revolução se tornou coisa de herege. As marchas cívicas que imitam o modus operandi da extrema direita – passeata bem-comportada aos domingos – sugerem sua verdade. Atores globais engrossam as fileiras, o simbólico vazio de conteúdo só deixa evidente a emergência e a posição de recuo.  O horizonte decrescente caminha como um colosso desperto a largos passos.

Parece que a derrota da esquerda se tornou inevitável porque o próprio modelo de que é partidária se esgotou, não apenas politicamente, mas, principalmente economicamente. Aliás, o modelo político só se esgotou porque o modelo econômico não encontra mais possibilidade de crescimento senão pela imposição da repressão clara, direta e massacrante. Enquanto a esquerda romanceia nostalgicamente uma volta quase sebastianista de Lula, a direita sabe muito bem cumprir a agenda de que é perita. A direita toca fogo em Roma, seremos nós os bombeiros?

É passado o momento de uma crítica que não tenha medo dos excessos. O exagero é condição necessária de tornar o impossível, possível. Não resta outra coisa. A pena para a covardia ou a reticência perante o óbvio é a morte de centenas na fila dos hospitais que já passam pelo desmonte do governo que usurpou o poder; é o analfabetismo funcional beligerantemente fascista que grassa nas periferias como única forma de superar a crise; é a instituição da monstruosidade feudal ligada as oligarquias financeiras que tomarão conta de áreas populares essenciais, enquanto a nova religião sob a insígnia de neopentecostalismo capitalista fomenta um país fundamentalista, surdo e violento. É preciso que a imaginação estruture uma nova forma de sociabilidade.

Ao mesmo tempo é necessário puxar o tapete de esperança dessa esquerda que hoje já se apresenta como uma peça envelhecida no xadrez do capital. Essa esperança é o conformismo de se aguardar até que as coisas voltem para seu devido lugar. É preciso dizer de novo: não há mais lugar, os limites foram implodidos pelo desenvolvimento histórico do capitalismo. Como dizia o sábio Abujamra: “a esperança fodeu a América Latina!”. A pergunta que deve ser feita é: será mesmo que o parlamento não se tornou o fim fetichista dessa esquerda? Será mesmo que o único intuito que ela tem não é senão retomar a governabilidade do barco que lentamente naufraga e os delírios de acreditar ter nas mãos o poder?

A falência dessa esquerda que se forjou nos idos finais da década de 1970 demonstra que aquela paixão pela pratica, imediata e irrefletida, legitimou não apenas um falso ativismo, como também, uma falsa alternativa emancipatória. A ação desesperada mediante a crise deve ser o monopólio dessa esquerda, que atávica, acredita que sua forma de vida permanece intacta enquanto dá seus últimos suspiros. Não estava certa as palavras do esquecido revolucionário que cem anos atrás deixava um importante ensinamento quando dizia que: “as divergências de opinião entre partidos políticos […] são em geral resolvidas pelo próprio correr da vida política e pelos debates teóricos. Em especial, sob a pressão dos acontecimentos, que desmentem os raciocínios errados e os privam da sua razão de ser”?

Para seguir esse ensinamento, entretanto, é preciso nos despojar das velhas figuras cujo cadáver já cheira mal, pois a pressão dos acontecimentos indica que erramos, o que é comum e esperado, se agarrar ao cadáver e apodrecer com ele é, no entanto, patológico. Isso nos ensina algo elementar, nós nos refugiamos em cenários catastróficos para evitar a contradição concreta da vida, as imagens da catástrofe, tão amplamente divulgada pela torpe TV brasileira, a polarização virtual e o xingamento satisfatório, em vez de fornecer o acesso ao concreto da vida, a vida real, funcionam como escudo protetor contra a concretude. Isso se revela na confortável sensação de que a tragédia só acontece com o outro. É como uma medida de defesa desesperada que erguemos os fantasmas virtuais e as soluções que giram no interior abstrato da rede social. Eis porque a verdade é monstruosa, porque nos revela nessa patologia que no fundo todo esse apego e polarização é baseado num narcisismo das pequenas diferenças. Esquerda/Direita se tornaram o mesmo bater de botas. Só iremos nos distanciar disso se formos insubmissos ao que reza a cartilha do mercado[2].

 

 

 

NOTAS

[1] Acabou de publicar o livro Cartas Estudantis, é doutorando em filosofia política pela Unifesp e membro do CEII.

[2] Tanto o título quanto essa reflexão foram obtidas através da obra de Žižek, O absoluto frágil, sobretudo no capítulo homônimo ao meu artigo

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