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Protestos contra o racismo da polícia nos Estados Unidos: que nos sirvam de exemplo

Por Douglas Belchior

Um jovem negro é morto pela polícia. Algo corriqueiro no Brasil está provocando um dos maiores levantes populares dos últimos anos nos EUA.

Por aqui, o próximo dia 22 de agosto será de ação. Em todas as capitais do país, a partir de Salvador-BA, negras e negros devem ocupar as ruas na II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro.

Que a radicalidade de negras e negros estadunidenses nos sirva de exemplo.

Abaixo, com tradução de Tomaz Amorim Izabel, uma matéria veiculada pela Aljazeera no último dia 15 de Agosto.

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Fonte: Aljazeera – Anna Lekas Miller

Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Haverá responsabilização pela morte de Mike Brown?

Depois de seis dias de protestos que se seguiram aos tiros fatais no adolescente Michael Brown, disparados por um oficial de polícia do subúrbio de St. Luis em Ferguson, o departamento de polícia identificou o assassino de Brown. Darren Wilson, um veterano de seis anos da força policial, encontrou o adolescente depois de ter sido alertado de um assalto em uma loja de conveniência, afirmou o departamento de polícia na sexta-feira. Inicialmente, a polícia de Ferguson resistiu em revelar o nome de Wilson porque eles disseram que estavam preocupados com sua segurança.

Para defensores dos direitos civis, a revelação é o primeiro passo para seguir o chamado do Presidente Barack Obama na quinta-feira para uma investigação “aberta e transparente” sobre o assassinato de Brown, de 18 anos. Mas para os familiares das vítimas de violência policial, tal apelo à transparência parece muito frequentemente vazio.

Constance Malcolm diz que ela tem lutado por justiça para seu filho Ramarley Graham desde que o adolescente do Bronx foi morto por um policial à paisana de Nova York em Fevereiro de 2012. Graham, como Brown, era um afro-americano e estava desarmado quando foi baleado.

“Os últimos dois anos e meio têm sido difíceis para mim, ponto”, disse Malcolm em uma entrevista de telefone. “Eu fico aqui sentada, esperando por alguma responsabilização pelo meu filho, e ainda não consegui”.

Graham estava andando com amigos quando dois policiais o seguiram até em casa, entrando sem mandato, e atiraram nele em frente de sua avó e de seu irmão de 6 anos de idade. Richar Haste, o policial que atirou, disse que ouviu colegas dizerem no rádio que Graham tinha uma arma.

Embora Haste tenha sido indiciado por dois casos de homicídio culposo em uma corte criminal do Bronx naquele Junho, as acusações foram posteriormente abandonadas porque o promotor falhou em seguir o procedimento do júri. O Departamento de Justiça prometeu revisar a morte de Graham, mas um ano depois que a agência anunciou a possível investigação, seus pais dizem que não ouviram mais nada.

 “Em 8 de agosto completou um ano desde que eles iam, supostamente, olhar o caso e nós não ouvimos mais nada”, disse Malcolm. “Nossos advogados os contataram, eles têm telefonado, e mesmo assim nós não recebemos nenhuma resposta”.

Brown e Graham são apenas duas pessoas em uma longa lista de vítimas de violência policial – a imensa maioria deles jovens homens de cor. De acordo com um relatório de 2012 do Malcolm X Grassroots Movement, a cada 28 horas um homem negro é assassinado por um policial, segurança privado ou patrulheiro nos Estados Unidos. Apenas no mês de agosto, houve quatro assassinatos de homens negros desarmados: Eric Garner em Staten Island, Nova York; John Crawford em Beavercreek, Ohio; Brown; e mais recentemente, Ezell Ford em Los Angeles.

Embora muitos deste supostos crimes sejam investigados, através de investigações internas ou federais, os inquéritos raramente resultam em acusações. A punição mais comum, de acordo com os defensores dos direitos civis, é ser colocado em serviço administrativo.

“Nestes casos onde houve brutalidade policial, nós raramente vemos responsabilização porque a realidade é que o sistema de justiça local frequentemente trata estes oficias de maneira completamente diferente do que civis”, disse Priscilla Gonzalez, diretora de organização da Comunidades Unidas para Reforma Policial, um grupo de advogados.

Ela e outros advogados dizem que o caso de Garner, que sufocou até a morte em Julho depois de ter sido vítima de um enforcamento por um policial, demonstra os dois pesos e duas medidas. O médico que o examinou determinou que sua morte foi homicídio, mas não houve nenhuma prisão, e o grande júri não foi convocado. Daniel Pantaleo, o oficial que enforcou Garner, perdeu seu distintivo e foi colocado em serviço de escritório. (A polícia de Nova York não respondeu ao pedido de comentário no caso de Garner até o momento de publicação deste artigo).

“As lideranças no governo local, como os prefeitos da cidade de Nova York, não têm demonstrado vontade política de garantir que policiais sejam responsabilizados por qualquer que seja o sistema interno existente”, disse Gonzalez.

Embora o FBI tenha aberto uma investigação no caso de Brown nesta segunda-feira, não há garantia de que ela levará a alguma responsabilização, assim como aconteceu com Graham.

Apenas um ano depois do assassinado de Graham, Kimani Gray, de 16 anos, foi baleado fatalmente por um policial à paisana da polícia de Nova York na parte East Flatbush do Brooklyn. Gray estava andando para casa vindo de uma festa de aniversário quando foi baleado sete vezes, depois, de acordo com os policias, de ajeitar de forma suspeita seu cinto. Embora a polícia diga que ele estava portando uma pistola calibre 38, nenhuma arma foi encontrada no local do crime.

Assim como no caso da morte de Brown, o assassinato de Gray gerou dias de tensão, com cenas parecidas de manifestantes tomando as ruas e repressão brutal da polícia. Alguns meses depois, a Sociedade Muçulmana de Oficiais da Polícia de Nova York selecionou o Sargento Mourad Mourad, o policial que matou Gray, para ser homenageado como Policial do Ano por seu “trabalho policial ativo”, mesmo que ele ainda estivesse sob investigação. Por causa da pressão popular, Mourad se recusou a receber o prêmio e não participou do evento.

Em 29 de julho deste ano, um pouco mais de uma semana antes do assassinato de Brown, a polícia de Nova York fechou sua investigação sobre o caso de Mourad e seu parceiro, Jovaniel Cordova. Promotores federais informaram os advogados da família de Gray que as acusações não iriam contra os policiais e que o caso não iria ao grande júri. Assim como Haste antes dele, Mourad ficou livre.

Os oficiais Sean Williams e o sargento David Darkow, os policias que atiraram em Crawford depois que ele se recusou a abaixar a réplica de um rifle em um Walmart, atualmente estão em licença administrativa, mas o chefe da polícia de Beavercreek, Dennis Evers, mencionou que ele apóia a “resposta rápida” dos oficiais. O policial de Los Angeles que matou Ford não foi nomeado pela mídia.

Malcolm tomou em suas próprias mãos a busca por justiça. Em 8 de agosto, o primeiro aniversário desde a abertura das investigações sobre a morte de Graham e, coincidentemente, o dia antes do assassinato de Brown em Ferguson, ela começou a recolher assinaturas para uma petição que pressionará o Departamento de Justiça a seguir com sua investigação sobre a morte de Graham e a reunir um grande júri para indiciar Haste. Ela planeja entregar pessoalmente a petição para o Departamento de Justiça em 20 de agosto.

“Até que um destes oficiais que cometem crimes seja mandado para a cadeia pelo seu crime, isto vai continuar”, Malcolm diz. “Quantas pessoas depois de Ramarley nós temos visto? Não há nenhuma responsabilização destes policiais. Eles se safam de assassinatos todos os dias”.

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