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Igualdade racial

“Quem escreve os jornais não vive nas comunidades negras”, diz jornalista do NY Times

Jornalistas expõem os desafios enfrentados pela negritude na mídia, durante o Congresso de Jornalismo Investigativo da Abraji.

Por Lais Rocio, de Vitória/ES

Foto: Alice Vergueiro | Abraji

No palco do 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, a premiada jornalista americana Nikole Hannah-Jones mostrou o que significa investigar o racismo, revelado em quase todas as estatísticas de realidades como educação, desemprego, moradia e saúde. E ela se dedica a comprovar essa desigualdade:

“Hoje nos EUA, existem mais homens negros nas prisões do que havia na escravidão. Não somos gratos por não sermos mais escravos, porque nunca deveríamos ter sido. Medimos o progresso de um país pela igualdade.”

Tudo isso é o que Nikole retrata em suas reportagens investigativas sobre injustiça racial na New York Times Magazine. Em sua trajetória, ela já foi reconhecida por diversas premiações de mídia, como o Peabody Award e National Magazine Award. Foi eleita jornalista do ano pela National Association of Black Journalists em 2015, e no ano passado foi nomeada pelo MacArthur Fellowship, considerado uma prêmio para gênios. Tudo isso prestigiou seu ofício diário de descobrir as reais decisões e ações políticas que sustentam a exclusão e violência contra a negritude hoje, e propositalmente:

“Meu trabalho mostra que a segregação racial é intencional. Alguém decide investir menos recursos e menos qualidade nas escolas para pobres e negros.”, afirma ela.

Ao longo de 15 anos de carreira em diversos veículos, ela acredita no poder de contar a sua própria história ao retratar as comunidades de uma parte dos Estados Unidos que, de acordo com ela, muitos brancos não conhecem:

 “Quando você faz parte de um grupo marginalizado, você acredita que é culpa sua se sua escola ou bairro são ruins. Mostrar que não é culpa deles dá poder para que saibam que merecem mais”, reconhece Hannah-Jones, sobre um cenário em que ela mesma foi criada, onde era inimaginável que um dia trabalhasse no New York Times.

Foto: Alice Vergueiro | Abraji

Ser preta em um cargo de destaque, abordando questões raciais dentro de empresas de comunicação “embaraçosamente brancas”, como caracteriza, fazem dela porta-voz dos desafios e realizações vividos ao longo do tempo pela negritude na profissão. Assim como muitos, ela passou por um período difícil na carreira: quando foi desencorajada por seus chefes a não escrever sobre raça.

“Durante muito tempo, os jornais não contratavam repórteres negros. A mídia era tão branca que ignorava as pessoas negras em suas comunidades. Acredito que temos esse mesmo problema ainda hoje”, conta ela, relembrando um período em que novas organizações precisaram ser criadas por essas pessoas para reportar esses temas, principalmente os históricos movimentos nacionais contra a segregação racial nos EUA, na década de 1960.

 

A imprensa negra também teve sua presença no Brasil, retratando essas lutas no país durante os anos 70. Foi o Jornal Versus, veículo paulista que inclusive denunciou o racismo da Ditadura Militar. Tudo isso existiu em consequência de uma situação que Hannah-Jones descreve incisivamente: “essas instituições foram sendo criadas porque pessoas pretas eram barradas nas instituições com maioria de brancos, e queriam contar suas próprias histórias”.

Neusa Maria Pereira, jornalista e fundadora do Movimento Negro Unificado, exibe páginas do Jornal Versus. Foto: Sérgio Silva | Ponte Jornalismo

 

E quando falta representatividade nas redações, de acordo com Nikole, significa que as histórias da negritude não são contadas. Ou são tratadas com estereótipos, e não com humanidade. Para tornar as reportagens e seus bastidores mais diversos, ela fundou e atua na Sociedade Ida B.Wells, que treina a juventude preta para o jornalismo investigativo, lutando contra todos os efeitos da exclusão racial nesses espaços

 

Negritude no jornalismo brasileiro

Amazônia, São Paulo e Rio de Janeiro

Além de Nikole Hannah-Jones, o 13º Congresso da Abraji, entre os dias 28 e 30 de junho, em São Paulo, também teve a presença de outros repórteres negros, que no Brasil lutam por notícias do povo preto não só nas páginas de crimes e esportes.

Para dar visibilidade inclusive às comunidades afrodescendentes da região amazônica, a jornalista e feminista Kátia Brasil foi uma das fundadoras da agência Amazônia Real. Na empreitada de retratar a vida de quilombolas, indígenas e diversos povos tradicionais, a equipe decidiu priorizar essa diversidade também nos bastidores: “Nas reportagens, dividimos as tarefas com igualdade de raça e gênero, temos fotógrafas pretas e repórteres indígenas”, conta Kátia, durante debate no Congresso sobre a mídia na Amazônia.

Foto: Alberto César Araújo | Amazônia Real

Ao longo dos 30 anos de profissão, pelos principais veículos da imprensa brasileira, raramente via mulheres negras como ela em cargos de chefia, o que dificultava na cobertura do racismo:

“Quando os jornais são majoritariamente dominados por homens brancos, é difícil contar a história da desigualdade racial no Brasil”.

 

E para falar sobre isso nas periferias de São Paulo, a Agência Mural surge de dentro dessas comunidades. Com pretas e pretos cobrindo diversos movimentos culturais afrodescendentes espalhados pelas favelas paulistanas, esse tema tornou-se natural e não apenas um recorte.

O editor-chefe de jornalismo da Mural, Paulo Talarico, acredita em abordar os direitos da população negra como direitos da sociedade em geral: “A gente precisa entrar nos jornais de forma diferente do modelo que cobre apenas casos negativos e de violência. Cada pauta merece mais cuidado e sensibilidade com isso”, observa Paulo.

No Rio de Janeiro, a americana Kiratiana Freelon vive como jornalista freelancer há três anos, reportando para veículos internacionais sobre a vida de diversos afro-brasileiros, e principalmente sobre a luta feminina e negra na política. Uma de suas maiores reportagens foi sobre a morte da vereadora Marielle Franco, o que a fez perceber a voz que essas histórias têm tido:

“As pessoas querem saber mais sobre as mulheres pretas no Brasil e seus problemas”.

Foto: Kiratiana Freelon | Arquivo pessoal

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