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Racismo nos EUA, no Brasil e no mundo: “O corpo negro habita a zona da morte”

Por Douglas Belchior

 

Jovem, negro, nordestino, migrante e morador das periferias da baixada santista, onde o índice de assassinatos promovidos por policiais e milicianos é dos mais altos do estado de São Paulo. Na contramão dos desejos juvenis, dedicou-se aos estudos em um cursinho pré-vestibular comunitário. Chegou à universidade. Formou-se em Jornalismo. A partir da ação política dos cursinhos, conquistou bolsa para mestrado nos Estados Unidos. Emendou um doutorado e se tornou um especialista sobre a questão racial nas Américas. Hoje, Jaime Amparo Alves é PhD, pesquisador visitante do Africana Research Center, Penn State University (EUA) e investigador associado do Centro de Estudios Afrodiasporicos (Universidad Icesi). É como um militante do movimento negro brasileiro, contudo, que Jaime descreve o levante negro que tomou as ruas de diversas cidades norte-americanas desde o assassinato do jovem negro Michael Brown. Vale a pena ler . E revoltar-se.

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De Ferguson a São Paulo: entre a zona do não-ser e a rebelião permanente

Jaime Amparo Alves*

Hesitei em escrever sobre o assassinato de Michael Brown, em Ferguson, no estado do Missouri, no ultimo dia 9 de agosto.  Não há nada de novo nas imagens televisivas de um jovem  negro de 18 anos abatido a tiros nas ruas de uma cidade onde quer que seja. Afinal, enquanto Brown era assassinado em Ferguson, no sul do continente outros jovens negros encontravam a morte nas mãos da polícia militar.

Do outro lado do Atlântico, a comunidade negra relembrava o Massacre de Marikana, quando em 16 de agosto de 2012 a polícia sul-africana assassinou 34 trabalhadores negros que protestavam por melhores salários. Estas e tantas outras mortes que ainda virão são a reiteração de uma “verdade racial” que não deixa dúvidas sobre  o lugar do corpo negro em “nossas” sociedades.

Talvez tenha sido Franz Fanon quem tenha melhor articulado em palavras a impossibilidade negra no mundo social. Para ele, nós negras e negros habitamos uma zona chamada “a zona do não-ser”. Somos,  por assim dizer, civilmente/socialmente mortos e é essa morte ontológica (a impossibilidade de sermos reconhecidos/as como parte da comunidade humana) o que faz possível a existência civil branca. Não é estranho, portanto, que a solidariedade na luta antirracista quase sempre resvala na impossibilidade branca de pensar no que Fanon chamou de “exclusividade recíproca”. Em suas palavras: “não é possível reconciliação porque, dos dois termos [o branco e o negro] um é supérfluo” (1963, 39). Qual?

Deixo para outra ocasião a questão da cumplicidade branca com a morte negra, um incisivo campo teórico – me vem a mente o inovador trabalho de Lourenço Cardoso – que tem se ocupado disso mostrando como os brancos lucram com suas identidades. Vou me ater a outro aspecto: a (im)possibilidade de resistir a violência do estado racial. Desde o sábado, quando Michael Brown foi assassinado, os Estados Unidos têm registrado revoltas urbanas que lembram os protestos “violentos” de Los Angeles, em 1992, quando as câmeras de vídeo flagraram policiais espancando um jovem negro nos subúrbios da cidade.

As revoltas nas cidades estadunidenses são um lembrete da ausência de espaço político para a questão negra dentro da chamada sociedade civil. Os canais tradicionais de manifestação aqui e lá não dão conta de responder aos desafios das pessoas negras. Na verdade, eles parecem parte do problema. Neste sentido, os protestos pacíficos dos brancos progressistas, e daqueles negros que conseguiram um “lugar” ao sol, se contrastam com as furiosas demonstrações de “basta” de uma juventude encurralada nos guetos.

Vale sublinhar o outro lado da América de Barack Obama: são pelo menos 2 milhões de pessoas encarceradas.  Em muitos dos subúrbios, há mais homens negros encarcerados do que nas universidades. As projeções mais otimistas dão conta de que em 2020 pelo menos 1 de cada 4 jovens negros estarão atrás das grades.

Segundo o National Poverty Center, pelo menos 15% dos estadunidenses estão na pobreza  e, de acordo com o Departamento do Trabalho dos EUA,  a taxa de desemprego entre os negros é de 11,4% (contra 6,2% da população em geral). Desnecessário dizer que a condição negra nos EUA reflete a situação em que se encontram os negros no Brasil, na Colômbia, na África do Sul, no mundo.

Aqui entre nós,  a polícia mata em proporções semelhantes à polícia sul-africana no período do apartheid; como na Colômbia, as mulheres negras ocupam o mesmo lugar do período colonial, na cozinha dos senhores brancos;  as nossas favelas são um espelho do regime de segregação racial sul-africano e estadunidense. O corpo negro habita a zona da morte (física, simbólica, ontológica) e, quando as balas da polícia o atingem, sua eliminação física é “apenas” a reiteração de múltiplas mortes.  É possível concebermos a ideia de alguém morrer várias vezes?

O que o assassinato de Michael Brown, Travin Martin, Claudia Ferreira, Amarildo Silva e tantos outros nos lembra é que a morte negra não é tragédia. Ela carece de um registro político para ser considerada como tal. Nem o Estado nem a sociedade civil podem nos ajudar nesse “registro” porque ambos fazem parte de um projeto racial que requer uma guerra permanente contra nós negras e negros.

É neste sentido que se tornam ridículos os termos do nosso debate (me incluo aqui) em torno de figuras negras que buscam salvar a República e extirpar os defeitos de nascença do estado, como se o corpo negro que ocupa tais espaços deixasse de ser lido a partir do registro da negação ontológica. Onde residiria a possibilidade de resistência para quem lhe é negada a possibilidade de ser?Existe, de fato, possibilidade de politizar a morte negra se a morte negra não ganha, perante a sociedade civil, o status de assassinato?

Como fica visível nas manifestações que tomam as cidades estadunidenses agora, que explodiram nos subúrbios de Paris em 2005, no bairro de Soweto, em 2012, e seguem nos levantes da juventude negra Brasil afora, a politização da morte negra só é possível a partir de uma prática radical e autônoma. A morte negra cria condições de possibilidades para uma comunidade política constituída na violência legítima, na dor e na raiva.

Como nos lembra João Costa Vargas, a diáspora africana é uma supra-geografia da violência e da resistência, um espaço do genocídio negro e da rebelião permanente. Oxalá estas e tantas outras mortes sejam, então, semente de uma comunidade política em que negras e negros, aqui e lá, se sintam responsáveis pela vida de cada um/a e de todos. Ferguson,  Capão Redondo,  Soweto, Aguablanca, Presente!

* Jaime Amparo Alves, PhD; É pesquisador visitante do Africana Research Center, Penn State University (EUA) e investigador associado do Centro de Estudios Afrodiasporicos (Universidad Icesi). É também militante da Uneafro-Brasil. Seus textos podem ser acessado sem: comraivaepaciencia.blogspot.com

 

 

 

7 respostas em “Racismo nos EUA, no Brasil e no mundo: “O corpo negro habita a zona da morte””

Belo texto, Entretanto, ´´ revoltas nas cidades estadunidenses são um lembrete da ausência de espaço político para a questão negra dentro da chamada sociedade civil´´ . Por que o senhor não escreveu ..´´ ausência de espaço político para a questão negra dentro da chamada sociedade civil BRANCA ´´? Se o Estado branco não observa os problemas do homem negro, tá na hora do negro criar seu próprio Estado e não ficar pedindo ao Estado ( branco) para olha-lo como igual ou humano. Não entendo essa necessidade de querer ser visível para o Estado(branco) ou sociedade civil(branca). ´´Somos, por assim dizer, civilmente/socialmente mortos e é essa morte ontológica (a impossibilidade de sermos reconhecidos/as como parte da comunidade humana´´´´ Precisamos ser reconhecidos por estados,sociedades civis brancos para sermos alguém????? Se nós negros claramente vemos o ESTADO BRANCO ( EUA,BRASIL,COLÔMBIA etc) como um Estado que não liga ou se preocupa com grande parte de sua população (negra), está na hora dos ´´negros tomarem parte na história e cuidarem de si e não ficar pedindo ao Estado Branco para cuidar.
Desculpe qualquer coisa, humildemente muito obrigado.

Vou responder um pouco por polemizar, mas será que não é uma ideia semelhante a essa que fundamenta o Estado Islâmico?

Digo isso porque deixaste a mim entendendo que os negros deveriam assumir um outro Estado, dentro dos atuais Estados, sendo isso uma foram de responder ao Estado Branco, que é o estado que está aí para manter o status quo de um “cada um no seu lugar”, sendo que o lugar do negro é muito menos confortável.

Isso me parece que escolheste entre o “ser e o estar”. Quero dizer, substituiu a ideia de que as coisas ESTÃO erradas pela ideia de que as coisas SÃO erradas. Isso me soa como uma desistência de acreditar na humanidade.

Assim, eu sou branco e não me sinto confortável com avaliar uma situação que eu não tenho como me colocar no lugar. No máximo, posso dizer que se eu fosse mais alto, minha vida seria mais fácil. Ou, se eu gostasse de mim usando cabelo curto, sem barba, sofreria menos preconceito.

Explico.

Me olho no espelho, de cabelo curto, sem barba, e não sei quem é a pessoa que vejo. Só me sinto a vontade usando cabelo e barba. Quem me dera não perceber e não conseguir me lembrar de vezes em que este meu traço de aparência me tornou foco de algum tipo de preconceito.

OK! Não vou me comparar. Querendo ou não, meu cabelo e barba são uma opção, e não uma condição.

Me solidarizo, justamente, por imaginar que o que me incomoda, o como a minha vida fica limitada pela opinião de gente babaca, é muito amplificado, é muito pior, para outros seres humanos, no caso do tratamento dado aos não brancos.

Força!

O mundo tem que mundar.Nos negros ás vezes chegamos em determinado lugar
pessoas ficam olhando.Muitas vezes na minha infancia ja sofri com preconceito
racial.Hoje sou policial e luto contra o racismo.Nos todos temos uma parcela
de culpa nisso,ou seja todos nos temos independe de cor ,posicao socia.l

Texto maravilhoso. São trabalhos como esses que deveriam estar sendo circulados, mostrando a realidade como ela é. Sou mulher branca cis e não aguento mais ver tamanha ignorância e desrespeito ao próximo como em casos que o senhor exemplificou. Se eu não aguento mais, não consigo imaginar como vocês possam se sentir.
Cito o senhor: “O corpo negro habita a zona da morte (física, simbólica, ontológica) e, quando as balas da polícia o atingem, sua eliminação física é “apenas” a reiteração de múltiplas mortes. É possível concebermos a ideia de alguém morrer várias vezes?” e cito Banksy (creio que seja dele(a)): “I mean they say you die twice. One time when you stop breathing and a second time a bit later on when somebody says your name for the last time”.
A morte não precisa ser física. Se ela for o suficiente para te anular, sua existência já deixou de ser.
Isso precisa acabar. Toda pessoa merece o reconhecimento de sua existência e seus devidos direitos.

Esse acontecimento no Missouri para que existe racismo somente no Estados Unidos, mas sabemos todos lugares do mundo existe o racismo contra o negro, na Europa, na Rússia, na China, e também sabemos que no Estados unidos estão os negros mais bem formados do mundo, A melhor universidade do mundo, onde estudo o presidente Obama e Michelle Obama. Mas o pior de tudo não é o racismo violento, é o racismo hipócrita que não deixa os negros chegarem a nada.

Concordo com o texto, é excelente.
Normalmente não leio comentários o mesmo comento em nenhum texto ou notícia, pois sempre vira uma guerra de ódio, mas quero deixar um lembrete a todos e que ficou entendível no texto para mim, isso generalizando.
Primeiro, também não deve haver racismo de Negros contra Brancos, sim existe e aqui no Brasil isso, alguns músicos deixam isso bem explícito em suas letras e alguns lugares e shows, Brancos não podem ir para não sofrer violência física.
Segundo e o principal: Todo e qualquer racismo seja de Brancos para Negros, Negros para Brancos, Homossexuais, religiosos e qualquer pessoa que esteja aqui na terra é errado e deve ser erradicado, somos iguais perante a algo superior que acreditamos e também perante a sociedade que vivemos e que queremos que seja livre e democrática.
É isso, Paz!

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