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Nova obra de As Bahias e a Cozinha Mineira é eclética, doce e política

Os últimos anos têm sido eloquentes para Assucena Assucena, Raquel Virginia e Rafael Acerbi – o trio por trás do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira, que lançou na sexta 31 o disco Tarântula, terceiro álbum de estúdio e o primeiro após a assinatura com a Universal Music. Além de 10 canções compostas por seus integrantes, a obra ganha as plataformas digitais e também chega ao mercado acompanhada de três videoclipes: Volta, Carne dos Meus Versos e Shazam Shazam Boom, dirigidos por Rafael Carvalho.

Sucessor do premiado Bixa (2017), o trabalho era esperado por seus fãs após o single do clipe Das Estrelas, lançado em janeiro deste ano, deu mostras do tom eclético, doce e, ao mesmo tempo, político deste disco agora completo. Assucena relembra que Tarântula nasceu sem pretensão em razão de ter sido inicialmente concebido para um EP. Apesar do tom também político, o grupo se livrou das retóricas para criar uma obra livre que trata também do afeto e do cotidiano. “Tarântula construiu seu conceito na medida em que íamos descobrindo cada canção e conectando seus significados até chegar a um disco”, explica Assucena. Para Raquel, em Tarântula há “paixões perdidas, fuça de fuzil, a Bahia e mulheres que botam para quebrar”. “O álbum é o século 21 sob nossa perspectiva, nossas crônicas, relatos e aventuras”, resume.

A perspectiva das duas vocalistas é confirmada pelo músico Rafael Acerbi que, diferentemente dos discos anteriores, não vê nada de linear na novidade. “Em Tarântula não existe começo e fim e o ouvinte pode começar a degustá-lo por qualquer faixa”, diz Rafael que desta vez estreia também como compositor e cantor em Volta – canção que fala do desgaste do amor – ao lado de quatro músicas escritas por Assucena Assucena e as demais cinco assinadas por Raquel Virgínia – incluindo Tóxico Romance com a participação do rapper Projota que, além de dividir os vocais, também compôs a faixa.

O álbum de MPB tem os esperados sambas e baladas que já são marcas do trio, mas, com maturidade, ousa no universo do pop. O manifesto, no entanto, começa em seu nome inspirado pela Operação Tarântula, ação policial feita pela ditadura militar paulista em 1987 e que perseguiu mais de 300 travestis com a desculpa de que ao exterminá-los podia-se prevenir o HIV – como se sabe, a perseguição não deu certo e “tarântula” para o trio também significa a energia feminina e a fertilidade da aranha que tece sua própria rede – assim como o trio ao se aliar a diversos produtores – entre eles Guilherme Kastrup, Haroldo Tzirulnik, Márcio Arantes e Marcelinho Ferraz – para apresentar um disco de MPB moderno e eclético que vai da pista ao samba da Bahia.

Quem são As Bahias e a Cozinha Mineira?

O improvável encontro não poderia ser mais feliz – e explosivo para a música. De um lado, Assucena Assucena, 30 anos, trans judia, baiana do sertão e nascida em Vitória da Conquista e com uma história que, segundo ela, soma sua existência com a resistência de milênios que carregam as mulheres trans. Na outra ponta, a paulistana trans negra de 30 anos Raquel Virginia que, junto da mãe, morava em casas de familiares da periferia para poderem economizar e pagar seus estudos – vale dizer que ela já tentou ser cantora de axé. No outro extremo está Rafael Acerbi, 27 anos, homem branco cis, mineiro de Poços de Caldas que aprendeu a tocar na igreja e, por lá, participou de algumas bandas até que os três se encontraram no curso de História da Universidade de São Paulo (USP).

Fotos: Trigo Estratégia de Imagem

Tocando, cantando, fazendo saraus ou debates, a afinidade foi imediata e logo a banda, então chamada Preto por Preto, se apresentava na universidade até que resolveram assumir seus gostos musicai e criaram As Bahias e a Cozinha Mineira tendo como Gal Costa uma de suas musas. O resultado deste encontro nada casual resultou no primeiro álbum em estúdio, no fim de 2015, chamado Mulher. O segundo veio em 2017, intitulado Bixa e, com ele, uma ampla dose de reconhecimento que incluiu dois troféus no 29º Prêmio da Música Brasileira: “Canção Popular – Grupo” e “Canção Popular – Álbum” e lhe renderam a assinatura de um contrato com a Universal Music, cujo primeiro single, Das Estrelas, dava um aperitivo de Tarântula, o álbum mais maduro e nem por isso o mais coeso de um trio que não se propõe a repetição de fórmulas de sucesso.