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Na minha pele – Estante literária

Por Edson Cadette, do Blog Lado B NY

Na Minha Pele, do multitalentoso Lázaro Ramos, não pode ser considerado um livro de memórias porque não está ligado a uma época específica da vida do ator como por exemplo, o período em que ele trabalhou dentro do Bando de Teatro Olodum, na cidade de Salvador, local onde aprendeu todas as técnicas de atuação que utiliza até os dias de hoje. Ao contrário, o livro que começa na pequena Ilha de Paty, no interior da Bahia, na década de oitenta, termina com passagens na zona sul do Rio de Janeiro, onde Lázaro testemunha ao lado dos filhos a ação policial contra jovens negros num espaço que certamente não os pertence. A obra pode ser usada como fonte de inspiração para jovens em geral, principalmente negros que enxergam no ator uma pessoa sem medo de falar o que realmente pensa sobre a disparidade racial no Brasil.

É um livro pequeno e bastante fácil de ser lido, poderíamos chamar de uma leitura tranquila, que poderia ser feita num voo entre o Rio de Janeiro e Nova York. Você não terminará a leitura dizendo que o Brasil é um país altamente racista – algo que não é mencionado em nenhum momento -, ou irá dizer a uma pessoa branca que ela faz parte do racismo institucional. Tão pouco falará com seu amigo branco sobre o que ele realmente acha da condição socioeconômica do negro no país e questionar se está diretamente ligada com a duradoura escravidão brasileira.

Apesar das micro agressões diárias que sofria, principalmente antes de ser catapultado para o estrelato no final dos anos noventa, Lázaro Ramos jamais usou delas ou do racismo latente como impedimento para suas realizações pessoais de ator.

Lázaro fala de atores importantes da dramaturgia brasileira como Ruth de Souza, Milton Gonçalves, e Lea Garcia, que de certa maneira abriram um caminho para o seu sucesso. Ele cita também livros, ativistas e músicos importantes do início dos anos 2000 que estavam mudando o discurso no debate racial brasileiro.

Para escapar do racismo diário ele acredita que o núcleo familiar é essencial e ressalta a importância que sua enorme família teve na sua formação como pessoa. Acreditando nesta socialização, o ator se casou e mantém uma parceria que já dura mais de dez anos com a também atriz Taís Araujo.

Lázaro Ramos no papel de Madame Satã (2002)

Na Minha Pele é um livro importante para debater questões raciais no Brasil e o autor usa sua voz para chamar atenção ao fato de que o negro já nasce com uma enorme barreira devido a própria história do país. A grande mensagem desta pequena, mas importante obra, é que Lázaro Ramos deseja estar na normalidade, e não na exceção dos negros brasileiros.

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Arte Cultura Matriz Africana

Rodar a vida é uma escola: Melvin Santhana conta sobre a carreira e trajetória de vida

Foto: Vinicius Souza

Por Marina Souza

Cantor, compositor, multi-instrumentalista, ator e produtor musical. A arte dentro da alma ou vice-versa. Melvin Santhana tem 35 anos e nasceu em Guarulhos rodeado por uma família que desde cedo o influenciou musicalmente por meio do trabalho do pai com discos, da MPB, das cantigas de Umbanda e Candomblé, festas familiares e muitas outras experiências. Com cerca de 20 anos de carreira, ele vem conquistando diferentes espaços, atualmente integra a banda de apoio do show Boogie Naipe, do rapper Mano Brown, e no ano passado lançou seu primeiro disco solo: o Abre Alas.

Com apenas oito anos de idade o artista aprendeu a tocar cavaquinho, aos doze entrou num conservatório para estudar violão erudito e durante a adolescência matriculou-se em instituições e cursos de Música. Stevie Wonder, Michael Jackson, Nina Simone, Milton Nascimento, Almige Neto, Lauryn Hill e outros emblemáticos da música negra serviram de inspiração para o desejo de Melvin em trabalhar na área.

Os Originais do Samba foi a primeira banda em que fez parte, foi quando começou a aprimorar seus talentos de cantar, dançar e compor. Aos poucos, foi participando de outros projetos de intuito e mecanismo diversos no cenário artístico. Carregando os significados, as consequências e circunstâncias de ser negro no Brasil, ele diz que resistiu (e ainda resiste) todos os dias de sua vida, independentemente da profissão que está exercendo.

Foi com sua personalidade corajosa e persistente que Melvin conseguiu entrar para o Boogie Naipe. Ele conta rindo que convidou a si próprio quando seu primo, que é amigo da assessora dos Racionas MC’s, lhe falou que a Eliane Dias estava querendo formar um grupo para um novo projeto musical. Coincidentemente, Santhana estava trabalhando no espetáculo “Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens”, que retrata o legado deixado pelos Racionais, e em uma das apresentações conversou com a filha de Mano Brown, que estava na platéia. Através dela, marcou uma reunião com Eliane, que o propôs uma audição com outros músicos indicados por ele próprio. Eles fizeram, passaram e hoje compõem a banda.

Talvez só precise de um incentivo, um espaço para mostrar esse trabalho, uma comunidade que abrace isso e entender que é capaz de produzir.”, diz ele.

Foto: Noelia Najera

Para Santhana é essencial que o povo negro brasileiro faça uma reflexão sobre suas maneiras de consumo, produção e correlação entre si, pois isso interfere diretamente nas perspectivas culturais, históricas e políticas dos cidadãos. A visão eurocêntrica, segundo o músico, ainda é uma das principais responsáveis pelo racismo no país. É por esta razão, que ele sempre optou pluralizar os gêneros musicais usados nas suas obras e afirma: “a diversidade é minha matriz e é onde faço acontecer”.

Quando questionei sobre as dificuldades de ser um artista negro o cantor enfatizou que no Brasil, infelizmente, o mercado da área musical ainda está o pouco aberto para a cultura negra. Ele justifica falando que, apesar da Iza, Gloria Groove, Linn da Quebrada e outras/os artistas negras/os que têm ganhado destaque ultimamente, há falta de uma estrutura e um circuito cultural que fomentem isso.

Recentemente, lançou a música “VIVA!” e diz que em 2019 pretende trabalhar com novos singles, além de videoclipes e – talvez – um EP. Melvin também está atuando como ator tanto em Tetaro, quanto em Cinema, e revela que está inserido no projeto “Sem Asas”, de Renata Martins.