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Genocídio Negro Movimento Negro

Palavras de ordem e orações pedem justiça em caso de Evaldo Rosa dos Santos

Por Rozangela Silva

No fim da tarde de ontem (14) mais um ato em solidariedade à Evaldo Rosa dos Santos aconteceu: na Estrada do Camboatá, em  Guadalupe, que transcorreu em clima de paz e foi permeado por orações e preces.

Nem a fina chuva que caiu no bairro desanimou um grupo de amigos que convidaram músicos, compositores e artistas. O Ato, orquestrado pela Cultura Popular Carioca, com integrantes de samba e rap, reuniu cerca de 80 agentes culturais, número alusivo aos 80 tiros disparados no carro do músico brutalmente assassinado há cerca de uma semana.

Fotos: Rozangela Silva

“A dignidade humana precisa ser resguardada em todos os sentidos. Sou solidário a família, parentes e amigos e estarei junto buscando respostas para a elucidaram esse crime e punirem os envolvidos”, contextualiza Ivanir dos Santos, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e babalaô.

De cunho simbólico e pacífico orações preces e falas exigindo providências foram realizadas. Outra grata homenagem ficou por conta do grafite feito pelo MC Grafiteiro Airá – O Crespo, que estampou frases e o nome Manduca, apelido de Evaldo. O desenho foi feito exatamente em frente ao local cujo o carro da vítima fora alvejado, onde é possível perceber furos dos tiros.

Um amigo, estampou no carro o nome do grupo de samba que Evaldo participava: o Remelexo da Cor. Uma roda humana se formou no meio da rua para preces e orações, além de falas cobrando justiça. Distribuíram ainda bandeiras do Brasil manchada de sangue e com furos.

“O Ato foi importante para que familiares e amigos mais próximos não se sintam sozinhos na cobrança por justiça. Foi importante para a mobilização dos artistas e agentes culturais que vivem na região e sofrem constantes violações de seus direitos em abordagens de patrulhamento policial, no ir e vir cotidiano”, alegou Marcelo Santo, do movimento Cultura Popular Carioca.

Outro ponto alto, ficou por conta da palavra de ordem “Manduca… Presente!”, seguida de uma salva de palmas, que deixou todos emocionados.

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Movimento Negro

Nova Frente Negra Brasileira cria projeto para transformar jovens pretos em futuras lideranças

Por Marina Souza

Para incentivar, fortalecer e empoderar a juventude negra, a Nova Frente Negra Brasileira (NFNB) está organizando a primeira edição do Processo de Transformação Política para jovens pretos. O evento acontecerá em São Paulo, no bairro da Lapa, nos dias 6, 7, 13 e 14 deste mês e promete oferecer ao público uma série de estudos étnicos raciais, políticos, sociais e técnicos.

Para ministrar as atividades estarão presentes nomes como Edna Rolland, especialista na questão racial, Dennis de Oliveira, jornalista e chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, e Deise Benedito, fundadora do Instituto Geledés e assessora técnica do PSOL.

Deise Benedito (arquivo pessoal)

Deise explica que o intuito é mobilizar a juventude, fazer uma espécie de “alfabetização política” e melhorar a realidade brasileira. Serão debatidos temas como Direitos Humanos, empreendedorismo negro no Brasil, o papel da mídia na consolidação de modelos discriminatórios, saúde da população negra, ações afirmativas e mercado de trabalho. “A arte da guerra é conhecer seu inimigo”, é o que diz a especialista sobre a importância de promover tais discussões entre as futuras lideranças negras.

Ela também é uma das integrantes da NFNB, que tem como objetivo propiciar não somente o acolhimento e proteção da população negra, como também o o crescimento dos trabalhos de base no país e do protagonismo negro no cenário político nacional.

“A Nova Frente Negra Brasileira é um espaço fundamental, estratégico e veio para reacender novos focos de mobilização social, que é fundamental nesse momento de retrocessos.”, diz.

As vagas para esta primeira edição do Processo de Transformação Política são limitadas aos 100 primeiros inscritos, porém serão abertas listas de espera para as próximas giras de conhecimento. Para se inscrever basta acessar o site.

A ideia é que o projeto, segundo a ativista, seja estendido pelo país – e talvez no restante da América Latina – para empoderar diferentes povos negros.

Porque empoderar jovens negros?

A cada 23 minutos um jovem negro é brutalmente assassinado no Brasil. Os dados não são novos e por isso são ainda mais alarmantes. A juventude negra periférica é o alvo prioritário de uma política de Estado que matou mais de meio milhão de pessoas entre 2005 e 2015 de acordo com levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e o  Fórum Brasileiro de Segurança Pública.  Sete de cada dez homicídios são praticados contra os nossos jovens e não há nenhuma expectativa de mudança positiva com a ascensão de um governo racista, homofóbico, misógino e intolerante.

Os assassinatos destes jovens são o ápice de um programa de total exclusão e desumanização da população negra, sem educação, saúde ou acesso à cultura, nossos jovens são presas fáceis de um Estado que tem como objetivo a eliminação da população preta e pobre.

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Cinema

As Cores da Serpente: um filme sobre sobre sonhos, negros e cultura angolana

Por Marina Souza

As Cores da Serpente, primeiro longa-metragem produzido pelo diretor brasileiro Juca Badaró, será lançado dia 21 de março em São Paulo, Porto Alegre e Curitiba. O filme registra jovens grafiteiros pintando os Murais da Leba, uma estrada histórica com cerca de 20 quilômetros, na Angola. Veja o trailer a seguir.

O Coletivo Mural da Leba envolveu mais de 30 artistas angolanos e estrangeiros para promover a arte urbana. O projeto durou dois anos e, assim como o o documentário, não teve nenhum apoio financeiro do governo ou de empresas. “Como as obras ficam a céu aberto, a chuva e o sol podem degradá-las, e por isso eles [artistas] fizeram intervenções periódicas. A que está retratada no filme foi a primeira e durou cerca de 1 mês”, explica Badaró.

O diretor conta que estava morando há dois anos em Luanda, capital angolana, quando em 2015 recebeu um convite de uma produtora audiovisual brasileira para registrar tais intervenções. Seus trabalhos anteriores dentro do país tinham sido como diretor de mini documentários da TV pública local.

A estrada-cenário de As Cores da Serpente começou a ser construída pelos portugueses no final do século XIX e só foi concluída às vésperas da independência de Angola, em 1974. Tornou-se um dos mais conhecidos pontos turísticos do país, na Serra da Leba, uma formação montanhosa que separa as províncias da Huíla e do Namibe. A via era necessária para facilitar o transporte de mercadorias e pessoas entre as duas províncias.

Com o passar do tempo, as paredes ficaram sujas, má-cuidadas e abandonadas. E é justamente para levar mudança à essa situação que o Coletivo Mural da Leba surgiu trazendo cores ao extenso concreto.

Divulgação

Badaró conta que duas das câmeras que captaram as imagens foram usadas pelos próprios artistas, ele ficava responsável popr registrar as artes e entrevistar pessoas.

É o primeiro filme brasileiro a ser inteiramente gravado no território angolano e, segundo o diretor, o longa tem um significado muito além da exibição das pinturas. Ele confessa estar feliz por saber que o Brasil poderá conhecer outro pedaço seu, que muitas vezes é esquecido.

“É um filme sobre sonho. Um filme sobre negros, cultura africana e sua relação com o Brasil”, diz.

Dois dos 30 artistas estarão presentes na estreia brasileira, um deles é diretor do Coletivo e o outro um grafiteiro que fará muitas coisas pela primeira vez: andar de avião, viajar para outro país e participar do lançamento de um filme que protagoniza. Além disso, as cidades de São Paulo e Salvador terão muros pintados pelo angolano.

Juca Badaró, por sua vez, relata que ao ver a reação dos artistas, que são em sua maioria moradores de gueto, assistindo ao documentário sentiu-se profundamente emocionado, pois muitos choraram e lhe parabenizaram.

 

 

 

 

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Política

Valores viris na política: esboço crítico sobre relações raciais e gênero masculino

Por Henrique Restier

“Eu sou o maior inimigo do impossível” (Bluesman) Baco Exu do Blues

João Cândido “O Almirante Negro” (1880–1969)

Os homens e as masculinidades têm sido um campo de estudos com um crescimento e interesse vertiginosos nos últimos anos. Os homens se tornaram seres “generificados” e, portanto, sujeitos de diferentes análises, vindas dos mais diversos movimentos sociais e arcabouços teóricos. Quanto aos temas, a antropóloga e feminista negra colombiana, Mara Viveiros Vigoya (2018, p. 67) nos traz um quadro bastante interessante. Em sua pesquisa, a autora aponta sete eixos principais, são eles: identidades masculinas (30%), masculinidades e violências (18%), problemas, dilemas e tensões em torno da saúde dos homens (16%), afetos, sexualidades e reflexões epistemológicas, ambos com 14%, representações e produções culturais das masculinidades (6%) e, por último, espaços de homossociabilidade masculina (2%). O perfil de gênero dos pesquisadores é bastante equitativo, homens e mulheres correspondem respectivamente a 41% e 40%. Ademais, o Brasil aparece em primeiro lugar em volume de produção de conhecimento sobre homens e masculinidades na América Latina, seguido por México, Colômbia, Chile e Argentina.

Recentemente, saíram alguns textos no espaço público debatendo masculinidade e política, referindo-se mais precisamente ao avanço de chefes de Estado em diversas nações (inclusive a nossa), tidos como truculentos, autoritários, com um forte discurso bélico e “anti-minorias”. À grosso modo, os argumentos centrais da maioria desses textos exploram a relação entre essa aparente “masculinidade tóxica” (tanto dos políticos como do eleitorado), sua legitimidade e ascensão no cenário político, tendo prováveis desdobramentos nocivos ao conjunto da sociedade.

Olhando para esses cenários podemos perceber que as reflexões sobre homens e masculinidades podem ser uma “entrada” desafiadora e produtiva para a análise política. Assim, minha intenção nesse texto é trazer algumas considerações introdutórias sobre as possíveis associações entre relações raciais, gênero masculino, virilidade e política.

Virilidade e Branquitude

O advento dos estudos da branquitude, que pode ser definida como um lugar de vantagem estrutural, um ponto de vista e “um conjunto de práticas culturais, que geralmente não são marcadas nem denominadas” (FRANKENBERG, 2004, p. 81), tem contribuído muito para o campo das relações raciais, possibilitando que negros e brancos, principalmente os últimos, sejam lançados para dentro das interações sociais como indivíduos e grupos “racializados”. Em outras palavras, que as pessoas consideradas socialmente brancas, sejam uma variável de análise relevante para os trabalhos e investigações sobre relações étnico-raciais. Essa perspectiva atravessada por outros marcadores sociais potencializa a compreensão sobre o racismo e outros fenômenos sociais.

Simultaneamente, temos a construção das masculinidades, pois não basta a base biológica para que um homem seja considerado “realmente um homem”, a princípio ele o é potencialmente. É necessário todo um processo de socialização e aprendizagem, onde valores, normas e sistemas de representação são acionados para que nos tornemos “efetivamente homens”.

Um dos elementos fundamentais que fazem parte dessa construção é a virilidade, que remete aos órgãos sexuais masculinos, à atividade, e a penetração. Mas não só isso, a virilidade abrange códigos e fundamentos ideológicos de virtude oriundos da antiguidade clássica greco-romana “… o termo latino vir estabelecerá por longo tempo em inúmeras línguas ocidentais, virilita, “virilidade”, virility: princípios de comportamentos e de ações designando, no Ocidente, as qualidades do homem concluído, dito outramente, o mais perfeito do masculino” (VIGARELLO, 2013, p. 11). Esses princípios podem ser: a coragem, equilíbrio, lealdade, responsabilidade, vigor, controle (sobre si e o outro), espírito de competição, dominância, força, etc. Ademais, é preciso salientar que “… violência e virilidade não são sinônimas: é possível ser violento sem ser viril, e vice-versa” (FARGE, 2013, p. 511)

Tanto a masculinidade quanto a virilidade se entrelaçam e se alteram no tempo e no espaço, com certas particularidades para homens negros e brancos. Isso sem me estender na questão de que tanto a masculinidade quanto a virilidade podem ser construídas em corpos femininos, existindo, portanto, “mulheres viris”, contanto que cumpram determinados códigos masculinos, assim como os homens têm de fazer.

Em todo caso, a política se configura como um palco privilegiado para exibir a imagem e conduta viris, principalmente para os homens brancos provenientes das classes médias e abastadas, que são em sua maioria aqueles que disputam as eleições e são eleitos. Assim, como Mara Vigoya (2018, p.144) entendo que a branquitude e a masculinidade seriam “fontes de legitimidade política e popularidade”.

O político viril

Há séculos o espaço da política tem sido exercido por uma “elite masculina”. Nos berços civilizatórios do Ocidente, Grécia e Roma, a política era basicamente uma atividade de poucos homens privilegiados, o que continua sendo. No Brasil de 2018, a recente eleição trouxe à tona um perfil de homem público que encontra seu capital político na “exaltação da virilidade”, tanto em seu sentido moral, quanto físico. Houve um aumento substancial nessa eleição de homens ligados as áreas de segurança, justiça e empresarial, como policiais, militares, juízes e homens de negócios. Isso sinaliza, dentre outras coisas, que o Brasil deseja que o lema positivista, “Ordem e Progresso”, em sua bandeira, seja colocado em prática. Se realmente será esse o tipo de homem público que trará um “Brasil Varonil”, e se isso, de fato, será bom para o país, é outra discussão.

Congresso brasileiro

Em nosso imaginário, de ranço colonial e escravocrata, tal missão caberia ao homem branco, é verdade que se Joaquim Barbosa tivesse concretizado sua candidatura poderíamos ver in loco, como essa disputa se daria. De todo modo, esse papel coube à Jair Messias Bolsonaro, o “Messias viril”. O presidente eleito em 2018 soube manusear com maestria toda uma gramática da virilidade na disputa presidencial, se colocando como aquele que salvará a pátria dos perigos que a assombram, que, em seus termos, seriam: o comunismo, a ideologia de gênero, a violência e a corrupção, sobretudo aquela praticada pelo Estado. E aciona para isso, seus supostos atributos morais: o caráter e patriotismo viris, a defesa da família, a reverência à Deus e a rigidez no combate ao crime.

Além disso, seu passado nas forças armadas, no contexto atual de altíssimos índices de violência, virou um ativo político. Em certos momentos históricos críticos, essa imagem de um homem íntegro, dotado de virtudes militares e religiosas tende a trazer uma sensação de segurança e esperança para a população. O arquétipo viril do combatente em defesa da pátria se projetou na figura de Bolsonaro.

O homem negro e o poder político

Não são todos os homens que dispõem dos mesmos poderes e privilégios, há uma hierarquia interna ao grupo masculino. O colonialismo e a escravidão negra são momentos e processos cruciais para entendermos a lógica que atravessa as relações entre homens negros e brancos na política. A pergunta é: como os homens negros adentram a política eleitoral? Usualmente subordinados e indicados pelos homens brancos, seja de partidos de esquerda ou direita. Infelizmente ainda não há partidos criados e dirigidos por mulheres e homens negros, existem algumas iniciativas nesse sentido e torço para que deem certo. De qualquer maneira, o exercício da virilidade na política implica no poder de mando e na autoridade, algo que historicamente têm estado nas mãos dos homens brancos, e em menor grau, e mais recentemente, na de mulheres brancas, demonstrando a proeminência do vetor racial sobre o de gênero na política brasileira.

Um problema a ser enfrentado por nós é que os estereótipos racistas enquadram o homem negro como um degenerado, então, suas qualidades viris são sistematicamente desqualificadas. Sua força é associada à brutalidade, sua coragem à barbárie, sua sexualidade com devassidão. Ou seja, uma virilidade selvagem e brutal. Em uma palavra: hipervirilizados. Por outro lado, esses mesmos estereótipos nos associam à indivíduos, apáticos, inofensivos e servis, remetendo as famosas figuras dos pais joãos e negros da casa. Isto é: desvirilizados. Ou somos vistos como brutamontes descontrolados, ou serviçais obedientes. Como ser eleito nesses termos? O enfrentamento a esse tipo de estigma racista é primordial para nosso sucesso político.

Alberto Guerreiro Ramos, Abdias do Nascimento e João Conceição na década de 50

Isso não quer dizer que não tenhamos ao longo de nossa história, políticos negros, Nilo Peçanha e Monteiro Lopes, (1909–1910) Abdias do Nascimento (1983–1987/1997–1999), Guerreiro Ramos (1963–1964), Carlos Alberto Caó de Oliveira (1982–1986/1987–1990) são alguns desses grandes nomes. Contudo, habitualmente o espaço de atuação dos homens negros é na micropolítica do cotidiano. Quilombos, revoltas, rebeliões, movimentos sociais e organizações populares no Brasil tem o “DNA do homem negro”. Essa constatação não dispensa a importância de termos no Brasil do século XXI homens negros em cargos políticos de destaque, comprometidos com as reivindicações da população negra.

O que quero apontar é que muitas vezes a “criminalização da virilidade”, no debate de gênero é simplista, e não se sustenta, pois, valores viris são milenares, perpassam todas as sociedades humanas, com nomes e significados plurais podendo ser usados para diferentes propósitos, inclusive para a luta anti-racista. O Brasil está repleto de homens negros viris que emprestaram essa virilidade para essa luta, na política ou não. Zumbi com sua força guerreira, Luiz Gama e sua energia intelectual, Abdias do Nascimento e sua eloquência vigorosa, a inteligência destemida de Guerreiro Ramos, a ginga valente de Madame Satã, Lima Barreto com sua escrita ácida e corajosa, a liderança militar de João Cândido e por aí vai. Homens pretos gerando outros homens pretos. Somos tantos…

“Viva Zapata! Viva Sandino! Viva Zumbi! Antônio Conselheiro! Todos os Panteras Negras, Lampião, sua imagem e semelhança. Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia”. Monólogo ao pé do ouvido. Nação Zumbi

Referências Bibliográficas

FARGE, Arlette. Virilidades populares. In: Georges Vigarello (ed.) História da Virilidade 1: A invenção da virilidade Da Antiguidade às Luzes. pp. 495- 523, 2013.

FRANKENBERG, Ruth. A miragem de uma branquidade não marcada. In: VRON WARE (org.). Branquidade: identidade branca e multiculturalismo. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

VIGARELLO, Georges. Introdução A virilidade, da Antiguidade à Modernidade. In: Georges Vigarello (ed.) História da Virilidade 1: A invenção da virilidade Da Antiguidade às Luzes. pp.11–70, 2013.

VIGOYA, Mara Viveros. As cores da masculinidade: Experiências interseccionais e práticas de poder na Nossa América. Rio de Janeiro, Papéis Selvagens, 2018.

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Mulheres Negras

No Brasil, mulheres negras são a maioria dos casos de sífilis

Por Marina Souza

As mulheres negras jovens, entre 20 e 29 anos, são a maior parte da população com sífilis no Brasil e representam 14,4% das gestantes que são diagnosticadas com a infecção. O último Boletim Epidemiológico de Sífilis, divulgado pelo Ministério da Saúde, mostrou um aumento do número de pessoas infectadas, que passou de 44,1 casos a cada 100 mil habitantes, em 2016, para 58,1 em 2017.

A sífilis é uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST),  causada pela bactéria Treponema pallidum, que atinge mais de 12 milhões de pessoas ao redor do mundo e possui diferentes estágios (primário, secundário, terciário, latente e congênito). Feridas, dores, danos cerebrais e muitos outros sintomas podem representar a sífilis, que se não for devidamente tratada, ocasiona a morte.

Seu tratamento depende do grau da infecção, variando entre penicilina, antibióticos e internação hospitalar. É o uso da camisinha, feminina ou masculina, que previne essa e outras ISTs, e em razão disso, Maria Menezes, mestra em Patologia Humana, acredita que programas socioeducativos em escolas e espaços de formação são necessários. “A única forma de lidar com um tabu é através da informação. A sociedade precisa se dar conta de que as políticas públicas são direitos e que a ausência delas têm consequências devastadoras para todos”, diz ela.

Quanto maior a vulnerabilidade social, maior é o risco de contrair ISTs. É por isso que as mulheres negras constituem grande parte desta população e representam algumas consequências do contexto social no quadro epidemiólogo do país. A realização de políticas específicas para dialogar com esse público é algo que Menezes considera necessário para alterar a situação e por isso, preocupa-se com o despreparo do novo governo que chega ao poder.

Lançamento da Campanha de Prevenção HIV/Aids do Carnaval 2018. Salvador (BA) / Foto: Rodrigo Nunes/MS
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Cultura Mulheres

Mulamba e o cenário da música feminista

Foto: Luciana Petrelli

Por Marina Souza

Mulamba é uma banda curitibana que pulsa força e poesia, unindo influências que vão do rock à música erudita. Mulheres com vozes dissonantes, que saem das entranhas e têm muito a dizer, elas representam um grito, um suspiro de encantamento, um furacão. Mulamba representa um grito de vozes silenciadas. Mulamba é: Amanda Pacífico (Voz), Cacau de Sá (Voz), Caro Pisco (Bateria), Fer Koppe (Cello), Naíra Debértolis (Guitarra/Baixo/Violão) e Erica Silva (Guitarra/Baixo/Violão).

Em ascensão no cenário musical atual, o grupo faz show de lançamento do homônimo álbum de estreia no Sesc Pompéia dia 18/01 (sexta-feira), a parir das 21h. A obra figura como “Melhores do Ano” em diversas listas de 2018. Inclusiva está entre os 25 melhores lançamentos do segundo semestre pela respeitada APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

No dia 10 de dezembro, a banda Mulamba completou três anos de luta diária, composição, evento e inspiração artística. Tudo começou quando Amanda Pacífico e a Naíra Debértolis tocavam juntas em um projeto e decidiram homenagear Cássia Eller. Elas pensaram em criar um time musical só com “manas” e fazer shows cover de cantoras brasileiras que gostavam.  É neste momento que aparecem Fer Koppe, Cacau de Sá e Caro Pisco. Com uma agenda já preenchida por muitos shows, as garotas começaram a sentir necessidade de fazer algo próprio, uma nova caminhada, começaram então um projeto autoral.

Erica Silva, que entrou no grupo há um ano, diz que no início surpreendeu-se com a pluralidade de arranjos ali utilizados e que com o tempo passou a não somente entender seu funcionamento, mas também a pensar como cada um daqueles estilos musicais agregavam em sua vida artística e pessoal. “Acho que tudo isso são as referencias musicais que cada uma carrega desde do primeiro dia que ouviu música. Mas apesar de tantas influências no som, sinto que tudo se conecta no Rock n’ roll, pela atitude que temos.”, diz ela.

A banda, que ressalta raízes latinas em suas obras, possui muitas letras voltadas ao feminismo e seu impacto na sociedade. Cacau acredita que isso é devido ao fato da música ser uma arte com grande potencial a ser explorado. “Ela invade o ouvido, muitas vezes você não escolhe o que ouvir, apenas escuta. A música fala com o seu subconsciente de uma forma muito impactante. É lindo. É maravilhoso. Ela chega em lugares que a fala não chega. E estamos na era da vagina. A era do feminismo”, diz ela. Desde que a banda começou, as musicistas recebem relatos de outras mulheres contando que voltaram aos seus instrumentos ou decidiram começar um projeto inteiramente feminino.

A decisão do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de extinguir o Ministério da Cultura preocupa as integrantes da banda, que classificam a medida como um retrocesso e um ataque à liberdade de expressão. “Isso é uma bomba relógio que vai explodir pra todos os lados. Estamos revoltadas com a forma que as coisas estão andando”, revela Cacau. É por isso que ela pretendem continuar lutando dentro e fora da arte.

“A gente tá aqui nesse lugar porque não dá mais para esconder todos os “brasis” que existem dentro do Brasil. É consequência do nosso trabalho, é merecido. A gente merece e tava demorando para um projeto só de mulheres ser reconhecido. Tem vários por aí, só não tem visibilidade”, conta a cantora.

 

 

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Direitos Humanos

Saiba o que aconteceu durante a Consulta Regional das Américas

Foto: Comissão Interamericana de Direitos Humanos

Por OEA – Organização dos Estados Americanos

No dia 08 de dezembro, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (EACDH) se reuniram para a Consulta Regional em mecanismos americanos de combate a discriminações.

Estavam presentes cerca de 45 participantes de 5 países continentais (Brasil, Colômbia, Estados Unidos, Peru, Chile) e representantes de 35 organizações da sociedade civil especializadas no tema. Ao longo da Consulta foram realizados 4 painéis temáticos relacionados ao preconceito racial da polícia e dos sistemas de justiça; sub-representação de pessoas de ascendência africana na política e outros espaços de poder; medidas especiais e ações afirmativas; e estratégias de cooperação com grupos regionais e universais.

O objetivo do evento foi melhorar os mecanismos interamericanos e internacionais de Direitos Humanos, buscando desenvolver propostas concretas de combate ao racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata.

A CIDH agradeceu a participação de especialistas, membros de organizações e acadêmicos na Consulta. Destacou também a importância desses atores participarem dos fóruns de discussão e apresentarem suas contribuições fortalecendo estratégias de luta conjuntas na problemática.

Seu outro agradecimento foi direcionado a participação de 13 representantes que estiveram em Washington para realizar a reunião anual dos pontos focais dos mecanismos regionais e puderam contribuir com o debate a partir de suas diferentes perspectivas, como receber informações para apoiar a preparação das próximas Consultas.

Como resultado preliminar do evento, destacam-se as seguintes recomendações:

1. Gerar estatísticas exaustivas e detalhadas, incluindo análises econômicas, políticas e sociais,  sobre a situação dos negros e demais grupos étnicos na região e em outros setores.

2. Revisão e reforma de políticas e leis neutras que geram discriminação indireta.

3. Promoção de reparações a países e grupos afetados pelo comércio transatlântico e pelo tráfico de escravos, incluindo medidas de resposta política.

Foto: Comissão Interamericana de Direitos Humanos

As decisões e recomendações da Consulta Regional farão parte da base dos debates do Workshop Internacional a ser realizado em 2019 pelo EACDH. Além disso, o resultado será incluído no seu relatório ao Comitê de Direitos Humanos, no seu 43º Período de Sessão. Já a CIDH publicará em breve um anexo a este comunicado de imprensa com as conclusões íntegras da Consulta.

A CIDH é um órgão principal e autônomo da Organização dos Estados Americanos (OEA), cujo mandato decorre da Carta da OEA e da Convenção Americana sobre Direitos Humanos. A Comissão Interamericana está encarregada de observar e defender os Direitos Humanos na região, além de atuar como órgão consultivo da OEA nessa matéria. Ela é composta por sete membros independentes que foram eleitos pela Assembléia Geral da OEA a título pessoal e não representam seus países de origem ou residência.

 

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Arte Cultura Matriz Africana

Rodar a vida é uma escola: Melvin Santhana conta sobre a carreira e trajetória de vida

Foto: Vinicius Souza

Por Marina Souza

Cantor, compositor, multi-instrumentalista, ator e produtor musical. A arte dentro da alma ou vice-versa. Melvin Santhana tem 35 anos e nasceu em Guarulhos rodeado por uma família que desde cedo o influenciou musicalmente por meio do trabalho do pai com discos, da MPB, das cantigas de Umbanda e Candomblé, festas familiares e muitas outras experiências. Com cerca de 20 anos de carreira, ele vem conquistando diferentes espaços, atualmente integra a banda de apoio do show Boogie Naipe, do rapper Mano Brown, e no ano passado lançou seu primeiro disco solo: o Abre Alas.

Com apenas oito anos de idade o artista aprendeu a tocar cavaquinho, aos doze entrou num conservatório para estudar violão erudito e durante a adolescência matriculou-se em instituições e cursos de Música. Stevie Wonder, Michael Jackson, Nina Simone, Milton Nascimento, Almige Neto, Lauryn Hill e outros emblemáticos da música negra serviram de inspiração para o desejo de Melvin em trabalhar na área.

Os Originais do Samba foi a primeira banda em que fez parte, foi quando começou a aprimorar seus talentos de cantar, dançar e compor. Aos poucos, foi participando de outros projetos de intuito e mecanismo diversos no cenário artístico. Carregando os significados, as consequências e circunstâncias de ser negro no Brasil, ele diz que resistiu (e ainda resiste) todos os dias de sua vida, independentemente da profissão que está exercendo.

Foi com sua personalidade corajosa e persistente que Melvin conseguiu entrar para o Boogie Naipe. Ele conta rindo que convidou a si próprio quando seu primo, que é amigo da assessora dos Racionas MC’s, lhe falou que a Eliane Dias estava querendo formar um grupo para um novo projeto musical. Coincidentemente, Santhana estava trabalhando no espetáculo “Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens”, que retrata o legado deixado pelos Racionais, e em uma das apresentações conversou com a filha de Mano Brown, que estava na platéia. Através dela, marcou uma reunião com Eliane, que o propôs uma audição com outros músicos indicados por ele próprio. Eles fizeram, passaram e hoje compõem a banda.

Talvez só precise de um incentivo, um espaço para mostrar esse trabalho, uma comunidade que abrace isso e entender que é capaz de produzir.”, diz ele.

Foto: Noelia Najera

Para Santhana é essencial que o povo negro brasileiro faça uma reflexão sobre suas maneiras de consumo, produção e correlação entre si, pois isso interfere diretamente nas perspectivas culturais, históricas e políticas dos cidadãos. A visão eurocêntrica, segundo o músico, ainda é uma das principais responsáveis pelo racismo no país. É por esta razão, que ele sempre optou pluralizar os gêneros musicais usados nas suas obras e afirma: “a diversidade é minha matriz e é onde faço acontecer”.

Quando questionei sobre as dificuldades de ser um artista negro o cantor enfatizou que no Brasil, infelizmente, o mercado da área musical ainda está o pouco aberto para a cultura negra. Ele justifica falando que, apesar da Iza, Gloria Groove, Linn da Quebrada e outras/os artistas negras/os que têm ganhado destaque ultimamente, há falta de uma estrutura e um circuito cultural que fomentem isso.

Recentemente, lançou a música “VIVA!” e diz que em 2019 pretende trabalhar com novos singles, além de videoclipes e – talvez – um EP. Melvin também está atuando como ator tanto em Tetaro, quanto em Cinema, e revela que está inserido no projeto “Sem Asas”, de Renata Martins.

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Cultura Mídias Negras e Alternativas Periferia

Espetáculo mostra narrativas das presidiárias brasileiras

Foto: Thiago Sabino

Por Marina Souza

De acordo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias sobre Mulheres, o Infopen Mulheres, divulgado em maio pelo Ministério da Justiça, o Brasil é o quarto país do mundo com maior número de mulheres presidiárias. As eficácias, consequências e os funcionamentos do atual sistema prisional brasileiro estão diretamente atrelados à questão de classe, de gênero e ao racismo estrutural. Foi tomando como base este universo doloroso e negligenciado, que Edson Beserra dirigiu o espetáculo “Liberdade Assistida“, que entra em cartaz nos próximos dias 14, 15 e 16 de dezembro, no Teatro de Contêiner Mungunzá, em São Paulo.

Com o processo produtivo de estudar livros, poesias, pesquisas acadêmicas, textos, depoimentos, cartas e entrevistas de detentas e ex-detentas, de diferentes lugares do país, a peça tem como intenção retratar a dura realidade dos presídios femininos e a vulnerabilidade da periferia do país.

A atriz e produtora cultural Marta Carvalho, de 47 anos, nos contou que há 10 anos começou a pesquisar sobre o assunto através de um trabalho de formação nas Casas Abrigos do Distrito Federal. Em 2017 ela interessou-se pelas inscrições no Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro Brasileiras, convidou a professora, doutora em História, Ana Flávia Magalhães para escrever a dramaturgia e o dançarino Edson Beserra para dirigir, pela primeira vez na carreira, um espetáculo teatral. Após ser premiado, o grupo estreou o espetáculo pelo Brasil.

Marta intercala expressões verbais e corporais em um monólogo. Ela ressalta que “estar sozinha é também não estar”, lembrando das importantes presenças que há por trás dos palcos.

Foto: Roberth Michael

“A arte tem que se portar como um transformador social. Esse espetáculo vem falar das histórias dessas mulheres que estão dentro da gente. A mulher preta vive um cárcere social. É sobre nossos corpos contando como as nossas irmãs vivem em situação de cárcere constantemente.”, revela a atriz.

Serviço:

  • Espetáculo “Liberdade Assistida” em São Paulo
  • Dias 14, 15 e 16/12
  • Sexta e sábado às 20h | Domingo às 19h
  • Teatro de Contêiner Mungunzá (Rua dos Gusmões 43 | Santa Ifigénia – Centro)
  • Entrada: R$ 20 (inteira)  e R$ 10 (meia)
  • Classificação Indicativa: 16 anos
  • Duração: 55 minutos
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Política

“Lula livre” vira tema em Dia Internacional dos Direitos Humanos

Foto: Monica Araujo – Defend Democracy in Brazil – NY

Por Marina Souza

O último dia 10 de dezembro foi marcado por eventos ao redor do mundo celebrando os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Palestras, rodas de conversa, protestos e passeatas preencheram diversos lugares, promovendo a reflexão sobre a importância e os mecanismos de funcionamento prático dos direitos estabelecidos entre os Estados-membros da ONU três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Acompanhados da grave crise da Democracia representativa no Brasil, muitos episódios políticos estão sendo marcados historicamente e analisados por diversas pessoas e instituições. A prisão do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, ocorrida no dia 07 de abril em Curitiba, foi um dos temas repercutidos anteontem durante as reflexões sobre os Direitos Humanos.

Lula foi condenado a 12 anos e 1 mês de prisão, sob a acusação de lavagem de dinheiro e corrupção passiva, no âmbito da Operação Lava Jato. Após o golpe sofrido pela ex-presidenta Dilma Rousseff e a crescente perseguição política ao Partido dos Trabalhadores, diversas pessoas e movimentos sociais – ligados ou não ao PT – têm se posicionado contrários aos métodos de investigação e punição utilizados na situação. Em meio a controvérsias jurídicas e divergências opinativas, o maior líder popular da história do Brasil, que ficou em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto até o início de setembro, foi preso sem trânsito em julgado, sob um pretexto nebuloso demais para ser aceito por todos. O movimento/comitê “Lula Livre” foi criado em 2018 durante o processo penal, com a intenção de lutar a favor da soltura do presidente e contra a atual judicialização da política brasileira.

Lula poucas horas antes de ser preso | Foto: Ricardo Stuckert

Vários grupos estão se organizando para reconhecer e denunciar o ataque à Democracia, que é cada vez mais evidente dentro e fora do Brasil. Na última segunda-feira, o Comitê Defend Democracy in Brazil organizou um evento em Nova York, no People’s Forum de Manhattan, para celebrar o 70º aniversário da Declaração, discutindo o funcionamento dessa prerrogativa e instituindo o Dia do Lula Livre. Os convidados a palestrar sobre o tema foram Maria Luisa Mendonça, membra da Rede Social de Direitos Humanos, Douglas Belchior, da UNEAFRO Brasil, e Gammy Alvarez, do Partido pelo Socialismo e Liberação de Nova York.

A platéia foi composta principalmente por ativistas dos EUA, do Haiti e de Honduras. Vídeos, fotos e performance foram alguns dos recursos usados no evento. Ao lado da Frente Brasil Popular, a organização reuniu mais de 80 movimentos sociais brasileiros para realizar a Ação Internacional Lula Livre.

Natália de Campos, atriz, produtora artística e ativista, mora em Nova York há 20 anos e é uma das coordenadoras do evento realizado pelo Comitê. Segundo ela, é muito importante levar essas narrativas à mídia internacional para não somente denunciá-las, como também conscientizar as pessoas nativas sobre a forte interferência de seus países nos interesses econômicos e recursos brasileiros. Por isso, acredita que a ideia geral da ação seja proporcionar mais aliados e informação ao público estrangeiro.

Foto: Monica Araujo – Defend Democracy in Brazil – NY

“É um atentado aos Direitos Humanos. Ele foi perseguido de uma maneira implacável, sem justificativa legal e com acusações supérfluas. Também foi privado de direitos que outros presidiários possuem, como o de dar entrevista. Estão tentando silenciar a voz dele, Lula representa muito para o povo brasileiro, foi por isso que tentaram tirá-lo da corrida política.”, diz ela

A coordenadora conta que muitas das notícias que percorrem as ruas dos Estados Unidos são compradas por agências e já chegam filtradas de alguma forma. E que embora exista grande parcela da população local consumindo fake news, há também muito apoio ao ex-presidente pelos sindicatos, que reconhecem o quão importante ele foi para mudar os direitos trabalhistas nacionais.

Ela afirma ainda que assim como o Brasil, os EUA são um país muito grande e diverso, com variedade de opiniões. Agora, com o novo governo brasileiro, de Jair Bolsonaro (PSL) e seu gabinete, há maior preocupação com questões universais publicadas na mídia. A Amazônia, os Direitos Humanos e a criminalização dos movimentos sociais são, segundo Campos, as notícias brasileiras atuais que mais chamam a atenção dos estadunidenses.

O Comitê foi formado no início de 2016 por pessoas de diversas profissões, que estavam preocupadas com o curso do sistema democrático da República e desde então, muitas outras entraram e saíram. “Somos articulados com vários grupos ativistas da rede FIBRA (Frente Internacional contra o Golpe no Brasil), sindicatos e acadêmicos.”, revela.

Durante a execução do evento os palestrantes enunciaram trechos da Declaração que estão relacionados ao caso de Lula, como Liberdade de Expressão e Julgamento Justo e Imparcial. Os participantes do movimento aguardam o julgamento da ONU, mas duvidam das possibilidades do resultado ter efeitos legais, pois consideram que o poder Judiciário no Brasil está parcial há muito tempo, com objetivos e agendas políticas em conluio com os Executivo e Legislativo.

Com muitos estudiosos, sindicalistas e ativistas estadunidenses o Comitê também participou, em 01 de dezembro, da criação da Rede Nacional para a Democracia no Brasil (RNDB), escrevendo uma carta no mesmo dia do evento para repudiar o assassinato de dois militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), ocorrido na Paraíba no último dia 8.

Nos dias 10 e 12 de dezembro, a Fundação Perseu Abramo, o Comitê Internacional Lula e as Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores (PT) sediam em São Paulo a Conferência Internacional em defesa da Democracia, que trará representantes de organizações de esquerda e partidos políticos da Espanha, Uruguai, Portugal e membros do Parlamento Europeu. O intuito é discutir e desenvolver a luta pela democracia e a resistência aos atuais momentos políticos do país.