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Cultura preta: quais são as novidades do segundo semestre de 2019?

O segundo semestre de 2019 chegou e com ele uma série de lançamentos e estreias na música, teatro, literatura e cinema. Aqui reunimos as mais recentes novidades da cultura preta e periférica de São Paulo, confira a agenda e mais informações sobre cada evento.

Peça “Terror e Miséria no 3º Milênio – Improvisando Utopias”
Quando? Em cartaz de 28 de junho a 28 de julho
Onde? Sesc Bom Retiro – Alameda Nothmann, 185, Campos Elíseos, São Paulo
Saiba mais: http://bit.ly/terror3milenio

Inspirada no clássico de Bertolt Brecht, a peça se une a cultura Hip Hop para apresentar um panorama sobre a violência. É uma visão que coloca, em mundos paralelos, os dias de hoje e os anos que antecederam a explosão do nazi-fascismo, na época da Segunda Guerra Mundial. O elenco formado por 11 atores MCs discute também os privilégios e opressões vindas do racismo, do preconceito de classe e gênero. O espetáculo é montado pelo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, com a direção de Claudia Schapira.

Lançamento do livro “Pensando como um negro: ensaio de hermenêutica jurídica”
Quando? Dia 02 de julho, das 19 às 22 horas
Onde? Livraria Tapera Taperá – Loja 29, 2º andar – Avenida São Luís, 187, São Paulo
Saiba mais: http://bit.ly/pensandocomonegro

Adilson José Moreira, professor, advogado, Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Federal de Minas Gerais e Doutor em Ciências Jurídicas pela Universidade de Harvard, lança dia 2 de julho, em São Paulo, o livro “Pensando como um negro: ensaio de hermenêutica jurídica”. Por meio de um estudo integrado entre narrativas pessoais e análises teóricas, o livro discute as consequências entre o formalismo jurídico e a neutralidade racial na interpretação da igualdade.  A publicação apresentada pela editora Contra Corrente vai abrir um debate no dia do seu lançamento com a professora Gislene Aparecida Santos, da Faculdade de Direito da USP, e o professor Dimitri Dimolis, da Escola de Direito da FGV, na livraria Tapera Taperá.

Mostra de Cinemas Africanos
Quando? De 10 a 17 de julho
Onde? Cine Sesc –  R. Augusta, 2075, Cerqueira César, São Paulo
Saiba mais: http://bit.ly/mostracinesafricanos

Serão 24 filmes de 14 países do continente africano na exibição da Mostra de Cinemas Africanos.  Essa é a 4ª edição do evento que traz, em 1 semana, uma seleção de produções reconhecidas em grandes festivais de cinema e aclamados pelo público e também pela crítica. Grande parte dos filmes nunca foi exibida no Brasil e eles serão o centro de debates que o evento trará, com especialistas em cinema, sobre cada narrativa. 

Lançamento de”O.M.M.M.”, novo disco de MAX B.O

O rapper Max B.O completa 20 anos de carreira e comemora com o lançamento de seu novo álbum. Fazendo ode à camaradagem, ele reúne uma série de participações especiais, beatmakers e músicos. Curumin, Rael e Lucio Maia são alguns dos nomes envolvidos. Esse é o primeiro trabalho de inéditas do artista, que apresentou por 6 anos o programa “Manos e Minas”, da TV Cultura. Depois de inúmeras parcerias e das mixtapes “FumaSom Vol. 1” (2013), “Antes que o Mundo se Acabe “ (2012) e o álbum “Ensaio, O Disco” (2010), é hora de “O.M.M.M.”

Ouça aqui:

509-E anuncia retorno aos palcos

Após 16 anos de pausa, o grupo lendário de rap nacional 509-E anunciou, em entrevista para o jornal Brasil de Fato, que vai voltar aos palcos em 2019. Dexter e Afro-X, farão uma série de shows para celebrar os 20 anos de parceria entre a dupla. A primeira apresentação está marcada para o dia 24 de agosto, em São Paulo, e promete trazer clássicos como Saudades Mil, Mile Dias, Castelo de Ladrão e Oitavo Anjo. No entanto, os rappers já adiantam que esse  é um momento de celebração e não é um retorno oficial do grupo, os artistas ainda continuam suas carreiras solo.

Confira a matéria completa: http://bit.ly/Retorno509E_BF

 

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Cinema

Quando a rainha Nzinga trouxe o mar pra Minas

A Rainha Nzinga Chegou / Foto: Divulgação

Por Viviane Pistache*

Nos idos tempos em que a América do Sul e a África era um continente só, antes do abalo sísmico causado pela Europa, Minas tinha mar; tanto é que tem um bairro na cidade de Betim que se chama Angola.  Foi nesse pedacinho de África mineira que Dona Maria Casimiro fundou a Guarda 13 de Maio em 1944. No que deu quatro décadas, sua filha Dona Isabel Casimiro das Dores Gasparino foi coroada Rainha Conga de Minas devido ao passamento de Dona Maria, cumprindo a tradição matriarcal. Princesa da Guarda desde os cinco anos de idade, Dona Isabel foi coroada Rainha aos 45 anos e  por 31 anos presidiu a Guarda de Moçambique e Congo Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário. Como se não bastasse, por mais de duas décadas foi Rainha Conga do Estado de Minas Gerais. Antes tarde do que nunca, em 2014 Dona Isabel foi agraciada com o prêmio “Mestres da Cultura Popular de Belo Horizonte”, concedido pela Fundação Municipal de Cultura.

Esta e outras histórias sobre Dona Isabel podem ser conferidas no filme “A Rainha Nzinga Chegou”, dirigido e protagonizado  por sua filha Belinha que compartilha a direção com Júnia Torres. O documentário está competindo na Mostra Aurora, da 22ª Mostra de Tiradentes. Tenho pra mim que uma das cenas mais marcantes do longa é a que traz Dona Isabel chamando o nome de batismo e registro sua filha, carinhosamente apelidada de Belinha. Dá gosto de ver Dona Isabel pronunciando o nome completo de sua filha: Isabel Casimira Gasparino. Um nome que carrega a força de uma ancestralidade re-significada. Ao evocar o nome da família, Dona Isabel convoca Belinha a assumir seu legado. O que acontece com o repentino passamento de Dona Isabel no dia 02 de junho de 2015, aos 76 anos.

Com essa inesperada notícia, nosso congado chorou tanto que até ressuscitou o litoral de Minas, que por um instantinho, teve mar de novo. Mar de Angola que beijou as Lágrimas de Nossa Senhora, da coroa de Belinha do Sagrado Rosário dos Pretos Velhos de Aruanda. Foi feita a travessia reversa. O navio negreiro até estava lá todo enferrujado e encalhado, assombrando a paisagem, como um pesadelo que nunca vamos esquecer. Mas como Dona Belinha bem lembrou, ela navegou os céus, escoltada pela Guarda, pois ela tem ciência de que não anda só. Por isso ela nem temeu mais as turbulências do marear. E assim, nas asas de metal ela voou por cima do temporal pra nossa estrela natal.

Dona Belinha é aquela voz de tambor que re-traduz nossas tradições afro-futuristas com uma fabulosidade que nos arrepia todinha. Igual quando ela visitou Ngola e Matamba, pra pisar nas terras onde a guerreira Nzinga reinou e lutou contra a invasão portuguesa. As nossas pegadas ancestrais demonstram que nossos antepassados tinham “um senhor pé” tão grande que enquanto o direito tava aqui, o esquerdo estava a quilômetros de distância, numa passada tão veloz que chegavam a voar. Ou como nos versos de Sérgio Pererê que Dona Belinha lembrou bem: “pois meu velho abre caminho ou me leva pelo ar”.

Quando Belinha chegou no sítio arqueológico que preserva as pegadas de Nzinga ainda menina, ela não se conteve. Experimentou pra ver se o pé dela cabia na pegava. No que deu o encaixe perfeito, imediatamente Dona Belinha faz florescer a canção “eu pisei na pisada da Nzinga. Eu pisei na pisada da vovó. Eu pisei na pisada da Nzinga, eu pisei na pisada da vovó.” Sim, ela é encantadora. Como se não bastasse, Belinha descobre que do lado do hotel onde ela estava hospedada, havia um pé de Lágrimas de Nossa Senhora, aquela qualidade de semente que se usa nos rosários e na coroa no congado. Belinha ficou abismada com o tamanho das sementes: “cada bitelona!”. Ela até colheu um bocadinho de sementes que germinaram valentes no seu reinado no Concórdia, em Belo Horizonte.

É aquilo né, o que tem aqui tem lá do lado de lá do mar. Seja semente, seja gente. Foi em Angola que Belinha se deu conta que toda gente preta tem um clone em África, de tão parecidos que somos. Em Angola ela reviu um conhecido, Seu Dandico, já falecido há muito. Mas como ela mesma disse “ o cenário foi preparado pela ancestralidade”. Quem iria na viagem era a sua mãe, mas com seu passamento inesperado, Belinha, que tem o mesmo nome da mãe, consegue viajar com a mesma passagem, inclusive.

Foi uma viagem de luto e luta. O ritual do velório de Dona Isabel casou plenamente com o ritual de visita aos túmulos onde repousam nossos antepassados, guerreiros que resistiram à ocupação portuguesa, como a Nzinga. Motivo pra lamentar a gente aos monte, mas não podemos perder a chance de celebrar toda vez que podemos. Como bem disse Dona Belinha: “cada milímetro avançado, é um quilômetro conquistado”.

Interessante que o filme A Rainha Nzinga Chegou foi exibido um pouco antes do curta-metragem Negrum3 de Diogo Paulino. O jovem negro, de vinte e sete anos, trouxe para as telas uma ousada proposta do gênero afro-futurista. Ele disse que faz filmes de raiva, com raiva e a partir da raiva. Ele faz do ressentimento de ser cotidianamente violentado, a matéria-prima para a revolta. Fiquei pensando na diferença de temperatura entre a fala dele, afrontosa e urgente, com a da Dona Belinha, calma e encantada como quem entra na guerra sempre pra vencer. Me dei conta de que ambos fazem revolta e celebram. Ainda que em tom de contestação, Negrum3 celebra a vida da juventude negra trans-viada, feminista e sapatão que tá viva, ao passo que Dona Belinha celebra a tradição herdada e ambos se encontram lá, na esquina do passado com o futuro, onde o presente se faz possível.

Sam davi que guese gonê! Na cerimônia de abertura da 22ª Mostra tocou uma música bem interessante. Se chama Gonê, do rapper Filipe Rete. O jovem resgata uma língua inventada no bairro do Catete no Rio de Janeiro pela resistência para driblar a censura durante a ditadura. O idioma que ficou conhecido como Gualín do TTK usava a artimanha de dizer as palavras com as sílabas invertidas. Assim, o título da música Gonê traduzido significa Nêgo. E Sam davi que guese ganê, é vida que segue nêga! Assim, me ocorreu que o reverso da RAIVA de Diogo Paulino pode ser o AVIAR de Dona Belinha, essa griot que avia a vida tanto navegando os ares quanto no aviamento perfeito com o qual ela faz a costura da vida. Na linha do céu ela é estrela, na linha da terra é rainha.

Poderia terminar por aqui essas linhas, mas seria desonestidade intelectual deixar de mencionar que o documentário A Rainha Nzinga chegou, causou ruídos à boca miúda, enquanto o debate foi absolutamente afetuoso. As críticas que ouvi se referem ao olhar da câmera que peca por seu amadorismo e etnografia rota. Sem querer tomar partido da diretora Júnia Torres, me agrada o fato de ela ter revelado que a primeira câmera no terreiro está nas mãos de Cida Reis, mulher negra pioneira no áudio-visual mineiro e que também assina a produção do filme. É importante ainda ressaltar que Júnia foi convocada por Belinha para fazer os registros.

Guardada as devidas proporções, me fez lembrar de um fato relatado na Afrografias da Memória, de autoria da professora negra da UFMG, Leda Maria Martins. Tendo sido princesa da Guarda de Congado de Jatobá em Ibirité, Minas Gerais, ela foi escolhida pelo capitão-mor da guarda, João Lopes, que no leito de morte a elegeu a pesquisadora digna de ser guardiã privilegiada da memória deste reinado negro mineiro. Tem-se aqui um raro e belíssimo caso em que a intelectual é escolhida pelo sujeito, subvertendo hierarquias tão consentidas nas pesquisas tradicionais, nas quais a experiência do Outro fica à mercê do bel prazer dos investigadores. Houve ainda quem tencionasse o tom essencialista de uma África mítica e dos elementos católicos da tradição do congado.

Polêmicas à parte, o documentário é em grande medida fruto de uma bela amizade e um registro necessário de nossa ancestralidade. O acervo está garantido e as análises a gente vai disputando com o tempo. Felizmente, temos as interpretações sobre os fatos que podem variar no tempo e espaço. E como me disse Dona Belinha em entrevista exclusiva: “A gente gostaria de fazer o ideal, mas fazemos pelo menos o possível”.

*Viviane Pistache é psicóloga, roteirista e crítica de cinema. Preta das Gerais com mania de ter fé na vida.

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Arte Cultura Matriz Africana

Rodar a vida é uma escola: Melvin Santhana conta sobre a carreira e trajetória de vida

Foto: Vinicius Souza

Por Marina Souza

Cantor, compositor, multi-instrumentalista, ator e produtor musical. A arte dentro da alma ou vice-versa. Melvin Santhana tem 35 anos e nasceu em Guarulhos rodeado por uma família que desde cedo o influenciou musicalmente por meio do trabalho do pai com discos, da MPB, das cantigas de Umbanda e Candomblé, festas familiares e muitas outras experiências. Com cerca de 20 anos de carreira, ele vem conquistando diferentes espaços, atualmente integra a banda de apoio do show Boogie Naipe, do rapper Mano Brown, e no ano passado lançou seu primeiro disco solo: o Abre Alas.

Com apenas oito anos de idade o artista aprendeu a tocar cavaquinho, aos doze entrou num conservatório para estudar violão erudito e durante a adolescência matriculou-se em instituições e cursos de Música. Stevie Wonder, Michael Jackson, Nina Simone, Milton Nascimento, Almige Neto, Lauryn Hill e outros emblemáticos da música negra serviram de inspiração para o desejo de Melvin em trabalhar na área.

Os Originais do Samba foi a primeira banda em que fez parte, foi quando começou a aprimorar seus talentos de cantar, dançar e compor. Aos poucos, foi participando de outros projetos de intuito e mecanismo diversos no cenário artístico. Carregando os significados, as consequências e circunstâncias de ser negro no Brasil, ele diz que resistiu (e ainda resiste) todos os dias de sua vida, independentemente da profissão que está exercendo.

Foi com sua personalidade corajosa e persistente que Melvin conseguiu entrar para o Boogie Naipe. Ele conta rindo que convidou a si próprio quando seu primo, que é amigo da assessora dos Racionas MC’s, lhe falou que a Eliane Dias estava querendo formar um grupo para um novo projeto musical. Coincidentemente, Santhana estava trabalhando no espetáculo “Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens”, que retrata o legado deixado pelos Racionais, e em uma das apresentações conversou com a filha de Mano Brown, que estava na platéia. Através dela, marcou uma reunião com Eliane, que o propôs uma audição com outros músicos indicados por ele próprio. Eles fizeram, passaram e hoje compõem a banda.

Talvez só precise de um incentivo, um espaço para mostrar esse trabalho, uma comunidade que abrace isso e entender que é capaz de produzir.”, diz ele.

Foto: Noelia Najera

Para Santhana é essencial que o povo negro brasileiro faça uma reflexão sobre suas maneiras de consumo, produção e correlação entre si, pois isso interfere diretamente nas perspectivas culturais, históricas e políticas dos cidadãos. A visão eurocêntrica, segundo o músico, ainda é uma das principais responsáveis pelo racismo no país. É por esta razão, que ele sempre optou pluralizar os gêneros musicais usados nas suas obras e afirma: “a diversidade é minha matriz e é onde faço acontecer”.

Quando questionei sobre as dificuldades de ser um artista negro o cantor enfatizou que no Brasil, infelizmente, o mercado da área musical ainda está o pouco aberto para a cultura negra. Ele justifica falando que, apesar da Iza, Gloria Groove, Linn da Quebrada e outras/os artistas negras/os que têm ganhado destaque ultimamente, há falta de uma estrutura e um circuito cultural que fomentem isso.

Recentemente, lançou a música “VIVA!” e diz que em 2019 pretende trabalhar com novos singles, além de videoclipes e – talvez – um EP. Melvin também está atuando como ator tanto em Tetaro, quanto em Cinema, e revela que está inserido no projeto “Sem Asas”, de Renata Martins.