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Cultura

O jazz eclético da Philadelphia

O pianista Orrin Evans tem 43 anos. Desde o meio dos anos de 1990, ele vem produzindo sutilmente o que é considerado por muita gente uma das produções mais ecléticas das últimas duas décadas.

 

Recentemente Orrin Evans foi tema de um longo artigo no caderno de cultura do periódico The New York Times, no qual falou sobre sua experiência como um jazzman pouco conhecido até mesmo pelos críticos do gênero. O músico raramente deixa sua base que é a cidade de Philadelphia.

 

A influente revista Down Beat considerou Orrin Evans como a estrela cadente de 2018 do Jazz. Título que ele polidamente deu “uma banana”, afirmando entre outras coisas que se ficasse esperando pelo reconhecimento da prestigiosa revista poderia ser considerado uma estrela apagada.

 

Filho de uma soprano e de um dramaturgo e professor universtário, Orrin Evans, realizou aula de música na Philadelphia depois que terminou a faculdade e passou alguns anos estudando na Universidade de Rutgers em New Jersey. Ele acabou desistindo no meio do caminho. Segundo ele, os cursos não acrescentavam em nada aquilo que ele estava buscando musicalmente.

 

Em Setembro de 2018, Orrin Evans deixou sua cidade natal para tocar com seu  grupo  Captain Black Band na casa de show Dizzy’s Club Coca-Cola, lugar mais refinado da música Jazz em Nova York.

 

Captain Black Band é fruto de um projeto pessoal que ele montou com um grupo de músicos mais interessados em descobrir novas vertentes da música Jazz do que realmente ganhar dinheiro.

 

Além do seu trabalho musical, Orrin Evans também é mentor de jovens talentos. Ele geralmente usa sua casa onde mora com sua esposa e parceira de criação, Dawn Warren, como um espaço incubador.

 

Um dos frequentadores da sua casa é o jovem baterista Johnatan Michael , que não poupa elogios ao músico. “Ele simplesmente me convida para ir à sua casa para um rango. Não tem nada a ver o com comida, mas sómente com a comunidade e família. O que convenhamos tem tudo a ver com música”, comenta Johnathan.

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Genocídio Negro

Genocídio na África e a omissão da França

Ruandeses da etnia tusti buscando refúgio do genocídio

Por Edson Cadette, do Blog Lado B NY

Em 1994 o presidente de Ruanda, o ditador Juvenal Habyarimana, da etnia hutu, morreu em um controverso acidente aéreo. O caso foi o estopim que desencadeou o genocídio de aproximadamente 800 mil cidadãos da etnia tutsi dentro do seu próprio país.

De acordo com um relatório publicado no final do ano passado pelo governo de Ruanda, a França por meio de seus militares teve uma participação ativa nas milhares de mortes.

O relatório, comissionado pelo atual governo de Ruanda e conduzido por um escritório de advocacia dos EUA, descobriu que os militares franceses não só treinaram soldados ruandeses, como forneceram todo tipo de armamento militar mesmo depois de um embargo de armas contra Ruanda.

Documentos arquivados mostram claramente uma aliança entre os dois governos e como a França reservou-se a um papel de espectador, enquanto o massacre ocorria. O EUA sob o comando do presidente Bill Clinton também foi omisso neste massacre. Na época os Estados Unidos não queriam interferir por causa da intervenção desastrosa ocorrida na Somália dois anos antes.

Os documentos mostram também que o filho do ex-presidente francês, François Mitterrand, era um dos aliados próximo do líder ruandês, cujo governo de etnia hutu encorajou o massacre. “Houve casos onde os soldados franceses encontravam cidadãos tutsis apavorados com o clima de terror e simplesmente viraram as costas e deixaram a execução acontecer”, disse Timothy P. Longman, diretor do Centro de Estudos Africanos na Universidade de Boston. “É uma coisa atrás da outra. Os franceses absolutamente merecem ser condenados por uma catastrófica omissão”, completa.

800 mil cidadãos de etnia tutsi foram mortos em Ruanda em 1994

Enquanto isso os governos da França e de Ruanda entram num verdadeiro cabo de guerra sobre as informações disponibilizadas recentemente a respeito das verdadeiras responsabilidades.

Segundo informações divulgadas por diplomatas franceses, na época, eles culpam os rebeldes tutsis liderados por Paul Kagane, o atual presidente de Ruanda. Com isso, o presidente rompeu relações com a França entre 2006 e 2009. A relutância do governo francês em processar os indivíduos envolvidos no genocídio agravou ainda mais o relacionamento diplomático entre os dois países.

Em outubro de 2017, um juiz na Corte de Apelação em Paris manteve a decisão de não investigar dois altos comandantes franceses com participações comprovadas no genocídio.  Ruandeses morando na França e suspeitos de terem participado no genocídio incluindo a mulher do presidente na época jamais foram formalmente processados pelo que aconteceu.

A corte francesa negou o pedido para o pequisador François Braner acessar os documentos do arquivo de François Mitterrand em novembro de 2017. O pesquisador entrou com um pedido de apelação na corte europeia dos direitos humanos.

“A intervenção em Ruanda é a mais simbólica das mais de 50 intervenções francesa no continente africano”, disse François Graner. “A força armada francesa ainda está envolvida na África. Elas estão implantadas com quase os mesmos mecanismo de decisão que foram usados em Ruanda”, disse o pesquisador.

Depois 24 anos das atrocidades, muita gente ao redor do mundo acredita que a França teve uma participação importante no planejamento, concepção e na execução do massacre.

 

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Cultura O quê que tá pegando?

Com protagonista negra, o livro “Brothers and Sisters” aborda desigualdade racial no mercado de trabalho e autoestima da mulher negra

Por Edson Cadette

Em 1992, a cidade de Los Angeles na Califórnia entrou em completa convulsão. O motivo foi a absolvição de cinco policiais brancos acusados de baterem cruelmente no motorista negro Rodney King. Neste clima de tensão racial, encontramos os personagens do interessante livro de ficção Brothers and Sisters, da escritora Bebe Moore Campbell.

 

Esther Jackson, heroína da história, foi criada no lado sul da segregada cidade de Chicago, mas depois da universidade mudou-se para Los Angeles. Bastante competente, ela conseguiu um cargo como gerente operacional de um grande banco na cidade. Solteira, morando em um sobrado bem decorado e com todas as armadilhas da classe média branca americana, Esther Jackson sente-se frustrada porque seu nível de escolaridade e sua situação econômica não foram suficientes para conseguir a promoção que tanto almeja no Banco. Ela acredita que sua capacidade profissional não está sendo devidamente reconhecida dentro da instituição pelo simples fato de ser uma mulher negra.

 

Em Mallory Post, Esther começa uma amizade com uma colega de trabalho branca. As duas passam a compartilhar os problemas de relacionamento amoroso, e a protagonista pode desabafar sobre os relacionamentos mal sucedidos e os desafios de ser uma mulher negra dentro do mundo corporativo branco.

 

Suas perspectivas profissionais começam a ficar melhor no banco quando Humphrey Boone, um executivo negro altamente qualificado, é contratado para impulsionar o setor de Investimento relacionado como a comunidade afro-americana. Com isso, Esther acredita que finalmente encontrou um aliado para se abrir sobre as dificuldades de um profissional negro no ambiente majoritariamente branco. Esther até vislumbra um relacionamento amoroso entre eles.

 

No cargo de executiva, Esther Jackson se vê na “obrigação” de contratar La Keesha, uma jovem, negra e mãe solteira com desejos de sair da casa onde mora com sua mãe, avó, filhos e irmãs. Mesmo sem ter os conhecimentos necessários para ser contratada, a executiva acredita que La Keesha merece uma oportunidade para ascender socialmente.

 

Depois de entrar em um relacionamento opressor, Esther começa a corresponder às investidas de Tyrone, que desperta nela um aumento em sua autoestima e amor próprio. Por ele ser uma pessoa simples e com uma situação financeira inferior à sua, ela considera o carteiro um “bom partido”, mas procura não se envolver intensamente com ele.

 

Brothers and Sisters aborda assuntos diversos, como abuso policial, fardo de carregar nas costas a responsabilidade de ser negro na América, assédio sexual nas empresas e separação espacial e cultural entre negros e brancos. O livro aborda também as poucas oportunidades e a institucionalização estereotipada de raça, de classe e de gênero na cidade de Los Angeles.

 

Bebe Moore Campbell faz um belo mosaico ligando todos os personagens de uma forma complexa e ao mesmo tempo profunda. Com isso, explora os preconceitos que muitas vezes perpetuam as iniquidades e limitam as oportunidades entre negros e brancos na América.

 

Brothers and Sisters

Editora – Wheeler Pub

Páginas – 728

 

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Cultura O quê que tá pegando?

Adam Pendleton hasteia bandeira para defender a hashtag #BLACKLIVESMATTER

Adam Pendleton trabalhando no seu estúdio no Brooklyn/NY

Por Edson Cadette, do Blog LadoB NY

 

O artista Adam Pendleton tem apenas 34 anos de idade. Sua consciência racial certamente foi formada na era da internet com suas diferentes plataformas sociais. Este jovem foi influenciado também pelo movimento contra a morte de jovens afro-americanos, o #BlackLivesMatter.

 

Sua rotina diária consiste em levantar-se pontualmente, às 5h30, para o café da manhã. Antes mesmo de terminar sua refeição matinal, ele já está imerso em livros de capa dura, lendo teorias literárias na sala do seu apartamento, que fica no bairro do Brooklyn, em Nova York. Normalmente seus assuntos prediletos são história, linguagem, teoria cultural, poesia e críticos literários.

 

Na cômoda, ao lado de sua cama, estão os livros familiares Strange: A life Between Two Island, que fala sobre crescer na Jamaica durante os anos 30; In the Break: The Aesthetics of the Black Radical Tradition, que aborda a conexão entre o jazz, identidade sexual e a política do negro radical, e Precarious LIfe: The Powers of Mourning and Violence, que retrata a vulnerabilidade e opressão dos EUA após o 11 de setembro de 2001.

Adam Pendleton faz parte de uma nova geração de artistas, incluindo Rashid Johnson, Elen Gallagher e Ellen Mehretu, entre outros.

Em 2015, depois da absolvição de George Zimmerman, acusado de ter matado o jovem desarmado Trayvon Martin na Flórida em 2012, Adam Pdedlenton criou naquele ano a obra Black Data Flag, exibida na Bienal de Veneza. A produção é uma clara alusão ao movimento Black Lives Matter. “Zimmerman escapou da prisão porque defendeu ‘seu espaço’. Acredito que a linguagem que resguarda seu espaço é: Black Lives Matter“ comenta o jovem artista.

 

Considerado um dos grandes artistas do momento, o seu talento tem atraído colecionadores particulares que não medem esforços para adquirirem seus trabalhos artísticos.  Um dos seus trabalhos relacionado ao Black Data foi leiloado recentemente por US$225 mil – valor bem acima ao estimado pela casa de leilão Christie’s em Nova York.

 

Sua visão artística não está restrita à arte contemporânea. Pendleton também tem um compromisso com o passado de luta dos afro-americanos. Juntamente com os artistas Rashid Johnson, Ellen Gallagher e Julie Mheretu, o artista está ajudando a preservar a casa da cantora Nina Simone, que fica no estado da Carolina do Norte.

 

Durante sua juventude, Adan passava horas no porão da casa dos seus pais pintando. Após terminar o ensino médio – dois anos antes do previsto –, ele viajou à Itália para estudar arte e em seguida mudou-se para Nova York. Uma de suas grandes preocupações era não ficar superexposto. Durante o ano costuma produzir apenas 12 trabalhos artísticos.

 

Na virada para o novo milênio, Adam Pendleton confessou a sua família que era gay. Para sua grata surpresa a reação da família foi de total apoio. “Meus pais tiveram a postura mais generosa”. O artista disse que os pais permitiram que ele e os seus dois irmãos pudessem crescer da maneira que eles realmente eram. “Eu sabia que poderia voltar para casa. Isso permite a você arriscar-se. Mesmo hoje em dia penso que pelo menos eu posso voltar para casa”, finaliza Pendleton.

 

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Igualdade racial

Profissionais negros são mais exigidos durante processo seletivo nos EUA

Por Edson Cadette, do Blog LadoBNY

Apesar da boa intenção das grandes companhias estadunidense em diversificar seus quadros de funcionários, um fator continua intacto nos últimos 25 anos. A contratação de mais funcionários negros qualificados se comparado ao mesmo currículo de candidatos brancos.

Foi exatamente isso que concluiu um profundo estudo patrocinado pelas Universidades Harvard, Northern Western e dois Institutos de pesquisas europeus. O estudo analisou 30 pesquisas separadas sobre contratação de profissionais brancos e negros entre 1989 e 2015. Os currículos nestes estudos mostram o nível escolar e a experiência profissional equivalentes, diferenciando somente em casos em que os nomes mostram certa etnicidade específica ou outras pequenas dicas que mostram a raça dos candidatos nos formulários.

“No momento quando as grandes empresas identificam publicamente diversidade como uma grande prioridade, e várias pesquisas mostram como as pessoas brancas buscam o tratamento igual para as minorias, o resultado deste estudo é surpreendente e ao mesmo tempo desanimador”, disse Lincoln Quillian.

Lincoln Quillian, que é pesquisador da Universidade de Northern Western para o Instituto de Política e Pesquisa, acredita que os gerentes com a responsabilidade de contratação talvez estejam fazendo um julgamento superficial baseado em suas próprias experiências.

“Todo patrão bem intencionado sinceramente acredita tratar todos os candidatos da mesma forma. Preconceito intencional, ou não, faz parte de sua decisão na hora de contratar um novo funcionário para sua empresa”, disse o pesquisador em recente artigo publicado pelo periódico The New York Times.

Com os oito anos de Barack Obama, primeiro presidente negro do EUA, o país estava tentando promulgar a ideia de um país pós-racial. O estudo vem contrariar tudo aquilo que muita gente estava tentando pregar. Ou seja, a disparidade racial entre negros em brancos na América é muito mais profunda do que muitos imaginam.

 

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