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Escrita da história

Você sabe o que foi a Revolta do Queimado?

Por Marina Souza

Há 170 anos acontecia a Revolta do Queimado, também conhecida como Insurreição do Queimado, em Espirito Santo, considerada por muitos historiadores como uma das principais ações contrárias ao sistema escravocrata do país naquela época. Conheça agora o que foi esse marco histórico.

As ruínas da igreja Freguesia de São José do Queimado / Foto: Reprodução

“Um fato histórico de tamanha importância devia ser tomado como bandeira de orgulho, conteúdo turístico amplamente divulgado, mas a gente é preto”, são as palavras de Priscila Gama, presidenta do Instituto Das Pretas.

Ela acredita que o motivo do pouco estudo e conhecimento sobre a Revolta é diretamente atrelado ao panorama estrutural do racismo na sociedade brasileira, que invisibiliza os povos negros.

A Revolta

Foi em troca da tão desejada alforria que cerca de 300 escravos construíram uma igreja em Freguesia de São José do Queimado, o frei Gregório José Maria de Bene havia prometido que lhes concederia liberdade se a obra construíssem. O que eles não previam é que aconteceria um descumprimento do trato, a autonomia não viria mesmo após todo o esforço doado.

Enfurecidos com a enganação, negros e negras articularam uma rebelião nas fazendas aos redores. O trabalhadores escravizados foram brutalmente reprimidos pela Polícia da Província, que assassinou muitos deles, a prisão de Elisiário, o grande líder do movimento, demarcou o fim da Revolta, que durou cinco dias e deixou feridos nos dois lados do confronto.

A presidente acredita que entender o acontecimento trata-se de uma recuperação de memória, sendo importante para a fundamentação de uma história apagada pelo processo colonial escravocrata.

 

 

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Consciência Negra

E após o fim da escravidão?  

 

Por Douglas Belchior

Imagine um amigo seu ou um parente que fosse tratado como um animal. Imagine as pessoas que você ama vivendo sem ter nenhum direito, podendo ser vendidos, trocados, castigados, mutilados ou mesmo mortos sem que ninguém ou nenhuma instituição pudesse intervir em seu favor. Imagine você, seu pai, sua mãe ou seu filho sendo tratados como coisa qualquer, como um porco, um cavalo, ou um cachorro. Imagine sua filha sendo levada ou mesmo ao seu lado, estuprada, todos os dias e depois, grávida à serventia do negócio de seu dono.

Clóvis Moura (Moura, 1989, p.15-16) faz o relato sem personagens. Eu os incluí para pedir que imagine.

Você que já chorou diante das cenas que remetem o sofrimento de Jesus Cristo, na sexta feira da paixão; Você que fechou os olhos frente às fortes imagens de Django Livre; Você que se emocionou com 12 anos de escravidão, imagine.

Imagine – e saiba – que teu país e as riquezas que o conformam existem em função de quatro séculos de escravidão. E de tudo que deste período e deste sistema decorreu a partir de então.

Mas, enfim, a escravidão acabou: 13 de maio, princesa Isabel e muita festa! Festa e promessa de abonança, tal qual desrespeitosamente a golpista Rede Globo nos educa, quase sempre com muita graça, como nos episódios clássicos do “Baú do Fantástico” e do “Tá no ar!“.

E nos dias seguintes, tudo seria diferente?

Desde que acompanho o movimento negro, aprendi que dia 14 de maio, o dia seguinte ao fim da escravidão, foi o dia mais longo da história. Aliás, alguns dizem que é o dia que não terminou.

Depois de séculos de sequestros, escravidão e assassinatos, o que se viu nos anos pós-abolição foi a formação e o desenvolvimento de um país que negou e ainda nega à população negra condições mínimas de integração e participação na riqueza.

Sem terra, sem empregos, sem educação, sem saúde, sem teto, sem representação. Sequer a mais liberal das reformas, a agrária, fora possível no país das capitanias hereditárias. Vamos olhar para o campo e observar as fileiras ou os acampamentos de Sem Terra, maioria negras e negros. Vamos buscar na memória os rostos de quem conforma o pelotão que estremece as metrópoles na justa luta por moradia capitaneada pelos movimentos de Sem-Teto nos dias de hoje: negras e negros! Bora olhar para as filas dos hospitais, para os que esperam exames e tratamentos, para os analfabetos ou para as crianças em idade escolar que estão fora da escola. Vamos olhar para a população carcerária e suas condições de existência. Vamos olhar para as vítimas de violência policial, para os números de desaparecimentos e homicídios. Vamos olhar para os dependentes do bolsa-família ou da previdência social. Vamos olhar para a pobreza. De fato, ela atinge a todos. Mas a presença de negras e negros nas condições narradas aqui tem sido desproporcional e pouco se alterou desde 1888.

O dia seguinte, a década seguinte, os 130 anos seguintes ao fim da escravidão não foram suficientes para nos livrar de uma herança racista, reafirmada cotidianamente pelos descendentes dos colonizadores que sempre dominaram o Brasil. Estes mantém a posse do latifúndio, hoje rebatizado de agronegócio. Mantém o domínio dos grandes meios de comunicação, são donos das grandes empresas, bancos, conglomerados educacionais-empresariais, além de dirigir politicamente as maiores Igrejas. São os mesmos que, por meio de um golpe parlamentar-jurídico-midiático, instalaram um governo ilegítimo dirigido por Temer e uma maioria de parlamentares brancos e corruptos, que mais uma vez assaltam os direitos duramente conquistados pelo povo negro brasileiro. Com isso, garantem o poderio econômico, a supremacia política e a representação eleitoral de maneira a manter intocáveis seus interesses.

Nada diferente do que tem sido os últimos 130 anos. Ou os últimos 518…

Nestes dias depois do “fim da escravidão”, resistimos! Em saraus, cursinhos comunitários, coletivos negros, nas rodas de samba e candomblé, nos bondes funkeiros, no hip-hop, na poesia, na literatura, nas artes, na internet, no movimento negro, e aos pouquinhos, nas universidades, existimos.  Sendo assim, dotados de tamanha resiliência, imaginem a revolta!

 


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