Categorias
Consciência Negra

Há 54 anos o ativista Malcom X era assassinado

Por Marina Souza

Há exatamente 54 anos, em 1965, um dos mais conhecidos e importantes líderes do Movimento Negro de todos os tempos era assassinado com 14 tiros enquanto discursava em um comício de Nova York. Cinco décadas depois, o ativista que ganhou grande destaque nas décadas de 50 e 60 nos Estados Unidos, continua sendo tema de debates, estudos, pesquisas e inspirações de ativismo dentro e fora de movimentos negros.

Primeira cena do filme Malcom X, dirigido por Spike Lee o longa mostra a história de vida do militante

Infância sob chamas

Nascido em maio de 1925 em Omaha, Malcolm Little teve uma infância recheada de episódios marcantes, que posteriormente o ajudariam a enfrentar os discursos e as práticas racistas tão presentes no território estadunidense. Em 1926 membros da KKK (Ku Klux Klan) atearam fogo na casa onde vivia com sua família, que foi então obrigada a exilar-se para Wisconsin. E como se não bastasse o episódio, três anos depois, quando haviam se mudado para Michigan, a vizinhança branca do bairro articulou uma ação judicial que exigia a saída da família, que não atendeu ao pedido e teve – mais uma vez – a casa incendiada.

Aos seis anos de idade, o pequeno Malcom precisou lidar com o luto da morte do pai, que fora encontrado mutilado em uma ferroviária, e aos treze, presenciou a mãe sendo internada num hospital psiquiátrico. Foi nessa época que passou a morar em uma residência de detenção juvenil sob a custódia de brancos.

Negros, uni-vos

Quando chegou à juventude Little passou a morar no bairro majoritariamente negro de Harlem e tetando sobreviver, entrou para o mundo do crime, que o tornou presidiário durante seis anos e meio. Foi na cadeia que Malcom começou a ler sobre o Islã e envolver-se com a religião.

O líder da Nação do Islã na época, Elijah Muhammad, pregava que Alá era negro e que os afro-americanos deveriam viver em países diferentes dos brancos, como uma espécie de proteção e respeito a identidade da cultura negra. Tomando contato com sua crença, Malcom identificou-se e quis fazer parte do crescente movimento.

Cena do Filme Malcom X em que o personagem, interpretado por Denzel Washington, questiona a cor de Deus

A luta

Logo após conquistar a liberdade, em 1952, ele ingressa oficialmente para a Nação do Islã e retira o sobrenome “Little”, apresentando-se agora como Malcom X. O novo sobrenome foi escolhido porque o ativista não achava justo ressaltar nomes de escravocratas.

O sistema de apartheid, que segregava os negros nos EUA, estava sendo o grande alvo de crítica dos movimentos negros da época. A aproximação de X com discursos e ações antirracistas tornava-se cada vez mais evidente e ele começara a defender que a população negra, que a essa altura era o grupo de maior vulnerabilidade social no país, pegassem em armas e lutassem contra os opressores.

Malcom viajou o mundo conhecendo ativistas de diversas causas e países. Sempre muito polêmico, tornou-se motivo de discordância entre movimentos e militantes dos direitos civis. Havia quem o considerasse extremista e quem o reconhecesse como o grande líder da luta negra do momento.

Três homens que eram de uma corrente islâmica divergente da de Malcom organizaram seu assassinato, que ocorreu no dia 21 de fevereiro de 1965. O emblemático militante negro deixou quatro filhas, a esposa gestante e continua sendo até os dias de hoje lembrado pela sua incansável luta.

Categorias
Hip-Hop

Música rap – Estante literária

Por Edson Cadette, do Blog Lado B NY

Quando o grupo de música rap A Tribe Called Quest lançou seu quarto álbum chamado Beats, Rhymes and Life, em 1996, o então adolescente Hanif Abdurraquib ficou tão viciado que no seu Walkman não havia espaço para qualquer outro grupo musical.

Os CDs já tinham substituído as famosas fitas cassetes há anos. Entretanto, para o adolescente, nada ilustrava melhor o contacto com a eclética música rap do grupo do que apertar os botões do seu Walkman para avançar, pausar e rebobinar.

No pequeno volume Go Ahead In The Rain o agora crítico cultural e poeta Hanif presta uma bela homenagem a um dos grupos mais influentes da música rap dos anos 1990. O livro traça a carreira do grupo nos últimos 30 anos mostrando as mudanças culturais e de gosto nos Estados Unidos. Entretanto, Go Ahead In The Rain é uma história bastante pessoal.

O livro começa ligando a música rap com os cantos dos escravos dentro dos tumbeiros nas travessias através do oceano Atlântico até o Novo Mundo. Hanif liga ainda a percussão dos negros, banida pelos “códigos negros” do século XVIII, à música Jazz, nascida da opressão sofrida pelos escravos e libertos dos EUA.

Isto tudo para nos levar a sua adolescência e sua vontade de conectar-se melhor com o pai através da música. Para isto, ele começou até mesmo a tocar o trompete. Na casa onde a música rap não era bem-vinda, o som do grupo com suas letras mais refinadas e uma crítica mais social ligada a batida copiada da música Cool Jazz, A Tribe Called Quest acabou furando a resistência do patriarca da família.

Para os mais aficionados do grupo há bastante informações com muitas interpretações do autor aos mais variados fatos ligados ao grupo. A Tribe Called Quest nasceu em 1985 em St. Albans, um bairro de classe média e negro no bairro do Queens, em Nova York. As músicas do grupo tinham uma forte influência do conceito “Afrocentric Rap Collective Native Tongues”, uma espécie de ideologia onde o objetivo era promover uma cultura positiva ligada a África.

A Tribe Called Quest

Segundo o livro, várias forças culminaram com a separação do grupo em 1998. A primeira e com certeza a mais forte teve um caráter impessoal, mais a ver com o caminho no qual a música rap estava seguindo no final da década, onde o dinheiro e fama tinham uma atração forte. Isto acabou causando um racha entre o rap mais comercial e rap considerado mais autêntico com uma consciência critica social.

Isso acabou trazendo para muitos artistas a seguinte questão: seja real e fique fora do radar comercial ou torne-se mais popular com milhões de dólares no bolso e no banco. Hanif coloca A Tribe Called Quest no centro desta intensa disputa. O resultado foi um enorme estresse entre seus integrantes.

O que realmente interessa ao crítico musical é a intensa e complicada amizade entre os dois principais atristas do grupo: Q-Tip e Phife Dawg. Enquanto o primeiro é elogiado pelo seu perfeccionismo, o segundo por sua maneira cáustica e sua arte irônica com o microfone é mais identificado com o autor.

Go Ahead In The Rain acaba sendo uma carta apaixonada de um fã. Poderíamos até dizer que o livro é uma sorumbática homenagem ao seu artista favorito no grupo.

Último albúm do grupo A Tribe Called Quest (2016)

Phife Dawg faleceu em 2016 logo após o reencontro do grupo na gravação do álbum We Got It From Here… Thanks You 4 Your Service. O primeiro álbum em 18 anos. Detalhe: ele foi lançado dois dias depois da conturbada eleição do presidente Donald Trump nos EUA.

O livro está recheado de informações importantes. Entre elas estão os nomes de influentes personagens da cultura afro-americana e norte-americana, como a escritora Toni Morrison e o cantor Otis Redding.  Num outro importante capítulo lemos sobre os assassinatos de Philando Castile e Alton Sterling, o primeiro em Minnesota e o segundo em Louisiana, ambos numa disputa com a polícia local.

O pequeno e altamente gratificante livro é uma maneira de Hanif Abdurraqib mostrar toda sua gratitude ao grupo de rap que mais influenciou seu crescimento intelectual e seu senso crítico musical.

Categorias
Cultura

Motown 60 anos de música

Por Edson Cadette, do Blog Lado B NY

O final dos anos 1950 nos Estados Unidos ficou marcado por dois importantes acontecimentos culturais. O primeiro deles foi o lançamento da boneca Barbie pela fábrica de brinquedos Matel. O segundo, e certamente com muito mais relevância, foi a inauguração da gravadora Motown criada por Berry Gordy, um jovem adulto de apenas 32 anos de idade e neto de escravos. A gravadora foi aberta na cidade de Detroit, famosa pelas montadoras de automóveis. Na época, a cidade produzia metade dos automóveis do planeta.

Detroit possuía a 4ª maior população de afro-americanos no país, a grande migração, iniciada nos anos de 1940 “fugindo” das amarras racistas dos estados Confederados do Sul, ainda estava em pleno curso. Detroit era uma das paradas obrigatórias além de Chicago, Nova York, Los Angeles e Nova Jersey.

Todos os artistas contratados por Berry Gordy eram afro-americanos filhos de meeiros, metalúrgicos, empregadas domésticas e diáconos religiosos. As chances de um afro-americano escapar do salário mínimo ou de trabalhar numa fábrica eram baixíssimas. Entre os artistas que primeiro colocaram o nome da gravadora no mundo musical estavam Smokey Robinson, Diana Ross, Steve Wonder, Marvin Gaye, the Miracles e Martha and the Vandelas.

The Jackson Five

Assim que os primeiros sucessos invadiram as rádios e as casas nos bairros negros, a gravadora foi “invadida” por jovens que buscavam uma oportunidade no mundo musical. A vontade de “estourar” era tanta que eles não se importavam em fazer qualquer tipo de trabalho.  O cantor mais importante do famoso grupo The Temptations, David Ruffin, ajudou o pai de Berry Gordy a construir o estúdio musical.

A secretária e musa da galera, a bela Martha Reeves, trabalhava no departamento dos artistas e de repertório. A Motown era uma máquina funcionando 24 horas. A grana não era muita, mas Berry Gordy fazia questão de alimentar seus artistas, além de sempre arrumar alguma atividade para fazerem juntos, como por exemplo jogar futebol norte americano. Com isso, ele mantinha na gravadora uma atmosfera mais íntima e sem cerimonias.

Na época o grande desafio da gravadora era furar a enorme barreira racial que mantinha os cantores afroamericanos confinados ao rítmo musical Rhythm and Blues.

Ao inaugurar sua gravadora, o objetivo de Berry Gordy era trazer um som mais agitado e dançante que pudesse ser consumido pela audiência branca com muito mais poder aquisitivo. Para que isto pudesse acontecer ele lançou três selos diferentes: Tamla, Gordye Motown. Com a ajuda do consumidores adolescentes que gastavam milhões comprando os compactos, Berry Gordy descobriu seu filão de consumidores.

Diana Ross

Com uma turnê no lado Leste e Sul dos Estados Unidos, Berry Gordy juntamente com sua entourage acertou em cheio um tiro na lua. A partir desta turnê de enorme sucesso, em apenas 1 ano a gravadora Motown teria como receita o total de $4.5 milhões. Com este dinheiro lançou uma galáxia de compactos que estouraram nas paradas das 100 mais músicas tocadas nas rádios de todo o país.

Entre os anos de 1962 e 1971 a gravadora com suas subsidiárias conseguiu a proeza de colocar 180 números nas paradas de sucessos. Um detalhe importante, setenta por cento dos consumidores eram brancos.

A popularidade de Motown chegou a níveis tão alto que o grupo The Supreme, liderado pela bela Diana Ross, aparecia em comercias por todo país. O mais famoso deles com a marca de refrigerantes Coca-Cola. A dominação da Motown foi tanta que durante seu aniversário de 25 anos, em 1983, um terço dos estadunidenses estavam com suas televisões ligadas vendo o showMotown 25: Yesterday, Today and Forever.

Berry Gordy não é mais o dono da gravadora. A Motown foi vendida em 1988 para a MCA. Hoje ela pertence a Universal Group. Berry transformou a Motown numa verdadeira linha de produção musical como se a gravadora fosse uma montadora. Muita gente credita essa maneira de gerenciar ao período que Gordy trabalhou na linha de produção da montadora Ford.

Berry Gordy e The Supremes

Ele trabalhou com grupos de alto calibre musical como, por exemplo, Gladys Nights & The Pips. Entretanto, o seu pãozinho com manteiga eram os artistas contratados que precisavam ser refinados e polidos. Uma equipe de letristas mantinha a máquina musical bastante azeitada. Muitos dos cantores eram treinados nas igrejas Batistas afro-americanas.

Em turnês pelo país os artistas da Motown descobriram aquilo que seus pais falavam há anos. O racismo nos EUA. Viajando especialmente pelo Sul do país era sempre um desafio encontrar hospedaria respeitável para eles dormirem. Para piorar ainda mais a situação constrangedora, no início dos anos 60, durante a luta pelos direitos civis dos negros, várias vezes a polícia local parava o ônibus dos artistas pensando em tratar-se das famosas caravanas de estudantes do Norte nos chamados Freedom Riders, ônibus com estudantes universitários do Norte que iam ao o Sul para registrar os votos dos negros estadunidenses.

Com a tensão racial envolvendo o país ficou impossível para os artistas ficarem de fora da discussão. Marvin Gaye com a música What’s Going On, Stevie Wonder com Living for the City e Edwin Starr com War entravam solando no debate racial.

Depois de muitas disputas relacionadas com os direitos autorais, Berry Gordy decidiu deixar a cidade de Detroit e mudou seu negócio para Hollywood. Seu sonho sempre foi ser dono de um estúdio de cinema.

Museu da gravadora Motown

Muitos artistas que estavam quando a gravadora foi lançada nos anos 1950 foram embora no início da década de 1970. Com a mudança dos gostos musicais para a música Disco e Funk, a Motown contratou Rick James, Lionel Richie e a banda The Commodores. Entretanto, a enxurrada de artistas deixando a gravadora continuou.

Diana Ross (amante de Berry Gordy), símbolo de glamour, “finesse” e classe, deixou a gravadora em 1981. Assim como qualquer outra dinastia em negócios, a Motown enfrentou tragédias e mortes. Paul Williams do grupoTemptations cometeu suicídio, Florence Ballard morreu de ataque do coração aos 32 anos, Marvin Gaye ficou sem gravar por 4 anos por causa da morte de sua parceira musical Tammi Terrel, que falecera com um tumor no cérebro, e depois foi assassinado pelo próprio pai em 1984. Michael Jackson e David Ruffin, do grupo Temptations, morreram por causa de uma overdose de remédios.

O que começou como uma simples gravadora para dar oportunidades a artistas afro-americanos acabou transformando-se numa legendária gravadora que não somente transformou a cena musical nos Estados Unidos, mas também ao redor do planeta. Durante seus 65 anos de existência a Motown apresentou uma galáxia fantástica de artistas, fazedores de moda, e atitudes sem parâmetro algum na indústria musical do país.

 

Categorias
Cultura

Estante Literária – Explicando a cultura sulista dos EUA

Por Edson Cadete, do blog Lado B NY

Para milhões de norte-americanos, dois eventos caracterizam historicamente o sul do país: a Guerra Civil e o movimento pela luta pelos direitos civis. Este último vem sendo fustigado há, pelo menos, 50 anos. Primeiro pela “estratégia sulista” desenvolvida pelo partido republicano na figura de Barry Goldwater em sua campanha para presidente em 1968. Ele havia votado contra as leis dos direitos civis de 1964. Richard Nixon seguiu o mesmo pensamento em campanha presidencial e depois como presidente com os “direitos dos Estados” e “lei e ordem” palavras embutidas com conotações raciais.

Leia também: Porque este blogueiro,  Douglas Belchior, homem preto, professor e ativista do movimento negro é candidato a deputado federal

O excelente livro The Bunring House: Jim Crow and the Making of Modern America, de Anders Walker, professor de Direito e História pela universidade de Saint Louis, no Estado de Missouri, explora detalhadamente esses e outros eventos junto aos seus legados. Entretanto, o professor nos direciona a outro assunto muito importante: nas primeiras décadas do século XX, os intelectuais negros e brancos buscavam guardar alguns dos aspectos únicos de suas próprias culturas sulistas do país, enquanto lutavam a sua maneira contra a segregação racial.

 

Segundo Anders Walker, o Sul dos EUA é muito mais do que atos heroicos por parte dos cidadãos afro-americanos e momentos de vergonha por parte dos supremacistas brancos. A região também serviu como arena para o debate sobre multiculturalismo. Em princípio pode parecer estranho essa tese, já que a luta pelos valores culturais nos EUA teve seu apogeu nos anos 60 e 70.

 

A tese segue pelo caminho de dois importantes escritores: Zora Neale Hurston e Robert Penn Warren. Os autores, assim como outros daquela época, estavam preocupados com o que aconteciam com as duas culturas distintas forjadas sob o manto das leis segregacionistas Jim Crow. Eles questionavam como ficaria uma possível integração cultural entre negros e brancos. Muitos escritores acreditavam que tanto a cultura branca como a negra perderiam suas próprias características, tornando-se completamente homogêneas, da mesma maneira que já ocorria em várias partes do país.

 

É bem verdade que esta suposta homogeneização da cultura estava longe de ser uma realidade. Basta ler o trabalho de historiadores como Jon Lauck que afirmava que o meio oeste dos EUA tinha sua própria herança cultural e literária. Burning House entra num terreno de areia movediça ao r famosos escritores brancos sulistas como William Falkner, Harper Lee, Flannery O´Connor, entre outros, que defendiam uma integração mais gradual das duas culturas na região.

 

Para estes escritores, as leis racistas conhecidas como Jim Crow deveriam ser simplesmente reformadas. No geral, os escritores brancos sulistas jamais pregavam por uma revolução para por fim às práticas racistas.

 

Do lado de autores negros também havia certo temor a respeito desta integração. Muitos acreditavam que a cultura única afro-americana perderia sua força nesta integração. Nas palavras do escritor James Baldwin, que por sinal não era do Sul, mas sim de Nova York, ninguém em sã consciência desejaria ser integrado a uma “casa em chamas”.

 

The Burning House faz parte de uma nova safra de criticismo literário sobre o Sul contemporâneo. A literatura diferentemente de seus precursores não acredita fielmente no excepcionalismo sulista. Esta nova visão de que a história e a cultura local são bastante diferentes do resto do país está sendo contestada cada vez mais.

 

The Burning House

Jim Crow and the Making of Modern America

Anders Walker

Editora – Yale

304 páginas

Categorias
Direitos Humanos

EUA, o país selvagem

“Quem não se comove diante da lágrima de uma criança não pode ser considerado humano porque não se comoverá diante de qualquer vida!”

Por Fábio José Garcia Paes

Esse título é para chamar a atenção das pessoas que sempre idolatraram os EUA como território progressista, referência do conhecimento universal, do padrão elitizado daquilo que se entende por humanidade e das nuances da inteligência societária como se fossem o centro e o resto a periferia do mundo subdesenvolvido e subumano. Mas a história revela que esse “imaginário mundial”, e intencional desse país, nunca foi uma verdade absolutizada e comprovada, mas teve seus acentos e singularidades interessantes gestados em um contexto de amplo e massivo racismo, egocentrismo, bairrismo, autoritarismo e segregacionismo. Por isso, forjados nessa realidade, surgem para esse país, e para o mundo, um Martin Luther King e outros expoentes que foram produtos explosivos de revolta desse sistema estadunidense destrutivo, opressor e fatal.

 

O que Trump aprontou de forma criminosa para as crianças e adolescentes imigrantes escapa de qualquer princípio legal e sentimento societário atual. Isso tudo denota uma atitude patológica, daquelas histórias horrendas geradas por maníacos, psicóticos e seriais killers vistos em documentários ou nos exagerados filmes hollywoodianos. Por isso, comparar essa ação política e programática com o nazismo é algo de associação simples pelas características doentias que exibe. O cenário é medieval e de caráter repulsivo. As notas públicas das Organizações Sociais e mecanismos internacionais são ventos perto da urgência iminente da realidade perversa imposta por esse representante de Estado.

 

Mas o que essa ação aponta enquanto conclusões e reflexões sobre a vida e suas relações de poder, exploração, liberdade e direitos humanos? Diante do absurdo dos dados e fatos apresentados é preciso analisar os tentáculos dessa ação que é maior e mais profunda do que parece, por isso, mais criminosa e desumana do que aparenta ser.

 

O primeiro recado para o mundo e aqueles que acreditam que o universo financeiro é referência de análise e de sabedoria é que essa crença deve cair totalmente por terra. Trump, um empresário renomado, empreendedor, homem referência do mercado e do neocapitalismo é cego, ignorante, desprovido de virtudes humanas e de gestão pública e que não entende nada de política como “bem para [email protected]”.

 

Essa falácia eleitoreira, no mundo, traz contextos e situações equivocados de governos “empresariais”, basta ver o que aconteceu em São Paulo com João Dória. Isso se evidencia de forma abrupta e sem qualquer dúvida com Trump, que desconhece acordos, teorias e metodologias eficientes e mais humanas para governar. Enfim, falas e programas descontemporanizados que são ilegais e criminosos.

 

As mídias e comentaristas de plantão, que se intitulam “jornalistas e analistas políticos e econômicos”, adoram partir do princípio de que o mercado e o mundo econômico regem a vida em sociedade e aquilo que deveria ser a política representativa de um Estado e de uma nação.

 

Outra questão importante é que, em 2019, serão comemorados os dez anos da aprovação das Diretrizes da ONU para Cuidados Alternativos de Crianças e Adolescentes, marco internacional de referência para as crianças e adolescentes que estão em risco de perder ou que perderam o cuidado parental. Irônica tragédia?

 

Hoje, em muitos países, as leis parecem alucinações e doutrinas de poucos e estão nos porões dos encastelados poderes regidos por interesses privados de grupos hegemônicos.

 

O que acontece na fronteira do EUA se reproduz em nossa Terra Brasilis. Temos mais de 46 mil crianças em serviços de acolhimento (retiradas do seu ambiente familiar de origem) e esse número, que revela os índices de desemprego e vulnerabilidade social das famílias, tem crescido a cada dia.

 

Aqui, neste “país tropical, abençoado por deus”, há juiz que separa crianças e adolescentes de suas famílias por questões de conflitos familiares ou simplesmente por serem pobres e não responderem de forma “qualitativa” frente à relação e condição mínima para o desenvolvimento dos seus filhos e filhas. Mas, a lei não orienta diferente? Aqui, ao invés de a justiça julgar o Estado, que não prove condições para as famílias cuidarem bem de seus filhos e filhas, criminaliza as famílias sob a régia do dever absoluto. Isso pode ser observado desde a caneta do juiz às abordagens preconceituosas e equivocadas de conselheiros tutelares que são instrumentos do policiamento às famílias. A mesma política de criminalização para os imigrantes utilizada pelos EUA, aqui no Brasil e em muitos países é política judiciária e assistencial para as famílias sem acesso a serviços e sem renda básica.

 

Ao ver as cenas dos “presídios” para as crianças imigrantes (três presídios para bebês) lembrei dos abrigos de acolhimento que, ao invés de terem cuidadores, têm meros monitores, como os bedéis nos corredores de sala de aula, o que também recorda todo o sistema de medida socioeducativa que, ao invés de educadores, têm policiais armados e prontos para “educar” por meio de castigos e pancadaria; em lugar de salas educativas, há escuras e sujas celas que, no lugar de trazer oportunidades tem a muralha de um destino marcado pela punição e criminalização da sociedade que não faz bullying, assassina! Exagero linguístico? Basta atentar para o número de meninos e meninas mortos depois que saem desse sistema socioeducativo, sem falar na violação do direito de viver em família e em comunidade, algo grave, no país.

 

Recentemente, recebi uma denúncia de uma cidade do estado de Santa Catarina, em que uma juíza destituiu o poder familiar de uma mãe com três filhos porque ela era quilombola e negra. O processo atesta essa ação racista e criminosa. Hoje, as crianças negras vivem com uma família adotante enquanto sua mãe luta, diante da mesma justiça, para ter de volta os filhos que lhe pertencem.

 

Esse exemplo prolifera em diversas comunidades tradicionais e nas periferias do país: famílias pobres, periféricas, na sua grande maioria negras, perdem seus filhos para adoção, sem direito de restituir laços e ambientes protetores para deles cuidar. Por isso, em medidas e formatos quase diferentes, pode-se constatar o descaso com as diversas infâncias no Brasil, o que é chancelado pelo Estado, assim como acontece nos EUA.

 

Mas Trump representa os EUA. Por isso, é fundamental separar o “autor-representante” do coletivo maior: o povo norteamericano. É preciso também aprofundar a reflexão sobre o sistema democrático. O que é democracia? Hoje, a democracia é justificada pelas urnas que são alimentadas pela massa. Mas, por qual massa? Será que o balizador para a governabilidade está apenas na condição de indicação popular e massiva de um representante? Os EUA não é o Trump, mas o Trump representa publicamente os EUA. Equívoco generalizador? Essa questão é central para o debate colocado, hoje, para as nações.

 

Por outro lado, como trabalhar, nas visões de mundo de um coletivo, para o despertar para a urgência da equidade e da justiça entre todos e todas como condição estruturante da vida? Sem o respeito pelo outro e a reverência pela vida somos marcados por tragédias construídas pelas nossas escolhas e omissões. Vivemos juntos e somos juntos. Essa relação é intrínseca, ontológica e fundante de qualquer ser. Por isso, reconhecer e respeitar o outro é elemento primária no pacto da vida.

 

No Brasil, Trump é aspiração e inspiração de personagens políticos e de grupos distraídos pela ideia de um mundo onde a moral do ridículo e do distorcido eticamente são princípios vitais de uma nova governança de país. Será que essa “tendência social e política” é parte do jogo da democracia ou é o registro de uma patologia societária que deve ser administrada e curada por um Estado ético e democrático, no sentido honesto, contemporâneo e necessário para a vida em sociedade?

 

Passamos de tempos difíceis para tempos de aberrações e selvagerias societárias: bebês, crianças e adolescentes são objetos de uma loucura egoísta e perversa de uma pessoa que não passa, bem de perto, de uma figura representativa de um Estado. Trump é assunto psiquiátrico e jurídico penal. Para quem não percebe a singularidade e importância de desenvolvimento da criança e o fundamental e intransponível poder dos vínculos familiares nesse processo, merece ser tratado e preso para o bem daquilo que nos sobra de humanidade.

 

E um grande alerta: a lágrima e o choro das crianças imigrantes nos EUA são as mesmas daquelas afastadas de seus ambientes familiares, aqui no Brasil e no Japão, por motivos outros e não os de preservar seu interesse superior. Internacionalizar este debate e luta é urgente.

 

O direito à convivência familiar e comunitária é básico para o desenvolvimento integral da vida. Precisa desenhar? Quantas vidas mais precisam ser violentadas para cair a ficha?

 

Categorias
Igualdade racial

Profissionais negros são mais exigidos durante processo seletivo nos EUA

Por Edson Cadette, do Blog LadoBNY

Apesar da boa intenção das grandes companhias estadunidense em diversificar seus quadros de funcionários, um fator continua intacto nos últimos 25 anos. A contratação de mais funcionários negros qualificados se comparado ao mesmo currículo de candidatos brancos.

Foi exatamente isso que concluiu um profundo estudo patrocinado pelas Universidades Harvard, Northern Western e dois Institutos de pesquisas europeus. O estudo analisou 30 pesquisas separadas sobre contratação de profissionais brancos e negros entre 1989 e 2015. Os currículos nestes estudos mostram o nível escolar e a experiência profissional equivalentes, diferenciando somente em casos em que os nomes mostram certa etnicidade específica ou outras pequenas dicas que mostram a raça dos candidatos nos formulários.

“No momento quando as grandes empresas identificam publicamente diversidade como uma grande prioridade, e várias pesquisas mostram como as pessoas brancas buscam o tratamento igual para as minorias, o resultado deste estudo é surpreendente e ao mesmo tempo desanimador”, disse Lincoln Quillian.

Lincoln Quillian, que é pesquisador da Universidade de Northern Western para o Instituto de Política e Pesquisa, acredita que os gerentes com a responsabilidade de contratação talvez estejam fazendo um julgamento superficial baseado em suas próprias experiências.

“Todo patrão bem intencionado sinceramente acredita tratar todos os candidatos da mesma forma. Preconceito intencional, ou não, faz parte de sua decisão na hora de contratar um novo funcionário para sua empresa”, disse o pesquisador em recente artigo publicado pelo periódico The New York Times.

Com os oito anos de Barack Obama, primeiro presidente negro do EUA, o país estava tentando promulgar a ideia de um país pós-racial. O estudo vem contrariar tudo aquilo que muita gente estava tentando pregar. Ou seja, a disparidade racial entre negros em brancos na América é muito mais profunda do que muitos imaginam.

 

Conheça, participe e ajude fortalecer o movimento negro brasileiro Acesse: Uneafro Brasil