Categorias
Cinema

As Cores da Serpente: um filme sobre sobre sonhos, negros e cultura angolana

Por Marina Souza

As Cores da Serpente, primeiro longa-metragem produzido pelo diretor brasileiro Juca Badaró, será lançado dia 21 de março em São Paulo, Porto Alegre e Curitiba. O filme registra jovens grafiteiros pintando os Murais da Leba, uma estrada histórica com cerca de 20 quilômetros, na Angola. Veja o trailer a seguir.

O Coletivo Mural da Leba envolveu mais de 30 artistas angolanos e estrangeiros para promover a arte urbana. O projeto durou dois anos e, assim como o o documentário, não teve nenhum apoio financeiro do governo ou de empresas. “Como as obras ficam a céu aberto, a chuva e o sol podem degradá-las, e por isso eles [artistas] fizeram intervenções periódicas. A que está retratada no filme foi a primeira e durou cerca de 1 mês”, explica Badaró.

O diretor conta que estava morando há dois anos em Luanda, capital angolana, quando em 2015 recebeu um convite de uma produtora audiovisual brasileira para registrar tais intervenções. Seus trabalhos anteriores dentro do país tinham sido como diretor de mini documentários da TV pública local.

A estrada-cenário de As Cores da Serpente começou a ser construída pelos portugueses no final do século XIX e só foi concluída às vésperas da independência de Angola, em 1974. Tornou-se um dos mais conhecidos pontos turísticos do país, na Serra da Leba, uma formação montanhosa que separa as províncias da Huíla e do Namibe. A via era necessária para facilitar o transporte de mercadorias e pessoas entre as duas províncias.

Com o passar do tempo, as paredes ficaram sujas, má-cuidadas e abandonadas. E é justamente para levar mudança à essa situação que o Coletivo Mural da Leba surgiu trazendo cores ao extenso concreto.

Divulgação

Badaró conta que duas das câmeras que captaram as imagens foram usadas pelos próprios artistas, ele ficava responsável popr registrar as artes e entrevistar pessoas.

É o primeiro filme brasileiro a ser inteiramente gravado no território angolano e, segundo o diretor, o longa tem um significado muito além da exibição das pinturas. Ele confessa estar feliz por saber que o Brasil poderá conhecer outro pedaço seu, que muitas vezes é esquecido.

“É um filme sobre sonho. Um filme sobre negros, cultura africana e sua relação com o Brasil”, diz.

Dois dos 30 artistas estarão presentes na estreia brasileira, um deles é diretor do Coletivo e o outro um grafiteiro que fará muitas coisas pela primeira vez: andar de avião, viajar para outro país e participar do lançamento de um filme que protagoniza. Além disso, as cidades de São Paulo e Salvador terão muros pintados pelo angolano.

Juca Badaró, por sua vez, relata que ao ver a reação dos artistas, que são em sua maioria moradores de gueto, assistindo ao documentário sentiu-se profundamente emocionado, pois muitos choraram e lhe parabenizaram.

 

 

 

 

Categorias
Consciência Negra

Inimigos de Marighella sabiam que ele não era branco

Por Marina Souza

Mesmo antes de sua chegada ao Brasil, o filme Marighella, dirigido por Wagner Moura, tem gerado algumas polêmicas entre os brasileiros. Além dos gritos de protesto do público e da placa de Marielle Franco presentes no Festival de Berlim, na última sexta-feira (15), alguns internautas decidiram discutir a cor do guerrilheiro retratado no longa metragem. O fato de Seu Jorge ter sido o ator escolhido para interpretar o papel está sendo criticado por algumas pessoas que insistem em afirmar que Marighella não era negro.

Discursos como esse, que negam o guerrilheiro enquanto uma pessoa negra, legitima – mais uma vez – as contantes tentativas de embranquecimento sofridas pela população preta no país. Dizer que Carlos Marighella, líder da luta armada contra a Ditadura Militar brasileira, era negro não trata-se de um achismo ou opinião, mas sim de uma verdade histórica. O fato de Seu Jorge possuir uma pele de cor retinta não significa que outros tons não façam parte dos fenótipos negros.

Ao  mesmo tempo, chega a ser interessante e curioso analisar o silêncio que se faz quando personagens negros são embranquecidos no cinema. A escolha de Wagner Moura leva em consideração critérios como representatividade, ter colocado alguém retinto para interpretar um personagem de tonalidade negra mais clara é, talvez, uma maneira de reafirmar o grupo racial e as discussões que o cercam diariamente. Durante o Festival, o diretor disse:

“O Estado brasileiro é racista. Marighella foi assassinado em 1969. Um homem negro, revolucionário e de esquerda foi assassinado pelo Estado dentro de um carro há 50 anos. E 50 anos depois, uma vereadora do Rio de Janeiro, também negra, de esquerda e defensora dos direitos humanos foi assassinada dentro de um carro, provavelmente por agentes do Estado.”

O autor do livro “Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo”, Mário Magalhães, também comentou a polêmica e postou hoje (18) em seu twitter que não há dúvidas de que o guerrilheiro era negro e sofrera racismo durante a vida.

É preciso que a sociedade brasileira, composta majoritariamente por pessoas negras, reconheça a necessidade e, sobretudo, a importância de um ator negro interpretar negros. A invisibilidade, seja no mundo das artes, do corporativo ou acadêmico, é um tipo de violência que precisa ser quebrada. Negar a negritude do guerrilheiro não mudará a história, como disse Magalhães: “Inimigos do Marighella sabiam que ele não era branco”.

Categorias
Cinema

No calor da noite – Cinema

Por Edson Cadette, do Blog Lado B NY

O ótimo suspense No Calor da Noite (1967) estrelando Sidney Poitier no papel de Virgil Tibbs, agente do FBI, e Rod Steiger como chefe de polícia Gillespie, tem vários dos elementos que marcaram a conturbada relação entre cidadãos negros e brancos na América, especialmente no sul.

O filme começa com o assassinato de uma figura importante do mundo dos negócios na pequena cidade de Sparta, no estado do Mississippi. Virgil Tibbs, elegantemente vestido, está sentado numa estação ferroviária esperando seu trem para levá-lo para bem longe da cidade. Confundido com o assassino, Virgil é revistado, algemado e levado para a delegacia local sem ter a oportunidade de esclarecer sua presença na cidade (ele veio visitar a mãe).

Rod Steiger, Sidney Poitier e Jester Hairston

Depois de  resolvido o engano e o chefe de polícia Gillespie verificar que Virgil não é um simples policial, e sim um especialista altamente qualificado em homicídios, ele pede a Virgil que fique na cidade para ajudar a esclarecer o assassinato. Virgil recusa a oferta, mas é obrigado a ficar poque seu superior pede que fique e ajude a solucionar o caso.

Enfrentando a resistência dos policiais, Virgil começa a trabalhar para a polícia local muito a contra gosto.

O diretor Norman Jewison toca em pontos importantes da cultura do sul dos EUA. O primeiro deles é que o negro sempre é o suspeito padrão em qualquer ato ilícito, jamais passaria pela cabeça do policial ignorante que Virgil era um agente do FBI. Outro ponto mostrado pelo diretor é o tratamento dado aos cidadãos negros independentemente da classe social entre eles. Quando Virgil está buscando um local para ficar é levado até um mecânico, que imediatamente se solidariza com a situação do brother de status diferente.

Percebemos que não há diferença no tratamento dos afro-americanos. Ambos sabem que no sul dos EUA os negros são tratados com menosprezo, não importando a classe social que pertencem. A cena de cumplicidade entre os dois é clássica.

Sidney Poitier, Rod Steiger e Warren Oates

Com a luta pelos direitos civis dos negros, que teve seu auge nos anos 1960, uma outra cena de grande impacto para a época foi o tabefe revidado por Virgil e dado pelo poderoso fazendeiro da cidade. A cena mostra que a atitude servil, que até então era a esperada dos negros, não cabia mais nos anos 1960.

O diretor ainda aborda os símbolos importantes para os sulistas brancos, especialmente depois do final da sangrenta Guerra Civil (1861-1865). Antes de resolver o caso, Virgil é emboscado por supremacistas brancos. O agente é perseguido por um carro com com uma bandeira em forma de um X, que simboliza os estados Confederados do Sul.

Virgil é salvo pelo chefe de polícia, pois Gillespe sabe que ele está num patamar social e intelectual completamente diferente dos racistas locais.

Com uma equipe de atores altamente qualificados e liderados por Sidney Poitier e Rod Steiger, o filme No Calor da Noite ajudou a manter acesa a discussão sobre o legado da escravidão nos Estados Unidos e seus efeitos 100 anos após o fim do período de Reconstrução.

  • Elenco: Sidney Poitier, Rod Steiger, Warren Oates, Lee Grant, Anthony James e Quentin Dean
  • Direção: Norman Jewison
  • Duração: 109 minutos
  • Estúdio: United Artists
Categorias
Cinema

Quando a rainha Nzinga trouxe o mar pra Minas

A Rainha Nzinga Chegou / Foto: Divulgação

Por Viviane Pistache*

Nos idos tempos em que a América do Sul e a África era um continente só, antes do abalo sísmico causado pela Europa, Minas tinha mar; tanto é que tem um bairro na cidade de Betim que se chama Angola.  Foi nesse pedacinho de África mineira que Dona Maria Casimiro fundou a Guarda 13 de Maio em 1944. No que deu quatro décadas, sua filha Dona Isabel Casimiro das Dores Gasparino foi coroada Rainha Conga de Minas devido ao passamento de Dona Maria, cumprindo a tradição matriarcal. Princesa da Guarda desde os cinco anos de idade, Dona Isabel foi coroada Rainha aos 45 anos e  por 31 anos presidiu a Guarda de Moçambique e Congo Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário. Como se não bastasse, por mais de duas décadas foi Rainha Conga do Estado de Minas Gerais. Antes tarde do que nunca, em 2014 Dona Isabel foi agraciada com o prêmio “Mestres da Cultura Popular de Belo Horizonte”, concedido pela Fundação Municipal de Cultura.

Esta e outras histórias sobre Dona Isabel podem ser conferidas no filme “A Rainha Nzinga Chegou”, dirigido e protagonizado  por sua filha Belinha que compartilha a direção com Júnia Torres. O documentário está competindo na Mostra Aurora, da 22ª Mostra de Tiradentes. Tenho pra mim que uma das cenas mais marcantes do longa é a que traz Dona Isabel chamando o nome de batismo e registro sua filha, carinhosamente apelidada de Belinha. Dá gosto de ver Dona Isabel pronunciando o nome completo de sua filha: Isabel Casimira Gasparino. Um nome que carrega a força de uma ancestralidade re-significada. Ao evocar o nome da família, Dona Isabel convoca Belinha a assumir seu legado. O que acontece com o repentino passamento de Dona Isabel no dia 02 de junho de 2015, aos 76 anos.

Com essa inesperada notícia, nosso congado chorou tanto que até ressuscitou o litoral de Minas, que por um instantinho, teve mar de novo. Mar de Angola que beijou as Lágrimas de Nossa Senhora, da coroa de Belinha do Sagrado Rosário dos Pretos Velhos de Aruanda. Foi feita a travessia reversa. O navio negreiro até estava lá todo enferrujado e encalhado, assombrando a paisagem, como um pesadelo que nunca vamos esquecer. Mas como Dona Belinha bem lembrou, ela navegou os céus, escoltada pela Guarda, pois ela tem ciência de que não anda só. Por isso ela nem temeu mais as turbulências do marear. E assim, nas asas de metal ela voou por cima do temporal pra nossa estrela natal.

Dona Belinha é aquela voz de tambor que re-traduz nossas tradições afro-futuristas com uma fabulosidade que nos arrepia todinha. Igual quando ela visitou Ngola e Matamba, pra pisar nas terras onde a guerreira Nzinga reinou e lutou contra a invasão portuguesa. As nossas pegadas ancestrais demonstram que nossos antepassados tinham “um senhor pé” tão grande que enquanto o direito tava aqui, o esquerdo estava a quilômetros de distância, numa passada tão veloz que chegavam a voar. Ou como nos versos de Sérgio Pererê que Dona Belinha lembrou bem: “pois meu velho abre caminho ou me leva pelo ar”.

Quando Belinha chegou no sítio arqueológico que preserva as pegadas de Nzinga ainda menina, ela não se conteve. Experimentou pra ver se o pé dela cabia na pegava. No que deu o encaixe perfeito, imediatamente Dona Belinha faz florescer a canção “eu pisei na pisada da Nzinga. Eu pisei na pisada da vovó. Eu pisei na pisada da Nzinga, eu pisei na pisada da vovó.” Sim, ela é encantadora. Como se não bastasse, Belinha descobre que do lado do hotel onde ela estava hospedada, havia um pé de Lágrimas de Nossa Senhora, aquela qualidade de semente que se usa nos rosários e na coroa no congado. Belinha ficou abismada com o tamanho das sementes: “cada bitelona!”. Ela até colheu um bocadinho de sementes que germinaram valentes no seu reinado no Concórdia, em Belo Horizonte.

É aquilo né, o que tem aqui tem lá do lado de lá do mar. Seja semente, seja gente. Foi em Angola que Belinha se deu conta que toda gente preta tem um clone em África, de tão parecidos que somos. Em Angola ela reviu um conhecido, Seu Dandico, já falecido há muito. Mas como ela mesma disse “ o cenário foi preparado pela ancestralidade”. Quem iria na viagem era a sua mãe, mas com seu passamento inesperado, Belinha, que tem o mesmo nome da mãe, consegue viajar com a mesma passagem, inclusive.

Foi uma viagem de luto e luta. O ritual do velório de Dona Isabel casou plenamente com o ritual de visita aos túmulos onde repousam nossos antepassados, guerreiros que resistiram à ocupação portuguesa, como a Nzinga. Motivo pra lamentar a gente aos monte, mas não podemos perder a chance de celebrar toda vez que podemos. Como bem disse Dona Belinha: “cada milímetro avançado, é um quilômetro conquistado”.

Interessante que o filme A Rainha Nzinga Chegou foi exibido um pouco antes do curta-metragem Negrum3 de Diogo Paulino. O jovem negro, de vinte e sete anos, trouxe para as telas uma ousada proposta do gênero afro-futurista. Ele disse que faz filmes de raiva, com raiva e a partir da raiva. Ele faz do ressentimento de ser cotidianamente violentado, a matéria-prima para a revolta. Fiquei pensando na diferença de temperatura entre a fala dele, afrontosa e urgente, com a da Dona Belinha, calma e encantada como quem entra na guerra sempre pra vencer. Me dei conta de que ambos fazem revolta e celebram. Ainda que em tom de contestação, Negrum3 celebra a vida da juventude negra trans-viada, feminista e sapatão que tá viva, ao passo que Dona Belinha celebra a tradição herdada e ambos se encontram lá, na esquina do passado com o futuro, onde o presente se faz possível.

Sam davi que guese gonê! Na cerimônia de abertura da 22ª Mostra tocou uma música bem interessante. Se chama Gonê, do rapper Filipe Rete. O jovem resgata uma língua inventada no bairro do Catete no Rio de Janeiro pela resistência para driblar a censura durante a ditadura. O idioma que ficou conhecido como Gualín do TTK usava a artimanha de dizer as palavras com as sílabas invertidas. Assim, o título da música Gonê traduzido significa Nêgo. E Sam davi que guese ganê, é vida que segue nêga! Assim, me ocorreu que o reverso da RAIVA de Diogo Paulino pode ser o AVIAR de Dona Belinha, essa griot que avia a vida tanto navegando os ares quanto no aviamento perfeito com o qual ela faz a costura da vida. Na linha do céu ela é estrela, na linha da terra é rainha.

Poderia terminar por aqui essas linhas, mas seria desonestidade intelectual deixar de mencionar que o documentário A Rainha Nzinga chegou, causou ruídos à boca miúda, enquanto o debate foi absolutamente afetuoso. As críticas que ouvi se referem ao olhar da câmera que peca por seu amadorismo e etnografia rota. Sem querer tomar partido da diretora Júnia Torres, me agrada o fato de ela ter revelado que a primeira câmera no terreiro está nas mãos de Cida Reis, mulher negra pioneira no áudio-visual mineiro e que também assina a produção do filme. É importante ainda ressaltar que Júnia foi convocada por Belinha para fazer os registros.

Guardada as devidas proporções, me fez lembrar de um fato relatado na Afrografias da Memória, de autoria da professora negra da UFMG, Leda Maria Martins. Tendo sido princesa da Guarda de Congado de Jatobá em Ibirité, Minas Gerais, ela foi escolhida pelo capitão-mor da guarda, João Lopes, que no leito de morte a elegeu a pesquisadora digna de ser guardiã privilegiada da memória deste reinado negro mineiro. Tem-se aqui um raro e belíssimo caso em que a intelectual é escolhida pelo sujeito, subvertendo hierarquias tão consentidas nas pesquisas tradicionais, nas quais a experiência do Outro fica à mercê do bel prazer dos investigadores. Houve ainda quem tencionasse o tom essencialista de uma África mítica e dos elementos católicos da tradição do congado.

Polêmicas à parte, o documentário é em grande medida fruto de uma bela amizade e um registro necessário de nossa ancestralidade. O acervo está garantido e as análises a gente vai disputando com o tempo. Felizmente, temos as interpretações sobre os fatos que podem variar no tempo e espaço. E como me disse Dona Belinha em entrevista exclusiva: “A gente gostaria de fazer o ideal, mas fazemos pelo menos o possível”.

*Viviane Pistache é psicóloga, roteirista e crítica de cinema. Preta das Gerais com mania de ter fé na vida.

Categorias
Cinema

Sobre Necropoética e Cinema Negro com Sotaque Mineiro

Por Viviane Pistache*

A conciliação entre negro-tema e negro-vida num cinema de assunto e autoria negra concomitante, foi inaugurada por Zózimo Bulbul com o emblemático curta Alma no Olho (1973), realizado com as sobras do longa Compasso de Espera (1973), dirigido por Antunes Filho e protagonizado por Zózimo. Cinema sempre foi caro e o nosso começou na espreita, nas brechas, nos retalhos que caíram da moviola. Assim o cinema negro nasce  com gosto de reinvenção e reaproveitamento, como feijoada ou pastel de angu. Desde Zózimo o cinema negro conhece as dificuldades e desafios para parir longas metragens de ficção. Depois de Zózimo Bulbul veio o mineiro Joel Zito Araújo, Jeferson De, a mineira Glenda Nicácio, e os mineiros André Novais, Gabriel Martins. Sim, se conta nos dedos o número de diretores/as negros/as que já estrearam longas de ficção de assunto negro.

Mais do que nunca precisamos falar do manifesto Gênese do Cinema Negro Brasileiro ou Dogma Feijoada puxado por Jeferson De em 2000, que dentre as sete prerrogativas diz sobre a urgência de se fazer filmes dirigidos e protagonizados por gente preta e a abolição de histórias e personagens cunhadas em estereótipos. Mas para superar a tese da Negação do Brasil, sagazmente diagnosticada por Joel Zito Araújo em 2000, realizadores/as negros/as precisam ter acesso a financiamento.

Ainda que percentualmente ínfimas, essas narrativas tem incomodado e interpelado o status quo, conforme se viu no Festival de Brasília em 2017 diante da polêmica ensejada pelo filme Vazante da diretora Daniele Thomas, que amplificou as poucas vozes negras no evento. Conforme questionou a cineasta negra Viviane Ferreira na ocasião: Por que raios a presença de pessoas negras na 50ª edição do Festival de  Brasília  tem causado mais incomodo do que nossa ausência histórica do circuito de distribuição de recursos, prestígios e status do audiovisual?

Um saldo positivo do festival de Brasília foi a denúncia das ausências, das invisibilidades e da celebração dos/as pouquíssimos/as jovens negro/as que estouraram a bolha, como a mineira Glenda Nicácio que compartilha a direção dos seus longas com Ary Rosa. Ao fazer cinema no interior da Bahia, inventando assim um cinema “baianeiro”, Glenda traz o debate não apenas da direção negra feminista, como atualiza a discussão das desigualdades regionais. Cinema tem sotaque. E esse óbvio ululante vem à tona com o cinema negro mineiro.

Filhas do Vento (2005), primeiro longa de ficção dirigido por Joel Zito, mineiro de Nanuque, inaugura o cinema de assunto e autoria negra com sotaque mineiro. A trama se passa em Lavras Novas, cidade vizinha a Ouro Preto. É uma história de fuga e reconciliação com as raízes mineiras, de tentativa cura das dores da infância assombrada pelo passado escravocrata e patriarcal.

André Novais e Gabriel Martins têm elevado o cinema negro mineiro à sua potência máxima. Gabriel Martins faz em Rapsódia para um homem negro (2015) um encontro melódico entre a música negra mineira e o cinema negro mineiro. Em Belo Horizonte existe um festival de música chamado IMUNE, Instante da Música Mineira Negra. O cinema mineiro também vive esse instante IMUNE de um cinema que começa com M de movie e movimento que leva Minas pro mundo. Os filmes de André Novais  já foram selecionados em mais de 200 festivais no Brasil e no mundo como o Festival de Locarno (com Temporada), a Quinzena dos realizadores em Cannes (com Pouco mais de um mês em 2013 e Quintal em 2015), Festival de Rotterdam, FID Marseille, Indie Lisboa, BAFICI, Festival de Cartagena, Los Angeles Brazillian Film Festival, Festival de Cinema de Brasília e Mostra de Cinema de Tiradentes, ganhando mais de 60 prêmios, como a Menção Especial do Júri na Quinzena dos Realizadores em Cannes (Para Pouco mais de um mês, Prêmio Especial do Júri no BAFICI e os prêmios de Melhor Filme pelo Júri Oficial na XI Semana dos Realizadores do Rio de Janeiro, no XI Panorama Coisa de Cinema de Salvador e no III Olhar de Cinema de Curitiba (Para Ela volta na quinta) e os prêmios de Melhor Longa Metragem, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Para Temporada). Gabriel Martins está na edição de 2019 do Festival de Roterdã na Holanda para a estréia de seu longa No Coração do Mundo co-dirigido com Maurílio Martins.

Os longas Ilha e Temporada e o média-metragem Vaga Carne e o curta BlueNoir de Ana Pi são as produções com direção negra mais celebradas nos dois primeiros dias da 22a. Mostra de Cinema de Tiradentes, a primeira grande janela anual do cinema brasileiro. Cada um a seu modo, tematiza a necropolítica e a necropoética. Necropolítica é um conceito cunhado filósofo e teórico político camaronês Achile Mbembe para as políticas e instituições que ditam quem deve viver ou morrer. O poder de determinar a vida e a morte provendo o status político de alguns sujeitos e negando o status político de outros. Diz sobre a intencionalidade e racionalidade meticulosa no controle e extermínio de determinados corpos. Tal conceito tem sido fundamental no debate sobre todas formas de genocídio a que a população negra tem sido assujeitada. E isso inclui a negação da negritude  nas telas do cinema.

Daí a possibilidade de pensar em necropoética. O neologismo foi criado por Juliano Gomes no debate sobre o filme Vaga Carne na Mostra de Tiradentes. Juliano dizia sobre a relação entre samba, poesia e morte como formas de resistência; citando Nelson Cavaquinho e sua intimidade com a morte pra trazer lirismo à dura sobrevivência. E o média-metragem Vaga Carne traz a voz (des)encarnada, a voz entidade, corpo etéreo de um lugar no limbo, num estado intermediário entre a vida e a morte.

O curta BlueNoir traz a morte e ressurreição da expressão azul de tão preta, historicamente usada ofender ao nivel da dança que toca os céus. Ana Pi faz uma viagem interior e coletiva por dez países do continente africano. Se redescobre negra singular num ciranda. Um corpo feminino negro no mundo que é sua própria embarcação para contar a história do berço compartilhado por um povo em diáspora. Fotografia, dança, música e oralidade em cores bem montadas pra fazer as pazes com o azul.

Ilha por sua vez, tem um quê de é doce morrer no mar depois do torpor que toma corpo de um corpo negro e masculino cuja vida foi nadar contra corrente e contra a morte até abraçá-la. Ilha tem o azul de Moonlight.  E assim como a lua abraça a estrela, também derrama sua luz na pele dos meninos negros para que o azul de suas almas resplandeça. Ilha traz o argumento latente de que todo menino negro precisa do mar para que sua alma possa brilhar incontestavelmente azul. Assim, todo menino-homem negro merece um oceano de oportunidades para estar no meio do mundo e poder navegar pelo menos com confiança. Ilha traz diversas faces do homem negro que usa máscara musculosa mas que precisa apenas de um bom prato de afeto e cidadania. Nesse poético retrato sobre masculinidades negras, Ilha nos oferece a chance de sairmos do clichê homem preto, heteronormativo falocêntrico, criticando assim a hiperssexualidade negra. Merecidamente Ilha levou os prêmios de melhor roteiro e melhor ator para Aldri Anunciação no Festival de Brasília em 2018. Assim, Glenda Nicácio milita por um cinema regional que celebra a negritude a partir da fraternidade dos sotaques mineiro e baiano com os premiadíssimos Café com Canela (2017) e Ilha (2018).

Temporada  traz uma potente crônica da vida preta na periferia que se vê cercada da ameaça da morte em sua face moderna chamada de epidemias como dengue, zika, chikungunya, dentre outras. O diretor André Novais disse no debate sobre o filme na 22a. Mostra de Tiradentes que já foi agente de saúde e o filme é uma releitura das precariedades do mundo do trabalho a partir de sua própria experiência. O longa é protagonizado por Juliana magistralmente encarnada em Grace Passô que levou o prêmio de melhor atriz no último festival de Brasília e em Locarno na Itália.  É um sensível olhar sobre a solidão da mulher negra que busca caminhos para a liberdade e a solitude. Um melodrama que sabe ri do exagero e do inesperado, que traz o onírico e a ficção científica para fazer realismo fantástico, que pedi licença respeitosamente para entrar nas casas da periferia para falar de vida e de morte.

O cinema mineiro está tecendo a poética da morte para tensionar privilégios e debater acessos cada vez mais ameaçados. Ao passo que reverencia a ancestralidade mineira, satiriza a  (im)possível  aposta negra na ascensão liberal no audio-visual.  Neste sentido, vale arriscar lembrar o impacto do discurso da apresentadora Oprah Winfrey na cerimônia de entrega do Globo de Ouro, quando escancarou as lacunas e potências num discurso sobre representatividade negra para além da indústria do entretenimento. Sua fala soou tão necessária que rapidamente Oprah foi apontada como possível panaceia para sanar as enfermidades da combalida democracia norte-americana. Assim, uma mulher negra, que fez carreira na indústria do entretenimento, ao passo que denuncia as desigualdades de raça e gênero na representatividade no audiovisual, ocupou também um complexo papel de bússola para uma nação sem rumo. Apesar do desconforto de saber que o traje do sistema é uma camisa de força com estampa neoliberal; dentro das margens opressoras, talvez seja possível considerar que Oprah e um conjunto de artistas e diretoras/es negras/os estejam ajudando a esgarçar alguns limites, colorindo de gênero e raça correntes ideológicas do entretenimento que são hegemonicamente brancas e masculinas.

Se por um lado é sintomático destes tempos a noção de que devemos nos adaptar ao mundo em mudança, e não mudar o mundo em que vivemos; por outro, os poucos nomes negros e mineiros da atual cena do longa-metragem brasileiro  nos convocam a atentarmos para os papéis das estruturas políticas, econômicas e sociais para o enfrentamento da lógica da necropolítica. Ainda que temos orgulho desse cinema negro mineiro que tem asa na palavra; buscamos a terceira margem do rio.

O cinema negro mineiro está fazendo história.  Apesar da potência transformadora das narrativas negras no audiovisual, o tripé racismo, machismo e capitalismo continua sendo um grande obstáculo para a realização a efetiva escrita de outra história. De fato, ainda que a indústria cultural  exproprie o fazer artístico no sentido de reduzí-lo a meros produtos comerciais; mensagens potentes podem eventualmente infiltrar nas brechas da maquinaria capitalista e contrariar as  correntes que reificam valores racistas e sexistas. E já que o protagonismo não é dado, ele deverá ser tomado. Essa tem sido também a estratégia de realizadoras/es negras/es mineiros  que têm negritado o quão racista e machista é nossa produção que insiste na falácia da neutralidade de sotaques.

 

*Viviane Pistache é psicóloga, roteirista e crítica de cinema. Preta das Gerais com mania de ter fé na vida.

 

 

Categorias
Cinema

Em tempos de necropolítica reinventamos a necropoética

22ª Mostra Tiradentes – Abertura Oficial – Foto Leo Lara/Universo Produção

Por Viviane Pistache *

A 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes começou no dia 17 de janeiro de 2019, ou seja, dois dias depois que o atual desgoverno assinou seu primeiro decreto que facilita a posse de arma. Mas qual seria a relação entre arma e cinema? A diretora negra Ava Duvernay no documentário A 13ª Emenda faz uma relação interessante: o capitalismo estadunidense se apoia nas indústrias armamentista e do entretenimento. A maior indústria nos Estados Unidos é a que mais mata a negritude à queima-roupa ou a que mais invisibiliza e estereotipa esta população nas telas?

A abertura da Mostra de Tiradentes destacou o argumento de que cada um real investido em cultura rende quatrocentos reais. Ou seja, cultura é negócio. Mas o desgoverno aposta em armamento e extingue o Ministério da Cultura. Nas mesas de debates da Mostra de Tiradentes uma pergunta tem sido recorrente: o que será da nossa indústria cinematográfica nestes tempos distópicos? Quais os impactos para a realizadores negros/as, historicamente tão alijados/as do acesso a recursos?

Trata-se de enfrentar questões mercadológicas fulcrais, de pensar estratégias para competir com a indústria da violência e do retrocesso, que mata física e simbolicamente a população negra. Melvin Van Peebles, o diretor expoente do Movimento Blaxplotation dos anos 70, estabeleceu os postulados: “Regra número um: não haverá meio termo. Eu farei um filme sobre o negro real. Quero um filme que faça os negros saírem do cinema orgulhosos ao invés de temerosos. Regra dois: esse filme tem que entreter como o Diabo. Regra três: cinema é negócio.”

Sim, cinema é negócio. Um estudo publicado em 2017 pela Creative Artists Agency (CAA) apontou que há o crescimento de uma plateia mais diversa que se interessa por filmes que apresentam diversidade de raça, gênero e orientação sexual, incidindo diretamente na arrecadação. Dentre os incontestes sucessos de bilheteria que ressaltam a diversidade racial dentro e fora das telas, figuram Moonlight, de Barry Jenkins, Corra!, de Jordan Peelan, e Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi. O Despertar da Força, protagonizado por John Boyega, ator negro, bateu o record de bilheteria absoluta, que pertencia a Avatar e Pantera Negra, de Ryan Cooler, filme de melhor desempenho produzido pela Marvel em 18 anos de existência.

Apesar da primorosa formação de profissionais negros no audiovisual, bem como o acesso ao mercado,  o quadro é bem mais complexo, pois a indústria cinematográfica opera numa lógica bélica na construção de imaginários raciais que não se restringem às fronteiras norte-americanas.

Em tempos de necropolítica reinventamos a necropoética. É a proposta da atriz Grace Passô, a grande homenageada nessa edição do Festival de Cinema de Tiradentes. Na noite de abertura fomos agraciados com a exibição de Vaga Carne, que marca a estréia da Grace na direção do seu primeiro filme ao lado de Ricardo Alves Jr..  Adaptação da peça homônima, Vaga Carne traz para as telas a encarnação da voz que se descobre num corpo negro de mulher. A voz que provoca, a voz entidade que não admite ser interrompida. A voz que satiriza, que invade nossa carne, a voz (im)própria, a voz de Exú que matou um pássaro ontem, com uma pedra que atirou hoje. A voz suicida que rasga a carne para se libertar. A voz do chiste que ri de tanto chorar. A voz do gozo e do lamento. A voz do breu, do inconfessável. A voz que não respira, a voz (des)humanizada.

Em Vaga Carne, Grace Passô traz o teatro para o cinema para justamente sair do teatro. Nesta metalinguagem, a câmara está apontada para o racismo próprio dos palcos e dos bastidores da indústria do entretenimento. E assim conhecemos a alma da resistência de dentro e a partir de seus próprios arsenais. Desse modo a atriz, dramaturga, escritora e agora diretora de cinema Grace Passô torna-se uma testemunha vocal que transita entre mundos de diferentes telas. Lembrando que James Baldwin aponta que as fronteiras entre testemunhar e atuar são finas, porém reais; e que parte da responsabilidade das testemunhas é movimentar com a maior liberdade possível para escrever a história. E assim, uma câmara em mãos negras pode se mostrar um armamento poderoso no enfrentamento às violências e alienações raciais com o simples disparar de um flash.

Mas ao mesmo tempo em que Grace Passô mira, é também mirada. A platéia entra em cena para atuar. No elenco estão nomes fundamentais da cena cultural e negra de Belo Horizonte, pois além de Grace Passô, Vaga Carne atravessa os corpos de Zora Santos, Dona Jandira, André Novais, Sabrina Hauta, Hélio Ricardo, Aline Vila Real, Tásia d’Paula, Valéria Aissatu Sane, Ronaldo Coisa Nossa. E considerando a assunção do olhar na hierarquia dos sentidos, tem-se a miragem como posição de poder.

Assim, a busca por aniquilar uma história da colonização evidencia que a branquitude sempre teve o poder da mira, de apontar pra matar, caçar ou espoliar.  Na frente ou atrás das câmeras o corpo negro assume importante posição de conhecimento, de saberes localizados, a partir dos quais novos projetos de  representações simbólicas se tornam possíveis. Em Vaga Carne nossas vozes e corpos estão dentro do olho do furacão,  resistindo para não se deixar engolir. Vaga Carne é um filme sobre a negritude real, que nos faz sair da sala de cinema com orgulho, e não com temor.

Diante disso, a emergência de diretores/as negros/as é fundamental para a existência de um “cinema do real” onde não há manipulação das aparências para colocar o espectador em um estado passivo de identificação acrítica.”, como indica o negro cineasta, escritor, teórico cultural e historiador do Mali Manthia Diawara. Assim, Grace Passô nos traz uma saborosa vertigem de cinéfila, aquele torpor que experimentamos ao ler Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Alice Walker, Maya Angelou, Toni Morrison, bell hooks e tantas outras. Como é bom citar nossa intelectualidade! E por falar nisso, necropoética foi um termo cunhado pelo crítico negro Juliano Gomes na mesa de debate sobre o filme Vaga Carne, que aconteceu no dia 19 de janeiro na programação da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que está reluzindo negritude e afrontamento. Por estas e outras, o festival, que é a primeira grande janela anual do nosso cinema está imperdível. Edição histórica!

 

*Viviane Pistache é psicóloga, roteirista e crítica de cinema. Preta das Gerais com mania de ter fé na vida.

 

Categorias
Cultura

Carmen Jones – Cinema

Por Edson Cadette, do Blog Lado B NY

O filme Carmen Jones (1954), baseado na ópera francesa de Georges Bizet, tem sua história transportada para uma base militar no sul dos Estados Unidos. Joe (Harry Belafonte) é um aspirante a piloto estacionado numa base segregada do Exército norte-americano. No dia de sua folga ele está a espera de sua noiva,  Cindy Lou (Olga James), quando é obrigado a levar a costureira briguenta Carmen Jones (Dorothy Dandridge) para uma prisão fora da base. Carmen está de olho no jovem futuro piloto.

No caminho da prisão Joe é seduzido pelo charme e beleza de Carmen. Depois de acidentalmente matar seu superior imediato,  Joe é obrigado a fugir com Carmen para o lado sul da cidade de Chicago. As coisas na cidade mudam de figura quando Carmen acaba se envolvendo com o lutador Husky Miller (Joe Adams). Joe, agora um fugitivo do Exército, descobre que Carmen Jones não era bem aquilo que ele imaginava, ela está mais preocupada com jóias, diamantes e muita champanhe na sua taça.

Sob a direção de Otto Preminger, o filme Carmen Jones é liderado pela bela e talentosa Dorothy Dandridge (precursora de Hally Berry), que juntamente com Harry Belafonte, Diahann Carroll, Pearl Bailey e Joe Adams, traz para tela muita música, drama, um pouco de comédia e bastante entretenimento.