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Genocídio Negro Segurança Pública

80 tiros em uma família negra: de quem é a responsabilidade?

 

Desde o início, por ouro e prata / Olha quem morre, então, veja você quem mata / Recebe o mérito, a farda que pratica o mal / Me ver pobre preso ou morto já é cultural

Racionais

Por Douglas Belchior

O presidente Jair Bolsonaro defende o exército na rua e diz que policial que não atira em ninguém não é policial.

O ministro Sergio Moro defende lei que considera policiais que matam “por equívoco” perdoáveis, afinal, trabalham sob pressão e agem acometidos de forte emoção.

O governador Wilson Witzel parabeniza PMs que cometem chacinas e orienta: A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e… fogo! Para não ter erro”. Segundo o Instituto de Segurança Pública, só em janeiro de 2019 a policia do Rio assassinou 160 pessoas

O judiciário, em especial o Ministério Público, não age ante a eficácia da polícia que, com trabalho de inteligência, apreende 117 fuzis novos e importados num bairro nobre – a maior apreensão da história e sem um único tiro, ao mesmo tempo em que “fracassam” no combate ao crime enquanto entram, prendem, arrebentam e matam praticamente todos os dias, em bairros pobres e favelas. Não se mete, não incide.

Caberia uma pergunta singela, daquelas que precisam viralizar em redes sociais e virar o grande tema de debate nacional:

QUEM MANDOU MATAR EVALDO?

Sim, foram oficiais do exército que dispararam 80 TIROS. 80 TIROS!!! E mataram Evaldo dos Santos Rosa, homem negro de 51 anos, que trabalhava como músico e segurança. Ele ia de carro com a família, acompanhado do filho de 7 anos, a mulher e uma amiga, para um chá de bebê, na comunidade de Guadalupe, zona norte do Rio de Janeiro. E devem ser punidos. Mas não seria necessário também falar sobre a importância da autorização, do estímulo e até as ordens para matar, proferidas por seus superiores? Eles também tem responsabilidade sobre a ação de seus comandados.

 

Evaldo dos Santos Rosa, morto no fuzilamento promovido pelo exército contra uma família negra brasileira

Ouviremos as justificativas de sempre: “Caso isolado”, dirão eles, individualizando a culpa na figura dos recrutas, o lado mais fraco da corda. Talvez fiquem presos por um tempo, até que a tragédia caia no absoluto esquecimento. E tudo continuará como sempre, pelas mãos de outros oficiais sob as mesmas ordens, mortes todos os dias, quem sabe com menos barulho, melhor pontaria e menos gasto de munição. E seguirá a marcha fúnebre, o genocídio negro, permanente, continuado.

Óbvio que políticas de segurança que fazem do povo negro e pobre suas vítimas, humilhadas, presas e mortas não são exclusividade dos atuais governos estaduais e do governo federal. Trata-se de uma carnificina instalada há décadas, por muitos governos. Importante dizer que a banalização dos discursos de ódio fez a situação, que já era ruim, piorar. E é preciso apontar: São responsáveis pelo assassinato de Evaldo e tentativa de assassinato de sua família, amigos e outros afetados, o presidente Bolsonaro, o ministro Moro, a maior parte do Congresso Nacional, o governador do Rio, Witzel, o comando do exército, a grande mídia que apoia essa política genocida de segurança pública e parte considerável da sociedade que sustenta esse governo. São, todos estes, em alguma medida, responsáveis, logo, assassinos também. E o estado, genocida. E devem ser responsabilizados.

Em fevereiro, organizações do Movimento Negro denunciaram Sergio Moro e sua proposta de segurança pública à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão ligado à OEA. Depois disso, há duas semanas, uma comitiva de representantes do movimento negro foi recebida pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, onde apresentaram, entre outras, preocupações com as propostas do Ministro Moro que, segundo estes grupos, aprofundarão o genocídio negro. O Movimento Negro deverá levar para além do Brasil, a denúncia de mais esta amostra inconteste do genocídio negro brasileiro.

Minha fraternal solidariedade à família.

 

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Violência Racista

Luta por reparação move III Encontro Internacional de mães de vítimas da violência do Estado

Por Redação

A busca pela reparação por conta da perda violenta de um filho é o fio condutor do III Encontro Internacional de Mães Vítimas da Violência do Estado: Por Justiça, Reparações e Revolução. O encontro – que acontece entre os dias 16 e 21/5, na Universidade Federal da Bahia, em Salvador –, reunirá mulheres e familiares que exigem justiça em casos de filhos mortos pelas polícias.

Os temas de discussão do encontro são amplos. Entre os planos de produção em conjunto estão: criação do Fundo de Reparação Econômica, Psíquica e Social aos Familiares por parte do Estado; aprovação de projeto de lei que visa à criação da Semana Estadual de Luta das Mães e Familiares Vítimas da Violência do Estado no mês de maio; aprovação de projeto de lei que dispõe sobre o funcionamento das perícias criminalísticas e médico-legal, visando mais autonomia para as mesmas; e o fortalecimento da Comissão da Verdade e da Democracia.

O mês de maio – além do Dia das Mães – é simbólico para a luta dessas mulheres devido ao episódio conhecido como Crimes de Maio, quando mais de 500 pessoas foram assassinadas no Estado de São Paulo por homens encapuzados após as mortes de policiais provocadas pelo PCC. Depois dessas mortes, outras diversas chacinas semelhantes ocorreram em todo o país.

Em novembro de 2014, por exemplo, onze pessoas foram assassinadas em cinco bairros de Belém (PA), após a morte de um policial militar. Em Manaus (AM), 37 pessoas foram executadas em julho de 2015 depois que um sargento foi morto ao reagir a um assalto. Osasco e Barueri, na Grande São Paulo, foram cenários de uma série de ataques, com as mortes de 23 pessoas, em agosto de 2015. Estudiosos apontam que as frequentes chacinas em várias regiões do país seriam uma consequência do que aconteceu há 12 anos em São Paulo.

O Fundo Brasil de Direitos Humanos apoia o encontro por meio do financiamento das viagens de cinco organizações que farão parte do debate. São elas: Grupo de Mulheres e Familiares de Adolescentes em Cumprimento de Medida Socioeducativa, do Ceará; Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, do Rio de Janeiro; Amparar – Associação de Amigos/as e familiares de presos/as, de São Paulo; Criola, do Rio de Janeiro; e Mães do Curió, do Ceará, apoiadas por meio do Cedeca.

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Mulheres Negras

Seminário #30diaspormarielle reúne centenas de pessoas para discutir intervenção militar e genocídio negro

O auditório Marielle Franco foi inaugurado especialmente para o seminário (Foto: Filipe Peres)

Por Ana Carolina Pinheiro

Com mais de 300 pessoas na plateia, o recém-criado auditório Marielle Franco do Parque da Água Branca, em São Paulo, recebeu o seminário #30diaspormarielle, organizado por movimentos negros, coletivos mistos e militantes independentes. O evento ocorreu dentro da III Feira da Reforma Agraria e contou com a parceria do Movimento Sem Terra (MST).

Para compor as mesas de debate, representantes de grupos importantes para as questões raciais e sociais foram convidados. João Paulo Rodrigues, da direção nacional do MST, Katiara Oliveira, do Kilombagem, Cida Bento, do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), Luciana Araújo, da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, estavam nesse time.

A advogada Marinete da Silva, mãe de Marielle Franco, e a ex-chefe de gabinete da vereadora, Renata Souza, que concorrerá ao cargo de deputada estadual pelo PSOL, também compareceram ao evento e falaram aos convidados sobre o legado da filha da Maré. Renata valorizou a participação de mulheres negras na organização do evento. “Isso criou uma empatia que humanizou e trouxe uma legitimidade ímpar para cada pessoa pensada para compor cada mesa de discussão. Muita potência reunida apostando em alternativas de políticas públicas pesadas a partir da base”.

Marinete Silva, mãe de Marielle Franco, falou ao público sobre a história de luta da filha (Foto: Filipe Peres)

Em relação ao genocídio negro, uma das organizadoras da iniciativa, Zezé Menezes, do Núcleo de Consciência Negra da USP, explica que a reivindicação da política da letalidade do estado não é algo recente: “Infelizmente não conseguimos impedir que isso continuasse acontecendo e hoje vemos nossos jovens sem esperanças. Por isso, é fundamental que as entidades negras e nossos aliados busquem medidas efetivas, que garantam a vida plena de nossos jovens”.

A soma das forças dos movimentos coletivos e individuais serve como combustível para a luta. De acordo com uma das representantes da Marcha das Mulheres Negras, Juliana Gonçalves, a campanha tem três eixos principais. “O seminário foi muito positivo, e a gente não vai parar. Nós nos dividimos em grupos de trabalho e escolhemos os seguintes temas: pedir justiça por Marielle, pautar a intervenção militar no RJ e em outros estados e lutar contra o genocídio da população negra”.

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Debate Genocídio Negro Mulheres Negras

III Feira Nacional da Reforma Agrária recebe seminário “30 Dias por Marielle“

Contra a intervenção militar e pelo fim do Genocídio Negro, o seminário “30 Dias por Marielle“ nasce do protagonismo do Movimento Negro e da união de entidades mistas e independentes, que entendem a execução de Marielle como um desdobramento do crescimento de setores da direita.

A execução de Marielle é um exemplo da política genocida do Brasil que mata e encarcera pessoas por serem negros e pobres. Como aconteceu com Amarildo, Cláudia Ferreira, Luana Barbosa, que foram assassinados, e Rafael Braga, que foi preso.

Questões como segurança pública, intervenção militar, feminicídio, violência policial são alguns dos temas que devem ser abordados pelos convidados no seminário. Para os interessados, o evento gratuito acontece neste sábado, 5/5, das 9h às 17h, no auditório do Parque da Água Branca, em São Paulo.

 

Confira, abaixo, a programação do seminário “30 Dias por Marielle”

 9h – Credenciamento e café;

 

10h – Mística de abertura;

 

10h30 – Mesa 1 “O Brasil hoje: análise do cenário político, econômico, social e as relações raciais”;

Conjuntura: João Paulo Rodrigues (MST)

Políticas públicas: Cida Bento (CEERT)

Intervenção militar: Katiara Oliveira (Kilombagem/Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio)

 

12h – Almoço;

 

13h – Mesa 2 “Novas e velhas facetas da violência de Estado: Intervenção militar e o genocídio negro”

Intervenção militar no RJ: Rafaela Albergaria (ISER)

Violência policial: Bia Sankofa (Coletivo de Esquerda Força Ativa)

Violência de gênero e feminicídio: Luciana Araújo (Marcha das Mulheres Negras/SP)

Justiça e genocídio/encarceramento em massa: Railda Alves (Associação AMPARAR)

 

15h – Pensando o Brasil que nós queremos.

Grupos de trabalho:

  1. Intervenção militar no RJ
  2. Violência policial
  3. Violência de gênero e feminicídio
  4. Justiça e genocídio/encarceramento em massa
  5. Violência e genocídio da população LGBTI

 

16h – Como construir este Brasil? – Socialização dos Grupos de Trabalho

 

17h – Lari Salu e Mina Buts (rap)

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Genocídio Negro Mulheres Negras

Mulheres negras pedem justiça para Luana Reis, morta após ser espancada por PMs

Manifestantes ocuparam uma via da avenida Paulista, na capital paulista, em protesto contra a violência sofrida por Luana Barbosa dos Reis, que faleceu em consequência de isquemia cerebral dias depois de ser agredida por policiais militares em Ribeirão Preto (SP)

por Alê Alves (texto), especial para a Ponte Jornalismo e Daniel Arroyo (fotos e vídeo)

Na última terça (03/05), um grupo composto majoritariamente por mulheres negras protestaram em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), na avenida Paulista, em São Paulo, contra a morte de Luana Barbosa dos Reis, de 34 anos, por uma isquemia cerebral dias após ser espancada por três policiais militares na periferia de Ribeirão Preto, interior paulista.

Organizado por alguns coletivos dos movimentos negro, feminista e LGBT, o protesto durou cerca de duas horas. Com faixas e cartazes com inscrições “Luana, presente”, “Deixem-nos viver” e “Mulheres negras em marcha contra o racismo, machismo e genocídio”, os manifestantes saíram do Masp e caminharam até a porta do Itaú Cultural, na mesma avenida, onde o protesto foi encerrado por volta das 20 horas com uma roda de jongo e uma intervenção teatral do grupo “Levante Mulher”. Todo o trajeto foi acompanhado por policiais militares.

Segundo familiares entrevistados pela Ponte Jornalismo, na noite do dia 8 de abril Luana levava seu filho a um curso de informática no centro da cidade quando parou em frente a um bar para cumprimentar um amigo. Ao ser abordada por policiais militares que circulavam na área, Luana recebeu um soco e um chute ao perguntar por que estava sendo revistada, agressões que a fizeram cair no chão.

 

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Na avenida Paulista, manifestantes pediram justiça para Luana Reis. Fotos: Daniel Arroyo

Ao se levantar, Luana desferiu um soco na boca de um policial e um chute no pé de outro, sendo então espancada pelos policiais militares Douglas Luiz de Paula, Fabio Donizetti Pultz e André Donizeti Camila com socos, chutes, cassetetes e o capacete que usava, ainda de acordo com familiares.

Levada para o 1º Distrito Policial de Ribeirão Preto, Luana estava com hematomas, semiconsciente e sem forças para permanecer em pé quando teve de assinar um TC (Termo Circunstanciado) registrado por desacato à autoridade e lesão corporal. “A letra da minha irmã parece a de uma criança, não tem nada a ver com a assinatura dela. Ela não conseguia ficar em pé, parecia o corpo de alguém que não tinha ossos”, disse Roseli, irmã de Luana. Após cinco dias internada, alguns dos quais em coma, Luana morreu por causa de uma isquemia cerebral causada por um traumatismo cranioencefálico

Em 25 de abril, a Ouvidoria da Polícia Civil solicitou à Procuradoria Geral do Estado, ao IML (Instituto Médico Legal) e às polícias Civil e Militar informações sobre a morte de Luana Barbosa dos Reis. A Ponte solicitou entrevistas com os policiais e o comandante-geral da PM, coronel Ricardo Gambaroni, mas não obteve respostas.

“Me vejo nela”

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Jéssica Rufino, de 26 anos, uma das presentes ao ato, diz ter sabido sobre a morte de Luana e o protesto pelas redes sociais. “Vim porque me vejo nela, sou negra, pobre e lésbica. Somos as desclassificadas da sociedade. Podia ter sido eu.” Ao ser perguntada se já foi abordada por policiais, Jéssica diz que “era enquadrada toda hora” quando usava dreads, há cerca de seis meses.

Micheli Moreira, integrante do grupo de negras da Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de São Paulo, também participou do ato. Para ela, a morte de Luana não é um caso isolado e o protesto foi organizado para dar visibilidade ao que ocorreu. “Aqui na [avenida] Paulista tem segurança, mas nas periferias é bem diferente. Se não tiver cobertura, esse silêncio vai afetar na continuidade dessas mortes. São muitas mulheres negras e periféricas aqui, angustiadas com isso tudo e querendo mudar esse cenário de impunidade”, afirmou Micheli, moradora de São Matheus, na Zona Leste de São Paulo.

Para Ariane Oliveira, de 25 anos, moradora do mesmo distrito, Luana sofreu outro tipo de lesbofobia. “Ela sofreu uma outra violência por se vestir de forma mais masculinizada. Quiseram tratá-la como se fosse homem”, disse Ariane.

Outra participante da manifestação, Márcia Lúcia, de 48 anos, acredita que o ocorrido com Luana mostra “a situação das mulheres negras na periferia” e que o genocídio da população negra periférica “é um fato com permissão do governo”. “Somos um alvo. Estamos morrendo todo dia na banalidade. A gente imaginava estar vivendo num Estado Democrático de Direito, mas estamos vendo que não, que ele só existe no discurso, não na prática”, afirmou.

Fábio Pereira, estudante da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em Santos, disse que esse Estado “é para o uso de determinada classe, a que detém o poder”. Para ele, “não existe ressocialização no sistema prisional. Quem é preto e foi preso, carrega uma marca, fica preso para a vida toda. Como se não pudesse viver de novo”.

Angela França, de 38 anos, disse que “morreu um pouco” ao saber da morte de Luana. “Se ela fosse rica, até poderia ser abordada, por ser negra, mas não teria sofrido essa violência. Mas, em se tratando da periferia, não tem condições”. Ao relatar o preconceito que sofre, Angela diz que muitas transgêneras não tiveram “a coragem ou o prazer” de estarem no ato. “Elas não saem de casa, não vão para a escola. De modo geral, a maioria das pessoas me olha e acha que eu vivo da prostituição e não de um trabalho legalizado.”

Uma caminhada em memória de Luana em Ribeirão Preto, ainda sem data definida, está sendo organizada por grupos de lésbicas e bissexuais.