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Hilton Cobra: o artista político por detrás da “cabeça de Lima Barreto”

Por Gustavo Melo Cerqueira

Após 40 anos de carreira, o excepcional ator, produtor, diretor e agitador cultural Hilton Cobra nos brinda com um espetáculo solo. Na peça, que tem direção do precioso talento e frescor de Fernanda Júlia, texto do premiado diretor e dramaturgo Luiz Marfuz, e mais um time de craques do teatro brasileiro, como Marcio Meirelles, Jorginho de Carvalho, Jarbas Bittencourt, Zebrinha, Biza Vianna, dentre outros e outras, Cobra discute a persistente situação de antinegritude no Brasil e no mundo através da hipotética situação em que um grupo de eugenistas decide exumar o corpo do escritor Lima Barreto com a intenção de examinar o seu cérebro. O motivo: como o cérebro de um homem negro, considerado algo entre o não humano e o ainda-não humano foi capaz de produzir uma brilhante obra literária? Traga-me a cabeça de Lima Barreto, espetáculo elogiado por crítica e público, faz sua primeira temporada em São Paulo no SESC Pompeia, até 05 de agosto de 2018, depois de bem-sucedidas turnês no Rio de Janeiro, Salvador, Teresina e Porto Alegre.

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Quem quiser conhecer o talento de Hilton Cobra como ator e pensador crítico da política e da estética negras não deve perder o espetáculo. Contudo, convido o leitor e a leitora a prosseguirem pelas próximas linhas para conhecerem um pouco mais da formação política e artística de Hilton Cobra. Na próxima seção, trago um pouco do que substancia e sustenta a força, o vigor e a generosidade de Hilton Cobra em Traga-me a cabeça. Na seção seguinte, apresento um breve balanço da relevância de Hilton Cobra para o teatro negro no Brasil e para a presença do negro nas artes performáticas, inclusive o notável crescimento do público negro no teatro.

 

Cobrinha

Encontrei-me pela primeira vez com Hilton Cobra em 2000, num almoço na Cinelândia, a convite do diretor teatral Marcio Meirelles. À época, Cobrinha, como é mais conhecido, estava prestes a fundar a Companhia dos Comuns, após uma década de busca por financiamento para ensaiar a primeira peça do grupo, A Roda do Mundo, estreada na Fundição Progresso, em 2001, Rio de Janeiro, sob direção de Meirelles. Do encontro, fiquei impressionado com a hiperatividade de Hilton Cobra, sua verve política, sua convicção quanto à necessidade do teatro negro para o combate ao racismo antinegro no Brasil e sua impressionante sensibilidade artística. A amálgama de tudo isso era expressa de forma dramática, agressiva e, ao mesmo tempo, cômica naquele homem negro, gay, nordestino, através de olhos que piscavam nervosamente, gestos exagerados e da voz firme e de tom e volume elevados.

 

Com o passar dos anos, pude entender melhor a genealogia político-artística de Cobrinha. Natural de Feira de Santana, cidade a 110 quilômetros de Salvador, filho de mãe profissional da área da educação e pai mecânico e depois escrivão de polícia – Cobra é o primogênito de oito irmãos e três irmãs – Cobrinha, em busca de vida própria, mudou-se de Feira para a capital baiana em 1972. Lá, engajou no teatro universitário pelo Grupo Carranca, dirigido por Luiz Marfuz, apesar de ter concluído apenas o segundo grau. Certamente vêm das experiências com os espetáculos Solta Minha Orelha, Língua de Fogo e Decamerão tanto seu apuro artístico quanto seu engajamento político através da arte. Desse período Cobrinha traz seu primeiro prêmio de melhor ator por sua atuação no espetáculo Língua de Fogo (1981).

 

Se com Luiz Marfuz ele inicia seu engajamento político-artístico no teatro, é com uma mulher negra gaúcha, Luiza Bairros (1953-2016), então recém-chegada em Salvador ainda no fim da década de 1970 – e que se tornaria ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial entre 2011 e 2014 – que Cobrinha começa o despertar de sua consciência negra. E digo aqui consciência negra pela via de Steve Biko, através de uma interpretação existencialista fenomenológica, em que a consciência racial não se basta no processo de se ver como um ser negro, mas inclui também a construção de uma identidade negra que propila a ação política coletiva no combate às vicissitudes do racismo e da antinegritude.

 

Contudo, a tomada de consciência de Hilton Cobra, sobretudo no aspecto da atuação política no teatro, se consolida no Rio de Janeiro, para onde ele se muda em 1985, após juntar-se à trupe do Lanavevá, dirigida por Jorginho de Carvalho, “o papa da iluminação cênica no Brasil”, como assevera Cobrinha. No Rio de Janeiro, muito embora atuasse em teatro e, eventualmente, em cinema e TV, foi trabalhando como técnico de luz, na equipe de Carvalho, sendo “rato de teatro” como o próprio Cobrinha diz, montando luz de segunda a segunda para diversos espetáculos de teatro e dança no Rio de Janeiro, que Cobrinha se deu conta de que negros e negras estavam ausentes, ou ao menos sub-representados(as), na cena teatral carioca.

 

A percepção quanto à ausência de atores e atrizes negros e negras nos palcos cariocas levou Cobrinha, em 1990, a formatar com a ajuda de Luiza Bairros, que estava de partida para o doutorado na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, o projeto de formação de um grupo de teatro negro, que à época se chamaria Cia Teatral Olonadé, nome sugerido por Lélia Gonzales (1935-1994), uma das maiores referências das lutas raciais e de gênero no Brasil. O projeto levou onze anos para se materializar em face da resistência de empresas públicas e privadas em associarem suas marcas a um projeto artístico com nítido cunho politico-racial. Enquanto não conseguia recursos para fundar seu grupo de teatro negro, Cobra desenvolveu marcada atuação na política cultural negra do Rio de Janeiro como diretor do Centro Cultural José Bonifácio, entre 1993 e 2000. Somente em 2001 Cobrinha consegue o primeiro patrocínio para a materialização de seu projeto e funda o grupo de teatro negro Cia dos Comuns.

O indelével impacto de Cobra e sua Cia dos Comuns para a performance negra no Brasil

Hilton Cobra funda a Cia dos Comuns com o objetivo de formar técnicos e artistas negros para enegrecer a cena teatral carioca. Apesar das dificuldades iniciais, a Cia dos Comuns se tornou uma referência no teatro negro brasileiro no que se refere à pesquisa político-artística voltada para o combate ao racismo e à afirmação de uma estética negra nos palcos teatrais. Assim foi que, após a desafiante temporada de estreia de A roda do mundo, em 2001, a Comuns desenvolveu estratégias de formação de público voltadas para estudantes de escolas públicas, associações de moradores de favelas, organizações não governamentais cujo foco era a questão racial e de gênero, terreiros de candomblé e cursos pré-vestibulares para afrodescendentes, entre outras organizações majoritariamente negras. A Comuns, firme e docemente liderada por Cobrinha, voltou seu discurso cada vez mais para o combate ao racismo, incluindo a especificidade da experiência e da tradição de luta política da mulher negra (Candaces – A reconstrução do fogo, 2003) e o impacto da globalização sobre os países periféricos, sobretudo a população negra e pobre (Bakulo – Os bem lembrados, 2005), em espetáculo inspirado na obra do Prof. Milton Santos (1926-2001).

 

Em Silêncio (2007), sua primeira e até então única direção teatral, Cobra impulsiona a Comuns para um espetáculo discursivo e estilisticamente ousado, em que personagens estão ausentes, muito embora o público seja convidado a adentrar uma atmosfera ficcional na qual os performers expressam, de corpo inteiro, a angústia da pessoa negra – ou da grande maioria de nós – ao se aproximar da porta de casa para ir para a rua, consciente de que será, mais uma vez, alvo de discriminação racial.

 

Contudo, os espetáculos da Cia dos Comuns visavam gerar efeitos não só para o palco (formação, aperfeiçoamento e espaço de exercício para performers negros e negras), mas também fora dele, a partir da fomentação do debate racial dentre o público majoritariamente negro que a Comuns levou aos teatros por onde passou, aí incluído o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde a Comuns,  com um público majoritariamente negro superior a 7.000 pessoas, lotou duas sessões do espetáculo Candaces em 2004 e uma sessão de Bakulo em 2006. O sucesso de Candaces, espetáculo indicado ao Prêmio Shell de Teatro 2005 em quatro categorias, sagrando-se vencedor na categoria melhor música (Puan Vianna e Marcos Póvoas), foi tão expressivo que influenciou o carnaval de Rio de Janeiro em Salvador. Em 2007, a Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro teve as rainhas Candaces como enredo de seu desfile. Em 2008, foi a vez do Ilê Aiyê adotar as Candaces como tema de seu carnaval.

 

Nesse sentido, a exemplo do que aconteceu com o Teatro Experimental do Negro, fundado por Abdias do Nascimento (1914-2011) em 1944, o projeto da Cia dos Comuns não se bastava nas atividades de palco. Pode-se argumentar, inclusive, que as atividades extrapalco da Cia dos Comuns, também elas lideradas por Cobra, geraram preciosos efeitos para o teatro negro no Brasil, principalmente através de três ações: o Fórum Nacional de Performance Negra, o Ólonadé – A cena negra brasileira, e o movimento Akoben.

 

O Fórum, idealizado e realizado em parceria com o Bando de Teatro Olodum nos anos 2005, 2006, 2009 e 2015, foi a instância de proposição de políticas públicas para a performance negra, mais especificamente o teatro e a dança. Através de diálogo entre representantes de mais de cem grupos de teatro e dança negros das cinco regiões do país, contando com a participação de representantes do Ministério da Cultura (Secretaria Executiva do Ministério, Funarte e Fundação Cultural Palmares, entre outros), o Fórum conseguiu a implementação de ações voltadas especificamente para a arte negra, a exemplo do Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-Brasileiras, que em suas quatro edições premiou iniciativas nas áreas de artes visuais, teatro, música e dança negras.

 

Se as políticas públicas eram o foco do Fórum, o intercâmbio estético era o cerne do Ólonadé, criado pela Comuns em 2007. Idealizado e realizado pela Cia dos Comuns, Ólonadé é um programa que reúne palestras, oficinas e mostras de teatro, dança e cinema negros para toda a comunidade artística e também para pesquisadores, estudiosos ou interessados na arte negra politicamente engajada. O Ólonadé fortaleceu e foi fortalecido por mostras de arte negra em diversos estados do Brasil, a exemplo do Encontro de Arte de Matriz Africana, do Grupo Caixa-Preta, em Porto Alegre, e da mostra A cena tá preta, do Bando de Teatro Olodum, em Salvador.

 

O Akoben, por sua vez, foi movimento iniciado por Hilton Cobra para questionar o investimento de dinheiro público em projetos de arte e cultura negra que não estavam beneficiando diretamente produtores negros e negras. A despeito de alguma resposta às demandas do Fórum para a implementação de políticas públicas para a performance artística negra, o poder público continuava claudicando no que tange à formulação de um programa que visasse à performance negra ou mesmo à inclusão da pauta negra na política pública de cultura em nível nacional. Pior, percebia-se um aumento no número de produtores não negros que captavam recursos de empresas públicas, via Lei Rouanet, para executar projetos ligados à cultura negra, em detrimento de projetos propostos e executados por produtores negros e negras.

 

O Akoben – em cujo lema se lia “a comunidade negra luta por uma política cultural honesta, inclusiva e verdadeiramente democrática” – questionou veementemente a lisura dos processos de seleção dos editais para arte no Brasil, lutando por uma maior representatividade de negros e negras nas comissões de seleção. A ousada proposta do movimento era que se comprometessem, via lei orçamentária, 40% do orçamento da cultura para a cultura e arte negras. O Akoben reuniu representantes de grupos de teatro e dança em todo o Brasil e pressionou a Funarte, bem como articulou uma audiência pública, realizada na Câmara dos Deputados em Brasília, em 2012, em que foram apresentadas as demandas do movimento. Ainda que não se tenha dado o devido crédito à importância do movimento criado e liderado por Cobra, o Akoben foi certamente fundamental para os posteriores editais destinados aos artistas e produtores negros propostos pelo Ministério da Cultura.

 

A liderança de Hilton Cobra, determinante para a existência e o sucesso dessas ações, além de cumprir com sua missão de fomentar políticas públicas e de intensificar o intercâmbio estético entre grupos e artistas da performance negra, também deu à performance negra como um todo, e mais especificamente ao teatro negro, um caráter de movimento político-artístico de abrangência nacional.

 

Tamanhas participação, inventividade e legitimidade levaram Cobra a ser convidado por Marta Suplicy, então ministra da Cultura, para ser presidente da Fundação Cultural Palmares, entre os anos de 2013 e 2015, onde Cobra centrou esforços na oficialização das cotas para a arte e a cultura negras, na formulação do plano nacional de cultura de matriz africana, em uma maior aproximação da Palmares com os movimentos quilombolas, além da formulação de editais para a arte e a cultura negras, entre outras ações.

 

Com o golpe de 2016, interrompe-se a implementação do plano nacional de cultura e se enterram – ao menos por enquanto – os editais afirmativos voltados para produtores e artistas negros. É nesse momento de desmanche cultural que Cobra nos brinda com seu primeiro solo teatral: Traga-me a cabeça de Lima Barreto. Embora espetáculo solo, Cobra continua cercando-se das pessoas que o ajudaram em sua formação (Luiz Marfuz, autor do texto) e dos parceiros que fez no caminho (como Jarbas Bittencourt, diretor musical de A roda, Bakulo e Silêncio), além de investir no talento de uma nova geração que tem o grupo fundado por Cobrinha, a Cia dos Comuns, como referência política e artística (como a diretora Fernanda Julia, um sol de brilhantismo artístico, político e acadêmico). Além destes, integrantes da Cia dos Comuns continuam a trabalhar com Cobra, e o público-alvo de suas peças é a população negra, com a qual Cobra estabelece seu diálogo político-artístico, em vez de ter na comunidade negra o assunto ou o objeto de suas obras.

 

Estar presente na plateia do SESC Pompeia para assistir a Cobrinha atuando em Traga-me a cabeça de Lima Barreto é testemunhar uma bem-sucedida alquimia entre o político e o artístico. Cobra é prova viva e vibrante de que compromisso ético e aprofundamento estético não são mutuamente excludentes. Pelo contrário. São ingredientes indispensáveis para que a arte seja um mecanismo de estímulo à imaginação política, algo que se tem feito tão necessário nos últimos tempos e que, pelo cenário que se apresenta no Brasil e no mundo, será indispensável para que sobrevivamos nos próximos anos e tenhamos forças para redesenhar dias melhores.

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A peça “Tragam-me a cabeça de Lima Barreto” estreia nesta quinta (12) em São Paulo

A partir desta quinta-feira (12), o público de São Paulo poderá conferir a peça a “Tragam-me a cabeça de Lima Barreto”, com direção de Fernanda Júlia, em cartaz no Sesc Pompeia em São Paulo até 5/8. A produção trata-se de uma livre inspiração na obra do escritor e jornalista brasileiro Lima Barreto.

“O intuito da peça é provocar na plateia uma reflexão sobre as causas do racismo e apresentar a história desse escritor tão atual que é Lima Barreto. Além disso, o público ainda pode desfrutar de um escape durante a apresentação, já que algumas cenas seguem um tom de comédia”, comenta o ator Hilton Cobra, protagonista da peça.

Por meio de um monólogo, a peça conta com um texto fictício, contextualizado após a morte de Lima Barreto, quando eugenistas exigem a exumação do seu cadáver para uma autópsia, a fim de esclarecer “como um cérebro inferior poderia ter produzido tantas obras literárias – romances, crônicas, contos, ensaios e outros alfarrábios – se o privilégio da arte nobre e da boa escrita é das raças superiores?”. A peça também mostra as várias facetas da personalidade e da genialidade de Lima Barreto, sua vida, família, a loucura, o alcoolismo, sua convivência com a pobreza, sua obra não reconhecida, racismo, suas lembranças e tristezas.

A peça tem sessões de quinta a sábado, às 21h30, e domingo, às 18h30, no Sesc Pompeia, que fica na Rua Clélia, 93. Os ingressos custam de R$6 a R$20 reais e podem ser adquiridos neste site.

 

Dramaturgia: Luiz Marfuz

Direção: Fernanda Júlia

Direção de Movimentos: Zebrinha

Direção Musical: Jarbas Bittencourt

Direção de Vídeo: David Aynnan