Categorias
Movimento Negro

Nova Frente Negra Brasileira cria projeto para transformar jovens pretos em futuras lideranças

Por Marina Souza

Para incentivar, fortalecer e empoderar a juventude negra, a Nova Frente Negra Brasileira (NFNB) está organizando a primeira edição do Processo de Transformação Política para jovens pretos. O evento acontecerá em São Paulo, no bairro da Lapa, nos dias 6, 7, 13 e 14 deste mês e promete oferecer ao público uma série de estudos étnicos raciais, políticos, sociais e técnicos.

Para ministrar as atividades estarão presentes nomes como Edna Rolland, especialista na questão racial, Dennis de Oliveira, jornalista e chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, e Deise Benedito, fundadora do Instituto Geledés e assessora técnica do PSOL.

Deise Benedito (arquivo pessoal)

Deise explica que o intuito é mobilizar a juventude, fazer uma espécie de “alfabetização política” e melhorar a realidade brasileira. Serão debatidos temas como Direitos Humanos, empreendedorismo negro no Brasil, o papel da mídia na consolidação de modelos discriminatórios, saúde da população negra, ações afirmativas e mercado de trabalho. “A arte da guerra é conhecer seu inimigo”, é o que diz a especialista sobre a importância de promover tais discussões entre as futuras lideranças negras.

Ela também é uma das integrantes da NFNB, que tem como objetivo propiciar não somente o acolhimento e proteção da população negra, como também o o crescimento dos trabalhos de base no país e do protagonismo negro no cenário político nacional.

“A Nova Frente Negra Brasileira é um espaço fundamental, estratégico e veio para reacender novos focos de mobilização social, que é fundamental nesse momento de retrocessos.”, diz.

As vagas para esta primeira edição do Processo de Transformação Política são limitadas aos 100 primeiros inscritos, porém serão abertas listas de espera para as próximas giras de conhecimento. Para se inscrever basta acessar o site.

A ideia é que o projeto, segundo a ativista, seja estendido pelo país – e talvez no restante da América Latina – para empoderar diferentes povos negros.

Porque empoderar jovens negros?

A cada 23 minutos um jovem negro é brutalmente assassinado no Brasil. Os dados não são novos e por isso são ainda mais alarmantes. A juventude negra periférica é o alvo prioritário de uma política de Estado que matou mais de meio milhão de pessoas entre 2005 e 2015 de acordo com levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e o  Fórum Brasileiro de Segurança Pública.  Sete de cada dez homicídios são praticados contra os nossos jovens e não há nenhuma expectativa de mudança positiva com a ascensão de um governo racista, homofóbico, misógino e intolerante.

Os assassinatos destes jovens são o ápice de um programa de total exclusão e desumanização da população negra, sem educação, saúde ou acesso à cultura, nossos jovens são presas fáceis de um Estado que tem como objetivo a eliminação da população preta e pobre.

Categorias
Direitos da Criança e do Adolescente

Após dois meses na prisão, os quatro jovens presos injustamente poderão ter liberdade

Por Marina Souza

Hoje (14) Marco Cogan e Roberto Grassi, desembargadores da 8ª Câmara do Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo, pediram a vista do pedido de Habeas Corpus dos quatro jovens presos sem provas no final do ano passado, caso que tem sido analisado pela Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio. Agora, os ativistas do grupo e a família dos suspeitos aguardam ansiosamente pelas próximas etapas judiciais que podem trazer Fabrício do Santos, Pedro dos Santos, Washington Silva e Leandro Silva de volta as suas casas.

O caso

Em 10 de dezembro de 2018 os adolescentes foram apreendidos pela Polícia Militar na região do Jardim São Jorge, Zona Oeste paulistana, sob a suspeita do roubo de um carro. A vítima, motorista de Uber, havia sido abordada na mesma noite por quatro homens que levaram seu veículo.

Quando aparecerem ao local do crime os PMs decidiram procurar por suspeitos nas redondezas. Encontraram o carro em um lugar próximo da região, observaram que havia quatro garotos observando a cena e optaram por abordá-los. Após olharem os documentos, ordenaram que eles entrassem na viatura e os levaram para a cena do crime, onde o motorista disse reconhecer os suspeitos como culpados.

Na delegacia, segundo a advogada Paloma de Lima, não foi colhido nenhum depoimento, apenas a assinatura de cada um deles, sem qualquer leitura prévia dos documentos. No dia seguinte, a audiência de custódia confirmou o cárcere dos jovens, que foram transferidos para o Centro de Detenção Provisória 2 de Osasco, onde estão atualmente.

A prova da inocência e o preconceito enraizado

Inconformados com a situação, os familiares dos presos decidiram ir atrás de provas que mostrassem a inocência dos garotos. Com câmeras de segurança instaladas na rua onde o carro roubado havia sido deixado foi possível captar imagens que apresentam o exato momento no qual os bandidos deixam o veículo e saem do local. Veja a seguir:

As famílias contam que no dia os rapazes estavam ensaiando uma homenagem de louvores a um amigo que faleceu, e na hora de irem embora passaram no local onde a polícia se encontrava. Três dos quatro acusados são negros.

No Brasil, os jovens negros têm 2,71 vezes mais chances de morrer por homicídio do que os brancos. Mesmo após 21 anos da letra “Capítulo 4 Versículo 3”, dos Racionais MCs, o indicie estatístico presente no verso “a cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras” continua válido. Segundo o Fórum de Segurança Pública, 76,2% dos mortos pela polícia no país são negros.