Categorias
Política

Incansável batalha pela democracia: como resistimos até aqui

Por Lais Rocio, de Vitória/ES

Desde o início desse período eleitoral até hoje, muita gente lutou sem parar contra o avanço do ódio e fascismo espalhado por Jair Bolsonaro. Retratamos tudo isso pelos dias de resistência da atriz e escritora Elisa Lucinda; do rapper Gog e da militante Mônica Francisco, ex-assessora de Marielle Franco e eleita deputada estadual pelo Rio de Janeiro.

A batalha é diária, incansável e inteiramente dedicada a combater a violência com afeto, a intolerância com diálogo. Assim foi e têm sido a rotina de defensores da democracia de distintos setores da sociedade durante este período de eleições. Pessoas do meio político e cultural que vêm dedicando sua vida diária a uma mesma tarefa: impedir o avanço das ideias e práticas violentas do candidato à presidência pelo PSL e seus apoiadores, que exaltam a tortura, a ditadura, diversos tipos de preconceitos e violações de direitos humanos.

“Me transformei em uma ‘vira-voto’ incansável. Em tudo que escrevo e faço, me dedico a essa eleição. É um momento de total dedicação dos democratas”, conta a atriz, cantora, poeta e diretora Elisa Lucinda. Ela ecoou sua expressão política de várias formas durante essas eleições, nas ruas e nas redes sociais. Participou de atos públicos e manifestos de artistas, escreveu assiduamente sobre o tema em sua coluna no Jornal do Brasil, e até mesmo levantou esse debate ao redor do país nos espetáculos de seu monólogo “Parem de falar mal da rotina”.

O objetivo pontual e urgente tem sido a virada dos votos a favor da vitória de Fernando Haddad (PT) à presidência da república, que deu um tímido sinal de esperança nas pesquisas eleitorais divulgadas pelo Data Folha na quinta-feira, 25, indicando 56% do candidato do PSL e 44% para seu adversário. A diferença entre os dois teve queda de seis pontos, a rejeição ao militar subiu, e ao petista reduziu. Ainda que o cenário continue favorável e quase certo para a vitória de Bolsonaro, e com ela as crescentes ameaças de deterioração da democracia e das conquistas por igualdade, os diversos representantes dessa luta pela virada persistem acreditando e não declaram uma batalha perdida, mesmo dois dias antes do segundo turno.

Para eles, a conscientização de eleitores representa muito mais que uma disputa presidencial. O que está em jogo são os direitos e conquistas de todos, inclusive as vidas de milhares de brasileiros, especialmente mulheres, negrxs, indígenas e lgbt’s constantemente ameaçados pelas falas do ex-deputado. O que motivou pelo menos 50 ataques de seus eleitores, tal como foi a morte do mestre capoeirista Môa do Katendê, movida pelo fato dele ter declarado seu voto em Fernando Haddad. E como diz o rapper Gog, que ocupa o cenário de luta política e social há mais de 30 anos, é “a eleição das nossas vidas”.

“Não é uma eleição normal,
é de autorização da violência apontada pelo candidato
que é um fascista declarado”, pontua Elisa Lucinda.

Para além disso, esse trabalho cotidiano que fazem pelo combate aos preconceitos não é de hoje. É histórico e contínuo em suas vidas: “Isso não é nada que nós já não passamos historicamente. Para nós, povo preto e favelado, sempre vivemos dramas na nossa existência”, revela Mônica Francisco.

Com a experiência de 30 anos de militância, Mônica representa uma importante barreira contra o avanço do conservadorismo nessas eleições: a resistência histórica das mulheres negras de periferia, que tiveram mais visibilidade especialmente após o assassinato de Marielle Franco. Tendo feito parte do gabinete da vereadora, a futura deputada defende e propõe não só a representatividade preta, mas também políticas públicas de valorização das lutas históricas da negritude, que se tornam ainda mais desafiadoras nesse momento: “A presença de figuras como Jair Bolsonaro é também uma resposta social. É resultado de uma parcela da população que não esconde mais o seu racismo”, reconhece.

Dedicando boa parte de sua rotina à conscientização de eleitores para a virada dos votos, o rapper Gog também resgata a transformação social que sempre fez em três décadas de carreira artística, desde suas lutas ativistas nos anos 90. Assim, sendo um dos maiores representantes do movimento hip hop nacional, durante essas eleições ele ergueu uma luta de continuidade e coerência com a revolução que esse gênero sempre causou nas periferias, nas comunidades negras e também nos centros urbanos:

“A maioria das pessoas do hip hop trabalha para a democracia, mesmo magoado com o PT. É porque a gente acredita que a liberdade de expressão conquistada na redemocratização e que o hip hop conquistou com o trabalho não combina com Bolsonaro”, declara em uma live em sua página no Facebook.

Diante do momento que ameaça valores essenciais à democracia como o diálogo plural, o respeito mútuo e a livre troca de ideias, eles resistem de forma didática e ágil. Como antídoto para o fascismo, apostam em sensibilizar pessoas, aproximar histórias e gerar reflexão.

“É educativo e pedagógico, nada melhor que exemplos muito simples. Por que só tem negros e negras nas prisões, por que só pessoas pretas são revistadas? Assim mostramos que coisas corriqueiras do cotidiano são resultados do racismo. Não adianta fazer discursos que não alcançam exemplos”, conta Mônica, que também combate os preconceitos nas igrejas evangélicas, como pastora.

É em meio às atividades banais do cotidiano que Elisa Lucinda também se posiciona, provocando simples questionamentos que desconstroem o ódio do antipetismo. Angustiada e preocupada com amigos, artistas, pessoas negras e mulheres defendendo um político que ameaça suas próprias vidas, ela puxa o assunto a todo momento com todos que convive. Inclusive com garçons, vendedores, taxistas, que ela enxerga muitas vezes sendo obrigados por seus patrões a votarem contra Haddad.

Em uma conversa com o segurança de um banco, que é negro e declarou seu voto em Bolsonaro, Elisa o questionou com respeito: “Ué, mas você vai votar contra nós mesmos? Ele diz que seus filhos não casariam com negros porque foram bem educados. Eu sou uma mulher preta de respeito. O povo preto já está morrendo, tenho medo de assassinarem o meu filho negro, minha cumadre lésbica”. No fim, ele repensou seu voto com um: “é mesmo, não tinha pensado nisso”. Expressando seu posicionamento com afeto e informação, Elisa acredita na virada por ter despertado diálogos como esse, que já levaram muitos de seus conhecidos a mudarem de posicionamento.

“Minha resistência é pela palavra,
o meu ‘vira-voto’ é por reflexão”,
reconhece a poeta.

A palavra também é ferramenta de luta de Gog, que vem há meses reafirmando constantemente a denúncia da “guetofobia” expressada pelo militar do PSL em suas propostas e ideias. Pela quais o candidato já julgou lutas da comunidade negra, feminista e lgbt como “coitadismo”, as ações do MST como “terroristas”, e disse graves discriminações e ameaças contra quilombolas e indígenas.

Gog participa de atos públicos, apresentações e debates educativos, explicando os riscos dessa condutas fascistas e violentas. Assim, ele também vivenciou o processo eleitoral passando horas em vídeos ao vivo no Facebook. Ali, se colocava disposto a ler as crescentes opiniões bolsonaristas ou neutras, e as respondia respeitosamente com explicações didáticas sobre o momento. Sua luta se dedica especialmente a conscientizar e negritude das favelas: “A periferia não pode ser contra a periferia. Os periféricos não podem ser contra as lutas negras. Não podemos ser a favor de mais cadeias, quando a maioria dos encarcerados são do nosso povo”, disse ele, em entrevista ao Jornal Empoderado, durante um o Ato Lula Livre no Capão Redondo, em São Paulo.

 

Tudo isso ficou ainda mais expressivo em seu novo videoclipe, “O rap rompe a rima”, com a participação dos rappers Cristiane Sobral, Dree-K, Rebeca Realleza e Henrique QI. Na música, os artistas afrontam as declarações machistas, racistas, homofóbicas e pró-tortura de Bolsonaro. Assim, o rapper reflete a urgência de se posicionar na linha de frente dessa resistência, espalhando ideias de conscientização e respeito com a mesma rapidez que os discursos de ódio têm sido disseminados. E como mostra Elisa Lucinda, tudo isso é parte fundamental da arte: “Não faz sentido ser artista sem espairecer o nosso tempo. A gente traduz a realidade, as contradições dela e as nossas potências dentro dela. O espetáculo é o meu comício.”

Categorias
Escrita da história

E se negros e brancos partissem da mesma linha de largada?

Diretor escolar e advogado lutam por igualdade racial e mais oportunidades para o povo preto.

Por Lais Rocio, de Vitória/ES
Publicado originalmente no portal da empresa social
Atitude Inicial

Ao redor do país, o surgimento das favelas deu nome e endereço à desigualdade social e racial nas grandes cidades. Nesse movimento, a forte presença da população preta veio como uma herança da falsa abolição da escravidão, que não recompensou suas imensas perdas e dores com a negritude, e não lhes garantiu o mínimo de acesso a direitos humanos fundamentais. Somado a isso, o racismo permanecia por meio da ideia de higienização e embranquecimento da sociedade, que privilegiava pessoas não negras, de classes médias e altas, desvalorizando a identidade afro em vários espaços.

Com isso, diversos negros brasileiros tiveram que conquistar com as próprias mãos aquilo que parte privilegiada da população sempre teve de graça: condições básicas de vida. Sem inclusão no planejamento urbano, eles ocupavam os morros, matagais, as margens e áreas ainda não desenvolvidas das cidades.

E assim também foi para o professor Elizeu dos Santos, de origem pobre e afrodescendente. Ele, seus pais e os dez irmãos vinham do interior do Espírito Santo para ocupar uma das primeiras favelas da capital: a região de São Pedro. Nos manguezais que também eram depósitos de lixo da cidade, eles construíam seus barracos. Junto com outras 40 famílias que iniciaram o bairro nos anos 70, como consta nos registros históricos da Prefeitura de Vitória. “Nada nos veio de graça. A polícia derrubava os nossos barracos a mando do governo, e a gente reconstruía. Nossas lutas eram por água, energia, transporte, infraestrutura e aterramento do bairro”, descreve, relembrando memórias de uma infância em que mal teve tempo para ser criança.

Assim, ele sentiu na prática a segregação que afeta os negros e pobres. Sendo esses mais prejudicados com distâncias maiores, e obstáculos mais difíceis para alcançar desde recursos básicos até realizações de vida. Diante dessa realidade, Elizeu e o advogado André Moreira, personagens deste quarto episódio da série de reportagens Afropotências, lutam por igualdade para a negritude. À frente da educação e da justiça, respectivamente, é com as políticas públicas e direitos sociais que eles se dedicam a reduzir o longo caminho que separa pessoas negras de suas conquistas.

“O filho do pobre não é diferente do filho do rico. A diferença do pobre é que tem menos oportunidades que o rico. É preciso colocar os dois na mesma linha de largada.
A gente não quer que um chegue na frente do outro.
E sim que todos cheguem no mesmo ponto,
com as mesmas condições”, afirma Elizeu.

Para eles, toda essa revolução começa apenas sendo quem são. Principalmente em espaços restritos como universidades, cursos de pós graduação, cargos de liderança, poder e chefia. Ali, tornaram-se referência e inspiração para quem está iniciando sua trajetória: “O melhor jeito de dizer para uma criança negra que ela pode ser o que quiser é sendo o que a gente quer ser”, reconhece André.

Em seus passos diários, eles acreditam abrir espaços para a negritude na sociedade. Para que suas realizações, talentos e potencialidades não sejam perdidos ou diminuídos pelo racismo, pela violência, exclusão ou violação de seus direitos. Assim como mostra o recente caso da advogada negra, Valéria dos Santos, que foi algemada e arrastada por policiais militares, simplesmente por exercer sua profissão durante uma audiência, quando discordou de uma juíza que também a discriminava pela cor da pele.Como ela afirmou em entrevista coletiva para a imprensa, é difícil visualizar a mesma cena acontecendo contra uma advogada branca.

Assim, resistir significa transformar o dia a dia das escolas, faculdades, hospitais, tribunais de justiça e de tantos outros lugares comuns para que tenham o mesmo acesso, o mesmo respeito e dignidade oferecidos igualmente para negros e não negros. Tal como ilustra André:

“Um sistema que não tem cotas raciais, por exemplo, é como uma corrida em que os brancos competem com sapatos equipados, e os pretos estão competindo descalços. Quantos bons profissionais a gente teria se tivessem oportunidades para todos? O Brasil também paga a conta da segregação. Enquanto a gente não tiver igualdade, não seremos referência em nada. Estamos privando a nação dos melhores nomes. “

E é com a prática que Elizeu e André revelam: a inclusão social e racial são essenciais para as políticas de atendimento à população. Embora pareça óbvio, isso é reafirmado constantemente pelos dois defensores dos direitos humanos, diante de serviços que tornam-se cada vez mais precários e escassos especialmente quando atendem à população preta de periferia. Como diz o professor: “A sociedade tem essa noção de que tudo tem que ter uma péssima qualidade na saúde, educação e segurança, quando é para preto e pobre. O papel do poder público é dar o melhor para todos aqueles que recorrerem a esses serviços.”

 

Elizeu, educador de esperanças

Elizeu constrói uma educação com acolhimento aos problemas vivenciados pelos alunos, feita com empatia e humanização. Ao contrário de um ensino mecânico e operacional, que não permite um olhar sensível para a realidade. “As crianças e jovens não são purificadas ao entrar na escola. Elas carregam toda a tragédia social da comunidade em que vivem. O nosso papel é dar conta desses problemas, e resgatar o que foi perdido”, conta ele.

Envolvido desde criança com as lutas comunitárias por sobrevivência, ele teve o sonho e desejo pulsante de transformar essas histórias. A escola pública fundada por sua vizinhança com o nome de “grito do povo” foi onde ele estudou, e mais tarde, reconheceu o seu espaço de mudança. Assim, tornou-se professor dali mesmo, onde hoje atua como diretor escolar, na EMEF Francisco Lacerda de Aguiar, da rede municipal.

Com os méritos de seus 30 anos de carreira pela Prefeitura de Vitória, ele poderia selecionar qualquer escola da cidade para atuar, inclusive uma com estruturas melhores ou localizada em bairros nobres. Mas a escolha por permanecer trabalhando em São Pedro têm um importante propósito, que vai muito além da sua carreira profissional:

“Me vejo naqueles jovens, vivo com eles aquele momento. Têm alunos que ficam 30 dias sem comer durante as férias, porque é no colégio que eles comem, tá vendo a importância? Naquela comunidade, a escola tem a função de ser um fio de esperança para essas crianças. É o único lugar de oportunidades.”

Nesse cenário de poucas perspectivas de vida, Elizeu leva o aprendizado com conhecimento intelectual, esporte e cultura. Tudo isso para contrariar a ilusão de poder, riqueza e realização que o crime e o tráfico causam aos jovens negros de periferias, quando isso chega para eles como único caminho possível. Tal como mostra o professor: “Os jovens olham o vizinho que trafica drogas com um carrão, e vêem o professor ganhando mal. Podem até cortar meu salário, mas vou continuar lutando por um ensino de qualidade, para a criança acessar, permanecer e aprender. A educação é ferramenta de transformação, por isso acredito nela.”

E em contraponto à repressão e violência que afetam a negritude, Elizeu acredita em ensinar com afeto, amor e compreensão. Ele contradiz a ideia de autoritarismo atribuída ao diretor escolar, sendo conhecido e abraçado por todos os estudantes. Diariamente, toma para si compromissos de estar por perto, e acompanhar as turmas em diversos momentos junto com seus professores.

Um exemplo disso foi quando recebeu um novo aluno na escola, que havia sido expulso do colégio anterior e era visto como problemático pela equipe pedagógica. Logo no primeiro contato, o professor explicou que não importava o que ele havia feito antes, porque ali era um espaço de novas atitudes. Durante uma de suas primeiras atividades na nova escola, o garoto ficou surpreso com a proximidade e afeto que o diretor mantinha com os estudantes, e disse à Elizeu: “Como o senhor é querido. Na minha escola anterior, eu só vi o diretor quando ele veio me mandar embora.” Outra situação que para ele fez toda a diferença aconteceu ao receber o telefonema de uma mãe, pedindo que seu filho entrasse na segunda aula. O motivo era que ele precisava trabalhar mais cedo entregando marmitex, para ajudar no sustento de casa. O diretor, que entendeu e liberou o estudante, reconhece a importância desse tipo de compreensão nos detalhes da rotina escolar das favelas, contrariando as burocracias e regras tradicionais das escolas.

“A gente tem que ter muita sensibilidade para dar aula em um bairro pobre. A vida na periferia é diferente. Às vezes a criança tem dificuldade  de aprendizagem na escola, mas sabe pegar um ônibus,  ir fazer um bico na feira e chegar em casa com R$50 reais. A gente se defende, sobrevive e luta”, afirma ele.

O engajamento para melhorar a vida da comunidade o fez ocupar novos espaços de transformação social. Ao longo de sua trajetória, foi administrador regional do bairro São Pedro e secretário de Coordenação Política pela Prefeitura de Vitória. E em 2004, o professor e militante foi convidado para ser secretário municipal de educação pela Prefeitura de Vitória.

Entre suas diversas realizações à frente da secretaria, ele fundou a Comissão de Estudos Afro-brasileiros (Ceafro), que tornou-se referência nacional e já esteve em eventos internacionais. Dedicada ao combate à discriminação racial nas escolas públicas, a Ceafro foi criada para a implantação da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira. Como informa a Prefeitura de Vitória, em seu portal: “Somente a lei não seria capaz de alterar as práticas racistas do cotidiano das escolas. Era preciso um conjunto de ações e um setor responsável por gerenciá-las”. Assim, a Ceafro atua até hoje pela valorização da cultura afro, promovendo formações aos professores, oficinas, debates e assistência há mais de dez anos. Ao olhar para essas conquistas, Elizeu reflete: “Como secretário, era a minha obrigação e o meu momento de dar a minha contribuição. São essas coisas que fazem com que a gente não perca a esperança. Se tudo acabar hoje, já valeu o que conquistei.”

 

André, defensor da justiça social e racial

No mundo da advocacia e da justiça, André Moreira constrói seu espaço de luta pela vida da população preta e de periferia. A denúncia e a defesa das causas sociais são suas principais ferramentas de transformação da violência contra a negritude em seu estado.

Nos presídios capixabas, que possuem 78% de negros entre mais de 20 mil pessoas presas, de acordo com dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), André realizou denúncias de tortura contra os detentos, no caso que ficou conhecido pelas “masmorras do Espírito Santo” e foi denunciado pela ONU, em 2011. Essas condições desumanas nas penitenciárias foram investigadas por ele quando estava na presidência do Conselho Estadual da Criança e do Adolescente (CRIAD), um dos órgãos públicos que já representou.

Ao longo de mais de 20 anos de carreira, sua atuação em cargos com tanta exclusão racial sempre trouxe desafios. Começando pelo curso de direito na universidade pública, em que André foi um dos sete negros entre os 700 alunos da faculdade. Depois, mais impasses vieram ao assumir a presidência da Comissão dos Direitos Humanos da OAB/ES, e a secretaria geral desse mesmo órgão. À medida em que conquistava destaque e visibilidade em sua área, passou a sentir o efeito do embranquecimento. Em diversos momentos, ouviu em tom de elogio a frase: “você não é tão preto”.

“Se você chegou lá [nos espaços de destaque profissional], a primeira tentativa do racismo é tentar fazer com que você seja branco, já que ela não conseguiu nos derrubar no meio do caminho”, reconhece o advogado.

E como mais um sintoma dessa discriminação, André foi chamado de ‘preto safado’, quando fiscalizava e denunciava um caso de corrupção dentro do seu local de trabalho, no mesmo espaço onde as pessoas tentavam negar a cor de sua pele constantemente. Em resistência a tudo isso, ele reafirma cada vez mais a própria negritude. Ao mesmo tempo, também reconhece os privilégios tidos por fazer parte de uma parcela da população negra que ascendeu para a classe média.

Foi gradativamente que André uniu a profissão, a atuação política e a questão racial em um só propósito. No entanto, um pouco dessa consciência chegou em sua vida logo cedo, por meio de sua mãe, que sempre foi ativa nessas causas. Ele descobriu a discriminação racial na infância, quando foi demandando pela família para ir num boteco comprar cervejas, e o dono do bar desconfiou dele por roubo, pedindo para revistá-lo mesmo sendo uma criança. Sua mãe logo resistiu e advertiu ao homem que ele discriminava seu filho simplesmente pela cor da pele. Assim, ele passou a defender ainda mais a justiça social, com a militância que começou  aos 14 anos, na liderança do movimento estudantil da escola pública em que estudava.

Em 2013, André filiou-se ao seu primeiro partido político, o PSOL. Desde, então, se candidatou à Prefeitura de Vitória e ao Senado do Espírito Santo. E neste ano, é candidato a governador do estado, disputando um cargo que não elegeu nenhum negro nas últimas eleições no país inteiro, em 2014, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nesse período, entre todos os candidatos eleitos para os mesmos cargos em disputa atualmente, apenas 3% se declararam pretos, e 21% pardos. Mesmo sem nunca ter sido eleito até hoje, André permanece nas disputas eleitorais por acreditar em dar visibilidade ao debate dos direitos humanos e da representatividade negra na política.

 

Categorias
Mídias Negras e Alternativas

A arte feita por negros na frente e atrás das câmeras

Para artistas pretos, representatividade não é só aparecer. É criar o roteiro e ser protagonista da cena.

Por Lais Rocio, de Vitória/ES
Publicado originalmente no portal da empresa social Atitude Inicial

 

“Uso minha voz para dizer o que se cala”, assim como canta Elza Soares, quebrar o silêncio é o que move os artistas que protagonizam este terceiro episódio da série de reportagens Afropotências. Para a rapper Afari, a artista plástica Castiel Vitorino, o cineasta Izah Cândido e o ator Vander Neri, a arte é um grito que vem da alma, elevando a voz de tantas vidas silenciadas.

“Faço o meu rap para dizer o que sinto
na minha comunidade,
com tantos jovens morrendo.
Canto para falar de toda a dificuldade,
e ainda assim extrair beleza e superação”
,
diz Afari Mc.

Assim eles trazem protagonismo negro para o universo da arte, onde os pretos ainda são pouco representados, como mostra Castiel: “Representatividade não é fazer um filme com uma pessoa negra. Se o Brasil tem 54% da população preta, tem que ter uma novela com essa mesma proporção. Temos que apostar muito mais na equidade”.

Para eles, a presença da negritude nos diversos espaços artísticos e culturais significa muito mais do que aparecer e ser visto. Deve também gerar poder, oportunidades e autonomia para que possam criar o próprio enredo. Para que protagonizem não só nas cenas, mas também nos seus bastidores, produções e direções. Por isso, as afropotências dessa reportagem ocupam telas, cenários, palcos e galerias com toda a diversidade afro. E com isso revelam para o mundo seus infinitos traços, nuances e tons.

 

Foto: Alexandre Barrenha | Programa Manos e Minas

 Afari, a rapper que lota os palcos com mulheres pretas

“A arte não me convidou, ela me arrastou pelo cabelo e disse: se enxerga”, com essa frase Afari descreve o momento em que o sonho de ser artista surgiu em sua vida. Veio para contrariar os destinos impostos a uma mulher preta e de periferia como ela, que relembra: “Saí do meu estado de conforto, de aceitar que eu ia ser pobre a vida toda”.

Em sua comunidade periférica, ela sempre viu a juventude negra sendo explorada e exterminada. Para mudar isso, a solução encontrada não foi sair da favela, nem fugir ou se esconder da sua realidade. Ao contrário disso, Afari passou a olhar ainda mais para o seu mundo, combatendo a opressão e violência com diálogo, conhecimento e troca de ideias. Foi assim que ela descobriu o universo do hip hop, e todo o movimento negro e feminista que vinha de dentro da periferia, como conta:

“O rap me deu a sensação do lugar de fala. Me senti escutada.
As batalhas de rima me fizeram falar
sobre tudo o que eu estava vivendo,
e como aquela situação podia melhorar.”

Desde então, ela traz para o rap não só a denúncia das dores e violências dessa realidade, mas também a valorização de suas riquezas e potencialidades. “Ainda assim temos beleza e alegria nos sorriso das crianças, no colorido da comunidade. É lindo entrar ali e ver pessoas de todas as cores, vivendo com pouco e ainda sorrindo”, reconhece, relembrando o tema de uma de suas músicas, Cenários. Com mais de 11 mil visualizações no Youtube, a faixa é uma das principais do grupo de rap feminino que ela faz parte, o Melanina Mc’s.

Afari descobriu que os palcos também eram feitos para mulheres como ela, ao ver um show do Melanina Mc’s, quando nem imaginava que se tornaria uma de suas vocalistas. Até então, suas únicas referências femininas no rap eram apenas quatro cantoras de sucesso nacional, entre elas Negra Li e Dina Di. Mesmo assim, aquilo ainda parecia distante de sua realidade, e ela desenvolvia suas rimas no funk, lidando com o machismo nesse universo. “Era muito homem em cima do palco. Eu ficava até tímida para mandar meu som, tinha que me sexualizar para atrair atenção do público. Eu queria contribuir muito mais com as minhas ideias”, afirma a rapper.

No Melanina Mc’s, ela se inspirou com a arte que sempre quis fazer. Após algum tempo como fã assídua do grupo, foi convidada para ser integrante. Pela primeira vez, subia em um palco lotado de mulheres, ao lado das parceiras Geeh, Lola e Mary Jane. E desde então, com empoderamento feminino negro, o quarteto enfrenta os desafios vividos por milhares como elas.

 “Quando uma mulher preta e periférica
se vê protagonista da sua realidade,
ela empodera várias outras mulheres.
Acreditar em nós mesmas é o que nos motiva”,
conta Afari.

Foto: Produção Melanina Mc’s

 

Em seis anos de estrada, elas escancaram as portas de entrada para o protagonismo das pretas da favela. Com destaque nacional, realizam shows dentro e fora do Espírito Santo. No últimos meses, lançaram o videoclipe “Casa da Madeira” pela produtora de rap’s do país inteiro Rapbox; e foram convidadas especiais do Programa Manos e Minas, da TV Cultura, que já recebeu artistas como Mano Brow e Criolo. Em seu primeiro disco, Sistema Feminino, elas reúnem histórias, dores e sonhos de mulheres negras. E com a mistura de ritmos e vozes de várias musicistas convidadas para o projeto, combatem mais um desafio do machismo no hip hop: o de poder ser o que quiser, sem ter que se masculinizar ou estar com homens para protagonizar a cena.

Acreditando transformar o mundo com suas ideias, uma caneta e um microfone, Afari também criou o coletivo Batalha da Ponte, junto com o rapper capixaba MD Silva. Desde 2014, o projeto ocupa uma praça todos os domingos com batalhas de mc’s, mobilizando jovens de pelo menos cinco comunidades periféricas. “Disseminamos a arte e cultura urbana na cidade, e também incentivamos os jovens a criarem batalhas de rap nos seus bairros. O projeto criou o protagonismo e atuação de novos mc’s e poetas, aumentando seus trampos individuais como artistas”,
reconhece a rapper.

Castiel, a artista que ocupa museus com mandingas da cultura negra

Foto: Castiel | Arquivo

A arte esbarrou no meio do caminho de Castiel Vitorino em busca de si mesma, como narra ela: “uso a arte como arma de guerra, contra a colonização dos meus pensamentos e desejos”. Criada na periferia, a performer, artista plástica e estudante de Psicologia teve a infância acolhida por valores poéticos e fundamentais do orgulho e cultura afro transmitidos por sua família. No entanto, seu jeito afeminado desafiava o ideal do homem negro masculino, forte e destemido que esperavam que fosse, a exemplo de seu pai, um capoeirista de destaque no morro.

Após passar pela infância e adolescência com medos e angústias por conta da sexualidade, Castiel entendeu que sempre foi bicha preta: um gênero e movimento de pessoas negras e femininas, com órgão sexual lido como masculino, discriminadas e violentadas por serem quem são. Como explica ela, as bichas pretas se diferenciam de gays, trans e travestis. E se reivindicam ao criar novos significados para o xingamento que escutaram a vida inteira:

“As bichas pretas são uma desobediência
contra tudo que a sociedade entende como homem negro.
Elas debocham e trazem alegria a partir de muito sofrimento.” 

A primeira de sua família a ingressar na universidade, Castiel foi aprovada em primeiro lugar no vestibular para Psicologia. Ao entrar na graduação, deparou-se com teorias acadêmicas de origem europeia e estadunidense, feitas por pessoas não negras e voltadas para elas mesmas. Boa parte das oportunidades que apareciam para exercer a profissão de psicóloga estavam bem distantes da periferia e da cultura afro.

Para contrariar isso, Castiel resolveu extrapolar os limites daquele espaço: “Apostei em levar a psicologia para os territórios da população negra”. No lugar dos centros terapêuticos elitizados e acessíveis somente para quem paga caro por eles, ela viu as terapias oferecidas por e para pessoas pretas, com educação, cultura e saúde pública na periferia. Indo mais além, descobriu a psicologia presente na cura das tradições afro. E assim, encontrou a arte:

“Uso a arte para produzir saúde para o povo preto.
Para desnaturalizar as mazelas do racismo
e intensificar o que fazemos de bom,
nossos saberes tradicionais como a capoeira, as bandas de congo, o candomblé, a umbanda, o hip hop e funk.”

Castiel durante uma de suas perfomances, “Benzimento”, sobre adoecimento e saúde para corpos negros | Foto: Rodrigo Jesus

Com o artesanato, a costura, as performances e intervenções artísticas, Castiel expressa as diversas lutas e criações que fazem parte da sua história, como explica: “Tento traduzir e atualizar ensinamentos ancestrais oferecidos por africanos, entidades afro-brasileiras, negros que vivem diásporas diferentes da minha”.

Em um de seus projetos atuais, ela irá levar para dentro de uma galeria de arte da cidade as plantas sagradas, usadas no banho de 7 ervas dos terreiros de religiões afro-brasileiras. Na obra, elas ficam armazenados em uma colete salva- vidas costurado por Castiel, com um significado: “Quando sofremos, parece que estamos afundando no mar. A cura das ervas naturais nos dá a sensação de subir à superfície e aprender a mergulhar”. Tudo isso será dedicado ao “Projeto Malungas”, exposição contemplada por um edital da Prefeitura de Vitória, que irá ocupar o Museu Capixaba do Negro (Mucane) no próximo mês.

O resgate da medicina natural também foi tema de sua performance “Plantas que curam”, criada por ela e a benzedeira Yasmin Ferreira. Em uma barraca de medicamentos e mandingas nas ruas de periferias da cidade, elas convidam pessoas para uma conversa sobre suas dores e cansaços, transmitindo ensinamentos e tratamentos com suas receitas de ervas cultuadas pelas tradições ancestrais africanas.

Assim Castiel resgata e recria a história da negritude nesses e em outros projetos que realiza, dentre imersões e residências artísticas, direções de arte, perfomances e diversas produções culturais, algumas apoiadas por editais de arte e cultura. Para cada ação, ela se inspira e se guia pelos versos da ativista Beatriz Nascimento: “É preciso mostrar no gesto que não somos mais cativos.”

 

Izah, o cineasta que conta histórias de vidas negras nas telas

Foto: Atitude Inicial

 

No cinema, Izah Cândido refaz o roteiro de sua própria vida como um observador curioso, que carrega muitas histórias dentro de si. Sua arte é nutrida pelas inspirações de tantas pretas e pretos, principalmente trans, bichas, travestis e sapatões que fortalecem a diversidade e cultura negra. Em meio a espaços que excluem e violentam essas vidas, ele reconstrói sua identidade como homem negro e trans.

 “Nem sempre estamos pisando em solo confortável.
É assim que a diáspora africana se fez e faz.
Em uma migração forçada, corpos negros foram
levados a todos os cantos do mundo.
E assim, resistentes, constroem suas identidades”,
narra Izah, em uma de suas produções audiovisuais.

Ao longo de sua história, a descoberta dos desafios do racismo veio junto com as lutas que o acolheram desde a infância, inicialmente com a participação ativa de sua mãe no movimento negro. Quando vivenciou sua transição de gênero, Izah esbarrou com novas formas de preconceito: “Como mulher negra, me olhavam como hipersexualizada, poderia ser vítima de estupro. Hoje, como homem, me olham como predador e suspeito”. Vindo do interior de Minas Gerais, ao ingressar no curso de cinema na Universidade Federal do Espírito Santo, ele dedicou-se a lutar e produzir da melhor forma possível em defesa da negritude.

Assim se identificou com o cinema negro, marcado pelo manifesto Dogma Feijoada (2001), do cineasta Jefferson De. Esse movimento levanta a urgência de diversas ações, tais como realizar filmes com diretores e protagonistas negros, retratando temáticas da cultura afro, entre outras demandas. Exemplo nítido que justifica essa luta por representatividade, as produções cinematográficas do país não tiveram nenhuma diretora ou roteirista preta, e 2% de homens pretos nas direções e roteiros, entre 2002 e 2012. As atrizes e atores afrodescendentes foram, respectivamente, 4 e 14% nos elencos principais. Todos esses dados foram levantados pela pesquisa “A Cara do Cinema Nacional”, do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA), do IESP-UERJ.

Trecho do webdoc Corpo Flor, com roteiro, direção e produção executiva de Izah Cândido e Wanderson Viana | Foto: Corpo Flor

Para fortalecer a potência afro nas telas, Izah criou o vlog e websérie Corpo Flor, em parceria com seu amigo e também cineasta Wanderson Viana. O projeto revela como pessoas negras se descobrem, reconstroem sua identidade e potencializam as riquezas afro-brasileiras, que haviam sido silenciadas e perdidas pelo racismo em diversos espaços. A cada episódio, são retratados temas como espiritualidade, estética, sexualidade, ente outros.
O Corpo Flor foi contemplado neste ano pelo edital Juventude Vlogueira, do Ministério da Cultura, que premiou iniciativas do país inteiro como apoio financeiro para se realizarem. O webdoc também contou com a parceria da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN). Entre essa e outras produções, Izah traduz na prática o que acredita:

“Buscamos fazer com que as histórias sejam escritas e interpretadas por negros,
na frente e atrás das câmeras.
Para que a população preta tenha
mais autonomia no fazer artístico”,
relata Izah.

 

Vander, o ator que ergue o protagonismo negro no teatro

 

Foto: Atitude Inicial

 

Para o ator Vander Neri, ser bicha preta, artista e umbandista são potências que representam muito de sua essência e história. E tudo isso não deve limitar suas conquistas, talentos e potencialidades. Quando criança, de origem pobre, ele não costumava desejar o que queria ser na vida. Ao conhecer o teatro na adolescência, descobriu que podia ser o que quisesse:

“O teatro chegou na minha vida dando um tapa.
Era um lugar que cabia todo mundo.
Me mostrou que eu também podia fazer.
E veio essa vontade de ganhar o mundo”,
relembra Vander.

A consciência de sua negritude surgiu de um jeito inusitado, quando saiu na capa de um jornal. Ao verem aquilo, seus familiares e professores disseram “preserva isso”, referindo-se ao fato dele ser o único negro na foto, que estampava a matéria sobre a turma de adolescentes que faziam teatro. Ali, Vander percebeu que era diferente dos outros.

Desde então, vieram inúmeros desejos e talentos, ao mesmo tempo em que apareciam inúmeras dificuldades, enfrentadas com a própria arte. Com a necessidade de se sustentar e a falta de recursos para isso, enquanto distribuía currículos por todos os lugares possíveis, Vander se vestia de palhaço para vender balas no sinal. Trabalhou em supermercados e teve vários bicos, chegou a mudar de cidade algumas vezes em busca de novas oportunidades, e percorreu boa parte desses momentos sendo um artista de rua.

Quando foi contratado para atuar em espetáculos de empresas e companhias, a discriminação racial criou novos impasses. Em alguns lugares que trabalhou, percebia diversos casos em que atores não negros eram os primeiros escolhidos para atuar em papéis principais, personagens e peças teatrais mais valorizadas. Com isso, costumava ser a última opção, selecionado em último caso quando esses outros atores não estavam disponíveis.

Vander encenando uma de suas principais intervenções teatrais sobre conscientização social | Foto: Atitude Inicial

A mudança dessa realidade veio quando foi chamado para compor o time da empresa social Atitude Inicial, há cerca de três anos. O simples fato de ter sido convidado por sua atuação e potencialidades profissionais, bem antes de pensarem em sua cor de pele, fez toda a diferença para ele. Desde então, é protagonista nos espetáculos e oficinas teatrais da empresa, que usa o teatro como uma das tecnologias sociais para causar conscientização, reflexão e revoluções diárias na vida das pessoas. Ali, Vander também percebe o diferencial de um espaço artístico e profissional que acolhe suas ideias e propostas, inclusive por terem outras pessoas negras entre seus idealizadores, funcionários e diversos colaboradores.

“Não é só porque é meu rosto está ali,
é porque eles não acham que isso vai espantar as pessoas.
Isso deve ser valorizado não só porque sou bicha preta,
mas também porque os lugares
tem portas e caminhos para todos,
e porque temos capacidade”,
reconhece Vander.

As peças e performances encenadas por ele não necessariamente abordam questões raciais. Isso porque, para quem luta pelo protagonismo preto na arte, também importa envolver, incluir e valorizar pessoas pretas de forma orgânica e essencial nas produções. Para que isso vá além da obrigação, do oportunismo e do ‘braço social das empresas’, como acredita Jota Júnior, também negro, empresário e idealizador da Atitude Inicial: “Os talentos não têm cor. Eu não consigo pensar se uma pessoa é mais ou menos talentosa pela cor de pele. Precisamos olhar para suas habilidades e seus dons, reconhecer o que fazem e abrir espaço para o que quiserem ser.”

Categorias
Consciência Negra

Ser empresário é coisa de preto

Para afropotências do empreendedorismo social, ser criativo e inovador não é nada novo. É o que sempre foram na favela.

Por Lais Rocio (Vitória/ES)
Publicado originalmente pela empresa social
Atitude Inicial

Ser negro e empresário é diariamente revolucionário. É jogar o jogo do mercado, para dar poder às ideias de quem nunca foi incentivado a apostar o próprio sonho na competição do empresariado. E ao mesmo tempo, empreender com a estratégia que a negritude sempre teve para reinventar a vida. Na favela, no quilombo e nos vários espaços que ousaram dizer que um preto não podia ser dono da própria história, ou do próprio negócio. Esse é o cenário das afropotências do empreendedorismo social Jota Júnior, da  Atitude Inicial, e Priscila Gama, do Instituto das Pretas. Retratados no segundo episódio da série de reportagens Afropotências, do Projeto Entalado

“Somos empreendedores desde que pegamos a nossa carta de alforria e não tínhamos para onde ir”, reconhece a empresária paulista Michelle Fernandes, durante o Encontro Das Pretas (Vitória/ES).

É um saber e fazer que não costuma ser ensinado nas escolas, nos cursinhos profissionalizantes ou em outros serviços públicos que atendem à população negra. Mas é o que faz as comunidades inventarem os seus próprios negócios, artesanatos, gambiarras, feiras e vendinhas. Que vão para além do próprio sustento, e despertam união de talentos e propósitos de vida.

Tudo isso fortalece um mercado que, diante das crises, cada vez mais se alia à economia criativa. Envolve inovação, sustentabilidade, diversidade cultural e inclusão social. Valores indispensáveis aos ditos novos negócios, mas que os afroempeendedores sempre viram acontecer ao seu redor. Ao longo de sua vida, Jota Júnior presencia sua mãe, costureira e artesã, abrindo pequenos empreendimentos no bairro e cursinhos para ensinar seu ofício a outras mulheres como ela. Diversas vezes, ele entendeu o significado da economia criativa quando via a vizinhança montar feirinhas no bairro para vender seus produtos caseiros.

“Inovação empresarial não é só tecnologias de máquinas, é inovar nas ideias. E isso é o que as favelas fazem há anos”, afirma Priscila Gama.

Por isso, alguns empresários negros lutam também para que essa criatividade periférica não seja reapropriada por pessoas não negras que dão novos nomes a essas práticas, e as afastam de suas origens, como observa Priscila. E com isso, afroempreendedores ocupam o mundo dos negócios, para que essas criações e habilidades sejam reconhecidas como as potencialidades que são. Ao abrirem caminhos inéditos de igualdade racial e protagonismo, tornam-se por conta própria autores dessa transformação:

 

“Se não tem espaço para mulheres negras, então nós vamos criar! Criamos nosso próprio lugar, com nossos direitos de viver, curtir, ser livre e bonita”, conta Priscila Gama, sobre os projetos que desenvolve.

 

Assim, abrem novas possibilidades para que negros tenham múltiplas chances, inclusive financeiras, de serem o que quiserem profissionalmente. Para que não tenham como únicos caminhos possíveis o envolvimento com a violência, ou as profissões e cargos mais desvalorizadas pela sociedade. Como explica o advogado e defensor dos direitos humanos André Moreira: “Ás vezes os nossos melhores nomes estão lá no crime, com pessoas tão boas em organização que organizam o tráfico. Cada um emprega sua capacidade naquilo que dá sobrevivência”. Foi acreditando em tudo isso que os personagens dessas histórias, Priscila e Jota, ergueram empresas com propósitos que transcendem suas profissões individuais.

 

“Negócios sociais existem para resolver problemas que a gente enxerga todos os dias. São negócios feitos para mudar o mundo”, explica Jota Júnior.



O fantástico mundo de Jota

O gosto por desafiar a realidade e sonhar a partir da escassez foi despertado em Jota desde cedo. Quando nem imaginava idealizar e ser diretor executivo da empresa social Atitude Inicial, que hoje chega a seis anos de existência, mais de 150 projetos desenvolvidos, e 600 mil reais de faturamento ao ano.

Ao longo da infância, Jota se via como no Fantástico Mundo de Bob, um desenho animado dos anos 90. Era sobre uma criança que imaginava mundos coloridos, espaços siderais e outros cenários incríveis no lugar da sua simples casa suburbana. E também era assim que Jota reinventada sua vida de um menino de família pobre, morador de uma região marginalizada do bairro Santo Antônio (comunidade em Vitória/ES, que mistura moradias tradicionais e outras mais precárias, originárias de ocupações em morros e mangues).  Criava as próprias brincadeiras, como rifas na escola para dividir o lanche que nem todas as crianças tinham. Idealizava seus brinquedos no lugar daqueles que não tinha acesso, e até mesmo novas memórias para substituir traumas familiares mais sérios, como relembra:

“Eu inventava um mundo em que eu podia ser o que quisesse. Que não fosse tão precário quanto o que tinha ao meu redor.”

Da mesma forma, sempre rejeitou as imposições, e questionava os porquês da realidade ser como era. Tudo isso guiou Jota a descobrir, mais tarde, que podia não só desvendar essas razões, mas também mudar tudo de fato. E depois, percebeu que esse desejo não precisava ser apenas um hobbie, mas a sua missão principal de vida e profissão. Com isso, se identificava cada vez mais com o verso de um rap do Emicida que serviu como mantra: “só água na geladeira e eu querendo salvar o mundo”.

Com quase nada além da própria imaginação, foi ultrapassando as fronteiras impostas em seu bairro periférico. Começou a trabalhar com 15 anos de idade, e com o salário pagava um de seus primeiros cursos técnicos. Passou pelo teatro, design, comunicação e administração. E percorria esses caminhos na contramão da educação e do trabalho tradicionais, em que muitos jovens como ele se sentem realizados apenas quando recebem o salário ao final do mês, como ele mesmo sempre comenta.

Entendeu isso mais ainda ao iniciar sua vida profissional coordenando projetos culturais em um programa social de conscientização no trânsito, financiado pelo governo. Quando esse Programa oportunizou a sua primeira viagem para o exterior, ele percebeu que era possível: “Foi um marco na vida, quando percebi que eu conseguia pegar aquele fantástico mundo que eu imaginava e transformar em realidade”.

Mesmo com o rompimento desse trabalho, o sentimento de mudança de mundo foi mantido por ele, ao lado de pessoas e realidades que compartilhavam desse desejo. Esse foi o papel do fotógrafo, historiador e militante dos movimentos sociais, Serginho Neglia, que tornou-se um mentor desde aquele momento até os dias de hoje. Com isso, empreender foi para Jota o único caminho possível. Assim como criar um mundo e universo nas suas brincadeiras de infância era a única forma de conquistar seus sonhos, mesmo que fosse apenas no campo das ideias:

“Sou preto e empresário porque essa foi a única opção que me restou: Inventar uma empresa era fazer, mais uma vez, com que os dias fossem menos difíceis”.

A partir daí, Jota criou a Atitude junto com muita gente que acreditava nessa mesma loucura, tal como Valéria Nogueira, hoje sócia e coordenadora de produção. Multiplicaram e expandiram o velho hábito de Jota em sonhar a partir da escassez, de ressignificar a dor e mudar tudo o que incomoda. Antes mesmo de ter um CNPJ ou uma sede estruturada, ele teve a ousadia de propor um projeto de conscientização ambiental à uma grande empresa da cidade. Essa primeira intervenção realizada consolidou uma parceria que se mantém até hoje. E foi o ponto de partida para percorrer criando revoluções e soluções diárias para as injustiças sociais e ambienteis. Como diz a própria equipe, são sempre ideias reais para problemas, pessoas e mundos reais.

Ao mesmo tempo em que conectam pessoas e ideias, a Atitude Inicial serve para despertar e potencializar inclusive negros de periferia para aquilo que fazem de melhor. E assim reúnem pessoas que amam ser artistas, comunicadores, atores, jornalistas, designers, entre muitos outros, para que sejam bons inclusive em mudar o mundo. Dessa foram, a arte, a cultura, a comunicação e outras diversas ferramentas desenvolvidas na empresa se tornam, sobretudo, tecnologias sociais feitas para transformar realidades. Como acredita Jota:

“Esse lugar é para todo mundo saber o tamanho que tem. Enxergo as pessoas para despertar o melhor delas. Sempre me pergunto: onde essa pessoa vai servir dentro da revolução do mundo?”

 

Priscila: uma vida por muitas histórias de pretas protagonistas

Foto: Priscila Gama -Arquivo pessoal

Ao viver realidades de educação e profissão em que se incomodavam até com suas conquistas simplesmente por ser negra, Priscila Gama descobriu o seu papel no mundo: promover a demarcação e o protagonismo do povo preto, em qualquer que seja o lugar. Tudo isso por mais espaços afrocentrados, em que, por exemplo, ela não fosse mais a única negra nas salas de aula, como foi muitas vezes.

Desde criança, Priscila sempre se sentiu bonita, inteligente e inspirada pela beleza dos poucos artistas negros que via na TV. No entanto, junto com as oportunidades de frequentar escolas e faculdades particulares renomadas de sua cidade, veio a dor do racismo que violenta pessoas só por existirem, e mais ainda quando mostram algum destaque na sociedade.

“Era como se de um dia pro outro eu tivesse ficado mais preta. Aquela não era o meu lugar. Era agressivo para aqueles meninos e meninas conviverem comigo”, relembra, sobre a sensação que teve ao frequentar os cursinhos privados de pré-vestibular.

Sua resistência a isso fez com que, anos depois de ter sido uma das poucas pretas no curso de Direito, Priscila hoje seja convidada para voltar à essa mesma faculdade. Mas dessa vez, é para compor a banca das apresentações de TCC, formaturas e grêmios estudantis de alunos negros, em que vê mulheres como ela conquistando seus diplomas. E também é assim que essas pessoas agradecem a ela, simplesmente por um dia ter lhes dito: “Vai, e não para. Porque eles querem que você pare”. Refletindo sobre isso, emocionada, ela sente que está conseguindo plantar algo que nunca teve quando precisou. Mas reconhece que é só o começo, e ainda há muito a ser feito.

São sentimentos como esse que marcam sua história como empreendedora social de projetos de protagonismo negro. Também atua como afroencer digital, e gestora de promoção da igualdade racial na Prefeitura Municipal de Vitória, Espírito Santo. Nesses vários espaços, dedica-se a valorizar a pretitude periférica desde quando educa seu filho para lidar com o racismo até quando faz questão de contratar médicos, advogados ou arquitetos pretos. Ela também se responsabiliza a reconhecer e lutar contra diversas formas de violência racial, seja ao apontar a falta de representatividade nos eventos que frequenta, ou em constranger situações de racismo que presencia.

Foi o que fez, por exemplo, quando soube que uma amiga sofria racismo no trabalho. Diante dessa atitude, ela enviou para os responsáveis dessa ofensa uma boneca negra, da marca de brinquedos afrocentrados Era uma vez o mundo, que representava e homenageava a própria Priscila, junto com uma carta. Ali, falou sobre a importância do respeito à estética e identidade negra da menina que foi vítima, avisando que ela não está sozinha.

É nessas revoluções diárias, de pouco a pouco e muitas vezes em silêncio, que Priscila constrói um mundo para incentivar que pretos e pretas periféricas possam voar para onde quiserem, sem limitações. E à medida em que alcança essas conquistas, sente também o impulso de multiplicá-las: “Eu queria que outras mulheres como eu se sentissem como eu me sentia: cheia de direitos”, conta ela, sobre o que move seus empreendimentos.

Foto: Bekoo das Pretas.

Conectar e reunir o público feminino em torno da questão racial e de gênero foi o ponto de partida para a trajetória do Instituto das Pretas, que há cinco anos ergue realidades até então inimagináveis. Do pequeno grupo de mulheres negras que se reunia em 2013, surgiram milhares de outras necessidades que só podiam ser preenchidas por elas mesmas. Uma delas foi o Encontro das Pretas, que a cada ano unifica em um evento as discussões e realizações afrocentradas da cidade. Da falta de autoestima com seus traços e cabelos crespos, surgiram também atividades de valorização da beleza afro. O que as fez organizar, na própria cidade, o movimento nacional Marcha do Orgulho Crespo. E daí vieram novas iniciativas, ao perceberem que ainda havia muito mais a ser debatido e conquistado:

“Empoderamento preto não é só se sentir bonito, mas também fortalecer a autonomia e independência. De que adianta eu dar poder sem ensinar para a pessoa o que ela vai fazer com isso?”, explica Priscila, sobre o que a levou a produzir diversos espaços para inspiração e orientação.

Nesse sentido, o Instituto movimenta várias outras ações, como o Quilombinho, uma colônia de férias para acolher crianças negras da periferia, com a construção de suas identidades afro-brasileiras. Oferecem aprendizados lúdicos com tradições como capoeira, dança afro e tambores. E assim também criaram o Bekoo das Pretas: um festival em que pretos, e principalmente mulheres pretas, protagonizam e representam em todos os sentidos. A negritude é maioria em toda a produção e organização. E a programação, sempre focada na cultura afrocentrada, faz explodir no palco rappers, dançarinxs, dj’s e atrações com a diversidade dessas expressões artísticas.

Lançado há cerca de dois anos, o Bekoo também conquista territórios nacionais. A festa já realizou uma edição em São Paulo com a rapper Karol Conka, e frequentemente traz para o Espírito Santo artistas de fora, como o dj KL Jay, que integra o grupo Racionais MC’s, e a rapper paulistana Drik Barbosa.

 

Categorias
Mobilização O quê que tá pegando?

Afropotências: Não só luta contra o preconceito, mas poder para o povo preto!

A primeira de uma série de reportagens sobre pretas e pretos protagonistas no Empreendedorismo, Arte, Justiça e Educação do Espírito Santo e de destaque nacional

 

Lais Rocio, de Vitória/ES
Publicado originalmente no portal da empresa social Atitude Inicial 

Uma negritude protagonista, com poder para ser o que quiser. Não aceita mais ser minoria social, e reivindica ser em todos os espaços a mesma maioria que são no país, onde mais da metade da população é preta ou parda.  Por isso decidem chutar a porta e ocupar tudo. Criam um novo mundo em que a pele preta é força e poder, e não fraqueza.

Fazem tudo isso sob o mesmo solo em que o racismo extermina vidas negras. Por isso resistem e lutam só ao existir, mas não apenas existem: são potências, transformam tudo, valorizam a própria história.

Inventam um passado não só feito de senzala e escravidão, mas de quilombo, capoeira, orixás e África ancestral. Um presente não de violência na periferia, mas de oportunidades pra sonhar e conquistar seja lá o que for com a riqueza, cultura e sabedoria da favela. E um futuro afrofuturista, feito da tecnologia do tambor do funk e do Candomblé, com a criatividade de um povo preto livre.

“A história já colocou a gente num lugar sem valor nenhum, do preto no lugar do escravizado. Essa não é a única narrativa possível.
Quando vejo um professor ou empresário negro fazendo uma revolução na sua comunidade, vejo que não somos só resistência contra o preconceito. Somos potentes mesmo!”,
afirma Jota Júnior, empreendedor social.  

Assim, em revoluções diárias eles invadem a política e os governos, refazem a história do país, da sua cidade ou da sua comunidade. Lotam os palcos, passarelas, cinemas, comerciais e também seus bastidores e produções, valorizando seus traços, vozes e cabelos crespos. Essa mesma negritude toma a frente de negócios e empresas, lidera inovações, criações e empreendimentos. E também transforma museus de arte, universidades, espaços acadêmicos e científicos.

São mulheres negras periféricas, bichas pretas da favela, homens e mulheres trans e travestis, meninas e meninos pretos que ousaram sonhar com esse mundo diferente. Essa negritude inteira, diversa e potente, atua exatamente nos lugares para onde nunca foram convidados. São referência e inspiração justamente aonde nunca se viu um negro liderar, representar, ser dono do dinheiro, ser parte da maioria ou personagem principal. Desafiam sociedades e Estados inteiros apenas sendo o que são, potências negras.

“O problema é que sou preta e ótima. Ninguém conta para as nossas crianças pretas que nós somos ótimas.
Se eu fosse preta e ruim, seria o esperavam que eu fosse”,
reconhece Priscila Gama,
empresária e afroencer digital.

Toda essa realidade existe sim, e é só o começo. Porque ainda hoje, ao mesmo tempo em que vive essa negritude tão rica e potente, homens negros sofrem agressões e assassinatos pela violência policial, mulheres pretas são vítimas de feminicídios, abusos sexuais e padrões de beleza, e as lésbicas, gays, trans e travestis negrxs continuam sendo brutalmente violentados e marginalizados nas ruas.

Assim, todo o empoderamento e representatividade negra são também luta diária, e acontecem inclusive para contrariar as heranças dos quatro séculos de escravidão, no último país da América a abolir o maior tráfico de africanos no mundo, que foi o Brasil.

E quando aboliu, deu um fim sem direito a recomeço. Um regime imensamente doloroso e desumano que acabava sem dar o mínimo de acesso para uma vida digna a partir dali. 130 anos depois dessa falsa abolição, o racismo apenas mudou de endereço. Das senzalas para periferias, atualizou seus autores e jeitos de continuar excluindo e desvalorizando a negritude em todos os lugares e momentos da vida.

“É preciso encarar as sequelas da escravidão. Perdemos as referências, fomos desumanizados. Cada família preta e afrodescendente tinha que ter assistência social e psicológica.”, lembra Flavio Tongo, engenheiro e empresário.

Hoje, pessoas pretas e pardas são vítimas de mais de 70% dos assassinatos no país a cada ano, de acordo com o Atlas da Violência 2018. A pele negra como alvo principal da guerra brasileira se revela cada vez mais, inclusive na violência contra a mulher e a juventude. Tal como disse a vereadora negra e periférica Marielle Franco, pouco antes de ser brutalmente assassinada: “Quanto mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”. Essa é a questão que fica quando olhamos para os dados e suas histórias por trás:

Como reflexo disso, a pele negra também determina a parte mais prejudicada em diversos outros espaços, como nas escolas, hospitais, no mercado de trabalho, mídia, entre outros. 

Com isso, nos dividimos em diversos Brasis com desafios e oportunidades diferentes para cada cor de pele. O Espírito Santo é um dos destaques nacionais na desigualdade racial, onde negros vivem com quase os mesmos riscos de homicídios no 4º país do mundo com mais mortes, a Colômbia, em uma situação bem diferente da população branca:

Fora do eixo Rio-São Paulo, para onde os olhos do Brasil geralmente enxergam tudo acontecendo, a negritude do Espírito Santo transforma essa realidade repartida protagonizando novas cenas, que alcançam potência nacional e internacional. De empresários a artistas, pretos e pretas capixabas mudam rumos do empreendedorismo até a arte, da educação até a justiça.

“Se não oportunizamos e não incluímos os negros em várias áreas de destaque profissional, estamos privando a nação dos nossos melhores nomes também”, afirma o advogado negro e capixaba André Moreira.

Assim, se reerguem dia após dia afropotências como Jota Júnior, idealizador da empresa social Atitude Inicial, que inclusive oportuniza que pessoas pretas e de periferia sejam potencializadas a mudar o mundo e atuar com o que amam. Tal como a empreendedora social e presidente do Instituto das Pretas, Priscila Gama. Ela resolveu criar por conta própria projetos culturais inéditos, dedicados e totalmente protagonizados pela negritude, principalmente feminina.

Também foi assim que a rapper Afari transformou palcos e batalhas de rap em lugares povoados por mulheres negras e periféricas cheias de poder. Com a poesia das suas rimas ela valoriza a identidade preta e periférica, atuando com um sentimento comum entre várias afropotências:

“A nossa juventude está sendo exterminada e escravizada, mas ainda assim conseguimos extrair a beleza, a alegria, o sorriso das crianças o colorido da comunidade. Para nós, o desacreditar das pessoas é um combustível. Podem até desacreditar, mas vão ver nossa evolução através disso. A superação é o mais importante de tudo isso, é o que nos transforma.”

Por outros lados por onde o racismo também tenta calar vozes negras, ecoam os gritos da representatividade. Nas Artes Plásticas, Castiel reivindica seu lugar como bicha preta e periférica. Leva a cultura preta e da favela para dentro dos museus e galerias de arte. O cineasta Izah abre caminho para a representatividade, igualdade e diversidade racial para dentro dos roteiros e direções. Por meio das lentes, conta histórias de empoderamento de várias vidas negras. Assim como o ator Vander Neri, que descobriu no teatro um universo para ser o que quiser: negro, gay, periférico e umbandista, cheio de desejos e sonhos que antes nunca pensou que podia simplesmente imaginar.

Os irmãos, sócios, engenheiros e empresários Ana Paula Tongo e Flavio Tongo transformam o mundo negócios em espaços para que pretos potentes sejam lideranças, e não apenas minorias. E o diretor escolar Elizeu Moreira dos Santos atua em uma escola pública de periferia para resgatar e criar novas perspectivas para jovens negros. Tudo isso também se reflete na justiça para o povo preto, com o advogado André Moreira, que promove acesso à justiça e aos direitos humanos para a negritude.

Todas esses personagens fazem parte da série de reportagens Afropotências, produzidas dentro do Projeto Entalado, feito para quebrar tabus e preconceitos, pela empresa social Atitude Inicial. Ao longo das próximas semanas, vamos contar as histórias, desafios, realizações e sonhos dessas pessoas em diversos espaços de destaque. Aqui, retratamos sua potência no Empreendorismo, na Arte, nas Políticas e Direitos Humanos. A cada matéria, narramos a negritude protagonizando e revolucionando cada uma dessas área de atuação.