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Mulamba e o cenário da música feminista

Foto: Luciana Petrelli

Por Marina Souza

Mulamba é uma banda curitibana que pulsa força e poesia, unindo influências que vão do rock à música erudita. Mulheres com vozes dissonantes, que saem das entranhas e têm muito a dizer, elas representam um grito, um suspiro de encantamento, um furacão. Mulamba representa um grito de vozes silenciadas. Mulamba é: Amanda Pacífico (Voz), Cacau de Sá (Voz), Caro Pisco (Bateria), Fer Koppe (Cello), Naíra Debértolis (Guitarra/Baixo/Violão) e Erica Silva (Guitarra/Baixo/Violão).

Em ascensão no cenário musical atual, o grupo faz show de lançamento do homônimo álbum de estreia no Sesc Pompéia dia 18/01 (sexta-feira), a parir das 21h. A obra figura como “Melhores do Ano” em diversas listas de 2018. Inclusiva está entre os 25 melhores lançamentos do segundo semestre pela respeitada APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

No dia 10 de dezembro, a banda Mulamba completou três anos de luta diária, composição, evento e inspiração artística. Tudo começou quando Amanda Pacífico e a Naíra Debértolis tocavam juntas em um projeto e decidiram homenagear Cássia Eller. Elas pensaram em criar um time musical só com “manas” e fazer shows cover de cantoras brasileiras que gostavam.  É neste momento que aparecem Fer Koppe, Cacau de Sá e Caro Pisco. Com uma agenda já preenchida por muitos shows, as garotas começaram a sentir necessidade de fazer algo próprio, uma nova caminhada, começaram então um projeto autoral.

Erica Silva, que entrou no grupo há um ano, diz que no início surpreendeu-se com a pluralidade de arranjos ali utilizados e que com o tempo passou a não somente entender seu funcionamento, mas também a pensar como cada um daqueles estilos musicais agregavam em sua vida artística e pessoal. “Acho que tudo isso são as referencias musicais que cada uma carrega desde do primeiro dia que ouviu música. Mas apesar de tantas influências no som, sinto que tudo se conecta no Rock n’ roll, pela atitude que temos.”, diz ela.

A banda, que ressalta raízes latinas em suas obras, possui muitas letras voltadas ao feminismo e seu impacto na sociedade. Cacau acredita que isso é devido ao fato da música ser uma arte com grande potencial a ser explorado. “Ela invade o ouvido, muitas vezes você não escolhe o que ouvir, apenas escuta. A música fala com o seu subconsciente de uma forma muito impactante. É lindo. É maravilhoso. Ela chega em lugares que a fala não chega. E estamos na era da vagina. A era do feminismo”, diz ela. Desde que a banda começou, as musicistas recebem relatos de outras mulheres contando que voltaram aos seus instrumentos ou decidiram começar um projeto inteiramente feminino.

A decisão do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de extinguir o Ministério da Cultura preocupa as integrantes da banda, que classificam a medida como um retrocesso e um ataque à liberdade de expressão. “Isso é uma bomba relógio que vai explodir pra todos os lados. Estamos revoltadas com a forma que as coisas estão andando”, revela Cacau. É por isso que ela pretendem continuar lutando dentro e fora da arte.

“A gente tá aqui nesse lugar porque não dá mais para esconder todos os “brasis” que existem dentro do Brasil. É consequência do nosso trabalho, é merecido. A gente merece e tava demorando para um projeto só de mulheres ser reconhecido. Tem vários por aí, só não tem visibilidade”, conta a cantora.

 

 

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Arte Cultura Matriz Africana

Rodar a vida é uma escola: Melvin Santhana conta sobre a carreira e trajetória de vida

Foto: Vinicius Souza

Por Marina Souza

Cantor, compositor, multi-instrumentalista, ator e produtor musical. A arte dentro da alma ou vice-versa. Melvin Santhana tem 35 anos e nasceu em Guarulhos rodeado por uma família que desde cedo o influenciou musicalmente por meio do trabalho do pai com discos, da MPB, das cantigas de Umbanda e Candomblé, festas familiares e muitas outras experiências. Com cerca de 20 anos de carreira, ele vem conquistando diferentes espaços, atualmente integra a banda de apoio do show Boogie Naipe, do rapper Mano Brown, e no ano passado lançou seu primeiro disco solo: o Abre Alas.

Com apenas oito anos de idade o artista aprendeu a tocar cavaquinho, aos doze entrou num conservatório para estudar violão erudito e durante a adolescência matriculou-se em instituições e cursos de Música. Stevie Wonder, Michael Jackson, Nina Simone, Milton Nascimento, Almige Neto, Lauryn Hill e outros emblemáticos da música negra serviram de inspiração para o desejo de Melvin em trabalhar na área.

Os Originais do Samba foi a primeira banda em que fez parte, foi quando começou a aprimorar seus talentos de cantar, dançar e compor. Aos poucos, foi participando de outros projetos de intuito e mecanismo diversos no cenário artístico. Carregando os significados, as consequências e circunstâncias de ser negro no Brasil, ele diz que resistiu (e ainda resiste) todos os dias de sua vida, independentemente da profissão que está exercendo.

Foi com sua personalidade corajosa e persistente que Melvin conseguiu entrar para o Boogie Naipe. Ele conta rindo que convidou a si próprio quando seu primo, que é amigo da assessora dos Racionas MC’s, lhe falou que a Eliane Dias estava querendo formar um grupo para um novo projeto musical. Coincidentemente, Santhana estava trabalhando no espetáculo “Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens”, que retrata o legado deixado pelos Racionais, e em uma das apresentações conversou com a filha de Mano Brown, que estava na platéia. Através dela, marcou uma reunião com Eliane, que o propôs uma audição com outros músicos indicados por ele próprio. Eles fizeram, passaram e hoje compõem a banda.

Talvez só precise de um incentivo, um espaço para mostrar esse trabalho, uma comunidade que abrace isso e entender que é capaz de produzir.”, diz ele.

Foto: Noelia Najera

Para Santhana é essencial que o povo negro brasileiro faça uma reflexão sobre suas maneiras de consumo, produção e correlação entre si, pois isso interfere diretamente nas perspectivas culturais, históricas e políticas dos cidadãos. A visão eurocêntrica, segundo o músico, ainda é uma das principais responsáveis pelo racismo no país. É por esta razão, que ele sempre optou pluralizar os gêneros musicais usados nas suas obras e afirma: “a diversidade é minha matriz e é onde faço acontecer”.

Quando questionei sobre as dificuldades de ser um artista negro o cantor enfatizou que no Brasil, infelizmente, o mercado da área musical ainda está o pouco aberto para a cultura negra. Ele justifica falando que, apesar da Iza, Gloria Groove, Linn da Quebrada e outras/os artistas negras/os que têm ganhado destaque ultimamente, há falta de uma estrutura e um circuito cultural que fomentem isso.

Recentemente, lançou a música “VIVA!” e diz que em 2019 pretende trabalhar com novos singles, além de videoclipes e – talvez – um EP. Melvin também está atuando como ator tanto em Tetaro, quanto em Cinema, e revela que está inserido no projeto “Sem Asas”, de Renata Martins.