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Rodar a vida é uma escola: Melvin Santhana conta sobre a carreira e trajetória de vida

Foto: Vinicius Souza

Por Marina Souza

Cantor, compositor, multi-instrumentalista, ator e produtor musical. A arte dentro da alma ou vice-versa. Melvin Santhana tem 35 anos e nasceu em Guarulhos rodeado por uma família que desde cedo o influenciou musicalmente por meio do trabalho do pai com discos, da MPB, das cantigas de Umbanda e Candomblé, festas familiares e muitas outras experiências. Com cerca de 20 anos de carreira, ele vem conquistando diferentes espaços, atualmente integra a banda de apoio do show Boogie Naipe, do rapper Mano Brown, e no ano passado lançou seu primeiro disco solo: o Abre Alas.

Com apenas oito anos de idade o artista aprendeu a tocar cavaquinho, aos doze entrou num conservatório para estudar violão erudito e durante a adolescência matriculou-se em instituições e cursos de Música. Stevie Wonder, Michael Jackson, Nina Simone, Milton Nascimento, Almige Neto, Lauryn Hill e outros emblemáticos da música negra serviram de inspiração para o desejo de Melvin em trabalhar na área.

Os Originais do Samba foi a primeira banda em que fez parte, foi quando começou a aprimorar seus talentos de cantar, dançar e compor. Aos poucos, foi participando de outros projetos de intuito e mecanismo diversos no cenário artístico. Carregando os significados, as consequências e circunstâncias de ser negro no Brasil, ele diz que resistiu (e ainda resiste) todos os dias de sua vida, independentemente da profissão que está exercendo.

Foi com sua personalidade corajosa e persistente que Melvin conseguiu entrar para o Boogie Naipe. Ele conta rindo que convidou a si próprio quando seu primo, que é amigo da assessora dos Racionas MC’s, lhe falou que a Eliane Dias estava querendo formar um grupo para um novo projeto musical. Coincidentemente, Santhana estava trabalhando no espetáculo “Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens”, que retrata o legado deixado pelos Racionais, e em uma das apresentações conversou com a filha de Mano Brown, que estava na platéia. Através dela, marcou uma reunião com Eliane, que o propôs uma audição com outros músicos indicados por ele próprio. Eles fizeram, passaram e hoje compõem a banda.

Talvez só precise de um incentivo, um espaço para mostrar esse trabalho, uma comunidade que abrace isso e entender que é capaz de produzir.”, diz ele.

Foto: Noelia Najera

Para Santhana é essencial que o povo negro brasileiro faça uma reflexão sobre suas maneiras de consumo, produção e correlação entre si, pois isso interfere diretamente nas perspectivas culturais, históricas e políticas dos cidadãos. A visão eurocêntrica, segundo o músico, ainda é uma das principais responsáveis pelo racismo no país. É por esta razão, que ele sempre optou pluralizar os gêneros musicais usados nas suas obras e afirma: “a diversidade é minha matriz e é onde faço acontecer”.

Quando questionei sobre as dificuldades de ser um artista negro o cantor enfatizou que no Brasil, infelizmente, o mercado da área musical ainda está o pouco aberto para a cultura negra. Ele justifica falando que, apesar da Iza, Gloria Groove, Linn da Quebrada e outras/os artistas negras/os que têm ganhado destaque ultimamente, há falta de uma estrutura e um circuito cultural que fomentem isso.

Recentemente, lançou a música “VIVA!” e diz que em 2019 pretende trabalhar com novos singles, além de videoclipes e – talvez – um EP. Melvin também está atuando como ator tanto em Tetaro, quanto em Cinema, e revela que está inserido no projeto “Sem Asas”, de Renata Martins.

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Cultura O quê que tá pegando?

Rapper Afro-X celebra 19 anos de carreira e lança vinil do álbum “Um Brinde à Vida”

(Foto: João Wainer | Divulgação)

Por Ana Carolina Pinheiro

Fruto da geração do rap da década de 80, Afro-X começou a sua carreira no grupo Suburbanos. Porém, o jovem que nasceu na periferia da cidade São Bernardo do Campo, na Vila Calux, ganhou destaque e reconhecimento midiático nos anos 2000 ao criar o grupo 509-E. Com o parceiro Dexter e Mano Brown como padrinho, o conjunto nasceu dentro da Casa de Detenção de São Paulo enquanto Afro-X e Dexter cumpriam uma pena de 10 anos.

Em 2003, o grupo acabou, mas as músicas que retratam o cotidiano violento das penitenciárias do Brasil ficaram eternizadas. A partir deste ano, o rapper deu início a sua carreira solo e seis anos depois lançou o livro “Ex-157, a História que a Mídia Desconhece”. A autobiografia revela a sua entrada e saída do crime, além de prestar um serviço de conscientização aos jovens brasileiros que estão expostos diariamente às situações de riscos. Em 2009, o rapper foi para as telonas com o documentário “Entre a Luz e a Sombra”, que conta a trajetória do grupo 509-E, e ainda lançou seu primeiro álbum solo “Das Ruas Pro Mundo”.

Rompendo mais uma vez as barreiras dos gêneros musicais, Afro-X dá uma nova cara para o seu segundo álbum solo Um Brinde à Vida.  Em formato de vinil, o projeto marca o início das comemorações de 19 anos de carreira do artista. Com produção da Vinil Brasil e distribuição do coletivo Matilha Cultural, o público já pode encontrar o álbum no mercado.

No auge dos aplicativos de streaming de música, o rapper explica que o fato do disco ser lançado também como LP é uma forma de voltar às origens. “O vinil foi o jeito que encontramos de conectar o rap à sua raiz musical. Além disso, estamos comemorando os 19 anos de carreira”, comenta.

Se você ainda acredita que o rap é um gênero restrito e que pouco se mistura com os demais, Um Brinde à Vida promete desmitificar essas impressões. Segundo Afro-X, a batida por minuto (BPM) do rap é ótima para dialogar com vários estilos e, principalmente, para usar como base de outras canções.

Com referências de trapmusic e beats eletrônicos, o álbum trás diversidade não só pelos elementos musicais, mas também pelos artistas convidados. Negro Branco (Exaltasamba), Chrigor, Badauí (CPM 22), Felp (Cacife Clandestino), MC Sapão, Ri$hin e Marihanna estão no eclético time de participações especiais. “Eu tinha alguns amigos que queria trazer para o meu trabalho. E a conexão foi da hora”. Afro-X comenta que o resultado dessa mistura é um projeto bem brasileiro e que conversa com a juventude.

Em entrevista à nossa equipe, o rapper também revelou que após longo período distante de Dexter os dois voltaram a ter contato. Para o segundo semestre de 2018, os parceiros musicais vão retomar o trabalho lendário do 509-E. Ou seja, vai ser uma boa oportunidade para o público relembrar os grandes sucessos.