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Mobilização

Rede contra genocídio em São Paulo enfrenta violência do Estado

Por Marina Souza

O que gerou interesse em Fernando Ferreira, estudante de Pedagogia, a ingressar na Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio foi a “proposta de criar formas de enfrentamento nos territórios onde familiares e amigos sentem na pele o resultado da atual política de segurança”. Após pouco mais de um ano da decisão, ele comparece às reuniões e constrói vínculos com as diferentes frentes envolvidas no grupo, que tem como missão analisar em São Paulo casos de injustiças cometidos por agentes do Estado, sobretudo contra pessoas periféricas e/ou pretas.

Prisões de inocentes, torturas e assassinatos cometidos por policiais viram alvo de discussões e – principalmente – investigações na Rede. Marisa Feffermann, pesquisadora sobre juvenicídio na América Latina, explica que os integrantes do movimento se dividem em diferentes grupos de articulação, alguns lidam com o Ministério Público, outros com a Polícia, Defensoria Pública, militantes políticos ou os familiares das vítimas. Participando de Fóruns em São Paulo, Osasco e ABC Paulista eles realizam cursos, com três meses de duração, em regiões periféricas para mostrar um mapeamento coletivo a respeito das principais zonas de violência.

“É como se a gente fosse uma escuta das quebradas para o poder público”, defende Feffermann.

Fotos: Divulgação

Os quatro jovens presos injustamente no final do ano passado após serem acusados de roubar um carro foram soltos meses após um insistente pressionamento público organizado pela Rede, que conseguiu reunir provas e inocentar os garotos. Atualmente a organização também mobiliza atos de protesto contra casos de racismo como o que aconteceu com Vitor Vinicius, jovem negro de 20 anos que foi agredido e humilhado na estação de metrô Tucuruvi, no início deste mês.

O diretor executivo do IREC – Instituto Resgata Cidadão, Maurício Monteiro, de 49 anos, é ex-detento e confessa que mesmo não devendo mais nada a Justiça e tendo curso superior, sente que sofre com preconceito. Atualmente ele faz parte da equipe da Rede porque acredita que “quanto maior uma rede, maior seu alcance e maior a pesca”.

A organização da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio foi resultado do I Seminário Internacional Juventudes e Vulnerabilidades: Homicídios, Encarceramento e Preconceitos, ocorrido em 2017 na Faculdade de Direito da USP e na escola de samba Combinados de Sapopemba. O próximo evento deste estilo acontecerá em 11 de maio, o Seminário: O Direito no Enfrentamento à Violência De Estado discutirá estratégias jurídicas de instituições e pessoas diante das práticas violentas do Estado.

Apoio vs. oportunismo

Na madrugada em que Marielle Franco foi assassinada no Rio de Janeiro, dois adolescentes, de 13 e 17 anos, tinham sido mortos em Osasco, conta Marisa Feffermann.”Um dos integrantes da Rede ligou pra gente e disse que tinha acabado de acontecer uma chacina. Chegamos lá e não tinha ninguém do Conselho Tutelar ou Serviço Social. Nós chamamos várias pessoas para ir ajudar, mas tava todo mundo no ato da Marielle. Isso é muito simbólico.”, relembra e critica a enorme repercussão da frase “ninguém solta a mão de ninguém”, que surgiu nas redes sociais após a vitória do então candidato á presidência Jair Bolsonaro (PSL). Segundo a pesquisadora, a grande maioria que reproduz esse discurso é apenas da boca para fora

A pesquisadora confessa que ao ir nas “quebradas” percebe que a palavra “medo” é constantemente mencionada pela população local. E por isso, sente que é necessário informar sobre a Rede, ressaltando que há, de fato, articulações de resistência nas quais depositar confiança e apoio.

Assim como ela, Fernando Ferreira pensa que grupos como a Rede são cada vez mais fundamentais, devido a existência daquilo que chama de “política da morte”. Para ele, enfrentar as injustiças através de estratégias coletivas, organizadas e com pouca exposição das vítimas é essencial para defender tais causas. “A rede está se fazendo. Só o dia a dia nos trará essa resposta, mas posso afirmar de maneira muito tranquila que temos muito a contribuir nessa discussão em qualquer lugar do país”, defende na esperança de que mais pessoas apoiem o movimento.

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Genocídio Negro

Vidas negras em tardes de domingo

Luciana Nogueira, esposa do músico Evaldo dos Santos Rosa, morto no domingo, 7 de abril, durante uma ação do Exército na região da Vila Militar, na zona norte do Rio de Janeiro, em desespero diante do corpo do marido e do carro cravejado com 80 tiros

 

Eu me lembro com saudade
O tempo que passou
O tempo passa tão depressa
Mas em mim deixou
Jovens tardes de domingo
Tantas alegrias
Velhos tempos
Belos dias

– Roberto Carlos

 

Tô cansado dessa porra
de toda essa bobagem
Alcolismo,vingança treta malandragem
Mãe angustiada filho problemático
Famílias destruídas
fins de semana trágicos

– Racionais Mc’s

 

Por Douglas Belchior

Fotos: Rosa Caldeira; Jorge Ferreira; Mídia Ninja; Alma Preta; Ponte Jornalismo; Bianca Santana

 

Quando criança ouvi muito Roberto Carlos. Meus pais gostavam. Memórias de criança que, vez ou outra, voltam. Depois cresci, estudei. Percebi e entendi por que as tardes de domingo felizes das canções da jovem guarda, as tardes em que “Canções usavam formas simples / Pra falar de amor / Carrões e gente numa festa / De sorriso e cor…” não eram em nada parecidas com as tardes de domingo lá de perto de casa, na zona leste de SP. Racionais MC’s, melhor que ninguém, nos explicou como funciona o nosso fim de semana: “Olha só aquele clube que da hora / Olha o pretinho vendo tudo do lado de fora…”

Tenho 40 anos e desde os 17 participo de protestos contra a violência da polícia e pelo fim do assassinato sistemático de pessoas negras no Brasil. As vezes me pego pensando quanto tempo da vida dediquei à isso, ocupando ruas não só em dias de protestos, mas no dia a dia em salas de aula no trabalho em escolas públicas ou nos finais de semana em cursinhos populares. Vejo os militantes mais velhos que teimam em continuar a luta. Eles já fazem isso há 30, 40, 50 anos, ocupando suas horas de descanso entre um dia e outro de trabalho ou em feriados ou em finais de semana, sábados e tardes de domingo. Que destino é esse que não nos permite apenas viver nossas vidas, desfrutar de domingos com a família, com namoro, com amigos ou simplesmente tomar uma cerveja diante da TV em dia de final de um campeonato de futebol. Que triste necessidade esta, ter que dividir um tempo tão raro que poderia ser de felicidade e gozo, com a melancolia e a tristeza de velórios, ajuda humanitária e protestos. E pior, agradecer por estar vivo e se cuidar para não ser o próximo alvo de uns 80 tiros em alguma estrada qualquer.

Mas qual seria a opção a isso? Viver como se não soubéssemos? Olhar para os incontáveis corpos e não reparar a semelhança? Salvar a “própria pele” e ignorar o cheiro forte de carne queimada que invade nossas narinas todos os dias?

Não é possível!

Neste dia 14 de abril de 2019, mais de mil pessoas dedicaram sua tarde de domingo à memória de Evaldo, homem negro fuzilado em praça pública com 80 tiros, pelo exército brasileiro. Mais um dia dedicado a denunciar ao mundo os governantes genocidas que lideram nosso país. Um país que vive em guerra.

Obviamente, uma situação em que o exército fuzila com 80 tiros, um carro com uma família dentro, em plena via pública numa tarde de domingo, só não chama a tenção e não provoca revolta em pessoas com algum tipo perverso de psicopatia. Mas é preciso dizer que situações absurdas acontecem com mais frequência que se imagina. Como não lembrar dos 111 tiros da Policia Militar em um carro com 5 garotos negros, no Rio de janeiro, em 2015; Ou da chacina da Cabula, também em 2015, em Salvador na Bahia, quando a polícia enfileirou 12 jovens em um campo de futebol para o fuzilamento; Ou Amarildo, preso torturado e morto pela PM do Rio em 2013; Ou de Cláudia Silva Ferreira, mulher negra, baleada pela PM e depois arrastada por mais de 250 metros, em via pública, por uma viatura policial; E as diversas crianças mortas nas ações das polícias no Rio e em outros estados; E Marielle Franco, assassinada por ex-policiais milicianos. Isso para citar só alguns.

Para além de casos que ganham repercussão nos meios de comunicação, é necessário dizer que assassinatos de pessoas negras em si são absolutamente corriqueiras neste país.

No último período, a polícia brasileira matou em 5 anos mais do que todas as polícias norte americanas em 30 anos de trabalho. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil.  O Estado brasileiro, direta ou indiretamente, promove o genocídio da população negra. Estudos diversos, como por exemplo, a do Atlas da Violência, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), relatam que em 2016, o Brasil alcançou a marca histórica de 62.517 homicídios. Isso equivale a uma taxa de 30,3 mortes para cada 100 mil habitantes, que corresponde a 30 vezes a taxa da Europa. Quando recortados por raça/cor comprova-se o genocídio: 71,5% das pessoas que são assassinadas a cada ano no país são pretas ou pardas.

No texto, números são apenas números. Conviver com isso, diariamente, é outra coisa.

Por isso sou profundamente grato pela companhia de militantes, homens e mulheres que nos momentos mais difíceis, pegam uns nas mãos dos outros para lembrar e reafirmar nossa missão e de que não estamos sozinhos nela. Obrigada.

Barrar o genocídio negro é tarefa histórica no Brasil e no mundo. Nossa geração fará sua parte!

Justiça à Evaldo Rosa e à todas e todos os assassinatos de pessoas negras, desde o primeiro navio repleto de escravizados até o carro e o corpo cravejados por 80 tiros!

Sobre o protesto

Grupos ligados a movimentos negros se encontraram neste domingo (14) na Avenida Paulista, para celebrar a memória no 7 dia da morte do músico Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos, no último domingo (7) no Rio de Janeiro. Rosa foi morto quando o carro que dirigia foi alvo de pelo menos 80 tiros de fuzil disparados por soldados do Exército.

Com o nome “80 tiros em uma família negra, 80 tiros em nós!”, o ato se reuniu em frente ao Museu de Arte Assis Chateaubriand (Masp).

Uma imensa faixa com a frase “Parem de atirar em nós” marcou o protesto. Manifestantes se alternaram no microfone para falar sobre a perseguição de negros na periferia.

 

#80Tiros

#EvaldoVive

#ContraOGenicidiodoPovoNegroBrasileiro

#UneafroResiste

#BlackLivesMatter

#VidasNegrasImportam

#ParemDeNosMatar

#ParemDeAtirarEmNós

 

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Genocídio Negro Política

Entre Luther King e Marielle: As vidas que a violência interdita, mas não vence

Por Renata Souza e Ronilso Pacheco

A memória de Luther King é sobretudo perturbadora para os racistas estadunidenses. Por lá, a ala branca e conservadora da igreja evangélica, insiste em relativizar King. Seja pela tentativa de “domesticar” a sua imagem, para torná-la palatável para os white brothers and sisters, afastando-o o máximo possível da imagem do “violento” Malcom X, seja pelo completo silêncio, diminuindo sua importância histórica global. Mas pelo menos uma vez por ano, precisam conviver com a sua força, sua presença e o legado de sua profecia — que segue gritante, reproduzida em outras vozes e outros corpos.

No esforço de tornar a imagem de King palatável para seus membros brancos,  a igreja evangélica conservadora, base eleitoral do Partido Republicano, tenta esconder o Luther King que criticou o militarismo, denunciou com veemência o papel dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã em um discurso histórico realizado na Riverside Babptist Church em Nova Iorque em 67, e fez duras críticas ao capitalismo que se materializava em exploração e mais geração de pobreza para uma maioria esmagadora da população, e não apenas a comunidade negra. King diz, inclusive, de como ele deixou de ser “popular” na aristocracia do poder, inclusive para a imprensa dos EUA, quando “quebrou o próprio silêncio”. Quando ele passou a denunciar o apego do stablishment ao militarismo, à guerra e a íntima relação entre armas e capitalismo, o prestigiado King deixou de ser alguém que incomodava “apenas” a segregação.

Chame como preferir, chame de democracia ou chame de socialismo democrático, mas deve haver uma melhor distribuição da riqueza neste país dentre todos os filhos de Deus. 

Martin Luther King

Entre o King de “I Have dream”, em 63, e o King da Campanha pelas Pessoas Pobres em 68, há o assassinato de Malcom X em 65 e o início da Guerra do Vietnã. Há um Luther King amadurecido pela perseverança da segregação, da sede insaciável da supremacia branca pelo poder e a manutenção de privilégios, e há um King convicto de que a igreja branca e conservadora nos Estados Unidos não se arrependeriam tão cedo nem do seu pecado do racismo, nem da sua convicção de que a comunidade negra inspira perturbação e pobreza.

Martin Luther King é assassinado em meio à sua articulação para realizar uma nova e maior marcha até Washington para pressionar o Congresso para a criação e aprovação de uma “Declaração de Direitos Econômicos” para os americanos pobres. Uma elite branca e aristocrata, insatisfeita com a ousadia do pastor preto que expunha ao mundo o racismo e a segregação racial dos Estados Unidos, considerou a gota d’água este mesmo pastor querer tocar e ameaçar os privilégios da distribuição de renda, da riqueza, dos acessos a bens e serviços que uma classe média branca se considerava herdeira única e legítima.

No Brasil a tentativa de desmoralização e deslegitimação do povo preto e pobre sempre foi uma estratégia da elite econômica e política. Os nossos heróis de ontem como Dandara, Zumbi, João Cândido e da nossa gigante de hoje e sempre, Marielle Franco, são colocados em segundo plano ou criminalizados. Se os pretos se revoltam, pagam com a vida, são retirados dos livros e das memórias, quando não são transformados em vilões. Por isso, a nossa ação enquanto negros defensores dos direitos humanos é de reconexão com a ancestralidade, com os nossos mais velhos e mais velhas, iluminando vidas de luta e de reexistência. Contaremos a história que a história não conta, como diz o samba da Mangueira deste ano. Sim, a história Das Marias, Marielles e dos Malês.

Não por acaso, é nesse processo de invisibilização dos pretos, que a igreja evangélica brasileira também se distancia e esquece da história de Luther King — talvez o evangélico mais conhecido do planeta — e o seu legado. Porém sua memória continua, ano a ano, sendo celebrada entre ativistas, militantes e homens e mulheres sensíveis com as pautas referentes ao direito à vida. A igreja brasileira não deveria se calar sobre a memória de King. É inclusive um equívoco que poderia ser revertido, se a maioria esmagadora da igreja brasileira não ignorasse a memória e o legado profético de Marielle Franco.

“Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?” 

Marielle Franco

É possível, muito possível na verdade, que Marielle Franco consiga percorrer um caminho semelhante. Não dá para imaginar se ela terá, daqui a cinquenta anos, para a comunidade negra no Brasil a força que Martin Luther King tem para a comunidade negra nos Estados Unidos. Mas nenhuma outra figura, mulher, negra, de favela, erguida da luta e da solidariedade, parece ter chegado tão perto de conseguir isto.

E evidentemente se aproximar do prestígio e da repercussão de Luther King no seu país natal e no mundo não é critério ou régua de importância da força que Marielle possui. Na verdade, é um dos únicos meios comparativos de dimensionar o que ela, que definitivamente virou semente, se tornou. Entre King e Marielle, está uma incrível e semelhante capacidade de inspirar para o futuro, em especial uma juventude negra, pobre, da favela e da periferia. Talvez, o maior medo que Marielle pudesse causar aos podres poderes, era justamente a capacidade que esta mulher tinha e tem, porque Marielle é presente, com sua força indomável e generosidade encantadora, para inspirar pessoas, inflá-las de esperança. O cálculo era de que “seria mais seguro” interditá-la agora, antes que sua força indomável se tornasse incontrolável. Mas todos nós descobrimos que esta força já era rebelde, indomesticável, gigante. E Marielle, assim como King, ressuscitou.

 

 

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Noticias

Preso pela morte de Marielle, o PM Ronnie Lessa fingiu ser negro no momento do crime

Por Marina Souza

De acordo com as informações divulgadas ontem (12) pela Delegacia de Homicídios da Capital do Rio de Janeiro, o policial militar Ronnie Lessa, que agora está preso pelo assassinato do motorista Anderson Gomes e da vereadora Marielle Franco, ao lado do ex-agente Élcio Queiroz, fingiu ser um homem negro durante a execução do crime ocorrido em março do ano passado.

Dentro da corporação que fazia parte, o agente reformado era conhecido como o “exímio atirador”. Com o objetivo de enganar possíveis filmagens locais, o PM usou um protetor de braço preto, que costuma ser usado por jogadores de basquete.

Ronnie Lessa foi preso nesta terça-feira (Foto: Reprodução)

Os acusados planejaram o crime durante três meses. Psquisaram os locais e horários que a vereadora frequentava e usaram uma submetralhadora HKMP5 no momento do assassinato.

Na manhã desta quarta-feira (13), a Divisão de Homicídios (DH) da Polícia Civil do Rio fez uma nova operação cumprindo 16 mandados de busca e apreensão. Mas ainda não há respostas para os grandes questionamentos do caso: quem mandou matar Marielle? Por qual motivo?

 

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Cotas Raciais Educação Popular

A Educação para a população preta, pobre e periférica no governo Bolsonaro

Por Marina Souza

“Esse pessoal que foi eleito tentará implementar reformas que visarão retirar os poucos direitos que nós temos. E quem vai sentir mais são os pobres, os das periferias e os pretos”, diz Henrique Viegas. Aos 59 anos de idade ele é biólogo e professor da rede pública de saúde e educação há mais de três décadas e meia, é voluntário nos cursinhos da Uneafro (União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora), coordena um dos núcleos de ocupação do Movimento Sem Teto e desacredita que o novo governo brasileiro trará benefícios às populações negras e periféricas.

Viegas, que sempre se vinculou às lutas políticas, afirma que o atual momento é de “perversidade” e marcado por uma nova classe dirigente na presidência, no senado, nas gestões dos governos e nos cargos de deputado. Segundo ele, é nela que serão fortalecidos e estabelecidos vínculos com aqueles que chama de “ricaços”, “latifundiários” e “as famílias que mandam nesse país há centenas de anos”.

O professor acredita que o racismo, a falta de acesso aos estudos e permanência estudantil são as principais dificuldades a serem enfrentadas pelos estudantes negros brasileiros. Usando a si mesmo como exemplo, ele relembra a época de aluno e conta que a sua família e amigos o ajudaram diante dos muitos obstáculos que surgiam.

Os dados mais recentes do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), divulgados em 2015, revelam que o Brasil é o sexto país com maior número de estudantes entre 15 e 16 anos no mercado de trabalho, cerca de 43,7% dos entrevistados afirmam que trabalham antes e/ou depois de irem à escola. A pesquisa também mostra que somente 4 em cada 10 alunos de escolas públicas, da mesma faixa etária, acreditam que concluirão uma graduação.

“Temos dezenas de estudantes que vão assistir aula depois de 12 horas trabalhando e pegando ônibus. São filtros que impedem um aluno pobre, preto e da periferia de conseguir vigor físico para ficar três ou quatros horas assimilando conteúdo de disciplina”. Viegas relembra ainda que esses jovens são vulneráveis a diversos tipos de violência e sendo assim, têm o rendimento do aprendizado diretamente prejudicado.

Através de seus trabalhos voluntários na Uneafro, o biólogo acredita que a instituição tem o importante papel de organizar e aglutinar centenas de jovens pobres, pretos e periféricos, juntamente com os voluntários, professores ou não, para resistir e enfrentar as violências do sistema capitalista. Ele afirma que a função de sua profissão é instigar debates que estimulem o aluno a pensar, ter senso crítico e perceber seu papel na sociedade.

Dar a essa parcela da população a esperança de ingressar no ambiente universitário é uma das principais ações já realizadas pelo grupo, que é uma rede de articulação e formação de pessoas periféricas.

Foto: Uneafro – Divulgação

Kesselly Rodrigues, de 17 anos, é aluna do Núcleo Marielle Franco, pretende cursar Psicologia e revela que além dos estudos preparatórios para os vestibulares, a Uneafro lhe trouxe uma conscientização política. “A minha visão de mundo mudou bastante porque comecei a perceber qual posição eu ocupo dentro da sociedade. Senti a necessidade de querer saber quais eram os meus direitos, quais lutas eu deveria pesquisar e quais delas eu deveria fazer”, diz ela.

Sua maior preocupação enquanto estudante negra no atual cenário político é a desvalorização na qual é submetida por pertencer a tal grupo. Kesselly é moradora da Favela do Montanhão, localizada em São Bernardo do Campo, sempre sofreu por suas condições financeiras e conta que muitas pessoas costumam dizer a ela que as cotas raciais são um mecanismo de privilégio, e não de direito. A garota, porém, discorda, enfatiza que nunca esteve em uma posição protagonista e lembra que a juventude negra tem grandes dificuldades para ocupar qualquer espaço social no país.

O presidente recém empossado, Jair Bolsonaro (PSL), já declarou que é veemente contra a política afirmativa das cotas raciais e promete minimizá-la. Enquanto ainda era pré-candidato ao cargo, ele foi entrevistado pelo programa Roda Viva, da TV Cultura, e disse: “Não vou falar que vou acabar, porque depende do Congresso. Quem sabe a diminuição do percentual. Não só para universidade, mas para concurso público. Pelo amor de Deus, vamos acabar com essa divisão no Brasil”. Ele ainda ironizou os jornalistas questionando qual seria a dívida histórica que possui já que nunca escravizou ninguém.

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 48,9% da população negra brasileira ainda faz parte do grupo de pessoas sem instrução e ensino fundamental incompleto, e quinze anos após as primeiras vivências de cotas raciais no ensino superior o percentual de pretos e pardos que concluíram a graduação cresceu de 2,2%, em 2000, para 9,3% em 2017.

Jair Bolsonaro (PSL) em encontro com governadores em Brasília | Foto: Adriano Machado/Reuters

Caso o presidente queira reduzir quantitativamente esta ação afirmativa, deverá enviar um projeto de lei ao Congresso para ser votado por, no mínimo, 257 deputados. Se 50%+1 deles aprovarem a medida, o texto é encaminhado ao Senado, onde deverá ser votado por pelo menos 41 parlamentares e aprovado por 50%+1. E mesmo com a maioria dos votos favoráveis, o STF (Supremo Tribunal Federal) ainda poderia questionar o projeto, uma vez que a constitucionalidade da política das cotas é reconhecida no Brasil desde 2012.

Vale relembrar também que Bolsonaro não pode interferir na lei de cotas usada por universidades e concursos públicos nos âmbitos estadual e municipal, pois estes são de responsabilidade da Assembleia Legislativa e das Câmaras Municipais.

“Os nossos jovens, os filhos da classe pobre, não estão representados nos bancos das universidades. Por que? Porque nesse país a gente tem dois tipos de educação, uma nas melhores escolas para os ‘granfinos’ e outra nas públicas para os pobres, pretos e periféricos”, reflete Henrique Viegas e complementa dizendo “as cotas são medidas reparatórias, queremos que sejam transitórias”.

Adriano Sousa, de 31 anos, mestrando em História pela Universidade de São Paulo, acredita que o novo governo tencionará a Educação através de um viés moral, querendo impedir a discussão sobre gênero, desigualdade, racismo, e qualquer outra reflexão das classes populares e seus problemas. Complementa então afirmando que essa política também quer privatizar e fechar espaços universitários para reduzir custos, “quebrar” o Estado em pedacinhos e distribuí-los a diversos investidores, o que classificou como uma política liberal muito agressiva.

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Destaque Movimento Negro

Mas afinal, o que 2018 trouxe de bom para os negros?

Por Marina Souza

O ano de 2018 foi muito intenso. Seja nos aspectos culturais, sociais ou, principalmente, políticos, foi possível observar acontecimentos de grandes impactos para o Brasil e o mundo. A Intervenção Federal no Rio de Janeiro, os documentos da CIA sobre a ditadura brasileira, o assassinato de Marielle Franco, o incêndio no Museu Nacional, o atentado no Irã, a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) à presidência e tantos outros episódios marcantes tornaram-se lembranças dolorosas.

Contudo, as lutas pedem espaço. É preciso encarar tais acontecimentos, construir resiliências e novas narrativas. É necessário relembrar também os incontáveis momentos bons que 2018 trouxe e observá-los sob uma perspectiva esperançosa. Por isso, relembre agora algumas dessas conquistas.

Jean-Michel Basquiat no Centro Cultural Banco do Brasil

Aberta no dia 25 de janeiro, a exposição “Jean-Michel Basquiat — Obras da Coleção Mugrabi”, no Centro Cultural Banco do Brasil, fez uma retrospectiva das obras e trajetória de vida de Basquiat, reunindo mais de 80 quadros e gravuras. O público teve contato com a emblemática personalidade artística do nova-iorquino que viveu durante as décadas de 70 e 80.

A mostra ficará disponível até o dia 07 no Rio de Janeiro.

Foto: Felipe Cezar

Pantera Negra lota as salas de cinema

Com seu elenco completamente negro, o filme Pantera Negra, lançado em 15 de fevereiro, conquistou uma série de prêmios e indicações em diversas celebrações importantes no mundo do Cinema, chegando a tornar-se o primeiro filme de super-herói a concorrer na categoria “Melhor Filme” no Globo de Ouro. Além de explorar elementos da Fantasia, Aventura e Ação, o longa-metragem retrata consequências da colonização europeia na África e diversos aspectos históricos, mitológicos, políticos e culturais do continente.

Jamaica, Jamaica

Contrariando o forte esteriótipo em que a cultura jamaicana está submetida, a exposição “Jamaica, Jamaica”, inaugurada em 15 de março no Sesc 21 de Maio, quebrou preconceitos retratando a pluralidade e diversidade do país, sobretudo no âmbito musical. Fotos, áudios, documentos, instrumentos musicais e outros importantes materiais da história da música jamaicana foram expostos, acompanhados de uma vasta programação que incluía cursos, palestras, encontros e oficinas.

Foto: Divulgação

1º Prêmio Marielle Franco

Um mês após o assassinato da quinta vereadora mais votada nas eleições municipais de 2016 do Rio de Janeiro, a rede de núcleos estudantis UNEAFRO realizou o 1º Prêmio Marielle Franco, prestigiando pessoas, instituições e organizações que lutam pelos Direitos Humanos. O evento foi realizado em 14 de abril, no auditório de Geografia da Universidade de São Paulo e premiou nomes como Regina Militão, Milton Barbosa, Maria José Menezes, Jupiara Castros, Núcleo de Consciência Negra, e Sueli Carneiro.

Foto: UNEAFRO

Seydou Keïta

A exposição “Seydou Keïta” foi inaugurada em 17 de abril, no Instituto Moreira Salles (IMS), para apresentar 130 obras do fotógrafo que é considerado um dos precursores dos retratos de estúdio na África. A mostra ainda estará disponível no Rio de Janeiro até o dia 27 do próximo mês.

Foto: Divulgação

Memorial sobre escravidão é inaugurado nos Estados Unidos

O Memorial Nacional pela Paz e Justiça, inaugurado dia 26 de abril, no Alabama, foi projetado para homenagear os negros estadunidenses que foram linchados pela supremacia racial branca nos Estados Unidos durante e após a chamada “Era Jim Crow”, período em que a segregação étnica no sul do país foi institucionalizada. Entre 1877 e 1950 mais de 4 mil negros foram enforcados, queimados vivos, abatidos, afogados e espancados até a morte por multidões brancas, sob uma campanha de terror apoiada pelo Estado.

Esculturas do Memorial Nacional pela Paz e Justiça | Foto: Brynn Anderson/AP

Universidade de Harvard recebe evento sobre racismo e Movimento Negro no Brasil

Nos dias 27 e 28 de abril, a Universidade de Harvard recebeu ativistas e acadêmicos negros para dialogar sobre questões ligadas ao impacto do racismo na experiência brasileira e a atuação dos movimentos negros na luta pela superação das desigualdades no país.

Ex África

As obras da exposição “Ex África” retratam momentos como a colonização, o tráfico negreiro, luta pela independência e outros temas que permeiam a história e cultura do continente africano. Instalações, fotografias, performances, desenhos, pinturas, esculturas e vídeos ali expostos pertencem a importantes artistas africanos contemporâneos, que estão em destaque dentro e fora de seus países. São mais de 90 produções de 20 artistas, divididas em quatro eixos: ‘Ecos da História’, ‘Corpos e Retratos’, ‘O Drama Urbano’ e ‘Explosões Musicais’. Inaugurada em 28 de abril, no Centro Cultural Banco do Brasil, “Ex África” foi a maior mostra de arte africana contemporânea já realizada no Brasil e estará disponível até o dia 30.

Foto: Alexandre Macieira

O “boom” de This Is America

Lançado em 05 de maio, o videoclipe “This Is America”, de Childish Gambino, alcançou 33 milhões de visualizações em apenas 48 horas e 100 milhões em uma semana. As redes sociais foram bombardeadas de comentários sobre o clipe, que faz diversas referências ao racismo e à violência policial nos Estados Unidos, e a música chegou a ser classificada pelo jornal britânico The Guardian como a melhor de 2018.

Os 130 anos da abolição da escravatura

O Brasil, o último país do ocidente a abolir formalmente a escravidão, completou 130 anos dessa decisão histórica em 13 de maio de 2018. Diante dos crescentes discursos de ódio, da eleição de um presidente que reproduz ideais neofascistas e das ameças aos direitos trabalhistas e à Democracia brasileira, o país completou treze décadas da abolição da escravidão.

Muitos eventos ativistas, políticos, acadêmicos e artísticos foram realizados para instigar reflexões sobre a data. Exemplo disso foi o Museu Afro Brasil, que inaugurou a exposição “Isso É Coisa de Preto – 130 Anos da Abolição da Escravidão”, com o intuito de ressaltar a competência, o talento e a resistência negra nos campos da arquitetura, artes plásticas, escultura, ourivesaria, literatura, música, dança, teatro, idioma e costumes. A mostra foi prorrogada até 31 de dezembro.

Os Racionais MC’s no vestibular

No dia 23 de maio, o álbum “Sobrevivendo no inferno”, dos Racionais MC’s, foi inserido na lista de leituras obrigatórias para o vestibular de 2020 da Universidade de Campinas (UNICAMP). Os vestibulandos deverão estudar as 12 letras presentes na obra, que são recheadas de significados e contextualizações de perspectivas periféricas e negras de Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e DJ KL Jay. O álbum é considerado por muitos estudiosos como uma das maiores produções artísticas brasileiras de todos os tempos e agora, fará parte de um repertório universitário.

A obra também gerou um livro, que em 31 de outubro chegou às livrarias trazendo as poesias e fotografias da banda e textos de Sérgio Vaz e Criolo.

Foto: Divulgação

Lei de identificação racial em cadastros e bancos de dados estaduais é aprovada

Em 08 de junho, a Lei Nº 16.758, da deputada estadual Leci Brandão (PCdoB), foi decretada pela Assembleia Legislativa e promulgada pelo Governo do Estado de São Paulo. O intuito é que os bancos de dados, cadastros e registros de informações assemelhadas, públicos e privados exijam a identidade étnico-racial do cidadão. As informações coletadas serão enviadas semestralmente para a Coordenação de Políticas para População Negra e Indígena, da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania.

Os 100 anos de Nelson Mandela

Este ano foi celebrado o centenário de nascimento de um dos maiores líderes políticos da África do Sul: Nelson Mandela. Em 18 de julho, diversas organizações, ativistas e governantes se juntaram para relembrar a importância histórica, cultural, política e social que ele teve na luta contra o Apartheid. Mandela foi um preso político durante 27 anos, presidiu seu país, lutou contra o racismo e imperialismo, garantiu políticas afirmativas ao povo sul-africano e foi premiado duas vezes pelo Nobel da Paz.

Djamila Ribeiro lança livro sobre Feminismo Negro

Djamila Ribeiro, escritora, pesquisadora e filósofa,  lançou seu novo livro “Quem Tem Medo do Feminismo Negro?” no dia 25 de junho. No livro, a autora levanta a discussão da importância deste movimento, suas origens, circunstâncias e funcionamento. Além de artigos acadêmicos, traz ainda um ensaio autobiográfico inédito com relatos de sua infância e juventude vividas em uma sociedade estruturalmente racista e misógina.

Foto: Companhia das Letras/Divulgação

Histórias Afro-Atlânticas

A exposição Histórias Afro-atlânticas, inaugurada em 29 de junho, teve sucesso nas duas maiores instituições culturais paulistas, Tomie Ohtake e Museu de Arte de São Paulo (MASP) de São Paulo, ao reunir 450 trabalhos de 214 artistas do século XVI ao XXI, em torno dos “fluxos e refluxos” entre a África, as Américas, o Caribe, e também a Europa. A mostra ganhou um prêmio pela APCA (Associação Paulistas de Critérios de Arte) e foi nomeada como a “exposição do ano” pelo jornal New York Times.

Foto: Divulgação

Movimento Negro Unificado comemora os 40 anos de trajetória

Em 06 de julho deste ano, o Movimento Negro Unificado (MNU), uma das pioneiras organizações negras no país, completou seus 40 anos de existência. Em meio ao regime militar, parte da juventude negra brasileira se reuniu formando um movimento que proporcionasse e participasse de diferentes mecanismos de combate ao racismo. Em entrevista para a Rádio Brasil Atual, Regina Lúcia, integrante do MNU há 22 anos, comentou: “as conquistas são muitas, mas a gente ainda tem muito para caminhar, porque o racismo no Brasil é de uma perversidade tão grande que a própria população negra não se enxerga enquanto vítima.”.

Foto: Movimento Negro Unificado

Lei institui Dia Marielle Franco contra o genocídio da mulher negra

A deputada Enfermeira Rejane (PCdoB) criou um projeto de lei que estabelece a data 14 de março como o Dia Marielle Franco – Dia de Luta contra o Genocídio da Mulher Negra, no calendário oficial do estado do Rio de Janeiro. A Lei 8.054/18 foi sancionada pelo então governador Luiz Fernando Pezão (MDB) em 17 de julho e publicada no dia seguinte pelo Diário Oficial do Poder Executivo. Além de nomear a data, o projeto também determina que instituições públicas e privadas promovam a reflexão sobre a situação da mulher negra brasileira, através de debates e eventos do tipo.

Foto: Divulgação

Marcha das Mulheres Negras

Neste 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, ocorreram as terceiras edições da Marcha das Mulheres Negras em algumas cidades do país. Grupos e ativistas foram às ruas dizer “não” ao racismo, machismo, LGBTI+fobia, intolerância religiosa e fascismo.

Movimentos e grupos religiosos gritam “sim” pela liberdade

No dia anterior à data prevista para o Supremo Tribunal Federal (STF) votar sobre o abate religioso de animais, 08 de agosto, aconteceu a Marcha das Religiões Afro-brasileiras em diferentes cidades do país, demonstrando repúdio ao Recurso Extraordinário (RE) 494601, que previa a inconstitucionalidade e ilegalidade dessa prática. O julgamento foi suspenso após o ministro Alexandre Moraes pedir vista, ou seja, mais tempo para analisar a situação.

Rappers viram super-heróis em HQs

No dia 22 de agosto, o youtuber LØAD divulgou um projeto seu em parceria com o desenhista Wagner Loud, que homenageia importantes nomes do Rap nacional, através de capas de histórias em quadrinho. Cada um dos poderes atribuídos aos heróis são relacionados com a trajetória de vida e personalidade dos músicos que os possui. Ambos idealizadores pretendem continuar fazendo obras nesse estilo e tiveram grande repercussão nas redes sociais e veículos de comunicação.

Foto: Divulgação

Rede de fortalecimento de mulheres negras – Circuladô de Oyá

O grupo Pretas-UNEAFRO lançou, em 28 de agosto, a campanha do projeto “Circuladô de Oyá“, com a intenção de criar uma rede de fortalecimento das mulheres negras que estudam pela União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora (UNEAFRO).

Número de candidatos negros cresce no Brasil

Embora a proporção da quantidade de candidaturas negras ainda seja baixa em relação ao número de negros brasileiros, se compararmos o ano de 2018 com 2014 é possível afirmar que houve um acréscimo de 9,2% de negros se candidatando a cargos eleitorais. Os dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) apontam que 46,8% dos candidatos se autodeclararam como pretos ou pardos neste ano.

O apoio recebido pelas candidaturas negras

Artistas, lideranças ativistas, políticos, grupos, coletivos, comitês e diversos movimentos sociais estiveram durante o ano inteiro apoiando e divulgando candidatos negros aos cargos eleitorais.

Douglas Belchior (PSOL), ativista há mais de 20 anos, professor de História e coordenador da UNEAFRO, candidatou-se a deputado federal em São Paulo, recebeu cerca de 46 mil votos e foi apoiado publicamente por pessoas como Sueli Carneiro, Lázaro Ramos, Bianca Santana, Wagner Moura, Milton Barbosa, Preta Rara e Renata Prado.

Foto: Divulgação/Douglas Belchior

Mestre Moa é homenageado por capoeiristas, músicos, ativistas e organizações

Para homenagear o Mestre Moa de Katendê, capoeirista e compositor de blocos como Ilê Aiyê e Badauê, assassinado por eleitores do candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL), diversas manifestações aconteceram pelo Brasil durante o mês de outubro. Lutas de capoeira, palavras de ordem, cartazes e instrumentos musicais foram recursos utilizados durante as passeatas e os eventos culturais, organizados por capoeiristas, músicos, ativistas e organizações sociais.

 Foto: Sérgio Silva

Duas mulheres trans na Assembleia Legislativa de São Paulo

Uma grande conquista para os defensores da representatividade: no dia 07 de outubro, duas mulheres trans e negras ingressaram no cenário político paulista.

Pela primeira vez na história, a Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) terá a presença de duas mulheres transgêneros ocupando o cargo de deputada estadual. Erica Malunguinho (PSOL), educadora, mestra em Estética e História da Arte, é fundadora do centro cultural Aparelha Luzia e foi eleita com 55,2 mil votos. Já Erika Hilton, membra da Bancada Ativista (PSOL) e estudante de Gerontologia, ganhou o cargo com quase 150 mil votantes.

Mil placas com nome “Marielle Franco” são distribuídas

Muitos movimentos, organizações e pessoas foram à Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, em 14 de outubro, para homenagear a vereadora assassinada no início do ano, Marielle Franco, e manifestar repúdio aos candidatos políticos que destruíram uma placa de rua com seu nome, que havia sido colocada em cima da chapa oficial do logradouro, a Praça Floriano. Uma campanha criada pelo site de humor Sensacionalista, “Vocês rasgam uma, nós fazemos 100“, tinha o objetivo de fazer 100 placas novas através de uma “vaquinha virtual”. O valor arrecadado, porém, foi muito além da expectativa, fazendo com que os organizadores produzissem 1000 placas e aplicassem o restante do dinheiro em projetos defendidos por Marielle.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

 

Movimento Negro se une para enfrentar o fascismo

Na tentativa de barrar os crescentes discursos neofascistas, diversos eventos organizados pelo Movimento Negro surgiram em grande intensidade pelo Brasil, sobretudo em outubro. A aula pública “No país da escravidão, de que fascismo falamos?”, que aconteceu no dia 18 do mês eleitoral, reuniu cerca de mil pessoas no Teatro Oficina e contou com a presença de Maria José Menezes, Leci Brandão, Erica Malunguinho, Andreia de Jesus e Douglas Belchior.

O evento, que foi organizado pela UNEAFRO, o Aparelha Luzia e Núcleo de Consciência Negra (USP), traçou estratégias para lutar contra o avanço na corrida eleitoral de Jair Bolsonaro (PSL) e também táticas para mudar intenções de voto do pleito.

Movimentos se juntam para lançar Frente Estadual pelo Desencarceramento em São Paulo

No dia 20 de outubro, diversas organizações, ex-detentos, associações e militantes de Direitos Humanos uniram-se e criaram a Frente Estadual pelo Desencarceramento em São Paulo, a fim de estruturar mecanismos de luta pela reformulação do sistema carcerário paulista, que atualmente está sucateado enfrentando sérios problemas, como falta de saneamento básico, violência, corrupção policial, superlotação de celas e desrespeito aos Direitos Humanos. O grupo defende a proibição de privatização dos presídios, é favorável a legalização das drogas, desmilitarização policial e ampliação da garantia da Lei de Execução Penal.

Os 30 anos da Constituição e o livro de Natália Neris

Diante dos 30 anos da Constituição Federal, celebrados neste ano, a pesquisadora negra Natália Neris lançou seu livro “A voz e a palavra do Movimento Negro na Constituinte de 1988”, em 29 de outubro.

Universidade dos EUA cria Bolsa de Estudos Marielle Franco

Novembro começou com uma ótima notícia: o Programa de Estudos Latino-Americanos (LASP) da Escola de Estudos Internacionais Avançados (SAIS), da Universidade Johns Hopkins, em Washington, anunciou a criação de um fundo de bolsas de estudo que levará o nome de Marielle Franco. O intuito é apoiar estudantes de mestrado que sejam comprometidos com o avanço da justiça social e dos Direitos Humanos. Para saber mais informações basta entrar no site oficial do programa.

Lançamento do livro de Marielle Franco

Os familiares de Marielle Franco lançaram o livro de sua dissertação de mestrado, “UPP – Redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro”, no dia 07 de novembro, concretizando uma das grandes vontades que a vereadora possuía em vida.

Monica Benicio, viúva de Marielle Franco, segura livro da vereadora. | Foto: Paloma Vasconselos/Ponte Jornalismo

Marcha da Consciência Negra

Como todos os anos, o 20 de novembro foi um dia no país recheado de eventos sobre pautas raciais e grupos ativistas saíram às ruas para protestar contra o racismo. Após um acalorado período de eleições, negras e negros organizaram a Marcha da Consciência Negra como forma de resistência e luta antifascista.

Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Comitê de fiscalização de cotas é criado na USP

No dia 22 de novembro, estudantes da Universidade de São Paulo (USP) ciaram um comitê de análise das vagas para cotistas na instituição, com a intenção de evitar e denunciar fraudes no sistema de cotas ali utilizado.

Spike Lee lança novo filme e é aclamado pela críticaI

Spike Lee, um dos diretores de cinema contemporâneo mais importantes, lançou seu novo longa-metragem no dia 22 de novembro e é uma das apostas para o Oscar 2019. O “Infiltrado no Klan” conta a história do primeiro detetive dentro do departamento de polícia na cidade de Colorado Spring, que através de uma missão infiltra-se na reunião de uma organização da Ku Klux Klan (KKK).

https://www.youtube.com/watch?v=ie339j2Qeog

Selo editorial Sueli Carneiro

Djamila Ribeiro, escritora e filósofa, coordenou a criação do Selo Editorial Sueli Carneiro, em 04 de dezembro, com a intenção de valorizar o campo da intelectualidade acadêmica negra, visando à publicação de obras literárias escritas pelo povo negro, sobretudo as mulheres. Em entrevista ao Geledés, instituto fundado por Sueli, Djamila disse que foi muito influenciada pela escritora e classifica o encontro delas como um divisor de águas em sua vida.

Consulta Regional das Américas e os Direitos Humanos

No dia 08 de dezembro foi realizada a  Consulta Regional em mecanismos americanos de combate a discriminações, evento organizado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (EACDH). A principal função foi discutir maneiras de combater o racismo, a xenofobia e outros tipos de intolerância no continente americano.

 

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Mulheres Negras

Seminário #30diaspormarielle reúne centenas de pessoas para discutir intervenção militar e genocídio negro

O auditório Marielle Franco foi inaugurado especialmente para o seminário (Foto: Filipe Peres)

Por Ana Carolina Pinheiro

Com mais de 300 pessoas na plateia, o recém-criado auditório Marielle Franco do Parque da Água Branca, em São Paulo, recebeu o seminário #30diaspormarielle, organizado por movimentos negros, coletivos mistos e militantes independentes. O evento ocorreu dentro da III Feira da Reforma Agraria e contou com a parceria do Movimento Sem Terra (MST).

Para compor as mesas de debate, representantes de grupos importantes para as questões raciais e sociais foram convidados. João Paulo Rodrigues, da direção nacional do MST, Katiara Oliveira, do Kilombagem, Cida Bento, do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), Luciana Araújo, da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, estavam nesse time.

A advogada Marinete da Silva, mãe de Marielle Franco, e a ex-chefe de gabinete da vereadora, Renata Souza, que concorrerá ao cargo de deputada estadual pelo PSOL, também compareceram ao evento e falaram aos convidados sobre o legado da filha da Maré. Renata valorizou a participação de mulheres negras na organização do evento. “Isso criou uma empatia que humanizou e trouxe uma legitimidade ímpar para cada pessoa pensada para compor cada mesa de discussão. Muita potência reunida apostando em alternativas de políticas públicas pesadas a partir da base”.

Marinete Silva, mãe de Marielle Franco, falou ao público sobre a história de luta da filha (Foto: Filipe Peres)

Em relação ao genocídio negro, uma das organizadoras da iniciativa, Zezé Menezes, do Núcleo de Consciência Negra da USP, explica que a reivindicação da política da letalidade do estado não é algo recente: “Infelizmente não conseguimos impedir que isso continuasse acontecendo e hoje vemos nossos jovens sem esperanças. Por isso, é fundamental que as entidades negras e nossos aliados busquem medidas efetivas, que garantam a vida plena de nossos jovens”.

A soma das forças dos movimentos coletivos e individuais serve como combustível para a luta. De acordo com uma das representantes da Marcha das Mulheres Negras, Juliana Gonçalves, a campanha tem três eixos principais. “O seminário foi muito positivo, e a gente não vai parar. Nós nos dividimos em grupos de trabalho e escolhemos os seguintes temas: pedir justiça por Marielle, pautar a intervenção militar no RJ e em outros estados e lutar contra o genocídio da população negra”.

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Debate Genocídio Negro Mulheres Negras

III Feira Nacional da Reforma Agrária recebe seminário “30 Dias por Marielle“

Contra a intervenção militar e pelo fim do Genocídio Negro, o seminário “30 Dias por Marielle“ nasce do protagonismo do Movimento Negro e da união de entidades mistas e independentes, que entendem a execução de Marielle como um desdobramento do crescimento de setores da direita.

A execução de Marielle é um exemplo da política genocida do Brasil que mata e encarcera pessoas por serem negros e pobres. Como aconteceu com Amarildo, Cláudia Ferreira, Luana Barbosa, que foram assassinados, e Rafael Braga, que foi preso.

Questões como segurança pública, intervenção militar, feminicídio, violência policial são alguns dos temas que devem ser abordados pelos convidados no seminário. Para os interessados, o evento gratuito acontece neste sábado, 5/5, das 9h às 17h, no auditório do Parque da Água Branca, em São Paulo.

 

Confira, abaixo, a programação do seminário “30 Dias por Marielle”

 9h – Credenciamento e café;

 

10h – Mística de abertura;

 

10h30 – Mesa 1 “O Brasil hoje: análise do cenário político, econômico, social e as relações raciais”;

Conjuntura: João Paulo Rodrigues (MST)

Políticas públicas: Cida Bento (CEERT)

Intervenção militar: Katiara Oliveira (Kilombagem/Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio)

 

12h – Almoço;

 

13h – Mesa 2 “Novas e velhas facetas da violência de Estado: Intervenção militar e o genocídio negro”

Intervenção militar no RJ: Rafaela Albergaria (ISER)

Violência policial: Bia Sankofa (Coletivo de Esquerda Força Ativa)

Violência de gênero e feminicídio: Luciana Araújo (Marcha das Mulheres Negras/SP)

Justiça e genocídio/encarceramento em massa: Railda Alves (Associação AMPARAR)

 

15h – Pensando o Brasil que nós queremos.

Grupos de trabalho:

  1. Intervenção militar no RJ
  2. Violência policial
  3. Violência de gênero e feminicídio
  4. Justiça e genocídio/encarceramento em massa
  5. Violência e genocídio da população LGBTI

 

16h – Como construir este Brasil? – Socialização dos Grupos de Trabalho

 

17h – Lari Salu e Mina Buts (rap)