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Motown 60 anos de música

Por Edson Cadette, do Blog Lado B NY

O final dos anos 1950 nos Estados Unidos ficou marcado por dois importantes acontecimentos culturais. O primeiro deles foi o lançamento da boneca Barbie pela fábrica de brinquedos Matel. O segundo, e certamente com muito mais relevância, foi a inauguração da gravadora Motown criada por Berry Gordy, um jovem adulto de apenas 32 anos de idade e neto de escravos. A gravadora foi aberta na cidade de Detroit, famosa pelas montadoras de automóveis. Na época, a cidade produzia metade dos automóveis do planeta.

Detroit possuía a 4ª maior população de afro-americanos no país, a grande migração, iniciada nos anos de 1940 “fugindo” das amarras racistas dos estados Confederados do Sul, ainda estava em pleno curso. Detroit era uma das paradas obrigatórias além de Chicago, Nova York, Los Angeles e Nova Jersey.

Todos os artistas contratados por Berry Gordy eram afro-americanos filhos de meeiros, metalúrgicos, empregadas domésticas e diáconos religiosos. As chances de um afro-americano escapar do salário mínimo ou de trabalhar numa fábrica eram baixíssimas. Entre os artistas que primeiro colocaram o nome da gravadora no mundo musical estavam Smokey Robinson, Diana Ross, Steve Wonder, Marvin Gaye, the Miracles e Martha and the Vandelas.

The Jackson Five

Assim que os primeiros sucessos invadiram as rádios e as casas nos bairros negros, a gravadora foi “invadida” por jovens que buscavam uma oportunidade no mundo musical. A vontade de “estourar” era tanta que eles não se importavam em fazer qualquer tipo de trabalho.  O cantor mais importante do famoso grupo The Temptations, David Ruffin, ajudou o pai de Berry Gordy a construir o estúdio musical.

A secretária e musa da galera, a bela Martha Reeves, trabalhava no departamento dos artistas e de repertório. A Motown era uma máquina funcionando 24 horas. A grana não era muita, mas Berry Gordy fazia questão de alimentar seus artistas, além de sempre arrumar alguma atividade para fazerem juntos, como por exemplo jogar futebol norte americano. Com isso, ele mantinha na gravadora uma atmosfera mais íntima e sem cerimonias.

Na época o grande desafio da gravadora era furar a enorme barreira racial que mantinha os cantores afroamericanos confinados ao rítmo musical Rhythm and Blues.

Ao inaugurar sua gravadora, o objetivo de Berry Gordy era trazer um som mais agitado e dançante que pudesse ser consumido pela audiência branca com muito mais poder aquisitivo. Para que isto pudesse acontecer ele lançou três selos diferentes: Tamla, Gordye Motown. Com a ajuda do consumidores adolescentes que gastavam milhões comprando os compactos, Berry Gordy descobriu seu filão de consumidores.

Diana Ross

Com uma turnê no lado Leste e Sul dos Estados Unidos, Berry Gordy juntamente com sua entourage acertou em cheio um tiro na lua. A partir desta turnê de enorme sucesso, em apenas 1 ano a gravadora Motown teria como receita o total de $4.5 milhões. Com este dinheiro lançou uma galáxia de compactos que estouraram nas paradas das 100 mais músicas tocadas nas rádios de todo o país.

Entre os anos de 1962 e 1971 a gravadora com suas subsidiárias conseguiu a proeza de colocar 180 números nas paradas de sucessos. Um detalhe importante, setenta por cento dos consumidores eram brancos.

A popularidade de Motown chegou a níveis tão alto que o grupo The Supreme, liderado pela bela Diana Ross, aparecia em comercias por todo país. O mais famoso deles com a marca de refrigerantes Coca-Cola. A dominação da Motown foi tanta que durante seu aniversário de 25 anos, em 1983, um terço dos estadunidenses estavam com suas televisões ligadas vendo o showMotown 25: Yesterday, Today and Forever.

Berry Gordy não é mais o dono da gravadora. A Motown foi vendida em 1988 para a MCA. Hoje ela pertence a Universal Group. Berry transformou a Motown numa verdadeira linha de produção musical como se a gravadora fosse uma montadora. Muita gente credita essa maneira de gerenciar ao período que Gordy trabalhou na linha de produção da montadora Ford.

Berry Gordy e The Supremes

Ele trabalhou com grupos de alto calibre musical como, por exemplo, Gladys Nights & The Pips. Entretanto, o seu pãozinho com manteiga eram os artistas contratados que precisavam ser refinados e polidos. Uma equipe de letristas mantinha a máquina musical bastante azeitada. Muitos dos cantores eram treinados nas igrejas Batistas afro-americanas.

Em turnês pelo país os artistas da Motown descobriram aquilo que seus pais falavam há anos. O racismo nos EUA. Viajando especialmente pelo Sul do país era sempre um desafio encontrar hospedaria respeitável para eles dormirem. Para piorar ainda mais a situação constrangedora, no início dos anos 60, durante a luta pelos direitos civis dos negros, várias vezes a polícia local parava o ônibus dos artistas pensando em tratar-se das famosas caravanas de estudantes do Norte nos chamados Freedom Riders, ônibus com estudantes universitários do Norte que iam ao o Sul para registrar os votos dos negros estadunidenses.

Com a tensão racial envolvendo o país ficou impossível para os artistas ficarem de fora da discussão. Marvin Gaye com a música What’s Going On, Stevie Wonder com Living for the City e Edwin Starr com War entravam solando no debate racial.

Depois de muitas disputas relacionadas com os direitos autorais, Berry Gordy decidiu deixar a cidade de Detroit e mudou seu negócio para Hollywood. Seu sonho sempre foi ser dono de um estúdio de cinema.

Museu da gravadora Motown

Muitos artistas que estavam quando a gravadora foi lançada nos anos 1950 foram embora no início da década de 1970. Com a mudança dos gostos musicais para a música Disco e Funk, a Motown contratou Rick James, Lionel Richie e a banda The Commodores. Entretanto, a enxurrada de artistas deixando a gravadora continuou.

Diana Ross (amante de Berry Gordy), símbolo de glamour, “finesse” e classe, deixou a gravadora em 1981. Assim como qualquer outra dinastia em negócios, a Motown enfrentou tragédias e mortes. Paul Williams do grupoTemptations cometeu suicídio, Florence Ballard morreu de ataque do coração aos 32 anos, Marvin Gaye ficou sem gravar por 4 anos por causa da morte de sua parceira musical Tammi Terrel, que falecera com um tumor no cérebro, e depois foi assassinado pelo próprio pai em 1984. Michael Jackson e David Ruffin, do grupo Temptations, morreram por causa de uma overdose de remédios.

O que começou como uma simples gravadora para dar oportunidades a artistas afro-americanos acabou transformando-se numa legendária gravadora que não somente transformou a cena musical nos Estados Unidos, mas também ao redor do planeta. Durante seus 65 anos de existência a Motown apresentou uma galáxia fantástica de artistas, fazedores de moda, e atitudes sem parâmetro algum na indústria musical do país.

 

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Cultura Literatura

Teatro Apollo aos 85 anos – Estante Literária

Por Edson Cadette, adaptado, do Blog Lado B NY

Numa noite fria de inverno, em janeiro de 1934, o legendário Teatro Apollo, encubador de talentos como James Brown, The Jackson Five, Dionne Warick e incontáveis cantores, dançarinos e comediantes, abriu suas portas no coração do bairro do Harlem, em Nova York. O show de abertura se chamava “Jazz à la Carte”.

Ted Fox adaptou o belo livro “Showtime at the Apollo: The Epic Tale of Harlem’s Legendary Theater” como uma história gráfica, com ilustrações de James Otis Smth. A obra é uma bonita homenagem ao Teatro que está comemorando 85 anos de existência neste ano e tem muitas histórias dentro e fora do seu famoso palco. O Teatro Apollo foi testemunha de vários eventos envolvendo não somente os famosos artistas, mas também o próprio bairro.

O primeiro episódio fora do palco aconteceu exatamente um anos após a inauguração do Apollo. O bairro do Harlem foi palco de um enorme distúrbio urbano envolvendo mais de 3.000 pessoas, devido ao espancamento de um jovem negro por vendedores dentro da loja de departamentos S.H. Kress & Co. De acordo com reportagem da época, do periódico The New York Times, o local foi poupado de qualquer estrago físico.

“Showtime” começa bem antes da inauguração. Na época, um outro clube famoso era o destaque cultural do bairro: o Cotton Club. Com sua lista de grande músicos de Jazz, entre eles Cab Calloway e Duke Ellington, era frequentado pela clientela endinheirada branca, clientes negros eram barrados no porta.

Teatro Apollo no coração do bairro do Harlem/NY

O livro se equilibra entre a dura realidade da população negra do bairro e a magia dos excepcionais artistas no palco. Há de tudo um pouco nesta magnífica história. Há roubos, drogas, brigas, mortes e distúrbios raciais. Porém, o Teatro de uma maneira ou outra sempre saiu ileso.

Outro episódio importante envolvendo a casa aconteceu aos tiros, em 1973, durante a apresentação do cantor Smokey Robinson. Entre os distúrbios, tiros e muitas drogas, os artistas continuavam fazendo apresentações e mostrando não apenas seus talentos, mas também a resiliência da comunidade afro-americana.

Um importante e histórico destaque fica por conta da gravação ao vivo de um álbum do cantor James Brown, que ficou nas paradas de sucesso da época por mais de um ano. Outro destalhe bacana no livro é o concerto do icônico cantor George Clinton, que ao invés de ir ao ginásio de esportes Madison Square Garden, optou em apresentar-se no Teatro Apollo.

Durante seus 85 anos, o teatro enfrentou diversas dificuldades financeiras, por várias vezes esteve até mesmo a ponto de ser demolido. Em 1979 foi fechado por causa de evasão fiscal.

Em 1981 começou sua gloriosa renovação. Dois anos depois, ele foi considerado pela cidade de Nova York como um marco histórico cultural. E durante mais de 20 anos foi palco de inúmeras disputas para saber qual modelo gestor seria melhor utilizado para mantê-lo em funcionamento.

No início dos anos 2000, milhares de fãs se aglomeraram dentro e fora do Apollo para prestarem suas últimas homenagens a dois ídolos. O primeiro deles, James Brown, faleceu em 2006, três anos depois o teatro ficou de luto mais uma vez, devido a morte do rei do pop, Michael Jackson.

“Showtime” termina com o reconhecimento a Francis Thomas, também conhecido como Doll (Boneca) ou Mr. Apollo (Senhor Apollo), que foi um veterano no “show business”, gerente do teatro e um “faz de tudo um pouco” no local. É ele quem puxa a cortina da famosa “Quarta-feira Noite Amadora”, que começou  na inauguração e segue sendo sendo uma das principais atrações do bairro até os dias atuais.

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Arte Cultura Matriz Africana

Rodar a vida é uma escola: Melvin Santhana conta sobre a carreira e trajetória de vida

Foto: Vinicius Souza

Por Marina Souza

Cantor, compositor, multi-instrumentalista, ator e produtor musical. A arte dentro da alma ou vice-versa. Melvin Santhana tem 35 anos e nasceu em Guarulhos rodeado por uma família que desde cedo o influenciou musicalmente por meio do trabalho do pai com discos, da MPB, das cantigas de Umbanda e Candomblé, festas familiares e muitas outras experiências. Com cerca de 20 anos de carreira, ele vem conquistando diferentes espaços, atualmente integra a banda de apoio do show Boogie Naipe, do rapper Mano Brown, e no ano passado lançou seu primeiro disco solo: o Abre Alas.

Com apenas oito anos de idade o artista aprendeu a tocar cavaquinho, aos doze entrou num conservatório para estudar violão erudito e durante a adolescência matriculou-se em instituições e cursos de Música. Stevie Wonder, Michael Jackson, Nina Simone, Milton Nascimento, Almige Neto, Lauryn Hill e outros emblemáticos da música negra serviram de inspiração para o desejo de Melvin em trabalhar na área.

Os Originais do Samba foi a primeira banda em que fez parte, foi quando começou a aprimorar seus talentos de cantar, dançar e compor. Aos poucos, foi participando de outros projetos de intuito e mecanismo diversos no cenário artístico. Carregando os significados, as consequências e circunstâncias de ser negro no Brasil, ele diz que resistiu (e ainda resiste) todos os dias de sua vida, independentemente da profissão que está exercendo.

Foi com sua personalidade corajosa e persistente que Melvin conseguiu entrar para o Boogie Naipe. Ele conta rindo que convidou a si próprio quando seu primo, que é amigo da assessora dos Racionas MC’s, lhe falou que a Eliane Dias estava querendo formar um grupo para um novo projeto musical. Coincidentemente, Santhana estava trabalhando no espetáculo “Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens”, que retrata o legado deixado pelos Racionais, e em uma das apresentações conversou com a filha de Mano Brown, que estava na platéia. Através dela, marcou uma reunião com Eliane, que o propôs uma audição com outros músicos indicados por ele próprio. Eles fizeram, passaram e hoje compõem a banda.

Talvez só precise de um incentivo, um espaço para mostrar esse trabalho, uma comunidade que abrace isso e entender que é capaz de produzir.”, diz ele.

Foto: Noelia Najera

Para Santhana é essencial que o povo negro brasileiro faça uma reflexão sobre suas maneiras de consumo, produção e correlação entre si, pois isso interfere diretamente nas perspectivas culturais, históricas e políticas dos cidadãos. A visão eurocêntrica, segundo o músico, ainda é uma das principais responsáveis pelo racismo no país. É por esta razão, que ele sempre optou pluralizar os gêneros musicais usados nas suas obras e afirma: “a diversidade é minha matriz e é onde faço acontecer”.

Quando questionei sobre as dificuldades de ser um artista negro o cantor enfatizou que no Brasil, infelizmente, o mercado da área musical ainda está o pouco aberto para a cultura negra. Ele justifica falando que, apesar da Iza, Gloria Groove, Linn da Quebrada e outras/os artistas negras/os que têm ganhado destaque ultimamente, há falta de uma estrutura e um circuito cultural que fomentem isso.

Recentemente, lançou a música “VIVA!” e diz que em 2019 pretende trabalhar com novos singles, além de videoclipes e – talvez – um EP. Melvin também está atuando como ator tanto em Tetaro, quanto em Cinema, e revela que está inserido no projeto “Sem Asas”, de Renata Martins.