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Bitonga Travel: a mulher negra ganhando espaço no meio turístico

Por Lau Francisco

No filme “Estrelas além do Tempo”, quatro mulheres negras desafiam o apartheid ao provar sua competência profissional na realização que levou o homem à lua, lutando contra o preconceito arraigado na hierarquia da NASA. Sem medo de errar, podemos fazer um paralelo desta conquista com a luta das mulheres do Bitonga Travel. Elas reconstroem estereótipos na junção de suas experiências pessoais viajando sozinhas pelo mundo, com objetivo de compartilhar vivências pessoais, impactar e proporcionar mudanças no setor do turismo. O lançamento do projeto acontece dia 09 de janeiro, às 20h, no Aparelha Luzia, em São Paulo.

Foto: Renato Cândido e Luiza Alves – Divulgação

Idealizado pela viajante Rebecca Aletheia, o projeto tem o objetivo de incentivar mulheres negras a conhecer não só o vasto mundo como também suas próprias cidades, empoderando-as, desta forma, a engrandecer sua visibilidade e autoestima. Em dezembro de 2018, na praia da Guaiuba, Guarujá, litoral sul de São Paulo, ocorreu o primeiro encontro das mulheres deste projeto. Quatorze viajantes de diferentes lugares transformaram a viagem à praia no seu grande escritório, pautando questões de negritude feminina no espaço turístico. Bitonga é uma língua bantu, de tronco nígero-congolês, falada mais especificamente na região do Inhambane, no Moçambique. Acentuada e belíssima traz consigo traços fonológicos semelhantes aos sons do português brasileiro.

Uma questão comum entre todas as participantes foi o fato de que as mulheres negras não se sentem representadas pelo turismo, sendo muitas delas por vezes excluídas e desconsideradas no meio turístico hoteleiras.

“Reunir mulheres negras viajantes da América Latina e do Caribe têm muito significado para outras mulheres. Muitas vezes elas se vêem sozinhas no espaço de viagem. Isso acontece porque é difícil encontrar mulheres negras viajando por conta da própria economia. Uma mulher negra recebe menos que uma mulher ou homem branco, elas estão nas periferias, não têm acesso ao centro da cidade, cuidam das casas, dos filhos, da família, da mãe, pagam aluguel, ou seja, são vários os fatores que impedem”, explica Rebecca Aletheia, que já viajou por diversos países, como Argentina, Peru, Bolívia, Venezuela, Moçambique, Àfrica do Sul, Uzbequistão, Turquia, Portugal, França, Espanha, entre outros.

A condição da mulher negra citada por Rebecca justifica-se em números. Em março de 2018, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que se para as mulheres brancas a queda na ocupação de postos de gerência foi de 1,2 ponto percentual entre 2012 e 2016 — passando de 39,7% para 38,5% dos cargos —, para as negras foi de 4,7 pontos no mesmo período — caindo de 39,2% para 34,5%. As mulheres negras também têm salários menores, tanto em relação a pessoas brancas quanto a homens negros. Segundo estudos, as mulheres que conseguem delegar mais as tarefas domésticas são as de classes sociais mais altas, em sua maioria brancas. Portanto, uma mulher negra viajar pelo globo terrestre, sozinha, é uma forma de estreitamento das fronteiras e também de ascensão social.

Entretanto o projeto lembra que viajar não é somente se deslocar para o exterior, fazer um plano de viagem, hospedar-se num hotel de prestígio. Viajar vai muito além disso. Viajar é sair da própria região e ir para o centro da cidade, viajar é visitar nossa tia na cidade vizinha, ou quando visita-se o bairro em que cresceu. Segundo Rebecca, outros encontros acontecerão e as experiências e vivências dessas mulheres poderão ser conferidas pelas redes sociais. O projeto vai unificar essas vivências e reforçar o conceito de mulher negra circulante que quer ocupar os lugares que lhe foram negligenciados.

Serviço

Lançamento Projeto Bitonga Travel – Dia 09 de janeiro, às 20h, no Aparelha Luzia

(Rua Apa, 78, Santa Cecília – São Paulo)

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Cultura O quê que tá pegando?

Da Zona Leste de SP a Moçambique: conheça o poeta Cleyton Mendes

Durante a juventude no extremo leste de São Paulo, Cleyton Mendes escutava partido alto, Cartola, Racionais, entre outros cantores e ritmos originários da periferia. Na época, aquelas melodias eram tão próximas à sua realidade que era impossível identificá-las como poesia. A descoberta só veio alguns anos depois, quando o jovem começou a frequentar o Sarau do Suburbano Convicto, no Bixiga, em São Paulo.

Com isso, a mente de Cleyton que já armazenava um acervo literário e de cultura periférica teve um incentivo maior para traduzir todo aquele conteúdo em palavras. As primeiras anotações, até então despretensiosas, ganharam uma roupagem mais estruturada com métricas e rimas.

Relatos de uma insônia, Contra indicação e Etcetera são os três livros já publicados pelo autor. Dar forma a essas obras não foi uma tarefa fácil, Cleyton precisou juntar seu salário de carteiro e reunir amigos para concretizar o sonho de levar suas poesias para um número maior de leitores.

O trabalho de Cleyton segue em expansão. Em setembro, o artista passará uma temporada em Moçambique, na África, em que realizará uma série de atividades culturais com artistas locais.

 

Confira, abaixo, a entrevista com o poeta, slammer e ativista cultural Cleyton Mendes:

 

Como que surgiu a sua relação com a poesia?

Ela sempre existiu porque eu cresci escutando partido alto, Cartola e Racionais, só que eu não sabia que isso era poesia. Depois que comecei a frequentar os saraus, que fui percebi e ter noção do que era poesia e que eu já fazia isso.

 

Os saraus entraram na sua rotina em qual ocasião?

Para mim, poesia era algo distante, daqueles escritores que a gente só ouvia na escola. Mas isso mudou quando um amigo do trabalho me convidou para ir ao Sarau dos Suburbanos. Lá, percebi que todo mundo falava as mesmas coisas que eu e dialogava com a minha realidade, além disso, descobri que também fazia poesia. Eu não sabia que as minhas confissões poderiam ser consideradas poesias.

 

Quais eram os assuntos e como você organizava essas primeiras anotações?

Era como se fosse um diário. Cada pessoa tem uma forma de se libertar, algumas vão para a igreja e outras para o boteco. E eu escrevia sobre o que sentia, só que com a influência do rap e do samba inconscientemente eu fazia rimas, mas deixava guardado.

 

Como foi a experiência de levar seu trabalho para os jovens da Fundação Casa?

Eu sempre fugi da escola e de repente minhas poesias começaram a ser trabalhada dentro de salas de aula, por isso eu tive contato com alguns professores e coletivos. A partir desse momento, recebi um convite do “Portas Abertas” para levar meu trabalho à Fundação Casa. Ao mesmo tempo em que é motivador fazer um trabalho como esse, é muito assustador também. Existe uma semelhança bem nítida entre a escola pública e a Fundação Casa que vai desde as trancas e grades até o tratamento negligente com quem está lá.

“A diferença entre eu e um menor é muito pouca”, diz Cleyton em relação aos jovens da Fundação Casa.

 

Como foi o processo de publicação dos seus livros?

Para concluir o meu primeiro livro “Relatos de uma insônia”, fui guardando meu salário como carteiro e consegui publicar por uma editora, só que ela não tinha contato com a literatura marginal. Já os livretos “Contra Indicação” e “Etcetera” foram feitos de um jeito independente, com a ajuda de amigos e parceiros. Inclusive, a proposta de ser um livreto com poemas curtos é uma maneira de atrair pessoas que não estão acostumadas a ler.

Dia 11 de setembro, você chega a Moçambique. Como surgiu essa oportunidade?

O autor Féling Capela veio para o Brasil e ficou apaixonado pelo trabalho dos escritores de poesia marginal aqui do Brasil. Ele nos convidou para ir a Moçambique, mas algumas pessoas não conseguiram dar continuidade ao projeto por conta da falta de apoio e questões financeiras. Nesse período, eu vendi meus livros em feiras literárias, como a FLIP, além de transporte público. Entre as atividades confirmadas que vou realizar em Moçambique estão dois encontro nos dias 13/9, no Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA), e 14/9, na Embaixada da Alemanha.