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Conheça a artista Andréa Tolaini, onde a simbologia feminina ganha novas cores

Arte: Andréa Tolaini

Por Marina Souza

Foi em 2009 que a vida de Andréa Tolaini mudou completamente. Com a morte da mãe, a então publicitária adquiriu o que chama de “crise profissional”. Não vendo mais sentido no trabalho, ela sentia que sua criatividade não era compartilhada e estava a serviço de algo que desconhecia. Três anos depois, essa angústia havia ganhado proporções maiores e Tolaini finalmente tomara uma decisão: largar a publicidade e viver da arte.

O ano de 2012, por sua vez, representou mudanças intelectuais e também locativas. A feminista mudou-se para Londres para estudar pintura, desenho e Ilustração, na University of Arts of London, e um ano depois, voltou ao Brasil para cursar artes plásticas da Escola Panamericana de Artes. A criação de seu primeiro ateliê, no bairro do Butantã, São Paulo, enfatizou as crescentes mudanças.

“Eu já tinha mão pras artes visuais, pintava muito com a minha mãe. Mas não via isso como profissão porque minha mãe sempre pintou no campo privado, no público era professora”, relatou a paulistana de 34 anos. O berço materno lhe trazia uma forte simbologia feminina, que ficou ainda mais evidente após o episódio da morte. A artista começou a pensar muito no que era e significava ser mulher porque, segundo ela, seu pilar feminino estava se desabando aos poucos.

Então, ela decidiu unir as reflexões, que a essa altura já se tornavam incômodas, às suas produções artísticas. Coincidentemente, o movimento feminista ganhava, novamente, grande força no Brasil e as pautas femininas estavam entrando em todos os espaços. A partir disso, Andréa começou a esboçar em suas artes temas como liberdade sexual, emotiva, afetiva, masculinidade tóxica, América Latina e experiências diárias.

“Eu acho que esses rastros emocionais que existem por trás dos movimentos sociais são muito grandes. As minhas vivências pessoais de maternidade, familiaridade e feminilidade me desencadearam a desenhar, escrever e falar”, teceu.

Recentemente, Andréa lançou “SEIVA”, um livro que reúne algumas de suas ilustrações e escritos, na intenção de compartilhar seu trabalho e gerar reflexões no público, que é majoritariamente feminino, e afirmou que não dá respostas, apenas faz questionamentos usando a si própria como um mapa de aprendizados.

Tolaini confessou que todas as vezes que vê alguém se identificando com suas obras sente uma ponte de emoções ser criada e atinge seu grande objetivo enquanto mulher, artista e ser humano. Contudo, também disse que não possui estratégias para atingir as pessoas, apenas pessoaliza e cria laços daquilo que está em paralelo às suas vivências pessoais. O fato é que mesmo sem tais táticas, ela frequentemente recebe mensagens de carinho agradecendo-a pelos trabalhos.

Na opinião da artista, as pessoas estão carentes dessa ligação de acolhimento, na qual é possível sentir-se conectado ao outro emocionalmente e saber que não está sozinho. Também interpretou essa vontade de romper com os limites impostos como algo genuíno e importante para legitimar as existências individuais. É por isso que acredita que seu trabalho legitima as emoções alheias, sobretudo as das mulheres.

Seu projeto “Marias” foi criado com um pretexto de fazer exposições coletivas itinerantes de mulheres latino-americanas. A escritora sempre gostou muito de viajar pelo território da América Latina e sempre notou que a herança colonial é muito presente e difícil, “a gente vai precisar lutar duramente para incluir as mulheres periféricas, negras, indígenas”, refletiu ela, que pretende continuar criando esse círculo de união entre as artistas. “Marias” já circulou por Portugal, Espanha, São Paulo e tudo indica que terá novas realizações ao longo desse ano.

Embora, a desenhista esteja realizada com o caminho que está trilhando dentro e fora das artes, também enfrenta dificuldades. “Nesse mundo capitalista tudo que não serve diretamente ao sistema é subjugado. E a arte está nesse lugar, como se não tivesse função”, desabafou com tristeza. Ela apelidou como “abismo emocional” o sentimento de desanimação causado pela desvalorização das artes e acredita que no atual cenário político do país o circo está fechando para estes trabalhadores que não servem a lógica do sistema.

Devido a essas barreiras, durante muito tempo ela não teve uma boa autoestima, sentia-se a margem da sociedade. Ao contrário de muitos artistas, Andréa não tem interesse em ingressar em grandes galerias ou vender suas obras por preços caros, quer apenas que seu trabalho a sustente e circule. Ela classificou como angustiante e solitário o ato de remar contra a corrente e saber que isso é, muitas vezes, algo inglório. É por isso até entende quem escolhe o outro caminho, mas sabe que não quer servir ao capital.

Segundo a ilustradora, expor as angústias e os êxtases é uma maneira de fortalecer a si própria e aos outros. É assim que ela acredita na possibilidade de mudanças, rompimentos e crescimentos pessoais. Voltando de uma reunião na sede da Mídia Ninja, em Salvador, com a presença do ativista do Pablo Capilé, Andréa Tolaini disse “esse momento social está negando a arte, colocando a gente como vagabundo. Eu não vou abrir mão disso, não vou desistir. É uma resistência que precisamos fazer, tendo consciência do que está acontecendo para não ceder, seguir trabalhando com o que acredita, transformando a sociedade da maneira que consegue. Não arregar o pé.”.