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Movimento Negro

Seminário reúne juristas para debater violência de Estado em SP

A Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio encabeça neste sábado, 11, o seminário ‘O Direito no Enfrentamento à Violência de Estado – Construindo Redes de Proteção e Resistência nos Territórios’, evento que aglutina dezenas de profissionais do direito para interlocução e troca de estratégias jurídicas diante das práticas de assassínio cometidas pelo Estado brasileiro contra as populações negras e pobres das periferias.

O seminário conta com um painel de abertura e 3 mesas de debate, com os temas: as violências do Estado; os agentes do Estado no enfrentamento da violência institucional; os movimentos sociais e as ONGs no enfrentamento da violência do Estado; as interfaces do enredamento do Estado e sociedade civil.

Durante o painel, entra em palestra o reconhecimento público ao movimento Mães de Maio e os 13 anos dos crimes de maio de 2016, em que cerca de 550 pessoas foram assassinadas em pouco mais de um mês, vítimas de ações de extermínio deliberada praticada pelas forças policiais do Estado de São Paulo.

Divulgação

A primeira mesa traz a experiência e vivência de agentes públicos no enfrentamento destas problemáticas, a importância dessa atuação e estratégias traçadas para denunciá-las e combatê-las, nas mais diversas áreas, do executivo ao ministério público e delegacias.

O debate seguinte coloca em pauta o papel das ONGs e movimentos sociais, e como advogados podem trabalhar nesse cenário, em uma ampla gama de pessoas, como mães vítimas da violência de Estado, mulheres, crianças e adolescentes, LGBTs, moradia, direitos humanos, justiça criminal e movimento negro.

A última atividade do dia fala sobre as relações entre Estado e sociedade civil na perspectiva de funcionários públicos, ativistas, juristas, advogados e sindicalistas, a fim de desenhar um panorama de fórmulas e vivências. Durante o encerramento, ainda haverá a entrega de certificado para os participantes.

A Rede de Proteção ao Genocídio

Mentora deste seminário, a experiência em rede da organização é destaque e referência no enfrentamento à violência sistemática do Estado que os dados e as vivências nas periferias apontam. O número assustador de 80 mil homicídios por ano, com forte crescimento da letalidade policial e vítima principal jovens negros de origem periférica, é resultado de uma estrutura que só pode ser revertida a partir dos novos meios de conexão, descentralizado e em rede.

Neste sentido, este encontro é um catalisador, pois conecta e insere uma série de profissionais de diversos campos do conhecimento e setores da sociedade, a fim de tornar-se mais eficiente e ágil na defesa e garantia de direitos das populações em vulnerabilidade social, decorrente da atuação ou omissão do poder público em seus territórios.

Serviço

Local: Salão Nobre da Faculdade de Direito da USP, Largo São Francisco n. 95
São Paulo-SP
Data: 11/05/208
Horário: 8h30 – 18h
Inscrição: Gratuita pelo link 

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Política

Valores viris na política: esboço crítico sobre relações raciais e gênero masculino

Por Henrique Restier

“Eu sou o maior inimigo do impossível” (Bluesman) Baco Exu do Blues

João Cândido “O Almirante Negro” (1880–1969)

Os homens e as masculinidades têm sido um campo de estudos com um crescimento e interesse vertiginosos nos últimos anos. Os homens se tornaram seres “generificados” e, portanto, sujeitos de diferentes análises, vindas dos mais diversos movimentos sociais e arcabouços teóricos. Quanto aos temas, a antropóloga e feminista negra colombiana, Mara Viveiros Vigoya (2018, p. 67) nos traz um quadro bastante interessante. Em sua pesquisa, a autora aponta sete eixos principais, são eles: identidades masculinas (30%), masculinidades e violências (18%), problemas, dilemas e tensões em torno da saúde dos homens (16%), afetos, sexualidades e reflexões epistemológicas, ambos com 14%, representações e produções culturais das masculinidades (6%) e, por último, espaços de homossociabilidade masculina (2%). O perfil de gênero dos pesquisadores é bastante equitativo, homens e mulheres correspondem respectivamente a 41% e 40%. Ademais, o Brasil aparece em primeiro lugar em volume de produção de conhecimento sobre homens e masculinidades na América Latina, seguido por México, Colômbia, Chile e Argentina.

Recentemente, saíram alguns textos no espaço público debatendo masculinidade e política, referindo-se mais precisamente ao avanço de chefes de Estado em diversas nações (inclusive a nossa), tidos como truculentos, autoritários, com um forte discurso bélico e “anti-minorias”. À grosso modo, os argumentos centrais da maioria desses textos exploram a relação entre essa aparente “masculinidade tóxica” (tanto dos políticos como do eleitorado), sua legitimidade e ascensão no cenário político, tendo prováveis desdobramentos nocivos ao conjunto da sociedade.

Olhando para esses cenários podemos perceber que as reflexões sobre homens e masculinidades podem ser uma “entrada” desafiadora e produtiva para a análise política. Assim, minha intenção nesse texto é trazer algumas considerações introdutórias sobre as possíveis associações entre relações raciais, gênero masculino, virilidade e política.

Virilidade e Branquitude

O advento dos estudos da branquitude, que pode ser definida como um lugar de vantagem estrutural, um ponto de vista e “um conjunto de práticas culturais, que geralmente não são marcadas nem denominadas” (FRANKENBERG, 2004, p. 81), tem contribuído muito para o campo das relações raciais, possibilitando que negros e brancos, principalmente os últimos, sejam lançados para dentro das interações sociais como indivíduos e grupos “racializados”. Em outras palavras, que as pessoas consideradas socialmente brancas, sejam uma variável de análise relevante para os trabalhos e investigações sobre relações étnico-raciais. Essa perspectiva atravessada por outros marcadores sociais potencializa a compreensão sobre o racismo e outros fenômenos sociais.

Simultaneamente, temos a construção das masculinidades, pois não basta a base biológica para que um homem seja considerado “realmente um homem”, a princípio ele o é potencialmente. É necessário todo um processo de socialização e aprendizagem, onde valores, normas e sistemas de representação são acionados para que nos tornemos “efetivamente homens”.

Um dos elementos fundamentais que fazem parte dessa construção é a virilidade, que remete aos órgãos sexuais masculinos, à atividade, e a penetração. Mas não só isso, a virilidade abrange códigos e fundamentos ideológicos de virtude oriundos da antiguidade clássica greco-romana “… o termo latino vir estabelecerá por longo tempo em inúmeras línguas ocidentais, virilita, “virilidade”, virility: princípios de comportamentos e de ações designando, no Ocidente, as qualidades do homem concluído, dito outramente, o mais perfeito do masculino” (VIGARELLO, 2013, p. 11). Esses princípios podem ser: a coragem, equilíbrio, lealdade, responsabilidade, vigor, controle (sobre si e o outro), espírito de competição, dominância, força, etc. Ademais, é preciso salientar que “… violência e virilidade não são sinônimas: é possível ser violento sem ser viril, e vice-versa” (FARGE, 2013, p. 511)

Tanto a masculinidade quanto a virilidade se entrelaçam e se alteram no tempo e no espaço, com certas particularidades para homens negros e brancos. Isso sem me estender na questão de que tanto a masculinidade quanto a virilidade podem ser construídas em corpos femininos, existindo, portanto, “mulheres viris”, contanto que cumpram determinados códigos masculinos, assim como os homens têm de fazer.

Em todo caso, a política se configura como um palco privilegiado para exibir a imagem e conduta viris, principalmente para os homens brancos provenientes das classes médias e abastadas, que são em sua maioria aqueles que disputam as eleições e são eleitos. Assim, como Mara Vigoya (2018, p.144) entendo que a branquitude e a masculinidade seriam “fontes de legitimidade política e popularidade”.

O político viril

Há séculos o espaço da política tem sido exercido por uma “elite masculina”. Nos berços civilizatórios do Ocidente, Grécia e Roma, a política era basicamente uma atividade de poucos homens privilegiados, o que continua sendo. No Brasil de 2018, a recente eleição trouxe à tona um perfil de homem público que encontra seu capital político na “exaltação da virilidade”, tanto em seu sentido moral, quanto físico. Houve um aumento substancial nessa eleição de homens ligados as áreas de segurança, justiça e empresarial, como policiais, militares, juízes e homens de negócios. Isso sinaliza, dentre outras coisas, que o Brasil deseja que o lema positivista, “Ordem e Progresso”, em sua bandeira, seja colocado em prática. Se realmente será esse o tipo de homem público que trará um “Brasil Varonil”, e se isso, de fato, será bom para o país, é outra discussão.

Congresso brasileiro

Em nosso imaginário, de ranço colonial e escravocrata, tal missão caberia ao homem branco, é verdade que se Joaquim Barbosa tivesse concretizado sua candidatura poderíamos ver in loco, como essa disputa se daria. De todo modo, esse papel coube à Jair Messias Bolsonaro, o “Messias viril”. O presidente eleito em 2018 soube manusear com maestria toda uma gramática da virilidade na disputa presidencial, se colocando como aquele que salvará a pátria dos perigos que a assombram, que, em seus termos, seriam: o comunismo, a ideologia de gênero, a violência e a corrupção, sobretudo aquela praticada pelo Estado. E aciona para isso, seus supostos atributos morais: o caráter e patriotismo viris, a defesa da família, a reverência à Deus e a rigidez no combate ao crime.

Além disso, seu passado nas forças armadas, no contexto atual de altíssimos índices de violência, virou um ativo político. Em certos momentos históricos críticos, essa imagem de um homem íntegro, dotado de virtudes militares e religiosas tende a trazer uma sensação de segurança e esperança para a população. O arquétipo viril do combatente em defesa da pátria se projetou na figura de Bolsonaro.

O homem negro e o poder político

Não são todos os homens que dispõem dos mesmos poderes e privilégios, há uma hierarquia interna ao grupo masculino. O colonialismo e a escravidão negra são momentos e processos cruciais para entendermos a lógica que atravessa as relações entre homens negros e brancos na política. A pergunta é: como os homens negros adentram a política eleitoral? Usualmente subordinados e indicados pelos homens brancos, seja de partidos de esquerda ou direita. Infelizmente ainda não há partidos criados e dirigidos por mulheres e homens negros, existem algumas iniciativas nesse sentido e torço para que deem certo. De qualquer maneira, o exercício da virilidade na política implica no poder de mando e na autoridade, algo que historicamente têm estado nas mãos dos homens brancos, e em menor grau, e mais recentemente, na de mulheres brancas, demonstrando a proeminência do vetor racial sobre o de gênero na política brasileira.

Um problema a ser enfrentado por nós é que os estereótipos racistas enquadram o homem negro como um degenerado, então, suas qualidades viris são sistematicamente desqualificadas. Sua força é associada à brutalidade, sua coragem à barbárie, sua sexualidade com devassidão. Ou seja, uma virilidade selvagem e brutal. Em uma palavra: hipervirilizados. Por outro lado, esses mesmos estereótipos nos associam à indivíduos, apáticos, inofensivos e servis, remetendo as famosas figuras dos pais joãos e negros da casa. Isto é: desvirilizados. Ou somos vistos como brutamontes descontrolados, ou serviçais obedientes. Como ser eleito nesses termos? O enfrentamento a esse tipo de estigma racista é primordial para nosso sucesso político.

Alberto Guerreiro Ramos, Abdias do Nascimento e João Conceição na década de 50

Isso não quer dizer que não tenhamos ao longo de nossa história, políticos negros, Nilo Peçanha e Monteiro Lopes, (1909–1910) Abdias do Nascimento (1983–1987/1997–1999), Guerreiro Ramos (1963–1964), Carlos Alberto Caó de Oliveira (1982–1986/1987–1990) são alguns desses grandes nomes. Contudo, habitualmente o espaço de atuação dos homens negros é na micropolítica do cotidiano. Quilombos, revoltas, rebeliões, movimentos sociais e organizações populares no Brasil tem o “DNA do homem negro”. Essa constatação não dispensa a importância de termos no Brasil do século XXI homens negros em cargos políticos de destaque, comprometidos com as reivindicações da população negra.

O que quero apontar é que muitas vezes a “criminalização da virilidade”, no debate de gênero é simplista, e não se sustenta, pois, valores viris são milenares, perpassam todas as sociedades humanas, com nomes e significados plurais podendo ser usados para diferentes propósitos, inclusive para a luta anti-racista. O Brasil está repleto de homens negros viris que emprestaram essa virilidade para essa luta, na política ou não. Zumbi com sua força guerreira, Luiz Gama e sua energia intelectual, Abdias do Nascimento e sua eloquência vigorosa, a inteligência destemida de Guerreiro Ramos, a ginga valente de Madame Satã, Lima Barreto com sua escrita ácida e corajosa, a liderança militar de João Cândido e por aí vai. Homens pretos gerando outros homens pretos. Somos tantos…

“Viva Zapata! Viva Sandino! Viva Zumbi! Antônio Conselheiro! Todos os Panteras Negras, Lampião, sua imagem e semelhança. Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia”. Monólogo ao pé do ouvido. Nação Zumbi

Referências Bibliográficas

FARGE, Arlette. Virilidades populares. In: Georges Vigarello (ed.) História da Virilidade 1: A invenção da virilidade Da Antiguidade às Luzes. pp. 495- 523, 2013.

FRANKENBERG, Ruth. A miragem de uma branquidade não marcada. In: VRON WARE (org.). Branquidade: identidade branca e multiculturalismo. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

VIGARELLO, Georges. Introdução A virilidade, da Antiguidade à Modernidade. In: Georges Vigarello (ed.) História da Virilidade 1: A invenção da virilidade Da Antiguidade às Luzes. pp.11–70, 2013.

VIGOYA, Mara Viveros. As cores da masculinidade: Experiências interseccionais e práticas de poder na Nossa América. Rio de Janeiro, Papéis Selvagens, 2018.

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Cultura

Conheça a artista Andréa Tolaini, onde a simbologia feminina ganha novas cores

Arte: Andréa Tolaini

Por Marina Souza

Foi em 2009 que a vida de Andréa Tolaini mudou completamente. Com a morte da mãe, a então publicitária adquiriu o que chama de “crise profissional”. Não vendo mais sentido no trabalho, ela sentia que sua criatividade não era compartilhada e estava a serviço de algo que desconhecia. Três anos depois, essa angústia havia ganhado proporções maiores e Tolaini finalmente tomara uma decisão: largar a publicidade e viver da arte.

O ano de 2012, por sua vez, representou mudanças intelectuais e também locativas. A feminista mudou-se para Londres para estudar pintura, desenho e Ilustração, na University of Arts of London, e um ano depois, voltou ao Brasil para cursar artes plásticas da Escola Panamericana de Artes. A criação de seu primeiro ateliê, no bairro do Butantã, São Paulo, enfatizou as crescentes mudanças.

“Eu já tinha mão pras artes visuais, pintava muito com a minha mãe. Mas não via isso como profissão porque minha mãe sempre pintou no campo privado, no público era professora”, relatou a paulistana de 34 anos. O berço materno lhe trazia uma forte simbologia feminina, que ficou ainda mais evidente após o episódio da morte. A artista começou a pensar muito no que era e significava ser mulher porque, segundo ela, seu pilar feminino estava se desabando aos poucos.

Então, ela decidiu unir as reflexões, que a essa altura já se tornavam incômodas, às suas produções artísticas. Coincidentemente, o movimento feminista ganhava, novamente, grande força no Brasil e as pautas femininas estavam entrando em todos os espaços. A partir disso, Andréa começou a esboçar em suas artes temas como liberdade sexual, emotiva, afetiva, masculinidade tóxica, América Latina e experiências diárias.

“Eu acho que esses rastros emocionais que existem por trás dos movimentos sociais são muito grandes. As minhas vivências pessoais de maternidade, familiaridade e feminilidade me desencadearam a desenhar, escrever e falar”, teceu.

Recentemente, Andréa lançou “SEIVA”, um livro que reúne algumas de suas ilustrações e escritos, na intenção de compartilhar seu trabalho e gerar reflexões no público, que é majoritariamente feminino, e afirmou que não dá respostas, apenas faz questionamentos usando a si própria como um mapa de aprendizados.

Tolaini confessou que todas as vezes que vê alguém se identificando com suas obras sente uma ponte de emoções ser criada e atinge seu grande objetivo enquanto mulher, artista e ser humano. Contudo, também disse que não possui estratégias para atingir as pessoas, apenas pessoaliza e cria laços daquilo que está em paralelo às suas vivências pessoais. O fato é que mesmo sem tais táticas, ela frequentemente recebe mensagens de carinho agradecendo-a pelos trabalhos.

Na opinião da artista, as pessoas estão carentes dessa ligação de acolhimento, na qual é possível sentir-se conectado ao outro emocionalmente e saber que não está sozinho. Também interpretou essa vontade de romper com os limites impostos como algo genuíno e importante para legitimar as existências individuais. É por isso que acredita que seu trabalho legitima as emoções alheias, sobretudo as das mulheres.

Seu projeto “Marias” foi criado com um pretexto de fazer exposições coletivas itinerantes de mulheres latino-americanas. A escritora sempre gostou muito de viajar pelo território da América Latina e sempre notou que a herança colonial é muito presente e difícil, “a gente vai precisar lutar duramente para incluir as mulheres periféricas, negras, indígenas”, refletiu ela, que pretende continuar criando esse círculo de união entre as artistas. “Marias” já circulou por Portugal, Espanha, São Paulo e tudo indica que terá novas realizações ao longo desse ano.

Embora, a desenhista esteja realizada com o caminho que está trilhando dentro e fora das artes, também enfrenta dificuldades. “Nesse mundo capitalista tudo que não serve diretamente ao sistema é subjugado. E a arte está nesse lugar, como se não tivesse função”, desabafou com tristeza. Ela apelidou como “abismo emocional” o sentimento de desanimação causado pela desvalorização das artes e acredita que no atual cenário político do país o circo está fechando para estes trabalhadores que não servem a lógica do sistema.

Devido a essas barreiras, durante muito tempo ela não teve uma boa autoestima, sentia-se a margem da sociedade. Ao contrário de muitos artistas, Andréa não tem interesse em ingressar em grandes galerias ou vender suas obras por preços caros, quer apenas que seu trabalho a sustente e circule. Ela classificou como angustiante e solitário o ato de remar contra a corrente e saber que isso é, muitas vezes, algo inglório. É por isso até entende quem escolhe o outro caminho, mas sabe que não quer servir ao capital.

Segundo a ilustradora, expor as angústias e os êxtases é uma maneira de fortalecer a si própria e aos outros. É assim que ela acredita na possibilidade de mudanças, rompimentos e crescimentos pessoais. Voltando de uma reunião na sede da Mídia Ninja, em Salvador, com a presença do ativista do Pablo Capilé, Andréa Tolaini disse “esse momento social está negando a arte, colocando a gente como vagabundo. Eu não vou abrir mão disso, não vou desistir. É uma resistência que precisamos fazer, tendo consciência do que está acontecendo para não ceder, seguir trabalhando com o que acredita, transformando a sociedade da maneira que consegue. Não arregar o pé.”.

 

 

 

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Cultura Mulheres Negras

A Ocupação das Minas: evento promoverá uma série de atividades artísticas

Por Marina Souza

No dia 16 de fevereiro, acontecerá uma série de eventos promovidos pela Ocupação das Minas na Casa de Cultura Hip-Hop Diadema que visa instigar a luta contra o machismo, racismo, LGBTIfobia e qualquer outro tipo de opressão. Diante do forte machismo e lesbofobia existentes no cenário do Hip-Hop, a grafiteira Nenesurreal, que recentemente foi vítima de ambas violências, criou uma rede de arrecadamento financeiro virtual para custear o grande evento, que contará com a presença de muitas atividades. É a voz da periferia, das mulheres e das negras chamando a atenção daqueles que apreciam as mais variadas expressões artísticas e de entretenimento.

Programação (em construção coletiva e autônoma)

Mestras de Cerimônia
– Bianca
– Gabi Nyarai
– Mari Maciel

Shows
– Palomaris
– Scheyla Oliver
– Yabba Tutti (Soundsystem)
– Meire D’Origem
– Ericah Azeviche
– Mana Black
– Drika Backspin

Performances
– Sol Bento – Lilá.
– Levante Mulher – Miriam

Alimentação Vegana
– La Fancha

Rodas de conversa 
– Roda Terapêutica das Pretas (Adelinas – Coletivo Autônomo de Mulheres Pretas)
– Saúde Sexual para Mulheres (Ana Clara)

Sarau
– Sarau Alcova
– Sarau Papo de Mina.

Lançamento do Livro AfroLatina
– Poeta Formiga.

Oficinas
– Lambe-Lambe – Lambe Minas.
– AngelStore
– AsMinas
– Teatro Feminista – Talita do Núcleo Zona Autônoma.

Exibição de documentários
– Auto de Resistência (Mães de Maio)
– Mulheres Negras: Projetos de mundo (Day rodrigues)
– Mulheres Periféricas apoiadas por mais de quinhentas mil manas – Coletiva Fala Guerreira.
– Mulheres de Palavra – Web Série com 3 episódios – Ketty Valencio, Fernanda e Renata Allucci.

Feira e Exposições
– Livraria Africanidades
– Eparrei
– Anjo Negro Store
– Bete Nagô
– Clandestinas.

Grafite das Manas com protagonismo das manas negras, indígenas e lésbicas

Espaço Erê: local para as mamães deixarem suas crianças
Coletivo Espelho, Espelho Meu
– Os Quebradinhas
– Pamela Neres
– Bebel

Acompanhe as futuras informações do evento no facebook e valorize a cena das manas periféricas, pretas e lésbicas.

 

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Mulheres Negras

Bitonga Travel: a mulher negra ganhando espaço no meio turístico

Por Lau Francisco

No filme “Estrelas além do Tempo”, quatro mulheres negras desafiam o apartheid ao provar sua competência profissional na realização que levou o homem à lua, lutando contra o preconceito arraigado na hierarquia da NASA. Sem medo de errar, podemos fazer um paralelo desta conquista com a luta das mulheres do Bitonga Travel. Elas reconstroem estereótipos na junção de suas experiências pessoais viajando sozinhas pelo mundo, com objetivo de compartilhar vivências pessoais, impactar e proporcionar mudanças no setor do turismo. O lançamento do projeto acontece dia 09 de janeiro, às 20h, no Aparelha Luzia, em São Paulo.

Foto: Renato Cândido e Luiza Alves – Divulgação

Idealizado pela viajante Rebecca Aletheia, o projeto tem o objetivo de incentivar mulheres negras a conhecer não só o vasto mundo como também suas próprias cidades, empoderando-as, desta forma, a engrandecer sua visibilidade e autoestima. Em dezembro de 2018, na praia da Guaiuba, Guarujá, litoral sul de São Paulo, ocorreu o primeiro encontro das mulheres deste projeto. Quatorze viajantes de diferentes lugares transformaram a viagem à praia no seu grande escritório, pautando questões de negritude feminina no espaço turístico. Bitonga é uma língua bantu, de tronco nígero-congolês, falada mais especificamente na região do Inhambane, no Moçambique. Acentuada e belíssima traz consigo traços fonológicos semelhantes aos sons do português brasileiro.

Uma questão comum entre todas as participantes foi o fato de que as mulheres negras não se sentem representadas pelo turismo, sendo muitas delas por vezes excluídas e desconsideradas no meio turístico hoteleiras.

“Reunir mulheres negras viajantes da América Latina e do Caribe têm muito significado para outras mulheres. Muitas vezes elas se vêem sozinhas no espaço de viagem. Isso acontece porque é difícil encontrar mulheres negras viajando por conta da própria economia. Uma mulher negra recebe menos que uma mulher ou homem branco, elas estão nas periferias, não têm acesso ao centro da cidade, cuidam das casas, dos filhos, da família, da mãe, pagam aluguel, ou seja, são vários os fatores que impedem”, explica Rebecca Aletheia, que já viajou por diversos países, como Argentina, Peru, Bolívia, Venezuela, Moçambique, Àfrica do Sul, Uzbequistão, Turquia, Portugal, França, Espanha, entre outros.

A condição da mulher negra citada por Rebecca justifica-se em números. Em março de 2018, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que se para as mulheres brancas a queda na ocupação de postos de gerência foi de 1,2 ponto percentual entre 2012 e 2016 — passando de 39,7% para 38,5% dos cargos —, para as negras foi de 4,7 pontos no mesmo período — caindo de 39,2% para 34,5%. As mulheres negras também têm salários menores, tanto em relação a pessoas brancas quanto a homens negros. Segundo estudos, as mulheres que conseguem delegar mais as tarefas domésticas são as de classes sociais mais altas, em sua maioria brancas. Portanto, uma mulher negra viajar pelo globo terrestre, sozinha, é uma forma de estreitamento das fronteiras e também de ascensão social.

Entretanto o projeto lembra que viajar não é somente se deslocar para o exterior, fazer um plano de viagem, hospedar-se num hotel de prestígio. Viajar vai muito além disso. Viajar é sair da própria região e ir para o centro da cidade, viajar é visitar nossa tia na cidade vizinha, ou quando visita-se o bairro em que cresceu. Segundo Rebecca, outros encontros acontecerão e as experiências e vivências dessas mulheres poderão ser conferidas pelas redes sociais. O projeto vai unificar essas vivências e reforçar o conceito de mulher negra circulante que quer ocupar os lugares que lhe foram negligenciados.

Serviço

Lançamento Projeto Bitonga Travel – Dia 09 de janeiro, às 20h, no Aparelha Luzia

(Rua Apa, 78, Santa Cecília – São Paulo)