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Educação Popular Movimento Negro

O 6º Encontro de Negros e Negras da UNE debaterá o papel do negro na ciência

Por Marina Souza

Jovens negros graduandos ou pós-graduandos das áreas de Humanas, Biológicas ou Exatas terão a oportunidade de participar do 6º Enune – Encontro de Negros e Negras da UNE nos próximos dias 19, 20 e 21, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói. “Meu quilombo, meu lugar: nas ruas, nas periferias e nas universidades”é o tema desta edição, que busca estudar ciência, promover e incentivar as lutas negras estudantis e expandir o ensino gratuito e de qualidade.

Com mesas de debate, grupos de trabalho, oficinas, palestras, cursos e uma plenária, os alunos debaterão temas diversos que vão de política à ciência. O II Encontro de Jovens Cientistas Negros da Associação Nacional de Pós-graduandos também acontece durante o Enune e promete reflexões sobre o racismo na Academia e papel do negro na ciência. A mostra científica “Epistemicídio e a Circulação do Conhecimento”, por exemplo, funcionará como um espaço para conhecer produções acadêmicas de pessoas negras.

Foto: Evelyn Lee/CUCA UNE

“Um dos principais objetivos da Mostra é a circulação de conhecimento, o fortalecimento dos espaços de pesquisa e a ampliação do diálogo da produção de pesquisadores negros e negras”, diz Dara Santanna, diretora de Combate ao Racismo da União Nacional dos Estudantes (UNE).

As inscrições podem ser feitas pelo site.

 

 

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Escrita da história

Você sabe o que foi a Revolta do Queimado?

Por Marina Souza

Há 170 anos acontecia a Revolta do Queimado, também conhecida como Insurreição do Queimado, em Espirito Santo, considerada por muitos historiadores como uma das principais ações contrárias ao sistema escravocrata do país naquela época. Conheça agora o que foi esse marco histórico.

As ruínas da igreja Freguesia de São José do Queimado / Foto: Reprodução

“Um fato histórico de tamanha importância devia ser tomado como bandeira de orgulho, conteúdo turístico amplamente divulgado, mas a gente é preto”, são as palavras de Priscila Gama, presidenta do Instituto Das Pretas.

Ela acredita que o motivo do pouco estudo e conhecimento sobre a Revolta é diretamente atrelado ao panorama estrutural do racismo na sociedade brasileira, que invisibiliza os povos negros.

A Revolta

Foi em troca da tão desejada alforria que cerca de 300 escravos construíram uma igreja em Freguesia de São José do Queimado, o frei Gregório José Maria de Bene havia prometido que lhes concederia liberdade se a obra construíssem. O que eles não previam é que aconteceria um descumprimento do trato, a autonomia não viria mesmo após todo o esforço doado.

Enfurecidos com a enganação, negros e negras articularam uma rebelião nas fazendas aos redores. O trabalhadores escravizados foram brutalmente reprimidos pela Polícia da Província, que assassinou muitos deles, a prisão de Elisiário, o grande líder do movimento, demarcou o fim da Revolta, que durou cinco dias e deixou feridos nos dois lados do confronto.

A presidente acredita que entender o acontecimento trata-se de uma recuperação de memória, sendo importante para a fundamentação de uma história apagada pelo processo colonial escravocrata.

 

 

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Cinema

Mostra de Cinema Afrobrasileiro estreia hoje na Colômbia

Ary Rosa e Glenda Nicácio, diretores de Café com canela (Foto: Divulgação)

Por Marina Souza

Estreia hoje (01) a primeira Mussambê Mostra de Cinema Afrobrasileiro, uma parceria entre o coletivo Flor de Milho Quilombo de Artes e o Festival Internacional de Cine Comunitário Afro Kunta Kinte. O cinema da Câmara de Comércio em Medellin, na Colômbia, exibirá 15 obras audiovisuais negras brasileiras durante a primeira quinzena de março.

Serão transmitidos documentários e filmes de curta, média e longa metragem. O público colombiano terá a oportunidade de enxergar o Brasil sob uma perspectiva negra e nacional, retirando falsos esteriótipos e difundindo a cultura do país.

Inajara Santos, aos 32 anos, e  Moreira, também conhecida como Mamba Negra, aos 33, são as articuladoras do evento, ambas negras, formadas em Ciências Sociais e apaixonadas por arte. Não é possível afirmar se foi pelo acaso ou destino, mas uma coisa é certa: após se conhecerem, suas vidas ganharam novos sentidos.

Elas conversaram pela primeira vez em 2017, quando eram vizinhas numa comunidade de São Lázaro, em Salvador, foi ali que percebam muitos gostos, desgostos, ideias, inquietudes e vontades em comum. Criaram então o coletivo Flor de Milho Quilombo de Artes, que atualmente, além delas, contém mais dois integrantes: Tito Mariano, de 5 anos, que propõe ideias criativas e a Larica, cadela, que, segundo Inajara e Stéphanie, acompanha as reuniões e traz momentos de pausa e divertimento para o grupo.

O coletivo quilombista tem como marca a realização de intercâmbios, que visam estudos socioculturais, seja nos processos de produção ou de desenvolvimento. Outra coisa que destaca o Flor de Milho é o estudo e a aplicação de teorias afrocentradas.

Em parceria com o grupo colombiano do Festival Internacional de Cine Comunitário Afro Kunta Kinte, as duas artistas definem a realização do evento como um “projeto de pesquisa sobre documentário contemporâneo brasileiro com recortes para o cinema negro subalterno”.

A Mostra buscou também protagonizar produções de mulheres negras e valorizar seus trabalhos, que constantemente são invisibilizados dentro e fora do ambiente artístico.

“Nós somos mulheres negras, se não pensarmos sobre acolhimento e afeto fica muito complicado”, explicou Stéphanie.

Veja a seguir alguns dos filmes que serão exibidos:

Café com Canela

Direção: Ary Rosa e Glenda Nicácio

Filhas do Vento

Direção: Joelzito Araújo

Rainha

Direção: Sabrina Fidalgo

 

 

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Movimento Negro

Bloco Basta de Genocídio fará ato contra ações preconceituosas do Shopping Higienópolis

Por Marina Souza

Na próxima quarta-feira (27), o Bloco Basta de Genocídio, que é composto por diferentes ativistas da sociedade civil organizada, denunciará o genocídio da juventude preta e periférica do país com a intenção de ampliar as articulações e mobilizações sociais, sobretudo a de movimentos antirracistas. Com o ritmo de protesto, o evento terá início às 18 horas, no Largo Santa Cecília, e marchará até o Shopping Pátio Higienópolis, que há poucas semanas envolveu-se numa polêmica ao tentar barrar a entrada de crianças e adolescentes no local.

O estabelecimento, localizado na região central paulistana, fez recentemente um pedido à Justiça para que sua equipe de segurança apreendesse os adolescentes e as crianças em situação de rua que estivessem desacompanhados de responsáveis e, assim, os encaminhassem à Polícia Militar. Contudo, no último dia 21, a juíza Mônica Gonzaga Arnoni, da 1ª Vara da Infância e da Juventude da cidade, negou a solicitação.

O Shopping havia dito que estava “enfrentado verdadeiro êxodo de crianças e adolescentes em situação de rua, desacompanhados de responsáveis legais, praticando atos em suas dependências que demandam a intervenção do corpo de segurança local.”. Arnoni, que acredita que a real motivação do pedido fora uma tentativa de higienização social, afirmou que o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) já prevê punição a menores de idade que cometem infrações. E enfatizou ainda que “caminhar em sentido contrário em escadas rolantes ou até mesmo pedir dinheiro aos frequentadores” são situações de quebras de decoros, e não crimes.

Grupos como o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua (MNMMR), Sindicato dos Psicólogos, Fórum de Criança e Adolescente, a Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, o Movimento Negro Unificado e a Uneafro Brasil são algumas das entidades organizadoras do ato.

O Bloco Eureca (Eu Reconheço o Estatuto da Criança e do Adolescente) também estará presente (Foto: Adonis Guerra)

Para a militante Marisa Feffermann, é inacreditável que em um país democrático crianças negras e pobres sejam impedidas de frequentar esse tipo de espaço. Ela classificou a situação como um “genocídio simbólico” alegando que implica diretamente no direito de ir e vir. “Chega não dá mais. É uma obrigação nossa dizer um basta”, teceu a ativista.

Em nota divulgada ao jornal G1 na sexta-feira (22), o shopping disse que “lamenta o ocorrido e pede sinceras desculpas por gerar qualquer tipo de interpretação contrária à intenção de proteger os menores desacompanhados”.

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Direitos da Criança e do Adolescente

Trabalho infantil no esporte, entre sonhos e chamas

Por Elisiane Santos

É uma tragédia inaceitável. A morte de adolescentes em incêndio ocorrido no “alojamento” de um dos maiores clubes de futebol do país.

Segundo informações veiculadas na imprensa, adolescentes com idade entre 14 e 16 anos, dormiam em conteiners, sem condições mínimas de segurança e ausente indispensável autorização de funcionamento destas “instalações” como alojamento.

Ocorre que antes mesmo de se perquirir as condições de segurança do local ou mais precisamente a completa ausência destas, uma pergunta que não quer calar e não pode ser relativizada é por que estas crianças – sim, crianças – estavam dormindo em caixas de metal quando deveriam estar descansando em suas residências ou local confortável e seguro, protegidos de toda a forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, conforme lhes assegura o artigo 227 da Constituição Federal?

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O fato que se encobre por trás dessa situação perversa, que levou à morte dez meninos adolescentes, afeta 2,6 milhões de crianças e adolescentes no Brasil. Chama-se trabalho infantil, invisível aos olhos da sociedade, especialmente quando se trata de formação desportiva, que deveria observar regras específicas para a aprendizagem profissional, mas lamentavelmente ocorre de forma desvirtuada, atingindo principalmente meninos negros em situação de vulnerabilidade social.

Pois bem. A legislação brasileira não permite o trabalho de adolescentes antes dos 16 anos de idade, salvo como aprendiz, a partir de 14 anos. Nesse sentido, a Lei Pelé (Lei 9615/1998), que disciplina a relação de trabalho entre atletas e clubes, prevê a possibilidade de formação desportiva de adolescentes. Em consonância com o artigo 7º, XXXIII da Constituição Federal, esta formação deveria ocorrer com a formalização do contrato de trabalho de aprendizagem, assegurados aos atletas-aprendizes todos os direitos dele decorrentes.

Além dos direitos trabalhistas, os atletas adolescentes devem estar protegidos de qualquer situação de risco, conforme disposições especiais a eles aplicáveis, por força dos princípios da proteção integral e prioridade absoluta, previstos no artigo 227 da Constituição Federal e Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8069/90).

Nessa senda, a permanência de adolescentes em alojamentos deve ser medida excepcional, somente quando impossibilitada a residência com a família na mesma localidade, e desde que atendidas exigências legais em matéria de alimentação, higiene, segurança, salubridade, educação, convivência social, familiar, entre outras.

Ainda, deve estar o programa de formação profissional desportiva inscrito no Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, a teor do que dispõem os artigos 73 c/c 86 e 91 do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Caso contrário, estamos diante de situação de trabalho infantil em suas piores formas, entendidas como tal, aquelas que trazem risco à saúde e segurança das crianças e adolescentes (Convenção 182 da Organização Internacional do Trabalho).

O caso nos leva a questionar por que a sociedade naturaliza, romantiza e incentiva o trabalho inseguro e perigoso destas pessoas em peculiar condição de desenvolvimento, seja no futebol ou em qualquer outra atividade.  Em pesquisa de dissertação de mestrado, apontamos o racismo como um dos fatores que naturaliza o trabalho nas ruas, atribuindo às crianças negras o lugar da exploração no trabalho, sob a justificativa de não se tornarem infratores, sem questionar a ausência de políticas sociais de educação, moradia, cultura, saúde, entre outras, que deveriam ser asseguradas a toda a população infantil.

Tais práticas reforçam estigmas, retirando destes simbólica e materialmente a possibilidade de formação, educação, profissionalização, acesso à universidade e trabalho digno. A ideologia do trabalho infantil, assim, opera na sociedade, fortalecendo preconceitos e exclusão, contribuindo, em última análise, para a morte ou adoecimento de crianças, adolescentes e jovens negros.

No caso do esporte, a possibilidade de glamour e fama, especialmente no futebol, faz também com que situações de violações de direitos nesses espaços sejam consentidas socialmente, assim como o desporto de rendimento – e não meramente recreativo – não seja visto como modalidade de trabalho para os adolescentes que tentam ingressar na carreira de atleta.

Tragédia deixou 10 adolescentes mortos e três feridos no Ninho do Urubu (Foto: André Durão/Globo Esporte)

É passada a hora da sociedade despertar para a gravidade do trabalho infantil e para a urgência da pauta dos direitos da criança e do adolescente. É primordial para a efetiva consolidação de uma sociedade democrática. O direito ao esporte e profissionalização deve proporcionar o desenvolvimento saudável, físico, intelectual e social de adolescentes e jovens, não ocultar situações de exploração e violência.

O desporto de rendimento, em que se objetiva resultados econômicos da atividade, é uma modalidade de trabalho. Os atletas adolescentes devem ter todos os seus direitos assegurados, admitindo-se a formação desportiva, antes dos 16 e a partir dos 14 anos de idade, apenas na forma de aprendizagem profissional.

Se é bonito e faz bem aos olhos torcer nos períodos de Copa e outras competições, é importante desvelar as perversidades que assolam o mundo do futebol. Por trás da fetichização dos atletas “estrelas”, nos grandes clubes, proliferam cenários de violações de direitos trabalhistas, racismo e exploração de crianças e adolescentes.

As mortes trágicas desses meninos não podem ser esquecidas, não podem ser reduzidas a lamentações dos responsáveis e devem nos fazer despertar para a necessidade de lutar em prol dos direitos da criança e do adolescente, em defesa do trabalho digno, da legislação trabalhista, das instituições que atuam na defesa de direitos, da punição dos responsáveis e reparação dos danos às vítimas. O combate ao racismo e ao trabalho infantil em todas as suas formas, entre estas o trabalho inseguro e perigoso de adolescentes no futebol, deve ser compromisso de todos.

Os meninos do ninho do Urubu eram atletas aprendizes com sonhos. Eram meninos negros, buscando um lugar de reconhecimento, no país do futebol. Um país onde empresários lucram às custas do trabalho inseguro, da infância perdida, do racismo estrutural. Um país de luto, entre sonhos e chamas.

Que o luto seja luta cotidiana. Por Athila, Arthur, Vinícius, Bernardo, Christian, Gedson, Jorge, Pablo, Rykelmo, Samuel e Vitor. Pelos direitos humanos de todas as crianças e adolescentes deste país.

Elisiane Santos é Procuradora do Trabalho, integrante do Coletivo MP Transforma, vice Coordenadora de Combate à Discriminação no MPT em São Paulo, coordenadora do Fórum Paulista de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, especialista em Direito do Trabalho pela Fundação Faculdade de Direito da UFBA e mestra em Filosofia pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

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racismo

“Escravizar, nem de brincadeira”, diz Elza Soares sobre diretora da Vogue

Por Marina Souza

Uma nova polêmica tomou o espaço da internet nesse fim de semana: a festa de aniversário da diretora de estilo da Vogue, Donata Meirelles com fotos mostrando uma decoração racista vitalizaram nas redes sociais e despertaram a revolta de diversas pessoas, sobretudo artistas, ativistas e estudiosos acadêmicos. A cantora Elza Soares, que é bisneta de escrava e neta de escrava forra, publicou ontem (10) duas fotos em seu perfil no instagram protestando pelo ocorrido e dizendo:

“Hoje li sobre mais uma ‘cutucada’ na ferida aberta do Brasil Colônia. Não faço juízo de valor sobre quem errou ou se teve intenção de errar. Faço um alerta! Quer ser elegante? Pense no quanto pode machucar o próximo, sua memória, os flagelos do seu povo, ao escolher um tema para “enfeitar” um momento feliz da vida. Felicidade às custas do constrangimento do próximo, seja ele de qual raça for, não é felicidade, é dor. O limite é tênue. Elegância é ponderar, por mais inocente que sua ação pareça. […] Escravizar, nem de brincadeira.”

Meirelles, por sua vez, já havia se pronunciado no sábado (09) alegando que fez referências ao candomblé e pediu desculpas pelo mal entendido: “mas, como dizia Juscelino, com erro não há compromisso e, como diz o samba, perdão foi feito para pedir”. Contudo, o que ela chama de “erro” também pode ser considerado crime pela lei 7.716/1989.

Suponho que uma diretora da maior revista de moda do país deva ter, no mínimo, cuidados com a estética visual de uma festa que organiza. Nada é por acaso ou coincidência. Para Renato Noguera, filósofo e professor, a ideia de escravidão moderna existe através de um mercado que sustenta o racismo e práticas coloniais com novas faces camufladas por um discurso de liberdade.

Mas não precisa ser especialista em conflitos raciais para compreender que vestir mulheres negras de mucamas e usar um traje elegante dentro de um palácio faz parte de alguma temática. Muitas pessoas associaram a decoração do evento ao Brasil escravocrata, época que durou 388 anos, o país foi inclusive o último entre os ocidentais a ser abolicionista.

Donatta Meirelles cercada por mucamas no aniversário
Pedido de desculpas no Instagram

A tal liberdade de escolha na decoração também pode ser explicada pela naturalização estruturalmente enraizada. Em um país marcado por um racismo velado, que é escondido e destilado em altas proporções simultâneas, atitudes como estas, nas quais racistas são instantaneamente defendidos por grande parte da população, são comuns.

Segundo o Atlas de Violência 2018, a taxa de homicídios de negros é mais que o dobro da de brancos e cresceu 23,1% no período de 2006 a 2016. Apesar disso, muitos negligenciam e desacreditam da gravidade do racismo brasileiro.

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Cultura

Conheça a artista Andréa Tolaini, onde a simbologia feminina ganha novas cores

Arte: Andréa Tolaini

Por Marina Souza

Foi em 2009 que a vida de Andréa Tolaini mudou completamente. Com a morte da mãe, a então publicitária adquiriu o que chama de “crise profissional”. Não vendo mais sentido no trabalho, ela sentia que sua criatividade não era compartilhada e estava a serviço de algo que desconhecia. Três anos depois, essa angústia havia ganhado proporções maiores e Tolaini finalmente tomara uma decisão: largar a publicidade e viver da arte.

O ano de 2012, por sua vez, representou mudanças intelectuais e também locativas. A feminista mudou-se para Londres para estudar pintura, desenho e Ilustração, na University of Arts of London, e um ano depois, voltou ao Brasil para cursar artes plásticas da Escola Panamericana de Artes. A criação de seu primeiro ateliê, no bairro do Butantã, São Paulo, enfatizou as crescentes mudanças.

“Eu já tinha mão pras artes visuais, pintava muito com a minha mãe. Mas não via isso como profissão porque minha mãe sempre pintou no campo privado, no público era professora”, relatou a paulistana de 34 anos. O berço materno lhe trazia uma forte simbologia feminina, que ficou ainda mais evidente após o episódio da morte. A artista começou a pensar muito no que era e significava ser mulher porque, segundo ela, seu pilar feminino estava se desabando aos poucos.

Então, ela decidiu unir as reflexões, que a essa altura já se tornavam incômodas, às suas produções artísticas. Coincidentemente, o movimento feminista ganhava, novamente, grande força no Brasil e as pautas femininas estavam entrando em todos os espaços. A partir disso, Andréa começou a esboçar em suas artes temas como liberdade sexual, emotiva, afetiva, masculinidade tóxica, América Latina e experiências diárias.

“Eu acho que esses rastros emocionais que existem por trás dos movimentos sociais são muito grandes. As minhas vivências pessoais de maternidade, familiaridade e feminilidade me desencadearam a desenhar, escrever e falar”, teceu.

Recentemente, Andréa lançou “SEIVA”, um livro que reúne algumas de suas ilustrações e escritos, na intenção de compartilhar seu trabalho e gerar reflexões no público, que é majoritariamente feminino, e afirmou que não dá respostas, apenas faz questionamentos usando a si própria como um mapa de aprendizados.

Tolaini confessou que todas as vezes que vê alguém se identificando com suas obras sente uma ponte de emoções ser criada e atinge seu grande objetivo enquanto mulher, artista e ser humano. Contudo, também disse que não possui estratégias para atingir as pessoas, apenas pessoaliza e cria laços daquilo que está em paralelo às suas vivências pessoais. O fato é que mesmo sem tais táticas, ela frequentemente recebe mensagens de carinho agradecendo-a pelos trabalhos.

Na opinião da artista, as pessoas estão carentes dessa ligação de acolhimento, na qual é possível sentir-se conectado ao outro emocionalmente e saber que não está sozinho. Também interpretou essa vontade de romper com os limites impostos como algo genuíno e importante para legitimar as existências individuais. É por isso que acredita que seu trabalho legitima as emoções alheias, sobretudo as das mulheres.

Seu projeto “Marias” foi criado com um pretexto de fazer exposições coletivas itinerantes de mulheres latino-americanas. A escritora sempre gostou muito de viajar pelo território da América Latina e sempre notou que a herança colonial é muito presente e difícil, “a gente vai precisar lutar duramente para incluir as mulheres periféricas, negras, indígenas”, refletiu ela, que pretende continuar criando esse círculo de união entre as artistas. “Marias” já circulou por Portugal, Espanha, São Paulo e tudo indica que terá novas realizações ao longo desse ano.

Embora, a desenhista esteja realizada com o caminho que está trilhando dentro e fora das artes, também enfrenta dificuldades. “Nesse mundo capitalista tudo que não serve diretamente ao sistema é subjugado. E a arte está nesse lugar, como se não tivesse função”, desabafou com tristeza. Ela apelidou como “abismo emocional” o sentimento de desanimação causado pela desvalorização das artes e acredita que no atual cenário político do país o circo está fechando para estes trabalhadores que não servem a lógica do sistema.

Devido a essas barreiras, durante muito tempo ela não teve uma boa autoestima, sentia-se a margem da sociedade. Ao contrário de muitos artistas, Andréa não tem interesse em ingressar em grandes galerias ou vender suas obras por preços caros, quer apenas que seu trabalho a sustente e circule. Ela classificou como angustiante e solitário o ato de remar contra a corrente e saber que isso é, muitas vezes, algo inglório. É por isso até entende quem escolhe o outro caminho, mas sabe que não quer servir ao capital.

Segundo a ilustradora, expor as angústias e os êxtases é uma maneira de fortalecer a si própria e aos outros. É assim que ela acredita na possibilidade de mudanças, rompimentos e crescimentos pessoais. Voltando de uma reunião na sede da Mídia Ninja, em Salvador, com a presença do ativista do Pablo Capilé, Andréa Tolaini disse “esse momento social está negando a arte, colocando a gente como vagabundo. Eu não vou abrir mão disso, não vou desistir. É uma resistência que precisamos fazer, tendo consciência do que está acontecendo para não ceder, seguir trabalhando com o que acredita, transformando a sociedade da maneira que consegue. Não arregar o pé.”.

 

 

 

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Cinema

Em tempos de necropolítica reinventamos a necropoética

22ª Mostra Tiradentes – Abertura Oficial – Foto Leo Lara/Universo Produção

Por Viviane Pistache *

A 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes começou no dia 17 de janeiro de 2019, ou seja, dois dias depois que o atual desgoverno assinou seu primeiro decreto que facilita a posse de arma. Mas qual seria a relação entre arma e cinema? A diretora negra Ava Duvernay no documentário A 13ª Emenda faz uma relação interessante: o capitalismo estadunidense se apoia nas indústrias armamentista e do entretenimento. A maior indústria nos Estados Unidos é a que mais mata a negritude à queima-roupa ou a que mais invisibiliza e estereotipa esta população nas telas?

A abertura da Mostra de Tiradentes destacou o argumento de que cada um real investido em cultura rende quatrocentos reais. Ou seja, cultura é negócio. Mas o desgoverno aposta em armamento e extingue o Ministério da Cultura. Nas mesas de debates da Mostra de Tiradentes uma pergunta tem sido recorrente: o que será da nossa indústria cinematográfica nestes tempos distópicos? Quais os impactos para a realizadores negros/as, historicamente tão alijados/as do acesso a recursos?

Trata-se de enfrentar questões mercadológicas fulcrais, de pensar estratégias para competir com a indústria da violência e do retrocesso, que mata física e simbolicamente a população negra. Melvin Van Peebles, o diretor expoente do Movimento Blaxplotation dos anos 70, estabeleceu os postulados: “Regra número um: não haverá meio termo. Eu farei um filme sobre o negro real. Quero um filme que faça os negros saírem do cinema orgulhosos ao invés de temerosos. Regra dois: esse filme tem que entreter como o Diabo. Regra três: cinema é negócio.”

Sim, cinema é negócio. Um estudo publicado em 2017 pela Creative Artists Agency (CAA) apontou que há o crescimento de uma plateia mais diversa que se interessa por filmes que apresentam diversidade de raça, gênero e orientação sexual, incidindo diretamente na arrecadação. Dentre os incontestes sucessos de bilheteria que ressaltam a diversidade racial dentro e fora das telas, figuram Moonlight, de Barry Jenkins, Corra!, de Jordan Peelan, e Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi. O Despertar da Força, protagonizado por John Boyega, ator negro, bateu o record de bilheteria absoluta, que pertencia a Avatar e Pantera Negra, de Ryan Cooler, filme de melhor desempenho produzido pela Marvel em 18 anos de existência.

Apesar da primorosa formação de profissionais negros no audiovisual, bem como o acesso ao mercado,  o quadro é bem mais complexo, pois a indústria cinematográfica opera numa lógica bélica na construção de imaginários raciais que não se restringem às fronteiras norte-americanas.

Em tempos de necropolítica reinventamos a necropoética. É a proposta da atriz Grace Passô, a grande homenageada nessa edição do Festival de Cinema de Tiradentes. Na noite de abertura fomos agraciados com a exibição de Vaga Carne, que marca a estréia da Grace na direção do seu primeiro filme ao lado de Ricardo Alves Jr..  Adaptação da peça homônima, Vaga Carne traz para as telas a encarnação da voz que se descobre num corpo negro de mulher. A voz que provoca, a voz entidade que não admite ser interrompida. A voz que satiriza, que invade nossa carne, a voz (im)própria, a voz de Exú que matou um pássaro ontem, com uma pedra que atirou hoje. A voz suicida que rasga a carne para se libertar. A voz do chiste que ri de tanto chorar. A voz do gozo e do lamento. A voz do breu, do inconfessável. A voz que não respira, a voz (des)humanizada.

Em Vaga Carne, Grace Passô traz o teatro para o cinema para justamente sair do teatro. Nesta metalinguagem, a câmara está apontada para o racismo próprio dos palcos e dos bastidores da indústria do entretenimento. E assim conhecemos a alma da resistência de dentro e a partir de seus próprios arsenais. Desse modo a atriz, dramaturga, escritora e agora diretora de cinema Grace Passô torna-se uma testemunha vocal que transita entre mundos de diferentes telas. Lembrando que James Baldwin aponta que as fronteiras entre testemunhar e atuar são finas, porém reais; e que parte da responsabilidade das testemunhas é movimentar com a maior liberdade possível para escrever a história. E assim, uma câmara em mãos negras pode se mostrar um armamento poderoso no enfrentamento às violências e alienações raciais com o simples disparar de um flash.

Mas ao mesmo tempo em que Grace Passô mira, é também mirada. A platéia entra em cena para atuar. No elenco estão nomes fundamentais da cena cultural e negra de Belo Horizonte, pois além de Grace Passô, Vaga Carne atravessa os corpos de Zora Santos, Dona Jandira, André Novais, Sabrina Hauta, Hélio Ricardo, Aline Vila Real, Tásia d’Paula, Valéria Aissatu Sane, Ronaldo Coisa Nossa. E considerando a assunção do olhar na hierarquia dos sentidos, tem-se a miragem como posição de poder.

Assim, a busca por aniquilar uma história da colonização evidencia que a branquitude sempre teve o poder da mira, de apontar pra matar, caçar ou espoliar.  Na frente ou atrás das câmeras o corpo negro assume importante posição de conhecimento, de saberes localizados, a partir dos quais novos projetos de  representações simbólicas se tornam possíveis. Em Vaga Carne nossas vozes e corpos estão dentro do olho do furacão,  resistindo para não se deixar engolir. Vaga Carne é um filme sobre a negritude real, que nos faz sair da sala de cinema com orgulho, e não com temor.

Diante disso, a emergência de diretores/as negros/as é fundamental para a existência de um “cinema do real” onde não há manipulação das aparências para colocar o espectador em um estado passivo de identificação acrítica.”, como indica o negro cineasta, escritor, teórico cultural e historiador do Mali Manthia Diawara. Assim, Grace Passô nos traz uma saborosa vertigem de cinéfila, aquele torpor que experimentamos ao ler Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Alice Walker, Maya Angelou, Toni Morrison, bell hooks e tantas outras. Como é bom citar nossa intelectualidade! E por falar nisso, necropoética foi um termo cunhado pelo crítico negro Juliano Gomes na mesa de debate sobre o filme Vaga Carne, que aconteceu no dia 19 de janeiro na programação da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que está reluzindo negritude e afrontamento. Por estas e outras, o festival, que é a primeira grande janela anual do nosso cinema está imperdível. Edição histórica!

 

*Viviane Pistache é psicóloga, roteirista e crítica de cinema. Preta das Gerais com mania de ter fé na vida.