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Cultura

Sesc Copacabana recebe a primeira cia negra de dança no país

Embalados aos sons das músicas de Naná Vasconcelos, a primeira companhia de dança negra contemporânea do Brasil, a Cia Rubens Barbot, reestreia “Dança Naná”, uma releitura do primeiro sucesso internacional da companhia, que teve sua primeira apresentação em 1993. Com 25 anos de história, trazendo os gestos movimentos e imagens que surgem dos corpos nas danças tradicionais brasileiras e traduzidas nos corpos negros, o espetáculo vai estar em cartaz no Sesc Copacabana de quinta(16) a domingo (19), às 20h.

Fotos: Wilton Montenegro

A Companhia Rubens Barbot é a primeira Cia negra de dança contemporânea do Brasil, surgiu há 29 anos, já fez turnê por diversos países e continua resistindo mesmo diante do triste cenário que se encontra a arte no Brasil. O Rubens Barbot, fundador da companhia e do Terreiro Contemporâneo, espaço cultural que se tornou uma base da arte negra no Rio, tem uma personalidade respeitada no meio artístico negro e um forte legado internacional como bailarino.

“Dança Naná” traz um espetáculo dançante, alegre, bem-humorado e contagiante, contando com direção Gatto Larsen, no elenco: Ana Paula Dias, Carlos Maia,  Carlos Mutalla, Eder Souza Martins, Wilson Assis e produção Beth Lopes. A Coreografia é de Luiz Monteiro, que na primeira apresentação há 25 anos era bailarino, hoje assina a releitura da coreografia original de Rubens Barbot.

Um estudo específico sobre a danças populares pertencentes à cultura brasileira gerou esta obra que teve a moldura musical de Naná Vasconcelos, a coreografia tem 35 minutos e outras duas, também ícones dentro da história da companhia compõem o programa sendo na primeira parte: “A Nega”(1991) solo com Wilson Assis e “Nem Todos Somos Patinhos Feios” (2012) coreografia de Luiz Monteiro sobre um tema lançado por Elvio Assunção.

Rubens Barbot – radicado no Rio de Janeiro desde 1989, criou a Cia Rubens Barbot em 1990, e transformado no ícone da dança negra contemporânea desde então. Também diretor do Terreiro Contemporâneo, espaço que é uma das bases da arte negra carioca.

Serviço

Classificação: Livre

Quando: 16, 17, 18 e 19 de maio | 20h |

Onde: Sesc Copacabana – R. Domingos Ferreira, 160 – Copacabana, Rio de Janeiro – RJ

Tarifas: R$30,00 (inteira), R$15,00 (meia entrada), R$7,50 (associados do Sesc), gratuito (estudantes de Artes Cênicas com documentação válida).

Contato: (21) 2548-1088

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Movimento Negro

Seminário reúne juristas para debater violência de Estado em SP

A Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio encabeça neste sábado, 11, o seminário ‘O Direito no Enfrentamento à Violência de Estado – Construindo Redes de Proteção e Resistência nos Territórios’, evento que aglutina dezenas de profissionais do direito para interlocução e troca de estratégias jurídicas diante das práticas de assassínio cometidas pelo Estado brasileiro contra as populações negras e pobres das periferias.

O seminário conta com um painel de abertura e 3 mesas de debate, com os temas: as violências do Estado; os agentes do Estado no enfrentamento da violência institucional; os movimentos sociais e as ONGs no enfrentamento da violência do Estado; as interfaces do enredamento do Estado e sociedade civil.

Durante o painel, entra em palestra o reconhecimento público ao movimento Mães de Maio e os 13 anos dos crimes de maio de 2016, em que cerca de 550 pessoas foram assassinadas em pouco mais de um mês, vítimas de ações de extermínio deliberada praticada pelas forças policiais do Estado de São Paulo.

Divulgação

A primeira mesa traz a experiência e vivência de agentes públicos no enfrentamento destas problemáticas, a importância dessa atuação e estratégias traçadas para denunciá-las e combatê-las, nas mais diversas áreas, do executivo ao ministério público e delegacias.

O debate seguinte coloca em pauta o papel das ONGs e movimentos sociais, e como advogados podem trabalhar nesse cenário, em uma ampla gama de pessoas, como mães vítimas da violência de Estado, mulheres, crianças e adolescentes, LGBTs, moradia, direitos humanos, justiça criminal e movimento negro.

A última atividade do dia fala sobre as relações entre Estado e sociedade civil na perspectiva de funcionários públicos, ativistas, juristas, advogados e sindicalistas, a fim de desenhar um panorama de fórmulas e vivências. Durante o encerramento, ainda haverá a entrega de certificado para os participantes.

A Rede de Proteção ao Genocídio

Mentora deste seminário, a experiência em rede da organização é destaque e referência no enfrentamento à violência sistemática do Estado que os dados e as vivências nas periferias apontam. O número assustador de 80 mil homicídios por ano, com forte crescimento da letalidade policial e vítima principal jovens negros de origem periférica, é resultado de uma estrutura que só pode ser revertida a partir dos novos meios de conexão, descentralizado e em rede.

Neste sentido, este encontro é um catalisador, pois conecta e insere uma série de profissionais de diversos campos do conhecimento e setores da sociedade, a fim de tornar-se mais eficiente e ágil na defesa e garantia de direitos das populações em vulnerabilidade social, decorrente da atuação ou omissão do poder público em seus territórios.

Serviço

Local: Salão Nobre da Faculdade de Direito da USP, Largo São Francisco n. 95
São Paulo-SP
Data: 11/05/208
Horário: 8h30 – 18h
Inscrição: Gratuita pelo link 

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Cultura

Companhia de Teatro Heliópolis traz peça sobre a justiça brasileira

A Companhia de Teatro Heliópolis apresenta a montagem (IN)JUSTIÇA até o dia 19 de maio, na Casa de Teatro Maria José de Carvalho (sede do grupo), no bairro Ipiranga. A encenação é dirigida por Miguel Rocha, fundador e diretor do grupo; e Evill Rebouças assina o texto que foi criado em processo colaborativo com a Companhia.

(IN)JUSTIÇA é um ensaio cênico, guiado pela indagação ‘o que os veredictos não revelam?’, que reflete sobre aspectos do sistema jurídico brasileiro. Para tanto, conta a história do jovem Cerol que, involuntariamente, pratica um crime. A partir daí, surgem diversas concepções sobre o que é justiça, seja a praticada pelo judiciário ou aquela sentenciada pela sociedade.

Permeado por imagens-sínteses (característica da Companhia de Teatro Heliópolis) e explorando a performance corporal, o espetáculo coloca em cena a complexidade da justiça no país, deixando a plateia na posição de júri em um tribunal. O embate entre os dois lados da justiça – da vítima e do criminoso – se estabelece em um jogo contundente que expõe com originalidade a crua realidade dos jovens pobres e negros. A música ao vivo confere ainda mais densidade poética ao ‘relato’, que foge de qualquer abordagem clichê.

Fotos: Caroline Ferreira

A história de Cerol é contada de forma não linear. Exímio empinador de pipas, ele vive com sua avó, pois a mãe morreu no parto e o pai, assassinado. Depois de uma briga por conta do alto volume da música na vizinhança, Cerol foge e acaba disparando involuntariamente um tiro em uma mulher, que morre em seguida. Ele acaba preso e é submetido ao julgamento da lei e da sociedade.

Com base nesse argumento, a Companhia de Teatro Heliópolis discute direitos humanos à luz da Constituição Nacional. A encenação recupera também a ancestralidade brasileira em passagens ritualísticas. “Queremos pensar o homem negro e a justiça, desde a nossa origem até os dias de hoje”, afirma o diretor Miguel Rocha.

Cenas impactantes e desconcertantes surpreendem todo o tempo. A encenação de Miguel Rocha, alinhavada pela dramaturgia de Evill Rebouças, mostra como a democracia pode ser manipulada. O crime versus a vítima ou o criminoso versus a justiça aparecem de forma não superficial nem previsível. A abordagem de (IN)JUSTIÇA parte do ponto de vista mais íntimo para aquele mais coletivo: da comunidade para a sociedade, da moral pessoal às convenções sociais. Isso permite, igualmente, as leituras de um mesmo caso jurídico, como no julgamento – defesa e promotoria -, onde ambos os discursos são tão contundentes quanto convincentes. “Para falar de justiça, temos que falar das relações humanas contraditórias, pois a justiça se apresenta pelas contradições”, reflete o diretor.

Permeado por emoções e sensações que fogem da obviedade, o espetáculo tem quadros coreografados que trazem o respiro necessário à dinâmica da encenação: cidadãos urbanos, policiais, advogados com suas togas desfilam pela área cênica e hipnotizam o espectador. Os depoimentos inseridos nas cenas humanizam e tornam crível a proposta da montagem, sejam eles densos, desconcertantes, ou mesmo lúdicos. Segundo o diretor, os três pontos de vista sobre justiça – “o pessoal, o divina e o do homem” – são considerados na concepção de (IN)JUSTIÇA, bem como a máxima que diz “só quem passou por uma injustiça sabe o que é justiça”.

O cenário (Marcelo Denny) situa a força da ancestralidade, presente na terra e no terreiro, na força fria do zinco, na estética religiosa que foge dos estereótipos. Traz também o símbolo da lentidão da justiça com toda sua burocracia em pilhas e pilhas de papéis e processos. Elementos como areia, terra, projéteis de bala e pipas compõem a área de encenação, onde predomina a cor cinza. A trilha (de Meno Del Picchia) e os efeitos sonoros são executados em sincronismo com as cenas. Os atores interpretam cantos de tradição que reforçam a busca pela humanização e pela ancestralidade propostas pelo espetáculo.

(IN)JUSTIÇA nasceu de um longo processo criativo, iniciado em fevereiro de 2018, disparado por encontros dos integrantes da Companhia de Teatro Heliópolis com pensadores ativistas que falaram sobre os vários aspectos da Justiça. Os convidados foram Viviane Mosé (filósofa), Gustavo Roberto Costa (promotor de justiça), Ana Lúcia Pastore (antropóloga) e Cristiano Burlan (cineasta), tendo Maria Fernanda Vomero (provocadora cênica, jornalista e pesquisadora teatral) como mediadora.

O espetáculo integra o projeto Justiça – O que os Vereditos Não Revelam, contemplado pela 31ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.

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Genocídio Negro

Vidas negras em tardes de domingo

Luciana Nogueira, esposa do músico Evaldo dos Santos Rosa, morto no domingo, 7 de abril, durante uma ação do Exército na região da Vila Militar, na zona norte do Rio de Janeiro, em desespero diante do corpo do marido e do carro cravejado com 80 tiros

 

Eu me lembro com saudade
O tempo que passou
O tempo passa tão depressa
Mas em mim deixou
Jovens tardes de domingo
Tantas alegrias
Velhos tempos
Belos dias

– Roberto Carlos

 

Tô cansado dessa porra
de toda essa bobagem
Alcolismo,vingança treta malandragem
Mãe angustiada filho problemático
Famílias destruídas
fins de semana trágicos

– Racionais Mc’s

 

Por Douglas Belchior

Fotos: Rosa Caldeira; Jorge Ferreira; Mídia Ninja; Alma Preta; Ponte Jornalismo; Bianca Santana

 

Quando criança ouvi muito Roberto Carlos. Meus pais gostavam. Memórias de criança que, vez ou outra, voltam. Depois cresci, estudei. Percebi e entendi por que as tardes de domingo felizes das canções da jovem guarda, as tardes em que “Canções usavam formas simples / Pra falar de amor / Carrões e gente numa festa / De sorriso e cor…” não eram em nada parecidas com as tardes de domingo lá de perto de casa, na zona leste de SP. Racionais MC’s, melhor que ninguém, nos explicou como funciona o nosso fim de semana: “Olha só aquele clube que da hora / Olha o pretinho vendo tudo do lado de fora…”

Tenho 40 anos e desde os 17 participo de protestos contra a violência da polícia e pelo fim do assassinato sistemático de pessoas negras no Brasil. As vezes me pego pensando quanto tempo da vida dediquei à isso, ocupando ruas não só em dias de protestos, mas no dia a dia em salas de aula no trabalho em escolas públicas ou nos finais de semana em cursinhos populares. Vejo os militantes mais velhos que teimam em continuar a luta. Eles já fazem isso há 30, 40, 50 anos, ocupando suas horas de descanso entre um dia e outro de trabalho ou em feriados ou em finais de semana, sábados e tardes de domingo. Que destino é esse que não nos permite apenas viver nossas vidas, desfrutar de domingos com a família, com namoro, com amigos ou simplesmente tomar uma cerveja diante da TV em dia de final de um campeonato de futebol. Que triste necessidade esta, ter que dividir um tempo tão raro que poderia ser de felicidade e gozo, com a melancolia e a tristeza de velórios, ajuda humanitária e protestos. E pior, agradecer por estar vivo e se cuidar para não ser o próximo alvo de uns 80 tiros em alguma estrada qualquer.

Mas qual seria a opção a isso? Viver como se não soubéssemos? Olhar para os incontáveis corpos e não reparar a semelhança? Salvar a “própria pele” e ignorar o cheiro forte de carne queimada que invade nossas narinas todos os dias?

Não é possível!

Neste dia 14 de abril de 2019, mais de mil pessoas dedicaram sua tarde de domingo à memória de Evaldo, homem negro fuzilado em praça pública com 80 tiros, pelo exército brasileiro. Mais um dia dedicado a denunciar ao mundo os governantes genocidas que lideram nosso país. Um país que vive em guerra.

Obviamente, uma situação em que o exército fuzila com 80 tiros, um carro com uma família dentro, em plena via pública numa tarde de domingo, só não chama a tenção e não provoca revolta em pessoas com algum tipo perverso de psicopatia. Mas é preciso dizer que situações absurdas acontecem com mais frequência que se imagina. Como não lembrar dos 111 tiros da Policia Militar em um carro com 5 garotos negros, no Rio de janeiro, em 2015; Ou da chacina da Cabula, também em 2015, em Salvador na Bahia, quando a polícia enfileirou 12 jovens em um campo de futebol para o fuzilamento; Ou Amarildo, preso torturado e morto pela PM do Rio em 2013; Ou de Cláudia Silva Ferreira, mulher negra, baleada pela PM e depois arrastada por mais de 250 metros, em via pública, por uma viatura policial; E as diversas crianças mortas nas ações das polícias no Rio e em outros estados; E Marielle Franco, assassinada por ex-policiais milicianos. Isso para citar só alguns.

Para além de casos que ganham repercussão nos meios de comunicação, é necessário dizer que assassinatos de pessoas negras em si são absolutamente corriqueiras neste país.

No último período, a polícia brasileira matou em 5 anos mais do que todas as polícias norte americanas em 30 anos de trabalho. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil.  O Estado brasileiro, direta ou indiretamente, promove o genocídio da população negra. Estudos diversos, como por exemplo, a do Atlas da Violência, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), relatam que em 2016, o Brasil alcançou a marca histórica de 62.517 homicídios. Isso equivale a uma taxa de 30,3 mortes para cada 100 mil habitantes, que corresponde a 30 vezes a taxa da Europa. Quando recortados por raça/cor comprova-se o genocídio: 71,5% das pessoas que são assassinadas a cada ano no país são pretas ou pardas.

No texto, números são apenas números. Conviver com isso, diariamente, é outra coisa.

Por isso sou profundamente grato pela companhia de militantes, homens e mulheres que nos momentos mais difíceis, pegam uns nas mãos dos outros para lembrar e reafirmar nossa missão e de que não estamos sozinhos nela. Obrigada.

Barrar o genocídio negro é tarefa histórica no Brasil e no mundo. Nossa geração fará sua parte!

Justiça à Evaldo Rosa e à todas e todos os assassinatos de pessoas negras, desde o primeiro navio repleto de escravizados até o carro e o corpo cravejados por 80 tiros!

Sobre o protesto

Grupos ligados a movimentos negros se encontraram neste domingo (14) na Avenida Paulista, para celebrar a memória no 7 dia da morte do músico Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos, no último domingo (7) no Rio de Janeiro. Rosa foi morto quando o carro que dirigia foi alvo de pelo menos 80 tiros de fuzil disparados por soldados do Exército.

Com o nome “80 tiros em uma família negra, 80 tiros em nós!”, o ato se reuniu em frente ao Museu de Arte Assis Chateaubriand (Masp).

Uma imensa faixa com a frase “Parem de atirar em nós” marcou o protesto. Manifestantes se alternaram no microfone para falar sobre a perseguição de negros na periferia.

 

#80Tiros

#EvaldoVive

#ContraOGenicidiodoPovoNegroBrasileiro

#UneafroResiste

#BlackLivesMatter

#VidasNegrasImportam

#ParemDeNosMatar

#ParemDeAtirarEmNós

 

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Educação Popular Movimento Negro

O 6º Encontro de Negros e Negras da UNE debaterá o papel do negro na ciência

Por Marina Souza

Jovens negros graduandos ou pós-graduandos das áreas de Humanas, Biológicas ou Exatas terão a oportunidade de participar do 6º Enune – Encontro de Negros e Negras da UNE nos próximos dias 19, 20 e 21, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói. “Meu quilombo, meu lugar: nas ruas, nas periferias e nas universidades”é o tema desta edição, que busca estudar ciência, promover e incentivar as lutas negras estudantis e expandir o ensino gratuito e de qualidade.

Com mesas de debate, grupos de trabalho, oficinas, palestras, cursos e uma plenária, os alunos debaterão temas diversos que vão de política à ciência. O II Encontro de Jovens Cientistas Negros da Associação Nacional de Pós-graduandos também acontece durante o Enune e promete reflexões sobre o racismo na Academia e papel do negro na ciência. A mostra científica “Epistemicídio e a Circulação do Conhecimento”, por exemplo, funcionará como um espaço para conhecer produções acadêmicas de pessoas negras.

Foto: Evelyn Lee/CUCA UNE

“Um dos principais objetivos da Mostra é a circulação de conhecimento, o fortalecimento dos espaços de pesquisa e a ampliação do diálogo da produção de pesquisadores negros e negras”, diz Dara Santanna, diretora de Combate ao Racismo da União Nacional dos Estudantes (UNE).

As inscrições podem ser feitas pelo site.

 

 

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Movimento Negro

Nova Frente Negra Brasileira cria projeto para transformar jovens pretos em futuras lideranças

Por Marina Souza

Para incentivar, fortalecer e empoderar a juventude negra, a Nova Frente Negra Brasileira (NFNB) está organizando a primeira edição do Processo de Transformação Política para jovens pretos. O evento acontecerá em São Paulo, no bairro da Lapa, nos dias 6, 7, 13 e 14 deste mês e promete oferecer ao público uma série de estudos étnicos raciais, políticos, sociais e técnicos.

Para ministrar as atividades estarão presentes nomes como Edna Rolland, especialista na questão racial, Dennis de Oliveira, jornalista e chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, e Deise Benedito, fundadora do Instituto Geledés e assessora técnica do PSOL.

Deise Benedito (arquivo pessoal)

Deise explica que o intuito é mobilizar a juventude, fazer uma espécie de “alfabetização política” e melhorar a realidade brasileira. Serão debatidos temas como Direitos Humanos, empreendedorismo negro no Brasil, o papel da mídia na consolidação de modelos discriminatórios, saúde da população negra, ações afirmativas e mercado de trabalho. “A arte da guerra é conhecer seu inimigo”, é o que diz a especialista sobre a importância de promover tais discussões entre as futuras lideranças negras.

Ela também é uma das integrantes da NFNB, que tem como objetivo propiciar não somente o acolhimento e proteção da população negra, como também o o crescimento dos trabalhos de base no país e do protagonismo negro no cenário político nacional.

“A Nova Frente Negra Brasileira é um espaço fundamental, estratégico e veio para reacender novos focos de mobilização social, que é fundamental nesse momento de retrocessos.”, diz.

As vagas para esta primeira edição do Processo de Transformação Política são limitadas aos 100 primeiros inscritos, porém serão abertas listas de espera para as próximas giras de conhecimento. Para se inscrever basta acessar o site.

A ideia é que o projeto, segundo a ativista, seja estendido pelo país – e talvez no restante da América Latina – para empoderar diferentes povos negros.

Porque empoderar jovens negros?

A cada 23 minutos um jovem negro é brutalmente assassinado no Brasil. Os dados não são novos e por isso são ainda mais alarmantes. A juventude negra periférica é o alvo prioritário de uma política de Estado que matou mais de meio milhão de pessoas entre 2005 e 2015 de acordo com levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e o  Fórum Brasileiro de Segurança Pública.  Sete de cada dez homicídios são praticados contra os nossos jovens e não há nenhuma expectativa de mudança positiva com a ascensão de um governo racista, homofóbico, misógino e intolerante.

Os assassinatos destes jovens são o ápice de um programa de total exclusão e desumanização da população negra, sem educação, saúde ou acesso à cultura, nossos jovens são presas fáceis de um Estado que tem como objetivo a eliminação da população preta e pobre.

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Cotas Raciais

Campinas cria grupo para rever e propor cotas raciais nos concursos públicos

Por Marina Souza

No dia de hoje (28), o Diário Oficial de Campinas publicou um Decreto que institui um grupo de trabalho intersetorial para estudar, avaliar, propor e aprimorar a ampliação municipal das políticas afirmativas de cota racial em concursos públicos, revista na Lei Federal nº12.990.

A ideia é que o grupo proponha normas necessárias à regulamentação desta política. A equipe será composta por dois integrantes das Secretarias de Assuntos Jurídicos, de Recursos Humanos e de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos.

Com o prazo de 180 dias, contabilizado a partir da primeira reunião, os representantes precisarão enviar ao órgão de Assuntos Jurídicos todos os termos necessários à elaboração da proposta, que será válida para a administração pública direta e indireta, bem como, nos demais casos de admissão.

As cotas no Brasil

A proclamação da Lei Áurea em 1888 foi responsável pela abolição da escravatura no país, mas não proporcionou aos afrodescendentes nenhuma política de reinserção social, tão pouco garantiu o fim de desigualdades raciais.  O acesso digno a oportunidades de trabalho, segurança, moradia, saúde pública e educação permaneceu sendo uma das reivindicações desse grupo.

A primeira adoção de uma ação afirmativa no Brasil surgiu com a Constituição de 1988, que determinava que 45% de empregos públicos fossem destinados a pessoas portadoras de deficiência física. Em 2000, Rio de Janeiro tornou-se o primeiro estado do país a implementar cotas sociais para ex-alunos de escolas públicas. Um ano depois, a Universidade de Brasília fez o mesmo e também acrescentou cotas raciais em seu sistema de ingresso, garantindo que 20% das vagas fossem reservadas a pretos, pardos e indígenas.

A partir deste episódio, torna-se cada vez mais comum que universidades e órgãos públicos adotem o sistema de cotas raciais.

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Escrita da história

Você sabe o que foi a Revolta do Queimado?

Por Marina Souza

Há 170 anos acontecia a Revolta do Queimado, também conhecida como Insurreição do Queimado, em Espirito Santo, considerada por muitos historiadores como uma das principais ações contrárias ao sistema escravocrata do país naquela época. Conheça agora o que foi esse marco histórico.

As ruínas da igreja Freguesia de São José do Queimado / Foto: Reprodução

“Um fato histórico de tamanha importância devia ser tomado como bandeira de orgulho, conteúdo turístico amplamente divulgado, mas a gente é preto”, são as palavras de Priscila Gama, presidenta do Instituto Das Pretas.

Ela acredita que o motivo do pouco estudo e conhecimento sobre a Revolta é diretamente atrelado ao panorama estrutural do racismo na sociedade brasileira, que invisibiliza os povos negros.

A Revolta

Foi em troca da tão desejada alforria que cerca de 300 escravos construíram uma igreja em Freguesia de São José do Queimado, o frei Gregório José Maria de Bene havia prometido que lhes concederia liberdade se a obra construíssem. O que eles não previam é que aconteceria um descumprimento do trato, a autonomia não viria mesmo após todo o esforço doado.

Enfurecidos com a enganação, negros e negras articularam uma rebelião nas fazendas aos redores. O trabalhadores escravizados foram brutalmente reprimidos pela Polícia da Província, que assassinou muitos deles, a prisão de Elisiário, o grande líder do movimento, demarcou o fim da Revolta, que durou cinco dias e deixou feridos nos dois lados do confronto.

A presidente acredita que entender o acontecimento trata-se de uma recuperação de memória, sendo importante para a fundamentação de uma história apagada pelo processo colonial escravocrata.

 

 

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Cinema

As Cores da Serpente: um filme sobre sobre sonhos, negros e cultura angolana

Por Marina Souza

As Cores da Serpente, primeiro longa-metragem produzido pelo diretor brasileiro Juca Badaró, será lançado dia 21 de março em São Paulo, Porto Alegre e Curitiba. O filme registra jovens grafiteiros pintando os Murais da Leba, uma estrada histórica com cerca de 20 quilômetros, na Angola. Veja o trailer a seguir.

O Coletivo Mural da Leba envolveu mais de 30 artistas angolanos e estrangeiros para promover a arte urbana. O projeto durou dois anos e, assim como o o documentário, não teve nenhum apoio financeiro do governo ou de empresas. “Como as obras ficam a céu aberto, a chuva e o sol podem degradá-las, e por isso eles [artistas] fizeram intervenções periódicas. A que está retratada no filme foi a primeira e durou cerca de 1 mês”, explica Badaró.

O diretor conta que estava morando há dois anos em Luanda, capital angolana, quando em 2015 recebeu um convite de uma produtora audiovisual brasileira para registrar tais intervenções. Seus trabalhos anteriores dentro do país tinham sido como diretor de mini documentários da TV pública local.

A estrada-cenário de As Cores da Serpente começou a ser construída pelos portugueses no final do século XIX e só foi concluída às vésperas da independência de Angola, em 1974. Tornou-se um dos mais conhecidos pontos turísticos do país, na Serra da Leba, uma formação montanhosa que separa as províncias da Huíla e do Namibe. A via era necessária para facilitar o transporte de mercadorias e pessoas entre as duas províncias.

Com o passar do tempo, as paredes ficaram sujas, má-cuidadas e abandonadas. E é justamente para levar mudança à essa situação que o Coletivo Mural da Leba surgiu trazendo cores ao extenso concreto.

Divulgação

Badaró conta que duas das câmeras que captaram as imagens foram usadas pelos próprios artistas, ele ficava responsável popr registrar as artes e entrevistar pessoas.

É o primeiro filme brasileiro a ser inteiramente gravado no território angolano e, segundo o diretor, o longa tem um significado muito além da exibição das pinturas. Ele confessa estar feliz por saber que o Brasil poderá conhecer outro pedaço seu, que muitas vezes é esquecido.

“É um filme sobre sonho. Um filme sobre negros, cultura africana e sua relação com o Brasil”, diz.

Dois dos 30 artistas estarão presentes na estreia brasileira, um deles é diretor do Coletivo e o outro um grafiteiro que fará muitas coisas pela primeira vez: andar de avião, viajar para outro país e participar do lançamento de um filme que protagoniza. Além disso, as cidades de São Paulo e Salvador terão muros pintados pelo angolano.

Juca Badaró, por sua vez, relata que ao ver a reação dos artistas, que são em sua maioria moradores de gueto, assistindo ao documentário sentiu-se profundamente emocionado, pois muitos choraram e lhe parabenizaram.

 

 

 

 

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racismo

Se Crispim fosse branco, a situação seria diferente

Por Marina Souza

“Perseguição se esquece? Tanta agressão enlouquece”, o verso de Boa Esperança, letra composta pelo cantor Emicida, faz referência às contantes violências sofridas pelos povos negros ao longo dos séculos e à mescla de sentimentos ruins que invadem esses corpos. O trecho parece descrever uma série de casos que têm viralizado nas redes sociais nas últimas semanas, o mais recentes é o do empresário Crispim Terral, vítima de um abuso policial ocorrido na última segunda-feira (25), em Salvador.

Terral, de 34 anos, estava em uma agência bancária da Caixa Econômica Federal e ao reclamar da demora, de quase cinco horas, do atendimento foi surpreendido com agressões físicas que poderiam ter o matado. Assim que ouviu a reclamação, um dos gerentes acionou a Polícia Militar, que deu um “mata-leão” no empresário.

https://www.youtube.com/watch?v=mSEVL0-wO8I

O vídeo repercutiu nas redes sociais e rapidamente diversas pessoas se posicionaram contra o episódio que, segundo a vítima, foi motivado por racismo. Na tarde de ontem (26), cerca de 100 pessoas se reuniram ao local do crime e protestaram em defesa de Crispim.

Em entrevista ao jornal G1, ele disse “eu não desejo isso a ninguém. Nem ao meu pior inimigo, que eu não tenho. É muito triste, é muito doloroso. Eu agradeço todas as mensagens de apoio. Estamos juntos. E vamos dizer não, mais uma vez, ao racismo.”.

O Ministério Público do Estado da Bahia disse que analisará a denúncia. Já a CAIXA afastou o gerente e informou, por meio de uma nota, que “está apurando e tomará todas as providências cabíveis […] e ressalta que repudia atitudes de discriminação cometidas contra qualquer pessoa”.

Ativistas realizam protesto no local do crime (Foto: Betto Jr./CORREIO)

Para Renata Lira, advogada penal e integrante do Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate à Tortura do Rio de Janeiro, o banco precisa tomar uma atitude séria em relação ao ocorrido. E afirmou ainda que se a reclamação ao gerente partisse de um homem branco, ele dificilmente teria sido submetido à este tipo de violência e humilhação. “Os homens negros têm uma chance muito maior de serem presos, constantemente são reconhecidos como culpados por crimes que nem estavam presentes no local”, relembrou ela.