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Cultura

Thomás Meira lança videoclipe sobre caos político

Até o próximo ano, vai ser sempre a mesma conversa fiada

Que vai funcionar, que vai melhorar a justiça federal

Mas a grande verdade é que a gente sempre paga no final

Eu e você

Estamos nessa lama em coma, na democracia do poder

Sem poder

Vamos pagar à prazo o pato, a fome e toda conta do temer

Com esses versos o cantor e compositor Thomás Meira lança – em meio ao caos político e as inúmeras dúvidas sobre os próximos capítulos da história brasileira – a inédita “Inflamado de Inflação”. Produzida por Felipe Câmara, track, apesar da levada dançante, coloca o dedo na ferida ao expor indignação. “Acredito que essa música nasce de um sentimento em comum. Eu, por exemplo, vejo minha mãe trabalhando, incansavelmente, todos os dias. Ela está pagando mais, cada vez mais, para viver. Todos estamos. E, mesmo com o nosso esforço total, muitas coisas não progridem por causa de um sistema ineficaz, falido e corrupto” , ressalta o artista.

O vídeo, dirigido por Carlos Franco, reúne imagens do centro da capital paulista e do Jardim São Manoel, maior favela de palafitas do país.

“Acho importante acrescentar que neste projeto também estamos criticando a polarização. Polarização essa que nos atrapalha e não nos une, tendo em vista que nesse momento ninguém ao certo – independente de lado, credo, cor ou raça – tem confiança plena em seus escolhidos. A desconfiança é mesmo geral”, pontua.

Para personificar a discussão, dois homens engravatados cumprem o papel dos tais falastrões que se preocupam muito mais com a foto do que com aquilo que realmente precisam: mudanças urgentes, melhorias gerais e a necessária e nunca verdadeira credibilidade governamental.

Cria do Grajaú, o poeta e militante Márcio Ricardo faz participação especial. É ele quem avisa: “entre a quebrada e o asfalto, há esperança no olhar”.

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Cotas Raciais

“Não é hora de criar nenhum tipo de conflito na sociedade”, afirma Maia sobre possível fim das cotas

Por Simone Freire/Alma Preta

Organizações antirracistas de todo o país e parlamentares negros participaram de encontro na manhã desta terça-feira (26), no gabinete do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

A finalidade do encontro foi debater temas delicados à comunidade negra, como a Reforma da Previdência, o pacote anticrime proposto pelo ministro da Justiça Sérgio Moro e a política de cotas nas universidades e concursos públicos.

Sobre as cotas, o presidente da Câmara afirmou que era a favor apenas das cotas sociais, e não das cotas raciais. No entanto, passou a considerar “positivo” os resultados das ações afirmativas raciais, afirmando que este não é o momento de alterar essa política.

“No passado, eu sempre defendi as cotas pelos cortes sócio-econômicos, mas foi vitorioso no Brasil nos últimos anos a cota racial que deu resultados positivos e eu não acho que é a hora da gente fazer uma inversão nesse encaminhamento”, disse.

O número de pretos e pardos que concluíram a graduação no país cresceu de 2,2% em 2000 para 9,3% em 2017. As primeiras experiências de cotas raciais no país foram adotadas no início dos anos 2000 e a lei se transformou em nacional em 2012.

Orlando Silva (PCdoB) esteve prsente na discussão de cotas raciais com o presidente Rodrigo Maia/ Foto:Pedro Borges

Dayane Pimentel (PSL-BA), que tinha o objetivo de revogar a Lei de Cotas (nº 12.711), apresentado em 15 de março.

“Há uma ameaça concreta à política de cotas raciais nas universidades. Esse foi o primeiro motivo mobilizador desse encontro. Há um PL protocolado na Casa e isso nos assusta porque esta política é um ganho, uma conquista de muitos anos e muitas almas e lutas”, disse Douglas Belchior, da Uneafro Brasil e um dos articuladores do encontro.

Nesta segunda-feira (25), a deputada pediu a retirada do seu projeto da pauta da Casa, justificando que existe um erro em seu texto. Na verdade, a deputada não pretende anular a Lei de Cotas como um todo. Seu objetivo é revogar apenas as cotas raciais, e nao as sociais.

Questionado na reunião, Maia afirmou que qualquer projeto de lei que vise revogar as cotas raciais precisará de um “profundo debate com a sociedade”. “Em relação a qualquer projeto que retire direitos, gere polêmica com relação a agenda que vocês colocam, vocês podem ficar tranquilos que não vai passar sem um debate profundo, sem a criação de fóruns, comissões, grupos para um debate profundo com vocês”, disse aos presentes.

“Apesar de ainda ser muito limitado o que a gente tem até hoje os índices são muito bons. As pessoas diziam que as pessoas negras não iriam conseguir aproveitar a universidade ou iriam ter um desempenho menor. Isso tudo foi comprovadamente desmentido. Com que argumento você vai revogar uma lei que se mostra tão efetiva?”, questiona Bianca Santana, cientista social e doutoranda em Ciência da Informação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), que esteve presente na reunião.

Outros planos

Áurea Carolina (PSOL-MG), Talíria Petrone (PSOl – RJ) e Douglas Belchior (PSOL – SP)/Fotos: Pedro Borges

Participaram do debate os parlamentares Áurea Carolina (PSOL-MG), Talíria Petrone (PSOL-RJ), Benedita da Silva (PT-RJ) e Orlando Silva (PCdoB-SP), integrantes de diversos movimentos como o MNU (Movimento Negro Unificado), Educafro, Núcleo de Consciência Negra da USP, Irohin, Festival Latinidades, Aganju, Marcha das Mulheres Negras, Ceert, entre outros.

Maia também se colocou à disposição para a criação de audiências e grupos de trabalho com o movimento negro para a discussão de outros temas com a sociedade, como a Reforma da Previdência e o pacote anticrime de Moro.

Orlando Silva, outro articulador do encontro, fez uma avaliação positiva da agenda com Rodrigo Maia. “O presidente recebeu, se comprometeu a receber um grupo para avaliar os encaminhamentos dessas matérias. Valeu a reunião, mas ainda tem muito para construir”, disse.

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Política

Valores viris na política: esboço crítico sobre relações raciais e gênero masculino

Por Henrique Restier

“Eu sou o maior inimigo do impossível” (Bluesman) Baco Exu do Blues

João Cândido “O Almirante Negro” (1880–1969)

Os homens e as masculinidades têm sido um campo de estudos com um crescimento e interesse vertiginosos nos últimos anos. Os homens se tornaram seres “generificados” e, portanto, sujeitos de diferentes análises, vindas dos mais diversos movimentos sociais e arcabouços teóricos. Quanto aos temas, a antropóloga e feminista negra colombiana, Mara Viveiros Vigoya (2018, p. 67) nos traz um quadro bastante interessante. Em sua pesquisa, a autora aponta sete eixos principais, são eles: identidades masculinas (30%), masculinidades e violências (18%), problemas, dilemas e tensões em torno da saúde dos homens (16%), afetos, sexualidades e reflexões epistemológicas, ambos com 14%, representações e produções culturais das masculinidades (6%) e, por último, espaços de homossociabilidade masculina (2%). O perfil de gênero dos pesquisadores é bastante equitativo, homens e mulheres correspondem respectivamente a 41% e 40%. Ademais, o Brasil aparece em primeiro lugar em volume de produção de conhecimento sobre homens e masculinidades na América Latina, seguido por México, Colômbia, Chile e Argentina.

Recentemente, saíram alguns textos no espaço público debatendo masculinidade e política, referindo-se mais precisamente ao avanço de chefes de Estado em diversas nações (inclusive a nossa), tidos como truculentos, autoritários, com um forte discurso bélico e “anti-minorias”. À grosso modo, os argumentos centrais da maioria desses textos exploram a relação entre essa aparente “masculinidade tóxica” (tanto dos políticos como do eleitorado), sua legitimidade e ascensão no cenário político, tendo prováveis desdobramentos nocivos ao conjunto da sociedade.

Olhando para esses cenários podemos perceber que as reflexões sobre homens e masculinidades podem ser uma “entrada” desafiadora e produtiva para a análise política. Assim, minha intenção nesse texto é trazer algumas considerações introdutórias sobre as possíveis associações entre relações raciais, gênero masculino, virilidade e política.

Virilidade e Branquitude

O advento dos estudos da branquitude, que pode ser definida como um lugar de vantagem estrutural, um ponto de vista e “um conjunto de práticas culturais, que geralmente não são marcadas nem denominadas” (FRANKENBERG, 2004, p. 81), tem contribuído muito para o campo das relações raciais, possibilitando que negros e brancos, principalmente os últimos, sejam lançados para dentro das interações sociais como indivíduos e grupos “racializados”. Em outras palavras, que as pessoas consideradas socialmente brancas, sejam uma variável de análise relevante para os trabalhos e investigações sobre relações étnico-raciais. Essa perspectiva atravessada por outros marcadores sociais potencializa a compreensão sobre o racismo e outros fenômenos sociais.

Simultaneamente, temos a construção das masculinidades, pois não basta a base biológica para que um homem seja considerado “realmente um homem”, a princípio ele o é potencialmente. É necessário todo um processo de socialização e aprendizagem, onde valores, normas e sistemas de representação são acionados para que nos tornemos “efetivamente homens”.

Um dos elementos fundamentais que fazem parte dessa construção é a virilidade, que remete aos órgãos sexuais masculinos, à atividade, e a penetração. Mas não só isso, a virilidade abrange códigos e fundamentos ideológicos de virtude oriundos da antiguidade clássica greco-romana “… o termo latino vir estabelecerá por longo tempo em inúmeras línguas ocidentais, virilita, “virilidade”, virility: princípios de comportamentos e de ações designando, no Ocidente, as qualidades do homem concluído, dito outramente, o mais perfeito do masculino” (VIGARELLO, 2013, p. 11). Esses princípios podem ser: a coragem, equilíbrio, lealdade, responsabilidade, vigor, controle (sobre si e o outro), espírito de competição, dominância, força, etc. Ademais, é preciso salientar que “… violência e virilidade não são sinônimas: é possível ser violento sem ser viril, e vice-versa” (FARGE, 2013, p. 511)

Tanto a masculinidade quanto a virilidade se entrelaçam e se alteram no tempo e no espaço, com certas particularidades para homens negros e brancos. Isso sem me estender na questão de que tanto a masculinidade quanto a virilidade podem ser construídas em corpos femininos, existindo, portanto, “mulheres viris”, contanto que cumpram determinados códigos masculinos, assim como os homens têm de fazer.

Em todo caso, a política se configura como um palco privilegiado para exibir a imagem e conduta viris, principalmente para os homens brancos provenientes das classes médias e abastadas, que são em sua maioria aqueles que disputam as eleições e são eleitos. Assim, como Mara Vigoya (2018, p.144) entendo que a branquitude e a masculinidade seriam “fontes de legitimidade política e popularidade”.

O político viril

Há séculos o espaço da política tem sido exercido por uma “elite masculina”. Nos berços civilizatórios do Ocidente, Grécia e Roma, a política era basicamente uma atividade de poucos homens privilegiados, o que continua sendo. No Brasil de 2018, a recente eleição trouxe à tona um perfil de homem público que encontra seu capital político na “exaltação da virilidade”, tanto em seu sentido moral, quanto físico. Houve um aumento substancial nessa eleição de homens ligados as áreas de segurança, justiça e empresarial, como policiais, militares, juízes e homens de negócios. Isso sinaliza, dentre outras coisas, que o Brasil deseja que o lema positivista, “Ordem e Progresso”, em sua bandeira, seja colocado em prática. Se realmente será esse o tipo de homem público que trará um “Brasil Varonil”, e se isso, de fato, será bom para o país, é outra discussão.

Congresso brasileiro

Em nosso imaginário, de ranço colonial e escravocrata, tal missão caberia ao homem branco, é verdade que se Joaquim Barbosa tivesse concretizado sua candidatura poderíamos ver in loco, como essa disputa se daria. De todo modo, esse papel coube à Jair Messias Bolsonaro, o “Messias viril”. O presidente eleito em 2018 soube manusear com maestria toda uma gramática da virilidade na disputa presidencial, se colocando como aquele que salvará a pátria dos perigos que a assombram, que, em seus termos, seriam: o comunismo, a ideologia de gênero, a violência e a corrupção, sobretudo aquela praticada pelo Estado. E aciona para isso, seus supostos atributos morais: o caráter e patriotismo viris, a defesa da família, a reverência à Deus e a rigidez no combate ao crime.

Além disso, seu passado nas forças armadas, no contexto atual de altíssimos índices de violência, virou um ativo político. Em certos momentos históricos críticos, essa imagem de um homem íntegro, dotado de virtudes militares e religiosas tende a trazer uma sensação de segurança e esperança para a população. O arquétipo viril do combatente em defesa da pátria se projetou na figura de Bolsonaro.

O homem negro e o poder político

Não são todos os homens que dispõem dos mesmos poderes e privilégios, há uma hierarquia interna ao grupo masculino. O colonialismo e a escravidão negra são momentos e processos cruciais para entendermos a lógica que atravessa as relações entre homens negros e brancos na política. A pergunta é: como os homens negros adentram a política eleitoral? Usualmente subordinados e indicados pelos homens brancos, seja de partidos de esquerda ou direita. Infelizmente ainda não há partidos criados e dirigidos por mulheres e homens negros, existem algumas iniciativas nesse sentido e torço para que deem certo. De qualquer maneira, o exercício da virilidade na política implica no poder de mando e na autoridade, algo que historicamente têm estado nas mãos dos homens brancos, e em menor grau, e mais recentemente, na de mulheres brancas, demonstrando a proeminência do vetor racial sobre o de gênero na política brasileira.

Um problema a ser enfrentado por nós é que os estereótipos racistas enquadram o homem negro como um degenerado, então, suas qualidades viris são sistematicamente desqualificadas. Sua força é associada à brutalidade, sua coragem à barbárie, sua sexualidade com devassidão. Ou seja, uma virilidade selvagem e brutal. Em uma palavra: hipervirilizados. Por outro lado, esses mesmos estereótipos nos associam à indivíduos, apáticos, inofensivos e servis, remetendo as famosas figuras dos pais joãos e negros da casa. Isto é: desvirilizados. Ou somos vistos como brutamontes descontrolados, ou serviçais obedientes. Como ser eleito nesses termos? O enfrentamento a esse tipo de estigma racista é primordial para nosso sucesso político.

Alberto Guerreiro Ramos, Abdias do Nascimento e João Conceição na década de 50

Isso não quer dizer que não tenhamos ao longo de nossa história, políticos negros, Nilo Peçanha e Monteiro Lopes, (1909–1910) Abdias do Nascimento (1983–1987/1997–1999), Guerreiro Ramos (1963–1964), Carlos Alberto Caó de Oliveira (1982–1986/1987–1990) são alguns desses grandes nomes. Contudo, habitualmente o espaço de atuação dos homens negros é na micropolítica do cotidiano. Quilombos, revoltas, rebeliões, movimentos sociais e organizações populares no Brasil tem o “DNA do homem negro”. Essa constatação não dispensa a importância de termos no Brasil do século XXI homens negros em cargos políticos de destaque, comprometidos com as reivindicações da população negra.

O que quero apontar é que muitas vezes a “criminalização da virilidade”, no debate de gênero é simplista, e não se sustenta, pois, valores viris são milenares, perpassam todas as sociedades humanas, com nomes e significados plurais podendo ser usados para diferentes propósitos, inclusive para a luta anti-racista. O Brasil está repleto de homens negros viris que emprestaram essa virilidade para essa luta, na política ou não. Zumbi com sua força guerreira, Luiz Gama e sua energia intelectual, Abdias do Nascimento e sua eloquência vigorosa, a inteligência destemida de Guerreiro Ramos, a ginga valente de Madame Satã, Lima Barreto com sua escrita ácida e corajosa, a liderança militar de João Cândido e por aí vai. Homens pretos gerando outros homens pretos. Somos tantos…

“Viva Zapata! Viva Sandino! Viva Zumbi! Antônio Conselheiro! Todos os Panteras Negras, Lampião, sua imagem e semelhança. Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia”. Monólogo ao pé do ouvido. Nação Zumbi

Referências Bibliográficas

FARGE, Arlette. Virilidades populares. In: Georges Vigarello (ed.) História da Virilidade 1: A invenção da virilidade Da Antiguidade às Luzes. pp. 495- 523, 2013.

FRANKENBERG, Ruth. A miragem de uma branquidade não marcada. In: VRON WARE (org.). Branquidade: identidade branca e multiculturalismo. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

VIGARELLO, Georges. Introdução A virilidade, da Antiguidade à Modernidade. In: Georges Vigarello (ed.) História da Virilidade 1: A invenção da virilidade Da Antiguidade às Luzes. pp.11–70, 2013.

VIGOYA, Mara Viveros. As cores da masculinidade: Experiências interseccionais e práticas de poder na Nossa América. Rio de Janeiro, Papéis Selvagens, 2018.

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Cinema

Sobre Necropoética e Cinema Negro com Sotaque Mineiro

Por Viviane Pistache*

A conciliação entre negro-tema e negro-vida num cinema de assunto e autoria negra concomitante, foi inaugurada por Zózimo Bulbul com o emblemático curta Alma no Olho (1973), realizado com as sobras do longa Compasso de Espera (1973), dirigido por Antunes Filho e protagonizado por Zózimo. Cinema sempre foi caro e o nosso começou na espreita, nas brechas, nos retalhos que caíram da moviola. Assim o cinema negro nasce  com gosto de reinvenção e reaproveitamento, como feijoada ou pastel de angu. Desde Zózimo o cinema negro conhece as dificuldades e desafios para parir longas metragens de ficção. Depois de Zózimo Bulbul veio o mineiro Joel Zito Araújo, Jeferson De, a mineira Glenda Nicácio, e os mineiros André Novais, Gabriel Martins. Sim, se conta nos dedos o número de diretores/as negros/as que já estrearam longas de ficção de assunto negro.

Mais do que nunca precisamos falar do manifesto Gênese do Cinema Negro Brasileiro ou Dogma Feijoada puxado por Jeferson De em 2000, que dentre as sete prerrogativas diz sobre a urgência de se fazer filmes dirigidos e protagonizados por gente preta e a abolição de histórias e personagens cunhadas em estereótipos. Mas para superar a tese da Negação do Brasil, sagazmente diagnosticada por Joel Zito Araújo em 2000, realizadores/as negros/as precisam ter acesso a financiamento.

Ainda que percentualmente ínfimas, essas narrativas tem incomodado e interpelado o status quo, conforme se viu no Festival de Brasília em 2017 diante da polêmica ensejada pelo filme Vazante da diretora Daniele Thomas, que amplificou as poucas vozes negras no evento. Conforme questionou a cineasta negra Viviane Ferreira na ocasião: Por que raios a presença de pessoas negras na 50ª edição do Festival de  Brasília  tem causado mais incomodo do que nossa ausência histórica do circuito de distribuição de recursos, prestígios e status do audiovisual?

Um saldo positivo do festival de Brasília foi a denúncia das ausências, das invisibilidades e da celebração dos/as pouquíssimos/as jovens negro/as que estouraram a bolha, como a mineira Glenda Nicácio que compartilha a direção dos seus longas com Ary Rosa. Ao fazer cinema no interior da Bahia, inventando assim um cinema “baianeiro”, Glenda traz o debate não apenas da direção negra feminista, como atualiza a discussão das desigualdades regionais. Cinema tem sotaque. E esse óbvio ululante vem à tona com o cinema negro mineiro.

Filhas do Vento (2005), primeiro longa de ficção dirigido por Joel Zito, mineiro de Nanuque, inaugura o cinema de assunto e autoria negra com sotaque mineiro. A trama se passa em Lavras Novas, cidade vizinha a Ouro Preto. É uma história de fuga e reconciliação com as raízes mineiras, de tentativa cura das dores da infância assombrada pelo passado escravocrata e patriarcal.

André Novais e Gabriel Martins têm elevado o cinema negro mineiro à sua potência máxima. Gabriel Martins faz em Rapsódia para um homem negro (2015) um encontro melódico entre a música negra mineira e o cinema negro mineiro. Em Belo Horizonte existe um festival de música chamado IMUNE, Instante da Música Mineira Negra. O cinema mineiro também vive esse instante IMUNE de um cinema que começa com M de movie e movimento que leva Minas pro mundo. Os filmes de André Novais  já foram selecionados em mais de 200 festivais no Brasil e no mundo como o Festival de Locarno (com Temporada), a Quinzena dos realizadores em Cannes (com Pouco mais de um mês em 2013 e Quintal em 2015), Festival de Rotterdam, FID Marseille, Indie Lisboa, BAFICI, Festival de Cartagena, Los Angeles Brazillian Film Festival, Festival de Cinema de Brasília e Mostra de Cinema de Tiradentes, ganhando mais de 60 prêmios, como a Menção Especial do Júri na Quinzena dos Realizadores em Cannes (Para Pouco mais de um mês, Prêmio Especial do Júri no BAFICI e os prêmios de Melhor Filme pelo Júri Oficial na XI Semana dos Realizadores do Rio de Janeiro, no XI Panorama Coisa de Cinema de Salvador e no III Olhar de Cinema de Curitiba (Para Ela volta na quinta) e os prêmios de Melhor Longa Metragem, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Para Temporada). Gabriel Martins está na edição de 2019 do Festival de Roterdã na Holanda para a estréia de seu longa No Coração do Mundo co-dirigido com Maurílio Martins.

Os longas Ilha e Temporada e o média-metragem Vaga Carne e o curta BlueNoir de Ana Pi são as produções com direção negra mais celebradas nos dois primeiros dias da 22a. Mostra de Cinema de Tiradentes, a primeira grande janela anual do cinema brasileiro. Cada um a seu modo, tematiza a necropolítica e a necropoética. Necropolítica é um conceito cunhado filósofo e teórico político camaronês Achile Mbembe para as políticas e instituições que ditam quem deve viver ou morrer. O poder de determinar a vida e a morte provendo o status político de alguns sujeitos e negando o status político de outros. Diz sobre a intencionalidade e racionalidade meticulosa no controle e extermínio de determinados corpos. Tal conceito tem sido fundamental no debate sobre todas formas de genocídio a que a população negra tem sido assujeitada. E isso inclui a negação da negritude  nas telas do cinema.

Daí a possibilidade de pensar em necropoética. O neologismo foi criado por Juliano Gomes no debate sobre o filme Vaga Carne na Mostra de Tiradentes. Juliano dizia sobre a relação entre samba, poesia e morte como formas de resistência; citando Nelson Cavaquinho e sua intimidade com a morte pra trazer lirismo à dura sobrevivência. E o média-metragem Vaga Carne traz a voz (des)encarnada, a voz entidade, corpo etéreo de um lugar no limbo, num estado intermediário entre a vida e a morte.

O curta BlueNoir traz a morte e ressurreição da expressão azul de tão preta, historicamente usada ofender ao nivel da dança que toca os céus. Ana Pi faz uma viagem interior e coletiva por dez países do continente africano. Se redescobre negra singular num ciranda. Um corpo feminino negro no mundo que é sua própria embarcação para contar a história do berço compartilhado por um povo em diáspora. Fotografia, dança, música e oralidade em cores bem montadas pra fazer as pazes com o azul.

Ilha por sua vez, tem um quê de é doce morrer no mar depois do torpor que toma corpo de um corpo negro e masculino cuja vida foi nadar contra corrente e contra a morte até abraçá-la. Ilha tem o azul de Moonlight.  E assim como a lua abraça a estrela, também derrama sua luz na pele dos meninos negros para que o azul de suas almas resplandeça. Ilha traz o argumento latente de que todo menino negro precisa do mar para que sua alma possa brilhar incontestavelmente azul. Assim, todo menino-homem negro merece um oceano de oportunidades para estar no meio do mundo e poder navegar pelo menos com confiança. Ilha traz diversas faces do homem negro que usa máscara musculosa mas que precisa apenas de um bom prato de afeto e cidadania. Nesse poético retrato sobre masculinidades negras, Ilha nos oferece a chance de sairmos do clichê homem preto, heteronormativo falocêntrico, criticando assim a hiperssexualidade negra. Merecidamente Ilha levou os prêmios de melhor roteiro e melhor ator para Aldri Anunciação no Festival de Brasília em 2018. Assim, Glenda Nicácio milita por um cinema regional que celebra a negritude a partir da fraternidade dos sotaques mineiro e baiano com os premiadíssimos Café com Canela (2017) e Ilha (2018).

Temporada  traz uma potente crônica da vida preta na periferia que se vê cercada da ameaça da morte em sua face moderna chamada de epidemias como dengue, zika, chikungunya, dentre outras. O diretor André Novais disse no debate sobre o filme na 22a. Mostra de Tiradentes que já foi agente de saúde e o filme é uma releitura das precariedades do mundo do trabalho a partir de sua própria experiência. O longa é protagonizado por Juliana magistralmente encarnada em Grace Passô que levou o prêmio de melhor atriz no último festival de Brasília e em Locarno na Itália.  É um sensível olhar sobre a solidão da mulher negra que busca caminhos para a liberdade e a solitude. Um melodrama que sabe ri do exagero e do inesperado, que traz o onírico e a ficção científica para fazer realismo fantástico, que pedi licença respeitosamente para entrar nas casas da periferia para falar de vida e de morte.

O cinema mineiro está tecendo a poética da morte para tensionar privilégios e debater acessos cada vez mais ameaçados. Ao passo que reverencia a ancestralidade mineira, satiriza a  (im)possível  aposta negra na ascensão liberal no audio-visual.  Neste sentido, vale arriscar lembrar o impacto do discurso da apresentadora Oprah Winfrey na cerimônia de entrega do Globo de Ouro, quando escancarou as lacunas e potências num discurso sobre representatividade negra para além da indústria do entretenimento. Sua fala soou tão necessária que rapidamente Oprah foi apontada como possível panaceia para sanar as enfermidades da combalida democracia norte-americana. Assim, uma mulher negra, que fez carreira na indústria do entretenimento, ao passo que denuncia as desigualdades de raça e gênero na representatividade no audiovisual, ocupou também um complexo papel de bússola para uma nação sem rumo. Apesar do desconforto de saber que o traje do sistema é uma camisa de força com estampa neoliberal; dentro das margens opressoras, talvez seja possível considerar que Oprah e um conjunto de artistas e diretoras/es negras/os estejam ajudando a esgarçar alguns limites, colorindo de gênero e raça correntes ideológicas do entretenimento que são hegemonicamente brancas e masculinas.

Se por um lado é sintomático destes tempos a noção de que devemos nos adaptar ao mundo em mudança, e não mudar o mundo em que vivemos; por outro, os poucos nomes negros e mineiros da atual cena do longa-metragem brasileiro  nos convocam a atentarmos para os papéis das estruturas políticas, econômicas e sociais para o enfrentamento da lógica da necropolítica. Ainda que temos orgulho desse cinema negro mineiro que tem asa na palavra; buscamos a terceira margem do rio.

O cinema negro mineiro está fazendo história.  Apesar da potência transformadora das narrativas negras no audiovisual, o tripé racismo, machismo e capitalismo continua sendo um grande obstáculo para a realização a efetiva escrita de outra história. De fato, ainda que a indústria cultural  exproprie o fazer artístico no sentido de reduzí-lo a meros produtos comerciais; mensagens potentes podem eventualmente infiltrar nas brechas da maquinaria capitalista e contrariar as  correntes que reificam valores racistas e sexistas. E já que o protagonismo não é dado, ele deverá ser tomado. Essa tem sido também a estratégia de realizadoras/es negras/es mineiros  que têm negritado o quão racista e machista é nossa produção que insiste na falácia da neutralidade de sotaques.

 

*Viviane Pistache é psicóloga, roteirista e crítica de cinema. Preta das Gerais com mania de ter fé na vida.

 

 

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Direitos Humanos Internacional

Consulta Regional das Américas discutirá Direitos Humanos com ativistas do continente

Por Marina Souza Neste sábado (08), a partir das 09 horas, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) se reunirão na sede da Comissão em Washington DC, para realizar uma Consulta Regional sobre Mecanismos Regionais de Direitos Humanos nas Américas, a fim de debater maneiras de combate ao racismo, xenofobia e outras tipos de intolerância. Com o intuito de legitimar a discussão, o evento trará representantes de mecanismos regionais e sub-regionais de Direitos Humanos. Os convidados, que têm diferentes afinidades com a temática, são ou já foram membros de instituições, organizações, academia e/ou vida política.
Douglas Belchior é um dos convidados para participar da mesa “Marco para o Combate e a Erradicação Efetiva do Racismo, Discriminação racial, Xenofobia e Formas Conexas de Intolerância: Medidas Especiais e Ações Afirmativas”, que acontecerá durante a Consulta Regional, em Washington DC. | Foto: arquivo pessoal
“É muito importante que a representação política do povo negro acesse instituições, espaços e microfones internacionais para levar denúncias e sobretudo, demonstrar a nossa capacidade e força de articulação de luta política”, diz o participante Douglas Belchior. O objetivo geral da Consulta é o de melhorar a cooperação entre os mecanismos interamericanos e os internacionais de Direitos Humanos, a fim de desenvolver propostas concretas de cooperação entre os representantes e Estados-Membros. Faz pouco mais de um mês que a CIDH veio ao Brasil, sob convite do governo federal, para participar de reuniões com diversos membros políticos de diferentes setores sociais. Além disso, a Corte fez análises empíricas nas áreas urbanas e rurais de Minas Gerais, Maranhão, Roraima, Pará, Mato Grosso do Sul, Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro.
O assassinato da vereadora Marielle Franco, a imigração dos venezuelanos no Brasil e a responsabilização do Estado pela morte de Vladimir Herzog foram alguns dos temas explorados pelo órgão no país durante este ano.
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O quê que tá pegando? Política

Qual o custo da eliminação de uma liderança negra do cenário político institucional para a Democracia?

Por Adriana de Cássia Moreira

 

E quem mudaria? Quem mudaria seria quem estivesse no sofrimento. Quem arreda a pedra não é aquele que sufoca o outro, mas justo aquele que sufocado está.  (Ensinamentos de Vó Rita, personagem do romance Becos da Memória de Conceição Evaristo)

 

No dia 23/07, foi publicada no portal do UOL uma entrevista com o pré-candidato Douglas Belchior, professor,  dirigente da UneAFRO Brasil, organização do movimento negro que, há 10 anos pelo menos, trabalha com educação popular e hoje conta com mais de 40 núcleos de base em funcionamento, fazendo formação política e fortalecendo as trajetórias educacionais de jovens [email protected] e pobres nas mais diversas regiões periferizadas do Estado de São Paulo, a entrevista em questão tratava sobre política partidária, negritude, financiamento e distribuição de recursos em campanhas eleitorais.

Financiamento de campanha é, definitivamente, uma questão dura a ser enfrentada, calcanhar de Aquiles do sistema político brasileiro, muito já se debateu sobre a questão e poucas ações de modo a produzir avanços do ponto de vista democrático foram encaminhadas. A temática abordada na entrevista, justamente, tocou em uma das questões fundantes, muito cara à política brasileira, sobretudo nestes momentos de organização interna dos partidos tendo em vista o início do período eleitoral, qual seja, como os recursos do fundo partidário são distribuídos entre as candidaturas nas legendas partidárias.

O debate enunciado por Belchior, na entrevista, não nega um debate mais aprofundado a respeito de como se pensar um sistema eleitoral mais democrático, gastando menos dinheiro, sendo mais efetivo em comunicação de propostas do que em marketing pessoal levando em conta o fato de que, mesmo que seja do ponto de vista retórico, há um consenso  na sociedade brasileira sobre a necessidade de renovação de propostas que encaminham um projeto nacional e que tal empreita não pode prescindir de [email protected] quadros e lideranças políticas.

Daí surge uma questão que se pressupunha capital para o campo progressista: como fortalecer lideranças políticas que representem a inovação do ponto de vista da representatividade e ao mesmo tempo estejam vinculadas a um tradição de luta social orgânica, quadros que performassem na disputa da política institucional os setores mais vulnerabilizados da sociedade brasileira nas suas formulações, conteúdos e métodos mesmo em um cenário adverso.

Cenário político esse que, de maneira sintética, poderia ser caracterizado pela principal liderança política popular brasileira presa sem nenhuma prova concreta que o condene; com apenas 45 dias oficiais de campanha eleitoral; com objetivas perseguições aos partidos do campo popular e os mais diversos expedientes mobilizados para se criminalizar a militância social; a ausência de interdição social dos discursos  de ódio sustentadores de considerações apressadas e simplórias do estado de coisas em que se vive aliado a compreensões politicas dos mais variados tons os quais perpassam o liberalismo econômico e o conservadorismo moral; e a descrença da população na política institucional de maneira geral.

Ingenuidade histórica acreditar que nesta conjuntura, preocupações tão importantes tal como democratizar a acesso da população negra, indígena, mulheres e LGBTs  aos poderes da política institucional centralizariam as agendas partidárias a ponto de os partidos políticos se debruçarem por sobre os seus funcionamentos e repensassem os mecanismos viciados de distribuição de recursos internos para fazer, inclusive, com que as representações das populações mais vulnerabilizadas da sociedade brasileira obtivessem estruturas suficiente para realizar, no âmbito da política eleitoral,  o potencial pleno das experiências acumuladas em mais de 300 anos de sujeição e luta para garantir vidas historicamente sufocadas.

Lamentavelmente, neste momento singular de reorganização histórica do campo progressista, após um golpe institucional que parece não cessar nunca, a necessidade premente de se discutir uma proposta alternativa, progressista e que se centralize à partir da garantia da vida, um dos principais instrumentos estratégicos desse período, o PSOL não ter a grandeza política e a generosidade revolucionária necessária para suportar os questionamentos, que não dizem respeito apenas a ele próprio, muito embora Douglas Belchior cerre fileiras neste partido, ampliar o debate, rever posicionamentos e abrir mão do papel histórico, transformador da política nacional, que lhe caberia.

O que se viu no último período, em particular nas redes sociais, foram exemplos cabais de tentativas de desconstrução da legitimidade de uma liderança social do movimento negro com 20 anos de história de luta,  que entre tantas outras que poderiam estar na disputa, foi uma das que resistiu e sempre vocalizou a denúncia, a  construção e as proposições das  formulações construídas por forças políticas negras.

Uma das perversidades do racismo contra negros é considerar pessoas negras menos inteligentes, pouco afeitas aos pensamento lógico racional e incapazes de formulações políticas, quando observamos  a maneira pouco digna pela qual o debate enunciado por Belchior percorreu, no sentido de potencializar desqualificações metodológicas e, como bem considerou a advogada e militante do Movimento Negro Beatriz Lourenço, ausente de coragem em não enfrentar o mérito da questão, demonstra de maneira exemplar como o racismo opera no jogo político-narrativo nos partidos.

A título de exemplo do que ocorreu na última semana, no intuito de materializar, exatamente, o expediente racista dessa política-narrativa é possível destacar a maneira pouco honesta com a qual o professor Maringoni, militante histórico da esquerda brasileira, filiado e com atuação de revelo no PSOL, tentou encaminhar o debate.

Como pode ser observado no post, o intelectual demonstrou a sua pouca sensibilidade e compreensão da complexidade da sociedade brasileira e  de como o racismo é um força promotora de morte. No intuito de desqualificar Belchior e o trabalho da UneAFRO- Brasil que, por meio de um edital público promovido por uma organização internacional, conquistou a possibilidade  de receber recursos para custear algumas atividades destinadas a estudantes [email protected] e pobres como transporte e lanche, além de recursos mínimos para o funcionamento de uma secretaria diminuta, que causaria espanto se comparado a qualquer grande ONG financiada pelas mesmos tipos de instituições, as quais tem em seus conselhos intelectuais renomados, via de regra, brancos, ligados a instituições públicas de ensino e pesquisa, que constroem suas respectivas carreiras acadêmicas teorizando muito de como o mundo deve vir-a-ser, por vezes, engajados em partidos políticos e com gordurosos pró-labores, mas pouco sensíveis e incapazes de traduzir o sofrimento do povo em proposições políticas  efetivas e que superem os sofrimentos destas coletividades; boa parte das vezes, distanciados e pouco sensíveis do cotidiano subalternizado da vida.

Esse episódio da vida pública nacional, também, demonstrou, enquanto sociedade, nossa pouca compreensão histórica da política brasileira, nossa pouca atenção ou talvez, interesse em aprender com os erros passados.  Como se sabe, a memória de uma sociedade é muito mais aquilo que se narra, os motivos que foram relevantes para se escolher os fatos que foram narrados e as forças sociais que legitimam a narração. Cabe, portanto aqui, um esforço de recontar um passado recente, momentos iniciais de disputa interna do campo democrático e construção da Nova Republica que, costumeiramente, foi deixada ao lado, porém, sempre que possível retomada pelo Movimento Negro.

Lélia Gonzales, uma mulher negra resistente, uma das militantes de maior expressão do movimento negro dos anos 80, filiada ao PT desde 81, em 1985, entregou sua carta de desfiliação, tendo como um dos argumentos centrais o fato do partido, mesmo tendo em suas fileiras homens e mulheres negras alinhados com a estratégia, suas formulações e protagonismo nunca eram centralizadores do processo político do partido mais popular da história do Brasil, escreveu:

Afinal, foi graças ao PT (às suas propostas) que me decidi a entrar na vida político-partidária, acreditando na possibilidade de inovação dentro da mesma. Disso, não poderei me esquecer; embora sabendo que os caminhos são tortuosos e que a luta não pode deixar de continuar junto com e em favor dos explorados, oprimidos, discriminados e que a luta não pode deixar de continuar junto com e em favor dos explorados, oprimidos, discriminados. Com respeito de sempre, as saudações cordiais de quem sempre buscou estar nas lutas dos discriminados. (GONZALES, Lélia. 1985)

É chegada a hora do campo progressista, dos partidos políticos de esquerda observarem o seu passado recente, reconhecerem que os erros históricos não são prerrogativas exclusiva do governo Lula ou a sua adesão a um projeto nacional Neo-desenvolvimentista; enfrentar suas singulares  dificuldades em reconhecer o RACISMO e o PATRIARCADO como forças construtoras das desigualdades nacionais e que impõe suas dinâmicas às CLASSES SOCIAIS;  que um projeto alternativo de soberania nacional, geração e distribuição de riquezas só faz sentido se a garantia da vida de todas as pessoas for o fim; que há de se ter coragem para enfrentar e criar estratégias que incidam sobre os poderes internos aos partidos de forma a construir mecanismo para que os militantes da base, @s negros, as mulheres, @s LGBTs sejam reconhecidos como formuladores políticos legítimos, não apenas operadores da política;  e que o reconhecimento de tal legitimidade se dá, inclusive, não apenas, por meio de condições estruturais de promover os debates, as proposições, as lideranças e, por que não, estrutura robusta para se participar do processo eleitoral; reconhecer que não é possível assumir o erro histórico, como acontecera no passado, de tornar insustentáveis a permanência de lideranças negras, mulheres, LGBTs dos partidos, das organizações e coletivos dos movimento sociais.

O preço do não enfrentamento radical ao racismo pelos partidos de esquerda foi: por mais de trinta anos o sufocamento de um debate progressista sobre a garantia da vida e segurança pública no Brasil, o que resultou nos mais de 60 mil homicídios anuais que a sociedade brasileira tem de conviver e fazem de nosso país apenas um ensaio débil de uma pretensa e frágil democracia.

 

Por todas as pessoas que foram sequestradas do continente africano e morreram na travessia do Atlântico.

Por todas as pessoas que aqui chegaram e foram forçadas ao trabalho compulsório;

Por todas as pessoas que sofreram as torturas dos corpos e das almas;

Por todas as mulheres negras e indígenas estupradas;

Por todas as crianças forçadas ao trabalho para sobreviver;

Por todas as mães dos filhos mortos pelo Estado;

Por todas as mulheres negras que sofrem violência doméstica e no parto;

Por todas as pessoas presas que foram impossibilitadas de construir caminhos para a vida distante do cárcere;

Pelo direito à vida livre das amarras do racismo, do patriarcado, da lgbtfobia e do capital;

Por [email protected] os povos [email protected] do mundo;

Por Zumbi dos Palmares, Dandara de Palmares, Maria Firmina dos Reis, Cruz e Souza, Lima Barreto, Antônio Conselheiro, Mariguella, Oswaldão, Helenira Rezende, Dadá (Maria Sérgia), Carolina Maria de Jesus, Guerreiro Ramos, Luana Barbosa, Matheusa, Amarildo, Marcos Vinícios, Lélia Gonzales, Beatriz do Nascimento, Clóvis Moura, Abdias do Nascimento, Milton Santos, Eduardo Oliveira, Amilton Cardoso, Virgínia Bicudo, Neusa Santos, Sabotage, Marielle Franco  e [email protected] [email protected]

#FaremosPalmaresDeNovo

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O quê que tá pegando? Política

Enegrecendo a política: Douglas Belchior lança sua pré-candidatura

Douglas Belchior e Sonia Guajajara

Atualmente, os representantes do cenário político espelham qual sociedade? Será que a população se enxerga nesse grupo com diversidade étnica, de gênero, cultural e social praticamente nula? As eleições de 2018 prometem causar questionamentos similares a esses. E, para algumas figuras, as indagações vieram acompanhadas por uma necessidade concreta de transformação: a inserção na área política.

Após 98 dias da morte da socióloga e vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, o movimento negro – que tanto sofre e luta pelo andamento das investigações da execução da militante – se reuniu no último sábado, 9, para o sarau manifesto que marcou o lançamento da pré-candidatura de Douglas Belchior para Deputado Federal pelo PSOL.

Realizado no Teatro Oficina, o evento teve um público de 600 pessoas. A plateia era composta por militantes e lideranças do movimento negro, artistas, parlamentares e apoiadores da campanha. Entre elas e eles, a fundadora do Geledes, Sueli Carneiro, o fundador do Movimento Negro Unificado (MNU), Milton Barbosa, o poeta Sérgio Vaz, a rapper Preta Rara, o multiartista Salloma Salomão e a professora Bianca Santana.

Outras pré-candidaturas do PSOL estiveram no evento, como Sonia Guajajara, Érica Malunguinho, Ana Mielke, João Paulo Rillo e Carlos Gianazzi. O fundador da UneAfro também contou com o apoio de centenas de assinaturas em seu manifesto (disponível aqui).

 

Confira outras fotos:

Conheça, participe e ajude fortalecer o movimento negro brasileiro Acesse: Uneafro Brasil

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Futebol

O futebol é indissociável. O futebol é o povo.

Por LUARA COLPA

“Há um tempo discute-se a problemática “Futebol Moderno”. Falar de Futebol Moderno é falar de regras impostas por uma Federação alheia ao povo. É falar de proibição: Proibição de sinalizadores (mesmo os que só ascendem), proibição de assistir o jogo em pé, de brincar com o adversário, de “chapéu pra trás”, e dribles que só quem é menino dá conta!

Futebol moderno é ainda: chuteira colorida, perda de espontaneidade, lógica de mercado, de marketing, elitização do futebol, de expulsão das Gerais, de ingresso caríssimo e de jogo às 22hs. Futebol moderno é aquilo que tratora a dinâmica das cidades, junto com Megaeventos que de legado só deixa: Gentrificação, desmonte de cultura popular, despejos forçados e impactos reais em quem de fato protagoniza o futebol: A torcida, os moradores, as cidades!

Quem propõe o Futebol Moderno faz o discurso “Fair Play” pela boca, e “Unfair Player” na prática. Noutras palavras: Estabelece-se um roteiro de práticas de jogo e práticas econômicas, que teoricamente existem para “organizar positivamente” o futebol, e no entanto coloca-se para gerir o roteiro, entidades demagogas e corruptas.

O futebol moderno é fruto de uma cúpula poderosa que gere, mas que despreza pessoas, culturas e organização popular.

Talvez Blatters, Teixeiras e outros sanguessugas não saibam, mas não existe uma ocupação urbana (espontânea ou organizada) que surja em torno de um campinho e que invada o campo. Já repararam? Campo de futebol é sagrado. É lá no terrão que se darão as dinâmicas diárias. É lá que o moleque cai e levanta. É a Dona Maria que cura depressão fazendo suco pra meninada. É a outra senhora que lava os uniformes e tem permissão pra dar bronca na criança até a fase adulta. Terrão é torcida, é briga, é emoção, choro e riso… Solidariedade.

Foto: Renato Stockler
Foto: Renato Stockler – na exposição “Terrão de cima”

Terrão pode ser campo, pode ser rua, até viela, só não pode deixar de existir. E o jogo só interrompe se passar um sofá no meio, uma mudança de alguém. Todo mundo para e ajuda. Aqui, no Alemão, no Vale das Pedrinhas, em Guiné Bissau, na Argentina:

Futebol não é ópio. E terrão molda caráter.

Foto: Renato Stockler - na exposição "Terrão de cima"
Foto: Renato Stockler – na exposição “Terrão de cima”

Trazendo a pauta especificamente para o Brasil, pode-se comparar o Futebol Moderno também ao modus operandi da política institucionalizada. Essa que teve e tem espaço para se re-significar nas ruas mas que, também passa pela mesma crise: O distanciamento do povo.

Ambos não se atentam para o óbvio. O futebol, assim como a política, não é objeto de barganha de uma cúpula, o futebol e a política são do Povo, porque o futebol e a política são o povo. Indissociáveis.

Que cada dia mais se entenda o quão dono dessas dinâmicas nós somos. Que tomemos para nós o protagonismo. Que venham nossos meninos no futebol e na política, para um mundo com mais Pelés e menos Edsons – se é que me entendem!”

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Luara Colpa é brasileira, tem 28 anos. Colunista no BHAZ. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve. 

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Política

No dia do golpe, me lembrei de 2002

Dirceu e Palocci em fevereiro de 2004: na chegada do PT ao poder está a raiz de seus problemas (Foto: Wilson Dias/ABr)
Dirceu e Palocci em fevereiro de 2004: na chegada do PT ao poder está a raiz de seus problemas (Foto: Wilson Dias/ABr)

por Douglas Belchior

Era primeiro semestre de 2002.

Eu era militante orgânico do PT. Me alinhava à chamada “esquerda” petista. Me opunha à direção majoritária capitaneada por Lula e Dirceu. Em bloco, esses grupos de oposição interna (eu integrava o Plenária “A Luta Faz a Lei”), se colocavam contra a ampla política de alianças que se desenharia a seguir.

O Congresso Estadual do partido em SP ocorreu num domingo. Não me lembro mês e dia exato. O ponto alto seria o debate sobre política de alianças. A direção majoritária do PT queria aprovação em plenário uma aliança em nível estadual com o PMDB. José Genoino, após um intenso processo de prévias internas, saíra vencedor da disputa da indicação à candidatura para governador, contra Renato Simões, pré-candidato das forças mais à esquerda.

Grupos de juventude organizada destas forças de oposição interna articularam uma ação direta para esse momento do congresso. E assim fizemos:

No momento da defesa da proposta de aliança com o PMDB ocupamos o palco, tomamos o microfone e, em meio à confusão e pancadaria, proferimos palavras que jamais saíram da minha memória: “Aliança e diálogo é com o povo, é com os trabalhadores! Não é com a burguesia! Não é com a oligarquia!”

As notícias e as imagens rodaram o Brasil. Repercutiu muito. Foi notícia inclusive no Fantástico daquela noite, na rede Globo.

Apesar do sucesso da ação direta, aprovaram a orientação das amplas alianças. O mesmo aconteceu nos estados, política que estava sintonizada com a tática da disputa presidencial que elegeria Lula presidente e o empresário José Alencar, vice.

Paulo Frateschi, então presidente estadual do PT, em editorial do boletim interno Linha Direta, chamou aquela mobilização de ação “promovida por fascistas”. Fomos chamados de fascistas por nos opor à aliança do PT com os grupos que hoje deflagram um golpe de estado.

A tática de alianças já era parte de um posicionamento político e econômico que se explicitaria na famosa Carta aos Brasileiros, documento que selou o compromisso do PT com as forças do mercado. Ali estava também a sinalização de sua opção pelas alianças fisiológicas para a governabilidade, origem da crise que vivemos.

O que se seguiu nós sabemos. Todos os que se opunham drasticamente à política do partido-governo foram expulsos ou se sentiram obrigados a deixar o PT. Foi meu caso, logo após a reforma da previdência de Lula.

Não sou da turma do “não foi por falta de aviso”, mas acho importante o registro histórico.

Neste processo de construção do golpe parlamentar-jurídico-midiático foi importante não vacilar e tomar partido do lado histórico que nos cabe. Agora é necessário que as esquerdas se unam contra o governo golpista e as tentativas de retiradas de direitos sociais.

Essa unidade deve considerar bases sociais petistas, sem dúvida. Mas, por uma questão de coerência, é preciso questionar a liderança petista nas mobilizações daqui pra frente. A história nos mostra que não se pode e não se deve confiar.

A decisão do PT em não vetar as alianças com o PMDB nas eleições municipais deste ano é mais um sinal. Em Brasília já se fala nos bastidores que parlamentares petistas não querem oposição sistemática e pretendem reconstruir pontes com o PMDB. Ou as esquerdas se deixarão liderar por aqueles que nos trouxeram à beira do precipício?

Eu não confio. Você confia?