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Mobilização

Rede contra genocídio em São Paulo enfrenta violência do Estado

Por Marina Souza

O que gerou interesse em Fernando Ferreira, estudante de Pedagogia, a ingressar na Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio foi a “proposta de criar formas de enfrentamento nos territórios onde familiares e amigos sentem na pele o resultado da atual política de segurança”. Após pouco mais de um ano da decisão, ele comparece às reuniões e constrói vínculos com as diferentes frentes envolvidas no grupo, que tem como missão analisar em São Paulo casos de injustiças cometidos por agentes do Estado, sobretudo contra pessoas periféricas e/ou pretas.

Prisões de inocentes, torturas e assassinatos cometidos por policiais viram alvo de discussões e – principalmente – investigações na Rede. Marisa Feffermann, pesquisadora sobre juvenicídio na América Latina, explica que os integrantes do movimento se dividem em diferentes grupos de articulação, alguns lidam com o Ministério Público, outros com a Polícia, Defensoria Pública, militantes políticos ou os familiares das vítimas. Participando de Fóruns em São Paulo, Osasco e ABC Paulista eles realizam cursos, com três meses de duração, em regiões periféricas para mostrar um mapeamento coletivo a respeito das principais zonas de violência.

“É como se a gente fosse uma escuta das quebradas para o poder público”, defende Feffermann.

Fotos: Divulgação

Os quatro jovens presos injustamente no final do ano passado após serem acusados de roubar um carro foram soltos meses após um insistente pressionamento público organizado pela Rede, que conseguiu reunir provas e inocentar os garotos. Atualmente a organização também mobiliza atos de protesto contra casos de racismo como o que aconteceu com Vitor Vinicius, jovem negro de 20 anos que foi agredido e humilhado na estação de metrô Tucuruvi, no início deste mês.

O diretor executivo do IREC – Instituto Resgata Cidadão, Maurício Monteiro, de 49 anos, é ex-detento e confessa que mesmo não devendo mais nada a Justiça e tendo curso superior, sente que sofre com preconceito. Atualmente ele faz parte da equipe da Rede porque acredita que “quanto maior uma rede, maior seu alcance e maior a pesca”.

A organização da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio foi resultado do I Seminário Internacional Juventudes e Vulnerabilidades: Homicídios, Encarceramento e Preconceitos, ocorrido em 2017 na Faculdade de Direito da USP e na escola de samba Combinados de Sapopemba. O próximo evento deste estilo acontecerá em 11 de maio, o Seminário: O Direito no Enfrentamento à Violência De Estado discutirá estratégias jurídicas de instituições e pessoas diante das práticas violentas do Estado.

Apoio vs. oportunismo

Na madrugada em que Marielle Franco foi assassinada no Rio de Janeiro, dois adolescentes, de 13 e 17 anos, tinham sido mortos em Osasco, conta Marisa Feffermann.”Um dos integrantes da Rede ligou pra gente e disse que tinha acabado de acontecer uma chacina. Chegamos lá e não tinha ninguém do Conselho Tutelar ou Serviço Social. Nós chamamos várias pessoas para ir ajudar, mas tava todo mundo no ato da Marielle. Isso é muito simbólico.”, relembra e critica a enorme repercussão da frase “ninguém solta a mão de ninguém”, que surgiu nas redes sociais após a vitória do então candidato á presidência Jair Bolsonaro (PSL). Segundo a pesquisadora, a grande maioria que reproduz esse discurso é apenas da boca para fora

A pesquisadora confessa que ao ir nas “quebradas” percebe que a palavra “medo” é constantemente mencionada pela população local. E por isso, sente que é necessário informar sobre a Rede, ressaltando que há, de fato, articulações de resistência nas quais depositar confiança e apoio.

Assim como ela, Fernando Ferreira pensa que grupos como a Rede são cada vez mais fundamentais, devido a existência daquilo que chama de “política da morte”. Para ele, enfrentar as injustiças através de estratégias coletivas, organizadas e com pouca exposição das vítimas é essencial para defender tais causas. “A rede está se fazendo. Só o dia a dia nos trará essa resposta, mas posso afirmar de maneira muito tranquila que temos muito a contribuir nessa discussão em qualquer lugar do país”, defende na esperança de que mais pessoas apoiem o movimento.

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Genocídio Negro

Vidas negras em tardes de domingo

Luciana Nogueira, esposa do músico Evaldo dos Santos Rosa, morto no domingo, 7 de abril, durante uma ação do Exército na região da Vila Militar, na zona norte do Rio de Janeiro, em desespero diante do corpo do marido e do carro cravejado com 80 tiros

 

Eu me lembro com saudade
O tempo que passou
O tempo passa tão depressa
Mas em mim deixou
Jovens tardes de domingo
Tantas alegrias
Velhos tempos
Belos dias

– Roberto Carlos

 

Tô cansado dessa porra
de toda essa bobagem
Alcolismo,vingança treta malandragem
Mãe angustiada filho problemático
Famílias destruídas
fins de semana trágicos

– Racionais Mc’s

 

Por Douglas Belchior

Fotos: Rosa Caldeira; Jorge Ferreira; Mídia Ninja; Alma Preta; Ponte Jornalismo; Bianca Santana

 

Quando criança ouvi muito Roberto Carlos. Meus pais gostavam. Memórias de criança que, vez ou outra, voltam. Depois cresci, estudei. Percebi e entendi por que as tardes de domingo felizes das canções da jovem guarda, as tardes em que “Canções usavam formas simples / Pra falar de amor / Carrões e gente numa festa / De sorriso e cor…” não eram em nada parecidas com as tardes de domingo lá de perto de casa, na zona leste de SP. Racionais MC’s, melhor que ninguém, nos explicou como funciona o nosso fim de semana: “Olha só aquele clube que da hora / Olha o pretinho vendo tudo do lado de fora…”

Tenho 40 anos e desde os 17 participo de protestos contra a violência da polícia e pelo fim do assassinato sistemático de pessoas negras no Brasil. As vezes me pego pensando quanto tempo da vida dediquei à isso, ocupando ruas não só em dias de protestos, mas no dia a dia em salas de aula no trabalho em escolas públicas ou nos finais de semana em cursinhos populares. Vejo os militantes mais velhos que teimam em continuar a luta. Eles já fazem isso há 30, 40, 50 anos, ocupando suas horas de descanso entre um dia e outro de trabalho ou em feriados ou em finais de semana, sábados e tardes de domingo. Que destino é esse que não nos permite apenas viver nossas vidas, desfrutar de domingos com a família, com namoro, com amigos ou simplesmente tomar uma cerveja diante da TV em dia de final de um campeonato de futebol. Que triste necessidade esta, ter que dividir um tempo tão raro que poderia ser de felicidade e gozo, com a melancolia e a tristeza de velórios, ajuda humanitária e protestos. E pior, agradecer por estar vivo e se cuidar para não ser o próximo alvo de uns 80 tiros em alguma estrada qualquer.

Mas qual seria a opção a isso? Viver como se não soubéssemos? Olhar para os incontáveis corpos e não reparar a semelhança? Salvar a “própria pele” e ignorar o cheiro forte de carne queimada que invade nossas narinas todos os dias?

Não é possível!

Neste dia 14 de abril de 2019, mais de mil pessoas dedicaram sua tarde de domingo à memória de Evaldo, homem negro fuzilado em praça pública com 80 tiros, pelo exército brasileiro. Mais um dia dedicado a denunciar ao mundo os governantes genocidas que lideram nosso país. Um país que vive em guerra.

Obviamente, uma situação em que o exército fuzila com 80 tiros, um carro com uma família dentro, em plena via pública numa tarde de domingo, só não chama a tenção e não provoca revolta em pessoas com algum tipo perverso de psicopatia. Mas é preciso dizer que situações absurdas acontecem com mais frequência que se imagina. Como não lembrar dos 111 tiros da Policia Militar em um carro com 5 garotos negros, no Rio de janeiro, em 2015; Ou da chacina da Cabula, também em 2015, em Salvador na Bahia, quando a polícia enfileirou 12 jovens em um campo de futebol para o fuzilamento; Ou Amarildo, preso torturado e morto pela PM do Rio em 2013; Ou de Cláudia Silva Ferreira, mulher negra, baleada pela PM e depois arrastada por mais de 250 metros, em via pública, por uma viatura policial; E as diversas crianças mortas nas ações das polícias no Rio e em outros estados; E Marielle Franco, assassinada por ex-policiais milicianos. Isso para citar só alguns.

Para além de casos que ganham repercussão nos meios de comunicação, é necessário dizer que assassinatos de pessoas negras em si são absolutamente corriqueiras neste país.

No último período, a polícia brasileira matou em 5 anos mais do que todas as polícias norte americanas em 30 anos de trabalho. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil.  O Estado brasileiro, direta ou indiretamente, promove o genocídio da população negra. Estudos diversos, como por exemplo, a do Atlas da Violência, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), relatam que em 2016, o Brasil alcançou a marca histórica de 62.517 homicídios. Isso equivale a uma taxa de 30,3 mortes para cada 100 mil habitantes, que corresponde a 30 vezes a taxa da Europa. Quando recortados por raça/cor comprova-se o genocídio: 71,5% das pessoas que são assassinadas a cada ano no país são pretas ou pardas.

No texto, números são apenas números. Conviver com isso, diariamente, é outra coisa.

Por isso sou profundamente grato pela companhia de militantes, homens e mulheres que nos momentos mais difíceis, pegam uns nas mãos dos outros para lembrar e reafirmar nossa missão e de que não estamos sozinhos nela. Obrigada.

Barrar o genocídio negro é tarefa histórica no Brasil e no mundo. Nossa geração fará sua parte!

Justiça à Evaldo Rosa e à todas e todos os assassinatos de pessoas negras, desde o primeiro navio repleto de escravizados até o carro e o corpo cravejados por 80 tiros!

Sobre o protesto

Grupos ligados a movimentos negros se encontraram neste domingo (14) na Avenida Paulista, para celebrar a memória no 7 dia da morte do músico Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos, no último domingo (7) no Rio de Janeiro. Rosa foi morto quando o carro que dirigia foi alvo de pelo menos 80 tiros de fuzil disparados por soldados do Exército.

Com o nome “80 tiros em uma família negra, 80 tiros em nós!”, o ato se reuniu em frente ao Museu de Arte Assis Chateaubriand (Masp).

Uma imensa faixa com a frase “Parem de atirar em nós” marcou o protesto. Manifestantes se alternaram no microfone para falar sobre a perseguição de negros na periferia.

 

#80Tiros

#EvaldoVive

#ContraOGenicidiodoPovoNegroBrasileiro

#UneafroResiste

#BlackLivesMatter

#VidasNegrasImportam

#ParemDeNosMatar

#ParemDeAtirarEmNós