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Morre Makota Valdina, líder religiosa e militante da causa negra

Por Marina Souza

Vítima de disfunção renal aguda, a militante e educadora Makota Valdina morreu, aos 75 anos, na madrugada desta terça-feira (19) no Hospital Teresa de Lisieux, em Salvador. A assessoria da unidade emitiu uma nota informando que há um mês a ativista já havia sido diagnosticada com problemas renais e abscesso hepático.

A morte de Valdina foi lamentada não somente pelos familiares e amigos, mas também por políticos, organizadores da sociedade civil e ativistas de diferentes causas, sobretudo de grupos ligados ao movimento negro como a Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen) e a Fundação Cultural do Estado (Funceb). O governador do estado também fez questão de lembrar a importância da líder religiosa.

Rui Costa (PT), governador da Bahia, lamenta a morte de Makota Valdina

Valdina nasceu e cresceu na capital baiana, onde tornou-se uma importante professora da rede pública municipal, símbolo da luta contra a intolerância religiosa e o racismo. Já foi conselheira da Mãe de Santo do Terreiro Nzo Onimboyá, cargo que lhe deu o nome “Makota”, membra do Conselho de Cultura da Bahia e recebeu condecorações como o Troféu Clementina de Jesus, da União de Negros Pela Igualdade, e a Medalha Maria Quitéria, da Câmara Municipal de Salvador.

Em 2013, Makota publicou o livro  “Meu caminhar, meu viver”, em celebração ao mês da consciência negra, reunindo uma série de escritos que fez ao longo da vida. O documentário “Makota Valdina – Um jeito Negro de Ser e Viver”, retratou sua vida e foi premiado na categoria Programas de Rádio e Vídeo durante a primeira edição do Prêmio Palmares de Comunicação, da Fundação Cultural Palmares.

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racismo

Se Crispim fosse branco, a situação seria diferente

Por Marina Souza

“Perseguição se esquece? Tanta agressão enlouquece”, o verso de Boa Esperança, letra composta pelo cantor Emicida, faz referência às contantes violências sofridas pelos povos negros ao longo dos séculos e à mescla de sentimentos ruins que invadem esses corpos. O trecho parece descrever uma série de casos que têm viralizado nas redes sociais nas últimas semanas, o mais recentes é o do empresário Crispim Terral, vítima de um abuso policial ocorrido na última segunda-feira (25), em Salvador.

Terral, de 34 anos, estava em uma agência bancária da Caixa Econômica Federal e ao reclamar da demora, de quase cinco horas, do atendimento foi surpreendido com agressões físicas que poderiam ter o matado. Assim que ouviu a reclamação, um dos gerentes acionou a Polícia Militar, que deu um “mata-leão” no empresário.

https://www.youtube.com/watch?v=mSEVL0-wO8I

O vídeo repercutiu nas redes sociais e rapidamente diversas pessoas se posicionaram contra o episódio que, segundo a vítima, foi motivado por racismo. Na tarde de ontem (26), cerca de 100 pessoas se reuniram ao local do crime e protestaram em defesa de Crispim.

Em entrevista ao jornal G1, ele disse “eu não desejo isso a ninguém. Nem ao meu pior inimigo, que eu não tenho. É muito triste, é muito doloroso. Eu agradeço todas as mensagens de apoio. Estamos juntos. E vamos dizer não, mais uma vez, ao racismo.”.

O Ministério Público do Estado da Bahia disse que analisará a denúncia. Já a CAIXA afastou o gerente e informou, por meio de uma nota, que “está apurando e tomará todas as providências cabíveis […] e ressalta que repudia atitudes de discriminação cometidas contra qualquer pessoa”.

Ativistas realizam protesto no local do crime (Foto: Betto Jr./CORREIO)

Para Renata Lira, advogada penal e integrante do Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate à Tortura do Rio de Janeiro, o banco precisa tomar uma atitude séria em relação ao ocorrido. E afirmou ainda que se a reclamação ao gerente partisse de um homem branco, ele dificilmente teria sido submetido à este tipo de violência e humilhação. “Os homens negros têm uma chance muito maior de serem presos, constantemente são reconhecidos como culpados por crimes que nem estavam presentes no local”, relembrou ela.

 

 

 

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Consciência Negra

Há 54 anos o ativista Malcom X era assassinado

Por Marina Souza

Há exatamente 54 anos, em 1965, um dos mais conhecidos e importantes líderes do Movimento Negro de todos os tempos era assassinado com 14 tiros enquanto discursava em um comício de Nova York. Cinco décadas depois, o ativista que ganhou grande destaque nas décadas de 50 e 60 nos Estados Unidos, continua sendo tema de debates, estudos, pesquisas e inspirações de ativismo dentro e fora de movimentos negros.

Primeira cena do filme Malcom X, dirigido por Spike Lee o longa mostra a história de vida do militante

Infância sob chamas

Nascido em maio de 1925 em Omaha, Malcolm Little teve uma infância recheada de episódios marcantes, que posteriormente o ajudariam a enfrentar os discursos e as práticas racistas tão presentes no território estadunidense. Em 1926 membros da KKK (Ku Klux Klan) atearam fogo na casa onde vivia com sua família, que foi então obrigada a exilar-se para Wisconsin. E como se não bastasse o episódio, três anos depois, quando haviam se mudado para Michigan, a vizinhança branca do bairro articulou uma ação judicial que exigia a saída da família, que não atendeu ao pedido e teve – mais uma vez – a casa incendiada.

Aos seis anos de idade, o pequeno Malcom precisou lidar com o luto da morte do pai, que fora encontrado mutilado em uma ferroviária, e aos treze, presenciou a mãe sendo internada num hospital psiquiátrico. Foi nessa época que passou a morar em uma residência de detenção juvenil sob a custódia de brancos.

Negros, uni-vos

Quando chegou à juventude Little passou a morar no bairro majoritariamente negro de Harlem e tetando sobreviver, entrou para o mundo do crime, que o tornou presidiário durante seis anos e meio. Foi na cadeia que Malcom começou a ler sobre o Islã e envolver-se com a religião.

O líder da Nação do Islã na época, Elijah Muhammad, pregava que Alá era negro e que os afro-americanos deveriam viver em países diferentes dos brancos, como uma espécie de proteção e respeito a identidade da cultura negra. Tomando contato com sua crença, Malcom identificou-se e quis fazer parte do crescente movimento.

Cena do Filme Malcom X em que o personagem, interpretado por Denzel Washington, questiona a cor de Deus

A luta

Logo após conquistar a liberdade, em 1952, ele ingressa oficialmente para a Nação do Islã e retira o sobrenome “Little”, apresentando-se agora como Malcom X. O novo sobrenome foi escolhido porque o ativista não achava justo ressaltar nomes de escravocratas.

O sistema de apartheid, que segregava os negros nos EUA, estava sendo o grande alvo de crítica dos movimentos negros da época. A aproximação de X com discursos e ações antirracistas tornava-se cada vez mais evidente e ele começara a defender que a população negra, que a essa altura era o grupo de maior vulnerabilidade social no país, pegassem em armas e lutassem contra os opressores.

Malcom viajou o mundo conhecendo ativistas de diversas causas e países. Sempre muito polêmico, tornou-se motivo de discordância entre movimentos e militantes dos direitos civis. Havia quem o considerasse extremista e quem o reconhecesse como o grande líder da luta negra do momento.

Três homens que eram de uma corrente islâmica divergente da de Malcom organizaram seu assassinato, que ocorreu no dia 21 de fevereiro de 1965. O emblemático militante negro deixou quatro filhas, a esposa gestante e continua sendo até os dias de hoje lembrado pela sua incansável luta.

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racismo

“Escravizar, nem de brincadeira”, diz Elza Soares sobre diretora da Vogue

Por Marina Souza

Uma nova polêmica tomou o espaço da internet nesse fim de semana: a festa de aniversário da diretora de estilo da Vogue, Donata Meirelles com fotos mostrando uma decoração racista vitalizaram nas redes sociais e despertaram a revolta de diversas pessoas, sobretudo artistas, ativistas e estudiosos acadêmicos. A cantora Elza Soares, que é bisneta de escrava e neta de escrava forra, publicou ontem (10) duas fotos em seu perfil no instagram protestando pelo ocorrido e dizendo:

“Hoje li sobre mais uma ‘cutucada’ na ferida aberta do Brasil Colônia. Não faço juízo de valor sobre quem errou ou se teve intenção de errar. Faço um alerta! Quer ser elegante? Pense no quanto pode machucar o próximo, sua memória, os flagelos do seu povo, ao escolher um tema para “enfeitar” um momento feliz da vida. Felicidade às custas do constrangimento do próximo, seja ele de qual raça for, não é felicidade, é dor. O limite é tênue. Elegância é ponderar, por mais inocente que sua ação pareça. […] Escravizar, nem de brincadeira.”

Meirelles, por sua vez, já havia se pronunciado no sábado (09) alegando que fez referências ao candomblé e pediu desculpas pelo mal entendido: “mas, como dizia Juscelino, com erro não há compromisso e, como diz o samba, perdão foi feito para pedir”. Contudo, o que ela chama de “erro” também pode ser considerado crime pela lei 7.716/1989.

Suponho que uma diretora da maior revista de moda do país deva ter, no mínimo, cuidados com a estética visual de uma festa que organiza. Nada é por acaso ou coincidência. Para Renato Noguera, filósofo e professor, a ideia de escravidão moderna existe através de um mercado que sustenta o racismo e práticas coloniais com novas faces camufladas por um discurso de liberdade.

Mas não precisa ser especialista em conflitos raciais para compreender que vestir mulheres negras de mucamas e usar um traje elegante dentro de um palácio faz parte de alguma temática. Muitas pessoas associaram a decoração do evento ao Brasil escravocrata, época que durou 388 anos, o país foi inclusive o último entre os ocidentais a ser abolicionista.

Donatta Meirelles cercada por mucamas no aniversário
Pedido de desculpas no Instagram

A tal liberdade de escolha na decoração também pode ser explicada pela naturalização estruturalmente enraizada. Em um país marcado por um racismo velado, que é escondido e destilado em altas proporções simultâneas, atitudes como estas, nas quais racistas são instantaneamente defendidos por grande parte da população, são comuns.

Segundo o Atlas de Violência 2018, a taxa de homicídios de negros é mais que o dobro da de brancos e cresceu 23,1% no período de 2006 a 2016. Apesar disso, muitos negligenciam e desacreditam da gravidade do racismo brasileiro.

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Literatura

Na minha pele – Estante literária

Por Edson Cadette, do Blog Lado B NY

Na Minha Pele, do multitalentoso Lázaro Ramos, não pode ser considerado um livro de memórias porque não está ligado a uma época específica da vida do ator como por exemplo, o período em que ele trabalhou dentro do Bando de Teatro Olodum, na cidade de Salvador, local onde aprendeu todas as técnicas de atuação que utiliza até os dias de hoje. Ao contrário, o livro que começa na pequena Ilha de Paty, no interior da Bahia, na década de oitenta, termina com passagens na zona sul do Rio de Janeiro, onde Lázaro testemunha ao lado dos filhos a ação policial contra jovens negros num espaço que certamente não os pertence. A obra pode ser usada como fonte de inspiração para jovens em geral, principalmente negros que enxergam no ator uma pessoa sem medo de falar o que realmente pensa sobre a disparidade racial no Brasil.

É um livro pequeno e bastante fácil de ser lido, poderíamos chamar de uma leitura tranquila, que poderia ser feita num voo entre o Rio de Janeiro e Nova York. Você não terminará a leitura dizendo que o Brasil é um país altamente racista – algo que não é mencionado em nenhum momento -, ou irá dizer a uma pessoa branca que ela faz parte do racismo institucional. Tão pouco falará com seu amigo branco sobre o que ele realmente acha da condição socioeconômica do negro no país e questionar se está diretamente ligada com a duradoura escravidão brasileira.

Apesar das micro agressões diárias que sofria, principalmente antes de ser catapultado para o estrelato no final dos anos noventa, Lázaro Ramos jamais usou delas ou do racismo latente como impedimento para suas realizações pessoais de ator.

Lázaro fala de atores importantes da dramaturgia brasileira como Ruth de Souza, Milton Gonçalves, e Lea Garcia, que de certa maneira abriram um caminho para o seu sucesso. Ele cita também livros, ativistas e músicos importantes do início dos anos 2000 que estavam mudando o discurso no debate racial brasileiro.

Para escapar do racismo diário ele acredita que o núcleo familiar é essencial e ressalta a importância que sua enorme família teve na sua formação como pessoa. Acreditando nesta socialização, o ator se casou e mantém uma parceria que já dura mais de dez anos com a também atriz Taís Araujo.

Lázaro Ramos no papel de Madame Satã (2002)

Na Minha Pele é um livro importante para debater questões raciais no Brasil e o autor usa sua voz para chamar atenção ao fato de que o negro já nasce com uma enorme barreira devido a própria história do país. A grande mensagem desta pequena, mas importante obra, é que Lázaro Ramos deseja estar na normalidade, e não na exceção dos negros brasileiros.

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Cultura Mídias Negras e Alternativas Periferia

Espetáculo mostra narrativas das presidiárias brasileiras

Foto: Thiago Sabino

Por Marina Souza

De acordo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias sobre Mulheres, o Infopen Mulheres, divulgado em maio pelo Ministério da Justiça, o Brasil é o quarto país do mundo com maior número de mulheres presidiárias. As eficácias, consequências e os funcionamentos do atual sistema prisional brasileiro estão diretamente atrelados à questão de classe, de gênero e ao racismo estrutural. Foi tomando como base este universo doloroso e negligenciado, que Edson Beserra dirigiu o espetáculo “Liberdade Assistida“, que entra em cartaz nos próximos dias 14, 15 e 16 de dezembro, no Teatro de Contêiner Mungunzá, em São Paulo.

Com o processo produtivo de estudar livros, poesias, pesquisas acadêmicas, textos, depoimentos, cartas e entrevistas de detentas e ex-detentas, de diferentes lugares do país, a peça tem como intenção retratar a dura realidade dos presídios femininos e a vulnerabilidade da periferia do país.

A atriz e produtora cultural Marta Carvalho, de 47 anos, nos contou que há 10 anos começou a pesquisar sobre o assunto através de um trabalho de formação nas Casas Abrigos do Distrito Federal. Em 2017 ela interessou-se pelas inscrições no Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro Brasileiras, convidou a professora, doutora em História, Ana Flávia Magalhães para escrever a dramaturgia e o dançarino Edson Beserra para dirigir, pela primeira vez na carreira, um espetáculo teatral. Após ser premiado, o grupo estreou o espetáculo pelo Brasil.

Marta intercala expressões verbais e corporais em um monólogo. Ela ressalta que “estar sozinha é também não estar”, lembrando das importantes presenças que há por trás dos palcos.

Foto: Roberth Michael

“A arte tem que se portar como um transformador social. Esse espetáculo vem falar das histórias dessas mulheres que estão dentro da gente. A mulher preta vive um cárcere social. É sobre nossos corpos contando como as nossas irmãs vivem em situação de cárcere constantemente.”, revela a atriz.

Serviço:

  • Espetáculo “Liberdade Assistida” em São Paulo
  • Dias 14, 15 e 16/12
  • Sexta e sábado às 20h | Domingo às 19h
  • Teatro de Contêiner Mungunzá (Rua dos Gusmões 43 | Santa Ifigénia – Centro)
  • Entrada: R$ 20 (inteira)  e R$ 10 (meia)
  • Classificação Indicativa: 16 anos
  • Duração: 55 minutos
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Direitos Humanos Internacional

Consulta Regional das Américas discutirá Direitos Humanos com ativistas do continente

Por Marina Souza Neste sábado (08), a partir das 09 horas, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) se reunirão na sede da Comissão em Washington DC, para realizar uma Consulta Regional sobre Mecanismos Regionais de Direitos Humanos nas Américas, a fim de debater maneiras de combate ao racismo, xenofobia e outras tipos de intolerância. Com o intuito de legitimar a discussão, o evento trará representantes de mecanismos regionais e sub-regionais de Direitos Humanos. Os convidados, que têm diferentes afinidades com a temática, são ou já foram membros de instituições, organizações, academia e/ou vida política.
Douglas Belchior é um dos convidados para participar da mesa “Marco para o Combate e a Erradicação Efetiva do Racismo, Discriminação racial, Xenofobia e Formas Conexas de Intolerância: Medidas Especiais e Ações Afirmativas”, que acontecerá durante a Consulta Regional, em Washington DC. | Foto: arquivo pessoal
“É muito importante que a representação política do povo negro acesse instituições, espaços e microfones internacionais para levar denúncias e sobretudo, demonstrar a nossa capacidade e força de articulação de luta política”, diz o participante Douglas Belchior. O objetivo geral da Consulta é o de melhorar a cooperação entre os mecanismos interamericanos e os internacionais de Direitos Humanos, a fim de desenvolver propostas concretas de cooperação entre os representantes e Estados-Membros. Faz pouco mais de um mês que a CIDH veio ao Brasil, sob convite do governo federal, para participar de reuniões com diversos membros políticos de diferentes setores sociais. Além disso, a Corte fez análises empíricas nas áreas urbanas e rurais de Minas Gerais, Maranhão, Roraima, Pará, Mato Grosso do Sul, Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro.
O assassinato da vereadora Marielle Franco, a imigração dos venezuelanos no Brasil e a responsabilização do Estado pela morte de Vladimir Herzog foram alguns dos temas explorados pelo órgão no país durante este ano.
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Cultura O quê que tá pegando?

Com protagonista negra, o livro “Brothers and Sisters” aborda desigualdade racial no mercado de trabalho e autoestima da mulher negra

Por Edson Cadette

Em 1992, a cidade de Los Angeles na Califórnia entrou em completa convulsão. O motivo foi a absolvição de cinco policiais brancos acusados de baterem cruelmente no motorista negro Rodney King. Neste clima de tensão racial, encontramos os personagens do interessante livro de ficção Brothers and Sisters, da escritora Bebe Moore Campbell.

 

Esther Jackson, heroína da história, foi criada no lado sul da segregada cidade de Chicago, mas depois da universidade mudou-se para Los Angeles. Bastante competente, ela conseguiu um cargo como gerente operacional de um grande banco na cidade. Solteira, morando em um sobrado bem decorado e com todas as armadilhas da classe média branca americana, Esther Jackson sente-se frustrada porque seu nível de escolaridade e sua situação econômica não foram suficientes para conseguir a promoção que tanto almeja no Banco. Ela acredita que sua capacidade profissional não está sendo devidamente reconhecida dentro da instituição pelo simples fato de ser uma mulher negra.

 

Em Mallory Post, Esther começa uma amizade com uma colega de trabalho branca. As duas passam a compartilhar os problemas de relacionamento amoroso, e a protagonista pode desabafar sobre os relacionamentos mal sucedidos e os desafios de ser uma mulher negra dentro do mundo corporativo branco.

 

Suas perspectivas profissionais começam a ficar melhor no banco quando Humphrey Boone, um executivo negro altamente qualificado, é contratado para impulsionar o setor de Investimento relacionado como a comunidade afro-americana. Com isso, Esther acredita que finalmente encontrou um aliado para se abrir sobre as dificuldades de um profissional negro no ambiente majoritariamente branco. Esther até vislumbra um relacionamento amoroso entre eles.

 

No cargo de executiva, Esther Jackson se vê na “obrigação” de contratar La Keesha, uma jovem, negra e mãe solteira com desejos de sair da casa onde mora com sua mãe, avó, filhos e irmãs. Mesmo sem ter os conhecimentos necessários para ser contratada, a executiva acredita que La Keesha merece uma oportunidade para ascender socialmente.

 

Depois de entrar em um relacionamento opressor, Esther começa a corresponder às investidas de Tyrone, que desperta nela um aumento em sua autoestima e amor próprio. Por ele ser uma pessoa simples e com uma situação financeira inferior à sua, ela considera o carteiro um “bom partido”, mas procura não se envolver intensamente com ele.

 

Brothers and Sisters aborda assuntos diversos, como abuso policial, fardo de carregar nas costas a responsabilidade de ser negro na América, assédio sexual nas empresas e separação espacial e cultural entre negros e brancos. O livro aborda também as poucas oportunidades e a institucionalização estereotipada de raça, de classe e de gênero na cidade de Los Angeles.

 

Bebe Moore Campbell faz um belo mosaico ligando todos os personagens de uma forma complexa e ao mesmo tempo profunda. Com isso, explora os preconceitos que muitas vezes perpetuam as iniquidades e limitam as oportunidades entre negros e brancos na América.

 

Brothers and Sisters

Editora – Wheeler Pub

Páginas – 728

 

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Meios de Comunicação e Racismo

Faculdade Cásper Líbero demite docente envolvido em caso de racismo

(Foto: Divulgação)

Por Redação

Em um espaço que deveria ser de aprendizado e acolhimento, a estudante Bárbara Sereno, que está no segundo ano do curso de Publicidade e Propaganda na Faculdade Cásper Líbero, sofreu um caso de racismo dentro do ambiente acadêmico. De acordo com o relato da estudante negra e dos colegas de classe, o (a) docente disse que “não existia racismo no Brasil” e ainda tentou tocar no cabelo de Bárbara. A atitude resultou em uma demissão.

Segundo nota divulgada pelo coletivo negro da instituição, o AfriCásper, a situação começou quando o (a) professor (a) falou a seguinte frase aos alunos: “Quando fui para a Croácia fazer uma especialização, as pessoas de lá acharam que eu era mulato(a) por ser brasileiro(a), mas quando cheguei, eles ficaram desapontados porque eu era ‘normal’”, disse.

Ainda na aula, uma aluna estava com o álbum de figurinhas da Copa do Mundo aberto na seleção da Nigéria, e o (a) docente falou aos alunos que estava surpreso (a) com o fato de o time ter um jogador branco, o zagueiro Leon Balogun. Em seguida, questionou como um dos jogadores negros penteava o cabelo: “Como que ele penteia esse cabelo? Isso aí deve ser um ninho!”, caçoou.

No final da aula, Bárbara e um grupo de alunos foram conversar com o (a) professor (a) para expressar o incômodo que sentiram com as falas ofensivas. Como resposta, ele (a) apontou que os alunos não tinham interpretado corretamente seus comentários e que “no Brasil não existe racismo”.

Após a estudante deixar a sala, o (a) docente foi até a porta e questionou se Bárbara estava chateada com ele (a). A aluna respondeu “não”, mas disse que “estava decepcionada, já que ele (a) era um (a) professor (a) e comunicador (a) e deveria dar o exemplo e tomar cuidado com o que fala”. Com a justificativa de que não era uma pessoa racista, o (a) docente ainda tentou tocar no cabelo da estudante, alegando que sempre quis “tocar no cabelo de um negro”.

Em nota, a Faculdade Cásper Líbero declarou que repudia atitudes discriminatórias e preconceituosa, independente do local que ela ocorra.

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Eleições 2016 Política

O que as urnas revelam sobre o racismo nosso de cada dia

pele

 

Por *Jorge Américo e **Douglas Belchior

 

No Brasil todo mundo já namorou uma negra. Chamou um negro de genro. Adora ouvir as histórias do porteiro (que é negro). Considera a diarista (também negra) uma pessoa da família. Se emociona quando vê aquele gari (negro) que gosta de sambar, ser aplaudido pelos gringos. Tamanha harmonia é a consumação plena da principal regra da nossa democracia racial. Ou seja, a população negra sempre será tratada bem, desde que saiba qual é o seu lugar e dele não queira sair. Curioso como o gari continua sendo gari mesmo depois de tantos anos aparecendo na televisão.

Se não falha a memória, o ex-jogador de futebol Pelé foi o primeiro ministro de Estado negro do período chamado de redemocratização do Brasil. Sua nomeação para a pasta de Esportes se deu no ano de 1993, no governo FHC. Caso a preguiça desse uma trégua, seria muito proveitoso investigar se ele não terá sido o primeiro da história republicana. Dez anos mais adiante outro negro de renomada trajetória, Gilberto Gil, assumiria o ministério da Cultura, no primeiro mandato de Lula.

Pelé e Gil são dois ícones da cultura nacional. Chegaram ao topo dos únicos lugares onde negras e negros podem chegar ao topo. Um fez carreira no futebol, outro na música. Pela experiência e capacidade intelectual, tinham credencial para serem ministros da Saúde e Educação, respectivamente – podendo comandar dois dos orçamentos mais gordos da União. Afinal, a prática esportiva (aliada a uma alimentação adequada) é o que existe de mais avançado em saúde preventiva. E a capacidade criativa e postura crítica diante dos dilemas da humanidade são o melhor que um sistema educacional público e de qualidade poderia oferecer aos nossos jovens.

Mesmo no período prix cialis pharmacie de maior expansão das políticas de ações afirmativas, poucas alterações ocorreram nas estruturas de poder. Com rara exceção, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) – criada por Lula e extinta por Michel Temer – se tornou o ministério exclusivo das negras e negros, o único lugar onde puderam exercer cargos de primeiro a décimo escalão. Era praticamente o quartinho da empregada do Palácio do Planalto. Ao mesmo tempo, muita gente incompetente (e pouco comprometida com os brasileiros que vivem com as menores rendas) esteve à frente dos ministérios da Fazenda, Planejamento e direção do Banco Central. Como diz a brilhante Rosane Borges, “em um período de avanços sociais a população negra foi beneficiária, mas nem sequer foi cogitada para ser gestora de políticas públicas”.

Vez ou outra algum dirigente de alta patente se colocou a favor da reserva de vagas para negros nas universidades e concursos públicos, mas ninguém praticou a pedagogia do bom exemplo. Nem as sucessivas chefias da Presidência da República nem dos governos estaduais e municipais se preocuparam em ter sua cota ministerial ou de secretariado formada por negras e negros. A universidade e as mobilizações populares produziram mão-de-obra negra qualificadíssima no último período. Isso significa que o corpo técnico e político das instituições públicas só não abrigaram negras e negros por opção de quem estava na Direção.

Esse esvaziamento e falta de diversidade étnico-racial também é comum nos cargos eletivos, responsabilidade do povo brasileiro em geral, este sob radical influência do meio ambiente racista a que somos expostos desde que nascemos. Existem perguntas que não são feitas por questão de decoro, mas que estão colocadas e devem ser enfrentadas com sinceridade. Principalmente num momento – eleitoral – como este, em que tanta gente coloca seus dons, talentos e boas intenções a serviço da população. Afinal, quem aceita ser representado por uma negra ou um negro na prefeitura ou na câmara municipal? Quem é capaz de reconhecer que não é racista na vida cotidiana, mas o é na hora de votar? As urnas revelarão este segredo que cada um esconde no coração.

 

*Jorge Américo é jornalista, poeta e educador popular.
**Douglas Belchior é professor de história e editor deste Blog.