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Cultura preta: quais são as novidades do segundo semestre de 2019?

O segundo semestre de 2019 chegou e com ele uma série de lançamentos e estreias na música, teatro, literatura e cinema. Aqui reunimos as mais recentes novidades da cultura preta e periférica de São Paulo, confira a agenda e mais informações sobre cada evento.

Peça “Terror e Miséria no 3º Milênio – Improvisando Utopias”
Quando? Em cartaz de 28 de junho a 28 de julho
Onde? Sesc Bom Retiro – Alameda Nothmann, 185, Campos Elíseos, São Paulo
Saiba mais: http://bit.ly/terror3milenio

Inspirada no clássico de Bertolt Brecht, a peça se une a cultura Hip Hop para apresentar um panorama sobre a violência. É uma visão que coloca, em mundos paralelos, os dias de hoje e os anos que antecederam a explosão do nazi-fascismo, na época da Segunda Guerra Mundial. O elenco formado por 11 atores MCs discute também os privilégios e opressões vindas do racismo, do preconceito de classe e gênero. O espetáculo é montado pelo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, com a direção de Claudia Schapira.

Lançamento do livro “Pensando como um negro: ensaio de hermenêutica jurídica”
Quando? Dia 02 de julho, das 19 às 22 horas
Onde? Livraria Tapera Taperá – Loja 29, 2º andar – Avenida São Luís, 187, São Paulo
Saiba mais: http://bit.ly/pensandocomonegro

Adilson José Moreira, professor, advogado, Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Federal de Minas Gerais e Doutor em Ciências Jurídicas pela Universidade de Harvard, lança dia 2 de julho, em São Paulo, o livro “Pensando como um negro: ensaio de hermenêutica jurídica”. Por meio de um estudo integrado entre narrativas pessoais e análises teóricas, o livro discute as consequências entre o formalismo jurídico e a neutralidade racial na interpretação da igualdade.  A publicação apresentada pela editora Contra Corrente vai abrir um debate no dia do seu lançamento com a professora Gislene Aparecida Santos, da Faculdade de Direito da USP, e o professor Dimitri Dimolis, da Escola de Direito da FGV, na livraria Tapera Taperá.

Mostra de Cinemas Africanos
Quando? De 10 a 17 de julho
Onde? Cine Sesc –  R. Augusta, 2075, Cerqueira César, São Paulo
Saiba mais: http://bit.ly/mostracinesafricanos

Serão 24 filmes de 14 países do continente africano na exibição da Mostra de Cinemas Africanos.  Essa é a 4ª edição do evento que traz, em 1 semana, uma seleção de produções reconhecidas em grandes festivais de cinema e aclamados pelo público e também pela crítica. Grande parte dos filmes nunca foi exibida no Brasil e eles serão o centro de debates que o evento trará, com especialistas em cinema, sobre cada narrativa. 

Lançamento de”O.M.M.M.”, novo disco de MAX B.O

O rapper Max B.O completa 20 anos de carreira e comemora com o lançamento de seu novo álbum. Fazendo ode à camaradagem, ele reúne uma série de participações especiais, beatmakers e músicos. Curumin, Rael e Lucio Maia são alguns dos nomes envolvidos. Esse é o primeiro trabalho de inéditas do artista, que apresentou por 6 anos o programa “Manos e Minas”, da TV Cultura. Depois de inúmeras parcerias e das mixtapes “FumaSom Vol. 1” (2013), “Antes que o Mundo se Acabe “ (2012) e o álbum “Ensaio, O Disco” (2010), é hora de “O.M.M.M.”

Ouça aqui:

509-E anuncia retorno aos palcos

Após 16 anos de pausa, o grupo lendário de rap nacional 509-E anunciou, em entrevista para o jornal Brasil de Fato, que vai voltar aos palcos em 2019. Dexter e Afro-X, farão uma série de shows para celebrar os 20 anos de parceria entre a dupla. A primeira apresentação está marcada para o dia 24 de agosto, em São Paulo, e promete trazer clássicos como Saudades Mil, Mile Dias, Castelo de Ladrão e Oitavo Anjo. No entanto, os rappers já adiantam que esse  é um momento de celebração e não é um retorno oficial do grupo, os artistas ainda continuam suas carreiras solo.

Confira a matéria completa: http://bit.ly/Retorno509E_BF

 

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Cultura

Companhia de Teatro Heliópolis traz peça sobre a justiça brasileira

A Companhia de Teatro Heliópolis apresenta a montagem (IN)JUSTIÇA até o dia 19 de maio, na Casa de Teatro Maria José de Carvalho (sede do grupo), no bairro Ipiranga. A encenação é dirigida por Miguel Rocha, fundador e diretor do grupo; e Evill Rebouças assina o texto que foi criado em processo colaborativo com a Companhia.

(IN)JUSTIÇA é um ensaio cênico, guiado pela indagação ‘o que os veredictos não revelam?’, que reflete sobre aspectos do sistema jurídico brasileiro. Para tanto, conta a história do jovem Cerol que, involuntariamente, pratica um crime. A partir daí, surgem diversas concepções sobre o que é justiça, seja a praticada pelo judiciário ou aquela sentenciada pela sociedade.

Permeado por imagens-sínteses (característica da Companhia de Teatro Heliópolis) e explorando a performance corporal, o espetáculo coloca em cena a complexidade da justiça no país, deixando a plateia na posição de júri em um tribunal. O embate entre os dois lados da justiça – da vítima e do criminoso – se estabelece em um jogo contundente que expõe com originalidade a crua realidade dos jovens pobres e negros. A música ao vivo confere ainda mais densidade poética ao ‘relato’, que foge de qualquer abordagem clichê.

Fotos: Caroline Ferreira

A história de Cerol é contada de forma não linear. Exímio empinador de pipas, ele vive com sua avó, pois a mãe morreu no parto e o pai, assassinado. Depois de uma briga por conta do alto volume da música na vizinhança, Cerol foge e acaba disparando involuntariamente um tiro em uma mulher, que morre em seguida. Ele acaba preso e é submetido ao julgamento da lei e da sociedade.

Com base nesse argumento, a Companhia de Teatro Heliópolis discute direitos humanos à luz da Constituição Nacional. A encenação recupera também a ancestralidade brasileira em passagens ritualísticas. “Queremos pensar o homem negro e a justiça, desde a nossa origem até os dias de hoje”, afirma o diretor Miguel Rocha.

Cenas impactantes e desconcertantes surpreendem todo o tempo. A encenação de Miguel Rocha, alinhavada pela dramaturgia de Evill Rebouças, mostra como a democracia pode ser manipulada. O crime versus a vítima ou o criminoso versus a justiça aparecem de forma não superficial nem previsível. A abordagem de (IN)JUSTIÇA parte do ponto de vista mais íntimo para aquele mais coletivo: da comunidade para a sociedade, da moral pessoal às convenções sociais. Isso permite, igualmente, as leituras de um mesmo caso jurídico, como no julgamento – defesa e promotoria -, onde ambos os discursos são tão contundentes quanto convincentes. “Para falar de justiça, temos que falar das relações humanas contraditórias, pois a justiça se apresenta pelas contradições”, reflete o diretor.

Permeado por emoções e sensações que fogem da obviedade, o espetáculo tem quadros coreografados que trazem o respiro necessário à dinâmica da encenação: cidadãos urbanos, policiais, advogados com suas togas desfilam pela área cênica e hipnotizam o espectador. Os depoimentos inseridos nas cenas humanizam e tornam crível a proposta da montagem, sejam eles densos, desconcertantes, ou mesmo lúdicos. Segundo o diretor, os três pontos de vista sobre justiça – “o pessoal, o divina e o do homem” – são considerados na concepção de (IN)JUSTIÇA, bem como a máxima que diz “só quem passou por uma injustiça sabe o que é justiça”.

O cenário (Marcelo Denny) situa a força da ancestralidade, presente na terra e no terreiro, na força fria do zinco, na estética religiosa que foge dos estereótipos. Traz também o símbolo da lentidão da justiça com toda sua burocracia em pilhas e pilhas de papéis e processos. Elementos como areia, terra, projéteis de bala e pipas compõem a área de encenação, onde predomina a cor cinza. A trilha (de Meno Del Picchia) e os efeitos sonoros são executados em sincronismo com as cenas. Os atores interpretam cantos de tradição que reforçam a busca pela humanização e pela ancestralidade propostas pelo espetáculo.

(IN)JUSTIÇA nasceu de um longo processo criativo, iniciado em fevereiro de 2018, disparado por encontros dos integrantes da Companhia de Teatro Heliópolis com pensadores ativistas que falaram sobre os vários aspectos da Justiça. Os convidados foram Viviane Mosé (filósofa), Gustavo Roberto Costa (promotor de justiça), Ana Lúcia Pastore (antropóloga) e Cristiano Burlan (cineasta), tendo Maria Fernanda Vomero (provocadora cênica, jornalista e pesquisadora teatral) como mediadora.

O espetáculo integra o projeto Justiça – O que os Vereditos Não Revelam, contemplado pela 31ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.

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Cultura

Ladeira das Crianças: a peça sobre periferia, funk e infância

Por Marina Souza

“As pessoas precisam começar a cruzar a ponte pra cá”, exclama Michele Araújo, produtora e atriz do espetáculo Ladeira das Crianças – Teatro Funk, do Grupo Rosas Periféricas, que fica em cartaz até 18 de maio na Casa de Cultura Municipal São Rafael. Inspirada nos livros “O Pote Mágico” e “Amanhecer Esmeralda”, do consagrado Ferréz, a peça retrata o cotidiano de crianças periféricas e traz elementos do funk como a dança, mais especificamente o passinho, a música, o ritmo e as rimas para compor o enredo.

Fotos: Daniela Cordeiro

Araújo conta que o primeiro contato com estes livros foi há muitos anos em um sarau. Após a leitura, percebeu que assim como ela, os amigos que também leram a obra, sentiam a crescente necessidade de fazer alguma peça baseada nas histórias. No livro “Amanhecer Esmeralda”, Manhã é uma criança negra e moradora de uma comunidade pobre, cujo cotidiano vai sendo modificado por gestos de amor que melhoram a autoestima, empoderando não somente a menina, como também sua família. Já em “O Pote Mágico”, um menino na periferia imagina poder encontrar um pote mágico, como acontece também na peça com o garoto negro Rogério MC (Rogério Nascimento), que ganha dinheiro lavando carros para ir ao baile funk, e sonha com um pote mágico que mudaria sua vida.

A produtora explica ainda que durante o processo de montagem da peça o grupo de atores entrevistou crianças de bairros periféricos paulistanos. Assim, foi possível mesclar as próprias memórias da infância com a realidade atual desta faixa etária. “Fomos improvisando a partir de nossas memórias, entrevistas e os livros”, fala.

O Grupo Rosas Periféricas comemora 10 anos de atividades em maio. O coletivo já fez várias peças com elementos musicais, como rap e samba, em destaque, e o grande gênero da vez é o funk. Para os atores, ressignificar a linguagem e, sobretudo, a imagem que o funk possui atualmente é uma missão importante, pois ele faz com que a periferia sinta-se representada de alguma maneira, a própria Araújo diz que “a linguagem só é marginalizada porque vem das bordas da cidade”.

A dramaturgia é assinada por Marcelo Romagnoli, a partir da adaptação dos dois livros acima citados. O Pote Mágico e Amanhecer Esmeralda. Encenada ao ar livre, a peça reflete sobre a identidade das crianças da periferia e sobre os bens culturais do território, acessados na fase infantojuvenil. Todas as sessões são grátis e acontecem no período de 20 de abril e 18 de maio, com sessões na Praça Osvaldo Luiz da Silveira (Parque São Rafael), na Casa de Cultura Municipal São Rafael e no bairro Capão Redondo.

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Cultura

4ª edição do Dia das Boas Ações traz Ilú Obá de Min como atração

O evento no Parque Ibirapuera terá uma programação intensa e gratuita, com destaque para o show do grupo afro Ilú Obá de Min

 Em sua quarta edição no Brasil, o Dia das Boas Ações – maior movimento de voluntariado do mundo, promovido para despertar o engajamento em diversas causas sociais – acontece em 6 de abril, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, das 9h às 19h. Fazem parte da programação do DBA 2019 mais de 20 atrações culturais e artísticas e a realização de oficinas temáticas. Será um dia inteiro com apresentações de teatro, circo, danças e o show do grupo afro Ilú Obá de MinE o melhor, tudo de graça!

No país, a iniciativa é realizada pelo Atados, uma plataforma social que conecta pessoas e organizações, facilitando o engajamento nas mais diversas possibilidades de voluntariado, e pela Muda Cultural, produtora de eventos culturais. O DBA marca o início de ações sociais que acontecerão até 14/04/2019 em diversas cidades brasileiras.

Além da extensa programação de atividades, o DBA 2019 traz também sua Feira de ONGs, com mais de 20 organizações expondo produtos sociais e apresentando o trabalho que vêm realizando para transformar a realidade de seus públicos-alvo.

A importância do voluntariado

Considerado o maior movimento de mobilização voluntária do mundo, o Dia das Boas Ações é realizado em mais de 90 países. No Brasil, a primeira edição aconteceu em 2016 e teve atividades distribuídas por mais de 40 cidades, beneficiando mais de 40 mil pessoas em quase 300 iniciativas. Na edição passada, o evento mobilizou 30 cidades, com 150 ações e mais de 3.500 voluntários envolvidos.

Equipe Atados/Divulgação

A expectativa desta edição é atingir mais de 5 mil pessoas. “O crescimento do voluntariado no Brasil é visível, as pessoas estão cada vez mais preocupadas em apoiar aqueles mais vulneráveis. Isso pode ser comprovado pelo resultado das edições anteriores do DBA, já que o engajamento iniciado durante os eventos se mantém ao longo do ano em ações cada vez mais transformadoras. Ou seja, para muitos, o DBA é o ponto de partida para uma atuação voluntária com real poder transformador”, explica Daniel Morais, fundador do Atados.

A 4ª edição do DBA é patrocinada pela WestRock através da Lei Rouanet e conta com o apoio do Mercado Livre. Além de São Paulo, que recebe o evento no dia 6, DBA acontece no Rio de Janeiro, no dia 7 de abril e volta, em maio, para as cidades paulistas de Porto Feliz e Valinhos.

“Buscamos apoiar projetos que incentivem e promovam ações do bem que possam contribuir para que o mundo seja um lugar melhor para nós e para as futuras gerações. É por esse motivo que apoiar o Dia da Boas Ações fez todo o sentido, já que o projeto consegue despertar nas pessoas o engajamento em diferentes causas sociais por meio do voluntariado, que amplifica o alcance e impacto dessa corrente do bem”, resume Cynthia Wolgien, Head de Comunicação Corporativa e Sustentabilidade WestRock.

Choro Jass/Divulgação

 Programação 

 Além de desfrutar de um dia cheio de lazer e diversão, os visitantes poderão se inteirar mais profundamente sobre a importância do Terceiro Setor, além de se conectar com causas sociais e se cadastrar na plataforma Atados para realizarem trabalho voluntário.

As atividades serão distribuídas por espaços temáticos (Palco Central, Vila Diversidade, Vila Sustentabilidade, Espaço Raiz, Tenda Atados, Bosque), que estarão em pontos estratégicos para ampliar o acesso e participação do público.

  • Palco central

 10h às 11h – Orquestra de Berimbaus – Sob regência de Mestre Dinho Nascimento, a Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene interpreta toques da capoeira, canções e ritmos da música brasileira, de forma solene e inusitada. Performances de capoeira e samba-de-roda completam o espetáculo.

13h às 13h30 – Good Morning SP Mix – Este espetáculo traz muita música (reggae, rock, rap e MPB), coreografias e humor (crônicas e textos incidentais), desenvolvendo várias cenas com situações inusitadas, nas quais o tema da inclusão está sempre presente, já que os atores são todos cadeirantes. Deto Montenegro assina roteiro e direção.

17h30 às 18h30 – Ilú Obá de Min – Esta apresentação promove e divulga a cultura negra no Brasil com o objetivo de fortalecer as mulheres negras na sociedade. O bloco afro Ilú Obá de Min é uma intervenção cultural baseada na preservação de patrimônio imaterial. O grupo entoa cantos e danças advindos das culturas populares, realizando uma grande ópera de rua comandada pela força dos tambores. O protagonismo é inteiramente feminino e vem das mulheres a força para lutar por uma sociedade menos racista, sexista, machista e discriminatória.

Ilú Obá de Min/Foto: Luciana Cury
  •  Vila Diversidade 

 9h30 às 10h – Teatro Denúncia – Um neto malandro, uma família negligente, um motorista desinteressado, um sistema público ineficiente, um viúvo buscando um grande amor. Essas são algumas das histórias contadas neste espetáculo, que faz diversas críticas sociais e emocionais sobre o dia a dia de muitos idosos, sem deixar de adicionar uma boa dose de humor em cada história. A peça é um convite para que os espectadores observem a necessidade de cuidados e de mudanças na forma como lidam e tratam os idosos.

11h às 11h30 – Espetáculo da Diversidade  Com um pout-pourri de coreografias realizadas pelo Grupo Profissional do Instituto Movimentarte, que é composto por bailarinos com síndrome de Down, a apresentação o Espetáculo da Diversidade ressalta a pluralidade do ser humano através de diferentes expressões artísticas, proporcionando ao público um novo olhar para as relações humanas, além de promover encontros e ações focadas no protagonismo da pessoa com deficiência e gerar uma reflexão sobre temas como respeito, amor, diversidade, igualdade, empatia e inclusão.

11h45 às 12h30 – Oficina de Bonecas Abayomis – Para acalentar seus filhos durante as terríveis viagens a bordo dos tumbeiros – navios de pequeno porte que realizavam o transporte de escravos entre África e Brasil – as mães africanas rasgavam retalhos de suas saias e a partir deles criavam pequenas bonecas, feitas de tranças ou nós, que serviam como amuleto de proteção, nesta oficina,  os participantes poderão produzir seus próprios amuletos.

13h às 13h45 – Circo Social Aldeias Infantis – Serão realizados dois espetáculos: O Fantástico Mundo do Circo Social e o Circo Feminino. Ambos reúnem inclusão, arte, educação cultural e linguagem circense. Os aprendizes passaram por todas as modalidades circenses e os espetáculos foram sendo criados a partir da percepção e compreensão de cada um sobre as diferentes formas do brincar e também da importância do empoderamento feminino.

15h30 16h30 – Slam das Minas  Inspirado no slam, linguagem artística nascida na década de 1980, nos Estados Unidos, o Slam das Minas surgiu em 2015, em Brasília, e em 2016 ganhou novas vozes em São Paulo. A competição, em que as poetas recitam poesias autorais durante três minutos e são avaliadas por um júri popular com notas de 0 a 10, surgiu da necessidade das mulheres de enviar representantes para o campeonato nacional Slam BR e para a disputa mundial de poesia. O movimento ganhou diversas vozes e as rimas têm contribuído para a divulgação de pautas feministas.

  • Vila Sustentabilidade

 10h às 12h – Oficina Resgatando Orquídeas – Workshop de sensibilização socioambiental, no qual Voluntários receberão orquídeas para serem resgatadas do descarte, através da técnica de fixação em árvores. A duração pode ser de até 60 minutos, dependendo do tamanho das turmas. Serão distribuídas 60 orquídeas aos primeiros inscritos.

14h30 às 15h30 – A Música e o Palhaço  Guiado pelo som contagiante da banda, Duilho (o palhaço) chega para assistir a apresentação. Observando os músicos tocarem, ele logo se anima e deseja ser o novo integrante da banda. A partir dessa ideia, o Duilho tentará, de formas inusitadas, conquistar a plateia e os músicos. Será que ele consegue? Composto por músicos e um palhaço, o grupo destaca-se pela interatividade e sonoridade musical. O repertório inclui jazz tradicional, choro e maxixes, percorrendo simultaneamente o período de 1900 até 1930 entre Brasil e Estados Unidos.

  • Espaço Raiz

 10h às 11h – Em Busca da Moda Perfeita – Com o uso de um tabuleiro que envolve os participantes em torno do ciclo de produção e consumo de uma peça de vestuário, serão propostos, durante as etapas do jogo, desafios e possibilidades para uma produção mais humanizada e menos poluente. O objetivo é gerar discussões e fazer escolhas a partir das informações que o jogo fornece.

11h15 às 12h – Ecogame: Missão Humanitária  Jogo cooperativo em que os participantes têm como finalidade “salvar uma comunidade” da qual fazem parte. A meta é dividir um bem comum que se chama água, elemento vital para nossa existência. Deverão também reflorestar com “araucárias” uma grande área devastada. O objetivo do jogo é que todos trabalhem juntos, já que o futuro dessa comunidade e de todos depende disso.

10h às 16h – Reforma da Kombosa  Intervenção artística na Kombosa Solidária, a Kombi que está com a organização há cinco anos e é a ferramenta de transporte de doações e atividades lúdicas para pessoas em situação de rua. Além disso, o grupo levará para esta edição do DBA diversas atividades lúdicas para as crianças, como óculos 360º, pintura de rosto, miçanga, entre outros.

  • Espaço Bosque 

 9h às 18h – Parque Sensorial Natural – Instalação composta por diversas estações de brincar, criadas com elementos naturais e que buscam estimular sensorialmente bebês e crianças, promovendo o desenvolvimento motor, sensorial e cognitivo, além de estimular as relações afetivas entre os participantes.

12h às 12h30 – Percussão Corporal – Uma experiência musical por meio da prática de instrumentos de percussão e movimentos corporais. Exploração de fontes sonoras não convencionais como garrafas PET e utensílios de cozinha para a criação e interpretação de diferentes ritmos.

13h às 15h – Casada Consigo Mesma – Palhaças vestidas de noivas abordam as mulheres perguntando se gostariam de se casar com elas mesmas. O objetivo da apresentação é que as mulheres resgatem seu amor próprio por meio do empoderamento feminino.

16h30  Pulse – Cena cômica com esquetes clássicas de palhaço. Um palhaço persistente que mesmo sendo atrapalhado tenta, com a ajuda do público, montar uma banda e fazer um filme, com muito humor e diversão.

14 às 15h – Diálogos pela Diversidadepolítica e sociedade  Roda de conversa sobre como é possível potencializar a luta pela diversidade.

15h às 16h – Cruzando Fronteiras – Atividade com a participação de pessoas em situação de refúgio, que são professores de suas línguas nativas (árabe, inglês e francês) e fazem parte do projeto Abraço Cultural. A oficina visa a aproximação cultural através do ensino do uso de turbantes, caligrafia árabe e dança do ventre.

  • Apresentações Itinerantes/em movimento 

10h às 11h – Caminhada do Sorriso – A Smile Train apresenta a Caminhada do Sorriso com o objetivo de conscientizar os participantes sobre a fissura Labiopalatina. Até o dia 4/4, as inscrições podem ser feitas pelo e-mail ou pelo WhatsApp (11) 98105-5651. Para quem quiser participar da campanha de doação e receber um boné exclusivo, gratuitamente, e usá-lo durante a caminhada, pode fazer uma doação voluntária no valor sugerido de R$55,00.

 11h30 às 12h15 – Travessia – Esta intervenção poético-literária é fruto de imersão artística realizada pelo grupo por meio de incursões pelo sertão mineiro e visitas à cidade de Cordisburgo (MG), terra de Guimarães Rosa, e as vivências teatrais inspiradas no escritor Antônio Cândido. O resultado é a criação de personagens que promovem um encontro entre o sertão mineiro de Rosa e o de Cândido. As músicas foram inspiradas em cirandas, prosas fiadas por violeiros, baseadas no cancioneiro popular.

10h30 às 18h – Tênis no Parque – Oficina que possibilitará ao público praticar atividades físicas e esportivas orientadas, e também momentos de lazer tendo como principal atrativo a modalidade tênis de campo.

 14h às 16h – Leitura Surpresa – O Sarau do Binho promove a reunião de poetas, cantores e músicos na região do Campo Limpo, na Zona Sul de São Paulo, há mais de 15 anos. No DBA, os poetas do Sarau do Binho vão oferecer a leitura de poemas e pequenos trechos de livros de autores das periferias. Livros sobre temáticas diversas serão distribuídos ao público.

 

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Arte

King Kong: o outro rei na Broadway

Por Por Edson Cadette / Blog Lado B NY

O reino animal definitivamente tomou conta dos palcos da Broadway. O primeiro exemplo deste reinado fica por conta do musical O Rei Leão, que estreou no teatro há mais de vinte anos e continua atraindo milhões de novaiorquinos e turistas.

King Kong, baseado no famoso filme de 1933, fez sua estréia no final de 2018 no coração do mundo teatral de Nova York: a Broadway. O musical chegou marcando presença e, certamente, está querendo destronar o rei da selva. Duas outras versões foram feitas por Hollywood, uma de 1976. estrelando Jessica Lange, e a outra de 2005 com Naomi Watts.

A história é bastante conhecida: um ambicioso aventureiro – e talvez lunático – diretor de cinema convence a sua tripulação, uma jovem e desempregada atriz e o capitão de uma pequena embarcação à participarem das aventuras das selvas da ilha de Skull Island. A intenção dele é encontrar algo tão grandioso e magnífico que possa transformar o mundo dos espetáculos do chamado “mundo civilizado”. King Kong torna-se então a resposta para incerta aventura.

Ao entramos no belíssimo teatro Broadway, a primeira imagem que notamos é o de duas silhuetas. Uma de um enorme gorila e a outra de uma diminuta mulher.

Christiani Pattis (Ann Darrow) e Eric Williams Morris (Carl Denham) | Foto: Reprodução

A direção do musical fica por conta de Drew McOnie, a trilha sonora por Marius de Vrie e a música por Eddie Perfect. O elenco é protagonizado por Christiani Pitts, Eric Williams Morris e Lori Lotchtefeld, que representam, sem dúvida alguma, algo raro dentro nos palcos da Broadway: diversidade.

King Kong é uma marionete com mais de 6 metros de altura que pesa mais de 2 toneladas. O enorme gorila é manipulado por 14 profissionais de primeiro gabarito, que são ajudados por 16 microprocessadores espalhados por todo o corpo do boneco. A maneira como é manipulado de um lado para o outro é um trabalho feito meticulosamente e que não altera os movimentos do gorila. Ficamos tão envolvidos e conectados com a história e a relação entre a bela e a fera que nem percebemos que ele é uma enorme marionete.

King Kong e Ann Darrow | Foto: Reprodução

“Ele é um personagem com um carácter expressivo e com um grande alcance de emoções, tive que realmente melhorar bastante minha representação para poder competir”, disse a atriz Chrstiani Pattis, cuja relação com o enorme gorila é o foco central da história. “Quando trocamos olhares pela primeira vez, ele dá um enorme rugido e eu começo a soluçar. Não parece que ele pertence a este espaço”, completa ela.

Com uma produção que ultrapassou a casa dos US$35 milhões e que durante mais de uma década passou por diferentes roteiros, músicas e equipe de criação, King Kong chegou na Broadway com todos os atributos para tornar-se, junto a Rei Leão, um dos grandes musicais da casa.

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Cultura

Teatro da Neura encerra curta temporada de ‘Yerma’

Foto: Michel Galiotto

Comemorando os quinze anos de existência, o Teatro Neura chega hoje (30) à capital paulista trazendo o espetáculo Yerma, que estreou em setembro do ano passado após oito anos de pesquisa sobre Realismo Fantástico, e promete grande celebrações para o grupo. A curta temporada de Yerma será nos dias 30 e 31 de janeiro, às 20h30, no Teatro De Contêiner, com valores de 10 a 20 reais.

A companhia Teatro da Neura, nascida em Suzano, também é criadora do Espaço N de Arte e Cultura, sua sede oficial, onde geralmente os próprios artistas são responsáveis fazem suas apresentações.  “Um grupo movimentado por tesão e paixão a partir das resistências individuais que formam esse coletivo. Essa identidade”, diz Antonio Nicodermo, diretor do espetáculo ao lado de Lígia Berber.

Diretores Antônio Nicodemo Lígia Berber / Foto de Michel Galiotto

Nicodermo explica que o grupo possui atualmente três vertentes: o “realismo fantástico”, que levou oito anos de pesquisa, as releituras de Nelson Rodrigues e “teatro, política e sociedade”. Foi com a primeira que começaram a utilizar aquilo que consideram ser pioneiros na área: criar espetáculos criteriosos no rigor estético e dramaturgo através de uma nova escola teatral.

“Nos debruçamos em toda obra de Garcia Lorca e estudamos o artista. Chegamos em um resultado de uma obra extremamente simbólica e muito ritualística que envolve muitos assuntos contemporâneos”, disse o diretor ao ser questionado sobre Yerma. Escrita em 1934, a tragédia ganha uma montagem na tênue linha de um presságio, o malogro dos desejos que não concretizamos. A peça propõe ao público um deslocamento da realidade, espaço e tempo a partir da frustração de uma mulher.

No próximo dia 03 começam o circuito de espetáculos do texto O Menino Gigante ou os Dez Fevereiros. Segundo Nicodermo o grupo tem uma agenda vasta para 2019 com muitas pesquisas, estudos, ensaios e apresentações.

Foto: Fabrício Augusto

Serviço

  • 30 e 31 de janeiro
  • Quarta e Quinta
  • 20h30
  • Ingressos: $20 inteira . $10 meia
  • Teatro De Contêiner
  • Rua dos Gusmões, 43 – Santa Ifigênia. São Paulo.
  • Ingressos a venda também pelo link
  • A Bilheteria abre 2h antes do espetáculo
  • Realismo Fantástico – Terror
  • Classificação: 14 anos
  • 125 minutos . Com intervalo

Direção

  • Antônio Nicodemo
  • Lígia Berber

Elenco 

  • André Antero
  • Camila Ribeiro
  • Conceni Paulina
  • Lígia Berber
  • Priscila Nicoliche
  • Tamíris Terra

 

 

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Cinema

Em tempos de necropolítica reinventamos a necropoética

22ª Mostra Tiradentes – Abertura Oficial – Foto Leo Lara/Universo Produção

Por Viviane Pistache *

A 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes começou no dia 17 de janeiro de 2019, ou seja, dois dias depois que o atual desgoverno assinou seu primeiro decreto que facilita a posse de arma. Mas qual seria a relação entre arma e cinema? A diretora negra Ava Duvernay no documentário A 13ª Emenda faz uma relação interessante: o capitalismo estadunidense se apoia nas indústrias armamentista e do entretenimento. A maior indústria nos Estados Unidos é a que mais mata a negritude à queima-roupa ou a que mais invisibiliza e estereotipa esta população nas telas?

A abertura da Mostra de Tiradentes destacou o argumento de que cada um real investido em cultura rende quatrocentos reais. Ou seja, cultura é negócio. Mas o desgoverno aposta em armamento e extingue o Ministério da Cultura. Nas mesas de debates da Mostra de Tiradentes uma pergunta tem sido recorrente: o que será da nossa indústria cinematográfica nestes tempos distópicos? Quais os impactos para a realizadores negros/as, historicamente tão alijados/as do acesso a recursos?

Trata-se de enfrentar questões mercadológicas fulcrais, de pensar estratégias para competir com a indústria da violência e do retrocesso, que mata física e simbolicamente a população negra. Melvin Van Peebles, o diretor expoente do Movimento Blaxplotation dos anos 70, estabeleceu os postulados: “Regra número um: não haverá meio termo. Eu farei um filme sobre o negro real. Quero um filme que faça os negros saírem do cinema orgulhosos ao invés de temerosos. Regra dois: esse filme tem que entreter como o Diabo. Regra três: cinema é negócio.”

Sim, cinema é negócio. Um estudo publicado em 2017 pela Creative Artists Agency (CAA) apontou que há o crescimento de uma plateia mais diversa que se interessa por filmes que apresentam diversidade de raça, gênero e orientação sexual, incidindo diretamente na arrecadação. Dentre os incontestes sucessos de bilheteria que ressaltam a diversidade racial dentro e fora das telas, figuram Moonlight, de Barry Jenkins, Corra!, de Jordan Peelan, e Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi. O Despertar da Força, protagonizado por John Boyega, ator negro, bateu o record de bilheteria absoluta, que pertencia a Avatar e Pantera Negra, de Ryan Cooler, filme de melhor desempenho produzido pela Marvel em 18 anos de existência.

Apesar da primorosa formação de profissionais negros no audiovisual, bem como o acesso ao mercado,  o quadro é bem mais complexo, pois a indústria cinematográfica opera numa lógica bélica na construção de imaginários raciais que não se restringem às fronteiras norte-americanas.

Em tempos de necropolítica reinventamos a necropoética. É a proposta da atriz Grace Passô, a grande homenageada nessa edição do Festival de Cinema de Tiradentes. Na noite de abertura fomos agraciados com a exibição de Vaga Carne, que marca a estréia da Grace na direção do seu primeiro filme ao lado de Ricardo Alves Jr..  Adaptação da peça homônima, Vaga Carne traz para as telas a encarnação da voz que se descobre num corpo negro de mulher. A voz que provoca, a voz entidade que não admite ser interrompida. A voz que satiriza, que invade nossa carne, a voz (im)própria, a voz de Exú que matou um pássaro ontem, com uma pedra que atirou hoje. A voz suicida que rasga a carne para se libertar. A voz do chiste que ri de tanto chorar. A voz do gozo e do lamento. A voz do breu, do inconfessável. A voz que não respira, a voz (des)humanizada.

Em Vaga Carne, Grace Passô traz o teatro para o cinema para justamente sair do teatro. Nesta metalinguagem, a câmara está apontada para o racismo próprio dos palcos e dos bastidores da indústria do entretenimento. E assim conhecemos a alma da resistência de dentro e a partir de seus próprios arsenais. Desse modo a atriz, dramaturga, escritora e agora diretora de cinema Grace Passô torna-se uma testemunha vocal que transita entre mundos de diferentes telas. Lembrando que James Baldwin aponta que as fronteiras entre testemunhar e atuar são finas, porém reais; e que parte da responsabilidade das testemunhas é movimentar com a maior liberdade possível para escrever a história. E assim, uma câmara em mãos negras pode se mostrar um armamento poderoso no enfrentamento às violências e alienações raciais com o simples disparar de um flash.

Mas ao mesmo tempo em que Grace Passô mira, é também mirada. A platéia entra em cena para atuar. No elenco estão nomes fundamentais da cena cultural e negra de Belo Horizonte, pois além de Grace Passô, Vaga Carne atravessa os corpos de Zora Santos, Dona Jandira, André Novais, Sabrina Hauta, Hélio Ricardo, Aline Vila Real, Tásia d’Paula, Valéria Aissatu Sane, Ronaldo Coisa Nossa. E considerando a assunção do olhar na hierarquia dos sentidos, tem-se a miragem como posição de poder.

Assim, a busca por aniquilar uma história da colonização evidencia que a branquitude sempre teve o poder da mira, de apontar pra matar, caçar ou espoliar.  Na frente ou atrás das câmeras o corpo negro assume importante posição de conhecimento, de saberes localizados, a partir dos quais novos projetos de  representações simbólicas se tornam possíveis. Em Vaga Carne nossas vozes e corpos estão dentro do olho do furacão,  resistindo para não se deixar engolir. Vaga Carne é um filme sobre a negritude real, que nos faz sair da sala de cinema com orgulho, e não com temor.

Diante disso, a emergência de diretores/as negros/as é fundamental para a existência de um “cinema do real” onde não há manipulação das aparências para colocar o espectador em um estado passivo de identificação acrítica.”, como indica o negro cineasta, escritor, teórico cultural e historiador do Mali Manthia Diawara. Assim, Grace Passô nos traz uma saborosa vertigem de cinéfila, aquele torpor que experimentamos ao ler Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Alice Walker, Maya Angelou, Toni Morrison, bell hooks e tantas outras. Como é bom citar nossa intelectualidade! E por falar nisso, necropoética foi um termo cunhado pelo crítico negro Juliano Gomes na mesa de debate sobre o filme Vaga Carne, que aconteceu no dia 19 de janeiro na programação da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que está reluzindo negritude e afrontamento. Por estas e outras, o festival, que é a primeira grande janela anual do nosso cinema está imperdível. Edição histórica!

 

*Viviane Pistache é psicóloga, roteirista e crítica de cinema. Preta das Gerais com mania de ter fé na vida.

 

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Cultura Literatura

Teatro Apollo aos 85 anos – Estante Literária

Por Edson Cadette, adaptado, do Blog Lado B NY

Numa noite fria de inverno, em janeiro de 1934, o legendário Teatro Apollo, encubador de talentos como James Brown, The Jackson Five, Dionne Warick e incontáveis cantores, dançarinos e comediantes, abriu suas portas no coração do bairro do Harlem, em Nova York. O show de abertura se chamava “Jazz à la Carte”.

Ted Fox adaptou o belo livro “Showtime at the Apollo: The Epic Tale of Harlem’s Legendary Theater” como uma história gráfica, com ilustrações de James Otis Smth. A obra é uma bonita homenagem ao Teatro que está comemorando 85 anos de existência neste ano e tem muitas histórias dentro e fora do seu famoso palco. O Teatro Apollo foi testemunha de vários eventos envolvendo não somente os famosos artistas, mas também o próprio bairro.

O primeiro episódio fora do palco aconteceu exatamente um anos após a inauguração do Apollo. O bairro do Harlem foi palco de um enorme distúrbio urbano envolvendo mais de 3.000 pessoas, devido ao espancamento de um jovem negro por vendedores dentro da loja de departamentos S.H. Kress & Co. De acordo com reportagem da época, do periódico The New York Times, o local foi poupado de qualquer estrago físico.

“Showtime” começa bem antes da inauguração. Na época, um outro clube famoso era o destaque cultural do bairro: o Cotton Club. Com sua lista de grande músicos de Jazz, entre eles Cab Calloway e Duke Ellington, era frequentado pela clientela endinheirada branca, clientes negros eram barrados no porta.

Teatro Apollo no coração do bairro do Harlem/NY

O livro se equilibra entre a dura realidade da população negra do bairro e a magia dos excepcionais artistas no palco. Há de tudo um pouco nesta magnífica história. Há roubos, drogas, brigas, mortes e distúrbios raciais. Porém, o Teatro de uma maneira ou outra sempre saiu ileso.

Outro episódio importante envolvendo a casa aconteceu aos tiros, em 1973, durante a apresentação do cantor Smokey Robinson. Entre os distúrbios, tiros e muitas drogas, os artistas continuavam fazendo apresentações e mostrando não apenas seus talentos, mas também a resiliência da comunidade afro-americana.

Um importante e histórico destaque fica por conta da gravação ao vivo de um álbum do cantor James Brown, que ficou nas paradas de sucesso da época por mais de um ano. Outro destalhe bacana no livro é o concerto do icônico cantor George Clinton, que ao invés de ir ao ginásio de esportes Madison Square Garden, optou em apresentar-se no Teatro Apollo.

Durante seus 85 anos, o teatro enfrentou diversas dificuldades financeiras, por várias vezes esteve até mesmo a ponto de ser demolido. Em 1979 foi fechado por causa de evasão fiscal.

Em 1981 começou sua gloriosa renovação. Dois anos depois, ele foi considerado pela cidade de Nova York como um marco histórico cultural. E durante mais de 20 anos foi palco de inúmeras disputas para saber qual modelo gestor seria melhor utilizado para mantê-lo em funcionamento.

No início dos anos 2000, milhares de fãs se aglomeraram dentro e fora do Apollo para prestarem suas últimas homenagens a dois ídolos. O primeiro deles, James Brown, faleceu em 2006, três anos depois o teatro ficou de luto mais uma vez, devido a morte do rei do pop, Michael Jackson.

“Showtime” termina com o reconhecimento a Francis Thomas, também conhecido como Doll (Boneca) ou Mr. Apollo (Senhor Apollo), que foi um veterano no “show business”, gerente do teatro e um “faz de tudo um pouco” no local. É ele quem puxa a cortina da famosa “Quarta-feira Noite Amadora”, que começou  na inauguração e segue sendo sendo uma das principais atrações do bairro até os dias atuais.

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Rodar a vida é uma escola: Melvin Santhana conta sobre a carreira e trajetória de vida

Foto: Vinicius Souza

Por Marina Souza

Cantor, compositor, multi-instrumentalista, ator e produtor musical. A arte dentro da alma ou vice-versa. Melvin Santhana tem 35 anos e nasceu em Guarulhos rodeado por uma família que desde cedo o influenciou musicalmente por meio do trabalho do pai com discos, da MPB, das cantigas de Umbanda e Candomblé, festas familiares e muitas outras experiências. Com cerca de 20 anos de carreira, ele vem conquistando diferentes espaços, atualmente integra a banda de apoio do show Boogie Naipe, do rapper Mano Brown, e no ano passado lançou seu primeiro disco solo: o Abre Alas.

Com apenas oito anos de idade o artista aprendeu a tocar cavaquinho, aos doze entrou num conservatório para estudar violão erudito e durante a adolescência matriculou-se em instituições e cursos de Música. Stevie Wonder, Michael Jackson, Nina Simone, Milton Nascimento, Almige Neto, Lauryn Hill e outros emblemáticos da música negra serviram de inspiração para o desejo de Melvin em trabalhar na área.

Os Originais do Samba foi a primeira banda em que fez parte, foi quando começou a aprimorar seus talentos de cantar, dançar e compor. Aos poucos, foi participando de outros projetos de intuito e mecanismo diversos no cenário artístico. Carregando os significados, as consequências e circunstâncias de ser negro no Brasil, ele diz que resistiu (e ainda resiste) todos os dias de sua vida, independentemente da profissão que está exercendo.

Foi com sua personalidade corajosa e persistente que Melvin conseguiu entrar para o Boogie Naipe. Ele conta rindo que convidou a si próprio quando seu primo, que é amigo da assessora dos Racionas MC’s, lhe falou que a Eliane Dias estava querendo formar um grupo para um novo projeto musical. Coincidentemente, Santhana estava trabalhando no espetáculo “Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens”, que retrata o legado deixado pelos Racionais, e em uma das apresentações conversou com a filha de Mano Brown, que estava na platéia. Através dela, marcou uma reunião com Eliane, que o propôs uma audição com outros músicos indicados por ele próprio. Eles fizeram, passaram e hoje compõem a banda.

Talvez só precise de um incentivo, um espaço para mostrar esse trabalho, uma comunidade que abrace isso e entender que é capaz de produzir.”, diz ele.

Foto: Noelia Najera

Para Santhana é essencial que o povo negro brasileiro faça uma reflexão sobre suas maneiras de consumo, produção e correlação entre si, pois isso interfere diretamente nas perspectivas culturais, históricas e políticas dos cidadãos. A visão eurocêntrica, segundo o músico, ainda é uma das principais responsáveis pelo racismo no país. É por esta razão, que ele sempre optou pluralizar os gêneros musicais usados nas suas obras e afirma: “a diversidade é minha matriz e é onde faço acontecer”.

Quando questionei sobre as dificuldades de ser um artista negro o cantor enfatizou que no Brasil, infelizmente, o mercado da área musical ainda está o pouco aberto para a cultura negra. Ele justifica falando que, apesar da Iza, Gloria Groove, Linn da Quebrada e outras/os artistas negras/os que têm ganhado destaque ultimamente, há falta de uma estrutura e um circuito cultural que fomentem isso.

Recentemente, lançou a música “VIVA!” e diz que em 2019 pretende trabalhar com novos singles, além de videoclipes e – talvez – um EP. Melvin também está atuando como ator tanto em Tetaro, quanto em Cinema, e revela que está inserido no projeto “Sem Asas”, de Renata Martins.

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Cultura Mídias Negras e Alternativas Periferia

Espetáculo mostra narrativas das presidiárias brasileiras

Foto: Thiago Sabino

Por Marina Souza

De acordo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias sobre Mulheres, o Infopen Mulheres, divulgado em maio pelo Ministério da Justiça, o Brasil é o quarto país do mundo com maior número de mulheres presidiárias. As eficácias, consequências e os funcionamentos do atual sistema prisional brasileiro estão diretamente atrelados à questão de classe, de gênero e ao racismo estrutural. Foi tomando como base este universo doloroso e negligenciado, que Edson Beserra dirigiu o espetáculo “Liberdade Assistida“, que entra em cartaz nos próximos dias 14, 15 e 16 de dezembro, no Teatro de Contêiner Mungunzá, em São Paulo.

Com o processo produtivo de estudar livros, poesias, pesquisas acadêmicas, textos, depoimentos, cartas e entrevistas de detentas e ex-detentas, de diferentes lugares do país, a peça tem como intenção retratar a dura realidade dos presídios femininos e a vulnerabilidade da periferia do país.

A atriz e produtora cultural Marta Carvalho, de 47 anos, nos contou que há 10 anos começou a pesquisar sobre o assunto através de um trabalho de formação nas Casas Abrigos do Distrito Federal. Em 2017 ela interessou-se pelas inscrições no Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro Brasileiras, convidou a professora, doutora em História, Ana Flávia Magalhães para escrever a dramaturgia e o dançarino Edson Beserra para dirigir, pela primeira vez na carreira, um espetáculo teatral. Após ser premiado, o grupo estreou o espetáculo pelo Brasil.

Marta intercala expressões verbais e corporais em um monólogo. Ela ressalta que “estar sozinha é também não estar”, lembrando das importantes presenças que há por trás dos palcos.

Foto: Roberth Michael

“A arte tem que se portar como um transformador social. Esse espetáculo vem falar das histórias dessas mulheres que estão dentro da gente. A mulher preta vive um cárcere social. É sobre nossos corpos contando como as nossas irmãs vivem em situação de cárcere constantemente.”, revela a atriz.

Serviço:

  • Espetáculo “Liberdade Assistida” em São Paulo
  • Dias 14, 15 e 16/12
  • Sexta e sábado às 20h | Domingo às 19h
  • Teatro de Contêiner Mungunzá (Rua dos Gusmões 43 | Santa Ifigénia – Centro)
  • Entrada: R$ 20 (inteira)  e R$ 10 (meia)
  • Classificação Indicativa: 16 anos
  • Duração: 55 minutos