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O Homem Negro Viril: apontamentos sobre a ideia de virilidade

Por Henrique Restier

“Não se nasce viril, torna-se viril” (Arnaud Bauberot)

Os estudos sobre masculinidades tem ganhado maior destaque tanto no debate público quanto no acadêmico. Além disso, o campo das relações raciais também tem percebido o tema como um lugar singular para o aprofundamento das discussões sobre raça e gênero. Este texto é um convite para que entremos por alguns momentos no “mundo masculino negro” pelo viés da virilidade.

A Força Física

Vamos começar esse diálogo através de uma expressão que grande parte dos homens já escutou: “Se tu voltar pra casa chorando vai apanhar aqui também”. A despeito de não ser a opinião corrente sobre ela, penso nessa expressão como uma forma sincera e séria de forjar um homem para enfrentar um mundo implacável. Não desprezo seu teor duro e ameaçador, mas há amor nela, às vezes um amor tão grande que é preciso dizê-la, volta e meia com o coração despedaçado, em outros casos com raiva (da expressão e dos meninos; do que apanhou e do que bateu).

Notem que, o fazer-se homem é uma atividade de provação constante, uma prática diária, com seus próprios ritos de passagem e códigos viris. Os desafios para tais provações podem acontecer em qualquer momento, em qualquer lugar e de várias formas diferentes. Isso é um fato, qualquer homem sabe disso. E a briga, principalmente, entre os meninos é um desses rituais. Um aprendizado. Gostemos ou não.

Essa expressão é uma metáfora para o que vamos enfrentar ao longo de nossas vidas em diversos âmbitos. Excluindo os atos covardes e hediondos, na luta física os homens aprendem sobre respeito, autoridade, determinação, autocontrole e frustração, princípios fundamentais para o desenvolvimento masculino, além de provar uma das mais importantes características da virilidade: a força física. Esta inclui a capacidade de defender (a si e também aos outros, principalmente sua família e pares) atacar e vencer.

Muitos se perguntam o porquê dos lutadores de MMA se abraçam e falam amistosamente entre si após se esmurrarem. Lutam com o outro, não contra o outro. Temos combates dos mais formais aos mais vis. De qualquer maneira, o homem deve estar preparado, pois a violência sempre está à espreita, principalmente para nós, Homens Negros.

Isso sem mencionar as fantasias eróticas que circulam no imaginário de mulheres e homens a respeito de profissões que têm na força física e no espírito combativo seu núcleo, como: policiais, operários, bombeiros, dentre outros (vide os músicos da banda Village People que satirizavam os tipos masculinos). O desenvolvimento da capacidade física para lutas, esportes e proezas sexuais é inerente ao processo de socialização masculina.

Capa do disco Macho Man do Village People de 1978

Entretanto o homem viril não se esgota aí. Para o historiador da filosofia Jean Jacques Courtine (2012) além da capacidade física, a firmeza moral e a potência sexual seriam outros dois elementos centrais da “construção viril”. Assim, podemos nuançar os entendimentos que temos sobre a virilidade, geralmente publicizadas em termos negativos o que, no meu entendimento, são leituras reducionistas e caricatas. Podemos a partir de tal compreensão lançar um novo olhar sobre a virilidade, propondo construções que possibilitem um melhor aproveitamento dos sentidos positivos que ela pode representar, sobretudo, para os Homens Negros.

A Potência Sexual

Para nós, o pênis ereto simboliza afirmação viril. A ereção nos confere dignidade. O pênis expõe nossas fortalezas e fraquezas. Promete prazeres, prova desejos, e está sempre a um passo do fracasso. Suas dimensões e sentidos produziram obras de arte e arquitetônicas magníficas através do mundo.

A penetração é um ato de poder e domínio, mas também de comunhão e aconchego. A alegoria da fecundidade masculina, na qual os espermatozoides devem estar não só em grande quantidade como também possuírem força e velocidade para competirem uns com os outros e adentrarem o óvulo, representa um aspecto fundamental da luta pela vida. Podemos considerá-la como o impulso arquetípico masculino de projeção e foco.

Destruição e criação são faces do mundo natural. A natureza não é boa nem má, ela é. O corpo é o suporte e a manifestação da experiência humana no mundo. Hormônios, feromônios e toda a fisiologia sexual humana dialogam, mais do que talvez gostaríamos, com as dinâmicas sociais entre os sexos. “O hormônio modifica o comportamento e o comportamento modifica o hormônio. É uma relação bidirecional”, explica a neuroendocrinologista Maria Bernardete Cordeiro de Sousa. O sexo seria então, uma síntese extraordinária de forças orgânicas e culturais, e a virilidade faz parte delas.

Templo de Luxor, no Egito

O Caráter Viril

Já a firmeza moral da qual Courtine nos fala, envolve uma série de atributos simbólicos e assim, a virilidade, mais do que potência física, vem carregada de valores e responsabilidades. Para exercê-la o homem precisa provar seu caráter. Justiça e inteligência são admiradas. A capacidade viril de autodomínio, comando e segurança também. Virilidade é virtude. Georges Vigarello traz uma interessante definição do termo:

“A virilidade é marcada por uma tradição imemorável: não simplesmente o masculino, mas sua natureza mesma, e sua parte mais ‘nobre’, senão a mais perfeita. A virilidade seria virtude, cumprimento. A virilitas romana, da qual o termo é oriundo, permanece um modelo, com suas qualidades claramente enunciadas: sexuais, aquelas do marido ‘ativo’, poderosamente constituído, procriador, mas também ponderado, vigoroso e contido, corajoso e comedido. vir não é simplesmente homo; viril não é simplesmente o homem: ele é um ideal de força de virtude, segurança e maturidade, certeza e dominação. Daí esta situação tradicional de desafio: buscar o ‘perfeito’, a excelência, bem como o ‘autocontrole’. Qualidades numerosas enfim, entrecruzadas: ascendência sexual misturada à ascendência psicológica, força física à força moral, coragem e ‘grandeza’ acompanhando força e vigor.”.

Ou seja, a virilidade prescreve uma série de exigências (entendidas como virtuosas) que devem ser continuamente praticadas na busca pela excelência. E, portanto, é um fardo. Podemos chorar, sermos mais sensíveis e afetuosos, não importa. Sempre haverá modelos viris a serem seguidos e desafiados.

A normatividade e a prática

Certas discussões partem da ideia de que somos um bloco homogêneo reproduzindo, inteiramente e a todo o momento, os estereótipos e ideologias hegemônicas, o que acaba por criminalizar as múltiplas masculinidades. Devemos ter cuidado com as interpretações dualistas sobre os Homens Negros seja como opressores ou como vítimas. Ou somos machistas inveterados, mulherengos, violentos e irresponsáveis, ou os assassinados, miseráveis e incapazes. Um festival de imagens que lidam com extremos. Falta dinamismo nessa leitura.

As primeiras legitimam que sejamos o grupo mais lesado em um direito elementar do ser humano: o direito à vida. As segundas nos infantilizam. Perdemos agência e poder de decisão. Evidentemente não ignoro o poder daquilo que o sociólogo jamaicano Stuart Hall (2016) chama de “estrutura binária do estereótipo”onde um conjunto de lugares-comuns racionalizados nos são imputados e que ao negar um, corremos o risco de reafirmar outro, permanecendo em um círculo vicioso. Contudo significados podem ser subvertidos e utilizados em nosso favor. A luta nunca está ganha nem perdida.

Luiz Gama, exemplo de caráter viril

Assim, eu celebro as masculinidades negras em todas as suas contradições. A norma não é capaz de conter a nossa vitalidade. Não somos espelhos de convenções normativas. Nossa prática é plural. Suspeitamos dos discursos rancorosos e culpabilizadores embalados em ideologias “bem intencionadas”. Dispensamos também recomendações presunçosas do que deveríamos ler, ver ou ouvir para que hipoteticamente nos tornemos “homens melhores”. Aceitamos sim, as contribuições autênticas daqueles (as) que querem realmente colaborar com um diálogo franco, generoso e inteligente conosco.

Se por um lado alguns de nós, pela força dos discursos depreciativos se sentem acuados e acabam por adotar uma postura insegura e culpada no debate, se explicando como garotos arteiros, ou mesmo, na defensiva assumindo uma postura ressentida, por outro, a experiência masculina negra veiculada pelos próprios Homens Negros vem se legitimando no espaço público e na efervescência do cotidiano.

Homens destemidos têm se lançado na reflexão e produção de conhecimento sobre si mesmos e seu grupo sócio-racial, debatendo paternidade, trabalho, relacionamentos, auto-cuidado, auto-defesa, dentre outros temas absolutamente pertinentes. Alguns deles tenho tido a honra de conhecer e conversar. Homens que encaram as questões polêmicas e complexas de nosso tempo, de frente e com assertividade. Homens que questionam o tempo todo aquilo que se espera deles, explorando as ambivalências e os significados de serem homens e viris. Então, à nossa maneira, sejamos viris!

Eu quero ver
Quando Zumbi chegar
O que vai acontecer
Zumbi é senhor das guerras
É senhor das demandas
Quando Zumbi chega e Zumbi
É quem manda

(“Zumbi”, de Joge Ben Jor)

 

Referências Bibliográficas

BAUBÉROT, Arnaud. (2013). Não se nasce viril, torna-se viril. In: Jean-Jacques Courtine (ed.) História da Virilidade 3: A virilidade em crise? Séculos XX e XXI, pp.190–220.

COURTINE, Jean-Jacques. (2013). Introdução Impossível virilidade. In: Jean-Jacques Courtine (ed.) História da Virilidade 3: A virilidade em crise? Séculos XX e XXI, pp.7–12.

HALL, Stuart. (2016). Cultura e representação. Rio de Janeiro: Editora Apicuri.

VIGARELLO, Georges. (2013). Prefácio. In: Georges Vigarello (ed.) História da Virilidade 1: A invenção da virilidade Da Antiguidade às Luzes, pp.7–9.

 

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Política

Valores viris na política: esboço crítico sobre relações raciais e gênero masculino

Por Henrique Restier

“Eu sou o maior inimigo do impossível” (Bluesman) Baco Exu do Blues

João Cândido “O Almirante Negro” (1880–1969)

Os homens e as masculinidades têm sido um campo de estudos com um crescimento e interesse vertiginosos nos últimos anos. Os homens se tornaram seres “generificados” e, portanto, sujeitos de diferentes análises, vindas dos mais diversos movimentos sociais e arcabouços teóricos. Quanto aos temas, a antropóloga e feminista negra colombiana, Mara Viveiros Vigoya (2018, p. 67) nos traz um quadro bastante interessante. Em sua pesquisa, a autora aponta sete eixos principais, são eles: identidades masculinas (30%), masculinidades e violências (18%), problemas, dilemas e tensões em torno da saúde dos homens (16%), afetos, sexualidades e reflexões epistemológicas, ambos com 14%, representações e produções culturais das masculinidades (6%) e, por último, espaços de homossociabilidade masculina (2%). O perfil de gênero dos pesquisadores é bastante equitativo, homens e mulheres correspondem respectivamente a 41% e 40%. Ademais, o Brasil aparece em primeiro lugar em volume de produção de conhecimento sobre homens e masculinidades na América Latina, seguido por México, Colômbia, Chile e Argentina.

Recentemente, saíram alguns textos no espaço público debatendo masculinidade e política, referindo-se mais precisamente ao avanço de chefes de Estado em diversas nações (inclusive a nossa), tidos como truculentos, autoritários, com um forte discurso bélico e “anti-minorias”. À grosso modo, os argumentos centrais da maioria desses textos exploram a relação entre essa aparente “masculinidade tóxica” (tanto dos políticos como do eleitorado), sua legitimidade e ascensão no cenário político, tendo prováveis desdobramentos nocivos ao conjunto da sociedade.

Olhando para esses cenários podemos perceber que as reflexões sobre homens e masculinidades podem ser uma “entrada” desafiadora e produtiva para a análise política. Assim, minha intenção nesse texto é trazer algumas considerações introdutórias sobre as possíveis associações entre relações raciais, gênero masculino, virilidade e política.

Virilidade e Branquitude

O advento dos estudos da branquitude, que pode ser definida como um lugar de vantagem estrutural, um ponto de vista e “um conjunto de práticas culturais, que geralmente não são marcadas nem denominadas” (FRANKENBERG, 2004, p. 81), tem contribuído muito para o campo das relações raciais, possibilitando que negros e brancos, principalmente os últimos, sejam lançados para dentro das interações sociais como indivíduos e grupos “racializados”. Em outras palavras, que as pessoas consideradas socialmente brancas, sejam uma variável de análise relevante para os trabalhos e investigações sobre relações étnico-raciais. Essa perspectiva atravessada por outros marcadores sociais potencializa a compreensão sobre o racismo e outros fenômenos sociais.

Simultaneamente, temos a construção das masculinidades, pois não basta a base biológica para que um homem seja considerado “realmente um homem”, a princípio ele o é potencialmente. É necessário todo um processo de socialização e aprendizagem, onde valores, normas e sistemas de representação são acionados para que nos tornemos “efetivamente homens”.

Um dos elementos fundamentais que fazem parte dessa construção é a virilidade, que remete aos órgãos sexuais masculinos, à atividade, e a penetração. Mas não só isso, a virilidade abrange códigos e fundamentos ideológicos de virtude oriundos da antiguidade clássica greco-romana “… o termo latino vir estabelecerá por longo tempo em inúmeras línguas ocidentais, virilita, “virilidade”, virility: princípios de comportamentos e de ações designando, no Ocidente, as qualidades do homem concluído, dito outramente, o mais perfeito do masculino” (VIGARELLO, 2013, p. 11). Esses princípios podem ser: a coragem, equilíbrio, lealdade, responsabilidade, vigor, controle (sobre si e o outro), espírito de competição, dominância, força, etc. Ademais, é preciso salientar que “… violência e virilidade não são sinônimas: é possível ser violento sem ser viril, e vice-versa” (FARGE, 2013, p. 511)

Tanto a masculinidade quanto a virilidade se entrelaçam e se alteram no tempo e no espaço, com certas particularidades para homens negros e brancos. Isso sem me estender na questão de que tanto a masculinidade quanto a virilidade podem ser construídas em corpos femininos, existindo, portanto, “mulheres viris”, contanto que cumpram determinados códigos masculinos, assim como os homens têm de fazer.

Em todo caso, a política se configura como um palco privilegiado para exibir a imagem e conduta viris, principalmente para os homens brancos provenientes das classes médias e abastadas, que são em sua maioria aqueles que disputam as eleições e são eleitos. Assim, como Mara Vigoya (2018, p.144) entendo que a branquitude e a masculinidade seriam “fontes de legitimidade política e popularidade”.

O político viril

Há séculos o espaço da política tem sido exercido por uma “elite masculina”. Nos berços civilizatórios do Ocidente, Grécia e Roma, a política era basicamente uma atividade de poucos homens privilegiados, o que continua sendo. No Brasil de 2018, a recente eleição trouxe à tona um perfil de homem público que encontra seu capital político na “exaltação da virilidade”, tanto em seu sentido moral, quanto físico. Houve um aumento substancial nessa eleição de homens ligados as áreas de segurança, justiça e empresarial, como policiais, militares, juízes e homens de negócios. Isso sinaliza, dentre outras coisas, que o Brasil deseja que o lema positivista, “Ordem e Progresso”, em sua bandeira, seja colocado em prática. Se realmente será esse o tipo de homem público que trará um “Brasil Varonil”, e se isso, de fato, será bom para o país, é outra discussão.

Congresso brasileiro

Em nosso imaginário, de ranço colonial e escravocrata, tal missão caberia ao homem branco, é verdade que se Joaquim Barbosa tivesse concretizado sua candidatura poderíamos ver in loco, como essa disputa se daria. De todo modo, esse papel coube à Jair Messias Bolsonaro, o “Messias viril”. O presidente eleito em 2018 soube manusear com maestria toda uma gramática da virilidade na disputa presidencial, se colocando como aquele que salvará a pátria dos perigos que a assombram, que, em seus termos, seriam: o comunismo, a ideologia de gênero, a violência e a corrupção, sobretudo aquela praticada pelo Estado. E aciona para isso, seus supostos atributos morais: o caráter e patriotismo viris, a defesa da família, a reverência à Deus e a rigidez no combate ao crime.

Além disso, seu passado nas forças armadas, no contexto atual de altíssimos índices de violência, virou um ativo político. Em certos momentos históricos críticos, essa imagem de um homem íntegro, dotado de virtudes militares e religiosas tende a trazer uma sensação de segurança e esperança para a população. O arquétipo viril do combatente em defesa da pátria se projetou na figura de Bolsonaro.

O homem negro e o poder político

Não são todos os homens que dispõem dos mesmos poderes e privilégios, há uma hierarquia interna ao grupo masculino. O colonialismo e a escravidão negra são momentos e processos cruciais para entendermos a lógica que atravessa as relações entre homens negros e brancos na política. A pergunta é: como os homens negros adentram a política eleitoral? Usualmente subordinados e indicados pelos homens brancos, seja de partidos de esquerda ou direita. Infelizmente ainda não há partidos criados e dirigidos por mulheres e homens negros, existem algumas iniciativas nesse sentido e torço para que deem certo. De qualquer maneira, o exercício da virilidade na política implica no poder de mando e na autoridade, algo que historicamente têm estado nas mãos dos homens brancos, e em menor grau, e mais recentemente, na de mulheres brancas, demonstrando a proeminência do vetor racial sobre o de gênero na política brasileira.

Um problema a ser enfrentado por nós é que os estereótipos racistas enquadram o homem negro como um degenerado, então, suas qualidades viris são sistematicamente desqualificadas. Sua força é associada à brutalidade, sua coragem à barbárie, sua sexualidade com devassidão. Ou seja, uma virilidade selvagem e brutal. Em uma palavra: hipervirilizados. Por outro lado, esses mesmos estereótipos nos associam à indivíduos, apáticos, inofensivos e servis, remetendo as famosas figuras dos pais joãos e negros da casa. Isto é: desvirilizados. Ou somos vistos como brutamontes descontrolados, ou serviçais obedientes. Como ser eleito nesses termos? O enfrentamento a esse tipo de estigma racista é primordial para nosso sucesso político.

Alberto Guerreiro Ramos, Abdias do Nascimento e João Conceição na década de 50

Isso não quer dizer que não tenhamos ao longo de nossa história, políticos negros, Nilo Peçanha e Monteiro Lopes, (1909–1910) Abdias do Nascimento (1983–1987/1997–1999), Guerreiro Ramos (1963–1964), Carlos Alberto Caó de Oliveira (1982–1986/1987–1990) são alguns desses grandes nomes. Contudo, habitualmente o espaço de atuação dos homens negros é na micropolítica do cotidiano. Quilombos, revoltas, rebeliões, movimentos sociais e organizações populares no Brasil tem o “DNA do homem negro”. Essa constatação não dispensa a importância de termos no Brasil do século XXI homens negros em cargos políticos de destaque, comprometidos com as reivindicações da população negra.

O que quero apontar é que muitas vezes a “criminalização da virilidade”, no debate de gênero é simplista, e não se sustenta, pois, valores viris são milenares, perpassam todas as sociedades humanas, com nomes e significados plurais podendo ser usados para diferentes propósitos, inclusive para a luta anti-racista. O Brasil está repleto de homens negros viris que emprestaram essa virilidade para essa luta, na política ou não. Zumbi com sua força guerreira, Luiz Gama e sua energia intelectual, Abdias do Nascimento e sua eloquência vigorosa, a inteligência destemida de Guerreiro Ramos, a ginga valente de Madame Satã, Lima Barreto com sua escrita ácida e corajosa, a liderança militar de João Cândido e por aí vai. Homens pretos gerando outros homens pretos. Somos tantos…

“Viva Zapata! Viva Sandino! Viva Zumbi! Antônio Conselheiro! Todos os Panteras Negras, Lampião, sua imagem e semelhança. Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia”. Monólogo ao pé do ouvido. Nação Zumbi

Referências Bibliográficas

FARGE, Arlette. Virilidades populares. In: Georges Vigarello (ed.) História da Virilidade 1: A invenção da virilidade Da Antiguidade às Luzes. pp. 495- 523, 2013.

FRANKENBERG, Ruth. A miragem de uma branquidade não marcada. In: VRON WARE (org.). Branquidade: identidade branca e multiculturalismo. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

VIGARELLO, Georges. Introdução A virilidade, da Antiguidade à Modernidade. In: Georges Vigarello (ed.) História da Virilidade 1: A invenção da virilidade Da Antiguidade às Luzes. pp.11–70, 2013.

VIGOYA, Mara Viveros. As cores da masculinidade: Experiências interseccionais e práticas de poder na Nossa América. Rio de Janeiro, Papéis Selvagens, 2018.