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Denúncia

Violência obstétrica, até quando?

De Douglas Belchior

A vivência e a troca de experiências que a luta social nos proporciona é extremamente enriquecedora.

Há debates e aprofundamentos em determinados temas que estão muito além de livros e de frias salas de aula.

E há textos que doem.

O debate sobre violência obstétrica é um dessas temas. Corriqueiro, presente, naturalizado. E que precisa ser questionado e combatido com muita radicalidade. Bem como denuncia a Professora Vanessa Gravino.

Leiam e sintam.

 

Gravida

 

Por Vanessa Gravino

A construção de uma sociedade mais justa e igualitária, também passa pelo direito de parir e nascer com dignidade, sem que o parto seja uma ameaça à vida das mulheres e das crianças. Hoje, no Brasil, uma a cada quatro mulheres sofre ou sofreu algum tipo de violência durante o parto. Além disso, 90% das mortes de mulheres grávidas poderiam ser evitadas se elas recebessem atendimento adequado. No entanto, quando tocamos nesta questão, esbarramos em pontos relevantes: a mercantilização da saúde e o preconceito racial, destacando que as mulheres que mais sofrem ou morrem por decorrência da gravidez são mulheres negras.

No que se refere à mercantilização da saúde, segundo dados do Ministério da Saúde, mais de 50% dos partos realizados no Brasil atualmente são cesáreas. Se tratarmos apenas das redes particulares este número sobe para, aproximadamente, 83%. A cesárea é uma cirurgia, deve ser utilizada apenas em casos extremos, para salvar vidas, não pode ser regra. No entanto, é muito comum, médicos e médicas orientarem a realizar cesárea colocando-a como “mais segura” que o parto normal. Esta orientação não é acaso. Um parto normal pode demorar horas, já a cesárea é realizada em pouco mais de uma hora. Algumas delas são feitas quando a mulher entra em trabalho de parto, mas os médicos não querem esperar e forçam psicologicamente a mulher para que aceite a cirurgia da cesárea, com argumentos sem qualquer embasamento científico. A mulher, refém daquela situação, aceita tal cirurgia. Outras ainda são agendadas antes mesmo da mulher estar em trabalho de parto, o que é ainda pior, pois o bebê nem “amadureceu” dentro da mulher para ser arrancado do útero. Esses profissionais (se é que podemos chamá-los assim) ganham muito dinheiro em pouco tempo de trabalho. Não importa aqui se a vida das mulheres e dos bebês está colocada em risco, pois enxergam a saúde como mercadoria. Infelizmente esse quadro de violência obstétrica é rotina nos hospitais privados.

A pressão pela realização da cesárea sem necessidade, a violência psicológica que humilha mulheres, principalmente mulheres negras, numa situação de vulnerabilidade é o que chamamos de violência obstétrica. Nos hospitais públicos também há muita violência obstétrica apesar do índice de cesárea ser menor. Acontece que no sistema público há inúmeras intervenções desnecessárias ao longo do trabalho de parto. Dentre elas estão a episiotomia (corte entre a vagina e o ânus para facilitar a saída do bebê), falta de analgesia (caso a mulher solicite), pressão sobre a barriga para empurrar o bebê (manobra de Kristeller), lavagem intestinal, retirada de pelos pubianos, exames de toque frequentes para verificar dilatação, deixar a mulher deitada durante horas em posições desconfortáveis esperando o parto, o “pedido” para se calar quando as mulheres gritam e até ameaças à mulher e à criança.

As mulheres negras sofrem consequências ainda maiores. O preconceito racial no Brasil faz com que a violência obstétrica, em relação a essas mulheres, carregue as marcas do Brasil escravocrata. Elas escutam frases e comentários racistas e humilhantes na hora do nascimento de seus filhos e filhas. É comum os hospitais do SUS deixarem mulheres negras esperando mais tempo, por acreditarem que “as negras são mais resistentes à dor”, ou ainda, porque o momento do parto é o momento de pagarem pelo “ato” cometido, ou seja, “na hora de transar foi bom, agora aguenta”.

A luta feminista, negra e de direitos humanos deve passar – também – pela busca de um parto humanizado para as mulheres negras e trabalhadoras. Um parto que respeite sua fisiologia e sua autonomia. Onde as mulheres possam de fato ter informações verdadeiras sobre as formas de nascer, para que suas escolhas estejam pautadas não pela mercantilização da saúde, mas por evidências científicas.

Por mais casas de parto!

Por mais equipes humanizadas em maternidades!

Por apoio aos profissionais humanizados que estão no mercado de trabalho!

Infelizmente esta ainda não é uma realidade em nosso país. Mas, é um tema que devemos abordar com extrema urgência no interior dos debates de violência contra as mulheres e de extermínio da população negra.

 

 

6 respostas em “Violência obstétrica, até quando?”

Me solidarizo e acrescento:
Sou branca, engenheira química de olhos azuis, com convênio médico.
Em 1993 quando da minha primeira gravidez compareci ao médico pelo qual fui acompanhada durante todo o pré natal.
Em minha última consulta ele me examinou e falou que estava quase para nascer. Saindo do consultório fui ao banheiro e havia sangue na minha calcinha. Apavorada( e eu já tinha 32 anos e já era graduada em nível superior), voltei ao consultório e ele falou que eram melhor internar.
Durante todo o processo falei que queria parto normal, inclusive assumi pagar ao médico por fora do convênio 300 doláres para que ele fizesse meu parto.Ele disse que se eu não pagasse e a bolsa estourasse final de semana ele não faria.
Consequentemente na insegurança de ser abandonada por quem me acompanhou 9 meses , assumi pagar.
Internada às 10 h da manhã o médico me colocou no soro para acelerar a dilatação , dilatação esta que não tive, no fim da tarde ele falou que era melhor eu ir para o centro ciúrgico e fazer cesária. Minha filha nasceu às 16:47h.

No dia seguinte no quarto pela manhã o tal médico apareceu e me cobrou os 300 dólares , eu questionei mas não foi final de semana e ele disse que ficou à minha disposição . Conclusão ainda paguei para ser violentada.
Paguei convênio , paguei por fora, ou seja será mesmo que o problema é a saúde pública?
Será que os médicos não são coniventes com esta triste realidade?
Será que é mesmo uma questão de cor/ raça?
Fica aí mais um depoimento.

mesmo entendendo a proposta da coluna ser direcionada para a questão do afroativismo na rede acredito fortemente que colocar a questão da cesareana e da violência obstétrica pelo viés racial é descabidamente e completamente desnecessário.

essa é uma luta DAS MULHERES e de toda sociedade – independente da cor da pele, classe social ou ideologia política, contra uma classe médica atrasada, desinformada e muito pouco interessada em cumprir seus votos médicos de cuidar do bem estar do paciente.

essa é uma luta contra um sistema médico podre (público ou privado, não importa) que não só no caso das cesareanas, mas também nas cirurgias de redução peso, SEQUESTRA PSICOLOGICAMENTE o paciente em troca do que lhe é mais fácil e rentável, esquecendo que qualquer intervenção médica desse porte interfere não somente na vida futura do paciente, como de toda sua família.

essa é uma luta contra os mestres das faculdades de medicina que não se cansam de cuspir regras baseadas em medicina do milênio passado, onde se desconhecia grande parte do que já se sabe hoje sobre a fisiologia do parto e do pos-parto.

essa é uma luta contra a industria de alimentos que empurra goela abaixo mais e mais produtos que “substituem” porcamente a amamentação, criando assim gerações e gerações de bebês eternamente doentes.

essa é uma luta contra uma sociedade que não se cansa de escolher o “mais fácil” em detrimento do mais certo.

E se começa no parto, depois vai para amamentação, cuidados com o bebê, educação e desce a ladeira.

ESSAS LUTAS não cor
ESSAS LUTAS não tem credo
ESSAS LUTAS não tem classe
essas são lutas de todos nós, brasileiros

essas são lutas de todos nós, humanos

legal trazer o tema, mas a questão AFRO é desnecessária

Moro em Nova York e estou gravida de tres meses. Assisti recentmente o documentario: “The Business of Being Born”. Estou super decidida a ter um parto normal e sem inducao de dilatacao. Comentei isso com uma amiga, que já teve três cesárias, e ela respondeu: “mas você nāo consegue dar a luz sem tomar nada!”. Baseados na desinformaçāo, os convenios de saude, medicos, industria farmaceutica, querem que as mulheres acreditem que a forma mais segura de dar a luz, é a mais lucrativa para eles! Vou ter meu bebê em um hospital, e fazer cesária será uma opcao extrema caso o bebe esteja na posicao errada ou muito acima do peso. Senao, quero sim sentir o que eh dar a luz naturalmente! E quero servir de exemplo pra todas as mulheres que acham que nao sao capazes de enfrentar a dor do parto! Ou pelo menos passarem a entender que voce tem a escolha, e que a forma mais saudavel e segura para a mae e para o bebe, é deixar que a a vida siga o seu percurso normal. Desafio aqui os hospitais, associacoes de medicos ou empresas farmaceuticas a provarem o contrario!

Infelizmente esse é um tipo de violência tão naturalizado que têm mulheres que sofreram e não se deram conta. Ou se deram conta, mas não se indignaram, acharam que isso faz parte do parto. Ou se indignaram e sofrem até hoje com isso.
Sem contar as mulheres e bebês que morrem vítimas da violência obstétrica.
Pela humanização do parto já!

Estou grávida de 36 semanas e com 2 dedos se dilatação, tenho diabetes e faço meu pré natal pelo convênio e pelo SUS,a médica do convênio diz que o ideal seria parto normal já que i corte da cesariana demoraria mto para cicatrizar e poderia me trazer problemas, já a medica do SUS diz que o ideal seria cesariana pq e gravidez de risco. Tirando que já ouvi dela ” se sabe q tem diabetes pq engravidou ” e me orientou pedir para minha medica do convênio fazer laqueadura pra n ter mais filhos, e meu primeiro filho já perdi 2 bebês e sou obrigada a ouvir da medica que fui “burra” por engravidar? Tentei fazer uma denúncia da referida medica por assédio moral e o que eu ouvi ” isso não vai dar em nada e melhor vc ter seu filho e ser feliz ” esse e o nosso Brasil esses são os nossos médicos.

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