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Vítimas do racismo, negros relembram momentos marcantes em suas vidas

Por Marina Souza

Todo 20 de novembro é a mesma coisa: “somos todos humanos”, gritam eles. Inspiro. Expiro. Mas a compreensão é ainda difícil. Do mesmo lado destes há também aqueles que reproduzem discursos com palavras de ordem mascarados de apoio, mas recheados de demagogia. De repente o Brasil não é um país racista. Por isso, a pergunta lhe faço: se não você, quem?

Quem nos humilhou na infância? Quem apontou o dedo do julgamento? Quem nos nega oportunidades? Quem nos menospreza diariamente? Quem reclama da vaga reservada pra cotista? Quem coloca um sorriso no rosto para me dizer que eu sou uma “negra linda”? Quem compartilha os memes do “negão do whatsapp”? Quem dá risada do Danilo Gentili? Quem gosta de nos hipersexualizar? Quem coloca a mão no nosso cabelo sem o menor consentimento? Quem pergunta se usamos shampoo? Quem considera “mimimi”? Quem desvia de nós nas ruas? Quem diz ter vários amigos negros para se justificar? Quem é negligente com o nosso sangue escorrendo no asfalto?

Caro leitor branco, sinto muito em lhe dizer que você não é tão exclusivo quanto gostaria de ser, acredite, você não é exceção. Isentar-se desta culpa nada mais é do que uma maneira de usufruir de privilégios que lhe são concedidos constantemente na sociedade estruturalmente racista em que vivemos.

O último país do mundo ocidental a abolir a escravidão ainda carrega graves cicatrizes e consequências deste período. Analisando alguns dados estatísticos é possível compreender melhor a dimensão do problema. O  Atlas da Violência 2018, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, mostra que em 2016 a taxa de homicídios de negros no Brasil foi 2,5 vezes maior do que a de não negros. É possível também dizer que um jovem negro tem 2,71 mais chances de ser assassinado do que um branco.

Durante o período de 2006 a 2016 o país teve uma queda de 8% no número de homicídios de mulheres brancas, enquanto o das negras aumentou em 15,4%. Apesar de sermos 54% da população brasileira, a última pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, realizada em 2015, mostra que apenas 30% das pessoas com nível superior completo são pretas ou pardas, número que apesar de baixo, apresentou melhoras devido as políticas afirmativas de cotas raciais.

Confira abaixo alguns relatos sobre o racismo sofrido pelo povo preto brasileiro

Vinicius Lourenço, 25 anos, músico:

Lembro de quando tinha 13 anos e estava na escola, voltando do recreio, quando vi várias folhas com uma foto minha. Estavam coladas pelos corredores das salas com a legenda “chuta que é macumba.”

F. M., 19 anos, estudante de Rádio, Tv e Internet:

Eu era muito amiga dessa menina, ela é da minha faculdade, saíamos sempre. Tínhamos dado um “rolê” e depois fui dormir na casa dela. Quando acordei no outro dia ouvi ela conversando com a namorada sobre um dinheiro que havia sumido. Ela achava que eu havia roubado.

Genival Souza, 54 anos, professor universitário:

Teve uma vez que eu estava vestido todo de preto, saí da faculdade e entrei no estacionamento. Assim que eu cheguei perto do meu carro um outro professor me olhou e disse que eu havia demorado muito e ele estava me esperando para manobrar seu carro. Olhei para ele e disse que eu também dava aula ali.

Outra história parecida foi a vez em que eu fui fazer uma palestra e ao chegar no estacionamento do local o guarda disse que a entrada para o público era do outro lado. Eu disse que era palestrante, mas ele ficou duvidando e dizendo “você é mesmo palestrante?”

Flávia Campos, 18 anos, estudante de Relações Públicas:

Aos 6 ou 7 anos eu tinha algumas amigas que me diminuíam muito, elas falavam que eu era feia e meu cabelo era esquisito, por sorte tinham outras crianças negras para brincar comigo. Teve uma vez que eu estava com elas num parquinho e quando fomos brincar de Rebeldes uma delas me disse “você não pode participar porque é preta.” Cheguei em casa e chorei, isso me marcou muito.

Com uns 13 anos também rolou algo marcante. Teve um boato na minha escola de que um menino tinha ficado com uma garota negra e ficavam zoando ele por isso. Uma vez eu estava no shopping e mandaram uma foto minha para ele, dizendo “olha aqui mais uma negra pra você pegar.” Eu me senti muito mal, pensei que deveria ser um lixo para ninguém querer ficar comigo.

Artur Santos, 21 anos, estudante de Rádio, Tv e Internet:

Quando eu era criança e meus tios e primos iam comigo a alguma piscina ou rio eles ficavam falando molha o cabelo, Artur! Parece que nem entra água nele de tão ruim.” E assim, eu fui crescendo sofrendo isso dentro da família. Por conta deles, eu sempre evito ir até a cidade da minha avó.

Teve também uma vez que eu estava num shopping com meus pais voltando do cursinho. Entramos numa loja e eu fui ver algumas coisas, me distanciei deles alguns metros e foi aí que percebi que estava sendo seguido pelo segurança da loja. Eu fiquei andando por uns 5 minutos e durante todo esse tempo ele me seguiu pelos corredores. Fiquei muito puto com isso porque percebi que ele só tava me seguindo pelo fato de eu ser um preto que estava mal vestido” pra um shopping, com uma blusa de moletom cinza, calça jeans e minha bolsa cheia de material do cursinho. Reencontrei meus pais e adivinha quem saiu da minha sombra? O segurança. Coincidência, não?!

Ah, outro momento marcante foi quando jogava bola com um amigo no condomínio em que moramos e um cara de fora gritou “levanta, macaco imundo!”

A. M., 37 anos, pedagoga: 

Pode parecer impressão, mas o que percebo é que para os pais [dos alunos] eu tenho que me impor desde o início, mostrar serviço o mais rápido possível e provar minha competência. Coisas que minhas colegas brancas não precisam. Sou negra, 1,72 de altura, cabelo black, tenho um jeito bem sério – ou como dizem de uma negra metida” -, hoje tenho um cargo no Estado e estou entrando na Prefeitura de São Paulo. Como auxiliar de creche acredito que passei pelo mais claro e também o mais velado dos preconceitos. Logo quando entrei havia uma mãe, loirinha de olhos verdes, que nunca entregava o filho para mim.  Pensei inicialmente que era por eu ser nova no local, mas um mês se passou e nada, ás vezes ela ficava sentada durante 30 minutos esperando a outra auxiliar chegar. Comecei a cativar a criança na sala, brincava com ela, fazia questão de alimentar e me dediquei bastante. Um dia ela pediu meu colo na entrada,  mas a mãe não deixou e disse ao filho tem certeza que você quer ir com esta negra?
Aí eu entendi tudo.

C. G., 39 anos, designer gráfico:

Fui selecionado para uma entrevista de emprego, cheguei adiantado ao local e entreguei meu currículo para a recepção. Apareceu uma senhora toda “chique”, cumprimentou a gente, falou com a recepcionista e voltou para a sua sala. Depois de algum tempo fui chamado para entrar ali e, quando entrei, vi que a mulher  segurava meu currículo nas mãos e não acreditava que eu era o entrevistado. Ela ficava olhando para mim e perguntando se eu realmente era aquela pessoa.

Laís Ramires, 21 anos, estudante de Relações Públicas:

Eu ainda tinha a idealização de que as pessoas dali [universidade] fossem mais conscientes sobre diversas questões envolvendo identidade. A minha professora de Comunicação e Expressão falou na frente da sala inteira, durante o primeiro dia de aula do terceiro semestre, que quando as pessoas me olhavam tinham uma impressão negativa.

Eliane Helfstein, 37 anos, assistente administrativa:

Isso foi mais ou menos aos 13 anos de idade, eu havia juntado dinheiro trabalhando e fui até uma loja de roupa com uma das minhas quatro irmãs para comprar um cardigã. A vendedora, que se reportava somente à minha irmã, que tem pele clara, perguntou o que ela desejava, então eu disse que era eu quem queria comprar a blusa da vitrine. Foi aí que a moça falou que eu não gostaria dessa roupa porque era muito cara e que havia outra na promoção.

Outro episódio que me marcou foi no final do meu curso. A coordenadora da instituição me indicou a uma vaga em uma clínica de uma amiga dela, dando a contratação como certa, uma vez que ela indicou isso seria o diferencial. Entusiasmada com a primeira oportunidade na área que tinha escolhido para seguir carreira, fui levar o currículo na clínica, que ficava em uma região nobre de São Paulo. Ao chegar na recepção todos me olhavam como um ser de outro mundo, me reportei à recepcionista dizendo que havia sido indicada e estava lá para entregar meu currículo. Após anunciada esperei por volta de 30 minutos até que a responsável viesse até mim, então, após me olhar dos pés a cabeça, quase que com desprezo, ela disse Ah, Eliane é você…” Pegou meu currículo, não me dirigiu mais nenhuma palavra e virou as costas, sem nenhum retorno. Foi a pior sensação que tive na minha vida, cheguei em casa e contei às lágrimas a situação ao meu marido.

Dayana Natale, 19 anos, estudante de Jornalismo:

Eu era bem pequena, devia ter uns 7 anos e estudava num colégio particular em que a maioria dos alunos eram brancos. Algumas meninas faziam muito bullying comigo, me chamavam de velha preta da macumba” e falavam que meu cabelo era ruim. Eu tinha um black e me zoavam muito, diziam que ele parecia um microfone e não molhava 

A. M., 35 anos, auxiliar administrativa:

Minha irmã é negra e tem 43 anos. Uma vez ela foi passear com seu filho, Théo, de 2 anos, que pediu para ir ao banheiro no decorrer do passeio. Ela o levou para lá e uma mulher perguntou o porquê dela não usar uniforme. Minha irmã, sem entender nada, pediu uma explicação. Então a mulher falou você é a babá dessa criança e não usa uniforme.” Uma observação importante a ser feita é que o Théo é branco. Minha irmã falou que ele era seu filho e a moça ainda perguntou se era adotado.

Sophia de Mattos, 22 anos, estudante de Jornalismo:

Eu nunca conheci uma pessoa preta que não tenha passado por racismo, é sempre uma luta constante. Quando eu estava na 1ªsérie só havia eu e mais um garoto de negros na sala. No carnaval, a minha mãe comprou uma fantasia de fada para eu usar na comemoração que a escola faria. Todos assistimos à aula fantasiados e no intervalo um grupo de meninas brancas me rodeou perguntando o porquê eu estava vestida de fada já que não existem fadas negras. Elas falaram que fadas não tinham meu tipo de cabelo, nem usavam tênis.

Teve também uma vez em que eu estava comendo, sujei a minha blusa de macarrão e uma menina falou que não havia problema porque minha pele já era suja.

Barbara Martins, 21 anos, estudante de Direito: 

Nesse ano alguns meninos da minha sala fizeram uma aposta para ver qual menina iria desistir primeiro do curso. Três nomes da minha sala foram citados, um deles era o meu. Sabemos que a aposta foi misógina, mas no meu caso também houve racismo, porque as minhas notas são altas e a frequência é boa, não tinha nada que indicasse que eu desistiria do curso em algum momento.

Mateus Ribeiro, 18 anos, estudante de Cinema:

Quando eu era menor estudava numa escola particular com poucos alunos negros e tinha uma realidade muito diferente da dos meus colegas que ganhavam mesada e presente toda semana. Ficavam me zoando muito, não me deixavam jogar ping pong, falavam que o meu cabelo era “bombril”, zoavam meu pai por não ter um carrão e diziam que ele havia cagado na mão e passado em mim quando nasci.

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